quinta-feira, 16 de março de 2017

QUASE





Quase que te amei
Quem me dera ter-te amado
Envelhecemos tão depressa mais rápido do que a luz que nos cega
Saltamos vidas por sobre os inexoráveis ponteiros que rodam
estonteantes aterrando após anos longe de nós próprios

Quase que nos amamos
Mas corremos tanto que atropelamos sem sentir os sentidos que
apelavam ao mar à terra e aos pequenos momentos de conforto

Puxo a manta comida por gerações de traças e dou-te
meio aconchego
Não posso mais
Dás-me meio sorriso como quem acena pela milésima vez
ao pássaro que lhe calhou em sorte na ilha deserta da reforma

Eu meio-amo-te
Tanto quanto estas pernas rombas vergadas por ocasos sem fim
permitem
Já fui solidamente edificado mas passaste-me ao lado como
as estações que o esquecimento levou

Quem me dera ter-te amado quando podia
Mas vi-me repentinamente caído num mundo feito apenas
de descrença e olvido e sinto-me cada vez mais encalhado
Náufrago de um tempo irrecuperável

Puxo um pouco mais a manta
Mudamos os canais mais depressa do que os nossos olhos
podem atingir
Assim passamos os últimos fôlegos a tentar recordar
o quase amor que nos escapou
mas torra-se-me a memória num deserto de palavras gastas

Quase que te amei mas já me esqueci como se faz
e não tenho mais manta para puxar


JOSÉ BERNARDES
in, PALAVRAS IMÓVEIS



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