sábado, 17 de novembro de 2018

Muita energia se perde a...





Muita energia perdemos 
a criticar e julgar as atitudes dos outros, 
quando nada sabemos o que os leva a tê-las. 
Falamos, comentamos, e mal dizemos 
o que não entendemos, 
longe de sabermos que o que mais condenamos 
tem algo para nos ensinar também, 
ou não estaria na nossa realidade.


* Usemos então a energia da palavra, não para julgar mas sim para questionar, entender, aprender, amar ou simplesmente considerarmos que o que julgamos nos outros define apenas as nossas crenças e não propriamente o outro.




Muita energia também desperdiçamos 
a ouvir os ditos julgamentos 
quando estamos no posto receptor. 
Levamos o que o outro nos diz 
como se fosse a verdade, 
permitindo que palavras ocas e densas 
nos afectem, desestabilizem 
e nos roubem energia valiosa a troco de nada.



* Usemos o poder que temos de nos afastarmos destes ataques, cultivemos o silêncio interior lembrando que a opinião do outro não nos define. É no silêncio ou na natureza que a verdadeira voz interior da alma se faz ouvir para que nos possa guiar sem distracções e tentações exteriores.




Muita energia gastamos 
a observar a realidade como um fim em si 
esquecendo por completo que ela é apenas 
uma projecção do interior de cada um, 
dependendo do que a energia de cada um faz atrair.
 Esquecemo-nos com o tempo 
que o que não gostamos de ver lá fora, 
deve ser abordado e mudado dentro.


* Usemos assim a nossa visão interna e façamos a correspondência entre o que está fora para o que está dentro a gerar a nossa realidade exterior. Ao vermos o mundo como um holograma do nosso interior aprendemos a mexer as peças a partir de dentro pacificando-nos com os nossos demónios internos e dando asas aos nossos heróis.



Vera Luz





quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Estações





Gosto de te rever a silhueta
sob essa luz que revela
as cores quentes das folhas
que caem no Outono,
observando o desmaio suave
da tua saia no chão do quarto,
ou simples movimento descente
dos meus dedos pelo teu rosto.

Por detrás da horizonte das
memórias que construímos
repousa pergunta agreste que
sobrepuja o encantamento:
que pecado, silêncio ou grito
afugentou o Verão do nosso amor?

Sempre cuidaste as águas que navegas
plácidas como as de um lago
- avessas aos crepusculares arroubos de corsário velho de mil refregas! -
mas esquecidas do essencial:
até os barcos de água doce
pedem ventos e correntes que os animem,
como as cinzas suspiram pelo fogo
e as sementes pelo florir da árvore em nova Primavera.

Conjuro-te: em terra outrora fértil
ousemos ser jardineiros
podando velha árvore
ou dando à terra novas sementes.
Tanto faz! Mas não permaneças
na preguiçosa esperança de uma hibernação redentora. 
Lembra-te: o Inverno é longo, a vida breve, 
as recordações por si só mortais.

"Vem" e "adeus" esperam-nos:
abraço apaixonado ou costas voltadas,
decidamos nós sentença e destino, que
as estações seguem livre curso e
do juízo do tempo
não haverá apelação. 


Rui Amaral Mendes (RAM Maverick)
Júlio Machado Vaz 
in, Frágil




SENTIR-SE AMADO





O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.

Tua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato".

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.



Martha Medeiros
in, Paixão Cronica







terça-feira, 13 de novembro de 2018

O Louco





Perguntais-me como me tornei louco. 
Aconteceu assim: 
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, 
despertei de um sono profundo 
e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas. 

sim, as sete máscaras que para mim tinha fabricado 
e utilizado nas minhas sete vidas. 

corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: 
- Ladrões, ladrões, malditos ladrões! 

Homens e mulheres riram-se de mim 
e alguns fecharam-se em casa, 
com medo de mim. 

E quando cheguei à praça do mercado, 
um rapaz que estava de pé 
no telhado da casa, 
gritou apontando-me com o dedo: 
- É um louco! 

Ergui os olhos para o ver, 
O sol banhou o meu rosto despido 
e a minha alma 
encheu-se de amor ao sol, 
e desde então 
nunca mais quis usar máscara. 

Depois gritei 
como se estivesse em transe: 
- Benditos, benditos os ladrões 
que me roubaram máscaras!” 

Foi assim que me tornei louco. 

encontrei muita liberdade 
e segurança 
na minha loucura; 
a liberdade da solidão 
e a segurança de nunca ser compreendido, 
pois aqueles que nos compreendem 
fazem de nós escravos. 

mas não deixem que me orgulhe demasiado 
da minha segurança; 
nem sequer o ladrão encarcerado 
está livre de encontrar outro ladrão. 


Khalil Gibran 
in O Louco






................... cair a seco, num mundo irreconhecível



Michael Schulz 




O problema da camisa apertada é que nos tolhe todo o tipo de movimentos…ou fazemos como o "Hulk", arquejando e insuflando os músculos para a rasgar…ou, simplesmente, a tiramos, com todo o ritual doce de quem chega a casa e se despe do indesejável para estar bem.
…e nós andamos a sentir a camisa apertada demais!

Andamos com um pé lá e outro cá, numa ginástica que nos vai reclamando mais sossego, mas este movimento é natural até acertarmos o nosso estado.
Sentimos o Universo a comunicar connosco, tanto de uma forma subtil como em flagrante sensação…sentimo-lo.
No entanto, há momentos em que é como se tivéssemos caído, a seco, num mundo irreconhecível e indigesto, colocando-nos nessa energia baça em que as sensações que eram comuns, em tempos, voltam a assaltar-nos…o que estou eu a fazer?....para que é tudo isto?....será que não se trata de um engodo mental?...e se….?

Temos de redefinir (novamente) algumas coisas.
Sabemos, por experiência, que há essa comunicação, no entanto parece só funcionar em certos momentos….sentimos o nosso campo energético? O que é que colocamos lá?
Se não tivermos isto bem sentido/integrado, continuaremos a colocar no nosso campo de comunicação, essa bolha de energia individual, todo o tipo de pensamentos contrários ao rumo que queremos tomar…e é cansativo, no mínimo!
Esse campo é a nossa central de comunicação com o Todo e o Universo responde ao que introduzimos nele, entrando na "conversa" com aquilo que chamamos sincronicidades.

Mas é necessário honrar essa comunicação, aceitá-la como natural e não como produto aleatório do nosso alinhamento.
Todos nós somos emissores/receptores, o grau de funcionamento do nosso "aparelho" depende, unicamente, de nós mesmos…dos filtros que colocamos, das interferências que permitimos e da nossa percepção sobre a nossa posição no meio de Tudo.
Sabendo isso, passamos a estar conscientes do que colocamos no nosso campo energético, embora saibamos, também, como é difícil em alguns momentos, corrigir o nosso padrão de pensamentos, o nosso estado interior de desalento…mas é nesses momentos que temos de ir buscar aquilo pelo qual sentimos gratidão, aumentar a nossa vibração da melhor maneira. É que, o simples facto de estarmos a fazer o nosso melhor e estarmos conscientes de que não estamos a contribuir com uma energia benéfica (para nós mesmos), já é um passo enorme a caminho da nossa tranquilidade, de um certo bem-estar de alma.

Nós estamos a ancorar a Consciência…é o nosso "trabalho"!
Andar a deambular sonâmbulos, por aí, já não é aceitável, nem nós nos sentimos bem com isso.
A cada momento Estamos!
A cada momento Somos!
…e se não estamos nem somos, temos de nos voltar a colocar lá!
Se não for agora…é quando?

Sabia-nos bem atirar tudo para as costas da ignorância e a nossa irresponsabilidade passava incólume no meio da confusão…sabia-nos bem, mas já não sabe, porque a partir do momento que nos tornamos conscientes de nós mesmos, só a Paz é real e nos interessa, só o Amor é real e nos move, só a compaixão é real e nos conforta.


Alexandre Viegas



sábado, 10 de novembro de 2018

As irrevogáveis trevas


António Mora




1.


Alguns ligeiros dias virão
o engano na voz dos homens
o bafo sombrio dos anunciados astros
semeando o anoitecer 
nos acerados campos de setembro

homem despido de razões
a quem nem a subornável malícia
dos deuses consente o duvidoso consolo
de um maio sangrando às mãos da geada

até ao fim serás pequenina árvore
aí onde se desvanece o irrestrito pulsar
das manadas
como um vento que já não soubesse
por que montes acolher-se
quando absortos sinos anunciam
o amotinado repouso dos martelos

alguns ligeiros dias virão
às moradas onde o degredo é compassivo
e reverdece a caudalosa voz das antigas fúrias
razão desta vã arte
florescendo nos vastos campos da metrópole

vaticinado sucesso dos que se extraviaram 
pelo pez dos séculos
e porfiam que o infindável garrote
da intempérie
é a inocente visitação do deus

uma morada só acharás
em fundo precipício
aí onde gratos emboloram
ossos e meteoros 

2.

Como som para sempre extinto,
percute-te o sono a anfíbia música
da idade — desenho de sombras sob um
céu irreal onde o convulsivo eco
prediz o harmatão, seu coro de aflição.

Hás-de saber, no entanto,
que pela tarde destas mãos
espigam tributos matizados, 
simples matéria de assombro 
que a nora dos versos
polvilha de épicas fulgurações.

Real é dizer — anda o mar aqui
incrustado às minhas veias e as palavras
migram como aves que um aguarelista
pintasse à calota de um céu revolto.

Ao vê-las, no sépia disfarçado
em que os séculos uivam, juro
que uma rémora friável me infiltra
o coração que antes aqueci à pedra
onde tua boca, tuas coxas arrematei
num lance que hoje me escorra a orfandade.

Porém, nem sempre a sageza dos anos
nos ensina palavras com que suster o pranto,
porque o som que se extingue
no escuro da boca
é inumana infiel memória duma outra vida
tão para sempre ida 

— vagamente, um piério rumor te rediz
do mundo a inconclusa trama; agora
resta-te apenas a litania indecisa
dos corpos caminho do engano,
mas nenhuma queixa, nenhum lamento,
que sempre foi o naufrágio ciência dos audazes.


3.

Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado 

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.


José Luiz Tavares
in, Lisbon Blues




MULTIVERSOS: E NÓS NISSO TUDO?






Todo mundo concorda que o Universo é algo grande, certo?
Muito, muito grande, com bilhões de galáxias, mais estrelas do que grãos de areia, etc.
Todos esses números que nos fazem admirar a ordem que rege essa imensidão e que permite que sondas viajem por entre planetas e uma delas esteja neste momento nos limites do sistema solar (o mais longe que algo humano já foi).

Já fica difícil imaginar o Criador de tudo isso interessado especificamente num planetinha azul, mais especificamente ainda numa certa parte da população de um certo país desse planetinha, e mais especificamente ainda nos 10% do salário desta partezinha da população do planetinha azul perdido entre milhares de sistemas solares da periferia de uma das bilhões de galáxias desse Universo.

O que pensar então quando descobrimos que o Universo (repito, o UNIVERSO) é só um de VÁRIOS, se expandindo lado a lado? 

Sim, isso já é tratado como uma hipótese científica em estágio avançado de comprovação.
E se juntarmos isso à Teoria das Cordas, que prevê vários universos inflando DENTRO DO OUTRO, EM OUTRAS DIMENSÕES?
Então as possibilidades são infinitas, inimagináveis.

E as implicações disso para nós?
Infinitas, também.

A começar pela nossa arrogância de se achar o centro do Universo.
De achar que somos tão civilizados que podemos, ou melhor, DEVEMOS impor nossa civilidade (inclua aí religião, política, tecnologia, way of life, etc) a todas as outras pessoas do planeta (e baseados nisso se aparecerem ETs por aqui nós os catequizaremos).

No meio de tantas possibilidades podemos praticamente garantir que SIM, existem civilizações cuja evolução possa ter centenas, milhares ou talvez milhões de anos frente à nossa.
E o que pensar disso?
Se nós, com 5 mil anos de civilização (oficialmente falando) já temos Shopping Centers, Internet e gatinhos engarrafados, imagine como devem ser seres com 10 mil anos ou mais de história?
Será que eles ficam brigando entre si para ver qual Deus é o "certo"?
Será que ainda têm o conceito de Deus?
Será que ficam regulando a sexualidade dos outros?
Será que ainda têm sexualidade?

São perguntas que deveríamos nos fazer mesmo que nunca encontremos indícios de outros seres além de nós. Até porque somos inteligentes o suficiente para fazermos a extrapolação da evolução de nossa própria raça humana, e como nós passamos pela escravidão dos negros (justificada legal, religiosa e moralmente!), pelo extermínio de povos "bárbaros" (cátaros, celtas, vikings, astecas) e perseguições religiosas (os próprios cristãos sendo um ótimo exemplo).
Hoje nós temos leis, órgãos e um lastro moral que nos permitem, ao menos, protestar e tentar impedir quando essas coisas acontecem (e acontecem!).

Fico pensando em como outras civilizações nos vêem.
E creio que devem nos achar diferentes e difíceis da mesma forma que nós consideramos diferentes e difíceis os autistas.
Hoje sabemos que autistas têm uma consciência aguçada, são inteligentes (alguns até brilhantes) mas "funcionam" de forma diferente, em outro nível de percepção e expressão. Por não terem o mesmo verniz social que carregamos de fábrica e vamos lapidando no convívio e aprendizado, as emoções dos autistas podem acabar facilmente descambando para o exagero, para violência, para frustração. Mas também podem ser carinhosos, abraçar, beijar, mas sempre com suas dificuldades sociais.

E nós, humanos, podemos ser os autistas da galáxia! 
Somos em geral imaturos, sem "educação social intergalática" nenhuma, extremamente emotivos, violentos, mas da mesma forma podemos ser amorosos, carinhosos, empáticos, coisa que talvez numa sociedade muito regrada e evoluída não seja possível.

Pegue a série Star Trek como referência e veremos a relação entre Spock e os humanos como um ótimo mapa do que estou falando.
Poucos se predispõem a ter o tempo, vontade e amor suficientes para se comunicar e interagir com o autista clássico. Preferem tratá-los como produtos defeituosos, ignorá-los e viver suas vidas. 
Quem sabe se outros povos não fazem o mesmo com a raça humana?



in, Saindo da Matrix





quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O AMOR EM VISITA


Christian Coigny




Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
.
Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
.
Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor? eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.
.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
.
Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.



HERBERTO HELDER
in, OBRA POÉTICA





Pobre gosta de pisar em pobre





Uma coisa que eu, infelizmente, observo muito: pessoas que melhoram sua situação financeira e sobem um ou alguns degraus da escada social parecem esquecer rapidamente que há pouco tempo também eram pobres e sofreram o mesmo desprezo que agora estão dispensando a quem é mais pobre que elas.

Já vi gente que saiu da favela e falava mal dos favelados e motorista de primeiro carro novo comprado em sessenta prestações rindo de quem esperava na chuva pelo ônibus, o mesmo ônibus que ele pegava para ir trabalhar, em um passado não muito remoto.

Tem gente frustrada em seu emprego por ser maltratada pelos patrões, mas que não perde a oportunidade de esnobar ela mesma outras pessoas, assim que se vê do outro lado (do lado “mais forte“), tratando mal vendedores em lojas, zeladores em prédios ou pedintes na rua.

Já é incompreensível ver gente rica de muito tempo tratando pobre como gente de segunda categoria, numa desumanidade que assusta. Isso já é difícil de entender, mas, agora, ver gente que conheceu a pobreza se vestindo de arrogância e prepotência para se achar melhor que outros que (ainda) não conseguiram sair da pobreza é que não dá para entender mesmo.

Parece que isso está enraizado na cabeça de nosso povo, essa mentalidade arcaica de que quem tem mais é mais, como se ter e ser fossem a mesma coisa. E quem quer ser mais necessita de alguém que seja menos, já que quem se compara precisa de uma referência e seria meio amargo alguém se comparar com quem tem mais que ele. Assim, a consequência lógica é rebaixar quem tem menos para se sentir mais elevado, enfeitando um pouco sua pobre existência.

Tem a história do Dr. Armando, que era advogado, mas não era doutor coisa nenhuma, porém, ele fazia questão de ser chamado assim. Um rapaz pobre do interior da Bahia, que foi para Salvador para estudar e que, para se formar, comeu o pão que o chifrudo amassou, limpou fossa e foi ajudante de pedreiro, serviu comilões no Habib’s na Praia de Piatã, foi placa de anúncio ambulante para os novos condomínios na Avenida Paralela e até picolé na praia ele vendeu.

Pois bem, esforçado ele foi, pisoteado também, e se formou em Direito aos troncos e barrancos. Com o canudo na mão, o Armandinho voltou para sua terra natal como Dr. Armando, o advogado, que, como dito, não era doutor, pois não tinha doutorado, mas que era cheio de doutorice e exigia que todos abaixo dele na hierarquia o tratassem dessa forma. Até de certos clientes ele exigia isso, numa arrogância sem fim. Agora, com um diploma que ele escondia na gaveta, pois suas notas não foram tão boas e ele se envergonhava disso, e um escritoriozinho perto do centro de uma cidade média de interior, ele se via flutuando numa nuvem, por cima dos mortais. Somente perante o juiz, o delegado ou os poderosos do lugar ele baixava a crista e parecia um menino nervoso que tinha feito algo errado.

O pior de tudo é que ele era colérico e tratava muito mal seus empregados, principalmente os domésticos, gritando com eles, os classificando de burros e preguiçosos e supondo que iriam morrer pobres, pois burrice e preguiça não levariam ninguém a lugar algum. E vivia dizendo que detestava pobreza.

Assustadora também era a passividade dos subalternos, que, calados, aceitavam as insultas do patrão. Por um lado, claro, eles eram dependentes, alguns até moravam em sua propriedade. Mas, por outro, seria bom ter mais coragem e impor limites ao novo rico que se comportava como um coronel de segunda categoria.
Mas nem precisamos de exemplos extremos como esse. Esse fenômeno acontece muitas vezes no dia-a-dia, quase despercebido, como aquele sujeito pobre que recebe um dinheiro extra, resolve ir jantar com a namorada num restaurante chique, com tudo que se tem direito, mas achando que tem o direito também de já entrar no restaurante tratando mal os garçons, sentindo-se rico por um momento e acreditando que “ser rico” implicaria também em tratar mal quem o serve.

Acredito que muita gente se comporta assim por não conhecer diferente. Quando ainda pobres, por terem sido explorados e maltratados e experimentado de perto a exclusão e os preconceitos contra a pobreza, aprenderam que é desse modo que a sociedade funciona: quem está em cima, pisa em quem está em baixo. E, agora, que conseguiram subir um pouco, eles também têm vontade de pisar. Se levo isso em consideração, até acho tal comportamento plausível. Mas plausível não quer dizer que seja bom.

Acho estranho e repudio qualquer ato que suponha a superioridade ou a inferioridade de quem quer que seja, mas, ao mesmo tempo, sei que todo efeito tem uma causa e que isso aí é efeito de alguma coisa. Não seria o efeito de um endurecimento de nossa sociedade, de uma mentalidade de consumo e de identificação social pelo que se possui, de dignidade comprada, onde quem tem pouco automaticamente vale menos? Não costumamos definir o sucesso de alguém pela riqueza que acumula? E ainda não fazemos a bobagem de aceitar essa ideia absurda como normalidade?

Penso que é essa distorção de valores, que afeta a sociedade como um todo, que faz com que também um pobre que emerge queira também pisar em outros para se sentir alguém.

Se queremos mudar isso, então seria essencial mudar exatamente essa mentalidade, essa forma estranha de convivência social que inventamos, mas que só serve para descaracterizar o lado humano de nossa sociedade.

Os pobres deixarão de tratar mal outros mais pobres no dia em que todos pararmos para perceber que é preciso bem mais que ter para ser e que poder material não torna ninguém melhor que ninguém. Os pobres aprenderão a respeitar outros mais pobres no dia em que eles mesmos perceberem que se é respeitado por ser quem é (um ser humano que tem uma dignidade inviolável!) e não pelo que se tem, já que ninguém aprende a respeitar se ele nunca foi respeitado.

Precisamos é retomar nossos valores e recuperar nossa humanidade, entendendo que a verdadeira superioridade não pode ser comprada e não se adquire através de riqueza material. A verdadeira superioridade nasce é dentro de nós. Uma pessoa verdadeiramente superior não é aquela que se acha melhor, mas sim que a entende que esse negócio de gente melhor ou pior não existe, tanto faz se rica ou pobre.



Gustl Rosenkranz



Tem gente que é tão pobre, 
que só tem dinheiro.






segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Uma pequenina luz





Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.



Jorge de Sena
in, Fidelidade




Meditation





When you focus your attention to the center of your existence, you are connecting to the singularity in the center of your personal black hole which causes an increase in the angular momentum of the spin of your field...
Nassim Haramein 

Consider your own body being made mostly of space. Close your eyes and experience the space that you’re made of and the space around you vibrating like a crystal. Then imagine that the rate of vibration of your bio-crystal structure in the structure of the vacuum is equivalent to the information pouring in and out of you, in the same way that a crystal radio set tuned to a certain frequency allows you to hear a specific radio station. In the body, if the brain is the antennae of the radio set, the tuning dial is the heart, which defines the frequency of information received through the fluid dynamics rhythm of your body, and which can be altered by your emotional state.
Nassim Haramein






sábado, 3 de novembro de 2018

EUROPA ACIDENTAL





Europa acidental.
Europa acidental.

Aqui nem mal nem bem.
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
é porque a gente nasce
de um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
é natural
(naturalmente)
que haja também
gente que é gente de bem
e gente que é apenas gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

O mal
é ter na nossa frente
um mar de sal.
Um mar de gente
que de repente
(é assim mesmo: de repente!)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

Não andar para trás
nem para a frente.

Nascer morto ou vivo
é tão normal
que é indiferente.

E vai-se toda a vida
na corrente.
E a gente morre de repente.
Sempre de costas.
Nunca de frente.
De morte necessária e natural
(naturalmente).

Europa acidental.
Europa acidental.

O principal
não é viver:
é estar presente
nesta maneira ocidental
de apodrecer decentemente.
Esta é uma questão fundamental
(é evidente!).


JOAQUIM PESSOA
in, PORTUGUÊS SUAVE





Jung a diagnosticar Hitler





... Hitler é apenas o megafone que dá voz ao estado de espírito ou à psicologia de 80 milhões de alemães.

... Hitler representa a mente inconsciente não só de todo o povo da Alemanha, mas também de outros países.

... a mesma coisa acontece frequentemente quando lemos histórias policiais. Há uma parte de nós que passa a identificar-se até com os personagens que detestamos. Hitler expressa o que quer e obtém-no.

... Eu não o colocaria como homem, pois individualmente é muito desinteressante e sem importância. Ele é simplesmente um grande fenómeno. Hitler é todo máscara.

... Hitler não pode ser entendido separadamente de um exame dos fatores inconscientes que desempenham seu papel na constituição dele e, de fato, no mundo. É certo que Hitler não se entende a si mesmo; se o fizesse, não seria tão carente de senso de humor e não se levaria tanto a sério. Existem numerosas maneiras em que as forças inconscientes desempenham o seu papel. O inconsciente coletivo é um fato real nas questões humanas. Seriam precisos vários volumes para explicar as suas múltiplas ramificações. Todos nós participamos nele. Num certo sentido, constitui a sabedoria humana acumulada que herdamos inconscientemente; em outros sentidos, envolve as emoções humanas comuns de que todos compartilhamos.

... Ele é virtualmente a nação.

... Uma nação como tal, apesar de todas as pretensões dos estados totalitários, é uma força cega.
Você pode selecionar uma centena de homens muito inteligentes e, quando os juntar todos, eles não serão mais do que uma turba idiota. A multidão não se eleva ao nível das inteligências superiores que ela contém, mas são, pelo contrário, as qualidades que todos têm as que se tornam características dominantes da multidão como um todo.

... Hitler nunca logrou uma relação saudável com essa figura feminina, a que eu chamo ânima. O resultado é que está possuído por ela. Em vez de ser verdadeiramente criativo, ele é, por conseguinte, destrutivo. Eis uma das razões pela qual Hitler é perigoso: ele não possui no seu íntimo as sementes da verdadeira harmonia.

... Perderá o seu emprego quando perder a sua voz.

...Tampouco acredito que ele se converta num ser humano normal. O mais provável é que morra no seu emprego.

... Porque o problema do mundo começa com o indivíduo.

... E o homem em paz consigo mesmo, que se aceita, contribui com uma soma infinitesimal para o bem do universo. Tratem de vossos conflitos privados e pessoais e estarão reduzindo num milionésimo de milionésimo, os conflitos mundiais."




Carl Gustav Jung
in, C. G. Jung: Entrevistas e Encontros






terça-feira, 30 de outubro de 2018

a-ha - Take On Me [ Live From MTV Unplugged, Giske / 2017 ]

Tenho mil irmãs para amar





Tenho mil irmãs para amar sem palavras. 
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas 
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram 
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem, 
é porque eu próprio não me compreendo. 
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me 
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo 
à escola e tenho aquela irmã que é uma 
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.



JOSÉ LUIS PEIXOTO
in, GAVETA DE PAPÉIS 





I am not a noun


Buckminster Fuller holds up a Tensegrity sphere




I live on Earth at present, and I don’t know what I am.
I know that I am not a category.
I am not a thing — a noun.
I seem to be a verb, an evolutionary process – an integral function of the universe. 

– Buckminster Fuller




sábado, 27 de outubro de 2018

FUNERAL BLUES





Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


W. H. AUDEN
in, ANOTHER TIME





As Afinidades Electivas






Um dos grandes clássicos da literatura do Séc XX, “As Afinidades Electivas” do escritor alemão Johann Wolfgang Goethe. É um escritor que está na linha de grandeza de Dante e Shakespeare, os grandes do seu tempo. Os três escreveram muito sobre o sofrimento, a paixão, e a loucura.

É um livro simbólico, que questiona a afinidade entre o Mundo Natural e o Mundo Ético, e o conflito entre a Liberdade da Razão e a Necessidade das Paixões, assim como o desfecho motivado pelas reações mútuas, de acordo com as leis da química, e ainda a complexidade da esfera humana e a necessidade da intervenção de uma Força Superior, que quase sempre aparece como Destino, Deus ou o Diabo.

A expressão “Afinidades Electivas” designa na Química um processo no qual os elementos presentes, de acordo com o seu grau de afinidade, podem desfazer as suas ligações nos compostos tradicionais, e entrar num processo de escolha aparentemente “livre” em novas combinações.
É a chamada Tabela de Afinidades na Química, fixada pela primeira vez pelo químico francês Etienne-François Geoffroy em 1718.

No início do livro, seguimos o casal Eduard e Charlotte que, apaixonados desde a juventude, vivem tranquilamente dedicados à sua propriedade e aos projectos que têm para ela. A transformação dos jardins, a construção de um abrigo, a abertura de novos caminhos, marca o ritmo do entretenimento das personagens com a paisagem e o seu ordenamento.
A personagem Charlotte fala sobre o simbolismo das afinidades e das relações cruzadas ao longo do livro de uma forma muito interessante, no plano do romance e da natureza, numa dialética entre ética e natureza, pulsões e razão, paixão e ordem, liberdade e necessidade, demoníaco e sagrado. Uma mulher determinada, activa, ponderada, gestora das finanças do casal, e totalmente dedicada ao casamento, a ponto de enviar a filha do seu anterior casamento para um internato para se dedicar a Eduard. Ambos apaixonados um pelo outro desde novos mas, por influência dos pais casaram-se por conveniência com pessoas mais velhas. Mais tarde, quando já estavam ambos viúvos, casaram-se e dedicaram-se a rentabilizar as suas propriedades e ao casamento com que tanto sonharam.
No entanto, e apesar de a tanto custo conseguirem ficar juntos, a entrada do capitão Otto e da sobrinha de Charlotte, a Ottilie, nas suas vidas, afasta-os irremediavelmente.
O capitão, amigo de Eduard, que se encontrara sem trabalho, é convidado por este a viver em sua casa, ficando responsável pela administração das propriedades.
A vinda do capitão é antevista por Charlotte com receio:
“Nada é mais decisivo, em qualquer situação, do que a intervenção de um terceiro. Vi amigos, irmãos, amantes, esposos cuja relação se modificou totalmente, cuja situação se transformou por completo com o aparecimento, ocasiona o propositado de outra pessoa”. 
Se havia a reserva ao novo hóspede, rapidamente ela se transformou numa presença desejada, reforçando em Charlotte a vontade de trazer também para junto de si Ottilie, sua sobrinha, uma jovem bonita e discreta que vivia num internato.
Mulher astuta, passou a observar atentamente Otto e Ottilie, sendo da opinião de que deveria familiarizar-se o mais rápido possível com o carácter das pessoas com quem tinha de conviver, de forma a saber o que esperar delas, o que nelas pode incentivar, permitir e perdoar. E cedo se apercebeu que Eduard e Ottilie estavam apaixonados um pelo outro e que o seu casamento estava em risco.

Uma das belezas do livro do Goethe, é a relação dos personagens com a música e com a natureza  paralela às suas relações com o amor. Eduard acaba por se apaixonar por Otille e Charlotte pelo capitão. Os dois amores são recíprocos. Mas como poderiam corresponder se Eduard e Charlotte estavam presos ao casamento?
Cada personagem lida com a situação de forma diferente.
Enquanto Eduard se entrega ao amor romântico e quer valer-se de todos os meios da época para anular o casamento, Charlotte pensa que o amor deve ser contido porque não há maneiras de sair de tal situação.
E é em torno dessa questão que toda a narrativa se desenvolve:
É possível anular o casamento?
É possível permitir o amor?
Quem vencerá?
O casamento ou o amor?

Segundo Goethe, ao contrário de Kant, o acontecer das coisas abre-se permanentemente às forças do acaso, aos impulsos imprevisíveis da natureza humana. Por vezes os indivíduos ficam sobre o domínio de forças invisíveis a que não podem resistir e que lhes impõem o caminho; e muitas vezes as suas tendências parecem dominar arbitrariamente um campo que se situa para lá de toda a Lei. Tudo, mesmo aquilo que eticamente é mais anormal, tem uma faceta à luz da qual se apresenta com grandiosidade. Essa grandiosidade vem da fidelidade à paixão e à ordem, e da sua vivência livre para a morte.
E é aqui que Goethe insere na história o casamento e o adultério, não como uma questão social, mas como um problema ético de sentido humano universal explorando os labirintos da alma humana, com uma nova sensibilidade. Goethe diz que os sentidos têm de dominar sempre para serem atingidos pelo destino, isto é, pela natureza moral, que ganha com a morte a sua liberdade.
Só aí a Lei Moral celebra o seu triunfo.
O casamento, o mundo da ordem que assenta na sociedade burguesa, com a força das paixões e do elementar, para inevitavelmente a Lei Moral triunfar através da consciencialização da Culpa, da Renuncia, e da aceitação da Morte como libertação.

Ottilie, tal como Goethe, não renuncia ao amor de uma forma dolorosa…trata-se de uma recusa do amor por uma impossibilidade pessoal. Apaixona-se inocentemente pelo marido da tia Charlotte, Eduard, paixão essa que irá mudar o rumo da história. Charlotte renuncia à sua paixão pelo capitão Otto, mas Eduard não renuncia à sua paixão por Ottilie. No entanto, a gravidez inesperada de Charlotte impede-os de ficarem juntos e Eduard decide ir para a guerra e lutar até morrer.
Nasce um menino, a que Charlotte dá o nome de Otto, e o bebé acaba por morrer afogado quando ia com Ottilie numa barca de regresso a casa.
Este acontecimento trágico, influência o final da história.

Ottilie nasceu para santa e não para esposa ou amante.
É a personagem típica de um purgatório, não inferno, em que tudo é morno e tíbio, mas com desejo, intuição, premonições, sem vontade de afirmação, sem violência de paixões, e mais como um “amor romântico”. Ela não tem conteúdo ético, está para além do bem e do mal. O seu reino é o da bela aparência, da inocência, que a transforma em vítima à espera de celebrar a própria morte, que não é o resultado de uma livre decisão em consequência de conflitos acumulados, mas de uma pulsão inconsciente que a arrasta ao longo do tempo, e que a afasta da esfera social, ética e física do amor, restando-lhe apenas a esfera mítica onde se refugia, onde olha e escreve no seu diário, e se remete a uma mudez voluntária. É a sua tristeza que a torna muda, e a perda voluntária da linguagem é em Ottilie um gesto radical do corte de relações com um mundo e com uma Ordem com os quais ela sempre se relacionara mal. A sua transfiguração deliberada e forçada é a prova de que o amor como paixão, a paixão do amor como absoluto, não é realizável no âmbito dos conflitos próprios da ordem social e humana, de acordo com uma intervenção de natureza superior.

Para Goethe, o amor é a Força Real que faz mover o Universo. Essa Força Interior, a mais sagrada e divina do mundo, confunde toda a Ordem do mundo. A sociedade do romance, aristocrática, burguesa, decadente, artificial, está inconscientemente doente de tédio melancólico.

Há uma frase do personagem Mittler, advogado, que diz:
“Pensais que existo para dar conselhos? É o oficio mais estúpido que alguém pode exercer. Que cada um oiça o seu próprio conselho e que faça o que não pode deixar de fazer. Se tiver sucesso, que se regozije com a sua sabedoria e com a sua sorte, se fracassar, então, eu estarei à sua disposição. Quem se quer livrar de um mal, sabe sempre o que quer; quem quer melhor do que aquilo que já tem, está completamente cego, joga à cabra-cega, talvez apanhe qualquer coisa, mas o quê?
Fazei o que quiserdes, é completamente indiferente! Pouco importa! Já vi fracassar o que era mais razoável, e a triunfar o que era mais absurdo. Não quebreis a cabeça e, se, de uma maneira ou de outra, as coisas correrem mal, não a quebreis também. Nessa altura virei em vosso auxílio.
Todas as tentativas são aventuras.
O que delas poderá advir ninguém pode prever.
Tais condições novas podem ser férteis em felicidade ou em infelicidade, sem que nós possamos atribuir-nos especialmente méritos ou culpas.”
Este diálogo diz respeito a uma dúvida que Charlotte tinha em relação a ceder ou não ao pedido de Eduard de convidar o capitão Otto e a Ottilie para viverem com eles, prevendo que paixões cruzadas poderiam vir a acontecer, o que se confirmou.
Este Mittler é um advogado moralista, conservador, e que é totalmente contra o divórcio. Considera o casamento um fundamento da sociedade moral, o princípio e o fim de toda a civilização, e a infelicidade de cada um não deve ser tida em conta, visto que, na sua opinião, o Ser Humano gosta de ser infeliz e sofre de impaciência. Defende que os esposos têm uma dívida infindável para o resto da vida um com o outro e só a eternidade a poderá saldar. Chega a dizer assim:
“Não estamos nós também casados com a nossa consciência, de que muitas vezes gostaríamos de nos livrar, porque ela é para nós mais incómoda do que um marido ou uma esposa poderiam ser?”

O Conde e a Baronesa, personagens mais liberais e a favor de viver o amor quando ele surge sem desperdiçar a vida com quem não os faz felizes, são dois personagens mais liberais, esclarecidos, de mente mais aberta, que acabam por se casar a meio da história. Defendem que os Seres Humanos gostam de imaginar as coisas terrenas, e sobretudo, os laços matrimoniais como algo de eterno, romanceado e fantasioso. Dizem que todo o casamento devia ser celebrado apenas por um período de cinco anos, sendo esse espaço de tempo suficiente para aprender a conhecerem-se, incompatibilizarem-se e, se for o caso, reconciliarem-se. As atenções aumentariam à medida que se aproximasse o prazo para a rescisão, o que acabaria por tranquilizar e conquistar a parte descontente, e teriam uma agradável surpresa quando, decorrido o prazo, verificassem que ele já tinha sido prorrogado tacitamente por mais cinco anos.

Otto, o capitão, também tem uma frase interessante:
“ Separa da tua vida tudo o que é negócio. O negócio exige seriedade e rigor; a vida, arbitrariedade. O negócio requer a mais pura lógica; na vida, a inconsequência faz muitas vezes falta, tem mesmo um certo encanto e alegria.
Se estiveres seguro nos negócios, mais livre podes estar na vida. Se misturares ambos, o que é seguro será arrastado e anulado por aquilo que é livre.”

Charlotte e o seu marido Eduard, quando falavam de afinidades químicas, em termos de minerais e de terra, fazem um diálogo bastante interessante:
“ Aqui trata-se apenas de terras e de minerais. Mas o Homem é um verdadeiro Narciso: gosta de ver a sua imagem em tudo. Aquilo que o azougue é para o espelho, julga ele ser para o Universo. É assim que ele trata tudo o que encontra, à exceção de si próprio: tanto a sua sabedoria como a sua loucura, a ua vontade como o seu capricho, confere-os aos animais, plantas, aos elementos e aos deuses.
O que se entende aqui por Afinidades?
Em todos os seres da natureza, notamos que há neles uma relação consigo próprios. Só depois de se estar de acordo quanto ao que é conhecido, se pode em conjunto, caminhar em direção ao que é desconhecido. Imagina a água, o óleo, o mercúrio: aí encontrarás uma unidade, uma coesão das suas partes. E esta união nunca a abandonam, a não ser pela força. Quando essa força é eliminada, voltam a unir-se. As gotas da chuva juntam-se e formam correntes; o mercúrio, quando separado em pequenas esferas, volta a unir-se. Esta atração pura que a fluidez torna possível, manifesta-se sempre na forma de Esfera.
Tal como cada Ser tem uma atração por si próprio, também terá em relação a outros Seres, e essas relações serão diferentes, como diferente é a natureza dos seres. Nuns casos encontrar-se-ão como amigos que se juntam, se unem, sem modificarem o que quer que seja um no outro, tal como o vinho se mistura com a água.
Outros, pelo contrário, persistem em manter-se estranhos lado a lado, e não se unirão, nem por mistura nem por fricção mecânicas; tal como o óleo e a água que, agitados e misturados, um instante depois voltam a separar-se.
Isso faz-me lembrar das pessoas que um dia conhecemos e dos meios sociais onde vivemos, em que as massas se defrontam nas diversas condições sociais, nas profissões, na nobreza, no Estado Militar e Civil, em que uns se misturam e outros nunca s unem.
No entanto, tal como estes que estão ligados por costumes e leis, também no mundo químico existem mediadores para ligar o que mutuamente se repele. É assim que ligamos a água com o óleo, com um sal alclino.
Aquelas substâncias que, ao encontrarem-se, se apropriam rapidamente uma da outra e se determinam mutuamente, apelidamo-las de afins. Essa afinidade é bastante visível nos alcaloides e nos ácidos, os quais, embora se oponham uns aos outros, se atraem ou se ligam de forma mais marcada, se modificam e, em conjunto, formam um novo corpo.
O calcário, revela por todos os ácidos uma grande inclinação, um desejo pronunciado de união.
Não se trata de uma afinidade de sangue, mas sim uma afinidade de espírito ou de alma. É precisamente desta forma que entre os Seres Humanos podem surgir amizades profundas, visto que qualidades opostas atraem-se e tornam possível uma união mais íntima. (…)
Os casos mais complexos são os mais interessantes.
Só através do conhecimentos dos vários graus de afinidade, ficamos a conhecer as relações mais próximas e mais fortes, as mais distantes e mais fracas. As afinidades só se tornam interessantes quando provocam separações.
O reunir é uma arte superior, um mérito maior. Um mediador da união, seria em qualquer domínio do mundo, muito bem vindo.
Por exemplo, o que designamos por pedra calcária, é uma terra calcária mais ou menos pura, ligada intimamente a um ácido fraco de forma gasosa. Se introduzirmos um pedaço dessa pedra em ácido sulfúrico diluído, este ataca o calcário e juntos formam o gesso; aquele ácido gasoso fraco, por sua vez liberta-se. Operou-se uma separação, uma nova combinação, ou seja, uma Afinidade Electiva, porque uma relação foi preferida a outra, que uma foi escolhida em detrimento da outra.
E Charlotte responde: eu nunca veria aqui uma escolha, antes uma necessidade natural, ou talvez seja apenas uma questão ocasional. A ocasião faz as relações, assim como a ocasião faz o ladrão, e quando se trata das substâncias naturais, parece-me que a escolha está apenas nas mãos do químico que reúne estas substâncias. Uma vez que elas se encontrem reunidas, que Deus as proteja! No caso presente, apenas lamento o pobre ácido gasoso condenado a ficar sozinho no infinito.
Apenas depende dele, retomou Otto, ligar-se à água e, como fonte de água mineral, servir de leniivo aos que gozam de saúde e aos doentes.
E Charlotte responde: o gesso bem pode falar, está pronto, é um corpo, tem tudo o que precisa, enquanto aquele ser banido pode ter ainda muito que sofrer até encontrar de novo um refúgio.
Por exemplo, o Eduard meu marido é o calcário, e tu Otto és o ácido sulfúrico que atacas o calcário e transformam-se em gesso, e eu sou o ácido fraco gasoso que é banido.
Os Seres Humanos, no fundo estão muitos degraus acima destes elementos, e será conveniente que se voltem novamente para si próprios e que aproveitem o ensejo para refletir bem no valor das escolhas e das afinidades. Conheço um número suficiente de casos em que uma ligação íntima entre dois seres , aparentemente indissolúvel, foi destruída pela intervenção acidental de um terceiro e em que um dos dois elementos , que tinham sido tão unidos, se viu arremessado para longe.
Num caso desses, disse Eduard, os químicos são muito galantes…acrescentam um quarto elemento, para que nenhum deles vá de mãos a abanar. Esses casos são os mais interessantes e os mais curiosos, já que eles podem ilustrar a atração, a afinidade, o abandono, a reunião, que se entrecruzam; quatro substâncias, até então unidas duas a duas, são postas em contacto, abandonam a sua antiga união e iniciam uma nova. Nesta forma de se abandonar e de se agarrar, nesta fuga e nesta busca, crê-se na realidade, ver uma determinação superior. Concede-se a tais substâncias uma espécie de vontade e de escolha, e considera-se a fórmula das afinidades electivas completamente justificada.
Há substâncias que parecem mortas e que, interiormente estão sempre prontas para uma atividade, procuram-se umas às outras, atraem-se, agarram-se, destroem, absorvem, devoram, e, em seguida, depois de se terem unido intimamente, manifestam-se outra vez, sob uma forma renovada, nova, inesperada. Só então se lhes atribui uma vida eterna, até mesmo sensibilidade e entendimento, pois sentimos que os nossos sentidos mal chegam para as observar devidamente, e a nossa razão mal dá para as apreender.”

Outros personagens passaram pela casa de Charlotte, após a ida de Eduard para a guerra...
O ajudante da Directora do Internato, que era apaixonado por Ottilie foi um deles.
Esta é uma das várias reflexões que faz ao longo do livro:
" Enquanto a vida nos impele, julgamos agir por nós próprios, escolher a nossa actividade, os nossos prazeres; mas, se olharmos mais atentamente, veremos que não se trata senão dos intentos, das inclinações do tempo, nos quais nós somos obrigados a colaborar. e quem é que resiste à torrente que o envolve? O tempo avança e, com ele, ideias, opiniões, preconceitos e caprichos. Quando a juventude de um filho coincide precisamente com uma época de transição, pode ter-se a certeza de que ele não terá nada em comum com o pai. Se este viveu num tempo em que se tinha o gosto de adquirir, de assegurar, de demarcar, de cercar o que se adquirira, e de fazer depender o prazer dessa propriedade do seu afastamento do mundo, aquele procurará a todo o custo expandir-se, relacionar-se, estender-se e abrir o que estava fechado."

Mais tarde, recebem a visita de um Inglês, amigo de Eduard, e que também faz uma reflexão sobre o mesmo assunto:
" Acostumei-me a sentir-me bem em toda a parte, e acabei por achar que não há nada de mais cómodo do que ver os outros construírem, plantarem e preocuparem-se com os assuntos domésticos em meu lugar. Não anseio regressar às minhas propriedades, sobretudo porque o meu filho, para quem eu efectivamente fiz e organizei tudo, a quem eu esperava transmiti-las, com quem eu esperava ainda desfrutá-las, não se interessa por nada daquilo, foi antes para a Índia, para aí, como tantos outros, aplicar a sua vida mais nobremente, ou mesmo para a dissipar.
Despendemos demasiado tempo com preparativos para a vida. Querendo abranger cada vez mais, para vivermos no fim cada vez mais incomodamente.
Quem goza agora a minha casa, o meu parque, os meus jardins?
Eu não, nem sequer os meus, mas hóspedes estranhos, curiosos.
Estamos sempre irrequietos, falta sempre alguma coisa, estamos sempre a instalar-nos para voltar a partir, e se não o fazemos por desejo e por capricho, são as circunstâncias, as paixões, os acasos, a necessidade e tudo o mais que nos obrigam a tal.
Creio agora estar no bom caminho, porque me considero ininterruptamente um viajante que a muito renuncia para muito desfrutar."

O livro é uma tragédia sobre a impraticabilidade do amor que condena os amantes ao desencontro por razões morais, sociais e... cósmicas. O sucessivo adiamento da vivência amorosa é imposto pela conjuntura tirânica que no início do século XIX preside à mentalidade eminentemente aristocrática defensora do casamento entre classes, mas acima de tudo apologista da instituição do matrimónio como sagrada (embora esta posição seja trabalhada pelo autor por forma a colocar em evidência a hipocrisia característica do apregoado mas não praticado).
Por isso a manifestação de um desejo de união só porque se ama, é rejeitado como uma espécie de sacrilégio.

Não mencionei o vocábulo “tragédia” em vão... com efeito, o elemento trágico interfere de forma definitiva e paira na atmosfera, por vezes aparentemente idílica do romance, desde o seu início com claros sinais premonitórios de acontecimentos dúbios a vir.
Goethe escreve, então, uma tragédia sob a forma de romance o que não deixa de ser curioso tendo em consideração a admiração do autor pela tragédia grega, sendo que ele próprio elaborou por exemplo uma Ifigénia em Táurida tida como uma das incontornáveis tragédias da literatura alemã.

Uma convivência a quatro converte-se rapidamente não na destruição de um lar como seria de esperar, mas na transição (nunca atingida na sua totalidade) do que se julgava querer para o que indubitavelmente se quer. A tragédia reside na circunstância de que o encontro destas almas gémeas não é durável porque lhes é vedado o acesso à concretização do amor. Um silêncio cúmplice está subjacente à estranha aceitação do adultério debaixo do mesmo tecto outrora partilhado por um casal que pensava ser feliz. A “troca” é quase natural até que o mundo exterior se dá conta do perigo que ronda aquela casa e os amantes se afastam, momento a partir do qual se inicia o caminho descendente a percorrer pelas personagens e exposto na segunda parte do livro.
Uma estranha força que me ocorre apenas designar de “cósmica” apaga a esperança no triunfo do amor, daí talvez o final místico da obra que mais não é do que, provavelmente, a vitória de uma outra forma de amor... e afinal, o amor não morre com as pessoas.

O final do livro, como todos os finais de Goethe, suscita inúmeras possibilidades de reflexão sobre a natureza, sobre o ser humano e sobre a civilização.
Tal como acontece em "Os sofrimentos do jovem Werther", e em "Fausto".
Neste livro, ao contrário dos outros, a escrita é mais fluída, e a atmosfera mais tranquila, harmoniosa.

"E assim descansam os dois amantes 
um ao lado do outro. 
A quietude paira sobre sua morada; 
anjos serenos, seus afins, 
olham-nos do espaço. 
E que momento feliz aquele 
em que, um dia, 
despertarão juntos!"



(Epílogo de Afinidades Eletivas)



“As Afinidades Electivas”, obra escrita em 1809, é apontada como um espelho do matrimónio do próprio Goethe, sendo um convite a olhar o casamento e as suas forças contrárias: o divórcio e a infidelidade.

Houve na vida de Goethe, um nome predominante de mulher.
Coincidência, acaso ou adoração?
Que influência teria exercido sobre o grande génio o nome "Charlotte"?

Na vida real, ele amou quase sempre uma Charlotte. 
Influência da própria mulher ou do nome?

Charlotte Kestner e Charlotte von Stein passaram por sua vida, como amantes adoradas e musas inspiradoras.
Na primeira, temos a Charlotte do apaixonado "Werther"; na última, a sublime Charlotte, heroína de "Afinidades Eletivas". 

Na sua imensa bagagem literária, vamos encontrar sempre "Charlotte", sublimada, exaltada, dignificada na beleza de sua prosa, no lirismo apaixonado de suas rimas.
Mas qual a que lhe inspirou o amor, que transbordava de seu pensamento?
Todas, ou cada uma por sua vez?
Teria havido aquela, que nenhuma outra igualava, a insubstituível?

Em Charlotte von Stein, muito mais velha que ele, com muitos filhos, teria sido a mulher ou o nome, que o atraiu? "O belo talismã de minha vida", como ele próprio a chamava. Entre todas as beldades da corte, para ele, foi ela, sem dúvida, a mais sedutora. A primeira vez que a viu tinha apenas, 26 anos e os 33 anos deliciosos dessa bela mulher, espirituosa, culta, delicada e ambiciosa, acenderam, na alma do jovem, o fogo da paixão.

A verdade é que, em Weimar, Charlotte sentiu-se profundamente ferida e decepcionada, ao descobrir a ligação de seu amigo com Cristiana Wulpius, de origem modesta, mas que adorava o poeta; furiosa, deixou a cidade, indo para uma estação balneária, não sem deixar-lhe uma carta, cheia de recriminações, a qual só foi respondida algumas semanas depois, quando o amigo lhe deu algumas explicações ponderadas, fazendo-a ver que ele não podia abandonar Cristiana.

Goethe temia afrontar a ira de sua amiga e a sociedade de Weimar; assim é que, vários anos, apresentou a "doce Cristiana" como governanta de sua casa. 
Só se resolveu a levá-la ao altar, quando, em 1806, achando-se gravemente doente, deveu a vida quase que exclusivamente aos cuidados incansáveis da dedicada jovem. 

Como todos os círculos sociais, o de Weimar sentia também o mórbido prazer de dar curso à maledicência humana, e essa própria elite, que atacara a ligação ilícita dos dois, não aceitou, do mesmo modo, com agrado, aquele casamento "desigual".

Poucos meses antes da sua morte, Charlotte escreve a Goethe, no dia do seu aniversário, como um adeus velado:
 "Mil venturas e bênçãos pelo dia de hoje. Possam os bons espíritos influir para que tudo, de belo e bom, lhe seja conservado, meu caro amigo. Aceite meus votos de um futuro livre de cuidados; para mim, porém, só desejo, caro, mui caro amigo, sua afeição à minha vida, que se extingue". 

Charlotte von Stein (nascida von Schardt).
Momentos antes de morrer, expressou a vontade de que não desejava que seu corpo passasse pela casa de Goethe: queria poupar-lhe esse sofrimento.