O escritor húngaro Sándor Márai (n. 1900 – m. 1989) ia completar 89 anos de idade quando resolveu dar um tiro na cabeça. Tinha perdido a mulher há três anos, assim como o filho adoptivo, vivia isolado, contaminado pelo cancro. Deixara a Hungria em 1948, insatisfeito com o regime comunista que então dominava o país. Viveu algum tempo em Itália até se fixar definitivamente em San Diego, nos EUA. Apesar de escrever originalmente em húngaro, foi durante muito tempo proibido no seu país. Só alguns anos depois de falecer, começou a sua obra a ser mundialmente traduzida e reconhecida como uma das mais estimulantes do séc. XX
Um dos primeiros elementos que captam a nossa atenção num livro é o título.
É o primeiro factor de sedução, pelo que a sua escolha, desde logo, emoldura o texto e cria um indicador de leitura que guia o leitor.
Em “ As velas ardem até ao fim”, pressupomos imediatamente estar na presença de um romance de dimensão espaço-temporal.
De facto, numa só noite e enquanto se consomem as velas até ao fim, narram-se 41 anos de vida dos personagens da obra. Movendo-se neste intervalo de tempo, o narrador revisita o passado e reescreve uma história de vida, descobrindo agora o que a primeira vivência omitiu, da vida de Henrik, Konrad e Krisztina.
Este livro é uma espécie de carta, quase um monólogo, sobre a amizade.
Todo o livro é referente a uma conversa, a uma só conversa, entre o General Henrik e o seu amigo Konrád, que fugiu para os Trópicos, de um dia para o outro há 41 anos atrás, voltando agora velho à Hungria para resolver a sua situação com o amigo de outrora. Há um segredo que os une e que os separou, e o General, magoado e traído quer respostas a perguntas que se foram formulando ao longo desses 41 anos. O General é um homem magoado que nunca conseguiu ultrapassar o sucedido, que viveu para questionar Konrád, porque sabia que este um dia iria voltar.
"O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida."
Há que sublinhar que este livro divide-se em duas partes distintas:
- o pré-jantar, constituído pela apresentação das personagens, por algumas das suas memórias e pensamentos, que interpretei como sendo uma contextualização do que se seguiria.
- e o jantar, em que predomina o monólogo do general, quem acaba por ser o principal narrador de toda a história.
Trata-se de um romance comovente sobre a amizade, onde alguém prefere uma ruptura a um conflito, e onde ambos aparentemente perdem mas salvam a coerência de um sentimento maior, superior a qualquer outro objectivo de vida, de forma nobre e elevada.
O diálogo/monólogo de Henrik é cativante pela sinceridade e frontalidade, sem pôr em causa o sentimento comum mas explorando sem tabus todos os meandros de pensamento e comportamento de uma relação estranha mas pura.
É um livro sobre a amizade, sobre o amor, a inveja, o desejo, a confiança, a vingança, a traição, o ciúme, a ilusão e o envelhecimento… Sobre a vida.
Na juventude, dois jovens oficiais, Henrick e Konrad, conhecem-se e entre os dois desenvolve-se uma profunda amizade. Quando o primeiro, que há-de vir a ser general e está casado, convida o outro a visitá-los no seu castelo de caça, Konrad e a mulher de Henrick apaixonam-se. Henrick, numa caçada ao veado, apercebe-se de que o amigo tentou matá-lo.
Após o afastamento deste, Krisztina adoece e o marido afasta-se completamente dela, até à sua morte.
Quarenta e um anos depois destes acontecimentos, o general, que entretanto se reformou e vive com a fiel governanta Nini, quase uma mãe, recebe uma carta do capitão Konrad, que entretanto viajou pelo Extremo Oriente e também se afastou do exército, a perguntar se o pode visitar no castelo.
Assim, no velho castelo de caça na Hungria, onde outrora a aristocracia ouvia Chopin, os dois amigos recriam o enredo do triângulo amoroso vivido numa juventude dum mundo que desmoronou, no coração do império austro-húngaro, na viragem do séc. XIX para o séc. XX, num período convulsivo que termina com a desagregação do império e o desaparecimento do mundo e das regras que pautaram a vida dos personagens.
Estes dois homens, um rico de ascendência e o outro pobre tornam-se dependentes na sua existência. Separados por circunstâncias misteriosas, unidos por um segredo calado durante 40 anos.
A obra é ao mesmo tempo um tratado de reflexão humana e sociológica.
As dúvidas dos homens desvanecem-se, as memórias dos tempos esgotam-se no arder das velas.
Tudo anuncia o final de um ciclo.
O diálogo, quase um monólogo, é um olhar sobre o passado, numa visão de um homem que olha para trás com a perspectiva serena que só o passar dos anos proporciona. Não há recriminações nem insultos, apenas um reencontro sereno de dois seres humanos que não querem fechar o ciclo sem se reencontrarem. E este reencontro é, sobretudo, um tratado e uma reflexão sobre uma amizade que arde até ao fim, como as velas do velho castelo.
“Éramos amigos, não companheiros, compadres ou camaradas. Éramos amigos e não há nada na vida que possa compensar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto prazer como uma amizade silenciosa e discreta proporciona aqueles que são tocados pela sua força”.
É, assim, uma história de relações humanas, maduras, em que se reconhece na pessoa que se escolheu para amigo os defeitos e se aceitam os mesmos, com todas as consequências. São dois sobreviventes do colapso da sociedade e do seu mundo interior.
E ao terminar de ler esta obra deste autor de excelência, vem-me à lembrança uma frase de um qualquer outro romance cujo título não recordo: “ há na vida do ser humano um tempo para tudo, há mesmo um tempo para que os tempos se tornem a encontrar”.
Sándor não banaliza a amizade. Sándor eleva a amizade ao colocar Konrad e Henrik a conversar à lareira toda uma noite, até que o sol voltasse a raiar pela manhã e até que as velas ardessem até ao fim.
Este encontro ocorre 41 anos após o último encontro entre estes dois amigos de infância. Os dois conheceram-se na academia militar e viveram a juventude juntos. No entanto, com o passar dos anos, foram-se diferenciando.
Henrik, filho de um grande general e de famílias ricas, aproximou-se da elite da época, começou a ascender no exército e a frequentar as festas das gentes importantes. Por outro lado, Konrad, filho de uma família humilde do norte que se sacrificou para que o filho pudesse entrar na academia e ser alguém na vida, revelou ser diferente ao aproximar-se da cultura. A música e os livros eram a sua paixão; não era um soldado de sangue como acontecia com Henrik. À medida que os anos foram passando a diferença cresceu mas nem por isso deixaram de fazer tudo juntos, mesmo quando Henrik se casou, Konrad continuou a conviver com o casal como se fizesse mesmo parte da família. Mas um dia Konrad fugiu; desapareceu sem razão aparente e sem avisar ninguém.
A velhice actual de Konrád e Henrik é exposta através dos fantasmas que ficaram dos tempos vindouros onde estes dois amigos, conviveram e criaram uma personalidade em conjunto, desenvolvendo uma amizade muito pouco usual e ao mesmo tempo muito pura. Mas tudo muda, tudo se altera e a separação foi inevitável.
É na partida de um e no ficar do outro que se passam quarenta e um anos. Quarenta e um anos de espera, de ausência, de silêncio e igualmente de dúvida e mágoa, mas mais ainda de vontade de terem uma última conversa, um último desabafo.
“(…)Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. (…)”
Num pequeno castelo de caça na Hungria, em cujos salões se recebiam convidados, se organizavam saraus e se tocava Chopin, vive um general. O general nasceu naquele palácio, no mesmo quarto onde agora vive, como «uma pessoa que se habitua à dimensão da sua doença». Este homem, conforme percebemos no lento crescendo em que a intriga se desenrola, na tensão permanente em que o leitor junta breves pedaços de informação, já pouco sai para o mundo exterior, tal como nem visita as outras alas do palácio. Vive naquele confinamento porque já nada lhe resta na vida a não ser manter uma espera. O general pensa em décadas e não gosta de números exactos. Contudo, ficaremos a saber que entre um dia remoto e o dia presente, entre o dia 14 de Agosto e o dia 2 de Julho, passaram-se 41 anos, e 43 dias. Talvez essa suspensão do tempo seja porque esta é também a história do final de uma era, de um mundo depois da Guerra, do ocaso da vida. Talvez seja porque o tempo verdadeiro que interessa ao general é apenas seu – um lugar íntimo e subjectivo, feito das suas memórias, que permanecem tão concretas e vividas como os objectos daquele palácio, um espaço que perdeu entretanto o esplendor de então – talvez no mesmo momento em que o general perdeu quem lhe era mais querido. Porque aquele palácio é também um «grande túmulo ornamentado» em que se encerra «a memória dos mortos».
O general recebe Konrád, o seu amigo de infância e de juventude, que é apenas alguns meses mais velho do que ele: «completara os setenta e três anos na Primavera». Konrád que viveu 41 anos nos trópicos, tendo partido subitamente, sem explicação, depois de ter jantado naquela mesma sala, como jantava todas as noites, à mesma hora, na mesma companhia. Naquela sala grande cuja mesa está agora disposta exactamente da mesma forma, como 41 anos atrás, onde também ardiam aquelas mesmas velas azuis no centro da mesma, pois a mulher do general «gostava da luz das velas, gostava de tudo o que a fazia lembrar do passado».
Sandor Márai reinterpreta a culpa de Ana Karenine. Krisztina, de “As velas ardem até ao fim”, é a absolvição de Ana.
A conjugação de personalidades resulta num complexo triângulo afectivo. A culpabilização de Ana, na obra de Tolstoi, parece ser o resultado partilhado com Krisztina, mas a intenção de Márai é diferente.
“As velas ardem até ao fim” não é só, nem principalmente, um tratado sobre a amizade. Não é, também, uma história extraordinária. É uma história secular de amor e traição.
A qualidade desta obra fundamenta-se na capacidade do autor húngaro em pesquisar a formação psicológica das personagens. O diálogo entre o general e Konrád é uma longa sessão de psicanálise. O general, que é o marido e amigo traído, espera há 41 anos e 43 dias para resolver esse “processo” que o atormenta.
A participação de Konrád nesse diálogo, ao longo da noite, é muito reduzida. Ele é o ouvinte. O general precisa de exteriorizar o que pensa e sente. E será ele próprio a chegar às respostas para as perguntas que há anos o motivam a viver.
Se Sandor Márai deixa o fim em aberto, não o faz quanto à atribuição da culpa.
Krisztina é tão culpada quanto o marido e o seu amante.
São as fraquezas de todos os intervenientes nesta relação de tão forte amizade que resulta no isolamento do general, na ostracização de Krisztina e na fuga de Konrád. A culpa, segundo Márai, não é de Ana Karenine e não é de Krisztina. A culpa é património comum; é uma construção com vários intervenientes.
As velas ardem até ao fim, romance publicado em 1942 pelo escritor húngaro Sándor Márai, parece uma reflexão sobre a questão colocada por Aristóteles sobre a amizade entre desiguais. Há, subjacente ao pensamento de Aristóteles, a questão da reciprocidade. Para que uma amizade possa subsistir, na sua verdade, é necessária a reciprocidade e esta só pode existir entre iguais. O romance de Márai é uma longa reflexão sobre a amizade e a sua impossibilidade na desigualdade.
O livro é um exercício de rememoração da relação entre Henrik, rico aristocrata e general, e Konrád, proveniente de uma família polaca decadente. A amizade entre ambos começa no início da frequência do colégio militar, por volta dos dez anos, e prolonga-se por mais 22 anos, quando Konrád abandona o exército e, de um dia para o outro, desaparece, instalando-se em Singapura e vagueando pelo mundo.
Konrád regressa ao castelo do amigo para um longo jantar.
Este encontro ocorre quando Konrad regressa 41 anos depois de ter abandonado Viena.
Assim que Henrik sabe que o seu velho amigo regressou, manda um carro à cidade para o ir buscar e pediu à sua fiel criada que retractasse o grande salão para que este se assemelhasse à última vez que Konrad lá esteve. Uma encenação exacta do último jantar em que apenas estava Konrad, Henrik e Krisztina, a mulher de Henrik. Desde então que aquele salão nunca mais fora utilizado.
Um quase monólogo de Henrik apenas entrecortado, aqui e ali, por perguntas ou frases misteriosas do amigo. O monólogo é, em primeiro lugar, a descrição da traição de Konrád à amizade entre ambos. No dia anterior ao desaparecimento de Konrád, este terá sentido um desejo intenso de assassinar o amigo. Além disso, manteve um caso amoroso com Krisztina, a mulher do General. Konrad nunca desmente as acusações, mas também nunca as confirma, como se tudo aquilo, passado tantos anos, não fizesse já sentido.
Havia algo no relacionamento dos dois, ternura, seriedade, dedicação, algo fatal… Fatal foi Konrád ter apresentado Krisztina, sua amiga de infância, a Henrik. Logo depois, Henrik casa-se com Krisztina, o seu único grande amor. A relação dos dois amigos começa a mudar e, nada voltaria a ser como dantes.
A desigualdade entre os amigos – aquilo que supostamente conduziu a traição de Konrád, e esta é mais o seu desaparecimento do que o desejo do homicídio ou o caso amoroso – reside não no destino das duas famílias de origem (uma nobre e pujante e a outra decaída), mas no facto de responderem a ethos diferentes. Henrik é um militar, na linha da velha aristocracia do império austro-húngaro. Konrád, por seu lado, não tem espírito de militar, é meditabundo, com propensão para a música e, ainda por cima, vagamente aparentado com Chopin.
A desigualdade dos amigos nasce no ethos que os anima e dá forma ao carácter, como se entre o dever e a ordem militares e a criação artística, com um princípio de anarquia subjacente, existisse uma incompatibilidade estrutural.
O livro explora vários conceitos de amizade, ao ponto de questionar se a amizade verdadeira existe realmente, ao ponto de ser altruísta e não egoísta. Ou se por contrário somos amigos de quem nos convém, devido a um egoísmo inconsciente, na medida em que esperamos sempre algo em troca, nem que seja a própria amizade, o próprio amor, da outra parte.
O autor defende que a verdadeira amizade não deve nunca esperar algo em troca, e que considera isso inatingível e por isso que amizade nesse conceito total e verdadeiro não existe.
Contudo, deve-se recolocar o romance na sua época. Publicado em 1942, o monólogo rememorativo em que assenta a acção dramática mostra que essa desigualdade pertence a um mundo que já terminou. O confronto entre dois velhos não passa de cinzas de um mundo que ardeu até ao fim na Guerra de 1914-1918. Em 1942, era tempo de outra guerra, mas a única acção possível para homens de mais de 70 anos é a reminiscência ou o silêncio, a constatação da inutilidade de tudo, mesmo do rancor causado por uma amizade traída.
1942: A Europa estava mergulhada na Segunda Grande Guerra, com o Reino da Hungria a fazer parte do eixo que apoiava a estratégia nazi. Uma das características geralmente associadas ao livro de Márai é a nostalgia da multiculturalidade do Império Austro-Húngaro, aflorada em brevíssimas passagens que parecem indiferentes ao corpo do texto.
É bom lembrar, no entanto, que as duas personagens centrais do livro provêm de contextos socioculturais diversos. O general Henrik é rico e nobre, vive num palácio com Nini, a velha ama que o criou, filha do carteiro da aldeia, fiel companhia de uma vida solitária. Havia vinte anos que não recebiam visitas quando Konrád, amigo de infância, resolve reaparecer passados 41 anos de uma ausência intrigante. No colégio que frequentaram quando eram rapazes de 10 anos, provenientes dos palácios da Boémia, dos solares da Morávia, dos castelos tiroleses e dos palacetes de caça, das casas de província húngaras, eram rapazes eslavos de testa estreita, em cujo sangue se misturavam todas as características humanas do Império. É neste ambiente multicultural que germinará a amizade entre dois seres bem distintos. Tinham dez anos quando se conheceram. Konrád era filho de um funcionário público da Galícia. A mãe era polaca, de origens muito humildes.
Henrik é rico e exerce sobre os outros uma espécie de fascínio que não advém apenas da sua posição social privilegiada. Por ser bem formado, com bom coração, chegando a ser, muitas vezes ingénuo, o poder que acaba por ter sobre os outros não é usado de forma leviana. Reconhece a sorte que tem e partilha-a sem procurar o reconhecimento dos outros. Não tinha ouvido para a música e achava-a perigosa. Apenas lia livros sobre cavalos e viagens. Seguiu a carreira militar. Chegou a general.
Konrád, ao contrário de Henrik é pobre e menos expansivo. Konrád era sereno e reservado. Gostava de música. Tocava piano com a mãe de Henrik, uma condessa parisiense. Lia livros sobre história, sobre o desenvolvimento social. Nunca há-de ser um verdadeiro soldado, dizia o pai de Henrik ao filho.É uma pessoa mais introspectiva e um apaixonado pela música. Embora a amizade que sente por Henrik seja sincera, esta não deixa de ser assombrada por alguma inveja. Inveja porque, enquanto Henrik nunca conheceu qualquer dificuldade na vida, Konrád vive angustiado pelo esforço que a sua educação exige dos pais. Conhece o mundo em que Henrik se movimenta e, por despeito, a que prefere chamar de superioridade intelectual, despreza esse mundo e as pessoas que dele vivem e que sem ele não sabem viver.
No início do livro, Konrád e a condessa francesa, mãe de Henrik, tocam a quatro mãos com imensa paixão, a Fantaisie Polonaise de Chopin. Quando Henrik e o pai ficam sozinhos na sala, o pai diz a Henrik:
"- Konrád nunca há-de ser um verdadeiro soldado. - Porquê? - perguntou Henrik. - Porque é uma pessoa diferente."
Os "diferentes" da família...a Condessa francesa mãe de Henrik, Konrád e Krisztina.
Apesar das alusões platónicas e kantianas, a referência mais evidente será a Ética a Nicómaco, de Aristóteles, segundo a qual um homem ama o seu próprio bem ao amar um amigo.
Mas há uma outra dimensão neste romance que extravasa a questão da amizade.
Grande parte do livro é um longo monólogo de Henrik sobre aquilo que terá levado Konrád a desaparecer durante 41 anos. O monólogo ocorre durante o jantar do reencontro, pautado pelo ritmo das velas a arderem até ao fim. Esta marcação do tempo, altamente musical, remete também para algo que começa a separar Henrik de Konrád quando ainda eram jovens. O primeiro foi educado para a espada, é um homem do real, um militar, a sua relação com o mundo apoia-se nos factos, estes são o cerne da realidade. Mas por detrás da realidade há algo mais, há uma verdade que lhe escapa. Ele sabe disso e é isso que o frustra.
Konrád, ao contrário de Henrik, refugia-se na música. A música é uma linguagem perigosa, dois corpos comunicam através da música de um modo simbólico que Henrik não entende, mas Konrád desenvolve.
"- Que é que queres deste homem? – pergunta Nini.
- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço… É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – disse a ama numa voz aguda, ofensiva.
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor."
«A realidade não é a verdade. (…) A realidade é apenas um pormenor», diz Henrik a Nini quando esta o questiona sobre as vantagens do reencontro com Konrád passados 41 anos. Estão agora na casa dos 70, a juventude passou, algo os separou e Henrik quer saber o quê. Não lhe importam os factos, esses ele sabe-os, não lhe importa a realidade, essa ele conhece.
«Diz-me, o que há lá no íntimo?» — pergunta Henrik a Konrád.
Mas este praticamente não fala, limita-se a ouvir. Os leitores saberão apenas a versão da história segundo Henrik, e a versão da história deixa-nos no limbo entre os factos da realidade e uma intimidade impossível de decifrar.
«Não se trata de me defender, porque quero saber a verdade, e quem procura a verdade, só pode começar a busca dentro de si»
A verdade parece inacessível, está na morte. Pelo meio, o amor a uma mulher, a traição, a fuga, uma tentativa de assassinato, acusações de cobardia esgrimindo exemplos de coragem íntima, desinteressada, sacrificial, a memória de alguém que já não existe, ou existe de certa maneira como elo entre os dois, a vingança…
«Tudo o que outrora eram factos, tornam-se em pó e cinzas»
A verdade escapa aos factos porque a verdade é muito mais profunda do que a realidade, esta observa-se à superfície, não determina a amizade entre dois homens.
«Li e reli Platão», diz o general. Nota-se. Ele sabe o que é uma ideia. Só a realidade se compreende, as ideias são modelos inalcançáveis até à hora da morte, até à hora da verdade.
"Sim, um dia chega o reconhecimento da verdade: e isso significa a velhice e a morte".
Muito mais do que uma história de amizade, o livro é a partitura a partir da qual ouvimos uma espécie de música que nos oferece simbolicamente um pouco de verdade. A amizade é o pretexto para escutarmos essa música composta por Sándor Márai… em solidão.
Ficamos sem saber por que voltou Konrád.
Qual a sua versão dos acontecimentos? O que o fez regressar? Qual a sua verdade? Tudo o que sabemos é-nos dito por Henrik.
Konrád terá fugido por cobardia. Mas fugiu de quê?
E em que é que a coragem lhe falhou, se é que falhou?
Poderá a morte desfazer o mistério?
A traição entre amigos é das coisas moralmente mais repugnantes, pelo menos no universo masculino e segundo os seus códigos de conduta, ou segundo antigos códigos de conduta. Há nisso, uma clara vertente política. Se nem os amigos pessoais são de fiar, como se poderá admitir a fiabilidade da amizade cívica que suporta uma comunidade?
"Percebo e sinto aquilo que tinha acontecido naquele dia: a minha vida tinha-se partido em dois, como uma paisagem rasgada por um terramoto - de um lado ficou a infância, tu e tudo aquilo que a vida passada significava; do outro lado começa aquele território obscuro e imenso que tenho de percorrer, o tempo que me resta viver"
Só uma profunda amizade é capaz de sobreviver à passagem do tempo, à distância, à mentira, à traição. Sobrevive mas não volta a ser o que era.
“(…) os pormenores, às vezes, são muito importantes. Dum certo modo ligam todo o conjunto, colam a matéria base das recordações.”
Que pormenores nos ficam? Que pormenores colam as nossas memórias?
Um romance sobre a amizade é certo, mas também sobre decisões, remorsos, consequências, honestidade e sobrevivência, sem esquecer o ciúme, a suspeita e o amor.
O quadro de Krisztina, após o jantar, poderia voltar ao seu lugar, o que pode ser visto como reconciliação com o passado ou outro sintoma da inutilidade de todas as paixões humanas. Talvez ambas as coisas.
"Percorrem o corredor, cheio de quadros pendurados na parede. A mancha que indica o lugar do retrato da Krisztina, faz parar o general. — O quadro — diz — já podes voltar a pô-lo no seu lugar. — Sim — responde a ama. — Não tem importância — diz o general. — Eu sei."
Um homem tinha um pássaro em casa.
Sempre que estava mais triste ia até perto da gaiola e desabafava... sentia-se sempre melhor depois de o fazer. Um dia, ao fim de longos anos de convivência, disse ao pássaro:
- Meu querido amigo, tens sido um companheiro fiel da minha vida. Dos poucos que nunca me abandonaram... pede-me o que quiseres, eu dar-to-ei...
Ao fim de algum tempo, e de forma inesperada, eis que se fez ouvir uma voz:
- Se me amas, deixa sempre a porta aberta. Ao longo deste tempo já te esqueceste de a fechar algumas vezes e eu nunca fui embora. Confesso-te que gostei de dar um passeio pelas redondezas, mas voltei. Fechei sempre a porta com cuidado para que não te sentisses mal. Estou aqui e estarei... mas era tão bom que merecesse a tua confiança!
- Tenho medo de que se deixar a porta aberta, tu não voltes mais...
- Sabes, se o fizer é porque não sou quem merece essa tua dedicação. Só com a porta sempre aberta poderás saber se te estimo ou não. Não é uma porta fechada que garante que dois corações têm o mesmo destino. Sem liberdade, não há amor. Apenas uma aparência doentia disso. Quem fica só porque tem a porta fechada ou medo do que possa acontecer depois de sair... não ama.
O homem abriu a porta ao seu amigo e nunca mais a voltou a fechar...
O pássaro por vezes voava para longe e voltava, sempre... tinha gosto em ser livre e em merecer a confiança de quem o amava.
As suas asas serviam-lhe para voar, para ir e também para voltar.
Gostava daquela casa, da gaiola, da companhia do seu amigo e da liberdade de ter o mundo inteiro.
Uma porta aberta é sinal de amor.
JOSÉ LUIS NUNES MARTINS in, SE ME AMAS, DEIXA SEMPRE A PORTA ABERTA
Eu posso entender seu desejo, posso entender sua sede, posso entender sua ânsia, mas nada pode ser feito rapidamente nesse sentido. Não há atalho. Atalhos são prometidos apenas por falsos instrutores. Não há atalho. O crescimento é árduo e nada pode ser feito mais rápido do que você possa absorver. Há um certo limite para a sua absorção, há um certo limite para o seu intelecto. Uma vez que você tenha absorvido algo, suas capacidades se tornam maiores, aí alguma coisa a mais será possível. E quando você tiver absorvido esse algo a mais, suas capacidades se tornarão ainda maiores e algo mais poderá ser feito de novo. E é assim que a coisa anda. O crescimento é lento. O crescimento não é como as flores da estação.
É como as grandes árvores que tomam centenas de anos para crescer.
Mas aí, elas podem dialogar com as estrelas.
Flores sazonais existem apenas por poucas semanas. Elas vêm rapidamente, e vão rapidamente. Elas são como sonhos, não são totalmente reais. Elas apenas simulam estar aqui.
Seja um verdadeiro “Cedro do Líbano”.
Isso leva tempo, isso é duro.
Quando você começa a subir em direção ao céu e às nuvens e à Lua e às estrelas, é árduo. É árduo porque você tem que desenvolver raízes, profundas raízes terra adentro.
A árvore cresce na mesma proporção que as raízes, se ela tem que crescer trinta metros para o céu, ela tem que crescer trinta metros por sob a terra. Essas raízes tomam tempo.
Você não vê as raízes. Raízes não são visíveis. Se você repentinamente cresce rápido e as raízes não estão prontas para sustentar você grande dessa maneira, você cairá, você desabará.
E uma vez que você tenha caído, se tornará muito difícil se tornar enraizado novamente.
Essa mania de velocidade precisa ser abandonada. Não há necessidade. Cada passo deve ser desfrutado e celebrado. Osho
Um livro sobre a sobrevivência e sobre a dimensão dos sacrifícios que podemos suportar por aqueles que amamos. Um relato comovente das dificuldades sentidas pelos emigrantes chineses nos EUA. Uma obra rica em detalhes, uma linguagem cativante, que nos prende desde a primeira página. A narradora é Pearl, uma jovem chinesa, que nos vai contando momentos da sua vida, que partilha com a sua irmã mais nova (May que é 3 anos mais nova) entre 1937 e 1957.
Em Raparigas de Xangai, Lisa See leva-nos numa viagem – tão trágica quanto cheia de esperança – desde Xangai dos anos 30 até à Chinatown de Los Angeles em meados do séc. XX.
A história transita dos horrores bárbaros da ocupação japonesa na China, para as humilhações sofridas pelos emigrantes chineses em Hollywood.
Através dela, Lisa See sublinha a importância das antigas tradições. E é refrescante ver esta época histórica através dos olhos de duas mulheres que se afastam, sendo simultaneamente atraídas (forçadas ou não) pelos costumes que tentam ignorar…
Em 1937, Xangai era a Paris da Ásia, uma cidade de grande riqueza e glamour. Duas jovens irmãs, Pearl e May Chin, gozam a época dourada das suas vidas, graças à fortuna do pai. São ambas bonitas, modernas, despreocupadas e cosmopolitas. Um dia, porém, o pai anuncia que perdeu toda a fortuna na mesa de jogo, e que, para pagar as dívidas, as vendeu como esposas a compatriotas endinheirados que vieram da Califórnia à procura de noivas chinesas ( os Homens da Montanha de Ouro). Já com as bombas japonesas a caírem sobre a sua amada cidade, Pearl e May embarcam na viagem das suas vidas rumo à América ( Terra da Bandeira Florida). Recomeçam a vida em Los Angeles, tentando encontrar o amor junto dos estranhos com quem se casaram. Divididas entre o fascínio de Hollywood (Haolaiwu) e os antigos modos de vida e as regras de Chinatown, esforçam-se por aceitar a vida americana, combatendo a discriminação e o Maccartismo. Pearl e May são amigas inseparáveis; porém, como todas as irmãs, nutrem, também, uma pela outra, invejas e rivalidades mesquinhas. Enfrentam sacrifícios terríveis, fazem escolhas impossíveis e partilham um segredo devastador, capaz de mudar as suas vidas.
Ficamos a conhecer os costumes da China dessa época, marcada pela guerra em que o Japão invade a China, os contrastes entre indivíduos de classes sociais díspares, a indiferença por parte de duas jovens em relação às injustiças gritantes existentes entre essas mesmas classes, as diferenças de mentalidade entre pais e filhos que são tão, mas tão diferentes das nossas, que nos fazem "estremecer" um pouco.
Baseado em factos verídicos, damo-nos conta, igualmente, de uma realidade que, naquela época, tomou proporções imensas: a emigração ilegal do povo Chinês para fugir da invasão Japonesa e as suas dificuldades num país que nunca os aceitou verdadeiramente e os marginalizou, a América. Criaram um mundo à parte - Chinatown - do qual não se conseguiam desligar, mesmo que tivessem dinheiro suficiente, pois a sua naturalidade era um impedimento ( as escolas não aceitavam alunos chineses, as imobiliárias não vendiam casas a chineses, etc...). Os seus filhos, sendo cidadãos americanos, viveram, também, essa marginalização, acrescentando o facto que viveram no meio de duas culturas muito diferentes entre si, sentindo-se divididos entre elas.
O livro não nos deixa indiferentes, faz-nos ver com outros olhos a China, a sua cultura e o seu povo. Seguimos duas irmãs de Xangai ao longo de parte das suas vidas, vivemos com elas o terror da guerra, a condição de ser mulher e chinesa, o preconceito de se ser diferente.
Este livro começa por nos descrever a vida boémia, desafogada, livre de duas irmãs, Pearl e May, na "Paris da Ásia" que é Xangai, nos finais da década de 30. Filhas de um homem, pode dizer-se, rico no negócio dos riquexós. Onde já não se casa por casamento arranjado, mas por amor, onde as mulheres já não são obrigadas a enfaixar os pés, e onde já não se fazem oferendas aos antepassados.
Nunca lhes passou pela cabeça que, de um dia para o outro, o seu pai lhes tivesse arranjado um casamento com dois sino-americanos, supostamente filhos de famílias ricas, tendo que se mudar para os EUA. Não podendo recusar, visto ser isso ou a vida dos pais, que estava na mão da máfia chinesa, o Gangue Verde liderado por Huang Jinrong, com a alcunha "Huang Pockmarked", traduzido no livro como Huang Bexigoso( a quem o pai devia dinheiro das dívidas de jogo).
O Gangue Verde servia de ponte entre os que queriam ser filhos de papel, e os que procuravam vender certificados de nascimento sino-americanos para terem filhos de papel.
Ao mesmo tempo, a China é invadida pelos anões, homens-macaco que são os nipónicos, e é assim que começa uma grande viagem/fuga, infelizmente com um quê de verídica, de duas irmãs que nunca se separam, rumo aos EUA. Essa viagem de fuga é longa, com uma viagem a pé de Xangai até ao Grande Porto, aqui ainda as três - mãe e as duas filhas - onde num casebre, são apanhadas pelos japoneses, e a mãe e Pearl são violentamente estupradas pelos soldados japoneses até ficarem as duas inconscientes. A mãe morre dos ferimentos, e Pearl, quase morta mas ainda a respirar, é levada pela irmã a pé, num carrinho de mão, inconsciente, até ao Grande Porto, onde paga a um pescador para as levar de barco para o outro lado, Hong Kong, e leva Pearl para o hospital, onde é tratada, em coma, durante vários dias, e de forma inesperada sobrevive mas, com a impossibilidade de vir a ter filhos.
Compram bilhetes de terceira classe, no porão, e vão de barco, de Hong Kong para San Francisco, e dali para Los Angeles.
Como as coisas nunca são aquilo que os outros pintam, as irmãs aliam-se para sobreviver como emigrantes chinesas nos EUA.
FACTOS HISTÓRICOS:
Huang Jinrong, personagem verídico, foi o líder de uma das Sociedades Secretas Chinesas, o Green Gang:
"Hwang Chin-jung was one of Shanghai's three major gangsters along with Du Yuesheng and Zhang Xiaolin, who worked for the Green Gang. Despite the Gang's gradual collapse, Huang stayed in Shanghai until he died of illness in 1953.The Green Gang was a Chinese secret society and criminal organization, which was prominent in criminal, social and political activity in Shanghai during the early to mid 20th century.The society has its roots in the Luojiao, a Buddhist sect founded by Luo Qing in the mid-Ming dynasty; during the early 18th century in the Qing dynasty. Shanghai became a favourable place for criminal activity, and the Green Gang in particular, due to several factors. As the Grand Canal fell out of use for grain shipments, replaced by the sea route, Shanghai became an important transshipment point for grain; at the same time, as one of the treaty ports, it was a gateway for foreign trade, including in opium. The presence of the Shanghai International Settlement and the French Concession, which were under different jurisdictions and administrations, also made for a disjointed legal environment that favoured organised crime. Finally, massive Chinese immigration into Shanghai meant that associations based on common ancestral hometowns or sworn loyalties became important factors of Shanghai social life, and the Green Gang worked through these networks. For example, Du Yuesheng, who would become one of the most prominent Green Gang leaders in Shanghai, was introduced to Huang Jinrong, an earlier leader, because his mentor was a native of Suzhou like Huang. The Green Gang focused on opium (which was supported by local warlords), extortion, gambling, and prostitution. Shanghai was considered by some the vice capital of the world at that time. The Green Gang was a major financial supporter of Chiang Kai-shek, who became acquainted with the gang when he lived in Shanghai from 1915 to 1923. After the collapse of Chiang Kai-shek's regime in 1949, the Green Gang left Shanghai and in the early 1950s opened heroin refineries in Hong Kong. In the following years, the organization suffered in struggles against local syndicates over the control of the drug market. By the mid 1950s it had disappeared. Control of the heroin market was then taken by small syndicates of ethnic Chaozhou hailing from the nearby coastal town of Swatow. They used the Green Gang's chemists and expanded the consumption of heroin in Hong Kong. In the early 1960s they spread their influence in South-East Asia and by the end of the decade Hong Kong chemists inaugurated the first laboratory of high-grade no. 4 heroin along the border between Thailand and Burma, introducing the technology that made the Golden Triangle the largest heroin producer in the world"
Algumas das questões que movem o livro, são a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial e o comunismo de Mao Tse-tung. Em Julho de 1937, sem declaração de guerra, o Japão inicia as hostilidades; em menos de noventa dias os japoneses ocuparam a parte oriental da China, sem que o governo nacionalista pudesse impedi-los. Pequim e Tientsin caem em poder dos nipónicos.
Os EUA e a URSS firmam com a China tratados de ajuda e amizade. Os comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung, e os nacionalistas, liderados por Chiang Kai-shek, assinam um acordo em 22 de Setembro de 1937, pelo qual os comunistas abandonam o seu projecto de um governo revolucionário, renunciando a insurgir-se contra o governo de Chiang Kai-shek que, pelo seu lado, comprometeu-se a suspender as operações anticomunistas, forma-se dessa forma a Segunda Frente Unida. Apesar da aliança, as forças chinesas não são fortes o suficiente para lutar contra o Exército Imperial Japonês e sofrem uma série de desastres no início do conflito. O Japão, ocupa Xangai e Nanquim, realizando o bloqueio da China meridional, e instituindo um Estado títere, que durou de 1938 a 1945, reconhecido pelas potências do Eixo.
A participação da China na II Guerra Mundial, a partir de 1941, facilitaria a ajuda norte-americana, inglesa e soviética ao governo de Chiang Kai-shek, e a derrota do Japão em 1945, representou a libertação do território nacional. Dessa forma, o avanço das forças soviéticas pela Manchúria a 8 de Agosto de 1945 e o lançamento em 6 e 9 de Agosto de duas bombas atómicas sobre o Japão, destruindo Hiroshima e Nagasaki, encerrou a Guerra do Pacífico.
O Japão rendeu-se incondicionalmente em 10 de Agosto de 1945. A história do livro passa-se entre o início de 1937 e 1957.
Com o final da Segunda Guerra em 1945, os japoneses foram expulsos do território chinês e as tropas de Chiang Kai-shek, com o apoio bélico dos Estados Unidos, lançaram uma ofensiva contra os “vermelhos” de Mao Tse-tung, reiniciando, então, o conflito armado chamado de Guerra Civil.
Em 1948, quase toda a China do Norte estava em poder dos comunistas, que, no inicio de 1949, ocuparam Tientsin e Pequim, além de dominarem a região central do país. Chiang Kai-shek demitiu-se em Janeiro de 1949, entregando o poder ao General Li Tsung-jen. Isso não facilitou as negociações com os comunistas, que exigiam a formação de um governo de coalizão sob a chefia de Mao Tse-tung. A queda de Xangai, Nanquim e Cantão representava a liquidação dos exércitos nacionalistas, agravada pela atitude dos EUA, que em Agosto de 1949 anunciavam a cessação de qualquer ajuda ao Kuomintang.
Mesmo sem a ajuda da maior potência comunista, a União Soviética, dirigida na época por Stalin, as forças de Mao conseguiram a vitória. A 1 de Outubro de 1949, conquistaram o poder e proclamaram a República Popular da China, sendo instalada a Conferência Consultiva do Povo, que elaborou o programa do novo governo, presidido por Mao Tse-tung.
O livro fala da Lei de Exclusão Chinesa, uma lei federal dos Estados Unidos assinado pelo presidente Chester A. Arthur em 6 de Maio de 1882, que proíbe a imigração de chineses.
Em 1875 o Página Act , proibiu as mulheres chinesas de imigrar para os Estados Unidos, para impedir que se formassem famílias chinesas e sua descendência nos EUA. A maioria dos homens chineses foram confrontadas com um dilema: ficar nos Estados Unidos sozinhos ou voltar para a China para se reunirem com as suas famílias. Qualquer chinês que deixasse os Estados Unidos tinha de obter certificações para a reentrada, excepto os imigrantes chineses estrangeiros permanentes com cidadania dos EUA. Após a aprovação da lei, os homens chineses nos EUA tinham pouca hipótese de se reunir com as suas esposas, ou de começar famílias chinesas nos EUA.
Em US vs Ju Toy (1905), o Supremo Tribunal dos Estados Unidos reafirmou que os Inspectores de Porto e do Secretário de Comércio tinha autoridade final sobre quem pode ser admitido.
Angel Island era uma estação de imigração, centro de detenção localizado na Baía de San Francisco que operava a partir de 21 de Janeiro de 1910 a 5 de Novembro de 1940, onde os imigrantes que entravam nos Estados Unidos foram detidos e interrogados.
Isto é bem relatado no livro, sobre o que se passava lá, onde os inspectores de porto fechavam lá os chineses que chegavam por barco a San Francisco. O centro de detenção foi considerado ideal por causa de sua localização isolada, o que torna muito fácil de controlar os imigrantes, conter surtos de doenças, e fazer cumprir as novas leis de imigração. Este foi um porto com uma grande proporção de chineses, japoneses e imigrantes coreanos. A inspecção foi adaptada para a exclusão deste grupo. Os brancos e outras raças foram separados antes da inspecção. Ali eram duramente questionados, nalguns casos durante mais de 8 horas seguidas sem comer e foram lá retidos durante meses até conseguirem averiguar se os documentos eram verdadeiros, se as histórias batiam certo entre eles, e se havia Filhos de Papel a chamar Esposas de Papel vindas da China.
A instalação foi criada para monitorizar o fluxo de imigrantes chineses que entram no país após a implementação do Ato de Exclusão Chinesa em 1882. A lei só permitiu entrada para comerciantes, clero, diplomatas, professores e estudantes, barrando trabalhadores.
A Lei deu ao governo uma ideia de como começar a regular a imigração, e perceber o potencial efeito da imigração sobre a economia americana. Imigrantes chineses foram vistos como uma ameaça porque eles ocuparam empregos de baixa remuneração, e depois da queda económica durante a década de 1870, os americanos passaram por sérios problemas de desemprego. Isto resultou num aumento da discriminação contra os chineses, rotulando-os como os americanos inadequados devido à sua aparência e status social.
Depois de executar uma série de leis restritivas que proíbem a maioria da imigração chinesa, o centro de detenção foi aberto em 1910. O tempo de detenção dos imigrantes variava dependendo de quanto tempo o processo de interrogatório durava.Para alguns foi apenas alguns dias e para outros durou meses... a mais longa estadia registada durou 22 meses, a viverem lá em condições desumanas. Os interrogatórios que demoraram mais tempo aconteceram porque muitos dos imigrantes detidos no centro de detenção tinham falsa documentação. Imigrantes chineses, na sua maioria do sexo masculino, alegaram serem filhos de indivíduos chineses que eram cidadãos americanos.
Desde que as crianças dos cidadãos sino-americanos também fossem considerados cidadãos americanos, independentemente de onde eles tivessem nascido, era ilegal negar-lhes a entrada se eles pudessem provar a cidadania.
Portanto, o conceito de " filhos de papel " eram crianças no papel, com identidades trocadas, mas sem laços familiares reais.
Os cidadãos sino-americanos concordaram com esta colaboração porque ganhavam dinheiro com a venda dos certificados de nascimento, e porque era uma forma de conseguirem ter filhos rapazes para darem continuidade ao nome da família.
Angel Island serviu como centro de detenção para os 56,113 imigrantes chineses que foram registados; mais de 30% foram devolvidos à China.
Além disso, após o terremoto de 1906 em San Francisco , que deu origem a um grande incêndio que destruiu a Câmara de Registos Civis, muitos imigrantes (conhecidos como " filhos de papel ") afirmaram que tinham laços familiares com os cidadãos sino-americanos residentes, ou que tinham nascido em San Francisco. Se estes eram verdadeiros ou não, não poderiam ser comprovados, visto que todos os registos ficaram destruídos com o incêndio.
O Ato de Exclusão Chinesa deu origem à primeira grande onda de contrabando humano comercial nos EUA: Filhos de papel é um termo usado para se referir a pessoas chineses que nasceram na China que ilegalmente emigraram para os Estados Unidos através da compra de documentações fraudulentas (certificados de nascimento de crianças chinesas nascidas nos EUA que morreram e não foi declarada a sua morte legalmente) que declaravam que eles eram parentes de sangue de chineses que já tinham recebido a cidadania dos EUA. Muitos fugiram da China por causa da guerra e da pobreza. Vários eventos históricos, como o Ato de Exclusão Chinesa e o terremoto de San Francisco em 1906 fizeram com que os documentos ilegais a ser produzidos não pudessem ser verificados pelas autoridades dos portos de inspecção nos EUA. De repente, uma nova oportunidade para a cidadania surgiu: - Homens chineses que já estavam nos Estados Unidos a trabalhar poderiam alegar que tinham nascido nos Estados Unidos. Foram os primeiros filhos de papel.
- Outros chineses com cidadania americana como filhos de papel, começaram a viajar para a China, para supostamente visitarem familiares, e no porto de inspecção no regresso aos EUA, relatavam que as suas esposas tinham dado à luz um filho enquanto estiveram na China. Consequentemente, isso fez a criança elegível para ser um cidadão dos Estados Unidos, para o qual eles iriam receber um documento. Esses documentos podem então ser usadas para os seus filhos reais, ou vendidos a amigos, vizinhos e estranhos recomendados pelas máfias na China.
Isto foi denominado como uma “fenda” e seria, então, disponível para compra aos homens que não tinham relações de sangue nos Estados Unidos, a fim de ser elegível para entrar nos Estados Unidos. Comerciantes, muitas vezes agiram como intermediários para lidar com a venda de certificados de nascimento de crianças chinesas nascidas nos EUA já falecidas mas não dadas como falecidas legalmente)
Para fazer cumprir verdadeiramente o Ato de Exclusão Chinesa , criaram uma estação de imigração localizada na Angel Island em 1910, onde questionavam e interrogavam imigrantes vindos de 84 países diferentes, sendo a maioria dos imigrantes chineses. Os registos oficiais eram muitas vezes inexistentes, e os processos de interrogatório foram criados para determinar se os imigrantes podiam entrar nos EUA ou tinham de ser deportados de volta para a China. Em média um processo de interrogatório podia levar até 2 - 3 semanas, mas alguns imigrantes foram interrogados durante meses. As perguntas incluíam detalhes de casa e aldeia do imigrante, bem como conhecimento específico dos seus antepassados. Os imigrantes chineses levavam consigo Cadernos de Preparação, com tudo o que tinham de memorizar para responder às perguntas dos inspectores, e as suas testemunhas - geralmente outros membros da família que viviam nos Estados Unidos - seriam chamados para cruzar e confirmar as respostas. Qualquer desvio a partir do testemunho prolongaria a detenção ou por todo o processo em dúvida e colocar o imigrante em risco de deportação, e possivelmente toda a família ligada ao requerente também. Este centro de detenção esteve em funcionamento durante trinta anos. O Ato de Exclusão Chinesa acabou por ser revogada em 1943.
Muitos filhos de papel foram subitamente confrontados com a exposição de suas documentações fraudulentas. O governo dos Estados Unidos foi avisado por um informante em Hong Kong, como parte de um esforço de cooperação na guerra fria para parar a imigração ilegal. Muitos Filhos de Papel estavam com medo de serem deportados de volta à China.
Somente na década de 1960 uma nova legislação em relação à imigração ilegal da China deu aos filhos de papel a hipótese de dizerem a verdade sobre quem eles eram e restaurarem os seus nomes reais em programas "confessionais". Mas muitos optaram por ficar com os seus nomes adoptados por medo de represálias e levaram as suas verdadeiras identidades para suas sepulturas, por não confiarem nas promessas do governo americano. Muitos filhos de papel nunca falaram aos seus descendentes sobre o seu passado; deixando-os na ignorância em relação à sua verdadeira história familiar.
Alguns filhos de papel, para não correrem riscos de serem descobertos pelo FBI, adoptaram o estilo de vida americano, não ensinaram aos filhos os seus dialectos chineses em casa, não os matricularam nas aulas de mandarim nos missionários chineses, e esqueceram as tradições culturais chinesas, tais como os seus alimentos culturais e rituais, como as oferendas aos antepassados. Tudo isso era muito controlado pelo FBI, e havia visitas surpresa em suas casas pelos inspectores portuários para confirmarem as informações que tinham dado.
O Programa de Confissão chinês era um programa gerido pela Imigração e Naturalização (INS) nos Estados Unidos entre 1956 e 1965, que procurou confissões de entrada ilegal de cidadãos e residentes de origem chinesa nos EUA, com a oferta (um pouco enganadora) da legalização do estado em troca. Foi um componente importante da política de imigração dos EUA para com a República Popular da China. O Programa de Confissão chinesa marcou a última década na vida do Ato de Exclusão Chinesa, e foi uma grande restrição federal a um determinado grupo étnico nos Estados Unidos.
O Ato de Exclusão Chinesa proibiu a imigração de trabalhadores qualificados e não qualificados provenientes da China. Excepções foram feitas para diplomatas, bem como certos membros da família de cidadãos americanos de origem chinesa. Essas excepções foram usadas por muitos chineses para imigrar sob falsos pretextos para os Estados Unidos.
Por exemplo, sino-americanos que iam para casa para visitar a família na China traziam de volta chineses mais jovens, e afirmavam ser seus pais. Esta prática foi chamada "Sons of Paper" , e entrou em destaque depois do terremoto de 1906 em San Francisco, depois do fogo destruir muitos dos registos da cidade.
O Acto de Exclusão Chinesa foi parcialmente revogado com a Lei Magnuson de 1943, que permitiu a imigração de um pequeno número de chinêses (com base na proporção da população actualmente presentes). No entanto, esse número era muito pequeno: cerca de 105 por ano. Assim, uma grande quantidade de migração da China permaneceu ilegal, e muitos cidadãos e residentes de origem chinesa americanos poderiam traçar a sua presença nos Estados Unidos com alguma forma de fraude de imigração.
O Programa de Confissão chinês foi em parte motivado por preocupações nos Estados Unidos sobre a ascensão do comunismo na China de Mao, e o papel que os sino-americanos podiam estar ter para o espalhar pelos EUA , bem como o perigo de chineses comunistas entrarem nos Estados Unidos ilegalmente como espiões.
Embora o programa tenha sido descrito como um programa de amnistia pelo qual as pessoas poderiam confessar as suas violações de imigração e obter status legal, houve poucas mudanças às leis de imigração. Embora confessar às autoridades oferecesse imunidade (temporária) da acusação e deportação, o confessor tinha que ceder o seu passaporte e ser passível de deportação. Tinham defornecer detalhes completos das suas famílias de sangue, bem como denunciar as famílias de papel (as pessoas com quem eles tinham reivindicado ter um falso relacionamento de modo a facilitar a imigração ilegal). Isto significava que um único confessor poderia implicar um grande número de outras pessoas, e, portanto, aumentar o risco de deportação para todos os outros.
O programa resultou em 13.895 confissões, com cerca de 10.000 em San Francisco (onde a maior parte da população chinesa entrou ilegalmente). Este foi muito menos do que o número de pessoas suspeitas de terem entrado ilegalmente, e o fracasso do programa foi atribuído à falta de confiança nas agências de aplicação da imigração dos Estados Unidos entre a população chinesa, a falta de claros benefícios de confessar, e o risco de deportação enfrentado pelo confessor, bem como a sua família (sangue e papel).
Denuncias de vizinhos poderiam implicar uma pessoa e causar-lhe a deportação, e por isso o programa criou medo e desconfiança em muitas comunidades sino-americanos. Qualquer um que tivesse entrado ilegalmente e tivesse a ser investigado pelo FBI, poderia confessar, denunciar uma série de gente, e estar sujeito a deportação imediata.
As confissões tiveram um impacto significativo sobre a comunidade sino-americana: como resultado das confissões, 22.083 pessoas foram expostas e 11.294 candidaturas a filhos de papel foram fechadas. Muitos chineses suicidaram-se para salvar as suas famílias encerrando os processos de investigação por falta de provas.
Para efeito de comparação, o censo de 1950 listava 117,629 chineses na América (excluindo Havai).
O Programa de Confissão chinesa terminou em 1966, logo após a aprovação do Imigração e Nacionalidade Act, de 1965 .
Bill Ong Hing, professor de Direito na Universidade de San Francisco, e um americano de origem chinesa, comparou o tratamento dos chineses nos Estados Unidos, e o Programa de Confissão chinesa, à maneira como os Estados Unidos tratam os imigrantes ilegais do México hoje.
Ele escreveu:
"O "programa de confissão"chinês em 1950 foi principalmente uma fraude perpetrada na nossa comunidade, mas não precisamos repetir a fraude com os imigrantes ilegais hoje. Vamos ser honestos, e tratá-los com o respeito que merecem.".
O episódio fez-me debruçar sobre o conceito de amizade num mundo em que o Facebook decreta que podemos ter... cinco mil! Em 2016, no "The Telegraph", Knapton era mais circunspecto - o utilizador-tipo teria uma média de 155 amigos, mas numa crise só confiaria em quatro deles.
Quanto ao antropólogo Robin Dunbar, declara-nos capazes de ter cinco relações íntimas, 15 amigos próximos, 50 amigos e 150 amigos casuais (simples conhecidos, presumo eu).
Desta vertigem sempre falhada de reduzir a vida a números - lembremos as faixas etárias -, retiro uma palavra-chave - confiar. Na clínica, por vezes, ouço discursos optimistas, "tenho montes de amigos". Costumo retorquir com a pergunta "no ombro de quais pode refugiar-se para chorar às três da manhã?". E os montes ficam reduzidos a colinas anémicas...
Acresce que as pessoas cultivam um discurso que nós, os psis, incentivámos - é necessário alimentar o amor, sob risco de o ver murchar. Não costumam pensar o mesmo da amizade, vista como um dado adquirido de fácil manutenção, jantar aqui, telefonema acolá e tudo marcha sobre rodas. Não parece simplista? Afinal, se a relação azeda, verificamos que a exigência não é inferior à do amor; a traição e o desencanto deixam cicatrizes feias e suspiros, "nunca mais foi a mesma coisa".
Existem amigos de juventude que trilharam outras veredas, brotam de uma esquina e, dois minutos e um abraço volvidos, nos fazem sorrir e pensar que "foi como se estivéssemos juntos ontem". Como outros, desleixados por imposição mais ou menos subtil de um(a) companheiro(a) que os arvora em símbolos de um passado ameaçador. Se a relação termina, cobiçamos números de telefone com teias de aranha e admitimos que "se fosse eu a atender... desligava".
Não renego uma opinião de muitas décadas - a amizade é uma nobre forma de amar. Escreveu Montaigne da que o ligou a La Boétie: "Se me perguntarem porque o amava, sinto que não o posso exprimir senão com a resposta: porque era ele, porque era eu". (Chico Buarque, fascinado, "roubou" a fórmula para compor a canção de amor "Porque era ela, porque era eu").
Tão reconfortante sintonia exige tempo, diálogo, risos; cuidados de jardineiro.