sábado, 7 de fevereiro de 2026

O Peso do Mundo


Simoningate




Poderia libertar-me do peso do mundo nos teus braços; 
poderia tirá-lo de cima de mim, atirá-lo para o outro lado 
da casa, para algum canto escondido; e poderia 
ficar contigo, na leveza do teu corpo, ouvindo 
o cair do tempo nalgum relógio invisível. 

O mundo, no entanto, insiste comigo. Está ali, 
no fundo da casa, com o seu peso. Espera que alguém 
pegue nele, e volte a descer a escada, curvado, como 
se tudo o que tivéssemos de fazer fosse carregá-lo 
para baixo e para cima, nestas escadas sem elevador. 

E eu, contigo, ao abraçar-te, espero que o mundo 
não se mexa no seu canto, no fundo da casa. Abraço-te 
como se o teu corpo me libertasse desse peso, como 
se ele nao estivesse à minha espera, para que o desça 
e suba por estas escadas de um prédio sem elevador. 

Mas o amor também tem o peso do mundo. E as 
palavras com que nos despedimos, antes que eu pegue nele 
e te deixe entregue à tua leveza, trazem o eco das coisas 
que atirei para o fundo da casa, onde não quero que vás, 
para que não tenhas de carregar, também tu, o peso do mundo.


Nuno Júdice




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