quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A DANÇA





Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio 
ou seta de cravos que propagam o fogo: 
amo-te como se amam certas coisas obscuras, 
secretamente, entre a sombra e a alma. 

Amo-te como a planta que não floriu e tem 
dentro de si, escondida, a luz das flores, 
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo 
o denso aroma que subiu da terra. 

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde, 
amo-te directamente sem problemas nem orgulho: 
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira, 

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és, 
tão perto que a tua mão no meu peito é minha, 
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.


PABLO NERUDA
in CEM SONETOS DE AMOR





terça-feira, 14 de agosto de 2018

A DOR DE LEMBRAR





Não sei muito bem o que me liga a ti:
O passado, de que ainda me lembro,
E que não se pode mudar,
O futuro que ainda não foi escrito,
Ou essas memórias
Que não são minhas nem nossas
Porque nunca existiram.
Sei apenas que te lembro,
Que foste importante,
Que deixaste em mim
Essa marca demasiado profunda
Para que o tempo te mude ou te apague.

Depois a vida aconteceu,
As memórias misturam-se,
Confundem-se entre o que foi
E o que podia ter sido,
Esta a dor de lembrar
E o estar no presente.
Confrontar-me comigo mesma
Nesse espelho de censura
Que é a verdade,
Que é envelhecer e esquecer os sonhos
E a força com que se acredita
Por debaixo do tapete do quarto
Junto com aquilo que não se quer ver.

Lembro-me de ter sido jovem,
De ter sonhado,
De ter enterrado tudo quanto fui
E me fez sorrir.
Lembro-me e não queria lembrar,
é mais difícil suportar o presente,
Os dias que se esgotam, sem amanhã.


ANA BRILHA
in, A APOLOGIA DO SILÊNCIO





................................... Elegância de Ser






Coco Chanel era uma mulher muito elegante, não somente na forma de se vestir, mas também no comportamento. De origem pobre, órfã de mãe na infância, iniciou sua carreira com uma pequena chapelaria e posteriormente conquistou o mundo da moda com seu estilo clássico, inovador e muito sofisticado. Porém, muito além de ser um ícone da alta costura, essa mulher cheia de atitude revolucionou os costumes da época, e se tornou símbolo de coragem, resistência e liberdade feminina. Pesquisando sobre essa grande mulher, me deparei com uma das frases atribuídas a ela, e me encantei profundamente, pois exprime sua personalidade independente e muito refinada:

“A mulher tem que saber a hora exata de sair de cena.
Mesmo que essa hora seja muito dolorosa”.

Saber a hora de sair de cena é um dos conhecimentos mais importantes que se pode ter, e demonstra bom senso, amor próprio, coragem, independência, liberdade e autonomia. Nem sempre é fácil ou óbvio perceber que nosso tempo chegou ao fim. Nem sempre conseguimos assimilar ou acreditar que aquilo que queríamos tanto não está reservado para nós. Nem sempre conseguimos abrir mão de nossos sonhos, planos, desejos e expectativas numa boa, mesmo que nossa hora tenha passado. Não é fácil entender que nem tudo o que a gente quer, nos servirá. E saber sair de cena, mesmo que isso cause muita dor, é algo que não nos ensinam, mas que precisamos aprender.

É preciso aprender a parar de insistir naquilo que não é para nós. É preciso aprender a aceitar que desejar muito alguma coisa não garante que ela seja nossa. É preciso aprender a sair de cena quando tudo já foi dito, esclarecido, colocado em pratos limpos e não há mais lugar para nós naquela história. É preciso aprender a aceitar as frustrações, os desejos desfeitos, a necessidade de fazer as malas.

Ser elegante no comportamento é ter bom senso. Bom senso na hora de falar, de calar, de nos expressar com extroversão ou discrição. Mas, principalmente, bom senso na hora de perceber onde estamos a sobrar. Bom senso de sairmos à francesa de lugares onde não cabemos mais.

Sair de cena quando tudo o que queríamos era que a história não tivesse fim, é uma das decisões mais difíceis e dolorosas que existem. Mesmo assim, mais vale a dor advinda de um distanciamento sadio que a falsa e humilhada alegria de permanecer num lugar onde não somos bem vindos.

Temos que entender que merecemos um amor recíproco, inteiro, companheiro, verdadeiro. Quem se submete a amores menores e unilaterais acreditou que é merecedor de pouca coisa, de afetos rasos e parciais. Por isso é tão importante discernir onde se deve ou não permanecer. Por isso é essencial descobrir a hora de fazer as malas e deixar de prorrogar nossa presença onde não somos mais considerados convidados especiais.

Quem lhe quer, o trata como convidado especial. Quem o deseja, acolhe-o com alegria e satisfação. Quem o admira, tem brilho nos olhos quando o vê chegar. Pequenos gestos nos dão pistas de onde devemos ou não permanecer. Pequenas atitudes nos ajudam a discernir se é chegada a hora de partir.

Gosto de gente simples. Gente pé no chão. Gente que aprendeu que luxo não se trata de afetação, ostentação ou presunção. Gente que sabe que elegância não é snobismo ou arrogância. Elegância é, antes de tudo, saber se comportar com uma simplicidade sofisticada e uma sabedoria discreta perante a vida.

Coco Chanel dizia:
“Não é a aparência, é a essência.
Não é o dinheiro, é a educação.
Não é a roupa, é a classe”. 

Eu, igualmente, acredito que ser elegante vai muito além de conhecer e assimilar regras cerimoniais ou juntar dinheiro para comprar uma jóia cara. Ser elegante é adquirir um conjunto de bons hábitos que revelam uma civilidade harmoniosa por dentro e por fora. É aprender agir com cortesia, empatia, gentileza, cuidado, educação e discrição. É descobrir o quanto é vulgar lavar roupa suja em praça pública; cuspir no prato em que comeu; participar de fofocas e boca a boca; fazer discursos inflamados sobre política e religião; assediar sem consentimento; criticar mais que elogiar; fazer diferença entre as pessoas; exagerar na roupa transparente, no tom de voz, na vontade de aparecer e na obscenidade.

Engana-se quem pensa que o contrário de luxo é a escassez de bens e recursos. Luxo é se despir de excessos. É descobrir que você não precisa exagerar na maquilhagem, no brilho da roupa, no tom de voz, na quantidade de perfume, no filtro da selfie, na indiscrição. Luxo é conhecer seu lugar, não invadir a privacidade alheia, respeitar os limites (seus e dos outros), ser polido e refinado. Luxo é saber ser sofisticado na simplicidade, não desperdiçar, não esbanjar, não ostentar. Luxo é prestar atenção às próprias maneiras, e, na dúvida, agir com mais sobriedade que vulgaridade.

Pessoas elegantes não precisam impressionar ninguém, e por isso agradam a si mesmas em primeiro lugar. Não necessitam ostentar o último modelo de celular, não se incomodam em repetir vestidos, não competem pelo número de likes na última foto da viagem. Pessoas elegantes investem mais no brilho do olhar que na plástica das pálpebras, mais na naturalidade do sorriso que no preenchimento dos lábios, mais no caimento da vestimenta que na etiqueta famosa bordada na lapela.

A monarquia britânica, com suas Kates, Meghans e Rainha Elizabeth são referência de elegância e sofisticação para o mundo todo, não somente pela fortuna, mas, acima de tudo, pela classe, discrição, educação e ausência de excessos. A maquilhagem sóbria de Meghan Markle e o hábito de Kate Middleton de repetir suas vestimentas vieram reforçar a ideia do quanto é bonito, fino, clássico, elegante e muito sofisticado adotar um estilo sóbrio, desprovido de exageros e despropósitos. É como diz o velho ditado: “menos é mais”.

A elegância está no comportamento, e não na posse disso ou daquilo. Já vi muita gente desprovida de recursos ter gestos nobres, e muita gente endinheirada ser extremamente desagradável e mesquinha. Isso me dá a certeza que não se mede grandeza por riqueza nem elegância por aparência.

Se houver educação e essência, a elegância chegará com a maturidade e o bom gosto. Pois como dizem por aí: “O mais importante não é ter, e sim ser…”



Fabíola Simões





Como diz a letra da música,


“You’ve got to learn”, 
de Nina Simone, 

“Você tem de aprender a sair da mesa 
quando o amor já não está sendo servido…”






O original da música é do Charles Aznavour "Il Faut Savoir"


You've got to learn to show a happy face
Although you're full of misery
You mustn't show a trace of sadness
Never look for sympathy 

You've got to learn although it's very hard
The way of pocketing your pride
Sometimes face humiliation
While you were burning up inside
Facing reality is often hard to do
When it seems happiness is gone

You've got to learn to hide your tears
And tell your heart life must go on

You've got to learn to leave the table
When love's no longer being served
To show everybody that you're able
To leave without saying a word

You've got to learn to hide your sorrow
And go on living as before
What good is thinking of tomorrow
Who knows what it may have in store

You've got to learn to be much stronger
At times your head must rule your heart

You've got to learn from hard experience
And listen to advice
And sometimes pay the price
And learn to live with a broken heart.






segunda-feira, 13 de agosto de 2018

QUANDO EU PARTIR


Aamer





Quando eu partir, quando eu partir de novo 
A alma e o corpo unidos, 
Num último e derradeiro esforço de criação; 
Quando eu partir... 
Como se um outro ser nascesse 
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril, 
E sem que o milagre se abrisse 
As janelas da vida. . . 
Então pertencer-me-ei. 
Na minha solidão, as minhas lágrimas 
Hão de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência, 
E eu serei o senhor da minha própria liberdade. 
Nada ficará no lugar que eu ocupei. 
O último adeus virá daquelas mãos abertas 
Que hão de abençoar um mundo renegado 
No silêncio de uma noite em que um navio 
Me levará para sempre. 
Mas ali 
Hei de habitar no coração de certos que me amaram; 
Ali hei de ser eu como eles próprios me sonharam; 
Irremediavelmente... 
Para sempre. 


Ruy Cinatti
in, Nós Não Somos Deste Mundo





Respeitar os dois pratos da balança quando o objectivo é o meio





Dizem os Budistas que um dos venenos do mundo é o apego.
A partir do momento em que o espírito encarna, começa o litígio que irá durar a vida inteira, entre a vontade do espírito e as necessidades do corpo. Entre o que queremos e o que precisamos. Entre ir ou ficar. Entre ser ou ter. Entre o que está dentro e o que está fora. Entre o nosso Sol e a nossa Lua.
Espírito e corpo é a dualidade encarnada e o segredo de uma vida feliz passa por fazermos deste equilíbrio interno uma prioridade.

No entanto, embora seja relativamente simples de explicar, o conceito de equilíbrio é um processo desafiante que vai ser vivenciado através de inúmeras experiências ao longo de várias vidas a ser atingido.
A ignorância sobre o processo de evolução espiritual, leva a maioria a nem sequer reconhecê-lo e muito menos a cumpri-lo positivamente e prova disso são os poucos seres humanos, de diferentes culturas, tempos e formas que atingiram o grau de Mestria.

Mas se a Mestria é o equilíbrio da dualidade, muito antes de estarmos preparados e despertos para o equilíbrio, precisamos antes fazer a experiência da dualidade e isso implica a aceitação de ambas as partes. Implica a rendição e a aceitação dos dois pólos da realidade. Implica fazer o desapego daquilo que queremos (só uma das partes ou a parte positiva) para podermos então estar disponíveis para aceitar o outro lado. Ou seja, precisamos aprender a confiar que todos os movimentos da vida estão apoiados neste princípio.
Que há que respeitar os dois pratos da balança quando o objectivo é o meio.

Quanto mais abertos estivermos para as várias experiências de ambos os lados, mais vamos sendo capazes de observar o fenómeno. O mundo tal como o vemos é isso mesmo, um parque gigante de experiências da dualidade onde cada um, apoiado pelas leis universais, irá atingir o seu equilíbrio algures no tempo.

Diz uma frase de Gandhi: "Não há caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho".
Felicidade ou equilíbrio é o objectivo e obviamente que não deve depender de circunstâncias exteriores, como nos mostraram todos os mestres das mais variadas maneiras.
Infelizmente ainda há muitos que fazem da felicidade um destino, ignorando a riqueza da viagem e pagando preços caríssimos pela mesma.

Este ano e em particular estes dois últimos meses trouxeram muitas propostas intensas, levaram muitos aos seus limites, revelaram onde, como e com quem estávamos a criar apegos e dependências que impedem a balança de atingir o seu equilíbrio. 

Confiemos que tudo faz parte, tanto o que vai como o que chega, tanto o positivo como o negativo, por isso resta-nos sermos observadores das energias em movimento. Abençoemos o processo e preparemo-nos para novas propostas de equilíbrio até ao fim do ano.

Na viagem de evolução permanente em que todos nos encontramos, há alturas em que estamos mais ocupados em abrir novas portas, em conquistar novo terreno e trabalhar uma melhorada ou mais elevada versão de nós próprios.
Outras, pelo contrário, percebemos que é tempo de abordar velhos assuntos, de limpar velhos padrões e fechar portas que não pretendemos voltar a cruzar.
Este ano, principalmente a segunda parte, estaremos todos mais voltados para trás do que para a frente, embora sempre com a consciência de que tudo está a servir o propósito de evolução e que mesmo virados para assuntos do passado, o tapete rolante estará a andar para a frente.

Assim sendo, sempre que o passado se apresentar, procuremos honrá-lo, integrando todas as suas lições e aprendizagens:

1. Faz as pazes com quem tu eras quando criaste esse mesmo passado.
2. Reconhece o quanto foi importante para te trazer onde estás hoje, validando as dores que fizeram parte do processo.
3. Agradece a quem te ajudou a evoluir e tem compaixão por quem ainda não consegue sair da velha vibração.
4. Resiste à tentação de alimentar esses velhos padrões. Lembra que tu já não és aquela pessoa.
5. Valida a pessoa que és hoje e todo o potencial que resgataste em ti.
6. Liberta em amor e gratidão o que hoje já não confere contigo.




Vera Luz





sábado, 11 de agosto de 2018

.......................... mergulhar no inconsciente


Kasia Derwinska 
"Hurry up, Alice"





O inconsciente é uma dimensão de poder e inteligência.
Só que, ao mesmo tempo, lá também estão guardados velhas feridas, antigos medos, traumas, bloqueios.
No inconsciente residem nossas forças, muitas vezes adormecidas, aguardando para serem despertadas e redescobertas.
Também nossas maiores fraquezas e nossos piores demónios.

Como Alice no País das Maravilhas ao cair na toca do coelho, um novo universo se descortina para quem se propõe a mergulhar no inconsciente.
Se todos soubessem como é importante e fundamental se predispor a este desafio, ninguém adiaria mais.


Marcelo Dalla





Nosso Tempo


Arnar Kristjansson




I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.



Carlos Drummond de Andrade





quarta-feira, 8 de agosto de 2018

This is My Life






To feed my soul with beauty till I die;
To give my hands a pleasant task to do;
To keep my heart forever filled anew
With dreams and wonders which the days supply;
To love all conscious living, and thereby
Respect the brute who renders up its due,
And know the world as planned is good and true—
And thus —because there chanced to be an I!

This is my life since things are as they are:
One half akin to flowers and the grass:
The rest a law unto the changeless star.
And I believe when I shall come to pass
Within the Door His hand shall hold ajar
I’ll leave no echoing whisper of Alas!


William Stanley Braithwaite






If we want to be honest, we have to confess our bad feelings






I have learned that bad feelings are inevitable; if we want to be honest with ourselves and others, we have to confess them. It’s a matter of discipline.

How? 
First of all, by forcing ourselves not to disguise them as the feelings of a fearless person who holds the truth paramount. Are we tormented by that good-natured female friend whom everyone likes, while we have to struggle for a crumb of affection? Fine: we shouldn’t react by telling everyone that her success is the result of some carefully orchestrated hypocrisy. Above all, we shouldn’t justify our slander by saying that it is a love of the truth that drives us: that makes us as much a hypocrite as she is.

Instead, make an effort. Let’s teach ourselves to think that her good nature is innate, and that to reduce it to a skilful exercise in hypocrisy is simply a sign of the envy we feel. This effort, of course, benefits no one: we remain envious, and we continue to suffer from it.
Surely we felt better when we were playing the role of the outspoken person, fighting against duplicity?

So then what to do? 
Well, we have to make another effort: find the proper tone in which to tell our friend that her success makes us suffer, that we envy her, that we’re ashamed of ourselves when, instead of admitting that she possesses qualities we don’t, we go around saying she’s a hypocrite. If we can do this, we will have taken two giant steps forward. First, we will have discovered that we protect the truth principally by telling the truth about ourselves. And, second, we will have gained something much more admirable than an innate good nature: the capacity for self-examination and self-control.

But what if our friend really is a hypocrite?
Never mind. It’s a dangerous game to play and she’ll soon be discovered; she’ll lose the reputation she’s gained and we’ll be glad. Yes, glad, and yet again we’ll have to reckon with a bad feeling: the malicious pleasure of witnessing the fall of successful people, the satisfaction of recording their dismay and despair after a happy period.

How shall we proceed? 
Will we feel ourselves in the right, will we triumphantly tell everyone that we were among the first to guess that our friend – now no longer our friend – was a hypocrite?
No: yet again, we’ll make an effort to be truthful with ourselves. 
We’ll admit that we enjoy the misfortunes of others, we’ll admit that they give us some relief. From St Augustine of Hippo onwards, speaking with fierce candour, not to others but to ourselves, sometimes absolutely saves us.



Elena Ferrante





segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Não te rendas





Não te rendas, ainda estás a tempo 
De alcançar e começar de novo, 
Aceitar as tuas sombras, 
Enterrar os teus medos, 
Libertar o lastro, 
Retomar o voo. 

Não te rendas que a vida é isso, 
Continuar a viagem 
Perseguir os teus sonhos, 
Destravar o tempo, 
Remover os escombros, 
e destapar o céu. 

Não te rendas, por favor não cedas, 
Mesmo que o frio queime, 
Mesmo que o medo morda, 
Mesmo que o sol se esconda, 
E se cale o vento, 
Ainda há fogo na tua alma 
Ainda há vida nos teus sonhos. 

Porque a vida é tua e teu também o desejo 
Porque o quiseste e porque eu te quero 
Porque existe o vinho e o amor, é certo. 
Porque não há feridas que não cure o tempo. 

Abrir as portas, 
Tirar os ferrolhos, 
Abandonar as muralhas que te protegeram, 
Viver a vida e aceitar o repto, 
Recuperar o riso, 
Ensaiar um canto, 
Baixar a guarda e estender as mãos 
Abrir as asas 
E tentar de novo, 
Celebrar a vida e retomar os céus. 

Não te rendas, por favor não cedas, 
Mesmo que o frio queime, 
Mesmo que o medo morda, 
Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento, 
Ainda há fogo na tua alma, 
Ainda há vida nos teus sonhos 
Porque cada dia é um começo novo, 
Porque esta é a hora e o melhor momento. 
Porque não estás só, porque eu te amo. 



Mario Benedetti





O ato de perdoar se dá na sua mente. Não tem absolutamente nada a ver com a outra pessoa.


Laura Zalenga





Você nunca estará livre da amargura enquanto continuar a ter pensamentos de rancor.
Como poderá ser feliz se continuar a escolher guardar raiva e ressentimento? 

Pensamentos amargos não criam alegria.
Não importa o quanto você possa achar que tem razões para a mágoa, não importa o dano que os outros lhe causaram. 

Se Você insistir em ficar preso ao passado, nunca será livre. 
Perdoar a si mesmo e aos outros libertará Você da prisão do passado.
Se Você se sente preso a uma determinada situação, ou se suas afirmações não estão funcionando, geralmente isso significa que ainda há trabalho a ser feito em relação ao perdão.

Quando Você não flui de modo livre com a vida, normalmente é porque está aprisionado a um acontecimento passado. Pode ser arrependimento, tristeza, mágoa, medo, culpa, acusação, raiva, ressentimento, ou às vezes até desejo de vingança. Cada um desses estados de espírito resulta da ausência de perdão, da recusa em desapegar-se do que passou e viver plenamente o momento presente. Desta forma, Você compromete seu futuro, pois ele só pode ser criado no agora.

Se Você permanece ligado ao passado, não consegue usufruir o presente. É somente nele que os pensamentos e palavras têm poder. Se o presente está contaminado pelas mágoas antigas, você estará criando seu futuro a partir do lixo do passado.

Quando você acusa outra pessoa, abre mão do seu próprio poder, pois está deslocando a responsabilidade para o outro.

As pessoas que fazem parte da sua vida podem se comportar de maneira que provoquem reações incómodas em você. No entanto, se elas passam a ocupar sua mente, é você quem as deixa permanecer lá, produzindo sofrimento e drenando sua energia. Assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos e reações equivale a assumir as rédeas da sua vida. Esta é uma escolha que você faz a cada momento: dominar o processo e dar à sua vida a direção que você deseja ou simplesmente reagir aos acontecimentos externos.

A maioria das pessoas não entende direito o que é o perdão nem sabe que existe diferença entre perdão e aceitação.

Perdoar alguém não significa justificar o seu comportamento!
O ato de perdoar se dá na sua mente. Não tem absolutamente nada a ver com a outra pessoa. O verdadeiro perdão consiste em se libertar da dor. É apenas um ato de libertação da energia negativa à qual você escolheu ficar ligado.

E também o perdão não significa permitir que comportamentos e ações dos outros que causam sofrimento continuem a ocorrer.
Às vezes o perdão significa desapegar-se, você perdoa a pessoa e a libera.
Assumir uma posição de recusa à agressão alheia e estabelecer limites saudáveis é geralmente a atitude mais amorosa que você pode ter, não apenas em relação a si mesmo como também ao outro.

Sejam quais forem suas razões para ter sentimentos de amargura e rancor, você pode superá-los. Você tem essa escolha. Pode escolher permanecer prisioneiro e ressentido, ou pode fazer um favor a si mesmo perdoando o que aconteceu no passado, desapegando-se, e passando a criar uma vida de alegria e realizações.

Você tem a liberdade de fazer da sua vida o que quiser, porque tem a liberdade de escolha.


Louise Hay





quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Primeiro Dia







A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.


Sérgio Godinho



É fácil estar perto quando as coisas correm bem...





Podemos acreditar que temos muitas pessoas em nossas vidas, mas apenas os momentos mais exigentes são aqueles que nos dão um bom filtro para distinguir aqueles que estão realmente dispostos a dizer: “presente”.

Muitas vezes podemos nos surpreender com as reações das pessoas ao nosso redor em diferentes fases de nossas vidas, tanto positiva quanto negativamente. Aquelas pessoas que acreditamos resultarão em nosso melhor apoio em tempos difíceis, são desculpas diluídas, em reivindicações, em ausências, enquanto aquelas que nem sequer consideramos chegam a nos emprestar todo o apoio que está ao seu alcance.

Obviamente, haverá aqueles que estão em conformidade com as nossas expectativas e localizados em nosso círculo de apoio e confiança, vão reagir de forma semelhante ao que esperamos.
O importante é fazer um registo, não para passar factura para as pessoas com as quais não contamos, mas para dar o lugar que corresponde àqueles que nos procuraram, que embora não tenham feito isso com a intenção de serem pagos, podemos brindar-lhes com o nosso melhor.

É fácil estar perto quando as coisas correm bem, quando não precisamos de nada, ou de ninguém, quando temos recursos suficientes para superar obstáculos, mas quando nossas forças diminuem, quando caímos num buraco e não encontramos a saída, quando perdemos afeições que eram importantes, o suporte oportuno acaba sendo um barco de resgate no meio de um naufrágio.

Deveríamos ser gratos a quem quer que tenha a mão, porque sempre representará um esforço de sua parte, representará um investimento de tempo, dinheiro, energia, essa pessoa pode simplesmente investir em algo que não represente nenhum tipo de atrito. Pessoas ingratas tendem a supor que elas merecem todos os esforços apenas porque existem e acham difícil reconhecer os esforços de outras pessoas para contribuir para o seu bem-estar.
Aqueles que não têm a capacidade de reconhecimento ou gratidão, que só têm memória seletiva conforme sua conveniência, geralmente não são capazes de nutrir seus vínculos, girando o interesse daqueles que procuram ajudá-los, e estes estão se tornando cada vez menos.

Vamos usar os filtros que a vida nos oferece para valorizar aqueles que nos rodeiam, valorizando quem estava lá, porque é sempre mais fácil oferecer uma desculpa do que dar algo de nós mesmos. Vamos nos acostumar a lembrar as boas ações que recebemos, especialmente quando nos deram apoio, agradecemos, com nossas palavras e ações e semeamos em quem podemos tudo o que queremos receber na vida.



Sara Tibet






terça-feira, 31 de julho de 2018

O Som do Silêncio





Tudo se acaba. É mentira.
Há parcelas que se juntam,
se adicionam,
como a ideia e o sentimento,
o tempo
perdido
e o momento de acção
iluminado.

Ninguém se convença
que acaba.
Há o céu que nos espera,
a sua ilusão
remordida até ao paroxismo.
Ou há passado
sem destino.

A dolorosa mensagem
da nossa vida
é estar: caminhar sempre;
atar as vides da vinha
vindimada.

Saber esperar.
Andar, andar,
nem que seja de rastos.


Ruy Cinatti





Escutar a Voz dos Astros





Grato Saturno, por cercear nossa natureza humana, nos impondo limites vitais e estruturando em nós a responsabilidade.

Grato Plutão, por fazer morrer em nós o que precisa morrer para renascermos, limpando os canais para a vida.

Grato Júpiter, por indicar o nosso caminho e expandir em nós a sabedoria.

Grato Marte, pela força de guerreiro com que nos nutre para empreendermos nossa luta nesta jornada da vida humana.

Grato Urano, por fazer romper vínculos cármicos que nos atam, nos libertando em prol de uma mais elevada consciência.

Grato Neptuno, por fazer de nós seres mais compassivos e nos mostrar o amor universal.

Grato Mercúrio, grande mensageiro, por nos dotar da capacidade de aprender, pensar e nos comunicar.

Grato Lua, por nos revelar nosso arraigado corpo emocional, clareando nossos bloqueios cármicos e a possibilidade de sermos emocionalmente sadios.

Grato Vénus, por nos mostrar como vivemos o amor em sua forma humana, para assim aprendermos a transcender em busca do amor maior.

Grato Sol, Astro rei, que brilha sobre nós sua radiante luz, para que possamos realizar a essência de nosso Ser e vencer a jornada do Herói, que somos em nós mesmos, em nossa aventura humana.

Grato a todos os planetas, por manter connosco uma comunicação espiritual tão viva.


Marcelo Dalla










sábado, 28 de julho de 2018

VIGÍLIA





Paralelamente sigo dois caminhos 
Abstrato na visão de um céu profundo. 
Nem um nem outro me serve, nem aquele 
Destino que se insinua 
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo 
Está por descobrir. Não seque a lua 
Nem o perfil da proa. Vai direito 
Ao vago, incerto, misterioso 
Bater das velas sinalado de oculto. 

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano 
Em comunhão suprema, surto e alado 
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas, 
Chamam dorsos de peixe à tona de água 
E precipitam asas na esteira de luz. 
Da vida nada senão a melhoria 
De um paraíso sonhado e procurado 
Com ternura, coragem e espírito sereno. 

Doçura luminosa de um olhar. Ameno 
Brincar de almas verticais em pleno 
Sol de alvorada que descerra as pálpebras. 


Ruy Cinatti 
in, Nós Não Somos Deste Mundo





................................. pessoas desafiantes


Desmond Boylan





A harmonia é fácil com pessoas fáceis ou harmónicas por natureza. O desafio de evolução esconde-se obviamente nas pessoas desafiantes que tal como as maravilhosas, também têm algo para nos ensinar. Porque são, pelas mais variadas razões, mais difíceis do que as pacificadoras, nem sempre conseguimos atingir o estado de paz e harmonia que gostaríamos. Umas vezes porque nós próprios não conseguimos, outras porque o outro ainda não permite. No entanto, a impossibilidade de conseguir a harmonia com o outro não impede a harmonia por si, até porque a resposta do outro não deixa de ser uma projeção da própria desarmonia interna.

Antes então de chegarmos ao outro, somos primeiro responsáveis por harmonizar o nosso próprio interior, incluíndo os espaços onde vivem dentro de nós, as representações internas dessas mesmas pessoas desafiantes. E nesse espaço que é só nosso e do qual somos responsáveis, podemos e devemos conseguir a harmonia com o outro. Seja através do perdão, da aceitação e do entendimento do papel que ele representa na nossa história.

Eu diria mesmo que muito mais importante do que conseguirmos a harmonia com os outros, é consegui-la antes dentro de nós, aprendendo a ver os outros como espíritos companheiros, seres sagrados, atraídos pela nossa própria energia, que estão presentes na nossa vida contribuindo com a sua energia para o nosso processo de evolução.

Enquanto o julgamento ao outro estiver a servir de mecanismo do ego para a própria inconsciência, não será possível a harmonia, seja ela interna ou com o outro.

A cura só poderá acontecer a partir do momento em que percebemos que o outro apenas trouxe o desafio que nos permitiu evoluir para um mais elevado patamar de evolução. Não temos que "gostar" deles, estar com eles, permitir os seus abusos e temos o direito de lhes colocar limites. Mas somos responsáveis por derrubar os bloqueios internos que nos impedem de aceitar o seu papel na nossa história.

Assim, esteja o outro vivo ou já tenha partido, esteja ele presente ou já pertença ao passado, seja ele da família ou não, que a tua relação interna com ele seja analisada à luz do espírito e das leis cósmicas, de maneira a que o consigas ver com o coração, aceitar a sua proposta e lhe consigas ter gratidão.


Vera Luz 




quinta-feira, 26 de julho de 2018

LEI DA AFINIDADE





"O controlador atrai o dependente.
O agressivo atrai o submisso.
O isolado atrai o solitário.
O desconfiado atrai o mentiroso.
O egoísta atrai o orgulhoso.
O irónico atrai o debochado.
O sabe-tudo atrai o ignorante.
O nervoso atrai o irritado.
A vítima atrai o culpado.

O inteligente atrai o sábio.
O próspero atrai a riqueza.
O desejo atrai o calor.
O gentil atrai a delicadeza.
O aconchego atrai o alivio.
A dedicação atrai o reconhecimento.
A atenção atrai o amor.
A simpatia atrai o carisma.
A alegria atrai o bom humor.
O silêncio atrai o discernimento.
A maturidade atrai o bom senso."