terça-feira, 24 de maio de 2016

Fluir não é "Deixar andar"




Para as gerações dos 40s para cima, fluir é uma palavra relativamente recente.
Falo por mim e sei que por muitos outros, a maior parte de nós foi criada com outras palavras bem diferentes tais como obedecer, seguir regras, calar, dever, obrigação, a opinião dos outros e muitas outras joias do nosso vocabulário...

Crescemos assim, divididos entre as regras dos pais, as regras sociais, as regras legais, as regras da escola e depois do trabalho e as regras religiosas, que seguíamos contra vontade, quer elas fizessem sentido ou não.

Porque nos eram impostas sem, na maior parte dos casos, qualquer validação interna da nossa parte, originou na maior parte de nós uma desestruturação interna tanto emocional como de crenças e valores, onde nos tornámos incapazes de responder ao mundo livre e saudavelmente. 


Ou seja, 
vivemos ainda hoje com o foco fora em busca, 
tal como no passado, 
da validação e aplauso exterior, 
seguindo regras que nem sempre pomos em causa.


Vivermos a favor do nosso equilíbrio interno, independentemente se o exterior valida ou não implicava aprender a fluir e fluir era uma palavra que não conhecíamos. Toda a frustração acumulada de vivermos a favor das expectativas dos outros mais do que às nossas vive ainda hoje escondida atrás dos desabafos revoltados e ressentidos; “Eu dei tudo ao outro, eu ajudei o outro, eu apoiei o outro, eu estive sempre do lado do outro e o outro não me deu a mim...”.

Obedientes que éramos a regras e expectativas exteriores, não era raro cairmos em situações de impotência e sacrifício, onde acreditávamos que nada podíamos fazer. Deixávamos andar escondendo uma profunda esperança de que um dia tais sacrifícios seriam recompensados.

O conceito de Fluir 
implica uma nova postura 
onde tanto nos é proposta a acção 
como a rendição.

Mas há quem ainda tenha o conceito confuso, como me disse há uns dias uma senhora; “eu sei que tenho que mudar, mas estou a deixar fluir”.
Escusado será dizer que o estado da senhora é profundamente infeliz, devido principalmente à confusão quanto ao que o próprio termo significa. Ou seja, no lugar dela, fluir seria permitir-se à mudança que até já sabe que tem que fazer confiando que todos os passos do processo trariam as respectivas aprendizagens.

Fluir não é resignar, 
não é aceitar passivamente o exterior 
e não tem nada a ver com actos de sacrifício.


Fluir é a capacidade de distinguirmos quando é para agir e quando é para parar. 
É a rendição a uma ordem maior e a coragem de irmos ao encontro da nossa história pessoal karmica. É a orientação interna que nos permite reconhecer que tantos as bênçãos como as perdas fazem parte do nosso caminho. É a resiliência de ser capaz de mudar de rumo, cabeça, estado emocional, crenças e valores de acordo com o que as propostas exteriores nos vão trazendo. 
É a religação a uma energia superior, Deus ou a Alma, como quiserem chamar, que nos guia no trajecto único e pessoal que preparámos para a vida presente.

Mas da mesma maneira que olhamos para trás e vemos um passado deprimente e escuro, onde a nossa essência e liberdade de Ser não tinha lugar, somos também uma geração abençoada pois está a ser-nos oferecida a oportunidade de renascer.

Ao contrário de gerações ainda mais antigas onde muitos nasceram e morreram sem saber porquê, nós temos hoje ferramentas para resgatar a nossa essência e mudar radicalmente o nosso rumo, a nossa energia e a nossa história.
Estamos a resgatar a liberdade de questionar e de ir em busca de algo que agora responda ao nosso interior e essa é então a aprendizagem da capacidade de fluir.
Serão as nossas escolhas presentes, agora com mais qualidade, que irão alimentar um espírito que viveu ignorado durante séculos. Em troca ele irá devolver-nos o poder interior perdido. Voltará a guiar-nos como é o seu propósito, alertar-nos para mudanças de rumo, perigos e oportunidade que só a nós fazem sentido.

Aos poucos o poder que demos aos outros e ao mundo é restaurado internamente e poucas coisas na vida são mais preenchedoras e maravilhosas do que a religação interna com a Fonte de Amor.

Felizmente muitos são os que já se permitiram abraçar uma nova maneira de ser e fluir começa a ser um conceito cada vez mais normal.
Não é fácil aos 40 ou 50 ou 60 sermos convidados a deitar fora todas as nossas crenças, valores e até uma velha identidade. Mas o que seria do pintainho se nunca abrisse o ovo ou da lagarta se se recusasse a aceitar as suas novas asas?

Os mais resistentes a abraçar esta nova energia ou mesmo os auto-intitulados cépticos, são ainda manifestações públicas do velho medo que levará o seu tempo a ser transformado. Sobrevivência, luta e resistência são as suas palavras de ordem e por isso será apenas pelo cansaço que um dia ele se irá render. Não precisamos empurrar ninguém pois a própria vida o fará subtilmente. As vivências internas do amor, da luz e da abundância ou pelo contrário, do medo, da perda e do vazio servem precisamente para nos guiar e validar onde e como estamos a evoluir.

A proposta agora é seguirmos a nossa luz interna, é ouvirmos as nossas emoções, é funcionarmos a favor do nosso equilíbrio pessoal interior sem necessidade de validação do outro. Sem este trabalho interno, é quase impossível a capacidade de fluir positivamente pois é precisamente da ligação ao nosso GPS interno que podemos discernir para onde iremos fluir.

Claro que para esta geração que sempre funcionou em prol do outro durante mais de meia vida, este é um dos maiores desafios.
Volto a repetir que fluir não é o mesmo que “deixar andar”. 
Não podemos confundir o conceito de fluidez com passividade ou permissividade.
Trata-se sim da capacidade de andar pela vida conscientemente, escolher caminhos, responder a eventos a partir de uma sabedoria interior que reconhece a história do nosso espírito. Não tem nada a ver com a voz do ego, como muitos ainda confundem, que “quer” seja o que for... Saber distinguir uma da outra é a diferença entre uma vida iluminada e uma vida vazia.

Termino com o meu tributo a estas mesmas gerações, que nos propusemos um dia lá em cima encarnar com esta imensa proposta de mudança radical do rumo, tanto da nossa historia pessoal como da história da humanidade, que viemos abrir as portas da Nova Era, a quem foi pedido que corajosamente entregássemos os remos do velho controle, confiando que o barco seguiria o seu rumo guiado por uma força maior, que temos como desafio resgatar a Luz em nós e também de despertá-la nos nossos filhos. Que possamos de uma vez trocar os velhos conceitos de controle pela capacidade de fluir onde fluir será apenas seguir o caminho que o nosso espírito se propôs a fazer, confiando que será apenas esse que nos irá levar à evolução e abundância.

E se alguma vez te encontrares num beco escuro sem saída, onde o medo começa a tomar conta da tua energia, pára, reanalisa a escolha que te levou ali, percebe o que podes aprender e se assim sentires, muda de rumo.
Isso é fluir...


Vera Luz

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