sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Visiting Sacred Sites





Visiting a sacred site can be a useful tool 
to open something within you 
that has remained inaccessible.




From time immemorial, the hands of men and women have built sites guided by both the earth's life force and benevolent beings of light. It is because of this guidance that the sites we deem sacred have long served as repositories of wisdom, energy, and illumination that can be accessed by all. The needs that inspire seekers to converge upon sites known to be sacred vary by individual. Some crave spiritual fulfillment above all else, while others hope to draw upon a site's energy for the purpose of enlightenment, healing, or deep meditation, awareness and knowledge of information long gone. 

Sacred sites can appear insignificant to those who close themselves off from the notion of a living earth. But sites can provide us with a link to a unified consciousness that involves the living and the dead, infinite cultures, the physical plane, and the spiritual world. 
When we look beyond well-known sites like Stonehenge, we discover energetically active sites such as the Iron Age fogou caves of Cornwall, England, or the pyramids of Meroe in the Sudan.
Similarly, it is easy to imagine that hallowed places exist only in remote or exotic locales.
Yet many of the most richly vital sites are easily accessible, and visiting these lesser-known sites can be a profoundly moving experience. One such site, Serpent Mound in Ohio, was thought to be created by the ancient Adena peoples nearly 1,000 years ago to align with the summer and winter solstices. Its precise purpose remains unclear, but many who visit the site conclude that it was meant to be a conduit through which cosmic energy could flow into the earth. 

The sacred sites that call to you from afar-capturing your imagination and resonating deep within your soul-will nearly always be those that can help you forge a deeper connection with the divine energy that sustains all life.

During your pilgrimage, reaffirm your intention to accept whatever gifts are conveyed to you through the sites you visit. Your receptiveness will help you establish lasting relationships with these sites so that you can draw upon their peace and their power from wherever you are.




MADISYN TAYLOR





quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quando me invade a preguiça, é fácil





Uma cor que se desfaz ao pé da nuvem com terebentina
até ficar de um vermelho ineficaz, numa varanda onde eu, aos 42,
estou imóvel à medida que as luzes se acendem saudando
e temendo a noite, gente que passa, um zumbido leve de automóveis, 
o céu imediato como uma girândola de lâmpadas e um escuro-chuva.
O que te diz o horizonte?, é significativo ou portátil?
Uma paisagem de tinta mal emendada com um trapo.

Aos 42, em vez de solidão augúrios, e a sabedoria trocada
por pressentimentos. Ilusões apenas o "eu" onde tudo acontece,
ou a figura subjectiva que garante o crepúsculo.
A tarde é que existe e decai, sem mais, em rumores e semáforos,
o eu é coisa indistinta, apagável como uma mancha.
Escrevo, mas tudo o que escreva está submerso pelo queixume
dos pássaros que enchem as árvores e se ouvem no futuro.


Pedro Mexia





CRESCE, AMADURECE





Somos um pacote de energia, a ciência finalmente já o comprovou. No entanto, há séculos ou mesmo milénios que as antigas sabedorias esotéricas o afirmam e procuraram entender essas mesmas energias.

Os Mestres Taoístas com o seu Yin / Yang. A Numerologia com os seus 9 Números. A Astrologia com os 12 Signos. A literatura indiana védica com os 7 Chakras. Acredito mesmo que em todas as culturas iremos encontrar outras interessantes e diferentes maneiras de explicar o mesmo fenómeno.

Em todas estas ancestrais ciências ou sistemas filosóficos encontramos algo comum a todas: a dualidade. Polos negativos e positivos. Energias femininas e masculinas. Aspectos luz e aspectos sombra. A Mãe Terra, o Pai Céu. E tudo se comprova quando olhamos para a Natureza, que na sua maravilhosa diversidade, nos mostra como a dualidade pode ser extraordinária e maravilhosa.

Depois de séculos de amnésia em que acreditámos que Deus e a vida seriam apenas o lado positivo / amor / feliz / poderoso / ativo / luz, estamos finalmente a começar a aprender a aceitar e a integrar o lado negativo / medo / triste / desempoderado / sensível / sombra com parte complementar do Todo e não algo a rejeitar.

Aos poucos vamos percebendo que o desafio da vida não nos pede conquistas exteriores ou que impressionemos quem nos rodeia, ou mesmo Deus, com todos os aspectos positivos. O grande e mais nobre desafio é interior, ou seja, o reconhecimento de quem já somos; esta bela mistura de duas energias complementares que não são mais do que a individualização de Deus.

A partir desta visão maravilhosa, vamos então encontrar a dualidade em tudo e de todas as maneiras. Não só dentro de nós nas nossas energias, mas também nas nossas necessidades exteriores e interiores obviamente.

Aliás, tenho mesmo observado que um dos maiores desafios diários é precisamente gerir as necessidades básicas do corpo, como alimento, segurança, proteção, conforto, descanso e todos os imensos movimentos diários que precisamos fazer para as satisfazer como desenvolver e manter fontes de rendimento saudáveis que permitam então construir fundações saudáveis.
Mas também as necessidades do espírito: amor próprio, paz interior, sabedoria, consciência do nosso propósito espiritual, responsabilidade pela nossa energia, liberdade de sermos quem somos, espaço e tempo para sentir, meditar, aprender, amadurecer e servir.

Quanto mais consciência temos deste imenso e permanente trabalho pessoal duplo, mais nos responsabilizamos por ele. Até que nasça esta consciência, vivemos em estado de carência, completamente inconscientes e incapazes de nos auto gerirmos e equilibrarmos, vivendo em estado de exigência e cobrança permanente a quem nos rodeia, tal como faz um bebé no berço.

No entanto, o processo de maturidade começa no nascimento e irá sempre acompanhar-nos pela vida fora convidando-nos a crescer e a amadurecer de maneira a que um dia consigamos “desmamar” as nossas dependências e aprender que somos capazes de crescer e caminhar sozinhos.

Porque não nos foi ensinado este processo, porque o nosso sistema filosófico não nos incutiu responsabilidade por quem somos, ou sequer pelo nosso trabalho interno, a compensação passou a ser feita no exterior, no mundo lá fora, nas relações com outros e no poder material. Ou seja, as nossas necessidades básicas tanto interiores como exteriores mantêm-se as mesmas, mas em vez do trabalho estar a acontecer dentro, passou a ser feito fora. Por esta razão vemos adultos imaturos, dependentes, carentes, exigentes, cobradores que apenas o são porque nunca fizeram o seu processo de maturidade emocional interior.

Para conseguirmos manter uma energia equilibrada e relações de qualidade, precisamos então amadurecer. Voltar ao passado dentro de nós e resgatar a nossa criança a quem não foi ensinado o processo de responsabilidade e maturidade emocional.

Para conquistarmos essa autonomia e liberdade, precisamos tomar consciência de onde, com quem e de que maneiras sobrevivemos no estado de imaturidade e dependência do “bebé”. Onde ainda fazemos “birras”, a quem cobramos o que precisamos. De que maneiras manipulamos para termos o que queremos.

Não será difícil de identificar onde precisamos amadurecer, pois serão obviamente as áreas de vida e relações onde a maturidade nunca chegou e por isso o conflito, a dor e a perda surgem como consequência e proposta de amadurecimento.

Serão essas as áreas de vida onde nos será pedida maturidade e uma nova atitude de responsabilização e libertação do outro. Quanto mais percebemos o fenómeno, mais fácil se torna de identifica-lo por isso deixo-te com algumas questões de maneira a encontrares na tua vida, onde a imaturidade e irresponsabilidade ainda reinam e onde obviamente terás que amadurecer e responsabilizar-te por criar uma nova realidade.

1- Ainda acreditas que o teu relacionamento é a fonte dos teus problemas?
Então o que estás a fazer para decidir como pretendes resolver essa área de vida?
2- Ainda acreditas que o teu emprego te desgasta e não tem nada a ver contigo?
Então que investimentos estás a fazer para criar uma nova realidade que te faça mais sentido?
3- Ainda acreditas que as tuas maiores dores vêm do amor que os teus pais não te deram?
Então o que tens feito para perceber porque os escolheste?
4- Ainda acreditas que a culpa dos teus problemas é a falta de dinheiro?
Então o que estás a fazer para te valorizares mais e investires mais em ti de maneira a atraíres mais abundância?
5- Ainda acreditas que se tivesses escolhido diferente no passado serias feliz hoje?
Então o que estás a fazer para fazeres as pazes com a vida que escolheste?
6- Ainda acreditas que tudo te corre mal e que não tens sorte?
Então o que estás a fazer para descobrir que tudo na vida está exatamente como deve estar para a nossa evolução e que te cabe a ti superar os desafios?
7- Ainda acreditas que se os teus filhos te respeitassem mais, fossem mais maduros e fizessem melhores escolhas que tudo seria mais fácil?
Então o que estás a fazer para lhes mostrares limites e os inspirares a seguir o teu exemplo?
8- Ainda acreditas que és uma vitima das circunstâncias?
Então o que estás a fazer para perceberes melhor a lei do karma?

Tudo começa e acaba connosco. 
As interações com o mundo e com os outros servem para nos descobrirmos e nos tornarmos capazes de evoluir e amadurecer emocional e espiritualmente.
Quando voltamos ao ponto interior de responsabilidade pessoal, podemos então fazer atrair quem já esteja nesse processo também e será dessa nova postura que nascerá uma nova forma de relacionar onde a responsabilidade, a maturidade e a liberdade serão a base do verdadeiro amor tanto individual como a dois.


Vera Luz




Graham Hancock on the Great Pyramid...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Rosto Afogado





Para sempre um luar de naufrágio 
anunciará a aurora fria. 
Para sempre o teu rosto afogado, 
entre retratos e vendedores ambulantes, 
entre cigarros e gente sem destino, 
flutuará rodeado de escamas cintilantes. 

Se me pudesse matar, 
seria pela curva doce dos teus olhos, 
pela tua fronte de bosque adormecido, 
pela tua voz onde sempre amanhecia, 
pelos teus cabelos onde o rumor da sombra 
era um rumor de festa, 
pela tua boca onde os peixes se esqueciam 
de continuar a viagem nupcial. 
Mas a minha morte é este vaguear contigo
na parte mais débil do meu corpo, 
com uma espinha de silêncio 
atravessada na garganta. 

Não sei se te procuro ou se me esqueço 
de ti quando acaso me debruço 
nuns olhos subitamente acesos 
ao dobrar duma esquina, 
na boca dos anjos embriagados
de tanta solidão bebida pelos bares, 
nas mãos levemente adolescentes 
pousadas na indolência dos joelhos. 
Quem me dirá que não é verdade 
o teu rosto afogado, o teu rosto perdido, 
de sombra em sombra, nas ruas da cidade? 

Ninguém te conheceu, 
ninguém viu romper a luz na tua cama, 
ninguém sabe, ninguém, 
que o teu corpo, continente selvagem, 
se desvelava por uma pedra branca
atirada contra o nevoeiro. 

Por isso escrevo esta elegia 
como quem oferece a luz dos olhos; 
por isso canto o teu rosto afogado 
como quem canta um funeral de espigas. 


Eugénio de Andrade





The Paradox of Spirit






Each of us has a spiritual self that animates our bodies and infuses our thoughts and feelings. 
Our language is limited to the world we know for descriptions of something that perhaps cannot be fully comprehended by the human mind.
Therefore, only metaphors approach the expressions that give us a true sense of our spiritual nature.

The paradox lies in opposing concepts, all of which are true at the same time.
And in harmonizing the opposites, we begin to know the wonders of the spirit. 

The self is not small or big but is both at the same time.
Our spirit is like a drop in the ocean of spiritual energy.
Although our spirit seems like a small, disconnected part of a larger whole, it is still made of the same things and can become part of the vast ocean once again.
Our individual spirit seems to inhabit our bodies like a passenger in a vehicle but at the same time is not bound by our bodies.

Spirits can reach across the miles to touch the heart of a loved one or expand to become one with the universe. We may feel small and perhaps insignificantly young when we look up at the stars, but we are made of the same basic elements. Perhaps looking at the stars is merely a reflection of what is going on within each atom and cell of our being.

We are a universe within a universe.
Our spirits are ever renewing, yet ageless and eternal.
So the self is not new or old but both at once. 

So our spiritual self is not small or big, new or old.
We may experience life as good and bad, right and wrong, happy and sad, but this is the experience of the material world of dualities, not the truth of our spiritual nature.
By going within to touch the eternal and changeless energy at our center, we can go beyond the contrasting metaphors to the experience of oneness.
And in that connection we can know big and small, new and old, movement and stillness.
By accepting the paradox of spirit, we open ourselves to the fullness of our own being.




MADISYN TAYLOR




terça-feira, 10 de outubro de 2017

Desencontro





Só quem procura sabe como há dias 
de imensa paz deserta; pelas ruas 
a luz perpassa dividida em duas: 
a luz que pousa nas paredes frias, 
outra que oscila desenhando estrias 
nos corpos ascendentes como luas 
suspensas, vagas, deslizantes, nuas, 
alheias, recortadas e sombrias. 

E nada coexiste. Nenhum gesto 
a um gesto corresponde; olhar nenhum 
perfura a placidez, como de incesto, 

de procurar em vão; em vão desponta 
a solidão sem fim, sem nome algum - 
- que mesmo o que se encontra não se encontra. 




Jorge de Sena
in, "Post-Scriptum"




Servidão Humana





Servidão Humana, publicado em 1915, é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham, conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude ( o autor confessou que a escrita de Servidão Humana serviu para se libertar de vários demónios pessoais), dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. 

Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre. Philip vê-se perdidamente apaixonado por Mildred, uma mulher que se pode dizer ser quase desprezível e desinteressante, da qual não se consegue libertar e pela qual contraria o seu eu mais racional incontáveis vezes.
O que nos mostra que existe em cada indivíduo uma dicotomia interior entre o seu carácter racional e os seus impulsos irracionais, ou seja, os seus desejos mais primários, que levam à busca do prazer imediato, pelo que ficará sempre a questão:
Conseguirá um ser humano alcançar um nível de consciência tal que lhe permita ser dono das suas próprias paixões, e não escravo delas? 

É uma viagem às profundezas da alma humana, às catacumbas do conservadorismo britânico e às razões mais remotas da construção que fazemos da infelicidade.
Philip viveu em função da liberdade até se deixar escravizar por ela. 
A vida só poderia ser vivida de forma absolutamente livre. Essa seria a sua condenação.
Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.


Philip Carey, é um jovem que nasce com uma deficiência física ( um pé boto) e  fica órfão com 9 anos. Criado pelo o seu tio e padrinho, vigário de Blackstable, irá iniciar uma longa e dolorosa peregrinação que nos levará consigo ao longo do seu desenvolvimento físico e emocional. A sua deformidade em muito lhe irá dificultar a vida. Servirá de molde "deformador" de carácter, mas devido a ela irá adquirir o poder da introspecção através da qual desenvolverá a sua intensa apreciação da beleza, a sua paixão pela arte e pela literatura, e o seu interesse pelo espectáculo da vida.
O ridículo e o desprezo de que foi vítima levam-no a fechar-se sobre si mesmo mas, nas palavras do próprio autor, fazendo desabrochar aquelas flores que jamais perdem a fragrância.

"Ansiava por aventuras e sentia-se ridículo por não ter ainda, na sua idade, experimentado aquilo que a ficção lhe ensinara ser a coisa mais importante da vida...Possuía, no entanto, o dom infeliz de ver tudo como era na verdade, e a realidade diferia terrivelmente do ideal dos seus sonhos.
Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os seus falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contacto com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de selecção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através de uma nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. O estranho é que as próprias pessoas que sofreram esses amargos desenganos trabalham inconscientemente, movidas por irresistível força íntima, para criar essa mesma atmosfera." 

Servidão Humana é um romance sobre o ser humano que pensa sobre a sua existência. 
Sobre quem faz uma viagem diária pelo auto-conhecimento, a maior parte das vezes tortuosa.
De quem procura um modelo pelo qual reger o seu comportamento, e justificar tanto a sua conduta geral como as suas acções particulares.

Liberdade e felicidade são dois conceitos frequentemente incompatíveis; somos livres de procurar as situações mais gratificantes possíveis; isso leva-nos, no entanto, a uma busca interminável em que acaba por se transformar a própria vida.
A liberdade de procurar ser feliz faz com que a procura se eternize. 
E quase nos esquecemos de viver.
O livro demonstra tão bem a forma como o ser humano precisa de ser servo. 
E se não tem um “senhor” a quem dedicar essa servidão, então torna-se servo dele próprio.
Philip tornou-se servo da sua própria liberdade, portanto, das suas próprias decisões, tantas vezes escravizadoras que o conduziram à pobreza, à desgraça; à infelicidade.

"Nada mais degradante do que as contínuas preocupações com os meios de subsistência. As pessoas que desprezam o dinheiro só me inspiram desdém. São hipócritas ou idiotas. O dinheiro é como que um sexto sentido, sem o qual não podemos usar de modo completo os outros cinco. Sem um rendimento decente, metade das possibilidades da vida ficam perdidas para nós. O único cuidado que se deve ter é não pagar mais de um xelim pelo xelim que se ganha. Há quem diga que a pobreza é o melhor aguilhão para o artista. Esses nunca lhe sentiram a ponta nas carnes. Não imaginam quanto a pobreza rebaixa. Expõe-nos a humilhações sem fim, corta-nos as asas, corrói-nos a alma como um cancro. Não é riqueza o que se pede, mas o necessário para manter a dignidade, para trabalhar sem embaraços, ser generoso, franco e independente. Lamento de todo o coração o artista, escritor ou pintor, que depende inteiramente da sua arte para viver."

A grande questão, posta por Cronshaw a Philip no início do livro foi:
Qual o sentido da vida?
Comparou o sentido da vida a um tapete persa...em que cada um faz o seu próprio desenho...
Talvez o sentido da vida se encontre algures entre o amor e a liberdade...


Na parte final do livro, finalmente, Philip confronta-se com ele mesmo e não com o seu futuro. Ao mesmo tempo dá conta da realidade social que o rodeia – da miséria com que se vive na Londres civilizada do século XX.
O grande problema de Philip era “a paixão de viver no futuro”; o futuro e a liberdade por oposição ao amor e ao presente. Estas duas dualidades resumem os conflitos emocionais de Philip e, talvez, os grandes conflitos de qualquer alma humana. 

"Pensando na longa odisseia do seu passado, aceitava-a alegremente. Aceitava a própria deformidade que tão dura lhe fizera a vida. Sabia que ela lhe deformara também o carácter, mas percebia agora que, graças a ela adquirira aquele poder de introspecção que tanto prazer lhe dava. Sem isso, jamais possuiria a sua aguda apreciação da beleza, a paixão da arte e da literatura, o interesse no variado espectáculo da vida. O ridículo e o desprezo de que fora tantas vezes alvo haviam-lhe dado vida interior e feito desabrochar aquelas flores que, sabia-o ele, jamais perderiam a sua fragrância. Via depois que, a normalidade era a coisa mais rara do mundo: todos tinham algum defeito de corpo ou de espírito.Lembrou-se de toda a gente que conhecera, via uma longa procissão deformada física e mentalmente, alguns com doença do espírito, fraqueza de vontade ou tendência para a embriaguez. Naquele momento podia sentir por todos eles compaixão. Não eram responsáveis pelas suas acções. A única atitude razoável era aceitar a parte boa dos homens e ter paciência com as suas faltas. (...)
Parecia-lhe que tudo estava ali ao alcance da sua mão. Que toda a sua vida aspirara aos ideais, que os outros com as suas palavras e escritos tinham inculcado nele, e nunca seguira o desejo do seu próprio coração. A sua conduta fora influenciada pelo que julgava dever fazer e não pelo que desejava de toda a alma. Vivera constantemente no futuro, e o presente sempre lhe fugira por entre os dedos.
Os seus ideais?
Pensou no desejo de formar um desenho complexo e belo com as miríades de factos insignificantes da vida: não vira também que o desenho mais simples, aquele segundo o qual o homem nasce, trabalha, casa, procria e morre, era de certo modo o mais perfeito?
Podia bem ser que, abandonar-se à felicidade fosse aceitar a derrota; mas era uma derrota melhor do que muitas vitórias."





segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Mulher Mais Bonita do Mundo





estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto
in, "A Casa, a Escuridão"





O Príncipe e a Andorinha





O príncipe passava os dias olhando pela janela esperando que algo novo acontecesse. Tinha somente um servo que se encarregava de fazer as compras e manter o castelo limpo.
“Que vida aborrecida”, ele suspirava.

Em uma manhã de abril, uma andorinha pousou na sua janela. 
“Oh, que criatura pequena e delicada”, disse o príncipe.
A andorinha o presenteou com uma curta melodia e se foi.
Ele ficou maravilhado: o seu canto parecia ser o mais lindo do mundo e a sua plumagem a mais original. Um ser único!

O príncipe aguardava ansiosamente o seu regresso.
O dia tão esperado chegou e a andorinha voltou para cantar outra canção. Ele ficou muito feliz e pouco antes da andorinha voar novamente se perguntou:
“Será que ela está com frio?

Na terceira vez que o pássaro voltou, o príncipe se preocupou se ela estava com fome. 
Nos dias seguintes, ele se dedicou a construir uma casa para a andorinha.
Ele mandou o seu servo comprar madeiras, pregos e caçar insetos.
Finalmente, depois de várias tentativas desajeitadas, exigiu que o servo construísse a casa.
“Pássaro maldito”, murmurava o servo.

Colocou dentro da casa os insetos, a água e tecidos de seda para fazer uma cama.
Quando a viu pousada no parapeito da janela, aproximou a casa e ficou observando como ela bebia a água e aproveitava a comida que ele havia preparado.
“Você gosta destes insetos, minha doce andorinha? Eu os cacei para você”. 
Com um breve trinado a andorinha pareceu concordar e retomou o seu voo.

A andorinha não voltou e o príncipe foi invadido pela ansiedade.
E se ela nunca mais voltar?
E se encontrar uma casa melhor?
Talvez outros príncipes tenham construído casas melhores e caçado os insetos.
Não podia permitir.
Não existia uma andorinha igual a essa no mundo!

O príncipe passou dois dias sem dormir e sem pensar em outra coisa, até que decidiu fabricar uma porta com cadeado para a pequena casa. 
Quando a andorinha voltou e entrou para provar a comida, o príncipe trancou a porta.
“Eu te amo, nunca mais lhe faltará água, comida e não sentirá frio”, disse ele.

Um pouco confusa, a andorinha se deixou levar, a princípio pela comodidade. 
Aproveitava o calor da sua nova casa e tinha comida ao seu alcance, sem precisar farejar entre as plantações para consegui-la.

O príncipe colocou a gaiola na sua mesa de cabeceira para cumprimentar a andorinha todas as manhãs ao acordar.
“Você é a minha andorinha, cante uma linda canção para mim”, ele dizia.
“Essa vida não é tão ruim”, pensava a andorinha e cantava lindamente.
Mas, com o passar do tempo, a sua música foi se apagando, até que ela emudeceu.

– “Você já não canta mais?”- perguntou o príncipe surpreso.
“Você me fazia muito feliz quando cantava.”

– “Minha canção era inspirada pelo fluir do rio, pelo som do vento nas árvores, pelo reflexo da lua nas rochas das montanhas. Eu era feliz, mas agora nesta gaiola, não encontro motivos para cantar.”

– “Eu faço isso porque te amo” – dizia o príncipe.
“É perigoso andar sozinha por aí. E se acontecer um acidente? E se não encontrar comida? E se um caçador atirar em você?”

– “Quem? O que é um caçador?” – questionava ela.

– “Eu cuido de você e a protejo, aqui está a salvo de qualquer perigo.”

Um dia, o príncipe acordou sobressaltado. Foi acariciar a andorinha e a encontrou morta.

Com muita raiva, chamou o seu servo e o despediu, porque certamente um dos insetos que ele caçara a tinha matado. O fato de ter encontrado um culpado não o consolou; se sentia ainda mais sozinho e impotente do que antes da andorinha aparecer.
Até que outra andorinha pousou na sua janela e cantou uma canção: a mais linda canção que ele já havia escutado.


Autor Desconhecido



O apego exagerado acaba com o amor

"Esta história fala sobre como funciona o apego nos relacionamentos de casal e nos mostra como muitas vezes os nossos medos se impõem aos desejos e direitos do outro. Quando tentamos transformar as pessoas, as afastamos da sua essência e da sua felicidade. 
Fazemos tudo por elas e, sem nos darmos conta, estamos prejudicando as pessoas.

Diante de uma situação de solidão ou vazio podemos assumir a responsabilidade e sair dessa situação por nós mesmos, ou então responsabilizar o parceiro e estabelecer uma relação de dependência.

O apego pode nos confundir e exagerar as qualidades do ser amado; passamos a acreditar que ele é um ser único e insubstituível. Isto aumenta a nossa ansiedade pelo fato de imaginarmos a sua possível perda.

Com a desculpa de proteção ou bem-estar, podemos privar o outro da sua liberdade.

Esta é uma história sobre o apego, mas é também uma história de amor.
Amar é aceitar e respeitar a maneira de ser do outro, desejar a sua felicidade antes de pensar nas nossas necessidades. É preciso deixá-lo voar como as andorinhas, caso precise e isso o faça feliz."



“Quando estamos ligados a algo ou a alguém sempre há medo, 
medo de perder o que temos. 
Sempre existe essa sensação de insegurança”.
-Jiddu Krishnamurti-




sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Hands





From the sea came a hand,
ignorant as a penny,
troubled with the salt of its mother,
mute with the silence of the fishes,
quick with the altars of the tides,
and God reached out of His mouth
and called it man.
Up came the other hand
and God called it woman.
The hands applauded.
And this was no sin.
It was as it was meant to be.

I see them roaming the streets:
Levi complaining about his mattress,
Sarah studying a beetle,
Mandrake holding his coffee mug,
Sally playing the drum at a football game,
John closing the eyes of the dying woman,
and some who are in prison,
even the prison of their bodies,
as Christ was prisoned in His body
until the triumph came.

Unwind hands,
you angel webs,
unwind like the coil of a jumping jack,
cup together and let yourselves fill up with sun
and applaud, world,
applaud.


Anne Sexton




Enquadramento Espiritual e Karmico





Acredito que muitos já estão confortáveis com a ideia de que já vivemos antes, que trazemos connosco uma imensa bagagem que, quer queiramos ou não, nos condiciona tanto no que nos atrai como no que nos retrai. 
Se nos tivessem preparado para estarmos atentos aos sinais e às energias que vamos atraindo sem o dedo do julgamento e projecção no outro das cargas que carregamos, já teríamos juntado muitas peças que compõem o gigante puzzle que esconde a nossa verdadeira história.
Não a nossa história actual/social mas a nossa história espiritual.

Infelizmente a educação do Ocidente a que todos estivemos sujeitos falava apenas da missão social onde o único objectivo era atingir uma persona e vida "perfeita" que tanto servia o "sucesso" social/profissional como servia o propósito religioso de agradar o caprichoso Deus como de escapar ao inferno.
Logo, todo o enquadramento espiritual e Karmico deixou de se fazer...
Ou seja, o que nos faz sentido e o que não faz, deixou de ser ouvido levando-nos então a escolhas que na maior parte das vezes nada têm a ver com a nossa história mas apenas adornam a dita máscara.

Embora sejam condicionantes que nos levam a escolhas inconscientes, não deixam de ser escolhas e logo irão originar consequências pelas quais teremos que nos responsabilizar.
A mais perigosa, tem provado ser o afastamento da nossa essência e a identificação total com a nossa persona. E não são raros os que confundem as duas energias quando questionados acerca da sua identidade...

No entanto, a máquina cósmica foi criada para apoiar a viagem do espirito e logo irá "polir" tudo o que não esteja alinhado com os mais elevados valores espirituais que apoiam a nossa autonomia, auto preservação e equilíbrio pessoal. Muitas das escolhas que fizemos então em prol da máscara acreditando ser a escolha "perfeita" acaba por não funcionar, levando-nos inclusive a sensações de injustiça, revolta e incredibilidade perante um Deus cego que parece não reconhecer o nosso esforço de "perfeição".

Infelizmente muitos são os que ainda acreditam que a "recompensa divina" é atribuída aos "perfeitos"...
Se assim fosse, muitos seriam os que estariam protegidos da dor e da perda.
Mas a realidade mostra que não é bem assim.

A abundância que tanto ansiamos vem, não dessa máscara perfeita mas sim como consequência do trabalho interior que já fizemos.

  • Do alinhamento com a nossa história pessoal.
  • Da responsabilização karmica pelo que atraímos. 
  • Do amor próprio que já conquistámos.
  • Da humildade de percebermos quem somos.
  • Da coragem de seguirmos o nosso caminho.


Os últimos anos mostraram-nos onde e como estávamos em desequilíbrio INTERIOR, onde vivíamos aquém do nosso potencial INTERIOR, esquecidos do nosso propósito original INTERIOR.

E qual é afinal esse propósito, perguntas tu?

- Honrar as nossas vidas passadas.
- Procurar finais felizes para os seus dramas.
- Resgatar o amor próprio e a valorização pessoal tantas vezes perdida para poderes exteriores.
- Corrigir as escolhas feitas sem amor e colocar ao serviço do mundo, os potenciais já resgatados para que o deixemos um pouco melhor do que o encontrámos.

Deste ponto de vista, podemos imaginar como cada um de nós viveu vidas únicas, experiências únicas, fez escolhas positivas e negativas que precisam de ser agora sentidas e honradas dentro de nós, não fazendo normalmente sentido nenhum a quem nos rodeia pois o outro não tem o registo emocional da nossa história.

Por exemplo:
Um mulher morre numa vida passada frustrada e com um imenso vazio porque nunca teve filhos. Nasce no presente com uma vontade imensa de ser mãe numa quase obsessão de "vingar" aquela vida.
A sua melhor amiga por contrário trás uma memória de ter perdido um filho bebé e logo não quer nem ouvir falar em engravidar ou ser mãe.
A conversa entre as duas será curiosa principalmente se não se questionarem de onde podem vir afinal as suas inclinações.
Conscientes ou inconscientes do passado, a primeira não irá parar enquanto não engravidar e a segunda irá adiar ou evitar qualquer gravidez...


Tomarmos consciência da nossa história espiritual, percebermos os padrões que carregamos, é então essencial tanto para entendermos a maneira como reagimos ao que atraímos como é para aprendermos a ser neutros e tolerantes quando as escolhas dos outros nos testam e não nos fazem sentido.
Cada história é única de facto tal como a proposta de encarnação que trazemos connosco e conhecê-la, estarmos conscientes dela, é um sinal de inteligência, sabedoria e humildade perante a Ordem Maior.

Tanto a Astrologia como a Numerologia Karmicas têm o poder de nos revelar o que de melhor e pior trazemos connosco. Que história sagrada é essa afinal que me trouxe à terra para resolver. E enquanto a mesma não estiver consciente e não se tornar uma prioridade, os encontrões do Universo para que a resgatemos terão que continuar a acontecer...


Vera Luz





quinta-feira, 5 de outubro de 2017

.............................. vou




E é-me indiferente estar aqui. 
Sempre que posso fujo, fujo no olhar que cegou o meu. 
Porque eu fujo e vou com tudo aquilo que me chama e me toca. 
Vou com o azul dos olhos do marçano ali da esquina, 
vou com as folhas das árvores no Outono da minha rua, 
vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. 
Vou pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono esbranquiçado dos mortos. 
Vou com o teu corpo que me desgasta a memória doutros corpos 
e me transforma em esquecimento… 
vou, vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca. 


 Al Berto





Astrologia, por Jung





Aquilo com que não estamos conscientemente em contato aparece-nos como ‘destino’.
Parece acontecer-nos e, assim, não nos responsabilizamos por isso, nem reconhecemos o nosso papel na sua manifestação.
Quanto mais uma pessoa está conscientemente em contato com a sua vida interior, mais a Astrologia oferece – não surpresas sensacionais ou um modo de manipular o destino – mas um meio de clarificar as fases de autodesenvolvimento que devemos vencer e utilizar como oportunidades para a transformação pessoal.

Carl Jung



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Exactidão





Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá: 
sentido do não-vivido 
a que fica reduzido 
o que, escolhido, não há. 

Do imo do poder ser, 
onde o não-sido se arrasta, 
ouvi cadências crescer: 
vaga música de ter, 
na vida, quanto não basta - 

quanto um sentido se entenda, 
que nem verdade ou mentira. 
(Que o que dele se aprenda 
é como cobarde venda 
para que a luz nos não fira. 

Luz sem luz, brilho da treva 
que tudo no fundo é; 
e a certeza que se eleva 
do fundo da própria treva, 
de exacta que seja, é.) 

Levam justiça consigo 
as palavras que dissermos. 
Por quanto sentido antigo, 
nelas ficou por castigo 
o futuro que tivermos. 

Levam as frases sentido 
que uma cadência lhes dá. 
É justo, injusto - o escolhido? 
Como quereis que, vivido, 
ele não seja o que será? 



Jorge de Sena
in, "Post-Scriptum"




Um Nobel para os “sons” do espaço





Einstein acertou outra vez.
Foi há mais de 100 anos que Albert Einstein nos apontou o caminho das ondas gravitacionais pela primeira vez - mas foi preciso chegar a 2015 para alguém as detectar pela primeira vez.
O trio de físicos que há décadas andava atrás delas viu agora o seu esforço reconhecido ao mais alto nível, com um Nobel da Física.
Carlos Fiolhais, espanta-se com uma das proezas mais notáveis da física contemporânea.



A observação das ondas gravitacionais na Terra 
é uma das proezas mais notáveis 
da física contemporânea.




As ideias físicas de Einstein apresentadas no início do século XX diferem muito daquelas que Newton tinha proposto no século XVII.

Para Newton, o espaço e o tempo eram universais e eternos. Nesses vastos e imperturbáveis cenários manifestavam-se as forças de atracção gravitacional, descritas por uma fórmula simples. Sobre a natureza dessa força, Newton declarou que “não fazia hipóteses”.

Mas Einstein, na sua teoria da relatividade geral de 1915, fez uma hipótese: a força da gravidade era a deformação do espaço e do tempo, os dois interrelacionados, causada pela presença de massa e energia. A observação astronómica revelou que, no domínio das grandes massas, Einstein estava certo em vez de Newton: a primeira e também a mais famosa dessas observações foi realizada por duas equipas britânicas durante um eclipse solar em 1919 na ilha do Príncipe, então colónia portuguesa, e em Sobral, no norte do Brasil.


Einstein não parou as suas investigações sobre a força da gravidade depois de ter chegado às equações da relatividade geral.
Num artigo de 1916 conjecturou que existiam ondas gravitacionais, semelhantes às ondas electromagnéticas (ou radiação ou luz), conhecidas desde meados do século XIX. Uma oscilação de uma massa deveria abanar a geometria do espaço e do tempo propagando-se a grandes distâncias, tal como uma oscilação de uma carga espalha luz em redor. Para o efeito ser apreciável era preciso que a massa em vibração fosse muito maior do que a do Sol. De início, Einstein não acreditou totalmente na realidade das suas ondas gravitacionais, pois receou tratar-se de um artifício matemático. Faleceu em 1955 sem ter a certeza da existência das ondas que tinha previsto.

As ondas gravitacionais manifestaram-se indirectamente com a descoberta, em 1974, de um sistema binário formado por estrelas pesadas, chamadas estrelas de neutrões, pelos americanos Russel Hulse e Joseph Taylor Jr., que ganharam o Nobel da Física de 1993. Uma parte da energia escapava das estrelas provavelmente sob a forma de ondas gravitacionais. Mas, faltando uma observação directa, foram propostas engenhosas experiências.

Verificou-se que as ondas gravitacionais eram mesmo reais precisamente cem anos após a ideia de Einstein. A 11 de Fevereiro de 2016, os media de todo o mundo anunciavam a extraordinária descoberta, fazendo eco de um artigo da equipa da experiência LIGO, com cerca de mil autores, que relatava a recolha das ondas em duas instalações gémeas no noroeste e no sul dos Estados Unidos, separadas por mais de 3000 quilómetros. Era precisa uma observação simultânea nos dois lados já que, como os sinais eram extremamente ténues, tinham se ser excluídas perturbações com uma origem terrestre e não extraterrestre. Cada instalação possui "antenas", em forma de L, com braços de quatro quilómetros, onde se pode medir através de um feixe laser o afastamento entre pares de espelhos. Ora esses espelhos abanaram um bocadinho durante uma fracção de segundo, no dia 14 de Setembro de 2015. Ou melhor, o espaço entre eles oscilou.
O sinal, que já foi comparado a um chilrear, foi o mesmo nos dois sítios: só um match perfeito permitiria concluir que a emissão era remota. Simulações computacionais indicaram que as ondas em causa eram devidas à fusão de dois buracos negros, cada um deles com cerca de 30 vezes a massa do Sol, à distância de mais de mil milhões de anos-luz de nós. Buracos negros, descritos pela teoria da relatividade geral, são as estrelas mais pesadas que se conhecem. A observação das ondas gravitacionais na Terra, revelando um acordo bastante bom entre teoria e experiência, é uma das proezas mais notáveis da física contemporânea.

A Academia Sueca acaba de distinguir (3/10/2017) com o Nobel da Física os responsáveis maiores por essa observação pioneira, que já foi repetida por mais três vezes (uma das quais há poucos dias, com a participação de um observatório em Itália).
O prémio foi para os americanos Brian Weiss, Barry Barish e Kip Thorne (o físico que ajudou no filme Interstellar). 

Até agora só víamos o céu através de luz, visível ou invisível. 
Mas agora passámos a recolher as vibrações do próprio espaço. 
Se antes só tínhamos olhos para o céu, passámos a ter também "ouvidos”.



Carlos Fiolhais






Por que as ondas gravitacionais são importantes?


O trabalho do grupo de pesquisadores do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (Ligo) representou o início de uma nova era para a astronomia. Alguns compararam a comprovação da teoria com o momento em que Galileu observou os planetas com um telescópio.

"A descoberta deles abalou o mundo", disse Goran Hansson, chefe da Real Academia Sueca de Ciências.

As ondas gravitacionais são pequenas ondulações provocadas no tecido do espaço-tempo quando um corpo com massa é acelerado. Elas podem ser comparadas às ondas que se formam na água após o arremesso de uma pedra.

O deslocamento de um corpo com massa se dá após acontecimentos muito violentos, como uma colisão de galáxias e a fusão de dois buracos negros. 
Einstein havia previsto que os objetos que se movem no Universo produzem ondulações que se propagam no espaço-tempo, distorcendo-o.

Até a descoberta dos cientistas americanos, não havia evidência concreta da existência das ondas gravitacionais, que distorcem o espaço-tempo e se propagam à velocidade da luz.

A equipe de astrofísicos usou dois novos e potentes detectores de 1,1 bilhão de dólares para medir uma onda gravitacional formada pela fusão de dois buracos negros numa galáxia distante 1,3 bilhão de anos-luz da Terra. Um dos detectores está localizado em Livingston, no estado da Luisiana, e o outro em Hanford, Washington. O feito ocorreu em 14 de setembro de 2015.

Esta foi a última grande previsão da Teoria da Relatividade que ainda não havia sido comprovada.


Marco na astronomia

A comprovação da existência das ondas gravitacionais encerra a busca por provas de uma parte importante da teoria de Einstein, a única que ainda não havia sido provada.

A certeza de que as ondas gravitacionais de fato existem altera a compreensão que os cientistas têm do Universo, principalmente de conceitos fundamentais, como espaço, tempo e gravidade.
Se as ondas gravitacionais podem ser detectadas, isso permite ampliar os conhecimentos sobre estrelas, galáxias e buracos negros distantes, com base nas ondas por eles produzidas.


Segundo a teoria de Einstein, todos os corpos em movimento emitem essas ondas que, como uma pedrinha que afeta a água quando toca nela, produz perturbações no espaço.
A Teoria da Relatividade de Einstein é um pilar da física moderna que transformou nosso entendimento do espaço, do tempo e da gravidade. E por meio delas entendemos muitas coisas: da expansão do Universo até o movimento dos planetas e a existências dos buracos negros.


Essas ondas gravitacionais são basicamente feixes de energia que distorcem o tecido do espaço-tempo, o conjunto de quatro dimensões formado por tempo e espaço tridimensional.
Assim, qualquer massa em movimento produz ondulações nesse tecido. Até nós mesmos.

E Einstein previu que o Universo estava inundado por essas ondas. 
Esse efeito, no entanto, é muito fraco, e apenas grandes massas, movendo-se sob fortes acelerações, podem produzir essas ondulações em um grau razoável.
Assim, quanto maior essa massa, maior é o movimento e maior são as ondas.
Nessa categoria entram explosões de estrelas gigantes, a colisão de estrelas mortas superdensas e a junção de buraco negros.
Todos esses eventos devem irradiar energia gravitacional na velocidade da luz.

Os pesquisadores trabalhavam há anos para detectar as minúsculas distorções causadas quando as ondas gravitacionais passam pela Terra.
Os detectores nos Estados Unidos – localizados no Ligo – e na Itália (conhecido como Virgo) são ambos formados por dois túneis idênticos em forma de L, de 3 km de largura.




Neles, um feixe de laser é gerado e dividido em dois – uma metade é disparada num túnel, e a outra entra pela segunda passagem.
Espelhos ao final dos dois túneis rebatem os feixes para lá e para cá muitas vezes, antes que se recombinem. Se uma onda passa pelo túnel, ela vai distorcer levemente seu entorno, mudando a longitude dos túneis em uma quantidade diminuta (apenas uma fração da largura de um átomo).
E a forma como as ondas se movem pelo espaço significa que um túnel se estira e outro se encolhe, o que fará com que um raio laser viaje uma distância levemente maior, enquanto o outro fará uma viagem mais curta.
Como resultado, os raios divididos se recombinam de uma maneira diferente: as ondas de luz interferem entre si, em vez de se cancelarem.
Essa observação direta abre uma nova janela para o cosmos, uma janela que não seria possível sem Einstein.

Os objetos também emitem essas perturbações que acabaram de ser detectadas, mas a partir de agora os físicos poderão olhar os objetos com as ondas eletromagnéticas e escutá-los com as gravitacionais.

"Agora, o que se tem são sentidos diferentes e complementares para estudar as mesmas fontes. E com isso podemos extrair muito mais informações", disse à BBC Alicia Sintes, do departamento de física do Instituto de Estudos Espaciais da Catalunha, na Espanha, que participou do projeto.
"Não estamos a falar de expandir um pouco mais o espectro eletromagnético, mas de um espectro totalmente novo."

A especialista afirma as ondas eletromagnéticas dão informações sobre o Universo quando ele tinha 300 mil anos de idade.
"Já com as ondas gravitacionais, pode-se ver as (ondas) que foram emitidas quando o Universo tinha apenas um segundo de idade."
É isso que será possível estudar a partir de agora.

Outro impacto diz respeito aos buracos negros:
o nosso conhecimento sobre a existência deles é, na verdade, bastante indireto.
A influência gravitacional nos buracos negros é tão grande que nem a luz escapa de sua força. Mas não podemos ver isso em telescópios, só pela luz da matéria sendo partida ou acelerada à medida que chega muito perto de um buraco negro.
Já as ondas gravitacionais são um sinal que vem desses objetos e carrega informações sobre eles. Nesse sentido, pode-se até dizer que a recente descoberta significa a primeira detecção direta dos buracos negros.


Qual o efeito causado por essas ondas na Terra?
Quando as ondas gravitacionais passam pela Terra, o tempo-espaço que o nosso planeta ocupa deve alternar-se entre  esticar-se e  comprimir-se ( expandir-se e comprimir-se).
Pense num par de meias: quando você as puxa repetidas vezes, elas se alongam e ficam mais estreitas.
Os interferêmetros do Ligo, aparelhos usados para medir ângulos e distâncias aproveitando a interferência de ondas eletromagnéticas, procuraram esse estiramento e compressão por mais de uma década.
A expectativa era a de que ele detectaria distúrbios menores do que uma fração da largura de um próton, a partícula que compõe o núcleo de todos os átomos.

Qual pode ser o impacto dessa descoberta?
É fácil especular que as maiores revelações virão de áreas cujas dúvidas nem sequer foram levantadas. Sempre foi esse o caso quando novas técnicas de observação são descobertas.
Mas considere agora só a Teoria da Gravidade. 
Por mais brilhante que Einstein fosse, sabemos que as suas ideias estão incompletas.

A teoria da Relatividade descreve o Universo muito bem em escalas amplas. 
Mas, para domínios menores, temos de recorrer a outras teorias.
Assim, não há uma quantificação da Teoria da Gravidade. 
Para chegarmos lá, temos de investigar lugares com gravidade extrema: os buracos negros.
É lá que rotas para explicações mais complexas podem ser encontradas, nos desvios que as ondas gravitacionais mostraram.


Jonathan Amos




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Tudo que eu cantaria





Pela marca que nos deixa 
A ausência de som que emana das estrelas 
Pela falta que nos faz 
A nossa própria luz a nos orientar 
Doido corpo que se move 
É a solidão nos bares que a gente frequenta 
Pela mágica do dia 
Que independeria da gente pensar 
Não me fale do seu medo 
Eu conheço inteira sua fantasia 
E é como se fosse pouca 
E a tua alegria não fosse bastar 
Quando eu não estiver por perto 
Canta aquela música que a gente ria 
É tudo que eu cantaria 
E quando eu for embora você cantará.



Oswaldo Montenegro





Conceito de Evolução





Por mais apelativo que seja o conceito de evoluir, ainda há muitas pessoas que ainda não entenderam bem o conceito.

Há algumas que ainda acreditam que evoluir é ter uma vida materialmente mais abundante mas de preferência que tudo caia do céu ou que saia no totoloto.
Outras acreditam que irão atingir um estado de paz interior e para isso todas as pessoas "más, injustas e desafiantes" que as rodeiam devem passar a ser milagrosamente perfeitas e maravilhosas.
Outras sonham com a validação e reconhecimento dos outros que por sua vez não podem ter liberdade ou autonomia e deverão viver apenas para as satisfazer e adorar.
Outras ainda acham que evoluir é ser bonzinho, estar disponível, acudir, ajudar, disponibilizar para assim justificarem não ter energia para a sua própria vida.
A maioria sem duvida ainda acredita que evoluir é manter relacionamentos a qualquer custo, justificados pelo tempo, filhos, dinheiro, medo, pressão familiar que camuflam tão bem os piores demónios interiores.

Estes e outros exemplos são infelizmente muitos comuns e revelam o quanto ainda não aprendemos a trabalhar com a energia.

Ou seja, ainda estamos em busca do preenchimento interior através de algo exterior quando o poderoso mecanismo é ao contrário.
Primeiro somos, depois materializamos.

Quando insistimos em materializar para depois então ser, vivemos em estado de fósforo sempre com medo que ele apague. 
Vivemos em estado de apego emocional, tudo fazendo para manter aquela dependência.
Vivemos em estado de medo pois se nos falta a dependência, somos confrontados com o vazio.
Vivemos desempoderados pois para manter o outro cedemos-lhe todo o nosso poder pessoal.
Vivemos desalinhados da nossa essência pois para manter o que está fora precisamos fazer cedências que não raramente chegam à anulação pessoal.
Vivemos desenergizados pois a nossa energia serve para manter quem precisamos por perto.
Vivemos iludidos acreditando sem questionar que a nossa fórmula é a certa e que o mundo é que está louco.

Cada um levará o seu tempo e desgaste para perceber que a fórmula de ir buscar fora primeiro não funciona. Tudo o que insistimos TER para SER vem armadilhado.

Lá chegará o dia em que percebemos que ao investir toda a nossa energia no SER, o TER simplesmente cai-nos no colo, é atraído por ressonância, aparece sem esforço, é sentido como uma bênção.

Não é fácil identificarmos as nossas lentes, e o nosso ego irá sempre fazer-nos acreditar que já estamos a fazer tudo bem.
É essencial sermos capazes de nos pormos em causa, de pedir ajuda, de questionar até que ponto ainda estamos presos na armadilha de ir buscar fora em vez de desenvolver dentro.

REaprender a ajustar as nossas prioridades, valores, crenças dá um trabalho imenso, obriga a escolhas dificílimas e traz sempre alguma dor, mas é o preço a pagar por vivermos alinhados e sermos capazes de materializar sem esforço.


Vera Luz




segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Fogo






A tua beleza é o cano de uma espingarda encostado à minha têmpora.
Como as tuas mãos folha-de-estanho me cegam, por isso te
toco - procurando saber onde estou.

Porém o teu corpo se dispara, e então eu sou a paisagem posta a um
canto para entrar a música. Sou um braço solto com a pulseira
em rotação, fita amarela nos cabelos da morte, madeira para o 
lume da tua boca. 

Debaixo dos holofotes da loucura, os anjos caem aturdidos. Assim
nós, carnais pelo excesso de luz , veia de pólvora que rebenta na
cabeça da solidão.

Beija-me, beija-me com o fogo das noites em branco.


Vasco Gato




Alan Watts





"Every one of us is an aperture through which the whole cosmos looks out..." 
 Alan Watts