quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Moment


Margaret Atwood
by Tim Walker




The moment when, after many years
of hard work and a long voyage,
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
Climbing the hill, planting the flag, proclaiming.

We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way round.


~ Margaret Atwood









terça-feira, 19 de novembro de 2019

Salvador Sobral - Só Um Beijo (com António Zambujo) (Coliseu dos Recreios)

Your Mother Is Always With You





Your mother is always with you…
She’s the whisper of the leaves
as you walk down the street.

She’s the smell of bleach in
your freshly laundered socks.

She’s the cool hand on your
brow when you’re not well.

Your mother lives inside
your laughter. She’s crystallized
in every tear drop…

She’s the place you came from,
your first home. She’s the map you
follow with every step that you take.

She’s your first love and your first heart
break….and nothing on earth can separate you.

Not time, Not space…
Not even death….
will ever separate you
from your mother….

You carry her inside of you….



Sherry Martin 





O Luto De Elias Gro


Vitorino Coragem







"O paraíso deve consistir no cessar da dor, disse Elias Gro quando o fim se aproximava. O homem pendurado na cruz observava-nos em silêncio reverente, na sua eterna compaixão. Elias repetiu as palavras, que não eram suas, e fixou o olhar no pássaro que bicava o vidro da janela; escutámos, vindo do exterior da casa de pedra, o rumor das copas revoltas, o rugir dos ventos da tempestade vindoura. Eu estava sentado numa cadeira e ele, deitado, tão doente quanto o corpo permite, era pouco mais do que uma sombra. Talvez valha a pena dizer-vos que só muito depois do princípio é que eu soube da sua doença. Do princípio? Sim, deste princípio: pode ser que faça sentido começar assim.
Ele estava doente, tão doente quanto o corpo permite, e eu, que acordei demasiado tarde de um sonho cruel, cruzei-me com Cecília e com o homem pendurado na cruz, e foram estes dois — cada um no seu infinito talento para a teimosia — que me mostraram o caminho. Na verdade, não existe caminho. Convencemo-nos dele e, de tanto fingirmos que faz sentido percorrê-lo, acabamos por descobrir que, na nossa esteira, se apaga como a película de pó que cobre os móveis num quarto cujas janelas alguém acaba de abrir ao fim de anos de esquecimento. Resta-nos prosseguir sem saber para onde vamos, se seremos capazes. Sem a cumplicidade das coisas já vistas, pois essas perdem-se a cada instante. Para isto, e para outros assuntos mais chegados à vida terrena, é que servem estas palavras; mas é sobretudo para isto."

"Foi tarde na vida que compreendi esta relação enigmática entre os homens e a bebida. Aprendemos, ao experimentar essas doses iniciais de euforia oferecidas pelo álcool, que, aconteça o que acontecer, podemos com ele debelar a terrível constatação da nossa impotência, suavizar a dor. A garrafa amacia o impacto das colisões, vai erodindo esses gumes afiados da realidade, copo atrás de copo, até que, paradoxalmente, perdemos toda a resistência ao sofrimento.
Bebia uma garrafa por dia (...) à noite começava por me abismar com o que ia encontrando dentro de mim, e depois pedia ao whisky que o ocultasse; como uma criança que se esconde num labirinto e que só encontramos espaços: uma perna aqui, a cabeça acolá, acenando-nos de uma esquina para logo tornar a desaparecer. Abismava-me a ausência; a maneira como, primeiro com a morte, depois com a separação de A., eu ficara reduzido a um invólucro cheio de coisa nenhuma."

"Não sou padre, sou pastor, respondeu Elias Gro. Tudo o que faço é espalhar a palavra de Deus. Sou protestante: não tenho papa, nem catedral, nem santos, nem martírio, nem purgatório. Não faço baptismos nem confissões. Tenho a Bíblia. Sola scriptura. E, sobretudo, não perdoo nem salvo. Deus, sim. Ele perdoa. Ele salva. Eu não. Tudo o que eu posso fazer é passar a mensagem. Sou uma espécie de carteiro. Todos os dias passo em sua casa e deixo-lhe um postal lá de cima"

"Creio que só na ilha soube verdadeiramente que amara A. O reverso de uma incomensurável perda é a consciência dessa perda. E a consciência chega através da dor. A dor não costuma mentir; nesse sentido, é o que mais importa. Sem ela, passaríamos do sofrimento momentâneo ao esquecimento. No fundo, a dor é paz; um lugar intermédio onde finalmente entendemos que, por mais que se repitam os gestos hábeis de todos os dias, o que aconteceu nunca tornará, e todas as coisas - todas, sem excepção - se irão perder, uma de cada vez, devagarinho, sem que tenhamos tempo de as deter na ida ou de perguntar para onde vão. Mas a dor vem mais tarde. Primeiro vem a angústia."

“Mas eu entendo-o. A incómoda presença dos outros nas nossas vidas. Às vezes é uma chatice ter de os aturar. Não vale a pena negar, há dias em que acordamos para estarmos longe das pessoas.” 

"O que eu procurava era o esquecimento e, de repente, via-te em todo o lado. Minto, pois na verdade sentia-te em todo o lado."

"O isolamento é uma doença dos nossos dias, disse ele. E tanto é uma doença que, como em todos os estados patológicos, só encontramos alívio quando nos apercebemos de que, sem darmos por isso, perpetuámos essa condição porque é mais doloroso sair dela do que permanecer doente. A sanidade tem um preço." 

"Recordei muitas vezes nesses dias o que A. me dizia sempre que eu me remetia a longos silêncios e à contemplação desnecessária do meu ego: "o que aí encontrares é teu! Guarda-o para ti". A. não o dizia por despeito; recomendava-o porque, nos momentos em que o Narciso desespera, súbdito de uma raiva que perdura, é mais fácil perdermo-nos num labirinto de conspirações, como um pugilista que se debate com a sua própria sombra, o único adversário que nunca vencemos. Conspirar contra nós próprios, sabotando-nos; conspirar, por consequência, contra a coisa amada.(...) Quanto mais eu me remetia a mim próprio, julgando, dessa maneira, anular a influência do mundo, mais encontrava as raízes do meu desespero e mais era incapaz de sair dele. Estavam todas naquele farol desabitado, o vazio que eu descobrira aquando da separação de A. Os pensamentos, como diabos à solta num quarto escuro e abafado, conduziam-me uma e outra vez à mesma conclusão, de que o homem transporta consigo o inferno, e que esse inferno não são os outros mas nós mesmos, quando entregues às nossas ideias mais acérrimas, às nossas intransigências mais cruéis, às nossas dúvidas mais corrosivas."

"Eu não coabitava com os fantasmas, mas com os antepassados dos fantasmas; se o passado era eu, o próprio fantasma em pessoa. Havia alguém no meu lugar, alguém que me ocupara e a quem eu entregara a procuração da minha vida."

"Lutamos uma vida inteira contra o esquecimento. (...) Se pudéssemos, apuraríamos um malefício contra a perda. Não teríamos mais de esgravatar a terra, ou de correr contra a gravidade inexistente dos sonhos agarrando-nos a coisas já idas ou extraviadas de antemão, aquilo que vemos partir - aquilo que é arrancado às nossas mãos e que exige a participação do esquecimento. Talvez a perda e o esquecimento sirvam para nos preparar para uma outra perda e um outro esquecimento, a Grande Perda, o Enorme Esquecimento, chamado Morte, ao qual ninguém escapa." 

"Por alguma razão Noé construiu uma arca em forma de um barco. Deus disse-lhe para a construir de boa madeira resinosa e com betume por dentro e por fora. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora. Pense nas marés. A erosão consome ilhas inteiras e, se for preciso, continentes. Contra a água não há nada a fazer. O fogo? A água apaga-o. O ar? A água consome-o. A terra? A água inunda-a. Não é por acaso que o Senhor decretou um dilúvio em vez de um incêndio."

"A religião é hiperbólica porque a nossa cabeça, onde o diabo mora, chama-nos de Deus e convence-nos de que, sozinhos, encontraremos o Caminho. Sozinho, vi os homens perderem-se no deserto, amaldiçoarem os que amam, serem reféns das perversões mais sinistras, atraiçoarem um irmão até à morte, vi os pais abandonarem os seus filhos, e os filhos erguerem-se contra os que lhes deram a vida, e vi o diabo a rir-se disto tudo, porque é assim que ele se ri, através de nós. Sozinho, sem fé, sou um homem perdido num universo incompreensível. (...) E os milagres são hiperbólicos porque o verdadeiro milagre passa despercebido. Cristo teve de ressuscitar os mortos e curar os leprosos para que nós percebêssemos que até as coisas mais simples são divinas. Se Cristo se limitasse a construir uma casa, diríamos: Mas isso posso eu fazer. A hipérbole é a fundação de toda a religião. Sim, é isso mesmo: temos de ser confrontados com as coisas que estão fora do nosso alcance para darmos valor àquelas que nos são permitidas."

"É tão simples. Só há duas maneiras. Podemos tentar compreender tudo, falhamos e ficamos loucos. O louco não é o homem que perdeu o juízo, mas sim o homem cujo juízo suplantou tudo o resto. O louco é aquele que vê causas em tudo, e essas causas remontam a outras causas, e a outras ainda mais distantes, e cada uma dessas causas suscita uma dúvida ou ramifica-se imparavelmente. O Diabo continua a rir-se. O outro caminho que podemos seguir é aquele que silencia e que aquieta os demónios. (...) São as vozes dentro da nossa cabeça, aquelas que não se calam quando tentamos abarcar o infinito. Não fomos feitos para saber tanto nem tão pouco. Fomos feitos para aprender a silenciar essas vozes que nos enlouquecem. No fundo, nem sequer precisamos de Deus. Precisamos de alívio."

“Se os homens se definissem pelas suas profissões, não precisaríamos de nomes. Seríamos o engenheiro número trezentos e quinze e o padeiro seis milhões e meio. Basta que saibam que, dos vinte e dois aos quarenta anos, construí, na cidade, uma carreira de algum prestígio numa determinada profissão e que, a partir dos quarenta, abandonei a cidade e a carreira e fui viver para uma ilha ao largo de uma península, extensão de um continente que não era o meu.” 

“Escrever mantém-me sóbrio e ajuda-me a preservar a confiança neste caminho de que vos falei. Um homem é refém dos seus segredos até os pronunciar em voz alta; depois, devolvendo-os a Deus numa oração ou numa litania dos aflitos, eles rapidamente se revelam como aquilo que verdadeiramente são: criaturas invertebradas e informes que se escondem atrás do Medo.”

“Prossegui pelo litoral enquanto a luz descobria a bainha do céu. Constatei que, embora no centro do meu peito existisse um buraco imenso, aquela liberdade dava-me prazer. Não tinha lugar aonde ir nem ninguém a quem prestar contas; não tinha casa nem família. A melancolia deixara de me incomodar, éramos velhos amigos e, a partir de certa altura, já nada se consertava. Pedalei durante algumas horas pela ilha. Ora a ritmo de uma marcha, ora esforçado numa ladeira; por vezes encontrava a tranquilidade de um terreno plano e deixava a bicicleta fazer o seu trabalho, aproveitando o embalo. Passei pelo farol, mas não me detive; era um lugar ensombrado, habitado pelos restos de uma civilização proscrita.”

"Eu respirava com dificuldade, alguma coisa parecia ter-se alojado na minha traqueia. A memória das vozes ao telefone e da vigília afrontava-me; dentro de mim, um animal ferido raspava ferozmente o chão de gravilha com unhas retrácteis, e uivava, procurando sair da toca.
Tenho pena é das lesmas, disse Cecília. E das lagartas. Não têm como se proteger.
As lagartas fartam-se de ser lagartas e fazem uma casinha nojenta de baba, disse eu. E depois transformam-se em borboletas, e toda  a gente gosta de borboletas. Nunca vi ninguém fazer mal a uma borboleta. Quando muito, espalmam-nas no meio das páginas de um livro, para sempre. É uma vida bestial. Muito melhor do que a nossa.
As lagartas esvaziam o estômago e segregam uma enzima que forma uma crisálida, disse Cecília, em tom de correcção.
És muito esperta, ripostei. Aposto que te dizem isso na escola. Lembras-te dessas coisas todas, nada te escapa, pois não? A diferença é que nós, ao contrário das lagartas, somos muito mais como os cães. Vida de cão, é assim que se diz. Sabes porquê? Porque a nós ninguém nos dá nomes em latim nem nos espalma entre as páginas de um livro, para que a nossa beleza fique preservada para sempre. Não existe filatelia humana.
Lepidopterologia.
O quê?
Filatelia é coleccionar selos. Lepidopterologia é como se chama à ciência dos insectos.
E que tal coleccionar borboletas? Serve-te? Ou precisas de saber dezenas de palavras impronunciáveis das quais te irás esquecer assim que começares a crescer?
Cecília desviou o olhar para a janela. Parecia magoada. Irado, eu escutava o meu próprio tom de voz, a roçar a violência, e percebi que estava fora de mim. Aquela versão chegara com a força e imprevisibilidade das tempestades: quanto mais olhava para a rapariga, mais desejava anulá-la. (...) Olhava para Cecília e via uma outra, que não era Cecília, alguém de que ainda não vos falei (porque não consigo, não sou capaz); alguém que não existe e, todavia, é a figura central destas páginas. O fantasma de Banquo sentado à mesa real."

"As pessoas são feitas de porcelana, concluiu. Lascam com facilidade, instigam em nós a urgência de não as deixar cair. Partem-se em pedaços se as largarmos. Esses pedaços são inconsoláveis. É impossível tornarmos a juntá-los e, se o tentarmos, ficaremos para sempre a observar as rachas que inadvertidamente lhes causámos, cicatrizes que não passam. Por mais que as pessoas jurem que são feitas de outro material, acredite em mim quando lhe digo que são feitas de porcelana, da mais frágil e dispendiosa."

" Finalmente entendo a linguagem da ausência. Sei agora o que nunca soube – que o amor encontra o seu estado mais puro quando julgamos que o fim chegou; finalmente entendo que o amor pode ser precisamente essa ausência, o deixar de estar, ser capaz de apreciar cada minuto da nossa memória como se segurássemos, entre as mãos, um punhado de brasas num deserto de gelo. Um dia, pese embora tudo o que vivermos, nem essa memória restará, pois a maior de todas as ausências é a morte ("toda a morte um suicídio, toda a derrota uma misteriosa vitória"). Porém, e enquanto estivermos vivos, prosseguiremos, com a habilidade que nos calhou em sorte, o resgate daqueles que precipitadamente enterrámos, tratando, na ausência, como nunca antes deles tratámos; as coisas são assim. Aceita-as."

"Parece que o lugar onde estamos nunca é suficientemente agradável. Deixa-me ver se acolá se está melhor. E, quando lá chegamos, percebemos afinal que a vida também estava a acontecer onde estávamos. Mas agora já estamos acolá e não podemos regressar, porque a vida também acontece acolá."

"Perguntas-me porque sou assim triste. Vou contar-te. Sou triste porque, se não fosse Deus, eu teria uma filha. Uma rapariga, como tu. Ela cresceria e, um dia, seria jovem, como tu és agora, e, mais tarde, mulher. Quem sabe teria filhos, os meus netos.
Mas não foi Deus, disse Cecília. Quando alguém está a mais, a Natureza leva essa pessoa para equilibrar o mundo. Foi o que tu disseste.
É mais fácil acreditar na Natureza, disse eu. A Natureza não precisa de fazer sentido. Se Ele a levou, que sentido faz isso? Que sentido pode alguém fazer desse gesto desumano? E, ainda assim, Ele safa-se sempre. Sempre. Quando a harmonia desce sobre o mundo, é obra Sua. Mas, quando a desgraça se abate, a culpa é nossa. É porque nos falta a Fé. Falta-nos a esperança. Carecemos da humildade necessária para compreender os seus desígnios. "Deus escreve direito por linhas tortas". É a desculpa mais esfarrapada de todos os tempos. Destes todos e dos que hão-de vir depois destes"

"Cecília continuava a esmurrar-me as costas. Eu continuava a abraçá-la, mas afrouxei um pouco o abraço, não muito, apenas o suficiente para não a sufocar, e fechei os olhos, soltando-a, devagar, sem pressa ou sofreguidão, até encontrar a medida certa do amor."



João Tordo
in, O Luto De Elias Gro







segunda-feira, 18 de novembro de 2019

A NOITE CHEGA-ME






a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.


Al Berto






O Luto de Elias Gro e a Trilogia Dos Lugares Sem Nome





"Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbért, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios na local que escolheu para se isolar: um farol abandonado; à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passa a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O Luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso."



O narrador deste livro, é um moribundo à procura de si mesmo numa ilha sem nome e sem aparente localização geográfica. Um homem cheio de mágoa, com os fantasmas do passado a atormentarem-no furiosamente. Um homem que sofre por amor, e pela perda de uma filha, e que vai para esta ilha para fazer o seu luto.
O verdadeiro suspense aqui já não está na resolução de um enigma, mas no labirinto de emoções, crenças, sonhos e pesadelos de personagens bizarras que lhe servem para discorrer sobre a morte, o medo, a doença, a angústia, a religião, a mitologia e o sofrimento enquanto potência de vida numa teia que obedece a um único princípio: seguir um homem — com letra minúscula ou maiúscula — em dor.

De forma a afugentar o terror do passado, o narrador decide ir viver para o farol de uma ilha, a alguns quilómetros da povoação mais próxima.
«Diziam que nela viviam menos de cem pessoas e que, na época balnear, os turistas a visitavam em grupos muito pequenos», a solução ideal para o protagonista viver os seus dias isolado, sem contacto com o exterior e as pessoas. Um estado de vida para os que ambicionam ressacar as mágoas do passado.

O ambiente carregado de cinzento povoa a ilha e acompanha os seus habitantes peculiares:
Elias Gro, o pastor ambicioso e sonhador – especialmente com a reconstrução da casa afundada do escritor moribundo Lars Drosler  –, a imagem mais próxima de um líder; a bondosa Alma, a viver fechada em desgosto pela morte prematura da sua filha Karla Maria aos 12 anos, vítima de um naufrágio perto da ilha; a criança Cecília, filha de Elias e Merete ( Merete morreu 1 ano depois da Cecília nascer com cancro nos ossos) peculiar e cheia de curiosidade, com um vício sobre os ossos do corpo humano e, através das leituras de cadernos guardados na casa de Elias, cria uma grande cumplicidade com o narrador. A partir do momento em que as várias personagens vão aparecendo no caminho do narrador – uma vez mais sem nome, os comportamentos e pensamentos bastam para o leitor desenhar o aspeto do narrador –, as várias histórias misturam-se na linha de acção deste Luto de Elias Gro.

O narrador vagueia pela ilha, sem destino e sem preocupações.
Num primeiro plano existe o farol e o alcool em excesso a acompanhar, a deixá-lo inconsciente todas as noites e, no seguimento da história, acaba por ser expulso do farol e passa a dormir ao relento. À mercê das chuvas ou do calor que se faz sentir, ao lado dos animais, com a tormenta do seu passado a infiltrar-se no presente. A sensação do futuro é quase inexistente para este protagonista, é a mestria de João Tordo que torna possível sentir o desespero da personagem. A agonia do narrador, situado no inferno, é o ponto alto ao longo de todo o livro: todos os restantes enredos são acessórios, mesmo a história do louco Drosler e a fé do sacerdote Elias. Alguns personagens nasceram na ilha e nela viveram toda a sua vida, outros foram lá parar depois de algum acontecimento trágico nas suas vidas e por lá ficaram, lá viveram e morreram. É o caso de Alma, que com a sua filha Karla Maria foram vítimas de um naufrágio perto da ilha e foram socorridas pela população. Lá ficaram, a sua filha não sobreviveu e acabou por ser sepultada na ilha.

O narrador desta história é um dos que foi para a ilha à procura do natural isolamento que um farol desactivado lhe poderia trazer. Procurava um sítio onde não tivesse de falar com outras pessoas, onde ninguém o conhecesse e onde ninguém estivesse interessado em conhecê-lo. Queria liberdade para poder afogar todas as suas mágoas e enfrentar todos os seus demónios sem ser julgado.
No entanto, nem todos os habitantes da ilha estão interessados em respeitar a vontade do novo inquilino do farol. O padre, que não é padre, Elias Gro, faz os possíveis para que ele se sinta acolhido, obrigando-o a participar na vida da pequena comunidade, impondo-lhe levar a filha Cecília à escola todas as manhãs.

É desta forma que conhece Cecília, a filha de Elias Gro.
Cecília é uma menina de onze anos, muito perspicaz e inteligente, que cresceu muito sozinha na ilha, sem mais crianças para brincar, embora frequente a escola no continente. É uma miúda sedenta de atenção e parece encarar o mau humor do narrador, que chega a ser ofensivo e violento com a pequena Cecília, como um desafio. Percebemos logo que ele gosta muito dela, que a acha peculiar no bom sentido e divertida. A presença de Cecília faz-lhe bem, mas também lhe traz lembranças do seu passado com as quais ainda não consegue lidar.

Ao longo do livro vamos acompanhando o processo de luto do narrador. 
Vamos conhecendo o que o levou a procurar isolar-se do mundo, num farol perdido numa ilha perdida no meio do Atlântico. Descobrimos um homem que perdeu tudo e que não sabe lidar com isso. Refugia-se na bebida e torna-se uma pessoa desprezível. Quer afastar de si toda e qualquer manifestação de bondade, não se sente merecedor da compaixão dos outros. Quanto mais os habitantes da ilha o tentam incluir,  mais ele os afasta. A única pessoa que parece conseguir, de alguma forma, criar brechas na barreira protectora que criou à sua volta, é Cecília.

O narrador chega à ilha para fazer o seu luto e, no seu isolamento auto-imposto, no “inferno circular” da sua cabeça, apercebe-se de que uma ilha é um território apetecível a quem lida com a perda. Cínico, mordaz, agnóstico, depara-se com gente para quem Deus salva — como Elias Gro ou Alma — e outros, como o fantasma do escritor Lars Drosler, que rejeitam a ideia de Deus “até ao final dos seus dias”. Mas todos lhe devolvem uma imagem, como um espelho: a da solidão a que estão condenados no momento em que sofrem a perda.
“A solidão do mar pode esmagar as pessoas, remeter os mais loquazes ao silêncio.”
A única pessoa que parece capaz de quebrar essa vertigem auto-destrutiva é Cecília, filha de Elias, anjo da guarda e espírito de contradição do narrador.

“Confesso-vos que, às vezes, aquela miúda me mexia com os nervos. Nela eu via a insolência de Elias Gro: o repto constante, o gosto pelo choque.” 
Cecília tem um papel decisivo. 
Além de antagonista à altura do desespero e do cepticismo do narrador, é a partir dela que todas as personagens adquirem uma identidade. Cecília ouve e interpela, faz agir. Tal como o narrador se revê nos que procuram a ilha como lugar de luto, o leitor pode achar em Cecília a sua própria voz, o seu meio de, através de uma personagem, provocar o narrador. É um jogo a vários níveis, com o tal leitor a ser, por sua vez, lembrado da sua condição através de um narrador que também o interpela, que lhe lembra que é ele o destinatário de uma narrativa construída para indagar acerca da mortalidade, conjugando para isso o racional e a fantasia, sem que a fronteira entre um e outra seja visível.

Todos naquela ilha têm problemas, todos eles conhecem a perda e vivem com ela e, todos têm diferentes maneiras de fazer o luto. Todos eles encontraram formas de continuar a viver depois da morte. O nosso narrador também vai acabar por sair do buraco escuro e fundo para onde foi quando a vida lhe pregou uma partida ao perder a sua filha que teria a mesma idade de Cecília. A viagem não será fácil e levará algum tempo até que ele consiga ver para além da sua própria dor.

De certo modo, a esperança permanece ao longo das páginas de “O Luto de Elias Gro”.
Por detrás de todo o drama e tragédia construída por João Tordo, há «uma medida certa do amor» para os mais descrentes. Fica a sensação de vazio no final da história, o querer mais; o desejo de mais desenvolvimento pelos pormenores do narrador, da curiosa Cecília, e de todos os outros habitantes da ilha.

Tordo procura provocar em quem lê, alguma da dor, raiva, tristeza, angústia e impotência que o narrador sente nos diversos estágios do seu luto.
Embora pareça e, de certa forma, seja um livro pesado, está escrito com algum sentido de humor que aligeira um pouco a atmosfera mais negra da história.
Sempre com a "História Universal da Infâmia", de Jorge Luis Borges, presente nas reflexões do narrador... encontrou esse volume de contos no dia em que chega ao farol, um lugar onde há muito não morava ninguém, e foi o livro que leu durante o seu luto na ilha. Passa a ler uma página do livro por dia numa existência de sono, whisky e o papel de peão da loucura de Elias Gro, que tenta resgatar da água a casa onde viveu Lars Drosler e tudo o que ele deixou ( a casa foi submersa pelo mar), sobretudo um baú cheio de folhas soltas escritas e os diários de Drosler que revelam o passado de Elias e do faroleiro Xavier, assim como as loucuras de Drosler.

Mais do que uma história sobre a forma como perdemos as pessoas que mais amamos é um livro sobre empatia. Numa ilha as pessoas revelam-se, entregam-se a afectos. Deus parece ser o escape num meio do caminho, a busca por uma fé desajustada. As relações estreitam-se, escapam por entre os dedos, passamos a vida com medo de perder.
A nossa tristeza é fruto de quem perdemos ao longo da vida?
Numa ilha queremos fugir mas não temos mais do que a natureza, o silêncio e a própria solidão.



Este livro é o primeiro de uma Trilogia.
A Trilogia Dos Lugares Sem Nome:

1- O LUTO DE ELIAS GRO
Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza – e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

Este narrador, lúgubre e melancólico, dependente do álcool para atenuar a sua dor, apresenta-nos de início como conheceu um alemão que lhe arrendou um farol numa ilha para poder viver longe da sua anterior existência, descrevendo-nos a ilha e os seus habitantes. Após a primeira apresentação que nos é feita da Casa das Águas, uma casa vitoriana que tinha sido habitada por um escritor, Lars Drosler, e que fora engolida pelo mar, o narrador descreve-nos a breve rotina que levou nos primeiros tempos na ilha. Rotina que mudou quando, distraído, o narrador atropelou, de bicicleta, Cecilia, uma pequena rapariga espirituosa e perita em anatomia, e Alma, uma mulher muito carinhosa com quem Cecilia passava grande parte do seu tempo livre. Num dos dias subsequentes, o narrador conhece Elias Gro, um padre anglicano, pai de Cecilia, que lhe pede o favor de acompanhar a partir de aí a sua filha até à escola, que era no continente. Estranhando tal pedido, mas aquiescendo de forma a compensar o remorso que sentia por ter atropelado Cecilia, o narrador assim o faz. E é assim que eles começam a passar muito tempo juntos e a trocar as suas ideias e pensamentos.

A certa altura, Elias Gro expressa os seus desejos em recuperar a Casa das Águas, recuperando tudo o que pudesse ser dos restos afundados da casa. É assim que o narrador e Cecilia têm acesso aos escritos e diários de Lars Drosler, e começam numa análise dos mesmos.

A parte final da história revela-nos como o narrador vai aos poucos aprendendo a lidar com a sua dor, e como o luto não é algo que pertence a cada um individualmente, mas é um sentimento partilhado por todos nós. O narrador apercebe-se disso quando fica a conhecer os lutos de Alma e, especialmente, de Elias Gro. É com esta renovada perceção que a história avança para uma conclusão inconclusiva, na qual a dor e a renovação se enlaçam e aproximam.
 A história começa pelo final. O narrador, como muitos outros antes na obra de João Tordo, é um personagem melancólico, perseguido pelos seu passado e pelos seus demónios, procurando uma fuga e uma expiação dos mesmos. É assim que o narrador decide, primeiro, escrever a sua peculiar história, como terapia, e, em segundo, viajar para a ilha e morar num farol.

O farol é um símbolo universal de isolamento mas de esperança, metáfora ideal para a melancolia, a dor e a esperança amalgamadas num mesmo sentimento, numa mesma torre de ferro, fria e distante, mas cuja luz orienta os barcos perdidos no mar.
A Casa das Águas também tem a sua função metafórica, quer a que se afundou, quer a que Elias Gro sonhou reconstruir. O luto, como esta casa, consome e afunda, sem nunca conseguirmos recuperar totalmente. Mas isso não quer dizer que não seja possível iludir essa dor.

João Tordo é um autor que se apoia em imagens metafóricas de uma forma muito bem conseguida, e este livro é talvez aquele que, até agora, mais evidenciou essa sua capacidade. Todos os personagens fulcrais deste romance, o narrador, Elias Gro, Cecilia, Alma, Lars Drosler, e François Xavier (o faroleiro que habitava no farol), exprimem as suas formas de dor e as suas maneiras de lidar com a dor, de fazer o seu luto e de aprender a, aos poucos, recuperar dela.

O final do romance é deixado em aberto, precisamente para exprimir essa ideia de inconclusão que a dor nos destina. Os temas da expiação, da inquietude, da melancolia e da tristeza são temas recorrentes na obra de João Tordo, aqui encontrando uma espécie de súmula, precisamente porque, pelo menos é dado a entender, nesta obra (e talvez na "trilogia") o autor procura um encerramento temático, e, em simultâneo, um início.





2- O PARAÍSO SEGUNDO LARS D.

Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa e encontra uma jovem a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário e, poucas horas mais tarde, parte em viagem com a jovem deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O Luto de Elias Gro.
O Paraíso Segundo Lars D. reflete-se sobre a perda e o vazio que ela causa numa pessoa, através da narrativa da mulher de Lars.

"E, no silêncio, o que acontece? Quando domamos a raiva por causa do carteiro barulhento ou, encontrando uma alternativa, fechamos a janela e de súbito nada existe além dos raios de sol que atravessam a clarabóia e iluminam o pó que nos envolve a todos os momentos? Ultimamente, tenho reparado nisto. Que somos abraçados pelo pó; que entre o nosso corpo e as restantes coisas existe um espaço que julgamos vazio, mas que está cheio de uma matéria qualquer que é pó e mais do que pó, que é sombra e mais do que sombra."
"O que se passa na cabeça de alguém para quem talvez fosse preferível desaparecer? Desaparecer era quase um dever de cada homem, para que pudesse ver a sua vida do lado de fora…”
“O que é que resta de nós se perdermos uma coisa muito importante”, como a escrita num escritor, “onde pomos a nossa identidade se isso falha?”
“Talvez seja esta a resolução de toda a inquietação, o fim de toda a angústia: sabermos, no nosso interior, que toda a inquietação ou angústia são manifestações de uma mesma coisa, de um desejo de união com alguma coisa inefável que resiste a mostrar-se.”  
in, O Paraíso Segundo Lars D.






3- O DESLUMBRE DE CECÍLIA FLUSS

"O que acontece ao amor quando envelhece ou definha ou é trocado pela indiferença? O que aconteceu à mulher jovem que está naquela fotografia a olhar-me como se nunca me tivesse visto, que coisa é esta, tão cruel, este sussurro do passado, este perfume de ontem? Ouço Lars subir as escadas, pata após pata, arfando pesadamente - não vai para novo, o meu cão. Entra, sorrateiro, e vem deitar-se aos meus pés. Parece que suspira, deixa a cabeçorra cair sobre as patas, no seu mundo de eterno presente, de infinito amor. Sorrio. Chego a cadeira à frente, a noite caiu há muito, e há uma voz que me chama, Matias, Matias, batatas com enguias."

Aos catorze anos, Matias Fluss é um adolescente preocupado com três coisas: o sexo, um tio enlouquecido e as fábulas budistas. Vive com a mãe e a irmã mais velha, Cecilia, numa espécie de ninho onde lambe as feridas da juventude: a primeira paixão, as dúvidas existenciais, os conflitos de afirmação. Sempre que sente o copo a transbordar, refugia-se na cabana isolada do tio Elias.
Cedo, contudo, a inocência lhe será arrancada. Ao virar da esquina, encontra-se o golpe mais duro da sua vida: o desaparecimento súbito de Cecilia que, afundada numa paixão por um homem desconhecido, é vista pela última vez a saltar de uma ponte.
Muito mais tarde, Matias será obrigado a revisitar a dor, quando a sua pacata vida de professor universitário é interrompida por uma carta vinda das sombras do passado, lançando a suspeita sobre o que aconteceu realmente à sua irmã — sem saber ainda que regressar ao passado poderá significar, também, resgatar-se a si mesmo.



No final desta «Trilogia Dos Lugares Sem Nome», iniciada com O luto de Elias Gro, João Tordo explora, através de personagens únicas e universais, numa geografia singular, os temas da memória e do afecto, do amor e da desolação, da vida terrena e espiritual, procurando aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios.

São três romances que, apesar de constituírem uma trilogia, terem títulos semelhantes e nomes de personagens que transitam, contam histórias "independentes", sem uma cronologia a seguir, podendo ser lidos de forma independente ou sem qualquer ordem específica.






sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A Ascensão Do Ser Humano

Piazzolla, Guitarra, Bandoneón y Orquesta de Cuerdas-Alondra de la Parra...

A VIDA





A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.



NUNO JÚDICE
in, TEORIA GERAL DO SENTIMENTO







Astrologia, Consciência Cósmica





Revelar a verdade do ser: era esta, para os gregos – pelo menos até ao séc. V a.C. – a função da educação. Nobilíssima e ampla visão (entretanto extraviada, perdida, esquecida e largamente ignorada pela nossa chamada “civilização”); não só da educação, dos métodos e dos objetivos de qualquer pedagogia: mas da natureza do Homem, do seu potencial, da sua condição – bem como das condições necessárias e meios adequados para que este se pudesse (ou possa!) cumprir.

E além disso – para o que nos interessa aqui e agora – a visão grega da educação oferece-nos um vislumbre do que é, ou pode ser, a visão astrológica, metafísica, e encantada da vida.

Tempos houve – há mais de 2500 anos! – em que educar um (“o”) Homem consistia, antes de mais, no exercício do direito – e do dever!de se reconhecer, e cumprir, como obra de arte viva, ética, e criadora. Isto é, como uma criatura capaz de se conhecer, transformar, e honrar conscientemente os “poderes divinos” de que era criação, ele próprio, e herdeiro.

Nessa altura, o conhecimento intelectual e o fascínio/obsessão pelo mundo material não só eram secundários, mas preocupações menores perante a principal, mais essencial e decisiva tarefa perante a própria existência: conhecer-se, às divindades que através de si viviam, e aos dons, tarefas, caminhos e talentos por eles dispensados a cada um pelo seu nascimento.

Essa visão do Homem e da sua educação subsistem, ainda hoje, sob a forma de uma “pedagogia cósmica” a que chamamos de Astrologia.

“A finalidade [da educação, na Grécia Antiga] era aproximar os homens dos deuses, aproximá-los da (…) força criadora dos deuses da antiguidade (…), que nada mais eram do que princípios cósmicos. Por ocasião do nascimento do jovem, ele era consagrado a certas divindades, segundo sua carta astral. Era a astrologia arcaica, onde o nome que o indivíduo receberia revelaria seu destino, indicando caminhos a percorrer e os talentos a realizar.
O herói era aquele que conseguiria cumprir seus talentos e o traidor seria aquele que se esqueceria deles (desperdiçaria). Portanto, era fundamental o conceito de verdade. Conseguia ser ele próprio, expressando no corpo, no exterior e no interior, tudo aquilo que trouxe de outras existências. Realizar os talentos era tornar-se verdadeiro. A educação arcaica era voltada para a verdade, e não para o conhecimento intelectual. Este era secundário, e a revelação da verdade era fundamental (…)”. Viktor D. Sallis

Isso era o essencial da educação para os gregos antigos: ensinar o Homem a ser Homem, tornando-se cada vez mais divino – através da descoberta e exercício dos princípios divinos manifestados em si como talentos. Os talentos, oferecidos pelos deuses a cada um por ocasião do seu nascimento, deviam ser honrados e cumpridos: e era isso que revelava a cada um, precisamente, o seu próprio destino.

Dito de outra maneira: o “destino” de cada Homem era cumprir e exercitar os talentos e os dons próprios com que tinha nascido – assim cada Homem podia, à medida que exercia os seus dons próprios de origem divina, servir a Criação.

Já não é essa, nem pouco mais ou menos, a “visão” moderna da educação.
Hoje em dia domesticam-se, instruem-se – não se “educam” – e programam peças produtivas de uma engrenagem chamada “sociedade capitalista”, baseada no dinheiro, no consumo, e na auto-glorificação do ego humano dissociado da sua dimensão e natureza divinas – e no altar dos deuses cultuamos o dinheiro, o poder e a fama.

Assim, por exemplo, tudo aquilo e todos aqueles nascidos sob a égide do deus Ares – em termos de signos zodiacais, Carneiro e Escorpião – têm como “destino” e “natureza” cumprir os talentos e os dons associados ao seu deus “regente”. Estes tornam-se, através das circunstâncias próprias da sua existência (e se aproveitar conscientemente as crises e as oportunidades que inevitavelmente a acompanharão), cada vez mais capazes e conscientes de atualizar o potencial da divindade Ares/Marte que através da sua vida particular procura expressar-se.
Estes constatarão, por exemplo, que todos os conflitos, desafios e lutas da sua existência são oportunidades (“divinas”) de exercitar os dons da coragem, audácia, autonomia, capacidade de permanecer sobre os próprios pés, lutando pela vida e por direitos – ou contra circunstâncias limitadoras e opressoras. E ao lidar com estas tarefas existenciais, ninguém está a ser “contrariado” nem castigado pela vida, mas a ter a oportunidade de se cumprir e conquistar a si mesmo, na sua dignidade, na sua essência, na sua humanidade, e na sua divindade imanente.

Mas isso, claro, requereria uma educação profundamente diferente da nossa. E por estes tempos, ou regressamos aos clássicos e às origens, e ao que de melhor delas se perdeu e precisamos recuperar, ou estudamos Astrologia, que vai dar quase ao mesmo. E podemos começar a reconhecer a imensidão dos dramas cósmicos, míticos e mágicos que se movem e vivificam dentro de nós, os deuses que nos habitam,

E o que temos nós de fazer para atualizar os poderes divinos que nos deram origem.



Nuno Michaels






















quinta-feira, 14 de novembro de 2019

If Da Vinci Was A Girl | Jacob Gurevitsch | Spanish Instrumental acousti...

Poem 12 in Gitanjali


Carlo Cafferini







I have been traveling long
My way is also long
When I had first started it was early dawn.
From planet to planet, from star to star
I have left my footprints along a winding path
Through so many hills and dales
Through so many lands.
To come close one has to travel far
It is very difficult indeed
But not to one who is straight at heart.
Traversing many alien countries
The traveler comes to his own land at last
Only after wandering in the outside world
One can find one’s own inner God.

To say, ‘Here you are’,
I looked in so many places, so many ways I walked
But you are there everywhere in this world
Which we flood with tears
Crying, ‘Where are you, O where!’


Rabindranath Tagore
Poem 14
in, The Collection Gitimalya
Transcreation by Kumud Biswas




Encontrei outra tradução, que partilho aqui:



The time that my journey takes is long and the way of it long.

I came out on the chariot of the first gleam of light, and pursued my
voyage through the wildernesses of worlds leaving my track on many a star and planet.

It is the most distant course that comes nearest to thyself,
and that training is the most intricate which leads to the utter simplicity of a tune.

The traveler has to knock at every alien door to come to his own,
and one has to wander through all the outer worlds to reach the innermost shrine at the end.

My eyes strayed far and wide before I shut them and said `Here art thou!'

The question and the cry `Oh, where?' melt into tears of a thousand
streams and deluge the world with the flood of the assurance `I am!'



Rabindranath Tagore
in, Gitanjali
Poem 12
Translation by Bertram Kottmann





Rabindranath Tagore: Gitanjali







IV

LIFE OF MY LIFE, I shall ever try to keep my body pure, knowing that thy living touch is upon all my limbs.

I shall ever try to keep all untruths out from my thoughts, knowing that thou art that truth which has kindled the light of reason in my mind.

I shall ever try to drive all evils away from my heart and keep my love in flower, knowing that thou hast thy seat in the inmost shrine of my heart.

And it shall be my endeavour to reveal thee in my actions, knowing it is thy power gives me strength to act.



XII

THE TIME THAT my journey takes is long and the way of it long.

I came out on the chariot of the first gleam of light, and pursued my voyage through the wildernesses of worlds leaving my track on many a star and planet.

It is the most distant course that comes nearest to thyself, and that training is the most intricate which leads to the utter simplicity of a tune.

The traveller has to knock at every alien door to come to his own, and one has to wander through all the outer worlds to reach the innermost shrine at the end.

My eyes strayed far and wide before I shut them and said, “Here art thou!”

The question and the cry, “Oh, where?” melt into tears of a thousand streams and deluge the world with the flood of the assurance, “I am!”



XXXI

“PRISONER, TELL ME, who was it that bound you?”

“It was my master,” said the prisoner. “I thought I could outdo everybody in the world in wealth and power, and I amassed in my own treasure house the money due to my king. When sleep overcame me I lay upon the bed that was for my lord, and on waking up I found I was a prisoner in my own treasure house.”

“Prisoner, tell me who was it that wrought this unbreakable chain?”

“It was I,” said the prisoner, “who forged this chain very carefully. I thought my invincible power would hold the world captive leaving me in a freedom undisturbed. Thus night and day I worked at the chain with huge fires and cruel hard strokes. When at last the work was done and the links were complete and unbreakable, I found that it held me in its grip.”



XXXV

WHERE THE MIND is without fear and the head is held high;
Where knowledge is free;
Where the world has not been broken up into fragments by narrow domestic walls;
Where words come out from the depth of truth;
Where tireless striving stretches its arms towards perfection;
Where the clear stream of reason has not lost its way into the dreary desert sand of dead habit;
Where the mind is led forward by thee into ever-widening thought and action—
Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake.



XXXVII

I THOUGHT THAT my voyage had come to its end at the last limit of my power—that the path before me was closed, that provisions were exhausted and the time come to take shelter in a silent obscurity.

But I find that thy will knows no end in me. And when old words die out on the tongue, new melodies break forth from the heart; and where the old tracks are lost, new country is revealed with its wonders.



 XLVIII

THE MORNING SEA of silence broke into ripples of bird songs; and the flowers were all merry by the roadside; and the wealth of gold was scattered through the rift of the clouds while we busily went on our way and paid no heed. We sang no glad songs nor played; we went not to the village for barter; we spoke not a word nor smiled; we lingered not on the way. We quickened our pace more and more as the time sped by.

The sun rose to the mid sky and doves cooed in the shade. Withered leaves danced and whirled in the hot air of noon. The shepherd boy drowsed and dreamed in the shadow of the banyan tree, and I laid myself down by the water and stretched my tired limbs on the grass.

My companions laughed at me in scorn; they held their heads high and hurried on; they never looked back nor rested; they vanished in the distant blue haze. They crossed many meadows and hills, and passed through strange, faraway countries. All honour to you, heroic host of the interminable path! Mockery and reproach pricked me to rise, but found no response in me. I gave myself up for lost in the depth of a glad humiliation—in the shadow of a dim delight.

The repose of the sun-embroidered green gloom slowly spread over my heart. I forgot for what I had travelled, and I surrendered my mind without struggle to the maze of shadows and songs.

At last, when I woke from my slumber and opened my eyes, I saw thee standing by me, flooding my sleep with thy smile. How I had feared that the path was long and wearisome, and the struggle to reach thee was hard!



LIV

I ASKED NOTHING from thee; I uttered not my name to thine ear. When thou took’st thy leave I stood silent. I was alone by the well where the shadow of the tree fell aslant, and the women had gone home with their brown earthen pitchers full to the brim. They called me and shouted, “Come with us, the morning is wearing on to noon.” But I languidly lingered awhile lost in the midst of vague musings.

I heard not thy steps as thou camest. Thine eyes were sad when they fell on me; thy voice was tired as thou spokest low— “Ah, I am a thirsty traveller.” I started up from my daydreams and poured water from my jar on thy joined palms. The leaves rustled overhead; the cuckoo sang from the unseen dark, and perfume of babla flowers came from the bend of the road.

I stood speechless with shame when my name thou didst ask. Indeed, what had I done for thee to keep me in remembrance? But the memory that I could give water to thee to allay thy thirst will cling to my heart and enfold it in sweetness. The morning hour is late, the bird sings in weary notes, neem leaves rustle overhead and I sit and think and think.



LXXX

I AM LIKE a remnant of a cloud of autumn uselessly roaming in the sky,
O my sun ever- glorious!

Thy touch has not yet melted my vapour, making me one with thy light, and thus I count months and years separated from thee.

If this be thy wish and if this be thy play, then take this fleeting emptiness of mine, paint it with colours, gild it with gold, float it on the wanton wind and spread it in varied wonders.

And again when it shall be thy wish to end this play at night, I shall melt and vanish away in the dark, or it may be in a smile of the white morning, in a coolness of purity transparent.



LXXXVI

DEATH, THY SERVANT, is at my door. He has crossed the unknown sea and brought thy call to my home.

The night is dark and my heart is fearful—yet I will take up the lamp, open my gates and bow to him my welcome. It is thy messenger who stands at my door.

I will worship him with folded hands, and with tears. I will worship him placing at his feet the treasure of my heart.

He will go back with his errand done, leaving a dark shadow on my morning; and in my desolate home only my forlorn self will remain as my last offering to thee.



XCV

I WAS NOT aware of the moment when I first crossed the threshold of this life.

What was the power that made me open out into this vast mystery like a bud in the forest at—midnight!

When in the morning I looked upon the light I felt in a moment that I was no stranger in this world, that the inscrutable without name and form had taken me in its arms in the form of my own mother.

Even so, in death the same unknown will appear as ever known to me. And because I love this life, I know I shall love death as well. The child cries out when from the right breast the mother takes it away, in the very next moment to find in the left one its consolation.



Rabindranath Tagore 
in, Gitanjali




NOTA:
Gitanjali, composed from “gita” or song, and “anjali” or offering, the title thus means, “An offering of songs”. The English Gitanjali (1912) is a volume of 103 poems, selected by Tagore from his huge corpus of Bengali verse.
Indeed, W.B. Yeats wrote in an introduction to the collection, “[the poems] have stirred my blood as nothing for years …”









Rabindranath Tagore


Rabindranath Tagore





"I remember how my life’s work developed from the time when I was very young. When I was about 25 years I used to live in utmost seclusion in the solitude of an obscure Bengal village by the river Ganges in a boat house.

The wild ducks which came during the time of autumn from the Himalayan lakes were my only living companions, and in the solitude I seem to have drunk in the open space like wine overflowing with sunshine, and the murmur of the river used to speak to me and tell me the secrets of nature …

And I passed my days in the solitude dreaming and giving shape to my dream in poems and studies and sending out my thoughts to the Calcutta public through the magazines and other papers. You can well understand that it was a life quite different from the life of the West.

I do not know if any of your Western poets or writers do pass the greatest part of their young days in such absolute seclusion. I am almost certain that it cannot be possible and that seclusion itself has no place in the Western world …

And my life went on like this. I was an obscure individual—to most of my country men in those days. I mean that my name was hardly known outside my own province, but I was quite content with that obscurity, which protected me from the curiosity of the crowds.

And then came a time when my heart felt a longing to come out of that solitude and to do some work for my fellow human being and not merely give shapes to my dreams and meditate deeply on the problems of life, but try to give expression to my ideas through some definite work, some definitive service for my fellow beings …

And the one thing, the one work which came to my mind was to teach children. It was not because I was specially fitted for this work of teaching, for I have not had myself the full benefit of a regular education. For some time I hesitated to take upon myself this task, but I felt that as I had a deep love for nature I had naturally love for children also.

My object in starting this institution was to give the children of men full freedom of joy, of life and of communion with nature. I myself had suffered when I was young through the impediments which were inflicted upon most boys while they attended school and I have had to go through the machine of education which crushed the joy and freedom of life for which children have such insatiable thirst. And my object was to give freedom and joy to children of men …

And so I had a few boys around me, and I taught them, and I tried to make them happy. I was their playmate. I was their companion. I shared their life, and I felt that I was the biggest child of the party. And we all grew up together in this atmosphere of freedom. The vigour and the joy of the children, their chats and songs filled the air with a spirit of delight, which I drank every day I was there.

And in the evening during the sunset hour I often used to sit alone watching the trees of the shadowing avenue, and in the silence of the afternoon I could hear distinctly the voices of the children coming up in the air, and it seemed to me that these shouts and songs and glad voices were like those trees, which come out from the heart of the earth like fountains of life towards the bosom of the infinite sky …

And it symbolized, it brought before my mind the whole cry of human life, all expressions of joy and aspirations of men rising from the heart of Humanity up to this sky. I could see that, and I knew that we also, the grown-up children, send up our cries of aspiration to the Infinite. I felt it in my heart of hearts.

In this atmosphere and in this environment I used to write my poems of Gitanjali, and I sang them to myself in the midnight under the glorious stars of the Indian sky. And in the early morning and in the afternoon glow of sunset I used to write these songs till a day came when I felt impelled to come out once again and meet the heart of the large world."



Rabindranath Tagore 
Nobel Prize Acceptance Speech 





terça-feira, 12 de novembro de 2019

Emoção ou Sentimento?





Emoção ou sentimento? 
Mental ou comportamental? 
António Damásio explica a organização afetiva humana.


Emoção ou sentimento?
Coloquialmente, os termos acabam sendo utilizados como sinónimos, mas, na ciência, eles têm diferenças significativas que, uma vez observadas, podem ampliar nossa compreensão sobre o comportamento das pessoas – inclusive de nós mesmos.

O neurocientista português António Damásio falou sobre o tema à Revista Galileu.

O que é, em termos mais breves ou mais simples, para um público leigo, essa diferença básica entre emoção e sentimento? Emoção é uma coisa, uma reação mais rápida, mais instintiva ou o que diferencia as duas (emoção e sentimento)?
António Damásio: A emoção é um programa de ações, portanto, é uma coisa que se desenrola com ações sucessivas. É uma espécie de concerto de ações. Não tem nada a ver com o que se passa na mente.

É despoletada pela mente, mas acontece com ações que acontecem dentro do corpo, nos músculos, coração, pulmões, nas reações endócrinas. Sentimentos são, por definição, a experiência mental que nós temos do que se passa no corpo. É o mundo que se segue (à emoção). Mesmo que se dê muito rapidamente, em matéria de segundos, primeiro são ações e pode-se ver sem nenhum microscópio. Você pode me ver tendo uma emoção, não vê tudo, mas vê uma parte. Pode ver o que se passa na minha cara, a pele pode mudar, os movimentos que eu faço etc... enquanto o sentimento você não pode ver.

O sentimento eu tenho e você não sabe se eu tenho ou não tenho. E se você tiver um sentimento de profunda tristeza, mas se me quiser enganar, e quiser comportar-se como se estivesse alegre, vai me enganar mesmo, porque eu não posso saber o que está dentro da sua cabeça, posso adivinhar, mas é diferente.

Isso é uma diferença fundamental. 
É a diferença entre aquilo que é mental e aquilo que é comportamental.
É uma reação inata, o sistema de reações é inato e desencadeado por um determinado processo, geralmente um processo intelectual, uma coisa que se percebe, se ouve, que se vê, etc e depois acontece dentro do corpo dessa forma complexa. Essa é a grande diferença. E como é evidente, é mais fácil perceber o que se passa objetivamente do que perceber uma coisa que se passa dentro da mente de outrem. Portanto, este é um aspeto de grande êxito para a neurociência, mas que ainda está em curso. Se você me entrevistar daqui 10 anos, vai ver incríveis desenvolvimentos, que vão acontecer neste espaço de tempo.

Outra coisa que também é muito importante e que começou a acontecer, tem a ver com a tomada de decisões e com o mundo da vida social, não da vida social no sentido barato do termo, mas da vida social em termos da organização da sociedade. E uma coisa, por exemplo, se você ler O Erro de Descartes, especialmente nas últimas páginas, há uma série de passagens em que eu aponto para isso. Em que eu digo, bem no fundo as coisas que estão a acontecer no hipotálamo e que estão a acontecer no Tronco cerebral, que estão a acontecer no Córtex cerebral, tem muito a ver com coisas que se passam no mundo social, como exemplo, a Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Estava a fazer a ponte entre aquilo que acontece no cérebro e aquilo que acontece na nossa vida em matéria de organização social. Porque, tal como hoje penso, e aparece também no meu ultimo livro, Self comes to mind (E o cérebro criou o homem) - nunca consigo lembrar o título, penso sempre no homem que criou o cérebro -, aquilo que eu aponto, também ali, é que, a nossa vida e a nossa organização social são um reflexo extraordinariamente importante da nossa organização básica afetiva.

A razão pela qual temos uma sociedade organizada da forma que temos, aquilo que acontece em matéria da criação da moralidade, justiça, economia, política, e mesmo termos mesmo das artes e humanidades, tudo isso tem uma influência extraordinariamente grande na vida dos afetos."









Regresso à Casa da Partida






... se houvesse alguma coisa mais valiosa de dizer ou escrever, neste momento

do que a incomunicável cumplicidade silenciosa, em comunhão,

enquanto tudo se desfaz, ainda assim permanecendo fidelissimamente aberto

o Delicado Coração, o Coração Inocêncio,

o Ser observando o sem fim que aparentemente termina,

o Ser sem mente: o Ser Inocêncio

observando o sem fim que aparente termina

- muda de forma, e se refina - mistério imenso

ondas de choque

e silêncio.

observando a Vida como fases da maré:

na vazante, a despedida

e na cheia, um novo início.

a cada viagem, que é um Regresso,

uma partida, um recomeço

neste tremendo mistério, o indício

em cada morte, de toda a Vida

e se cada viagem é Regresso

e cada partida, recomeço

agradeço à Vida por cada fase, cada onda, e lhe peço

- enquanto nos leva, eleva a todos em sua asa -

que seja leve para quem parte, e para quem fica,

a viagem de regresso a Casa

e alegre a chegada, que é despedida,

enquanto regressamos todos a Casa

e chegados ao fim do sem fim

acabamos todos por regressar

de malas feitas, sem bagagem,

à Casa da Partida 


... se houvesse pois, neste momento, alguma coisa mais valiosa de dizer ou escrever,

do que a incomunicável cumplicidade silenciosa, em comunhão,

enquanto tudo se desfaz, e refaz, e flui, e dilui,

o Delicado Coração, enquanto puder Inocêncio,

aberto ao que há de mais terno, e ainda assim fugaz,

di-lo ia por escrito - mas assim sendo fica dito

tudo

o que há para dizer neste momento

só pode ser dito em silêncio

só pode ser dito o que pode ser dito pelo não dito

que a Vida move-se para a frente e para trás num movimento infinito

como maré que enche, como maré que vaza

Vida que vai e vem e chega e parte, e nos leva na sua asa,

Vida real ou sonhada, abraçada ou sofrida

celebrada ou adiada,

nem sempre aceite, ou compreendida,

Vida que sempre regressa a casa

a preparar nova partida... 



 Nuno Michaels