quinta-feira, 12 de maio de 2022

Saber Errar


Anthony Tran




Um veio para aqui, o outro foi 
para além, e aí estão, pendurados, a estrebuchar 
como folhas nos ramos. Coisa estranha,
ninguém é já capaz de ser alegre.
Todos desesperam, e abertamente o dizem,
como se fosse uma evidência
não estar já seguro de si mesmo.
Os olhos olham e os ouvidos escutam
como antes, mas o dom, a esperança
a que se chama génio, já a perderam,
há uma espécie de azedume sempre à espreita,
a leveza que há em nós já não se anima,
e a pesadez ficou mais pesada. Tempos houve
em que eram diferentes. Hoje 
já ninguém cai em desconsolo
como os felizes de outrora, que 
transformavam a desgraça em contentamento;
estrebucham, estremecem como folhas,
prisioneiros da sua mediocridade,
imóveis, pendurados dos ramos.
Já ninguém reconhece os seus erros.
O seu único erro é não saberem errar.


Robert Walser
in, Estou Só e Fora do Mundo: 50 Poemas






A estrutura da magia









Sempre que vamos a um espectáculo de magia deixamo-nos ser surpreendidos pelo resultado do mágico. É assim também na vida. 

Muitas vezes somos surpreendidos e ficamos fascinados com os resultados de outros. 
Parece magia!! Tão fácil para ele/ela fazer, pensar, falar assim. 
Esquecemo-nos que toda a magia tem uma estrutura. 
Por detrás de um espectáculo de magia, há toda a estrutura criada pelo mágico que leva ao resultado final.

Focamo-nos no resultado e não na estrutura.

Da próxima vez que te encantares com o resultado de alguém, pensa na estrutura: 
  1. O que é que a pessoa pensa, sente, faz para chegar ao resultado.? 
  2. O que faz a diferença? 
  3. O que acredita, valoriza que a faz pensar, sentir e agir de forma diferente? 

E isto também é válido para a próxima vez que desdenhares do resultado de alguém.


Vera Braz Mendes



segunda-feira, 9 de maio de 2022

Qualquer Coisa de Paz










 Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruina
a luz da fronte onde a atenção domina.


Fernando Echevarría




A person can create their own reality...partially correct


Jossuha Théophile

 



There is a concept that a person can create their your own reality. 
This concept is only partially correct because it is generally discussed in a one-way manner i.e., a person sending a message to the field with a request/intention/prayer desiring an outcome. 

This is only ½ of the loop. 
The wave you’re sending is the feed-forward part of the loop. 
You need to realize that the wave coming back is the feed-back which is the rest of the universe creating its reality and responding to you. 
The universe (Planck Field or ”the Divine”) interacts with the rest of humanity and your creation and the universe gives you a result that is a combination of everyone’s feed-forward waves. 

If a person could create a reality exactly the way they wanted it, a few things would happen: 
1) you would be the only one in it because everybody else would be creating their own. It would be very lonely.  
2) you’d also be bored within seconds since you had everything you wanted. 

What happens is that you put your intention out into the field and you stay open to what comes back, realizing it’s going to get modified for the highest evolution of the whole. 
This unexpected feed-back gives you empathy for yourself and others. 

You might not get exactly what you expected but now you’re learning from the experience. 
The totality of everyone’s learning is how the universe learns about itself. 


Nassim Haramein





domingo, 8 de maio de 2022

Ellen DeGeneres - Mark Twain Award - Jason Mraz and Mona Tavakoli perfor...

Do Fundo do Silêncio


Gregory Colbert 
in, Ashes and Snow






quando o tempo orbitava em torno do útero
 e as mãos fundavam um inocente contínuo com o presente
 desconhecia a essência inabitável do pretérito
 e as minudências de um tempo ausente e indefinido;
 
 mais tarde revelaram-me a oponibilidade do polegar e
 o mecanismo da flexão dos dedos
 e descobri um espaço ausente por dentro de um punho
 onde cuidei ser possível encerrar o futuro:
 
 desconhecia o sublime e transcendental movimento dos astros
 a ininterrupção primacial da luz
 e a circulação das folhas
 sob o vento que sopra onde quer.
 
 
 
Rui Amaral Mendes
in, “Do Fundo do Silêncio”




.......................quanto se sofre quando não se é amado








Nas relações amorosas o único sentimento que não funciona é o da piedade.
Quando é o caso de que se devesse manifestar, o que surge não é a piedade mas o asco ou a irritação.
Eis porque em relação alguma se é tão cruel.
Todos os sentimentos têm o seu contraponto. 
Excluída a piedade, a crueldade não o tem. 

Por experiência se pode saber quanto se sofre quando não se é amado. 
Mas isso de nada vale quando se não ama quem nos ama: é-se de pedra e implacável.

Decerto, tudo se pode pedir e obter. 
Excepto que nos amem, porque nenhum sentir depende da nossa vontade. 

Mas só no amor se é intolerante e cruel. 
Porque mostrar amor a quem nos não ama rebaixa-nos a um nível de degradação. 
E a degradação só nos dá lástima e repulsa.

A única possibilidade de se ser amado por quem nos não ama é parecer que se não ama. Então não se desce e assim o outro não sobe. 
E então, porque não sobe, ele tem menos apreço por si, ou seja, mais apreço pelo amante.

O jogo do amor é um jogo de forças. 
Quanto mais se ama mais fraco se é. 
E em todas as situações a compaixão tem um limite.

Abaixo de um certo grau a compaixão acaba e a repugnância começa.
Assim, quanto mais se ama mais se baixa na escala para quem ao amor não corresponde.



Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente 3



sexta-feira, 6 de maio de 2022

The Torus





The traditional standard model description of a black hole says that they suck in everything around them, (even light) and that nothing except a small amount of radiation (Hawking radiation) is able to escape, leading them to eventually "evaporate", which causes a major issue called the "information paradox".

If we know that energy has to be conserved (that is, it can't ever be destroyed, that it only change state) then where does all the energy (mass) that falls into a black hole go?

Nassim Haramein's holofractographic model for the universe revises the model of black holes by modifying the topology of space-time dynamics and structure. Rather than a black hole being described as being like a funnel curving down to a point (singularity), Nassim describes black holes as having the shape and dynamics of a Torus, which allows information to both implode and expand from the central singularity. Instead of information getting sucked in and disappearing forever to who knows where, black holes are described as both radiating objects as well as imploding “holes”. This change was made by Nassim by adding in the dynamics of spin (torque and Coriolis forces) into Albert Einstein’s relativistic field equations.

In this model, the universal topology of space-time (black holes on all scales) is described as a rotating dual torus which is expanding and contracting on itself continuously. As space-time curves towards the centering singularity, it also curls like water going down the drain. Rather than describing gravity using using the analogy of a ball on a (flat) trampoline, Nassim's new model describes gravity for what it is, a curling dynamic that happens in a "3D" space-time manifold, not on a "flat" surface.

This curling of the space-time manifold at all scales is the mechanical source of spin at all scales from atoms to planets to stars to galaxies etc. Matter on all scales is spinning because the space that defines the matter is spinning itself. As space-time curls towards singularity it approaches the speed of light, generating enormous centrifugal forces, which in turn causes expansion. The expansion of space-time is eventually overpowered by the curvature of space-time and contracts back towards the singularity again, keeping the process in perpetual motion.

It is the continuous process of space-time implosion and expansion that produces the forces of gravity and electromagnetism. The gravitational field is generated as space-time curls towards the singularity in the center of the system and electromagnetic spectrum is produced when the centrifugal forces of spin at the event horizon (which are close to the speed of light near the singularity), cause it to expand and radiate.

Prior to Nassim Haramein's holofractographic model, the source of all spin in the universe was unexplained other than to say that all spin started with the Big Bang and that everything in the universe has been spinning continuously in space-time since then due to the initial momentum gained in the Big Bang (ready for this?) "in a frictionless environment" (!).

With Nassim Haramein's addition of torque and spin into Einstein’s field equations, he generates a new, much more coherent model that unifies the forces of spin, electromagnetism and gravity using the most foundational topology of space-time on all scales: the torus.


in, Resonance Sciense Foundation





segunda-feira, 2 de maio de 2022

A indisponibilidade emocional limitada dos pais

 

Jana Sterbak




Ao direcionarmos nossas acusações aos nossos pais, uma parte de nós, inconsciente, ouve isso como uma auto-acusação. Agimos como uma doença auto-imune, sobrecarregando o sistema. Em consequência, nos tornamos menos aptos para a vida e enfrentamos mais dificuldades.
Esse movimento, de brigar com a nossa raiz, traz consequências para nossa vida. 

De certa forma, isso é claro: 
brigamos com algo que faz parte de nós, emocionalmente e geneticamente.

Por causa de envolvimentos com membros de sua família de origem, com parceiros anteriores ou devido a vivências traumáticas pessoais, os pais muitas vezes não estão livres para dedicar-se aos filhos. Estes percebem que algo não está em ordem em sua relação com os pais.

Então ficam inseguros, têm a sensação de que não podem confiar e via de regra, buscam inicialmente em si mesmos a causa da perturbação do seu relacionamento.

Como filhos, o melhor lugar é o da gratidão pela oportunidade da vida que veio através dos nossos pais. Ao se permitirem serem pais, eles permitem a nossa existência.

E assim temos a chance de experimentar este mundo, ainda que com suas dores e contradições, é um lugar onde também podemos experimentar os prazeres, as conquistas e o crescimento.

Não temos escolha no que toca a nossos pais e à história da família a que somos vinculados, e também estamos subordinados às forças ordenadoras da consciência coletiva desse sistema. 
Contudo, por meio da atitude que adotamos diante das pessoas que nos pertencem, em face de sua vida e de seu destino, temos uma influência sobre como permanecemos presos nesses laços ou então, vinculados a eles de modo positivo, livres, dentro de nossas possibilidades e, num grau maior, autodeterminados. 

Seguramente cada indivíduo recebeu algo de seus pais e também sente que algo lhe falta da parte deles. Entretanto, está ao alcance de cada um aquilo a que pode conectar-se. 
Quando ele consegue olhar para o que recebeu, sente que recebeu uma dádiva e que depois também terá algo para dar aos outros. 

Enquanto permanece reivindicando e fixado no que deixou de receber, provavelmente se sente enganado pela vida e pelos pais. Então sente-se mal e carente, e posteriormente não estará disposto ou não terá condições para se doar aos outros. 

Estar em sintonia com os pais significa 
assumir o que se recebeu e, 
renunciar ao que não se pôde receber. 

Isso é uma autêntica renúncia, pois ninguém pode substituir os pais. 
O pai não pode substituir a mãe, a mãe não pode substituir o pai, os pais adotivos ou de criação não podem substituir os pais biológicos. 

Nem mesmo os companheiros de vida podem preencher essas necessidades, e muitos filhos sofrem com as projeções inconscientes de seus pais quando são forçados a substituí-los.


Stephan Hausner



domingo, 1 de maio de 2022

A VOLTA








Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.

 Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.

E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,

 tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo!


MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia





........................................abertura às mudanças





A mudança é a única constante, a única certeza válida nas 3 dimensões em que vivemos. 

O tempo e o espaço na gestão da diversidade do plano material, garantem que assim seja. E ao contrário do que muitos pensam, de que a mudança é imprevisível e caótica, posso hoje defender com convicção que ela pode ser imprevisível para o entendimento das nossas limitadas mentes, mas nada tem de caótica. Aliás se conseguíssemos ver a realidade pela lente das Leis Universais, ficaríamos deslumbrados com a Ordem e beleza  que nos rodeia. 

O sagrado Livre Arbítrio coloca em movimento as escolhas individuais de cada um e as Leis asseguram que o criador da escolha se responsabilize pela mesma, na maior parte das vezes, noutro tempo e noutro espaço. Leis como a causa e efeito, a vibração, o género, o ritmo garantem que cada um viverá de forma justa, das colheitas das suas próprias sementes. 

A perspectiva espiritual, ao mostrar a Ordem justa e divina que movimenta o mundo tanto pessoal como colectivo, mostra-nos que a culpa, a injustiça, o medo, o julgamento, a vitimização não têm lugar nem são aplicáveis na visão espiritual. 

Basta entender por exemplo bem a Lei da Causa e Efeito para perceber como a maioria ainda a desconhece e é incapaz de a aplicar;

A Lei da Causa e Efeito diz que toda a ação gera consequência. Que o que vai, volta. O que eu plano, eu colho. É também apelidada de Lei do Retorno ou Lei do Karma. Tal como lançamos uma pedra agarrada a um elástico, ela volta à fonte que o arremessou. 

Não é difícil de entender isto, certo?

Podemos então observar, quando olhamos para a nossa vida ou, das pessoas à nossa volta ou, até nos telejornais, estes dois movimentos: o que sai de cada um e o que chega a cada um.

Mas ao contrário da mente terrena que se habitou a chamar de eventos e acontecimentos, de sortes e azares, de justiça e injustiça ao que vemos, a Lei do Karma defende que cada um apenas recebe aquilo que é seu. O que nos confunde é a distorção no tempo e no espaço. Ou seja, a chamada Justiça Divina, mantém esta roda pelas vidas fora e não é raro que é plantado numa encarnação só ser colhido numa encarnação seguinte. Conhecemos bem o fenómeno com os nossos dias: o dia em que gastamos a água, por exemplo, não é o mesmo em que nos é cobrada.

O desafio então é imaginar as infinitas escolhas que fomos fazendo ao longo das nossas vidas que deram origem aos infinitos retornos que vão aparecendo na nossa vida, no tempo e espaço certo de acordo com o relógio Cósmico. 

Fluir é precisamente confiar neste processo, é confiar que estaremos sempre preparados para colher as consequências de acções passadas e quanto mais abertos, humildes, amorosos e disponíveis para lidar com esses resíduos karmicos, melhor evoluímos, mais depressa os libertamos.   

Logo, um dos maiores obstáculos à fluidez da vida, ou fonte de sofrimento do ser humano, é a RESISTÊNCIA a esses movimentos. O desconhecimento desta Lei leva-nos a rejeitar o retorno, a julgar quem o representa, a atacar o carteiro cósmico, a vitimizarmo-nos e queixarmo-nos da fruta que nós próprios plantámos. 

Crenças, ideias, cultura, valores sociais e familiares, controle, idealismos, ignorância, arrogância, medos, apegos fizeram-nos acreditar que a Vida é um acumular de pessoas e bens materiais em busca de um ideal de vida perfeita e estável. É só uma questão de tempo até sentirmos a desilusão desta enorme ilusão. 

Este permanente jogo de forças de querermos que as coisas sejam como nós queremos, afastou-nos da capacidade de fluir, de confiar nos movimentos da vida que nos trazem os nossos acertos karmicos, de acreditar que as mudanças a que estamos sujeitos são inteligentes, estão previstas como trampolins de evolução. 

Gastamos muita energia a lutar, a exigir, a controlar, a impor a nossa agenda do ego mas, pouco ou nenhum espaço a aprender, a observar, a permitir que a agenda da alma se possa cumprir. 

Que o mês de Maio traga, com o seu nº5, menos resistência e mais espirito de aventura, mais abertura às mudanças, mais disponibilidade para ouvirmos a Alma e seguir o seu chamamento.


Vera Luz





quinta-feira, 28 de abril de 2022

A vida


 Duncan Chard






A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória; 

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas. 


Nuno Júdice
in, Teoria Geral do Sentimento





Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

 






“Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? (…) Outras pessoas põem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar caras; a última gastou-se ao cabo de oito dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam”.

 
 “Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço. As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. As mulheres tinham-na no seio e os homens no peito. Tinha-se, a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho”.



“Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas”.


 
“Há um ser que é totalmente inofensivo. Quando te vem à vista, mal o notas e esqueces-te logo dele. Mas quando, invisível, de qualquer modo te entra no ouvido, então desenvolve-se lá dentro, sai por assim dizer da casca, e já se viram casos em que penetrou até ao cérebro e medrou neste órgão de maneira devastadora, semelhante aos pneumococos do cão que penetram pelo nariz.
Este ser é o vizinho”.


 
“Quando se fala dos solitários, pressupõe-se sempre uma enorme porção de coisas. Julga-se que as pessoas sabem do que se trata. Não, não sabem. Nunca viram um solitário, apenas o odiaram sem o conhecer. Foram seus vizinhos, os vizinhos que o gastaram, e foram as vozes do quarto ao lado que o tentaram. Excitaram as coisas contra ele, que fizessem barulho e abafassem a sua voz. As crianças aliaram-se contra ele, por ele ser delicado e criança; e à medida que crescia, crescia contra os crescidos. Farejavam-no no seu esconderijo como um bicho que se pode caçar, e a sua longa juventude não teve época de defeso. E quando ele se não deixava esfalfar e se escapava, então, gritavam eles sobre o que dele provinha, e achavam-no feio e tornavam-no suspeito. E quando ele os não queria ouvir, eles tornavam-se mais explícitos e comiam-lhe a comida da boca e respiravam-lhe o seu ar e escarravam na sua pobreza para que ela se lhe fizesse odiosa”.



“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma”.




Rainer Maria Rilke
in, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”




sábado, 23 de abril de 2022

ESTOU E NÃO ME RESPONDO







 Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

 Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

 
MARIA ÂNGELA ALVIM
in, De Superfície - Toda Poesia




Melodia das Coisas


                                                                            DT Nation


 

Seja o que te rodeia, o canto de um candeeiro, a voz da tempestade, a respiração do entardecer ou o gemido do mar - atrás de ti está sempre vigilante uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, na qual o teu solo só tem lugar aqui e ali. 
Saber quando deves fazer a tua entrada, eis o segredo da tua solidão: tal como a arte do verdadeiro relacionamento é: do alto das palavras deixar-se cair na melodia una e comum. 
Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que a linguagem crítica, no qual tudo se reduz sempre a alguns equívocos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser tão compreensíveis ou exprimíveis como geralmente nos querem fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que palavra alguma pisou. Mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres repletos de mistério, cuja vida perdura junto à nossa vida mortal e efémera. 
Desejo que a partir de agora e aqui mesmo fique formulada esta súplica: leia o menos possível os trabalhos de carácter estético-crítico: ou são ditames que, pela sua rigidez e falta de vida, acabaram por perder todo o sentido e petrificaram-se; ou, tão-somente, hábeis jogos de palavras em que prevalece hoje uma opinião e amanhã a opinião contrária. 
As obras de arte vivem imersas numa solidão infinita, e a nada são mais inacessíveis do que à crítica. Apenas o amor logra compreender e fazê-las suas, só o amor pode ser justo para com elas. 
Diante de todas as discussões, glosas e introduções, deixe sempre a sua razão entregue a si mesmo e ao seu próprio sentir. Se daí resultar que não está no caminho certo, o natural desenrolar da sua vida se encarregará de levá-lo paulatinamente e com tempo até outros critérios. 
Deixe que os seus conceitos tenham calmamente e sem qualquer estorvo, o seu próprio desenvolvimento. Como todo o progresso, este há-de surgir de dentro, do mais fundo de si, sem ser apressado nem acelerado por nada. 
Tudo consiste em levar algo no seu interior até à conclusão, e de seguida trazê-lo à luz; deixar que qualquer impressão, qualquer sentimento em gérmen, amadureça por inteiro no seu íntimo, na obscuridade, no indizível, inconsciente e inacessível ao próprio entendimento: até ficar perfeitamente acabado, esperando com paciência e profunda humildade a hora de ser iluminado por uma nova claridade. 
Este e não outro é o viver de um artista: o mesmo no entender como no criar. Aí, não se pode reger pelo tempo. Um ano não tem valor, e dez anos nada são. Ser artista é: não calcular nem contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva, mas permanece tranquila e confiada sob as tormentas da primavera, sem temer que depois dela nunca chegue outro Verão. Apesar de tudo, o Verão chega. Mas, apenas para os que sabem ter paciência e viver de ânimo tranquilo, sereno e vasto, como se diante dele se estendesse a eternidade. 
Isto, eu vou aprendendo em cada dia da minha vida. Aprendo-o entre sofrimentos, aos quais, por tal, fico agradecido. 
A paciência é tudo!


Rainer Maria Rilke
in, Notas Sobre a Melodia das Coisas




 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Conjunção de Jupiter com Neptuno no signo de Peixes


12 de Abril de 2022
Conjunção de Júpiter e Neptuno em Peixes
Ambos regentes de Peixes
A próxima será daqui a 166 anos






Não é raro perceber padrões astrológicos ou trânsitos do momento, tanto nas consultas como nas pessoas da minha vida. A mente do astrólogo aprende a ver, não apenas pessoas, eventos e comportamentos mas, muito mais arquétipos, ligações karmicas, datas específicas e padrões curiosos e repetitivos. 

A partir do momento em que aceitamos que a máquina Cósmica é inteligente e gere amorosa e justamente a vida individual de cada um, muito para além do que possamos imaginar, a nossa relação passa do julgamento para a busca do entendimento. Implica parar de idealizar cenários para passar a descobrir as lições e ligações por trás dos eventos. De perguntar; PORQUE as coisas acontecem para descobrir PARA QUÊ elas acontecem. De perceber que a "justiça" dos homens nem sempre está em harmonia com a justiça Divina. 

Este mês de Abril tivemos o grande evento astrológico do ano, o encontro de Jupiter com Neptuno no signo de Peixes. Imagino que os curiosos já tenham lido dezenas de textos sobre o tema, mas porque nenhum de nós irá viver novamente tal encontro, achei que valia a pena escrever sobre o assunto. Até porque os dois planetas envolvidos são me especialmente queridos no meu próprio mapa. 

Façamos então algumas questões:
  1. Tens-te sentido zonz@ e com a cabeça leve?
  2. Tens sentido falta de energia e desorientação diária?
  3. Tens dormido mal?
  4. Tens questionado mais frequentemente a tua vida, existência e rotina?
  5. Tens tido mais tendência para esquemas escapistas tipo alcool, drogas, comida, necessidade de estar sozinh@, cansaço mental?
  6. Tens tomado mais consciência dos padrões, pessoas, relações, trabalho que já não ressoam com contigo nem com a tua verdade?
  7. Tens usado muito a palavra - Desilusão - ?
  8. Sentes uma leve aura de depressão que insiste em não passar?
  9. Apetece-te fugir, mudar tudo, começar de novo, descobrir novas formas de viver mais fieis a quem tu és?


Se respondeste sim a quase tudo, acredita que não estás sozinho@.

O encontro entre estes dois senhores levará alguns anos a ser percebido como um extraordinário ponto de viragem, tal como o último encontro em 2009 assinalou uma gigante mudança para muita gente que hoje bem se lembra das reviravoltas e oportunidades desse tempo. 

Mas acredito que este encontro agora, é mais mágico do que qualquer outro que estes dois senhores têm feito e que fazem de 13 em 13 anos. 

Este ano foi no signo de Peixes, evento só a acontecer novamente daqui a 166 anos, na casa-mãe dos dois envolvidos, Arquétipo por excelência da espiritualidade, rendição ao processo de evolução, libertação de ideais puramente terrenos ligados ao ego e reconexão com o propósito espiritual com que nascemos. 
Basta olhar para o mundo para perceber que estamos longe de viver à altura desta proposta. 

Para conseguirmos integrar bem estes dois Mestres, há um primeiro passo:
Assumir que a nossa felicidade, é uma Responsabilidade Pessoal. 

Júpiter representa alinhamento com as Leis Universais, a Ordem Superior, as crenças, o Sentido da Vida, a nossa Verdade pessoal.
Neptuno representa a Unidade, a Fonte divina, a lembrança que somos tudo Um, o Amor Incondicional, a Rendição, a Cura, a ajuda Divina. 

Quanto mais "saudável" está o nosso Júpiter mais saudável está o nosso "Neptuno" e o mesmo vale na negativa. 
Quanto mais ilusão no TER está Júpiter, mais desilusão do SER traz Neptuno. 
Quanto mais alinhamento com Júpiter, mais Cura com Neptuno.

Muito antes de trazer o prémio, a jóia, a recompensa, a Vida através dos eventos planetários convida-nos ao trabalho de merecimento. Ou seja e em linguagem espiritual, precisamos elevar a nossa vibração, libertar a densidade que nos impede de desfrutar desta bênção.

Para isso, a Vida  traz-nos os convites de mudança, propõe os desafios, apresenta os padrões e aguarda pela nossa escolha que irá definir se estamos preparados para os superar ou se iremos manter os velhos. Se conseguimos ascender e desfrutar  do maravilhoso convite ou se nos iremos manter na baixa vibração da lição dolorosa.

Por ignorância destes movimentos da Vida e dos próprios padrões que carregamos de vidas passadas, não é raro ver pessoas presas a padrões que há muito deveriam ter sido mudados, relações e situações que há muito deveriam ter sido libertadas, e que por resistência em mantê-los, sofremos por mão própria.  

Temos o prémio à nossa espera, mas não nos ensinaram como  merecê-lo. 
 
O ser humano começa aos poucos a despertar da ilusão de viver apenas para o plano terreno, os papeis sociais, os bens materiais, acreditando que a felicidade é um estado de ter, de idealizar uma vida perfeita e de controlar a realidade de forma a atingi-la. 

Algures a meio da vida, cansados de aplicar uma fórmula que não funciona, começa o processo de desilusão dessa mesma ilusão. Começamos a perceber que o sentir tem mais valor do que o ter. Que aceitar é menos doloroso do que lutar. Que confiar é mais saudável do que apegar ou controlar. Que o desconforto  de vivermos fieis à nossa verdade vale muito mais a pena do que viver o sofrimento da mentira e da desilusão.

Independentemente da idade que tens ou dos ciclos em que te encontras, é natural que estejas a sentir alguns dos efeitos acima descritos. 
Mas quanto mais souberes como este convite colectivo te atinge na tua vida e quais as áreas de vida envolvidas, melhor resposta lhes poderás dar.  


Vera Luz





segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ressurreição







 Porque a forma das coisas lhe fugia, 
O poeta deitou-se e teve sono. 
Mais nenhuma ilusão lhe apetecia, 
Mais nenhum coração era seu dono. 

Cada fruto maduro apodrecia; 
Cada ninho morria de abandono; 
Nada lutava e nada resistia, 
Porque na cor de tudo havia Outono. 

Só a razão da vida via mais: 
Terra, sementes, caules, animais, 
Descansavam apenas um momento. 

E o vencido poeta despertou 
Vivo como a certeza de um rebento 
Na seiva do poema que sonhou. 


Miguel Torga
in, "Libertação"




RELAXE QUE O MEDO PASSA







Me sinto só, o que é bom, mas estou confuso. Não sei o que está acontecendo. As coisas estão mudando por dentro de mim, então às vezes, fico assustado, às vezes há um sentimento flutuante.

Isso é natural. Sempre que você se sentir assustado, apenas relaxe. Aceite o fato de que o medo está lá, mas não faça nada com ele. Ignore-o, não lhe dê atenção. Observe o corpo. Não devia haver nenhuma tensão nele. Se não houver nenhuma tensão no corpo, o medo desaparece automaticamente. O medo cria um certo estado de tensão no corpo, para ficar enraizado nele. Se o corpo estiver relaxado, o medo está fadado a desaparecer. Uma pessoa relaxada não pode ser medrosa. Você não pode assustar uma pessoa relaxada. Mesmo que surja o medo, ele virá como uma onda... Não criará raízes.


Osho




 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

O amor que a vida traz





Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.

O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos.
Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja para assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos.
E precisa ter um objetivo na vida. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar.
Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. 
Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.

E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. 
Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada um amor idealizado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase.
Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia solicitado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que não lhe pertence.

Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu.
Olhe para você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era para não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

Aquele amor corretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém que despreza amores corretos, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prémio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado.
Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Agradeça e aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.



Martha Medeiros






sexta-feira, 8 de abril de 2022

All the Time Blues Villanelle













Hard to watch somebody lose their mind 
Maybe everybody should just go get stoned 
My father said it happens all the time 

I knew a woman    lost her to soul to wine 
But who doesn’t live with their life on loan? 
Shame to watch somebody lose their mind 

Don’tchu gotta wonder when people say they’re fine? 
Given what we’re given, I guess they actin grown 
I think I used to say that    all the time 

When my parents died, I coined a little shrine 
And thought about all the stuff they used to own 
Felt like I was gonna lose my mind 

Used to have a friend    who smiled all the time 
Then he started sayin he could hear the devil moan 
Hate to see a brotha lose his gotdam mind 

Doesn’t matter how you pull, the hours break the line 
Mirror, Mirror on the wall, how come nobody’s home? 
Broke my soul for real, when my mother lost her mind 

Tried to keep my head right, but sanity’s a climb 
Been workin on the straight face - I guess my cover’s blown 
My father tried to tell me    all the time

Had one last question, baby, but maybe never mind 
After’while, even springtime starts to drone 

Hard to see somebody lose their mind 
My pop said, “Boy, it happens all the time”


Tim Seibles