quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Profissionais do protesto
Vivo num país com nove séculos de história, com genes espalhados pelos cinco continentes, origem de pelo menos cinco países que, mal ou bem, são viáveis e onde se caminha para a prosperidade. É um país onde os seus mais orgulhosos cidadãos vivem fora dele e, mesmo os de segunda e terceira geração, mantêm viva uma chama que, indo muito além da religião e dos costumes, é também um traço que os define. É um país que, muitas vezes, apenas quando se viaja para fora das suas fronteiras actuais se consegue ter noção da sua importância, ou verdadeira maneira de ser. Um país que ainda se diz de "bravos" e orgulhosos lusos, pelo menos para os que não tiveram o azar de se encontrar nele fisicamente, no presente.
Vem isto a propósito da acção do governo sobre alguns cidadãos, usando para o efeito outros cidadãos (polícias), para os oprimir e violentar. Mas vem também a propósito da indignação que gera ver quem exerce o seu direito constitucional de se revoltar contra um governo opressor, ser crucificado na opinião pública como vândalo. Algo que vai muito além do direito a se manifestar e que, quem escreveu a constituição em 1820, anteveu como uma possibilidade - o direito à defesa, recorrendo à força se necessário.
Extinguiram-se os reis, por vontade dúbia, e os seus assassinos não foram julgados. Fez-se uma revolução, com flores é certo, mas com armas por trás, e não se pôs em causa se esses militares eram criminosos. E depois vieram 30 anos de integração europeia em que os políticos, tanto à direita como à esquerda nos sucessivos governos, desbarataram subsídios europeus; desertificaram o interior; criaram parcerias com privados, danosas para o estado e contribuintes; fizeram aprovar leis e favoreceram empresas para depois irem trabalhar para as mesmas empresas beneficiadas; criaram institutos e fundações com isenção de impostos e subsídios públicos a amigos do mesmo partido; criaram coutadas municipais em que se perpetuaram esquemas e se eternizaram autarcas sem brio ou seriedade ao longo de décadas; criaram estranhas e incompatíveis associações entre poder político e bancos; bancos esses que fomentaram o crédito fácil para depois virem retirar o tapete debaixo dos pés a empresas e cidadãos, sem divisão do risco, mas sempre apresentando lucros; e etc que nunca mais acaba e não é sobre isso que quero escrever... Nunca ouvi dizer ou vi ser julgado nem um político ou um bancário que fosse! Estes não foram criminosos nem vândalos tão pouco...
Contudo, e depois disto tudo, pela primeira vez desde os tempos conturbados do pós-revolução (em que os ventos de leste varreram uns poucos de empresários do país tal o afã revolucionário dos ditos "trabalhadores") houve manifestações violentas em Portugal... "Só agora!" dirão estrangeiros e a grande maioria dos portugueses que vive fora da lusa terra. "Ai o que vão pensar de nós lá fora!" e "Só pode ser acção de meia dúzia de profissionais do protesto" dirá o subserviente povo.
A polícia interviu, depois de muita paciência e de suportar arremesso de objectos durante uma hora, avisando tenuamente, sem que nenhum dos manifestantes os tenham ouvido, que deveriam dispersar... até aí tudo bem. Depois avançou em bloco e tomou conta da praça de São Bento... até aí tudo bem. Mas continuou depois pelas ruas circundantes agredindo velhos, jovens, crianças, mulheres e até moradores que tentavam entrar em casa, ou estudantes à porta da faculdade... e aí é que está tudo mal.
Nunca terá sido visto em Espanha (os polícias tomaram à força a Plaza del sol mas depois deixaram-se ficar) nem na Grécia, onde as manifestações são muito mais violentas e os manifestantes usam armas e bombas artesanais (em vez de pedras da calçada), se viu continuar a perseguir cidadãos pelas ruas durante quase dois quilómetros. Foram detidas 9 pessoas, desses um menor e um homem de 65 anos. Diria qualquer um: "Mas haviam muitos mais "profissionais do protestos", vândalos que só querem perturbar a ordem pública!". Ai haviam?!! então como é que se bate em 300 pessoas para deter apenas 9... nove desgraçados, que provavelmente a única falha será julgarem e acreditarem estar a lutar pelo seu país e por todos nós. Imagino o homem de 65 anos, um dos 9 detidos: provavelmente lutou pelo seu país em África, e imagino que para um ex-militar não deva ser fácil ficar de braços caídos; provavelmente trabalhou a vida inteira, para suportar ver polícias de bastão a agredir mulheres e crianças, sem lutar também até ao limite das suas forças... e agora está preso - esse perigoso terrorista!!
Pergunto-me: se era para deterem nove indivíduos, os polícias à paisana não poderiam tê-los detido cirurgicamente um a um, em vez de carregarem sobre uma multidão indefesa e onde se encontravam maioritariamente inocentes?
Quando se viram os efeitos e o vandalismo que a acção policial acabou por provocar, entendeu-se de acusar os manifestantes e ter um bode expiatório para todos os males do país. Já não se pôs em causa a proporcionalidade das forças e a insensatez de perseguir pessoas indiscrimidamente pela rua. É que, veja-se por onde vir, uma operação que carrega sobre e fere 300 portugueses, para apenas deter 9 dos alegados "profissionais do protesto" é um grande fiasco. Em que país de portugueses, se pode considerar esta intervenção um sucesso?!! Onde? Isto já não é Portugal...
E depois a opinião pública, a politicamente correcta, que não quer ou se recusa a pensar por si própria, seguiu o exemplo do nosso infeliz presidente da republica (que de responsável tem apenas o facto de nos últimos 26 anos, ter estado durante 15 deles em posições máximas da nossa democracia) que afirmou não ter visto as imagens, mas que de certeza a actuação da "nossa polícia" teria sido adequada e exemplar... Sim, estão a ler bem, o nosso responsável máximo não viu as imagens de cidadãos do seu país a serem agredidos e a derramarem sangue, mas tem uma opinião!! Além de que, fora todas as outras gaffes, afirma ainda ter trabalhado no dia de greve, o que denota o carácter inédito de tal acção na sua vida e dá razão a quem o acusava de estar calado e nada fazer há mais de dois meses em defesa do povo que o elegeu - nem ao menos aquelas meias-palavras sem significado ou acção prática. Mas dizer que não viu e acha muito bem, bate todas as expectativas de bom senso e insulto à inteligência até...
Entristece-me mais que tudo verificar que um povo, facilmente manipulável e influenciável, é incapaz de ver que o caminho que nos indicam não está certo e que a violência que praticam contra nós, desembocará em maior violência no futuro. Não apenas a meia dúzia de "profissionais do protesto" mas todos aqueles que dos seus "tronos de comodidade" apontam o dedo por agora - enquanto não lhes chega a eles e enquanto o maior sacrifício que tiveram de fazer foi cancelar a inscrição no ginásio.
Em relação aos políticos, da direita à esquerda, e a todos os verdadeiros profissionais da desordem que nos trouxeram ao ponto em que nos encontramos e agora são os primeiros a dizer que vivemos acima das nossas possibilidades (quando estão no poder) ou que somos umas vítimas (quando estão na oposição), serão os primeiros a aclamar os "heróis do povo" no dia em que a barreira da polícia caia, ou se junte ao outro lado da barricada... espero que aí estejamos atentos e, na hora de formar novos líderes, saibamos não cometer os mesmo erros que cometemos há já 36 anos.
Élvio Pestana
Tribo Africana
Há uma tribo africana que tem um costume muito bonito.
Quando alguém faz algo prejudicial e errado, eles levam a pessoa para o centro da aldeia e toda a tribo vem e coloca-se ao seu redor. Durante dois dias, dizem ao homem todas as coisas boas que ele já fez.
A tribo acredita que cada ser humano vem ao mundo como um ser bom, cada um de nós desejando segurança, amor, paz, felicidade.
Mas às vezes, na busca dessas coisas, as pessoas cometem erros. A comunidade detecta esses erros como um grito de socorro.
Então, todos se unem para erguer o homem que vacilou, para reconectá-lo com sua verdadeira natureza, para lembrá-lo quem ele realmente é, até que se lembre totalmente da verdade da qual se tinha desconectado temporariamente: "Eu sou bom".
Sawabona Shikoba!
Sawabona é um cumprimento usado na África do Sul e quer dizer:
"Eu respeito-te, eu valorizo-te, tu és importante para mim".
Em resposta as pessoas dizem Shikoba, que é:
"Então, eu existo para ti".
As pessoas a quem podia ter acontecido
Não tenho a menor dúvida de que só existem dois tipos de pessoas: as pessoas que acontecem e as pessoas a quem podia ter acontecido.
E se me permitem, vou começar por estas últimas.
As pessoas a quem podia ter acontecido são normalmente as mesmas pessoas que podiam ter dito e que podiam ter feito e que podiam ter vencido e alcançado e vencido, no fundo que podiam ter subido, no fundo, que podiam ter sido.
E mesmo quando não são, dão-se muitíssimo bem.
Pelo contrário, já as pessoas a quem acontece, são pessoas complexas e naturalmente complicadas.
E porquê?
Porque são pessoas que realmente fazem – e isto como se vê começa logo mal – e mais: são pessoas que dizem, imaginem isto?
Que vencem, que alcançam por Deus?
Que em vez de optarem inteligentemente por poderem ter sido, são de facto.
E ser de facto, não é tão bom como parece: porque só o facto de se ser, de existir, faz com que logo à partida possamos ganhar ou perder.
E num caso ou noutro, vos garanto que nunca será consensual.
Daí que o melhor que nos pode acontecer é sermos alguém a quem poderia ter acontecido.
Mas para isso, é necessário sermos abençoados.
E isso não está ao alcance de todos.
As pessoas a quem podia ter acontecido são maravilhosas e podem ser quem quiserem. Podem ganhar o prémio nobel, a lotaria de natal, o euromilhões, podem ser de uma inteligência superior mas nunca compreendida, claramente a pessoa mais bonita que o mundo viu, a mais poderosa que conheceu.
As pessoas que podiam ter acontecido têm sempre razão, podem ter tudo o que querem, alcançar tudo o que perseguem, porque ao não acontecermos, a verdade, podemos ser quem quisermos.
Acontecer é porno, poder ter acontecido, é erotismo.
Acontecer é prisão, é pulseira eléctrica, poder ter acontecido é saltos em campos verdejantes, é nudismo na praia 19.
Daí que não só é mais fácil ser uma pessoa a quem podia ter acontecido, como é seguramente muito melhor.
Porque embora nada aconteça, aí podermos ser tudo.
E ao acontecermos, podemos não vir a ser nada.
Fernando Alvim
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
CARTA AO RESSABIADO
Meats Meier
O ressabiado é o labrego do invejoso. O parolo do ciumento. O azeiteiro dos ambiciosos. O lagareiro dos egoístas. O ressabiado é o invejoso com tuning, o ciumento com faróis xénon azuis, o ambicioso com spoilers e ailerons (ler “eilerons”, por favor) à toda à volta, o egoísta com quatro abufadeiras duplas. O ressabiado é aquele gajo que tem, dentro de si, todo o combustível necessário para chegar longe e fazer algo de profícuo – mas que prefere, por ser azeiteiro e parolo e labrego, beber essa gasolina. E ficar, claro está (porque um azeiteiro bêbedo é, para além de um azeiteiro, um bêbedo), ainda mais azeiteiro e parolo e labrego. Que tristeza.
O sol, quando nasce, é para todos. E as minhas letras também. O ressabiado, porque é, parecendo que não, um ser humano como os outros, também é filho (para além de filho disso que estás a pensar e que acaba em –uta) de Deus. Toma lá então esta, meu chungoso.
É para ti, nobre ressabiado, que escrevo. Sim: para ti. Para ti que perdes tempo (e isto sim é perder tempo: atirar, literalmente, tempo ao lixo) a ter inveja da inútil, da que nada (para além de sebo) produz. Para ti que perdes tempo a querer ficar da altura dos que invejas – mas que usas, para isso, a ordinária táctica de rebaixar os outros (ao invés de preferires, como todos os que não são ressabiados sabem, a bem mais interessante táctica de quereres, tu, em ti, erguer-te). Este texto é para ti, meu grande pequerrucho – que acreditas que ser grande é estar, mesmo que por instantes, à altura dos grandes. Mas não, meu pacóvio: o grande, mesmo que por vezes esteja à tua altura, só o está nos instantes em que, como todas as pessoas, precisa de se dobrar um pouquinho para defecar. É facto: os grandes também cagam como os outros. É uma pena que tenha de ser, porque tu insistes em estar lá, no chão, a rastejar, em cima de ti. Vai-te lavar, ó saloio.
Não tenho de evitar (porque haveria de não o evitar?) dizê-lo com todas as letras: sou invejado. Sou invejado por muitas. E sobretudo por muitos. E isso nada teria de negativo se esses muitos que me invejam fizessem dessa inveja algo de interessante: se esses muitos, roídos de inveja, se roessem todos para fazer melhor do que eu. Para fazerem do que eu faço quase nada face àquilo que eles fazem. Aí sim: estariam a ser verdadeiramente invejosos; aí sim: estariam a sentir a inveja que vale a pena: a inveja saudável. A inveja que faz andar o mundo. Esses invejosos, que passam os dias a pensar como me conseguirão penetrar com toda a potência à traição e pelas costas, seriam invejosos saudáveis se passassem o tempo a quererem que fosse eu a sentir inveja deles. Do que eles são, do que eles fazem. Mas não. Não é isso que eles fazem. Ressabiados.
Lê com atenção, ó ressabiado: estas palavras (irrepreensivelmente escritas - há que dizê-lo para, desde já, começares a ficar ainda mais ressabiado) são feitas à tua medida: para me invejares como deve ser. Para me invejares com motivo, com força, com intensidade. Para me invejares com propriedade. Já que me invejas, e te ressabias com essa inveja, é bom que tenhas matéria-prima a sério. Embrulha lá mais estes argumentos.
Sou um gajo feliz. Faço aquilo que quero fazer, aquilo que sempre quis fazer. E faço-o bem. Faço-o muito bem. Faço-o bem comó catano. Escrevo, ensino a escrever. Vivo, ensino a viver. Rio, ensino a rir. E sorrio e ensino a sorrir, e também canto e danço e peço a alguém que me ensine a cantar e a dançar (mesmo que não cantar nem dançar nada de jeito não me impeça de ser feliz assim: a cantar; todos os dias a dançar e a cantar: todos os dias a dançar-me e a cantar-me). Fiz dos sonhos realidade, das intenções realizações, do que os olhos olharam o que as mãos tocaram. E há mais: amo e sou amado até à pura da demência, amo e sou amado até à mais intensa das intensidades. E tenho uma família linda: de cima a baixo, de dentro a fora: linda. Absolutamente linda. Perfeitamente linda. E depois. E depois há aquilo que, tenho a certeza, te vai deixar ficar no pico do ressabiamento (até já esfrego as mãos só de imaginar a tua carita de fracassado crónico): para além disso tudo, para além de ter cérebro e escrever e ensinar a escrever e ter amor e paixão e tesão e uma família linda de dentro a fora, de cima a baixo, sou um gajo giro. Yep: um gajo atraente. Um gajo bonito. Só mais uma vez para não teres de ser internado por excesso de ressabiamento: um gajo com bom aspecto: um gajo desejável. Eu sei que era desejável não to dizer assim, de forma aberta. Eu sei que não me fica bem dizer isto – mesmo que o sinta. Mas o que fica bem que vá para o baralho. Eu atiro-te com isto, mais uma vez, à cara (a essa cara que, Deus te ajude, nunca recebeu elogios de um espelho): eu sou um gajo que recebe mais mensagens de elogio e de amor e de pulsão e de desejão por dia do que tu, algum dia, receberás na tua vida inteira. É doloroso, não é? Vá, limpa as lágrimas e anda daí para o último parágrafo. Labrego.
Hoje decidi dar-te motivos para seres ressabiado. Hoje decidi dizer-te que tens todos os fundamentos para me invejar. Tenho a vida que provavelmente queres, o talento que não tens (ou tens e preferes gastar a gastar o meu), a respiração tranquila e pacífica que não consegues ter. Tenho a plena convicção de que a minha vida vale a pena. A minha vida. Ele em ela. Ela em eu. Ela sem precisar da tua ou da de outros como tu. E é essa a verdade que tens de encarar (para transformares o ressabiamento em monumento: o teu monumento, saído de ti e não do não-outros): tens de ser pró-tu – e não, aprende lá isto por favor, o anti-outros. Tens de ser a favor de ti. Sem pensar em matar os outros para te fazeres viver. Sem precisares de apertar o pescoço dos outros para tirares o teu pescoço do cepo. Tens de ser invejoso, sim; tens de ser ciumento, sim; tens de ser ambicioso, sim; tens de ser egoísta, sim. Tens de ser essa merda toda que só é negativa se tudo isso se transformar em não fazer – ao invés de se transformar em só fazer. A inveja e o ciúme e a ambição e o egoísmo só são maus quando se lida mal com eles – quando são transformados, todos eles, em reles ressabiamento. Eu quero, e gosto, que tenhas inveja de mim. Dei-te motivos para isso – muitos e variados. Eu próprio, se estivesse no teu lugar, tinha inveja de mim. Chamava-me cabrão, dizia que eu era uma bosta e que nada tenho de especial. Mas eu, se estivesse no teu lugar, só perdia uns segundos a pensar e a dizer isso. Depois, logo a seguir a esses segundos, deixaria de dizer e pensar isso e passaria a tentar ficar eu do lado de cá: do lado que se é motivo de inveja e não invejoso. Do lado que é água que cai na fonte e não a fonte onde cai a água. Eu, se fosse invejoso, já não estava a ler este texto e a sentir-me ressabiado por não ter sido eu a escrevê-lo e a senti-lo. Eu, se fosse invejoso, já não estava ressabiado. Mas eu, se fosse tu, já não tinha motivos, sequer, para estar ressabiado. Porque eu, bem vistas as coisas, vou ser sempre eu: o cabrão que tem todos os motivos, e acabou de to esfregar na cara, para fazer da vida uma festa. Uma festa de sentidos: uma festa com todo o sentido. E tu: vais fazer fazer algo de útil com isso que sentes – ou vais preferir despejar a bílis a falar mal de mim? Pois. Temos pena.
in "EU SOU DEUS"
Pedro Chagas Freitas
.........qualquer coisa
”Qualquer coisa que o perturba é para ensinar-lhe a paciência.
Qualquer um que o abandona é para ensiná-lo a levantar-se em seus próprios dois pés.
Qualquer coisa que o irrita é para ensinar-lhe perdão e compaixão.
Qualquer coisa que tenha poder sobre você é para ensiná-lo a tomar o seu poder de volta.
Qualquer coisa que você odeia é para ensinar-lhe o amor incondicional.
Qualquer coisa que você teme é para ensinar-lhe coragem para superar seu medo.
Qualquer coisa que você não possa controlar é para ensiná-lo a deixar ir e confiar no Universo.”
Sexo, orgasmo e Jasmim
Com nosso coração aberto e com a mente vazia entendemos a energia sexual de outra forma.
Passa a não ser mais cabível a possibilidade de trocar energia sexual com outra pessoa fora das vias do puro amor.
Abandonando de vez impuros desejos e o amor distorcido, nós penetramos na senda Divina.
Isso acontece naturalmente quando deixamos de desejar esses tipos de relacionamentos, quando deixamos de sentir fome de desejos inferiores, quando nosso paladar anseia por um gosto mais puro e inocente, porém apaixonado e cheio de ‘tesão’ superior.
Nestes estágios o espírito fala em alto e bom som: ‘AMOR’, e não conseguimos mais entregar-nos a relações vazias de sentimento e por impulso unicamente carnal.
O corpo ouve os carinhosos sussuros vindos de uma voz calma que fala em seu interior, e nós atendemos às necessidades do espírito tal qual um botão de jasmim desabrocha ao receber luz.
Contenta-se e satisfaz-se em sentir o aroma da pureza em sua aura, tal aroma lhe representa imenso prazer.
Em cada inspiração, envolvem-se da subtileza do Jasmim.
Ele e Ela.
in,Wakura
Dani Rossi
domingo, 16 de dezembro de 2012
O Passado e como Limpar o Karma
O passado.
Esse grande monstro chamado passado.
As pessoas acham que tudo o que aconteceu na sua vida e na vida das outras pessoas, tudo o que já passou, está enterrado.
Não se pensa mais nisso.
Não se ressuscita, não se vai buscar.
Ninguém quer sofrer duas vezes.
Acham que o que lá vai, lá vai, e não repensam no que passou.
Mas não percebem que iriam repensar no que passou com a mente esclarecida de hoje, uma mente já não egóica, uma mente não comprometida com a ilusão que o ego monta para evitar o sofrimento.
E o que é que acontece?
Como não se vai lá, como não se vai às situações do passado que nos fizeram sofrer, a opinião que hoje tens delas é a mesma que a tua mente de então tinha, pois não foi reciclada pela tua nova espiritualidade. Resultado: o ego está lá, pronto a saltar. Enxovalhado, rejeitado, traído. Não está reciclado nem transformado em alma, que é o que eu proponho.
Vai ao passado.
Vai ao que viveste, situação a situação, e revive-a, sofre-a outra vez, mas reenergiza-te com o amor incondicional que recebes cá de cima, enche cada situação de luz, enche-te - naquela época, com aquela imagem, com aquela roupa - de luz.
E tudo se irá diluir em luz.
Irás colocar uma nova energia no teu passado, e ele, por sua vez, nunca mais te irá surpreender com a sua força traumática e traumatizante.
A isso chama-se limpar o karma.
O karma desta vida.
in,O Passado e como Limpar o Karma
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
A Inveja
Vamos falar sobre uma coisa muito comum e cujos efeitos todos conhecem: a inveja. Ela resulta da mistura do pensamento e do sentimento mesquinho de alguém que não se contenta com o que possui e fica desejando o que não lhe pertence.
Mas como combater as cargas de energia negativa que o invejoso lança sobre nós? Gerando forças positivas, magnetismo de elevado teor.
Quando vibramos numa freqüência de elevado teor, estamos criando em torno de nós uma aura capaz de nos defender não só da inveja mas também de outros malefícios. É uma energia que geramos através da nossa vivência fraterna e pelo cultivo dos valores do otimismo, da confiança, da fé, e de todas aquelas virtudes que o Cristo ensinou. Uma vontade positiva e forte também é fundamental para nossa defesa.
Nossos sentimentos, pensamentos e emoções são forças vivas que geramos e que passam a circular em nosso sistema energético extrapolando-o e formando em toro de nós um campo, ou aura, que até pode ser fotografada. E foram os cientistas ex-soviéticos que descobriram isto. A aura do corpo bioplásmico (energético ou vital) é fotografável e pode ser observada em seus detalhes, com toda a sua exuberância de cores, através do processo kirlian.
Alguns pesquisadores fotografaram a aura antes, durante e após o "passe" e puderam constatar fotograficamente a transfusão energética de uma pessoa para outra.
A pessoas otimistas, dinâmicas, confiantes, são muito menos afetadas pela inveja, pelas obsessões, os "trabalhos de Terreiro". as más vibrações, o ódio etc. Mas as pessoas pessimistas, que estão sempre vendo desgraças em toda parte, que vivem a se queixar de tudo, são bem mais frágeis diante das agressões mentais ou astrais.
Isto acontece porque as Leis do Universo foram elaboradas visando nossa evolução e crescimento interior, e, é justamente nesse labor que empregamos para vencer as dificuldades e os embaraços da vida, que evoluímos. Os problemas e a luta pela sobrevivência nos dão experiência e capacidade e nesse esforço adquirimos competência, aptidões, força interior, paciência e demais valores.
O nosso mundo íntimo, ambiente da alma, nossa mente, nossa consciência em seus diversos níveis é nutrido pelas forças divinas, pelo fluido cósmico, pelo amor universal. E conforme crescemos em nossas capacidades relativas à vivência material, não podemos nos descuidar do crescimento espiritual, para que não ocorra desequilíbrio evolutivo. Isto porque, se crescemos em capacidades terrenas e intelectuais, mas estacionamos no desenvolvimento das qualidades divinas, nosso psiquismo acaba por se desarmonizar.
É por isso que Deus permite haja tanta inveja na Terra, tanta obsessão, tanta perseguição espiritual. Essas forças negativas representam na verdade chamamentos, para que nos lembremos de desenvolver também os valores espirituais.
As pessoas que vivenciam o desamor, a violência, a desonestidade, a imoralidade, a ganância e outros assemelhados, estão criando vínculos com as sombras, com as forças negativas e ficam, por isso, mais sujeitas à desarmonia interior. Mas as que procuram vivenciar as virtudes da Espiritualidade estão começando a construir as melhores condições de defesa contra a inveja e demais energias negativas que possa, ser lançadas sobre elas.
"Desfrutar os bons momentos, falar neles, contá-los a outras pessoas, relembrá-los equivale a gerar "memória" positiva, antidepressiva.
Quanto aos sofrimentos, problemas ou dificuldades não se prenda a eles, não os prenda a si.
Tente resolvê-los da melhor maneira, mas não permita que eles grudem em você.
Procure sorrir sempre e passar para os outros vibração optimista para que eles se contagiem e a devolvam a você, ajudando-o a manter um estado de espírito positivo."
in, "Nós e o Mundo Espiritual"
Saara Nousiainen
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Siglo XXl
Vivimos en un mundo de apariencias
donde poco a poco perdemos
nuestra verdadera identidad
ya no sabemos que creer , ni siquiera que pensar.
Nos encerramos en opiniones absurdas
de gente que no conoce una realidad
donde aportan cosas inservibles , nada que pueda ayudar
nos quejamos de la mentira , pero seguimos el lema de la falsedad
Somos incapaces de darnos a conocer,
el miedo a la diferencia y alabanza a la uniformidad
los mas cuerdos en el mundo
han sido llamados locos por los que ignoran la verdad
nos aterra lo nuevo
nos absorbe lo común ... la sociedad
nos asustamos al ver como es el mundo
pero somos indiferentes ante lo que ocurre con la humanidad.
Quiero ser parte del cambio,
Y Cada dia somo más.
Esta en nuestras manos
mejorar esta realidad.
Alma Pérez
Paciência e Tolerância
"Como a paciência e a tolerância derivam de uma capacidade de permanecer firme e inabalável,
de não se deixar sufocar pelas situações ou condições adversas,
não se deve considerá-las sinal de fraqueza.
Ao contrário, é um sinal de força,
vindo de uma profunda capacidade de permanecer firme e inabalável."
de não se deixar sufocar pelas situações ou condições adversas,
não se deve considerá-las sinal de fraqueza.
Ao contrário, é um sinal de força,
vindo de uma profunda capacidade de permanecer firme e inabalável."
Dalai Lama
Quando atinges a iluminação não te tornas numa nova pessoa.
Na verdade, não ganhas nada, apenas perdes algo: te desprendes das tuas correntes, das tuas amarras, deixas para trás o teu sofrimento.
A iluminação é um processo de perda.
Como um escultor que remove a pedra para revelar a sua obra.
Quando não há mais nada a perder, esse estado é o nirvana.
Esse estado de completo silêncio pode ser chamado de iluminação.
nota: ontem, publiquei aqui um vídeo de Eckhart Tolle, onde ele explica como lhe aconteceu, por acidente, isto mesmo.
Ele explica que o Despertar não é ganhar, mas sim perder!
Faz pensar...
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Já me enganei...
"Já me enganei sobre muitas pessoas e também me enganei sobre mim mesma.
Já disse nunca mais e fiz tudo de novo.
Já pensei que fosse para sempre e nem percebi quando acabou.
Sim, errei muito e erro sempre.
Machuco quem não deveria e me decepciono com aqueles que eu mais amo.
Já escrevi e não mandei, já disse 'amo-te' quando deveria dizer ‘quero-te bem’ e já quis dizer 'amo-te' e no lugar disse apenas ‘eu gosto de ti’.
Sinto falta até mesmo de quem está perto de mim.
Posso amar sem ser notada, posso morrer de ciúmes e mesmo assim conseguir sorrir, posso esquecer quem me deixou triste;
Mas não esqueço jamais de quem me fez feliz."
Raiane Fernandes
Gosto de pensar assim...
"Gosto de pensar assim...
se nós fazemos o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica.
Por isso, faço a minha sorte. Sou fiel ao que sinto. Aceito feliz quem eu sou. Não acho graça em quem não acha graça. Acho chato quem não se contradiz.
Às vezes desejo mal. Sou humana. Sou quase normal. Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteiro.
Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar.
Acho bonito quem tem orgulho de ser gente. Porque não é nada fácil, eu sei. Por isso continuo princesa. Continuo guerreira. Continuo na lua. Continuo na luta. No meio do caos que anda o mundo, ACEITAR É SER FELIZ.
Fernanda Mello
"Gosto de pensar assim...
se nós fazemos o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica.
Por isso, faço a minha sorte. Sou fiel ao que sinto. Aceito feliz quem eu sou. Não acho graça em quem não acha graça. Acho chato quem não se contradiz.
Às vezes desejo mal. Sou humana. Sou quase normal. Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteiro.
Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar.
Acho bonito quem tem orgulho de ser gente. Porque não é nada fácil, eu sei. Por isso continuo princesa. Continuo guerreira. Continuo na lua. Continuo na luta. No meio do caos que anda o mundo, ACEITAR É SER FELIZ.
Fernanda Mello
A Náusea (Jean-Paul Sartre)
“Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Então é isso a Náusea: essa evidencia ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… e subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi.
A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.”
Introdução
Em "A Náusea", Sartre mostra-nos Antoine Roquentin, um historiador letrado e viajado, que chega à cidade de Bouville ("boul" indicando "lama" e metaforicamente "impureza") para escrever a biografia do marquês de Rollebon, figura pitoresca e de excentricidade fascinante, que vivera na cidade durante o século XVIII. Ao iniciar logo se desencanta de forma irreversível não só pela biografia, como também pela própria sociedade e condições humanas com as quais se depara em Bouville.
Roquentin é, então, acometido por uma estranha sensação de aversão ao ser humano e sua condição existencial - a "náusea".
Cercada de um niilismo exacerbado e elucubrações de alta profundidade intelectual, "A Náusea" nos mostra um protagonista despadronizado e repelido pelas próprias contestações que faz a respeito da existência e sua falta de sentido, ou seja, a respeito da gratuidade e ilogicidade da existência, por si só desprovida de essência. Trata-se, portanto, da saga de um personagem conturbado e por vezes beirando a loucura, tal é a nudez existencial a que ele se expõe.
Mecanismos de busca essencial
Para Antoine Roquentin a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Decorre dessa falta de essência verdadeira uma busca de cada ser humano por sua essência artificial e iludida, havendo, para esse fim, uma série de mecanismos que tornam a existência mais suportável.
Um desses mecanismos próprios de cada um é o que ele chama de "captura do tempo". Trata-se de uma organização memorial para tornar pequenos fatos, simples existências, marcos de um sentimento aventureiro, fazendo desse "grande" facto um polarizador atractivo dos fatos precedentes, como se esses tivessem levado ao grande fim. Dessa forma, organiza-se a memória humana a partir de fins, na ordem inversa. Esse mecanismo é apontado por Roquentin como uma poderosa instrumentação da mentira, a qual ele mesmo usou sem se dar conta, num ato involuntário de sua própria condição de homem.
Outro mecanismo elucidado pelo protagonista é o mundo do conhecimento e das ciências, criado pelas "grandes mentes" ainda presas em sua busca essencial. Esse mundo, que trata da origem das espécies, da conservação da energia no universo e chega a conferir uma essência "preguiçosa" até às janelas, "com seu índice de refração", é ilusório e torna o ser humano um conhecedor de seu mundo, um dominador de si mesmo e dos outros, num processo de profunda ilusão. Fazendo uma analogia à alegoria da caverna, de Platão, o homem imagina-se conhecedor de todo um universo, enquanto, na verdade, busca conhecer minuciosamente cada parte (por menor que seja) de sua caverna, sem jamais vislumbrar seu exterior. É mais um engano, sadio para a manutenção da existência.
Um outro mecanismo apontado é o de ordenamento das glórias passadistas pela burguesia acrítica e inábil para a contestação meditativa. Assim, glórias de outras gerações, baseadas no capital e no valor epidérmico do mundo, são relembradas de forma a conferir uma essência, uma lógica, à existência dos burgueses do presente. Esse mecanismo detestável a Roquentin lhe rouba críticas muito contundentes, chamando de "salafrários" a todos os burgueses de Bouville, constituintes desse espécime humano alienado.
Dialogando com Descartes
Da célebre frase "Penso, logo existo", Sartre, pela voz de Antoine Roquentin, faz um aprofundamento filosófico bem à maneira do Existencialismo, do qual Sartre é figura proeminente. Assim, para o protagonista, a consciência da existência, o sentir-se existir, advém do fato do pensamento, ou seja, à medida que se pensa, sente-se existir. Essa consciência é algo horrível para Roquentin e torna-se ainda pior quando ele constata que a única forma para fugir à existência é fugir ao pensamento. Mas nos perguntamos: como fugir ao pensamento se a necessidade de fuga já é um pensamento, que, como qualquer outro, nos reconduz à existência? Estamos presos, portanto, à existência, pois o caminho do pensamento e a chegada ao sentimento de existir são indesvencilháveis. Eis aí uma bela explicação à referida "náusea", que intitula a obra, pois quem suportaria estar perfeitamente cônscio de sua prisão sem, ao menos, sentir-se "nauseado"?
Humanismo x Existencialismo
Uma das únicas personagens com quem Antoine Roquentin se relaciona no livro é o Autodidata, um humanista ferrenho que aprendeu grande parte de seu vário conhecimento nos livros da biblioteca municipal, onde trabalha. De orientação filosófica bastante adversa à de Roquentin, ele representa uma personificação do Humanismo. Resulta dos encontros dos dois na biblioteca uma série de discussões de alta profundidade intelectual, num gládio de alto nível entre as duas posturas - a do Humanismo (representada pelo Autodidata, credor das capacidades humanas diferenciais) e a do Existencialismo (representada por Roquentin, niilista, misantrópica e repleta de meditações pessimistas). Após discussões severas, o protagonista Roquentin chega, entretanto, à conclusão de que não vale mais a pena discutir, pois a mente do Autodidata definitivamente não está preparada nem disposta a ouvir seus intricados conceitos, os quais seriam a perdição absoluta de qualquer humanista. Um episódio bastante interessante a ser citado e que ocorre durante um dos encontros dos dois na biblioteca municipal é a morte de uma mosca, esmagada por Roquentin em frente ao Autodidata. Ignorando os pedidos do bibliotecário, Roquentin esmaga a mosca e declara consternado: "Simplesmente libertei-a de sua existência, era um favor a prestar a ela!". É, sem dúvida, um episódio que deixa bem clara a melancolia advinda do existencialismo sartriano.
Música e Existencialismo
Logo no início da obra, Roquentin é bruscamente retirado de sua incessante náusea por uma composição jazzística de nome "Some of These Days". A princípio, essa correlação entre alívio e música é bastante misteriosa para o protagonista, mas, aos poucos, ele acaba por entender sua razão. Depois, analisando a atitude daqueles que ele chama de "imbecis", ou seja, aqueles que vão às salas de concertos buscando o esquecimento dos problemas ou aqueles que buscam superar suas crises com os "Prelúdios de Chopin", Roquentin conclui que essas pessoas tentam se deixar tocar pela música, como se essa fosse capaz de penetrar os poros do corpo e os vazios da mente, provocando uma mudança de sensações. Na verdade, isso pode ser apontado como mais um mecanismo de esquiva da existência penosa e intratável, de forma que, ao invés de sofrer pura e simplesmente, cada ser humano busca um sofrimento ritmado, melódico, ou como o próprio Roquentin infere: "É preciso sofrer em compasso". Ele vê-se, portanto, inserido nesse contexto de humanidade, tendo sofrido do mesmo engano que qualquer outro ser humano sofre, ao deixar-se invadir pela música tantas vezes citada "Some of These Days".
A verdadeira existência
Ao final da obra, após ter reencontrado sua mulher Anny, pela qual ainda pensava nutrir fortes sentimentos, Antoine Roquentin descobre que já não havia entre eles mais nada, exceto a simples repugnância entre quaisquer duas existências, o que o abala extremamente e o leva e abandonar Bouville definitivamente. Antes de partir, entretanto, ele termina por fazer suas reflexões mais escaldantes de toda a obra. Usando de sua ampla visão e conhecimentos, ele divaga sobre o que é a existência definitiva e as relações entre as existências simplórias que encontramos por toda parte, sempre à espreita.
Para ele, por exemplo, a idéia da existência de uma árvore passa a ser gratuita e absurda como qualquer outra existência e o absurdo reside no próprio fato de se existir, isto é, torna-se um absurdo à medida que se existe, pois a existência é desprovida de uma lógica que a fundamente. Já no campo da matemática, uma circunferência encontra em si mesma uma lógica definida e clara - o giro completo de um segmento de reta lhe confere seu fundamento. Logo, o que existe é absurdo exatamente pelo fato de existir e deixa-se o absurdo à medida que se deixa a existência. Também o tempo é visto de uma forma intrigante, sendo nada mais nada menos que a nossa percepção sensitiva da mudança entre duas existências. O tempo, pouco conceituável fisicamente, torna-se filosoficamente algo de simplicidade interessante - entre duas existências e uma observação externa, configura-se a noção de tempo.
Para selar o pessimismo que é detonado a cada página, Roquentin diz ainda que, algum dia, ele vai esbarrar nas ruas com homens cujas línguas estejam transformadas em lacraias e suas feições completamente animalizadas, pois, em sua visão, a igualdade de todas as existências poderia tornar os homens cada vez mais "existentes", simplesmente "existentes", como as próprias lacraias o são. O marquês de Rollebon, origem de sua vinda a Bouville, tornara-se, para ele, uma simples fuga de si mesmo, um homem buscando abandonar sua existência e mergulhar na de outro, numa tentativa naturalmente frustrada. Uma das últimas coisas que ele faz em Bouville, antes de tomar seu trem, é sentar-se num banco e observar as existências que o rodeiam, seja a de um lago, a de uma árvore ou a de cada pessoa que ele observa.
Devemos ter em vista, ainda, que "A Náusea" é uma obra que cresceu numa mente inquieta e repleta de conceitos complicadíssimos e, até certo ponto, chocantes - a mente de Sartre. Cresceu também num solo fértil para tais contestações existenciais - um palco beligerante que encaminhava a Segunda Guerra Mundial (iniciada em 1939, um ano após a publicação da obra). Inegavelmente, a obra traz conceitos revolucionários e dissonantes de qualquer forma filosófica precedente, sendo amada por uns e renegada por outros, sem, todavia, perder sua importância no cenário da filosofia do século XX.
Marcelo Sobrinho Mendonça
náusea...de Sartre
É curioso, mas todas as pessoas que já tinham lido "A Náusea", de Sartre,quando lhes dizia que o ia ler, aconselhavam-me: “toma cuidado, que esse livro vai-te fazer mal”. Entretanto, teimosa e curiosa que sou, não podia crer que um livro fosse capaz, novamente, de levar-me à tristeza e à revolta.
Ledo engano: após mergulhar nas páginas do livro, de facto, constatei que A Náusea é um livro denso, frio, nu. Melancólico. Nebuloso.
Sartre cruelmente nos pega pela mão e convida-nos a viajar no pensamento de Antoine de Roquetin. Se em determinados momentos ele toma a corajosa decisão de soltar um pouco o leitor para que ele caminhe sozinho , em outros, de maior número, chegamos mesmo a perder a nossa personalidade, tornando-nos, simplesmente, Roquentin.
Sartre relata a angústia não sem fazer com que nós, leitores, nos sintamos também amargurados.
Debate entre existencialismo (Antoine de Roquentin, o niilista, misantropo, pessimista) e o humanismo (personificado no Autodidata, um entuasiasta da Humanidade).
Mas não só: o interesse maior, aqui, é nos pormenores do ser humano urbano, a percepção frente à realidade, no vazio da existência em si.
Menos como Romance, mais como Filosofia em prosa, achei a obra estupenda.
A Náusea
"Algo me aconteceu, não posso continuar duvidando.
Veio como uma doença, não como uma certeza ordinária nem como uma evidência.
Instalou- se pouco a pouco, eu me senti estranho, algo incomodado, nada mais (…).
E agora cresce."
in,“A náusea”, p. 17
Jean- Paul Sartre ( Paris, 21/06/1905 – Paris, 15/ 04/ 1980) existencialista e marxista- humanista (correntes de pensamento que também sou simpatizante) marido da filósofa Simone de Beauvoir.
Não sabemos se Sartre escreveu “A náusea” sob o efeito de algum alucinogéno, mas o facto é que o livro é impressionante. Impressiona por causa das perfeitas descrições do personagem Antoine Roquentin passando mal, são vertiginosas. Roquentin, um escritor de 30 anos, depois de viajar muito pelo mundo, decide morar na cidade (imaginária) de Bouville, de repente começa a sentir- se estranho e começa a agir, a mudar de hábitos e pensamentos por causa do que sente. Vê as pessoas deformadas, tem vertigens, a sua percepção da realidade e das pessoas muda. É um homem solitário, seus únicos interlocutores são Anny, sua ex- namorada, uma zeladora com a qual mantém relações sexuais e o Autodidata, que é um personagem sem nome próprio, mas sabemos que é um leitor ávido, ele lê pela ordem alfabética dos autores na biblioteca da cidade; homossexual e pederasta; Roquentin o vê-o a tocar meninos na biblioteca, acabou aí a amizade e o Autodidata foi expulso da biblioteca.
Com os sentimentos à flor- da- pele, Roquentin passa a vivenciar sensações físicas que mudarão o sentido da sua vida. É o Existencialismo de Sartre gritando, pedindo a liberdade do “ser”. O homem só é homem com o seu conjunto de emoções, com as suas idiossincrasias, a vida só tem sentido assim.
Nunca senti como hoje a impressão de carecer de dimensões secretas, de estar limitado no meu corpo, aos pensamentos leves que sobem como bolhas. Construo as minhas recordações com o presente. Em vão trato de alcançar o passado: não posso escapar. (p. 62)
Sartre fala sobre uma verdade curiosa: a vida é menos interessante que a ficção. O dia a dia mata a aventura, além de tudo ser muito parecido, sem novidades. Quando a pessoa vive, não acontece nada. A decoração muda, o povo entra e sai, e isso é tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias sem tom nem som, numa soma interminável e monótona. Mas ao contar a vida é diferente, tudo muda; (p. 71) Todas as dificuldades dos personagens “parecem ser mais preciosas que as nossas, estão douradas pela luz das paixões futuras.” (p. 72) E pelo fim. Sabemos qual será o fim da história, controlamos o futuro.
“A Náusea”, que primeiro foi chamado de “Melancolia”, foi o primeiro romance filosófico de Sartre, começou a escrevê- lo em 1931 com 26 anos, a versão definitiva saiu em 1938.
Não acredito...
Não acredito nas tretas que agora se vendem ao quilo em hipermercados de almas.
Não acredito na tanga de que o amor não deve ser asfixiante.
Não acredito na bullshit de que o amor deve ser a soma, perfeita, de dois inteiros – e não a soma, essa sim perfeita, de duas metades.
Não acredito na pessegada da não-dependência de quem ama, do não precisar de quem ama.
Não acredito.
O amor, se não for precisar do outro como de pão para a boca, não é amor – é uma gosma qualquer, uma mistela qualquer.
O amor, se não for dependência absoluta, se não for vício sem retorno, não é amor – é uma espécie de marca branca do gostar, uma espécie de contrafacção do amar.
Eu sou pelas marcas de verdade.
Eu sou pelo amor de verdade.
Por mais que por vezes doa, por mais que por vezes custe.
Mas a verdade, já se sabe, custa.
Pedro Chagas Freitas
in "EU SOU DEUS"
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