sexta-feira, 24 de abril de 2015

.......................e tudo era possível



Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

~ Ruy Belo

O Segundo Sexo



Em todas as civilizações, e até aos nossos dias, ela inspira horror ao homem: é o horror da sua própria contingência carnal que ele projecta nela. A jovem ainda impúbere não encerra nenhuma ameaça, não é objecto de nenhum tabu, e não possui nenhum carácter sagrado. Em muitas sociedades primitivas seu sexo é considerado inocente. Os jogos eróticos são permitidos desde a infância entre meninos e meninas. É a partir do dia que se torna susceptível de conceber que a mulher fica impura.

Descreveram-se, muitas vezes, os severos tabus que nas sociedades primitivas cercam a jovem, quando acontece a sua primeira menstruação; mesmo no Egipto, onde era tratada com deferências especiais, a mulher permanecia isolada durante o período das regras. Muitas vezes expunham-na no telhado de uma casa, relegavam-na numa cabana fora da aldeia, não se devia vê-la nem tocá-la: mas ainda, ela própria não devia se tocar com as mãos. Entre os povos que praticam habitualmente o espiolhamento dão-lhe um pauzinho para se coçar. Ela não deve tocar os alimentos com os dedos. Por vezes, é-lhe radicalmente proibido comer; em outros casos a mãe e a irmã são autorizadas a alimentá-la por intermédio de um instrumento. Mas todos os objectos que entram em contacto com ela durante esse período devem ser queimados. Depois dessa primeira provação,  os tabus menstruais tornam-se menos severos, mas permanecem rigorosos.
Lê-se em particular no Levítico: “A mulher que tiver um fluxo de sangue em sua carne permanecerá sete dias na sua impureza. Quem a tocar será impuro até a noite. Todo leito que dormir… todo objecto  sobre o que se sentar será impuro. Quem a tocar em seu leito deverá lavar as roupas e a si próprio com água e será impuro até a noite.”
Este trecho é exactamente simétrico ao que trata da impureza produzida no homem pela gonorreia. E o sacrifício purificador é idêntico em ambos os casos. Uma vez purificada, deve-se contar sete dias e trazer duas pombas ou dois pombos de leite ao sacrificador que os oferecerá ao Criador. É de observar que nas sociedades matriarcais, as atitudes atribuídas à menstruação são ambivalentes. Por um lado, ela paralisa as actividades sociais,  destrói a força vital, faz murcharem as flores, caírem os frutos; mas tem também efeitos benéficos: o sangue menstrual é utilizado nos filtros de amor, nos remédios, em particular para cortes e equimoses.
Ainda hoje, certos índios quando partem para lutar com monstros quiméricos que frequentam os seus rios, colocam à frente do barco um tampão de fibras impregnado de sangue menstrual,  cujas emanações são nefastas aos inimigos sobrenaturais.
As jovens de certas cidades gregas ofereciam em homenagem no templo de Astarté, um trapo manchado com o seu primeiro sangue. Mas desde o advento do patriarcado só se atribuíram poderes nefastos ao estranho licor que escorre do sexo feminino.
(A Simone aqui apresenta vários exemplos de como o sangue menstrual continua a ser mal visto, tanto na literatura quanto no dia a dia. Ela cita exemplos de situações onde a mulher era proibida de passar por perto de certos lugares/ trabalhar em fábricas/ fazer comidas, porque supostamente o sangue menstrual faria apodrecer certas coisas)

(…)

Seria muito insuficiente assimilar tais repugnâncias às que suscita o sangue em qualquer circunstância. Sem dúvida, o sangue é em si um elemento sagrado, penetrado mais do que qualquer outro pelo mana misterioso que é ao mesmo tempo vida e morte.
Mas os poderes maléficos do sangue menstrual são mais singulares.
Ele encarna a essência da feminilidade.
É por isso que põe em perigo a própria mulher cujo mana assim se materializa.
Durante a inicialização dos Chago, exortam-se as mulheres a dissimularem cuidadosamente seu sangue menstrual. “Não o mostres à tua mãe, ela morreria. Não o mostres às tuas companheiras pode haver uma maldosa que se aposse do pano com que te enxugaste e teu casamento seria estéril. Não o mostre a uma mulher má que pegará o pano e o porá em cima da sua cabana… e não poderá mais ter filhos. Não atirem o pano no atalho nem no mato. Uma pessoa ruim pode fazer coisas feias com ele. Enterra-o no chão. Dissimula o sangue aos olhos de teu pai, de teus irmãos e de tuas irmãs.  Deixá-lo ver é um pecado.” (C.f . Lévi- Strauss, Les Structures élémentaire de la Parenté).
Entre os Aleutas, se o pai vê a filha quando das primeiras regras, ela pode ficar cega ou muda. Pensa-se que, durante esse período,  a mulher é possuída por um espírito e carregada de forças perigosas. Certos primitivos acreditam que o fluxo é provocado pela picada de uma cobra, pois a mulher tem com a serpente e o lagarto suspeitas afinidades: o fluxo participaria do veneno do animal rastejante.
O Levítico compara o fluxo menstrual à gonorreia, o sexo feminino sangrento não é apenas uma ferida, é uma chaga suspeita.
E Vigny associa as noções de mácula e de doença quando escreve:
“A mulher, criança doente é doze vezes impura.”
Fruto de perturbadoras alquimias interiores a hemorragia periódica da mulher acerta-se estranhamente ao ciclo da lua: a lua tem também caprichos perigosos. A mulher faz parte da temível engrenagem que comanda os movimentos do planeta e do sol, é presa das forças cósmicas que regulam o destino das estrelas, das marés e cujas irradiações inquietantes o homem tem de suportar. 
Mas é principalmente impressionante que a acção do sangue esteja ligado a ideias de creme que azeda, de maionese que não se faz consistente, de fermentação,  de decomposição; diz-se também que é capaz de provocar a quebra de objectos frágeis, de rebentar as cordas dos violinos e das harpas; mas tem sobretudo influência nas substâncias orgânicas a meio caminho entre a matéria e a vida; e isso menos por ser sangue do que por emanar dos órgãos genitais.
Sem lhe conhecer sequer a função exacta, sabe-se que está ligada à germinação da vida.
Ignorando a existência do ovário, os Antigos viam mesmo nas menstruações o complemento do esperma. Em verdade,  não é esse sangue que faz da mulher uma impura; antes, ele manifesta a impureza. Aparece no momento em que a mulher pode ser fecundada e quanto desaparece, ela se torna em geral estéril; jorra do ventre em que se elabora o feto. Através dele exprime-se o horror que o homem sente ante a fecundidade feminina.

Simone de Beauvoir
in, O Segundo Sexo 
pág 186 a 190

O Segundo Sexo



Acabei de ler o livro, "O Segundo Sexo", de Simone de Beauvoir!
E o segundo livro começa assim:
“Ninguém nasce mulher; torna-se mulher”

No livro, Simone de Beauvoir evidenciou, pela primeira vez, que ser mulher não é algo naturalmente dado, mas uma construção social, histórica e cultural.
Como Simone de Beauvoir explica, foi exactamente assim – sem perceber, sem reflectir, sem observar, sem participar – que as mulheres se tornaram “o segundo sexo”. 
Aquele que só se define em relação ao primeiro sexo, o masculino.
Assim, a história e a cultura construíram das mulheres uma imagem invertida, tal qual um reflexo no espelho. Ao longo dos milénios e séculos, as mulheres só existiram em referência aos homens, como homens ao contrário, a versão fracassada, sem força, impotente e desprovida de poder do masculino.

Poder, potência, força, sucesso.
Palavras que Simone investiga e que descobre serem concebidas como privilégios do sexo masculino até mesmo por muitas mulheres.
Foi essa descoberta que levou os críticos a apontarem radicalismo e misantropia na obra. Quem faz essas acusações esquece-se de que a ferocidade das suas palavras é consequência directa do contexto em que a obra foi escrita: a Europa do pós-Segunda Guerra.

Simone não é contra os homens, mas contra o facto de exercerem a dominação em palavras, gestos, atitudes e políticas. E isso acontece ainda hoje. Simone não é contra as mulheres, mas contra o facto de se submeterem voluntariamente à dominação. 
E isso também acontece ainda hoje, principalmente diante da justificativa de que biologicamente homens e mulheres são diferentes.

Publicado em 1949, o livro de Simone de Beauvoir mostrou que a imagem da mulher frágil, infantilizada, incapaz física ou intelectualmente, perniciosa, perigosa, suja, pode ser transformada. Simone desvenda a trama histórica da submissão feminina para, no fim da obra, falar sobre a construção da mulher independente.

Descobriu que em muitas teorias, ditas científicas ou filosóficas, a mulher aparece associada a satanás, ao erro, ao perigo, ao mal, ao pecado, à fraqueza. 
Talvez por isso, Simone ouse nomear, no seu livro, com total franqueza, os laços sociais entre homens e mulheres na vida pública e também na vida particular. Não que ela ignore o amor e a paixão, mas o que ela encontra na sua investigação são outras palavras menos românticas: submissão, opressão, exploração, dependência, servidão (inclusive voluntária).

Ela foi acusada de ser contra os homens – nada mais falso para uma mulher que amou tantos( nomeadamente a relação bem conhecida com Jean-Paul Sartre) e tão intensamente; de pregar a dissolução da família – que, é verdade, ela via a família com restrições por ser a base na qual se reproduzem a submissão e a opressão da mulher. Recebeu insultos à sua sexualidade, à sua moral, à sua honra. Curiosamente, não à sua inteligência ou à solidez das suas ideias.

O livro é uma viagem profunda pela história da mulher, pelos factos, mitos e experiências em torno do feminino. Para o bem e para o mal, ainda hoje, as ideias de Simone de Beauvoir assustam e chocam algumas mulheres e muitos homens. 
Ela escreveu O Segundo Sexo há 60 anos, mas ainda hoje o processo de tornar-se mulher pode ser vivido como um diálogo com as ideias que ela expôs no livro.


Deixo-vos aqui algumas das passagens que mais me tocaram: 


"A relação dos dois sexos não é a das duas electricidades, de dois pólos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos 'os homens' para designar os seres humanos ... A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade."

"O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela se comporta como um ser humano ela é acusada de imitar o macho."

"A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo."

"Os termos masculino e feminino são usados simetricamente apenas como uma questão de formalidade. Na realidade, a relação dos dois sexos não é bem como a de dois pólos eléctricos, pois o homem representa tanto o positivo e o neutro, como é indicado pelo uso comum de homem para designar seres humanos em geral; enquanto que a mulher aparece somente como o negativo, definido por critérios de limitação, sem reciprocidade. ... Está subentendido que o facto de ser um homem não é uma peculiaridade. Um homem está em seu direito sendo um homem, é a mulher que está errada."

"Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água, é entre outros motivos porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou de má-fé. Mas o que, em todo caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a interioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projectar-se num objecto. A mulher é para ele a suprema recompensa porque é sob uma forma exterior que ele pode possuir, em sua carne, sua própria apoteose."

"Tesouro, presa, jogo e risco, musa, guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que se deixa anexar sem deixar de ser o Outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e a seu triunfo, que se pode dizer que, se ela não existisse, os homens a teriam inventado."

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Autómato...e o Gato



"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. 
O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado.
A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias.
A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha.
A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social.
É também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.

Outros animais, dão-nos uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto, a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono: há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília, a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo.
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade, constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
Vencedor indiferente, ele nunca é vencido.

A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível...
Uma coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."

in, L'OUVERTURE DU CHEMIN
ISHA S. DE LUBICKZ

Escrever uma nova história



"Não quero reabrir o velho guião. 
Não vou desempoeirar os antigos manuscritos. 
Guardo algures as memórias. 
Boas e más. 
Os tesouros guardados e as lições aprendidas. 
Mas o que te ofereço agora é um caderno branco. 
Com todo o espaço para escrevermos uma nova história..."

Marla de Queirós

Relacionamentos - Significado Espiritual



Compartilho algumas reflexões sobre o significado espiritual dos relacionamentos, sobre as forças do amor, da paixão e do sexo como base para o crescimento e aprendizado da alma humana.

Tomo como base o livro "O CAMINHO DA AUTO-TRANSFORMAÇÃO" da Eva Pierrakos

Afinal, como a paixão se distingue do amor?
O amor é um estado permanente da alma. A paixão, não.
O amor só pode existir através do desenvolvimento e da purificação.
O amor não vem e vai aleatoriamente, a paixão, sim.
A paixão ataca com força repentina, muitas vezes pegando a pessoa desprevenida e até mesmo sem vontade de passar pela experiência.
O amor é um compromisso consciente.

Quando a alma estiver preparada para o amor, e só então, é que a paixão será a ponte para que ele aconteça. Em alguns casos, se a pessoa estiver amadurecida suficientemente, nem será preciso se apaixonar para que o compromisso do amor surja. Se a paixão não nos afetasse, não nos tirasse dos nossos hábitos enraizados, ninguém estaria preparado para uma busca mais consistente. É uma experiência que lança sementes na alma, faz com que ela aspire à unidade. E esta é justamente a grande meta, o grande plano para a existência humana.

Enquanto a alma permanecer separada, a solidão e a infelicidade serão inevitáveis.

Não importa se o significado verdadeiro da paixão é ou não é compreendido. Mesmo que ela seja um poder mal utilizado, um pouco do seu efeito irá permanecer na alma. E para aqueles que tem medo do risco, medo de suas emoções e da vida, será sempre um bom remédio, apesar da tristeza e da sensação de perda (devido a outros fatores psicológicos).
A maioria destas pessoas tem um ponto vulnerável e a paixão pode entrar por esse ponto…

A paixão (Eros) tem um grande significado para o nosso desenvolvimento. É uma das forças mais poderosas da existência. Ela tem que servir como ponte entre o sexo e o amor, mas é raro quando isso acontece.

Mesmo a mais forte paixão se dissolve se a pessoa não souber amar, cultivar as qualidades e requisitos necessários para o amor puro. Só quando o amor é aprendido a centelha da paixão se mantém viva. Esse é, sem dúvida, o problema com o casamento. A maioria das pessoas não tem condições de chegar ao casamento ideal porque é incapaz de oferecer amor puro.

A paixão tem muitas semelhanças com o amor.
Ela faz irromper impulsos que de outra forma ninguém teria: impulsos de doação e de afeição, por exemplo. Ela sacode e tira a alma do contentamento medíocre, do seu estado de vegetação. Quando ela se manifesta, mesmo as pessoas menos desenvolvidas são capazes de superar-se. Ela faz a alma pulsar, sair de si mesma. Até mesmo um criminoso pode momentaneamente sentir (pelo menos com relação a uma pessoa) uma afeição que jamais sentiu antes.

Enquanto esse sentimento perdurar, até a pessoa mais egoísta terá impulsos de generosidade e de sacrifício. A pessoa preguiçosa abandona sua inércia. E a pessoa que caiu na rotina consegue se livrar do marasmo. Nem que seja por breves instantes, a paixão coloca a pessoa acima do seu estado de separação. Oferece à alma um vislumbre de unidade e nos ensina o desejo ardente por essa unidade. Sem a paixão ninguém poderia experimentar a beleza indescritível contida no amor.

As 3 forças - amor, paixão e sexo - muitas vezes aparecem separadas e a personalidade será menos desenvolvida quanto mais essas 3 forças se mantiverem assim. Às vezes apenas 2 se misturam, mas somente no caso ideal é que as 3 se fundem harmoniosamente.

Um dos objetivos do casamento (não o único) é a procriação. A força do sexo é o poder criador em todos os níveis da existência, mas a força sexual pura é totalmente egoísta. Está ligada a agressividade, quanto mais atrasado estiver o desenvolvimento da pessoa.
Em outros casos apenas a paixão, sem sexo e sem amor, acontece por um tempo limitado (o famoso amor platônico).

Mais cedo ou mais tarde, sendo a pessoa razoavelmente saudável, a paixão e o sexo acabam se juntando. O relacionamento vai até certo ponto, mas depois acaba. Muitos utilizam esta sensação de felicidade de modo descuidado e voraz, nunca ultrapassando o limiar que conduz ao amor verdadeiro. É o que acontece quando não se busca um desenvolvimento espiritual e usa-se a paixão como uma projecção, para dar um significado maior para a existência.

Outra combinação que aparece mais em relacionamentos de longa duração é o amor e o sexo, sem a paixão. Pode crescer uma certa quantidade de afeição, companheirismo, ternura, respeito, mas sem a centelha da paixão o relacionamento sexual também acaba se desgastando. Resta uma grande amizade, mas o vazio interior continua. É este o problema com a maioria dos casamentos.

Como então manter essa chama, na medida em que os parceiros caem no hábito e na familiaridade? Existe uma solução para a parceira ideal do amor?
Deixo uma pista: o medo de se revelar ao outro, é o mesmo medo de revelar-se a si mesmo…

Somente quando você encontrar o amor, a vida, e outra alma com essa disposição, é que você poderá oferecer o maior dos presentes a seu bem-amado: seu verdadeiro eu. 

Somente quando duas pessoas se revelam uma à outra é que elas podem se purificar e ajudar uma a outra, preencher-se buscando mutuamente as profundezas da alma. Você será purificado ao colocar de lado seu orgulho e ao revelar-se a si mesmo como realmente é.

Todas as máscaras devem cair e não apenas as da superfície. Então o amor e a paixão continuarão vivos. Você não precisará buscar amor em outros lugares. Não precisará ter medo de perder esse amor. Esse medo só se justifica se você não quiser arriscar ao mesmo tempo a jornada da busca de si mesmo. É este o sentido do casamento verdadeiro e este é o único modo de ele ser a glória que se supõe que deva ser.

Mas para isso é necessário uma certa maturidade emocional e espiritual. Na prática dificilmente as coisas acontecem assim. Ao chegar a um certo grau de familiaridade e de hábito, você pensa que conhece o outro. Nem sequer lhe passa pela cabeça que o outro não o conhece. Esta busca do outro e também a revelação que você consegue de si mesmo exige alerta constante. As pessoas caem na ilusão de já se conhecerem uma a outra completamente, esta é a armadilha. A alma precisa prosseguir, precisa descobrir e ser descoberta, de modo a dissolver a separatividade. Esta é uma tarefa para muitas vidas! Por medo da união e pela inércia, o casamento acaba se dissolvendo e a pessoa passa a alimentar uma nova ilusão de que com um novo parceiro tudo será diferente (especialmente se a paixão entrar em acção mais uma vez).

Se a maturidade existir, você escolherá o parceiro certo intuitivamente. Um parceiro que tenha a mesma maturidade e a prontidão para o início desta jornada. A escolha de um parceiro sem essa disposição acontece por causa do medo oculto que temos dessa aventura. Atraímos magneticamente pessoas e situações que correspondem a nossos desejos e temores subconscientes.

No geral, as pessoas estão muito distantes desse ideal de parceria, mas isso não muda a idéia. Enquanto isso, precisamos aprender a agir da melhor maneira possível. Mesmo que seja para compreender porque você não consegue concretizar a felicidade que sua alma procura. Descobrir isso já é o bastante para possibilitar nesta vida (ou em vidas futuras) a realização deste anseio.

O amor realmente não é a união de duas metades, é a união de dois inteiros. Sofremos por paixão, mas todo sofrimento é um aprendizado. As pessoas estão neste mundo para aprender a amar. E amor não se cobra, amor se dá.

Muitas de nossas escolhas implicam nas escolhas dos outros, em invadir o que eles querem para suas próprias vidas. Por isso também é que não dá certo. A partir do momento em que suas escolhas não dependerem de os outros fazerem isso ou aquilo, serem isso ou aquilo, as coisas darão muito mais certo na vida, pois na verdade a sua vida depende só de você.

O que acontece é que as pessoas criam ligações dependentes, vinculam seu bem-estar ao livre-arbítrio do outro: "se fulano for assim, se fizer isso, se me quiser”... Deixe que o outro escolha o caminho dele, deixe que faça as opções dele, que ele seja como quiser ser. Não tente interferir nisso, não condicione sua felicidade às escolhas dos outros pois isso torna tudo mais difícil.

Não se pode dirigir a vida alheia, apenas a sua. Aprender a dar amor… e deixar que o universo cuide do resto. O amor nunca se esgota, ele se auto-perpetua. Quando mais amor se dá, mais amor se tem pra dar. E ele volta multiplicado. Se a solução para a verdadeira felicidade e o verdadeiro prazer é aprender a amar, é só na união com um parceiro ideal que cumprimos o nosso destino. É aí que começa a verdadeira aventura!

Concluimos que a meta divina da verdadeira parceria de amor é a revelação mútua COMPLETA de uma alma para outra - não apenas uma revelação parcial.

A revelação física é fácil. Quanto mais numerosos forem os parceiros com quem você queira se dividir, tanto menos você dará de si mesmo a cada um deles. Isto não pode ser de outro modo. Emocionalmente, compartilhamos até um certo grau - em geral até onde a paixão nos conduz. Mas então fechamos a porta, e é onde os problemas começam.

Há muitos que não querem revelar nada. Preferem continuar sozinhos e distantes. O amor verdadeiro exige muito mais das pessoas num sentido espiritual. Algumas pessoas acreditam que podem suprimir o sexo, eros, o desejo de um parceiro e viver completamente pelo amor da humanidade. É possível, mas certamente não é saudável, nem honesto. Pode-se dizer que talvez exista uma pessoa em 10 milhões que possa ter uma missão assim. Pode ser o carma (ou o dharma) de uma alma determinada que já se desenvolveu até esse ponto, passou pela experiência da parceria verdadeira e vem para uma missão específica.

Mas na maioria dos casos o facto de evitar ter um companheiro não é saudável. É uma fuga. E essa renúncia cheia de receio é racionalizada como um sacrifício. Ao revelar-se a outro ser humano, você realiza algo que não pode ser feito através da revelação a Deus, que já o conhece e que de facto não precisa da sua revelação. Ao encontrar outra alma você também encontra outra partícula de Deus e oferece algo divino à outra pessoa.

Portanto é essencial perguntar se bem lá no fundinho existe o medo do amor e da decepção.
Você acha mais cómodo viver para você mesmo e não ter problemas?
Não é de facto isto que você sente no seu íntimo e tenta encobrir com outros motivos?

Formar uma relação sólida e duradoura num casamento é uma das coisas mais difíceis, mas é a maior vitória que um ser humano pode obter. É o destino do homem, pois muito do que se pode aprender com a realização no amor pessoal não pode ser alcançado de nenhum outro modo.
Desejo a todos uma vida plena de realizações, e a vitória sobre crenças e padrões negativos.


in, O CAMINHO DA AUTO-TRANSFORMAÇÃO
Eva Pierrakos

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O Corpo na Natureza ou a Natureza no Corpo?



Onde começa um e acaba ou outro? Ou não acaba?
Moldando-se um ao outro, brincam...
Os pés na madeira macia da árvore...ou pele na pele?
Pêlo ou musgo? Cabelos ou folhas? Braços ou ramos que se estendem ao Infinito?
A Natureza é selvagem. Eu Sou Natureza. Eu Sou Selvagem!
Dissolvo-me e misturo-me... sou água, terra, fogo e vento...
Respiro, balanço, abraço, escorrego, entrelaço,
grito, morro, renasço...
Toda eu sou vibrante metamorfose manifesta nos ciclos infinitos que me atravessam!

...entre as árvores eu sou árvore...
...o vento atravessa-me e eu sou vento...
....amando o seu bater nos ramos, nos meus ramos,
na espuma do meu cabelo...
....porque eu já não sei se sou vento se sou mar...

O que está fora está dentro e o que está dentro está fora.
Sou Una com Ela. Sou. Somos.
Somos da mesma Teia!

Freya Berit


Teia



Esqueleto, músculo, fáscia, sopro vital, mente, alma...
o tecido da nossa teia... Cada parte está interligada.
Cada parte afecta a outra.
O movimento nasce desta relação e quando pensamos que estamos a repeti-lo na verdade não o estamos, porque cada parte da teia está em metamorfose constante.
O movimento nasce único e irrepetível, por mais subtis que sejam as diferenças, tal como nós quando acordamos para um novo dia.
Esta subtileza dá-nos muitas vezes a ilusão da repetição, mas se a cada instante pudéssemos focar toda a nossa atenção na totalidade do corpo e em cada parte da teia simultaneamente, veríamos que de facto não há dois movimentos iguais.

Esta teia não é somente interna, ela estende-se além de nós... ao que nos rodeia, aos outros e liga-se a toda a humanidade em todo o tempo da história.

Poderíamos falar de várias teias:
A teia interna entre o corpo e a consciência;
A teia social que é a ligação ao que nos rodeia, aos outros, ao meio social;
A teia do subconsciente colectivo que nos liga a toda a humanidade...

Todas as teias são na verdade uma só e nós somos como pequenos núcleos dentro da teia maior. 
Nada se nossa atenção na totalidade do corpo e em cada parte da teia simultaneamente, veríamos que de facto não há dois movimentos iguais.
Separado, tudo tem uma vibração, uma repercussão...
Uma parte da teia que se agita faz mexer a outra ponta.
Constante movimento. Constante metamorfose.
Singularidade. Unicidade.

Nesta metamorfose constante, questiono, experimento, em busca da minha verdade.
Tento colocar de lado conceitos e (pre)conceitos adquiridos e olhar tudo como se fosse a primeira vez, incluindo eu própria.
Quem sou eu quando não há máscaras?
Permito-me ao espanto e a todo o conhecimento que ele me permite alcançar.
Olho-me como se não me conhecesse de todo e assim conheço-me realmente... a mim, aos outros, ao que me rodeia...


Freya Berit

Amador



Começar por amar a impressão de um só corpo. Mais tarde buscar em vários, muitos, um só corpo já das mãos e dos lábios conhecido. Depois amar por partes, escolhendo, as mais das vezes, a pequena imperfeição onde o prazer se acende. Tudo isto longe, muito longe do amor.

É que doem tanto as primeiras paixões que se enfurece justamente. O que se encontra é outra coisa, talvez melhor, talvez, mas não o que se tinha mais que tudo preferido. Os dedos a perderem-se nos cabelos, por exemplo. Só isso? A paixão tem de doer, é isso que quer dizer. Tudo isto muito tempo, porque mesmo assim não se desiste facilmente.

E depois, ao perder a âncora, a paixão faz volteio dentro da cabeça. Então vem a saudade que lhe enche o peito e vive só de sombras e fantasmas com insónia. É de uma fidelidade triste porque sem motivo. Dorme-se de menos por se sonhar demais e é tudo.

Por isso se desespera e se procura sem perder mais tempo, porque já se vai atrasado, aquilo que se perdeu naquilo que em volta há. Pode demorar muito tempo e nunca se ir encontrar. Pode apegar, pegar, apanhar, mas não mais apaixonar. Apaixonar é verbo passado, primitivo. Vai-se de corpo em corpo à procura do mesmo e é sempre outro e diferente e dá tonturas e dá trabalho e causa dor, não nele, imune, mas nos outros, que se deixam embaraçar, abrasar, enganar, porque talvez também se queiram enganar.

E chega o tempo de preferir a cara deste, e as mãos desta, e o corpo-tronco daquele ou tudo junto de repente. É o tempo de analisar tudo minuciosamente, partir, despedaçar, ver por dentro, dar a volta sem pretender sequer voltar a reparar. E pode-se ficar por aqui e pode-se até voltar atrás, mas já não da mesma maneira, porque para voltar só vale a pena por uma pior. É o vício a descobrir-se na repetição atraente, irrecusável mesmo, com cenas de ódio pelo meio a intervalar. Tudo isto mais longe do amor, se for possível. O amor sempre mete muito medo.

Mais vale aquela pequena imperfeição onde o desejo se acende e arde e leva consigo o tempo em frente. Amanhã o abismo, mas só amanhã. Como recusar, o que vem assim sem se saber porquê? Como cansar o que prefere morrer a sossegar? Para quê afastar o que se dá no presente e o enche nem que seja no bastante momento em que se está? Não há resposta e é de propósito que a não há. É preciso ficar doente para se curar e quanto mais doente melhor e pior ao mesmo tempo. E pode-se ficar assim ou querer voltar ao começo, só que já não o há, é só pequena superstição a aliviar a alma brevemente de tanta ilusão que só serve para atrapalhar.

Pode-se ficar frio no corpo e quente na cabeça. Ou frio no corpo e trazer o corpo a escaldar. Pode-se querer mais do que tudo perder a cabeça ou deitar o corpo pela janela do sétimo andar. Pode-se demais, é esse o problema. E se todos se portam mal já não vale a pena portarmo-nos mal, não será assim? Pode ser. E depois há a idade a trazer cabelos sem qualquer cor com a cara frente ao espelho sem se querer acreditar. E o medo cresce sempre. E o prazer precisa de crescer ainda mais para o abafar. E o corpo começa a doer e a adoecer e a recusar servir o que quer que seja, a não prestar nem para comer, quanto mais.

E pode-se ficar por aqui, ou recuar. Mas não é possível recuar, ou simplesmente então acabar de livre vontade ou imperiosa necessidade por já não se aguentar. É sempre demasiado tarde para acabar. Não vale a pena acabar.

E depois dá-se o milagre. O que pressupõe que tudo o resto fica tal como está, e como é perfeito, insuficiente, as mais das vezes repelente. O milagre acontece ou não e é tudo. Nem é natural que aconteça. É por isso que é milagre. O amor pode chegar. Mas donde vem? Para onde vai? Quando chega vem para quê, o amor? Grande e inútil milagre este sem resposta e é de propósito que não tem resposta.

Há quem não acredite e está bem assim. E há quem só acredite e ainda é melhor assim. Como em tudo é preciso crer para ver. Mas não é preciso, menos ainda obrigatório, é uma graça que só vem se quiser, quando quiser e pelo tempo que quiser e é o melhor de tudo o que possa acontecer. E o prazer é a recompensa que acompanha o bom trabalho, entre todos o mais difícil, agora perto, muito perto, o trabalho do amor.


Pedro Paixão

terça-feira, 21 de abril de 2015

Jack and Jill




Jack and Jill
2011

Direcção: Dennis Dugan

Johnny Depp - Ele Mesmo



Jack Sadelstein (Adam Sandler) é um produtor de televisão que vive em Los Angeles.
Sua irmã gémea, Jill (Adam Sandler) mora em New York e resolve visitá-lo durante o feriado de Acção de Graças.
Forçado a lidar com a sua irmã gémea, que não vai embora, Jack Sadelstein acaba por se ver numa das maiores confusões da sua vida.

Fui, sou e serei pelo verbo fazer



"Mesmo que o resultado não seja exactamente aquilo que se espera. 
Mesmo que o caminho seja mais de pedras do que algodão. 
Mesmo que tenhamos que inverter a marcha quando achamos que estamos quase a chegar. 
Mesmo que tudo corra ao contrário. 
O que importa mesmo é tentar. 
É fazer. É agir. 
De certeza que vai valer a pena. 
Mais tarde ou mais cedo, valerá sempre a pena. 
Pela aprendizagem. 
Pela experiência. 
Fui, sou e serei pelo verbo fazer. 
Sempre."

Para ti, ser fraco é como ser doente.



Só serás forte no dia em que aceitares que também tens momentos em que não o és.
Tens de entender que nem sempre és tudo o que gostarias de ser, nem sempre tens tudo o que gostarias de ter, nem sempre és capaz de tudo o que gostarias de ser capaz, nem sempre aguentas tudo o que gostarias de aguentar, nem sempre és tão forte como gostarias de parecer.
A tua força não vem da tua vontade, mas do reconhecimento da tua fraqueza.
Tu insistes em querer provar aos outros que és forte, quando na verdade o que realmente pretendes é esconder que és fraco.
Para ti, ser fraco é como ser doente.
E tu não queres parecer doente.
Tu desejas tanto que te admirem pela tua força que acabas por tombar pelo peso de tão difícil escolha. Por favor, pára antes que seja tarde de mais.
Pára antes que a tua ilusão de força te traga a realidade do teu engano.
Lembra-te sempre que é apenas quando aceitas as tuas fraquezas que te tornas mais forte, precisamente porque só quando as aceitas é que tens finalmente a grande oportunidade de mudá-las.” 

José Micard Teixeira

................despregar os olhos da cruz




Que o sofrimento engrandece e que aumenta exponencialmente as hipóteses de nos tornarmos mais fortes, mais sábios e mais evoluídos, já todos sabemos.
E não é para quem quer, é só para quem pode, como se se tratasse de um luxo, de um mérito reservado aos eleitos, de uma qualidade dos mártires, embora também assole, afinal, todo e cada um ser mortal que se preze, feito da carne comum que a todos nos cobre.

Sofrer. Sofrer muito.
Sofrer até que não haja mais nenhuma célula que não lateje de dor.
Sofrer nem sequer até dizer chega, porque não há nada que chegue, nem sempre há algo que faça passar, alguma coisa que cure, que alivie, a não ser sofrer ainda mais e aguentar firme, enquanto mágoas e dores nos rasgam por fora, ao mesmo tempo que nos comem por dentro.

Temos todos dias assim, vidas assim, manias assim.
A imagem de Cristo na cruz, com as mãos e os pés esventrados por pregos e coroada de espinhos, deixou-nos gravada nos genes esta certeza de que só quem sofre até aos limites pode algum dia vir a alcançar as alturas, o paraíso, o reino dos céus.

Experimentem passar os vossos dias na calma beatitude dos que não padecem de qualquer espécie de mal, dos que não se queixam de nada, não são acometidos por espasmos nem febres e verão como é pouco o respeito que colhem em troca. 

Quem não sofre, por pouco que seja, não é digno de compaixão, de carinho, de mimos. 
Tão pouco é normal, já que o normal, humanamente falando, é sofrer.
E então agarramo-nos à normalidade, agarramos-nos ao sofrimento, carregamos cruzes às costas até ficarmos em sangue, esventramos os pés e as mãos e o peito e exibimos as feridas como se fossem medalhas de guerra.
E assim vamos ganhando algum mérito, conquistando a compaixão dos que nos rodeiam, que nos pegam ao colo e que nos fazem festas e que nos limpam as lágrimas, ao mesmo tempo que dizem "pronto, pronto, já passa". 

Com sorte, somos aquele ou aquela "que já sofreu tanto" e isso, de certa forma, dá-nos estatuto, dá-nos credibilidade, dá-nos alento e razões para não abrirmos mão de tudo o que nos queima por dentro. Não concebemos sequer a possibilidade de o sofrimento ser só uma ideia, um conceito, um preconceito, uma herança. e sofremos até quando não queremos sofrer. sofremos para não sofrer mais.

Despregar os olhos da cruz é negar a nossa própria humanidade e é por isso que nos é tão difícil fazê-lo.
Quem seríamos nós, sem dores e sem feridas?
Quem seríamos nós, se não houvesse mais nada de que nos queixássemos?
Quem seríamos nós, se Cristo afinal não tivesse sido cruxificado?

E, no entanto, todos nós temos dias assim, pedaços de vida sem dor, momentos em que despregamos os olhos das feridas, alturas em que sofrer nos parece, afinal, o maior dos absurdos e o desperdício mais estúpido.
Quase me atreveria a dizer que, quando largamos as nossas dores, quando as esquecemos, quando nem sequer nos lembramos que as temos, não sabemos quem somos. 
A leveza que toma conta de nós parece irreal, levitamos como se não houvesse mais peso, tornamo-nos anormalmente felizes.

Humanamente, porém, é impossível que o sofrimento nos tenha deixado para sempre a gozar dessa anormalidade, ou então seríamos anjos ou qualquer outra coisa que a matéria não pudesse atingir.
Mas somos humanos, pois é. 
Não deixou de haver carne nem sangue, não deixou de haver cruz, não se escoou do nosso corpo a memória das dores ancestrais, nem nós saberíamos o que fazer se o lugar onde sempre as guardámos desaparecesse sem deixar rasto do nosso mapa genético. 

E, de novo, sofremos.
Sofremos tanto, sofremos por tudo, sofremos por nada, sofremos até quando não sabemos por que é que sofremos, quase como se a dor fosse uma prova de vida, uma garantia de que continuamos aqui, uma maneira de ocuparmos o tempo, um mérito que um dia nos fará ser merecedores da redenção e da glória dos céus.

E então desprego os olhos da cruz, palpo o meu corpo e não encontro uma única chaga, não há sequer cicatrizes de feridas antigas, não me dói nada.
Desfaço a noção que tenho de mim como um punhado perene de ossos, de órgãos, de células, de músculos e nada lateja.
Ponho as mentiras de lado e desligo os ecrãs onde, repetidamente, se projectam todos os filmes desde que nasci até hoje e alguns outros que nem sequer aconteceram ainda.
Escrevo 'paixão' na certeza de que as palavras nem sempre falam verdade.
É sexta feira e a paixão de hoje exala um hálito trágico que não vou respirar.
E escolho escrevê-la sem recorrer à memória de nada, mas apenas à terra que habito.
Pai chão.
E Cristo surge-me então como uma luz de presença benigna.
E o milagre da cura é segui-la sem deixar que se apague, já que é apenas no escuro que o sofrimento se acende.


Inês de Barros Baptista

domingo, 19 de abril de 2015

Acredito em momentos inesquecíveis



"Desisti de acreditar em coisas eternas,
acredito em momentos inesquecíveis. 
Destes que me alimento e àqueles que me rodeiam. 
Por isso encontrando-me pelo caminho podes escolher entre o eterno e o inesquecível. "

Jeannie Klein

O corpo nú



O corpo nú, a alma amostra
Liberto, Livre , Solto
Marcas, contornos, histórias
Passado, Presente
Sagrado, lindo, perfeito como és
Negar o corpo que foi nos dado, é negar a essência geradora
O nosso corpo é a caixa do presente, aonde a surpresa encontramos dentro.
Foi-nos dado um veiculo de locomação para andarmos neste mundo, emprestado pelo tempo que aqui estaremos.
Com suas cores, suas formas, seus tamanhos, não importa ele é perfeito como é.
Vivemos numa sociedade que coloca os seus valores no artificial e anula o natural, criando seres roboticos que valorizam o que lhe é passado ao invés de escutarem o que é sentido
Negam os seus corpos, porque foi-lhes dito que daquela forma é feio, esquecendo-se de olhar para si e perguntar-se " O que eu acho? Como é a sensação ao me olhar? O que eu sinto? "
O espelho na sua frente é renegado, porque a imagem que ali reflete não é a mesma que a Midia pede. Enquanto o seu coração lhe fala " Você é perfeito como é", a sua mente lhe diz : " Estás horrivel, faz plasticas, coloca silicones, emagreçe, olha as celulites, estás gordo, estás magro,  és feio "...
E o velho ditado surge: A Mente, mente!
O ser humano não sabe mais quais são os seus gostos, ele vive por aquilo que todos falam, onde um vai, todos seguem... O ser humano perdeu a sua singularidade e colocou os seus valores em plásticos.
Rotular, dar nomes é deixar de lado a essência, é perder o especial para adquirir o artificial.
Nós Mulheres somos as que estamos na linha de frente desses ataques da mídia...
Em algum momento o patriarcado criou a forma perfeita da mulher ideal, e anulou a mulher por aquilo que ela é.
Não importa o corpo de uma mulher, em muitas culturas as mulheres gordinhas, com suas ancas grandes, são consideradas mulheres fartas e poderosas, pois nelas há a conexão com Pachamama.
E a figura de Pachamama é mostrada como uma mulher robusta.
Não defendo as mulheres gordas, as mulheres magras.
Eu defendo aquelas que se assumem pelo que são.
Aquelas que honram o seu corpo e arrancam as suas roupas, abençoando o Ventre que lhes foi dado, o seu peito, o seu rabo, as suas pernas, as suas coxas...
Eu honro as mulheres que vivem por si, que conhecem a verdadeira imagem que é reflectida no seu espelho.
E eu peço por aquelas mulheres que ainda valorizam o artificial e não o natural.
Não devemos abandonar os nossos corpos, devemos cuidar com muito amor -até porque ele é divino, o que devemos abandonar é a busca de ser o que os outros querem que sejamos.
Que arranquemos as nossas roupas e lembremos que os nossos corpos não são o veículo do pudor e sim o veículo da nossa alma.
Mostremos o natural!
A beleza está numa alma tranquila, e num coração feliz!

Carol Shanti

O Ser Quântico




No livro O Ser Quântico, a cientista Danah Zohar toma o homem como co-autor da realidade, e a física como um meio de se alcançar um novo entendimento da vida e do universo. 
Fundamentada na pesquisa cientifica, a autora propõe uma resposta vigorosa para a antiga discussão sobre as origens e os caminhos da existência humana, percorrendo questões que vão da filosofia à física quântica, da sociologia às teorias comportamentais.

Certos parágrafos tive que reler duas, três vezes para esboçar alguma compreensão...

Dana Zohar com uma linguagem extremamente clara – nem por isso simples – vai construindo uma visão da vida, da consciência, do comportamento psíquico, fundamentada na física quântica.

Se já ouviram falar sobre a física quântica para fundamentar certas visões espiritualistas, vão-se surpreender como os conceitos quânticos são apresentados ao público de forma distorcida.
Dificilmente compreenderemos ao certo o que é de facto a física quântica porque, nem os cientistas a conseguem consolidar, estando muitos conceitos ainda por se esclarecer.

O objectivo da autora com esta obra é afirmar que a nossa consciência, tão inerente a nós e tão indecifrável, tem a sua origem na própria matéria, ao passo que renova a nossa visão da matéria, que vai MUITO além do que supunha Isaac Newton. Fantástico! 

Conceitos Newtonianos, Cartesianos, Einsteinianos ainda muito em voga actualmente, tendem a se renovarem na medida em que muitos conceitos quânticos vão sendo estudados, comprovados e esclarecidos.
Se tens um lado filósofo, como eu, e queres entender A FUNDO o que é essa misteriosa física quântica e conhecer algumas de suas fantásticas aplicações e implicações, tanto no mundo físico quanto na existência humana, recomendo esta leitura.

Não é uma leitura fácil.
E como não tenho noções básicas de química, física e biologia, ainda complicou mais...

Na prática, o livro não muda em nada a nossa vida e o conceito que temos dela.
Alguns conceitos, como o da imortalidade da alma, são tratados de forma não convencional e eu diria – com base em crenças espirituais populares sobre a dualidade corpo-alma – nada confortante.

Já dizia Einstein: 
“Concentre-se em conhecer, não em acreditar”. 

Até mesmo porque, tudo na física quântica, é ainda, muito especulativo.
Mas ao mesmo tempo, fascinante!
Muito se supõe, e pouco se sabe.
De qualquer forma, o panorama que tende a se descortinar com novos estudos é mesmo muito intrigante.


Se a Vida é um Jogo Estas São as Regras



SE A VIDA É UM JOGO, ESTAS SÃO AS REGRAS:

1) Você receberá um corpo. Poderá amá-lo ou odiá-lo, mas ele será seu todo o tempo.

2) Você aprenderá lições. Você está matriculado numa escola informal de tempo integral chamada Vida. A cada dia, terá oportunidade de aprender lições. Você poderá amá-las ou considerá-las idiotas e irrelevantes.

3) Não há erros, apenas lições. O crescimento é um processo de ensaio e erro, de experimentação. As experiências 'mal sucedidas' são parte do processo, assim como experiências que, em última análise, funcionam.

4) Cada lição é repetida até ser aprendida. Ela será apresentada a você sob várias formas. Quando você a tiver aprendido, passará para a próxima.

5) Aprender lições é uma tarefa sem fim. Não há nenhuma parte da vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições a serem aprendidas e ensinadas.

6) 'Lá' só será melhor que 'aqui'. Quando o seu 'lá' se tornar um 'aqui', você simplesmente terá um outro 'lá' que novamente parecerá melhor que 'aqui'.

7) Os outros são apenas espelhos de você. Você não pode amar ou odiar alguma coisa em outra pessoa, a menos que ela reflicta algo que você ame ou deteste em você mesmo.

8) O que você faz da sua vida é problema seu. Você tem todas as ferramentas e recursos de que precisa. O que você faz com eles não é da conta de ninguém. A escolha é sua.

9) As respostas para as questões da vida estão dentro de você. Você só precisa olhar, ouvir e confiar.

10) Você se esquecerá de tudo isto.. e ainda assim, você se lembrará.


in, "If Life is a Game, These are the Rules"
"Se a Vida é um Jogo Estas São as Regras"
Chérie Carter-Scott 

sábado, 18 de abril de 2015

Shangri-la...Shambhala



Shambhala, Shambala, Shamballa ou Sambala é um local místico citado amiúde em textos sagrados e presente em diversas tradições do Oriente. Depois da divulgação do termo no ocidente tornou-se conhecida em círculos esotéricos e penetrou até a cultura popular.

No budismo tibetano, Shambhala é um reino mítico oculto algures na cordilheira do Himalaia ou na Ásia central, próximo da Sibéria. É mencionado no Kalachakra Tantra e nos textos da cultura Zhang Zhung, que antecedeu o Budismo no Tibete ocidental. A religião Bön o chama de Olmolungring.

Shambhala significa em sânscrito "um lugar de paz, felicidade, tranquilidade", e acredita-se que os seus habitantes sejam todos iluminados.

Shambhala também é associada ao império histórico Sriwijaya, onde o mestre Atisha estudou sob Dharmakirti e recebeu a iniciação Kalachakra. Também é considerada a capital do Reino de Agartha, constituído, segundo as cosmologias do taoismo, hinduísmo e budismo, por oito cidades etéricas.

Entre os hinduístas o nome é mencionado nos Puranas como sendo o lugar de onde surgirá o avatar Kalki, que libertará a Terra das forças disruptivas e restabelecerá a Lei Divina.

Como outros conceitos religiosos, Shambhala possui um significado oculto e um manifesto:
A forma manifesta tem Shambhala como um local físico, embora só podendo ser penetrado por indivíduos cujo bom karma o permite.
Estaria em algum ponto dos Himalaias ou deserto de Gobi, ladeada pela China a leste, Sibéria ao norte, Tibete e Índia ao sul, Khotan a oeste.
A interpretação oculta diz que não é um lugar terreno, mas sim interior, comparável à Terra Pura do Budismo, de carácter mental e moral, ou a um estado de iluminação a que toda pessoa pode aspirar e alcançar.

Segundo os ensinamentos escritos e orais do Kalachakra, transmitidos ao explorador Andrew Tomas por Khamtul Jhamyang Thondup, do Conselho de Assuntos Religiosos e Culturais do Dalai Lama (em exílio na Índia desde a ocupação chinesa comunista de 1950 no Tibete), a aparência de Shambhala variaria segundo a natureza espiritual do observador:
"por exemplo, certa ribeira, pura e simplesmente a mesma, pode ser vista pelos deuses como um rio de néctar, como um rio de água pelos homens, como uma mistura de pus e sangue pelos fantasmas esfomeados, e por outras criaturas como um elemento no qual se vive"





Shambhala, Inspiração para a criação literária do inglês James Hilton "Lost Horizon" (1925), passa a ser também conhecida e referida como Shangri-la!

Shangri-La, Xangri-lá ou Shangrila é uma esfera mágica, própria do universo da imaginação, criada pela mente genial do escritor James Hilton, na sua obra Horizontes Perdidos. 
Este ponto mágico estaria supostamente localizado nas cadeias montanhosas dos Himalaias, junto a paisagens deslumbrantes, num ambiente de completa paz e harmonia, inimagináveis para nós, humanos.
Lá o tempo parece não passar como no restante Planeta, eternizando-se numa atmosfera de intensa felicidade, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências... As pessoas não envelhecem neste refúgio onírico.



O livro que deu origem a este mito foi lançado em 1925, inspirando assim idealistas, exploradores, viajantes, entre outros, a procurar este recanto misterioso. Provavelmente este paraíso perdido foi criado com base num local do Tibete conhecido como Diqing. Esta localidade tibetana está inserida numa área montanhosa repleta de lagos, na província de Yunnan, sudoeste da China. Com o sucesso da obra inspirada nesta região, ela passou a ser conhecida também como Shangri-la, transformando-se assim num famoso pólo turístico.

No idioma próprio do Tibete, Diqing tem o sentido de ‘região auspiciosa’, na qual convivem 26 diferentes etnias. O Planeta só soube da sua existência depois do lançamento do livro Horizontes Perdidos. Em busca do refúgio mágico, muitos encontraram este recanto tibetano, identificando-o como o local narrado na obra de James Hilton, pois lá encontraram todos os elementos descritos pelo autor na caracterização de seu Éden particular.
No ano de 2001 a capital de Diqing foi oficialmente baptizada de Shangri-la.

O sucesso desta história foi tão surpreendente, talvez por atender aos anseios de um mundo mergulhado em conflitos, guerras, miséria, abalado pela quebra da Bolsa de Nova York, desestabilizado política e militarmente. Este cenário deprimente encontrou na imagem de Shangri-la, com certeza, o Éden tão sonhado.

A repercussão foi tão intensa, que logo bandas musicais e grupos adeptos da Teosofia, bem como centros de lazer em toda a Ásia e a América adoptaram este nome para seus empreendimentos. O Ocidente foi invadido por filosofias, concepções, ideias religiosas, e outros elementos vindos do Oriente, justamente por influência desse mito.



Num cenário paradisíaco, localizado entre montanhas de gelo do Tibet, o escritor inglês James Hilton, nascido no dia 9 de Setembro de 1900, e morto em 20 de Dezembro de 1954, posicionou um grupo de pessoas das mais diversas nações, convivendo livremente, sem autoritarismo, comedidamente, com total equilíbrio.

Neste local ideal, a magia é fruto da coexistência pacífica, da igualdade entre as pessoas. 
Hilton levanta uma questão importante no seu livro: 
O homem está preparado para viver neste abrigo oculto? 
Ele já se encontra espiritualmente amadurecido para exercitar a paz e a fraternidade? 
Para abrir mão de suas ambições?

Shangri-la será sentido pelos visitantes ou como a promessa de um mundo novo possível, no qual alguns escolhem morar, ou como um lugar assustador e opressivo, do qual outros resolvem fugir.
O romance inspira as duas versões cinematográficas nas décadas seguintes.

No mundo ocidental, Shangri-la é entendido como um paraíso terrestre oculto.


Perdas



No mundo contemporâneo, os relacionamentos são menos definitivos e as separações ficaram tão quotidianas...
Mas ainda sempre muito dolorosas.
Diante da perda de algo ou alguém importante, é impossível não sentir que o “meu mundo caiu”.

E já que estamos a passar por uma epidemia de separações geradas pela crise mundial (perda de emprego, perda de bens, mudança de país, e separações amorosas propriamente ditas), talvez seja mesmo a hora de falarmos deste assunto indesejado.

Diante dos efeitos catastróficos de uma separação, é preciso ter também um lado prático.
Se o meu mundo caiu, como vou reconstruí-lo?  

Palestra de Flávio Gikovate no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 30 de setembro de 2009, em São Paulo.


                               


Um relacionamento afectivo não resolve os nossos problemas !!!
 ... algo que as mulheres ainda não assimilaram!!!

A vontade de paz e o desejo de viver



Que eu possa também abrir espaço para cultivar a todo instante as sementes do bem e da felicidade. Que a vida me ensine a amar cada vez mais, de um jeito mais leve.
Que o respeito comigo mesmo seja sempre obedecido com a paz de quem está se encontrando e se conhecendo com um coração maior.
Um encontro com a vontade de paz e o desejo de viver.

 | Caio Fernando Abreu |