segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Vacuum Structure of Space





If you want to describe the entire universe in one unified field theory, you have to describe in great detail, the one thing that is found everywhere in the entire universe, on all scales, from infinitely large to infinitely small: SPACE.

One can describe the vacuum structure of space geometrically and mathematically through 3 primary expressions of form:

• Scalar vector geometries (cube octahedron)
• Flow dynamics (the Torus)
• Field patterning (Spin, Phi & Fibonacci)


Nassim Haramein





sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Arcos





Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.


Octavio Paz
in, “Transblanco: em Torno a Blanco de Octavio Paz”







Julgamentos


Tapa o meio com o dedo, 
e a cor de baixo fica igual à de cima.



"Bom, mau, bonito, feio, certo, errado, bem, mal",
Estes e outros julgamentos são usados por nós todos os dias como expressões das nossas crenças e do que acreditamos ser a nossa verdade.
Mas nós não definimos o mundo como ele é, mas sim como cada um de nós é capaz de o ver.

Perante uma mesma paisagem da natureza, alguém pode focar-se na harmonia do que a compõe, na beleza da estação do ano e nas cores envolvidas que tão bem se misturam umas com as outras enquanto que a outra pessoa apenas vê apenas o lixo no chão, as ervas daninhas e o desconforto das temperaturas exageradas da época. É o nosso grau de consciência mais ou menos iluminada que serve como filtro para a nossa mais ampliada ou curta visão do mundo.

Os orientais dizem que tudo é expressão do Divino, que o mundo material é uma expressão física da dualidade energética que o compõe e que as coisas são como são. Somos nós que as carregamos com as nossas observações e julgamentos.
E quantas vezes essas observações pessoais estão tão longe da visão divina, da simplicidade que elas representam e das mensagens que elas escondem.
A lei da correspondência por exemplo, convida-nos a percebermos mais de nós a nível interior, observando o exterior, e os orientais são maravilhosos a fazer isto através da sua prática da meditação e contemplação.


O julgamento fácil que fazemos das coisas e das pessoas 
impede-nos de as observar e analisar na sua existência, 
de aceitarmos que fazem parte do todo, 
e de questionarmos porque afinal estão na nossa realidade pessoal.


Esta incapacidade de simplesmente observarmos, de neutramente contemplarmos a vida, leva-nos a movimentos intensos que oscilam entre o exagerado apego do que consideramos "bom" ou uma violenta rejeição do que julgamos como "mau", fazendo-nos perder a oportunidade de integrarmos aqueles aspectos que em última análise, fazem parte de nós próprios. A luz e a sombra estão presentes em todos nós por isso, na maior parte das vezes, o nosso julgamento dos outros ou mesmo de nós próprios, está condicionado pelo quanto já reconhecemos de luz e sombra em nós próprios.

Daí a frase de Wayne Dyer:

"Quando julgas o outro 
não o defines 
mas defines-te a ti próprio."

Tanto a Astrologia como a Numerologia ensinam-nos que o último estágio de evolução, seja da vida em geral ou de qualquer evento em particular, implica sempre rendição, aceitação e libertação. 
Que todos os eventos a que estamos sujeitos, depois de serem experienciados e as lições retidas, irão convidar-nos a rendermo-nos ao facto de os termos atraído, à aceitação das lições e aprendizagens que trouxeram e à libertação dos mesmos de maneira a dar lugar a novos ciclos e experiências. 
Esta aceitação e rendição não é uma rendição passiva ou sequer uma aceitação submissa de exercermos ou permitirmos abusos seja de quem for. É um processo interno e pessoal que só o próprio consegue identificar e que se foca na viagem de evolução pessoal e não em eventos exteriores como empregos ou relações.

Por isso, a próxima vez que te apanhares a usar as palavras do início do texto, expande a tua mente questionando:
- E se não for assim?
- E se houver outras maneiras de ver esta realidade?
- E se o que eu acho que está certo está afinal errado e vice-versa?
- O que a vida me quer ensinar através deste evento ou pessoa?
- Já identifiquei em mim o que rejeito no outro?
- Já identifiquei em mim porque me apego a coisas e pessoas?

Precisamos reaprender a ver a vida e toda a existência como um processo sagrado.
A ciência e o materialismo afastaram-nos exageradamente deste lado sagrado da vida, do mundo invisível e as consequências estão à vista na desconexão que temos do nosso mundo interior, no stress, na depressão, na violência e na desorientação em que a maioria vive.
A energia de que toda a realidade, incluindo nós próprios, é feita.
Precisamos de nos dehipnotizar de ver o mundo material como um fim em si e reaprender a vê-lo como um meio por onde a energia sagrada e as leis que a regem se manifesta inteligentemente nas nossas vidas. O desenvolvimento pessoal e o estudo da nossa história karmica é essencial para que possamos aprender a reconhecer as mensagens dos eventos e das pessoas na nossa vida e sejamos capazes de cumprir os nossos ciclos, desde que os abrimos até que sejamos capazes de os fechar em amor.

Enquanto houver julgamento há resistência e enquanto houver resistência, a luz não se manifestará.


Vera Luz






quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE





Some say love's a little boy, 
And some say it's a bird, 
Some say it makes the world go round,
Some say that's absurd, 
And when I asked the man next door, 
Who looked as if he knew, 
His wife got very cross indeed, 
And said it wouldn't do.

Does it look like a pair of pyjamas, 
Or the ham in a temperance hotel? 
Does its odour remind one of llamas, 
Or has it a comforting smell? 
Is it prickly to touch as a hedge is, 
Or soft as eiderdown fluff? 
Is it sharp or quite smooth at the edges? 
O tell me the truth about love.

Our history books refer to it 
In cryptic little notes, 
It's quite a common topic on
The Transatlantic boats; 
I've found the subject mentioned in
Accounts of suicides, 
And even seen it scribbled on
The backs of railway guides.

Does it howl like a hungry Alsatian, 
Or boom like a military band? 
Could one give a first-rate imitation
On a saw or a Steinway Grand? 
Is its singing at parties a riot? 
Does it only like Classical stuff? 
Will it stop when one wants to be quiet? 
O tell me the truth about love.

I looked inside the summer-house; 
It wasn't even there; 
I tried the Thames at Maidenhead, 
And Brighton's bracing air. 
I don't know what the blackbird sang, 
Or what the tulip said; 
But it wasn't in the chicken-run, 
Or underneath the bed.

Can it pull extraordinary faces? 
Is it usually sick on a swing? 
Does it spend all its time at the races, 
or fiddling with pieces of string? 
Has it views of its own about money? 
Does it think Patriotism enough? 
Are its stories vulgar but funny? 
O tell me the truth about love.

When it comes, will it come without warning
Just as I'm picking my nose? 
Will it knock on my door in the morning, 
Or tread in the bus on my toes? 
Will it come like a change in the weather? 
Will its greeting be courteous or rough? 
Will it alter my life altogether? 
O tell me the truth about love.



WYSTRAN HUGH AUDEN
in, TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE - TEN POEMS




O Casamento





Kantu tinha as suas dúvidas se valia a pena dedicar-se a um homem.
Testemunhara tantos casamentos fracassados, mulheres abandonadas, famílias destruídas.
- Qual é o elemento fundamental numa relação? - perguntou Kantu a Mama Maru.
- O Amor - respondeu a curandeira. - O Amor une, reforça, transforma, faz crescer, eleva.
Nós mulheres, vivemos para amar; sem amor a nossa alma fica árida e a nossa vida não é digna de ser chamada vida. Só se vive quando se ama. Mas o amor não é eterno, não é duradouro. Quando alguém ama, deve viver intensamente o presente desse amor, porque é possível que, no futuro, esse sentimento venha a perecer, a extinguir-se, a apagar-se. É preciso elevar a vida no altar do amor, porque só entregando-se completamente por amor, se recebe amor.
- Mas eu vi casamentos em que os casais ficam juntos mesmo quando já não se amam - retorquiu Kantu.
- O Matrimónio é uma Instituição criada pela sociedade. O ideal seria um matrimónio de amor, mas todos nós sabemos que também existem casamentos de conveniência.
O casamento acorrenta, liga, amarra, prende. É como uma gaiola sólida: aqueles que estão fora querem entrar e aqueles que estão dentro querem sair. 
O casamento não é sinónimo de Amor.
- Mas nesse caso, devemos ou não casar?
- Preocupas-te demasiado com o casamento, minha querida. Trata-se de uma instituição criada unicamente para proteger o casal, os filhos, mas não tem unica e exclusivamente a ver com o amor. Quando duas pessoas se amam, unem as suas vidas com ou sem casamento. E quando o amor morre, o melhor é separarem-se; não se pode adorar um defunto.
- Como posso saber se um homem me ama ou se eu o amo de verdade?
- Amar alguém e gostar de alguém dizem respeito à união, mas são duas coisas diferentes. Quando uma mulher segue a própria intuição pode saber se um homem a ama, ou não; o homem não. O homem tende a fazer prevalecer a razão sobre o sentimento, mas nem sempre consegue discernir entre o que deseja e o que realmente ama. Qualquer indivíduo é capaz de sentir uma atracção real ou doentia pelo outro sexo, mas sem amor .
No teu caso, tu amas apaixonadamente. Ele, pelo contrário, gosta de ti simplesmente porque o atrais sexualmente; é evidente que não te ama, caso contrário já te teria proposto que fosses viver com ele.
Para que ele te ame, tens de usar essa atracção para que ele se aproxime de ti. Tens de usar a tua energia interior positiva, e o teu sentimento vai revelar-lhe a tua sabedoria. Faz com que a tua sabedoria brote da parte mais profunda do teu ser e ele verá em ti a luz que o iluminará e guiará no seu caminho. Duas vidas fundir-se-ão numa só, o céu e a terra unir-se-ão e desta união brotará a nascente do amor.

Estuda bem o teu homem, não para o criticares, mas para harmonizarem os vossos projectos. Porém, para o compreenderes e conheceres, terás primeiro de te conhecer a ti mesma e aceitar-te como mulher. Se continuares a julgar que o sexo te diminui ou te degrada, serás sempre uma mulher incompleta. A sexualidade não deve ser evitada ou reprimida, mas sim respeitada como meio que te permitirá conhecer melhor o teu amado. A única esperança de salvação para a humanidade reside na libertação da sexualidade, à qual deveria ser obrigatório conferir a marca do sagrado.

A hipocrisia, a convicção de que o sexo é uma coisa suja, pecaminosa e degradante, tem sido fonte de desgraça para milhares de seres humanos e um elemento de ódio e rancor, violência e sofrimento. É necessário superar esta ideia imposta por uma civilização que não busca a felicidade, a alegria, o prazer, mas sim a guerra, a repressão sexual, a pornografia. Para triunfar, terás de ser sincera contigo mesma, terás de te libertar de todos os preconceitos e aprender a arte de conhecer a tua natureza feminina e a natureza do homem.
(...)
Existem várias maneiras de abordar a natureza humana, consoante se trata de um homem ou mulher - explicou a velha curandeira. Homem e mulher têm reacções diferentes na intimidade. É por isso que é necessário fazer experiências até se conhecerem os mecanismos que activam a sexualidade masculina. E não te podes limitar a conhecer a sexualidade do homem que amas, tens de conhecer a sexualidade dos homens em geral.
Para te realizares plenamente, necessitarás do amor total de um homem, e para o conseguires, terás primeiro de conquistá-lo docemente com a tua feminilidade, mas sem que ele perceba, porque o homem gosta de pensar que é um conquistador, quando na realidade não o é.
O homem é feliz quando partilha a sua vida com uma mulher cheia de vitalidade e muito feminina, disposta a usufruir da vida íntima tanto quanto ele. Tu és uma mulher muito atraente e desejável, mas não dura para sempre, e por isso tens de conseguir o quanto antes que a beleza da tua alma chegue ao coração do teu companheiro. Terás de desenvolver a intuição, a capacidade de antecipar os acontecimentos. Procura adivinhar o que as pessoas te querem dizer antes de começarem a falar olhando-as directamente nos olhos. Assim, poderás saber se um homem te ama ou não, se te mente ou não, o que ele realmente quer quando se aproxima de ti.
Tens de o fazer compreender, sem palavras, que desejas a sua presença; com tacto e delicadeza, terás de o induzir a agir. Se queres orientar os passos de um homem, nunca lhe dês ordens: limita-te a sugerir. Demonstra-lhe que és uma mulher cheia de vida, através da tua força física, mental e espiritual! Ele convencer-se-á de que és o seu apoio e não um peso a carregar.



Hernán Huarache Mamani 
in, A Profecia da Curandeira






domingo, 17 de fevereiro de 2019

Olha-me como quem chove






A casa cria rugas à luz das
mensagens dos amigos
que não voltam
.
às vezes perguntas
por um ou outro
e eu vou encontrando desculpas para
a ausência de cada um
trabalho longe 
família a tempo inteiro
.
tudo
para que não saibas que
nunca mais eles vão entrar neste quarto
onde eu largo os meus olhos em ti
sabendo que outros 
um destes dias
também só irão 
encontrar aqui 
o rasto
do que fomos


ALICE VIEIRA
in, OLHA-ME COMO QUEM CHOVE




Do we have free will?





Free will is only a local phenomena.
That is, locally you have free will, which means you can interpreting things around you the way you want.
But ultimately there are “larger” scales that are doing the same.
And you are “subject” to those scales. 

If you get out of line too far, those scales will make sure that you go back in line.
So you always have a fail-save-system in the universe.
So that things can always go towards coherency and no one thing can all of the sudden destroy everything.

Let’s say you believe in reincarnation:
You shoot your foot, it hurts, kills you, what ever.
Then you come back, you shoot your foot again…damn, did it again.
Alright come back….
Eventually you will get the idea, that shooting your foot is not the best way to go about it, right?

The universe will always bring you to further and further coherency.
And actually I believe you even see that in our equations.
It doesn’t matter how whacked out our physics get and how many dimensions we have to add, we can’t even get out of the truth,… meaning it’s there, it might not be understood, it might not be complete.
But it’s always bringing us in that direction of higher levels of coherency.


Nassim Haramein





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Mind is like a goat...eats anything





Nothing has to be wrong for the mind
to launch an attack.
Nothing has to be wrong for it
to make up big stories, out of nothing actually.
There only has to be a seed of a thought
given attention, ‘Hmm, there's still some separation…?’
And the mind says, ‘You see?
I’ve been trying to tell you!’ and there you go,
sailing off down the road with the unstable
and unreliable mind. It can happen just like this.
The mind doesn’t need any substance or truth.
You can give him anything.
He is like a goat—he eats anything.
And we are quick to believe anything it says.
Our life is chiefly made up of thoughts, interpretations
—and wrong interpretations also,
based upon fear, desire and rejection.
This is why I say: pay attention
to the sense of being—the Self.
Be one with the Self, rather than trying
to pick and choose through
the innumerable thoughts and sensations
that mind tends to see
—which one is true and which is false.
You can spend lifetimes doing this
and you will never come to the end of it.
As soon as you finish pruning this tree,
new leaves are coming.
So don’t waste time cleaning up the mind.
Stay as the Self. As you train your attention
and mind to stay as the Self, the space
in which the mind and person lives vanishes.
Thus you come to experience a completeness,
a contentment in just resting in and as the Self.
And when you are content, the interest
will fall away from these other rooms
and their contents.
The feeling of separation, or even union,
all of this becomes redundant as thoughts.
You simply are. There is a unity in that.
There is a harmony in this.
And where no doubts come,
there is even no need for union or separation.
You experience real unity
beyond even the concept of unity.
This is your natural state.

~ Mooji





Biomimicry Revolution





Unlike the Industrial Revolution, the Biomimicry Revolution introduces an era based not on what we can extract from nature, but on what we can learn from her. 
Janine Benyus




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Quarto





algo fere o silêncio
e não é apenas o pingar 
de uma torneira esquecida pela casa
nem o vento que assombra as vidraças
ferindo a plena cicatriz da noite.

algo envelhece esta sombra
que dança atrás da minha sombra.
uma estrela cai
e alguém conspira em silêncio,
através da loucura,
com uma lâmina entre os dentes,
tropeçando pelos astros.

algo abafa este cântico
e ouve-se o grito das aves sem asas
pela nudez fria do mármore.
a febre que respira pesadamente
a desordem das cinzas do incenso desfeito.
o exílio começa pela estrada dos céus.

alguém afasta os lençóis
e desfaz esta cama de trevas.



PAULO EDUARDO CAMPOS
in, A CASA DOS ARCHOTES





O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS





Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mario de Andrade 





domingo, 10 de fevereiro de 2019

Universe at the end of 2018


COMO SE DESENHA UMA CASA





Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.


MANUEL ANTÓNIO PINA






O Pavilhão das Peónias




A ópera kunqu (forma ancestral de ópera chinesa):


"O amor é de origem desconhecida, embora se torne cada vez mais profundo. Pode vitimar os vivos e o seu poder faz reviver os mortos. Esse mesmo amor não atinge a sua plenitude se alguém vivo não estiver disposto a morrer por ele ou se ele não puder restituir a vida a alguém que morreu. E, uma vez que neste mundo abundam os amantes que sonham, o amor que surge nos seus sonhos será necessariamente irreal? Pois não faltam neste mundo amantes que sonham. Só para aqueles cujo amor atinge a plenitude na almofada, e para quem o afecto de aprofunda apenas depois de se retirarem, o amor é completamente físico."
Prefácio de "O Pavilhão das Peónias"
Tang Xianzu
1598


A longa peça de 55 cenas, de Tang Xianzu (1550-1616), fala no amor de Liu Mengmei (cujo nome significa ameixoeira), um jovem estudante, e Tu Liniang, a filha de um alto oficial em Nan-an, na província de Kiangsi.
No jardim familiar, Tu Liniang adormece e sonha com um rapaz com quem acaba por ter relações sexuais no Pavilhão das Peónias. Ao acordar, não consegue esquecer o seu amado. Infeliz, deixa de comer e é-lhe diagnosticado mal de amor. Antes de morrer, Liniang pinta um auto-retrato e enterra-o debaixo de uma árvore do jardim, uma ameixoeira, onde mais tarde os seus restos são sepultados.
Pouco depois, o governador Tu, seu pai, é transferido para um posto militar no norte de Kiangsu.
Liu Mengmei está a caminho de Kwangtung, onde vai fazer o exame imperial em Hangchow. Mas adoece e a sua recuperação faz-se na casa de Verão do jardim da família Tu.
Debaixo da árvore, Meng-mei encontra o retrato de Liniang, que encontrou em sonhos, e deseja revê-la. Os seus desejos são concedidos. Uma noite Liniang aparece-lhe e pede-lhe para abrir o caixão. Liniang é encontrada viva, tão fresca e bonita como sempre.
O casal vai então para Hangchow, onde Mengmei completa o exame, mas o anúncio do resultado da prova é atrasado pela crise nacional, provocada pela invasão de um líder rebelde. Preocupada com o seu pai, Liniang pede ao marido que procure o governador, levando o seu auto-retrato para se identificar.
Por essa altura, o governador Tu já calara a rebelião. A vitória era celebrada com um banquete no seu escritório, quando chega Liu Meng-mei, clamando ser o genro do convidado de honra da festa.
O governador Tu, já informado da violação da sepultura da filha, suspeita tratar-se de um impostor. Prende-o e leva-lo sob escolta para Hangchow, onde pede uma audiência ao imperador.
Chegado a Hangchow, Liu Mengmei é salvo por um oficial, procurando o académico com honras de excelência no exame imperial. Por fim, numa audiência em frente do trono, Liu Mengmei prova a sua inocência com a ajuda da sua mulher ressuscitada. A peça termina, como era habitual nestas obras, com uma promoção do oficial e uma reconciliação familiar.




No Pavilhão das Peónias, uma rapariga de 16 anos escolhe o seu destino, preferindo morrer a viver uma existência que não deseja. Foi a primeira peça de ficção chinesa que retratou uma mulher pensante e revoltada contra os preceitos tradicionais, tendo fascinado as mulheres da época, que podiam ler a ópera mas não estavam autorizadas a vê-la ou ouvi-la.

Uma tendência começou, então, a aparecer: Tal como a protagonista da história, raparigas cultas e abastadas, geralmente entre os 13 e os 16 anos, com casamentos combinados, padeciam de mal de amor, deixando de comer e acabando por morrer. A esperança destas adolescentes era poder escolher o seu destino após a morte, como fizera o fantasma de Liniang. Moribundas, muitas escreveram poemas de amor, publicados após a sua morte, nomeadamente Xiaoqing e Yu Niang.

Esta é uma história de ficção passada no Terraço Panorâmico onde os mortos espreitam os vivos. Fala no Espelho da Retribuição, no tribunal dos juízes infernais e nos ritos do culto dos antepassados. Mas fala sobretudo nos sonhos e esperanças de uma menina que ainda quer ser noiva fantasma. Mais do que tudo, que não quer acreditar que morreu em vão.


O Pavilhão das Peónias teve impacto porque descreveu, com coragem, a curiosidade da mulher pelo sexo, o que foi sempre um tabu numa sociedade regida rigorosamente pelo confucionismo. O imperador podia ter três mil concubinas mas as pessoas comuns não podiam namorar livremente.

O autor da ópera, Tang Xianzu (1550-1616), é dos maiores dramaturgos da China.
O Pavilhão das Peónias, é considerado um dos Quatro Grandes Dramas Clássicos Chineses.
Através dos sonhos e da morte, O Pavilhão das Peónias narra o complicado romance de Du Liniang e Liu Mengmei e é classificado com outros três dramas Tang baseados em sonhos, a Lenda do Gancho de Cabelo Púrpura, Registo de Handan e Registo do Ramo do Sul como os Quatro Sonhos de Linchuan.
Como a peça romântica Tang mais famosa, O Pavilhão das Peónias tem sido encenado repetidamente ao longo de quase quatro séculos e continua a gozar de grande popularidade entre os amantes da ópera chinesa.

Esta história foi renovada através da adaptação do escritor de Taiwan, Bai Xianyong, estando na moda nos últimos anos.

Tam Mei Leng, professor de chinês na Universidade de macau disse:
“Tang Xian-zu acabou o Pavilhão das Peónias em Agosto de 1598, pouco depois de se demitir do cargo público que ocupava. Preferiu demitir-se por não suportar mais a burocracia da dinastia Ming, e nem esperou pela autorização imperial, limitando-se a abandonar as suas funções e regressar à sua cidade natal, LinChuan.

A burocracia e o comportamento dos académicos era muito estranha durante a maior parte da dinastia Ming. A maioria dos académicos e dos políticos era muito decente e honrada no trabalho, mas tinha uma vida dupla, indo a bordéis e adorando ver imagens pornográficas.
A hipocrisia das pessoas transformou o fim da dinastia Ming numa situação intolerável. Foi por isso que Tang escreveu esta história: Para exaltar o amor verdadeiro e mostrar que este sentimento tem o poder de fazer renascer as pessoas.
Tang quis mostrar a obra como um sonho entre um casal de namorados, ou seja uma história de amor para intelectuais. Este álibi conseguiu convencer os académicos da dinastia Ming que adoraram a ópera, mas o verdadeiro objectivo do autor foi de mostrar a perda do amor, ou melhor, o coração real das pessoas.
O Pavilhão das Peónias foi banido no fim da Dinastia Qing, em 1868, com o Imperador Tongzhi. Mas não por muito tempo, já que os imperadores da dinastia Qing não desgostavam da obra. Aliás, só a baniram para mostrar a sua autoridade ao povo.
Nos anos 60, a ópera foi de novo banida na Revolução Cultural por razões políticas. Considerava-se que a obra representava o passado que se queria esquecer para reformar o país, para além de ser considerada demasiado lasciva.
Actualmente, a juventude não tem grande paciência para ler ópera chinesa, e não apreciam ouvir a ópera tradicional.
Mas quando se interessam por esta obra, conseguem sentir a vitalidade da peça. Conseguem rever-se naquelas palavras, e entender que a vida tem mais do que os bens materiais.






O Pavilhão das Peónias
Livro de Lisa See 

O livro de 360 páginas, divididas em III Partes, tem como título original "Peony in Love", e foi publicado em 2007.

Lisa See traz-nos desta vez a história de Peónia, uma adolescente filha de um importante funcionário da Corte do imperador Kangxi. Aos 16 anos está noiva do filho do melhor amigo pai, que nunca viu. Ao início o leitor não pode deixar de ficar pasmo com a aparente aceitação de Peónia por este casamento arranjado e sem amor.
Claro que a história sofrerá uma reviravolta quando o pai de Peónia resolve dar-lhe como presente de aniversário uma representação da célebre ópera "O Pavilhão das Peónias" conhecida pela influência nefasta em tantas donzelas. Mas o pai de Peónia julga a filha imune a tais influências, pois esta mostrara-se sempre uma jovem ajuizada e obediente à sua vontade.
Nesse mesmo dia fatídico em que assistirá à ópera, toda a vida da jovem se vai alterar traçando o destino e dando origem a uma história de um amor impossível digna de Romeu e Julieta que com certeza deliciará todos os leitores.
É como se Peónia antes não passasse de uma lagarta como uma filha obediente e resignada, para se transformar numa borboleta, numa rapariga apaixonada, que deixa de ser uma sombra da vontade do pai e ganha voz própria e como todas as personagens desta autora torna-se numa personagem feminina muito forte.

Lisa See mergulha numa profunda pesquisa histórica sobre os desafios das mulheres chinesas para serem ouvidas e respeitadas nos seus relacionamentos, e assim nasce este livro, uma inesquecível viagem de desejo, angústia, prazer e dor pelo universo feminino.

No século XVII, havia mais mulheres escritoras na China do que em todos os demais países do mundo juntos. Elas também eram grandes leitoras e cresciam apaixonadas pela história da jovem donzela que toma as rédeas do próprio destino e prefere morrer de amor, na ópera O pavilhão das Peónias, de 1598, a se sujeitar a um casamento arranjado pela família. Elas não tinham autorização para assistir à encenação do espetáculo, mas podiam acompanhar sua versão escrita.
Três dessas mulheres, que foram, coincidentemente, casadas com o mesmo homem, uma após a outra, relataram em livro, "Comentários das três esposas", os seus dilemas amorosos depois das provocações causadas pela leitura da ópera.

Lisa See parte desses dados históricos desse livro e acrescenta-lhes elementos de ficção para escrever o romance, no qual conta a trajetória da jovem Peónia, de 16 anos, que, a exemplo da protagonista da ópera clássica, torna-se uma donzela doente de amor – e, portanto, avessa aos casamentos acertados por famílias. Em busca da união com seu amado Ren, uma metáfora para os desafios das chinesas de serem ouvidas e respeitadas em seus relacionamentos.

No livro, a jovem Peónia, de 16 anos, sonha descobrir o amor embalada pela história da donzela Liniang, personagem central da ópera de Tang Xianzu. Mas, na China do século XVII, das Dinastias Ming e Quing, as meninas eram destinadas a casamentos acertados por suas famílias. Mesmo na casa dos Chen, uma abastada família de Hangzhou cujas mulheres tinham acesso à educação e à cultura, as regras não eram diferentes.

Apesar da obediência aos seus pais e à tradição, a jovem Peónia não deixava de ter seus próprios sonhos e ansiava por realizá-los. Foi durante a encenação da ópera nos jardins da família Chen que Peónia, escondida atrás de um biombo, foi surpreendida pelo encontro com Ren. A partir daí, a jovem sente o despertar dos mesmos sentimentos que tomaram a heroína de Xianzu: o imenso desejo de viver ao lado do homem que conquistou seu coração. A exemplo da personagem da ópera clássica, Peónia se torna uma donzela doente de amor e começa a sua jornada em busca da união com Ren. O caminho feito pela menina passa por épocas e lugares distintos, cada um com milenares rituais e tradições. Como um anjo, Peónia velará pelo seu escolhido, num amor que vai além da vida.


Lisa See começa o livro assim:
"A Dinastia Ming caiu em 1644, dando lugar à dinastia Qing, liderada pelos manchu. Durante cerca de 30 anos, o país foi palco de profunda agitação. algumas mulheres viram-se forçadas a abandonar os seus lares; outras fizeram-no por decisão própria. Milhares delas tornaram-se poetisas e escritoras e tiveram a sua obra publicada. As donzelas vítimas do mal de amor faziam parte deste fenómeno. As obras de mais de vinte destas jovens sobreviveram até aos nossos dias.
Segui o Calendário Tradicional Chinês para apresentar as datas.
O Imperador Kangxi reinou de 1662 a 1722.
A ópera de Tang Xianzu, O Pavilhão das Peónias, foi produzida e representada em 1598.
Chen Tong, a personagem Peónia neste romance, nasceu por volta de 1649.
Tan Ze nasceu por volta de 1656.
Quian Yi por volta de 1671.
Em 1694, o livro "O Comentário das Três Esposas" passou a ser o primeiro livro do género escrito e publicado por mulheres em qualquer parte do mundo."

E acaba o livro,  com uma Nota da Autora:

" Em 2000, escrevi um breve artigo para a revista Vogue sobre a produção que o Lincoln Center fizera de "O Pavilhão das Peónias". Enquanto fazia pesquisa para o artigo, deparei-me com as donzelas vítimas do mal de amor. Deixaram-me intrigada e continuei a pensar nelas muito depois de ter terminado o artigo. Costumamos ouvir dizer que no passado não existiam mulheres escritoras, artistas, historiadoras ou chefes, mas é evidente que elas faziam todas estas coisas. O que acontecia com frequência era perder-se o que faziam, cair no esquecimento ou ser deliberadamente encoberto. De modo que, sempre que arranjava tempo aqui e ali, procurava informações onde quer que fosse sobre as donzelas doentes de amor, e acabei por descobrir que faziam parte de um fenómeno muito mais vasto.
Em meados do Séc.XVII, no Delta do Yangtsé, na China, o número de escritoras em obras publicadas era superior ao do resto do mundo na mesma época. Com isto quero dizer que havia milhares de mulheres - de famílias abastadas, com os pés enfaixados e que muitas vezes viviam enclausuradas, - cujas obras eram publicadas. alguma famílias publicavam um único poema escrito por uma mãe ou filha a quem desejavam prestar homenagem, mas existiam outras mulheres - escritoras profissionais - que não só produziam para um público vasto, como também sustentavam as famílias com essa actividade. Como podem tantas mulheres ter feito algo tão extraordinário sem que se soubesse? Por que motivo ninguém sabia? Foi então que encontrei " O Comentário das Três Esposas" - o primeiro livro do género a ser publicado no mundo, escrito por mulheres - três esposas, ainda por cima. Nessa altura, o meu interesse transformou-se em obsessão.
Há aqui vários elementos: a ópera da Tang Xianzu, as donzelas vítimas do mal de amor, a história de "O Comentário das Três Esposas", e as alterações na sociedade que permitiram que esta obra fosse escrita.
Sei que estes elementos são complicados e se sobrepõem um pouco, por isso peço-vos que tentem acompanhar-me:

TANG XIANZU situou o "Pavilhão das Peónias" na Dinastia Song (960-1127), mas estava a escrever sobre a Dinastia Ming (1368-1644), uma época de fervor artístico, bem como de corrupção e de agitação política.
Em 1598, terminada a ópera, Tang tornou-se um dos mais importantes promotores do qing - emoções profundas e amor sentimental. Como todos os bons escritores, Tang escreveu sobre o que conhecia, mas isso não implicava que o governo estivesse necessariamente disposto a ouvir o que tinha para dizer. Quase de imediato, vários grupos exigiram que a ópera fosse censurada, pois era considerada demasiado política e lasciva. Novas versões surgiram quase em simultâneo, até que por fim, das 55 cenas originais, apenas umas insignificantes 8 foram representadas. O texto sofreu um tratamento ainda pior.  Algumas versões foram resumidas, enquanto outras foram revistas ou totalmente reescritas, de forma a ajustarem-se à mudança dos costumes da sociedade.
Em 1780, durante o Reinado de Qianlong, a oposição à ópera sofreu uma escalada e esta foi incluída na lista negra e rotulada de "profana". Mas só em 1868 o Imperador Tongzhi emitiu a primeira proibição oficial, que qualifica "O Pavilhão das Peónias" como uma obra devassa, e ordenou que todas as cópias fossem queimadas, e que fossem proibidas todas as representações.
A ópera continuou a ser censurada até aos nossos dias.
A produção do Lincoln Center foi temporariamente atrasada quando o governo chinês descobriu o conteúdo das cenas restauradas e proibiu a saída do país dos actores, do guarda-roupa e dos cenários, demonstrando de novo que quanto mais as coisas mudam, mais permanecem na mesma.
Se exceptuarmos as ligações sexuais entre duas pessoas solteiras e as críticas do governo - ambas graves, cada uma à sua maneira, julgo eu - por que razão provocou a ópera tamanha agitação?
"O Pavilhão das Peónias" foi a primeira peça de ficção da história da China em que uma heroína - uma rapariga de dezasseis anos - escolhia o seu próprio destino, o que era chocante e, ao mesmo tempo, emocionante. Isto seduzia e fascinava as mulheres que, com raras excepções, eram autorizadas a ler a ópera, mas que nunca a podiam ver ou ouvir. A paixão que esta obra suscitou já foi comparada ao fanatismo provocado pelo "Werther" de Goethe, na Europa do Séc. XVIII, ou mais recentemente, por "E tudo o Vento Levou", nos EUA. Na China, raparigas cultas e de famílias abastadas - normalmente entre os treze e os dezasseis anos e com casamentos já combinados - mostravam-se particularmente sensíveis à história. Acreditando que a vida imita a arte, na esperança de, algures na morte, poderem escolher os seus destinos, tal como o fizera o fantasma de Liniang.
Ninguém sabe ao certo o que vitimou as donzelas doentes do mal de amor, mas pode ter sido a fome auto-infligida. Temos tendência a pensar na anorexia como um problema dos tempos modernos, mas não é. Quer as Santas da Idade Média, quer as donzelas vitimas do mal de amor da China no Séc. XVII, ou as adolescentes dos nossos dias, as mulheres sempre tiveram necessidade de uma pequena dose de autonomia. Como explicou o académico Rudolph Bell, ao deixarem-se morrer de fome, as jovens conseguem transformar o desafio do mundo exterior - no qual não têm controlo sobre os seus destinos e enfrentam uma derrota quase certa - numa luta interior destinada a conquistar o domínio de si próprias e dos seus anseios físicos. Enquanto estavam a morrer, muitas donzelas doentes de amor - entre elas Xiaoqing e Yu Niang, que surgem nesta história - escreveram poemas que foram publicados após a sua morte.
Mas estas mulheres escritoras - quer fossem donzelas vitimas de mal de amor ou membros do clube de poesia as Cinco do Jardim das Bananas - não se limitaram a aparecer, para depois desaparecer, desfazendo-se em nada. A China sofreu uma mudança dinástica em meados do Séc. XVII, quando a Dinastia Ming caiu e os invasores Manchu, vindos do norte, fundaram a Dinastia Qing. Durante cerca de 30 anos, o país mergulhou no caos. O velho regime havia sido corrupto. A guerra fora brutal. ( Em Yangzhou, onde a avó de Peónia morreu, consta que foram mortos 80 000 pessoas num espaço de tempo entre cinco a dez dias). Muita gente ficou sem casa. Os homens foram humilhados e forçados a rapar a cabeça como símbolo de vassalagem para com o novo imperador. Sob o novo regime, o sistema escolástico imperial vacilou, e a forma tradicional de os homens conquistarem prestígio, riqueza e poder deixou subitamente de ter valor. Os homens dos níveis mais elevados da sociedade retiraram-se do governo e da vida escolástica para se dedicarem a coleccionar pedras, a escrever poesia, a provar chá e a queimar incenso.
As mulheres, que já estavam muito baixo na escala social, sofreram ainda mais. Algumas eram trocadas e vendidas " a peso, como peixe", e tinham menos valor que o sal. Muitas - como a Xiaoqing real ou como a Salgueiro do romance - tornaram-se "cavalos escanzelados" e eram vendidas como concubinas para homens cujas mulheres não lhes davam filhos varões. Mas algumas tinham destinos muito diferentes e muito melhores. Com tantas outras coisas com que se preocupar, os homens deixavam o portão da frente aberto e as mulheres, que durante tanto tempo tinham vivido enclausuradas, puderam sair. Tornaram-se escritoras profissionais, artistas, arqueiras, historiadoras e aventureiras. Outras, - naquilo que pode ser considerado uma forma precoce de grupos de leitura e escrita - reuniam-se para escrever poesia, ler livros, e discutir ideias.  Por exemplo, as mulheres que eram membros das Cinco do Jardim das Bananas (mais tarde Sete) realizavam passeios recreativos, escreviam sobre o que viam e sentiam, continuando a ser consideradas mulheres requintadas, nobres, orgulhosas e honradas. O seu êxito não teria sido alcançado sem o crescimento da literacia feminina, numa economia saudável, fábricas de impressão em massa e uma população masculina na sua maioria distraída.
Mas nem toda esta actividade de escrita era feliz ou comemorativa. Algumas mulheres, como a mãe de Peónia, deixaram poemas escritos em paredes, que depois se tornaram populares entre os letrados pela sua tristeza e pela curiosidade voyeurista de ler os pensamentos de alguém, registados perto do momento da morte. Estes textos, juntamente com os das donzelas vítimas de mal de amor, estavam imbuídos de um tipo de romantismo que combinava os ideais qing com o fascínio inspirado por uma mulher a definhar devido a uma doença ou febre puerperal, que era martirizada ou que, sozinha num quarto vazio, morria de saudades do amado.

Chen Tong, Tan Ze e Qian Yi foram mulheres reais.
O nome de Chen Tong foi alterado por ser igual ao da sua futura sogra e não há notícia do seu nome verdadeiro.
Tentei manter-me tão fiel quanto possível à história delas - a tal ponto que era frequente sentir-me constrangida por factos que pareciam demasiado fantásticos ou fruto de coincidência para serem reais. Por exemplo, Qian Yi usou a tábua de antepassado da família para realizar uma cerimónia debaixo de uma ameixieira, a fim de homenagear a personagem de Du Liniang, que depois a visitou, a ela e a Wu Ren, num sonho. Porém, tanto quanto sei, Chen Tong nunca conheceu o seu futuro marido, nem tão pouco regressou à terra sob a forma de fantasma faminto.

Wu Ren queria que todas as suas 3 mulheres fossem reconhecidas, mas também estava empenhado em protegê-las, pelo que na capa do livro estava escrito "O Comentário Feito em Colaboração pelas Três Esposas de Wu Wushan sobre O Pavilhão das Peónias". Wushan era um dos pseudónimos que ele usava quando escrevia. Os nomes Tan Ze, Qian Yi e Chen Tong não apareciam senão na página de rosto da obra e no material suplementar.
Depois de publicado, o livro foi alvo de grande aclamação e lido por muita gente. Contudo, com o tempo, a maré inverteu-se e os louvores foram substituídos por críticas acerbas e, por vezes, mordazes. Wu Ren foi acusado de ser um pateta tão ansioso por promover as esposas que perdeu a noção das conveniências. Os moralistas, que durante anos se tinham manifestado contra "O Pavilhão das Peónias", defenderam que a obra fosse censurada através da condenação familiar, de princípios religiosos e de proibições oficiais. Propuseram queimar todas as cópias de "O Pavilhão das Peónias" - juntamente com todas as obras complementares, como o "Comentário" - declarando que seria a maneira mais eficaz de eliminar as palavras ofensivas de uma vez por todas. A leitura desses livros, argumentavam, podia levar as mulheres - que eram tolas e simplórias por natureza - a tornarem-se dissolutas e empedernidas. Porém, acima de tudo, recordavam que apenas uma mulher ignorante pode ser considerada uma boa mulher. Os moralistas mandaram os homens recordar às mães, às esposas, às irmãs e às filhas que as Quatro Virtudes não incluíam qualquer "escrita" ou "eu". As mesmas coisas que tinham inspirado as mulheres a escrever, a pintar, e a sair em passeio eram agora viradas contra elas. O regresso ao ritual significava apenas uma coisa: um regresso ao silêncio.

Foi então que os argumentos voltaram a mudar, concentrando-se de novo, com intensidade, em "O Comentário". Como podiam 3 mulheres - esposas, ainda por cima - ter uma compreensão tão profunda do amor? Como podiam ter-se empenhado em escrever algo com tanto conhecimento? Como teriam conseguido reunir todas as edições da ópera para as comparar? Porque tinham os manuscritos originais, da autoria de Chen Tong e Tan Ze, desaparecido em incêndios? Isto parecia muitíssimo conveniente, uma vez que impedia a comparação dos estilos caligráficos das 3 esposas. No material suplementar, Qian Yi escreveu que fizera uma oferenda às suas duas predecessoras debaixo de uma ameixieira. Ela e o marido tinham descrito um sonho onde encontravam Du Liniang. Seria possível que os dois não distinguissem a realidade da ficção? As pessoas só podiam chegar a uma conclusão: tinha sido Wu Ren a escrever "O Comentário".
Eis a resposta dele: "Aqueles que acreditam, que acreditem. Aqueles que duvidam, que duvidem".

Entretanto, a ordem fora restabelecida em todo o território.
O imperador fez várias proclamações, todas com o objectivo de voltar a controlar a sociedade. As nuvens e a chuva (relações sexuais), anunciaram, deveriam ocorrer apenas entre marido e mulher, e somente com base no li ( a razão e as doutrinas) e nunca no qing (emoções profundas e amor sentimental). Não deveriam ser produzidos mais livros femininos confidenciais, a fim de que uma rapariga que casasse e partisse para casa do esposo não tivesse a menor ideia do que iria acontecer na noite de núpcias. O imperador concedeu também ao pai o controlo total sobre as suas filhas: se uma jovem desonrasse os antepassados, ele tinha o direito de a esquartejar. As mulheres voltaram rapidamente a serem enclausuradas atrás de portões fechados e aí permaneceram mais ou menos até à queda da Dinastia Qing e à formação da República da China, em 1912.

EM MAIO DE 2005, dez dias antes de me deslocar a Hangzhou para fazer uma pesquisa sobre as 3 esposas, recebi um telefonema da Revista More, a perguntar se queria escrever um artigo sobre a China. O momento era oportuno. Além de Hangzhou, visitei também pequenas cidades ribeirinhas do Delta do Yangtsé (muitas das quais pareciam ter cristalizado no tempo, há 110 anos ou mais), locais referidos no romance (as quintas de chá e os diversos templos de Longjin), e Suzhou ( para me deixar inspirar pelos grandes domínios construídos no meio de jardins).
O que me moveu a escrever esse artigo prendia-se com a necessidade de encontrar a donzela vítima de mal de amor dentro de mim. Tenho de admitir que não foi muito difícil, já que passo a maior parte do tempo obcecada com qualquer coisa; mas a missão obrigou-me a olhar para o meu íntimo e a pensar no que verdadeiramente significava para mim a escrita e o desejo que as mulheres têm de se fazer ouvir - pelos maridos, filhos e empregados.
Ao mesmo tempo, reflecti muito sobre o amor.
Todas as mulheres  do mundo - e homens também, evidentemente - desejam o tipo de amor que os transforma, que os eleva do quotidiano e dá coragem para para sobreviver às nossas pequenas mortes: a mágoa provocada pelos sonhos não concretizados, por desilusões pessoais e profissionais, e por ligações amorosas falhadas."



NOTA:
No I Ching, no hexagrama 9, o Poder de Dominar o Pequeno, tem 2 trigramas nucleares: o Li e o Tui. O Li é o fogo, a inteligência, a razão, a iluminação e a erudição. 
O Tui é a alegria, o contentamento, o Lago e as palavras.
O Li corresponde ao estudo das doutrinas, e ensinamentos deixados pelos antigos sábios da Humanidade. 
O I Ching diz:
"Assim o homem superior aperfeiçoa a forma externa de sua natureza"
Antes de se submeter às disciplinas, é bom estudar profundamente a fim de se nutrir para, logo depois, compreender melhor o caminho que se está a trilhar.
Aperfeiçoar a natureza externa é realizar o estudo dos antigos patriarcas.
Sem energia interna, e suavidade externa, não poderá aguentar o longo caminho.


Os hexagramas são símbolos constituídos por seis linhas Yīn ou Yáng
Os Trigramas são as 8 linhas que formam cada hexagrama, que correspondem às 8 possibilidades de combinação de Yin Yang em três linhas, os Trigramas inferiores e os superiores.
As linhas contínuas representam o Yang (o convexo, a força, o movimento) enquanto as linhas quebradas representam o Yin (o concavo, a fraqueza, a quietude).
A representação dos oito trigramas desenhados em torno de um mesmo centro é chamado em chinês de Bagua.





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Structure in space...Geometry





The one thing that connects all things is the structure of space itself. The study of structure in space is called geometry. The geometry of the space is quantized into tiny tiny packets of energy, spherical waveforms called Planck Spherical Units (PSUs) that perfectly pack together to form a 3D flower of life lattice, centered by the vectors of an underlying tetrahedral array.
Nassim haramein



ADEUS





Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.



EUGÉNIO DE ANDRADE
in, OS AMANTES SEM DINHEIRO





quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Um livro de carne





Eu sou um homem no vácuo 
Um surdo um cego um mudo 
Sobre um imenso pedestal de silêncio negro 

Nada mais do que este olvido sem limites 
Este absoluto de um zero repetido 
A solidão íntegra e sem falhas

Não há nódoa que caia sobre o dia é pura a noite

Por vezes pego nas tuas sandálias
E vou ter contigo

Por vezes visto o teu vestido e os teus seios
Sou eu que os trago como o teu ventre no meu

Vejo-me então sob o poder da tua máscara
E reconheço-me enfim


Paul Éluard




A Sexualidade masculina e feminina


A. Andrew Gonzalez



Lembra-te: a sexualidade é uma parte da arte de amar baseada no conhecimento físico e mental do outro que não pode ser explicado por palavras. É preciso ser vivida!
(...)
- Está longe de ser verdade a convicção de que é o homem que deve instruir sexualmente a mulher.
O conhecimento do teu namorado é apenas uma parte, que se detém ao nível da procriação e do prazer. Mas o sexo também é saúde e espiritualidade, só que ele não o pode entender, porque não existe lugar onde se ensine algo tão importante como viver com outro ser humano partilhando, reciprocamente, prazer e amor. O homem é tão ignorante como a mulher na arte do prazer e do amor porque lhe falta sabedoria e experiência na arte de conviver.
- Avó, como é que uma mulher se deve preparar sexualmente?
- Antes de mais, tem de começar a considerar o próprio corpo como uma realidade sagrada. A parte íntima é a mais sagrada, porque é precisamente ali que tem lugar a reprodução, a criação, a regeneração e a alquimia espiritual. É daí que partem todas as energias que movem o ser vivo. Os nossos antepassados chamavam-lhe chaka, ponto de encontro do mundo visível com o mundo invisível.
É necessário praticar uma sexualidade unitária, também chamada de Sexualidade Sagrada.
O objectivo desta prática é aprender a deslocar a energia localizada na parte mais baixa do ser para a parte mais alta, de maneira a penetrar no infinito, no domínio do espaço e do tempo: no reino do amor. A mulher, devido à sua natureza peculiar, consegue aceder a esse recinto e é por isso que sabe o que é o amor. O homem, tem dificuldade em aceder a essa dimensão; ele sabe que o amor existe, mas não o conhece. E esta é a nossa missão: fazer com que o homem conheça o amor.
Porém, para o conseguir, uma mulher tem de se preparar, aperfeiçoando em primeiro lugar, o sentido do tacto. O acto sexual é uma sensação táctil e o erotismo é o jogo que permite aperfeiçoa-la. Mas, só com intuição, doçura, ternura, é que uma mulher pode conduzir o homem através da dimensão do amor. O caminho que leva a este conhecimento é longo e difícil, é necessário libertar-se de todos os tabus impostos pela sociedade, e estar disposto a arriscar.
(...)
- Para ser feliz, um casal tem de saber usar as próprias diferenças com o objectivo de criar Unidade, e não divisão ou rivalidade. Se a mulher sabe como criar esta Unidade, poderá utilizar a própria energia interior para provocar mudanças no homem.
(...)
- Se o homem e a mulher são diferentes, então qual é o mais forte?
- Continuas a pensar como um homem.
Quando falas de superioridade, estás a opor um ser vivo a outro.
O ideal não é separar o homem da mulher, mas descobrir como podem complementarem-se.
A Complementaridade não procura opositores!




Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira