sábado, 23 de maio de 2020

A Intenção Americana de Modernização da China


Pearl S. Buck (1892-1973), 
sits outdoors with group of Chinese-American children placed with families 
through her Welcome House adoption agency.





As relações entre a China e o Ocidente passaram por inúmeras fases, de Marco Polo aos dias de hoje, desde os contactos comerciais e de amizade com os portugueses que, a partir do século XVI, se estabeleceram em Macau e aí ficaram durante 442 anos, e os britânicos, que permaneceram em Hong Kong durante 156 anos. 

Ao longo dos séculos, a China sofreu inúmeras influências do exterior, potências estrangeiras, sobretudo ocidentais, que cobiçaram o seu enorme potencial. O “Império do Meio” já era uma sociedade florescente enquanto a Europa se encontrava ainda dividida em pouco mais do que reinos primitivos. De acordo com um antigo provérbio chinês, “os agricultores da China lavravam a
terra com arados de ferro, enquanto na Europa se usava a madeira”.
Apesar de tudo, continuou a lavrar com arados de ferro enquanto a Europa passou a usar o aço.
Com o advento do Comunismo, a influência de uma estrutura económica do tipo soviético, com fortes tendências centralizadoras e burocráticas, passou a dominar o “gigante” milenar, desde que Mao Tse Tung chegou ao poder. Esse foi um ponto de viragem decisivo nas relações com o exterior, sobretudo com o eixo “imperialista” liderado pelos Estados Unidos.
As reformas económicas começaram em 1978, de forma lenta, até ao momento em que Deng Xiaoping declarou que a China iria entrar numa nova era, do “sistema de mercado socialista”, surpreendendo o mundo ao proclamar que “ser rico é glorioso”.

A principal motivação da presença dos ocidentais na China na viragem do século XIX para o XX era enriquecer. Houve, para além dessa, outras motivações, que justificaram a demanda de americanos nas planícies do norte da China. Estas foram comparadas com as grandes planícies dos Estados Unidos, devido ao seu clima e à aridez do terreno, a desflorestação tinha-as deixado mais expostas à erosão e à seca. A partir da segunda metade do século XIX, com o advento do Manifest Destiny (Uma expressão utilizada por líderes e políticos norte-americanos, na década de 1840, para justificar a expansão continental nos Estados Unidos, que revitalizou um sentido de “missão” ou de destino nacional para muitos americanos), passou a haver uma percepção diferente das fronteiras americanas e chinesas. Com o propósito de fomentar a migração americana e o estabelecimento de populações nas Grandes Planícies, uma série de promotores imobiliários, agentes dos caminhos-de-ferro e jornalistas, promoveram essa região como se fosse um jardim, em vez de um deserto. Quase em simultâneo, missionários, eruditos e turistas começaram a considerar o norte da China de uma forma mais favorável. Apesar de possuir características tão hostis como as Grandes Planícies e uma agricultura também muito primitiva, vários escritores americanos anteviram a possibilidade de mudança e de melhoramento das planícies do norte da China. Devido a esta nova perspectiva sobre a China, o Extremo Oriente passou a ser alvo da expansão americana.

Em 1894, Arthur H. Smith publicou o livro Chinese Characteristics, depois de ter realizado trabalho como missionário na China durante 22 anos, uma das obras mais populares sobre a China do final do século XIX. Smith constatou que os camponeses chineses, apesar de bons trabalhadores, demonstravam uma enorme resistência cultural em relação à mudança dos seus métodos tradicionais. Por essa razão, sentiu a necessidade de querer contribuir para alterar as condições sociais e ajudar a colmatar as lacunas dos agricultores chineses, para poder fazê-los sair da “idade das trevas” e entrar no esplendor do novo século. A partir do Inverno de 1885-86, com o aperfeiçoamento do arado e com outros melhoramentos tecnológicos, os Estados Unidos conseguiram aumentar a sua produção agrícola nos anos que se seguiram até ao fim do século. Durante este período, a expansão económica e geográfica continuou em direcção ao Oeste, até atingir o Pacífico, tendo desenvolvido a agricultura nas Grandes Planícies.

A partir de 1870, os Estados Unidos começaram a exportar parte da sua produção agrícola, que se tornara excedentária, enquanto a China, com 85% de população rural, que não conseguia ser auto-suficiente, tinha que importar comida do estrangeiro. Por essa razão, os Estados Unidos consideraram a China um novo mercado a ser explorado em termos económicos. Apenas nove anos após o “encerramento” da fronteira, que havia sido proclamada por Frederick Jackson Turner como um marco na História dos Estados Unidos, surgiu a Open Door policy (Após o final da Guerra Hispano -Americana, e quando tomaram posse das Filipinas, os Estados Unidos começaram a levar mais a sério os assuntos ligados com o Extremo Oriente.
Dado que a China se encontrava num caos político e económico no final do século XIX, não sendo
reconhecida como uma nação soberana pelas potências principais, no Outono de 1898 o Presidente
McKinley exprimiu o seu desejo de criar uma “Open Door policy”, que concedesse acesso ao mercado chinês por parte de todas as nações comerciantes. Na prática, e dado que os Estados Unidos não tinham uma esfera de influência na China, ao contrário das potências imperialistas europeias, o Secretário de Estado John Hay teve a intenção de afirmar perante essas potências, através dos meios diplomáticos, a autoria dessa política. De facto, se a China acabasse por ser partilhada pelas nações com maior influência no continente asiático, os Estados Unidos seriam certamente excluídos de futuras actividades comerciais. Por isso, Hay estava apenas a tentar proteger os interesses dos investidores e homens de negócios americanos, bem como afirmar o poderio do novo “gigante” americano, abrindo ao ocidente um mundo de novas oportunidades.

Juntamente com a expansão comercial, chegou a expansão ideológica em solo chinês. Em 1870, o missionário protestante William Speer publicou o livro The Oldest and the Newest Empire: China and the United States, no qual procurou estabelecer uma comparação cultural entre o Extremo Oriente e o Oeste Americano, ao apontar para uma relação estreita entre os chineses e os Native American Indians. Speer argumentou que as raças autóctones do Novo Mundo tinham a sua origem no continente asiático. Por essa razão, estabeleceu uma teoria: a história do novo continente mostrava que a conversão dos Native American Indians estabelecia um precedente relevante, dando aos Estados Unidos o direito divino de encontrar missões no ultramar para converter os “heathen Chinee”.

A emigração de missionários americanos para a China passou a constituir uma estratégia de controlo social. Apesar de existirem missões protestantes na China desde 1830, estas aumentaram em número e em intenção evangelizadora após o anúncio, em 1899, da Open Door policy americana.
No final do século XIX, as potências ocidentais exerciam o seu poderio na China, através de concessões territoriais e comerciais em solo chinês, criando sentimentos de repulsa em relação à presença arrogante dos ocidentais. 

A Guerra do Ópio entre a Grã-Bretanha e a China (1839-1842) foi o primeiro de vários incidentes que criou uma animosidade profunda em relação à prepotência dos europeus no território chinês, outrora soberano. Os sentimentos anti-estrangeiros conduziram ao rápido desenvolvimento de uma sociedade secreta chinesa, conhecida por I Ho Ch'uan (Punhos Harmoniosos Honrados), referida pelos ocidentais por Boxers. Estes pretendiam a expulsão dos “demónios estrangeiros” e dos cristãos chineses convertidos. A violência e os assassínios, inicialmente direccionados contra os cristãos chineses, passou a incluir ocidentais, aquando do assassinato de um missionário britânico a 30 de Dezembro de 1899. A partir daí, aumentou a violência e os governos ocidentais tiveram que enviar tropas para proteger as suas delegações e interesses em Pequim. A Rebelião dos Boxers foi esmagada pela acção conjunta de forças estrangeiras − Grã-Bretanha, Alemanha, Rússia, França, Estados Unidos, Japão, Itália e Áustria. Após duas grandes batalhas contra forças chinesas, as potências ocidentais conseguiram finalmente chegar à capital a 14 de Agosto, para proteger as suas delegações diplomáticas e comercias. Nos meses seguintes, a ocupação e o domínio de Pequim aumentaram, bem como no Norte da China, culminando com a abolição da Sociedade dos Boxers pelas autoridades chinesas a 1 de Fevereiro de 1901, e com a assinatura do protocolo de paz com as nações aliadas a 7 de Setembro.

Com o falhanço da rebelião dos nacionalistas chineses, os ocidentais que tinham temido pelas suas vidas na China, sentiram-se encorajados em levar por diante as suas intenções de “auxiliar”, material e espiritualmente, o primitivo povo chinês.
Entre as novas chegadas, encontravam-se os missionários agrícolas, que vinham com a intenção de ensinar técnicas modernas de agricultura, juntamente com a nobre missão de “salvar almas”. Em 1915, John Lossing Buck, agrónomo americano formado na faculdade de Cornell no ano anterior, foi colocado em Nansuzhou, na província de Anhui, nas planícies do norte da China. Três anos mais tarde viria a casar com Pearl Sydenstricker, filha de um missionário, que crescera e fora educada na China. 

Em 1921, John Buck aceitou um convite para leccionar na Universidade de Nanquim, onde nos anos seguintes leccionou economia, sociologia rural, engenharia agrónoma e administração.
A queda da dinastia Manchu em 1911 e as revoluções republicana e nacionalista que se seguiram, tornaram a China mais sedenta de modernização, havendo receptividade pelas novas ideias científicas e tecnológicas que chegavam a este país pela mão dos ocidentais.

Em 1930, John Buck publicou o livro Chinese Farm Economy: A Study of 2866 Farms in Seventeen Localities and Seven Provinces in China, em que observou que muitos dos métodos agrícolas modernos não eram passíveis de ser aplicados, nem deveriam ser aplicados nas planícies do norte da China. Os camponeses chineses eram pobres demais para adquirir e acomodar as ceifeiras, debulhadeiras, arados a vapor e semeadeiras. No entanto, Buck louvou os métodos tradicionais arcaicos que permitiam que os camponeses chineses trabalhassem a terra de uma forma bastante eficaz. Constatou que, apesar de não possuírem nem conhecimentos nem meios tecnológicos modernos, de terem uma densidade populacional mais baixa per capita dos terrenos agrícolas, conseguiam uma produção mais elevada por hectare do que os próprios Estados Unidos. Em parte, esse fenómeno era devido ao facto da estação de maturação das colheitas ser maior na China, o que permitia obter duas colheitas por ano. Uma grande fatia desses resultados era alcançada devido ao trabalho intenso e engenhoso dos camponeses chineses.
A constatação desta realidade suscitou algumas críticas no meio académico americano, que criticaram Buck por comparar os Estados Unidos com a China. A sua acção foi, contudo, reconhecida como sendo de grande valor: “Buck was perhaps the most important Western analyst of China’s rural social conditions who worked in this century” . A sua obra foi a primeira a reconhecer o alcance das verdadeiras potencialidades da China e serviu como manual de treino para várias gerações de economistas agrícolas chineses. A perspectiva tipicamente ocidental de Buck, e a fé nos ideais cristãos, levou-o a criticar várias tradições, crenças e actividades chinesas.

Durante os anos em que John Buck desenvolveu a sua pesquisa, Pearl Sydenstricker Buck
acompanhou-o nas suas viagens de recolha de dados. Devido aos seus profundos conhecimentos do povo, da cultura e da língua, PSB desempenhou um grande papel como intérprete. Numa fase em que a acuidade visual de John diminuiu nos finais da década de 1920, PSB auxiliou-o, dactilografando os seus relatórios. No contacto directo com a vida rural, PSB apercebeu-se de que os chineses eram mais empreendedores e económicos do que os americanos. 

Alguns anos após o divórcio, PSB escreveu na sua autobiografia que, pelo facto de acompanhar o marido nas suas pesquisas científicas, deu-se conta de que ele tinha muito mais a aprender do que a ensinar aos camponeses chineses: “It became more and more apparent as time went on that it would be difficult to find concrete ways of helping the farmers of the region, who had learned to cope with drought and high dry winds and long cold winters, and it was disturbing to any American man, I am sure, to find that he had more to learn than to teach.”.
PSB constatou que estes viviam há inúmeras gerações no mesmo pedaço de terra e “were still able to produce extraordinary yields (…) without modern machinery. Whole families lived in simple comfort upon farms averaging less than five acres and certainly I had known of no Western agriculture that could compete with this.” Apesar dessa constatação e do seu cepticismo em relação à aplicabilidade dos conhecimentos científicos do marido, PSB optou por não o revelar, “for I had been well trained in human relationships, among which it is important indeed that, if she is wise, a woman does not reveal her skepticisms to man.”

No ano a seguir à edição do livro do marido, PSB publicou The Good Earth, onde criticou de forma implícita os métodos de modernização dos Estados Unidos, ao celebrar a tradição chinesa, a conservação da terra e a falta de tecnologia. PSB conta-nos na sua autobiografia que o marido se sentiu bastante frustrado depois de verificar a indiferença dos camponeses chineses perante o que de melhor existia na ciência ocidental que ele lhes transmitira. Esta constatação pôde gerar uma reflexão acerca dos países ditos “modernos” que se esforçam por impor as suas soluções científicas mais evoluídas a países não desenvolvidos, vulgo do “terceiro mundo”: “This experience of Pearl and John Buck in their early days in northern China may well be pondered by those politicians and research professors who investigate the economic solution of the political problems of the so-called "underdeveloped areas."”.



John Lossing Buck e Pearl Sydenstricker Buck
1917–1935 



Pearl S. Buck e a Segunda Guerra Mundial

Postura contra o Imperialismo e o Colonialismo Ocidentais:
PSB manteve uma actividade bastante crítica em relação às guerras que assolaram o seu tempo. 
No que diz respeito ao conflito sino-japonês, ela ajudou a promover o lugar comum de que os chineses − e, por extensão, os orientais em geral − davam pouco valor à vida humana. Esse comentário surgiu na revista Asia em Outubro de 1937, a propósito das atrocidades cometidas e da desumanidade da guerra em curso entre a China e o Japão: PSB alertou para factos que, até então, jamais tinham sido salientados por alguém de raça branca. Apesar desta caracterização dos chineses e japoneses em tempo de guerra, PSB escreveu, na sua autobiografia, que os asiáticos eram um povo de natureza e aspecto pacífico, com uma tradição cultural que promovia o saber.

Na Ásia, o soldado era encarado com desprezo, devido a todas as guerras que varreram esse vasto continente ao longo dos séculos, e era considerado mais vil do que um pedinte, em termos morais. A vida militar era encarada com desdém e as proezas militares e a crueldade dos guerreiros não eram engrandecidas. Os eruditos não louvavam a guerra e poetas como Liang Po descreveram os horrores e a devastação da guerra, em vez de a glorificarem. O curioso é que, ao longo da História da China, houve dirigentes que, enquanto no poder, mantinham uma postura Confucionista ( Doutrina filosófica criada por Confúcio (Kung Fu Tzu) (551-479 AC) que tem como objectivo alcançar uma sociedade harmoniosa, baseada na bondade e igualdade entre todos os seres humanos. Assente em princípios como a moralidade, a benevolência, a humanidade e códigos de conduta, é considerada por muitos como uma religião. Embora não possua características como o Cristianismo, o Islamismo ou o Judaísmo, nem se pronuncie sobre Deus e sobre a vida depois da morte, contempla, no entanto, princípios religiosos como Tien e Tao, o Céu e o Caminho, e aceita outras crenças da China − o Taoísmo e o Budismo), mais interveniente na sociedade, apesar de a sua personalidade possuir características Taoistas (Doutrina filosófica que se julga ter sido fundada por Lao Tzu (604-531 AC) e que preconiza o equilíbrio entre o Homem e o Universo, cuja causa primeira é o Tao. Apesar de ser considerada uma religião, não concebe a existência de uma divindade personificada. Os crentes procuram respostas para os problemas da vida através da introspecção da meditação e da observação do que os rodeia. O desenvolvimento da virtude é um dos objectivos principais e “As Três Jóias” a ser
procuradas são a compaixão, a moderação e a humildade. Promove a busca da saúde e da vitalidade e está na base da teoria da Medicina Tradicional Chinesa e da Acupunctura, fomentando o equilíbrio entre as forças antagónicas mas complementares do Yin e do Yang. De acordo com os seus princípios, a doença surge quando há um bloqueio na energia e/ou o equilíbrio entre o Yin e o Yang é perturbado).
Essa inclinação fez com que, após cessarem a governação e os seus cargos públicos (e depois de satisfeitos os seus sonhos de glória mundana), retiravam-se para as suas províncias de origem, para pintar e escrever poesia, imitando os eremitas Taoistas. Destes destacaram-se Chiang Kai-shek e Mao Tsetung que, depois de assumirem uma postura belicista violenta decidiram, no final das suas vidas, entregarem-se a uma vida de contemplação.

Durante os anos da guerra, ela atacou constantemente o racismo e a presunção americanos, exprimindo essas ideias num discurso em Fevereiro de 1942: “the peoples of Asia want most of all in this war their freedom (from white Western oppression)”
Referiu ainda que para muitos asiáticos os Estados Unidos e a Grã-Bretanha pareciam estar a lutar mais para salvar o imperialismo do que para assegurar a liberdade dos povos. PSB previu aquilo que
viria a acontecer no pós-guerra, ou seja, o aparecimento de sentimentos nacionalistas e anti-colonialistas, que surpreenderam e chocaram o mundo ocidental, mas que ela já profetizara. A sua clarividência política e o seu conhecimento profundo da Ásia e dos seus povos permitia-lhe ver mais para além do que a grande maioria, advertindo para os perigos inerentes à substituição dos impérios britânico, francês e japonês por um novo império, o americano.


"The peoples of Asia today are more frightened than ever of Empire. They see the world of tomorrow committed to empire, not only to the empires they know, of Britain, France and Japan, but to potential new empires. One of them is the United States, our country, the nation that belongs to the American people. It is quite possible that we may be building an empire without knowing it." (Marsh
1953)

Hoje em dia, sessenta anos mais tarde, constatamos que esse risco se tornou numa realidade bem amarga, para muitos milhares de militares norte-americanos, estacionados em “missões de paz” um pouco por todo o mundo, com especial destaque para o Iraque. Autores como Noam Chomsky e George Soros têm vindo a alertar para esse perigo de hegemonia por parte dos Estados Unidos, em livros como Power and Terror e The Bubble of American Supremacy − Correcting the Misuse of American Power, respectivamente.

PSB tinha uma visão do mundo bastante peculiar, dado ter a possibilidade de observar os acontecimentos globais através de uma perspectiva bipolar em simultâneo, quer ocidental, quer oriental. Tal circunstância ficou a dever-se à sua educação bipartida, por um lado americana, por imposição da mãe e, por outro chinesa, segundo a orientação do seu tutor confucionista, o Sr. Kung.
Those were strange conflicting days when in the morning I sat over American
schoolbooks and learned the lessons assigned to me by my mother, who faithfully
followed the Calvert system13 in my education, while in the afternoon I studied
under the wholly different tutelage of Mr. Kung. I became mentally bifocal, and
so I learned early to understand that there is no such condition in human affairs as
absolute truth. (Buck 1975: 57)

Isto foi retratado no seu livro "Peónia", com a sua personagem David, que tinha aulas com o Rabino sobre a Tora de manhã, e à tarde tinha aulas com o seu mestre confucionista.

Desde sempre que PSB assumiu uma postura contra as guerras, encaradas como o culminar do desentendimento entre os homens e como resultado da ganância e sobranceria dos mais fortes em relação aos mais fracos. A guerra era, para ela, um factor de involução do ser humano e de destruição dos valores e de tudo o que existe de mais sublime na civilização:
 “War always destroys civilization. In civilized times and places hatred is considered a mean and degrading emotion, but in wartime we are urged to cultivate hatred in order that we may the more quickly break down the manners of civilization and be eager to kill” 

À semelhança dos grandes rios da China, a imagem dos chineses na mente dos ocidentais, e mais concretamente dos americanos, percorreu um longo caminho, desde Marco Polo a Pearl Buck, de Gengis Khan a Mao Tse-tung. Por um lado, o nome “Marco Polo” faz ecoar nas mentes ocidentais ideias de grandiosidade, de arte e de uma civilização milenar profundamente sábia, associadas à China, bem como de qualidades inerentes ao povo chinês, no que diz respeito à inteligência, espírito de sacrifício, paciência, reverência perante os mais velhos, estoicismo e
índole pacífica. Estas são as qualidades que as gerações de leitores dos romances de PSB se habituaram a reconhecer nas personagens das suas obras: gente simples, trabalhadora, corajosa, aceitando com resignação os contratempos do destino e das circunstâncias adversas.

Por outro lado, o nome “Gengis Khan” e as suas hordas mongóis fazem também ecoar nas nossas mentes qualidades associadas aos chineses: crueldade, barbárie, desumanidade e o perigo de uma
onda esmagadora de milhões de seres. Juntamente com estes aspectos, surgem também os estereótipos dos pagãos idólatras de múltiplos deuses, assassinos de bebés do sexo feminino, os pés enfaixados de mulheres submissas, as torturas chinesas de requintes supra-maquiavélicos, a indiferença perante a dor, o sofrimento e a vida humana, a Rebelião dos Boxers e o Perigo Amarelo.

Por estas razões, ao longo da história, as concepções ocidentais da China incluíram noções quer de estabilidade eterna, quer de caos ilimitado. Habituámo-nos a atribuir aos chineses ideias tão extremas como sabedoria e ignorância supersticiosa, grande poderio e fraqueza desprezível, conservadorismo imutável e extremismo imprevisível, calma contemplativa e violência explosiva. 

Não é, por isso, de estranhar que as emoções dos ocidentais sobre os chineses oscilem entre a simpatia e a rejeição, a benevolência e a exasperação parentais, o afecto e a hostilidade, o amor e um medo muito próximo do ódio.
A imagem que actualmente os americanos têm dos chineses é, sobretudo, resultado do que se passou nas primeiras quatro décadas do século XX. 






Em primeiro lugar, é preciso ter em conta o preconceito, o desprezo e a rejeição violenta que os americanos nutriam pelos chineses que imigravam para os Estados Unidos. Os primeiros emigrantes asiáticos a entrar nos Estados Unidos foram os chineses, atraídos para a Califórnia pela “Gold Rush” de 1848. Em 1850, os imigrantes chineses já excediam os 20.000, a maior parte deles na Califórnia. A construção dos caminhos-de-ferro durante a década de 1860 acelerou a entrada de
trabalhadores chineses, chegando aos 63.199 em 1870. Dez anos mais tarde, esse número já atingia os 105.465, dos quais mais de 90 % se fixaram na costa do Pacífico. No entanto, à medida que o número de chineses aumentava, os trabalhadores caucasianos na Califórnia começaram a guardar rancor aos chineses, dado que estes, por serem considerados inferiores em termos de raça e de cultura, constituíam uma ameaça para os níveis dos salários e das condições de trabalho oferecidas pelos empregadores.

Por todas estas razões, em meados da década de 1870, com a conclusão dos caminhos-de-ferro transcontinentais, com o aumento da mão-de-obra caucasiana no Oeste e com a depressão económica
generalizada por todo o país, os trabalhadores brancos viraram a sua ira contra os chineses. Devido a todo este clima de hostilidade para com os trabalhadores chineses, que passaram a ser personae non grata, nomeadamente nos estados do Pacífico, e sobretudo na Califórnia, o Congresso dos Estados Unidos passou uma lei a 6 de Maio de 1882, que proibia imigrantes chineses de entrarem nos Estados Unidos, as Chinese Exclusion Acts.

No início, os chineses foram bem-vindos, quando as grandes linhas de ferro transcontinentais necessitavam com urgência de mão-de-obra, que se sujeitasse a condições de trabalho extremamente duras. No entanto, quando pretenderam entrar noutros sectores do mercado de trabalho, enfrentaram fortes atitudes de contestação, violência e legislação destinada à sua exclusão, numa época em que se viviam grandes dificuldades económicas. Estas leis constituíram um marco na História da discriminação racial dos Estados Unidos, sobretudo anti-asiática.

A primeira lei Chinese Exlusion Act surgiu em 1882 e suspendeu a entrada de chineses durante 10 anos. Em 1892 foi prolongada por mais 10 anos e em 1902 foi, de novo, alongada por um período idêntico. No entanto, só em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, é que a lei seria revogada. A ideia que imperava entre os americanos sobre o carácter dos chineses foi o resultado de vários
acontecimentos, nomeadamente a Revolta dos Boxers em 1900 e, mais tarde, de inúmeras guerras internas e revoluções sangrentas, que culminaram na Revolução comunista de Mao Tse-tung.
A opinião pública americana, que já era desfavorável antes do início do século XX , passou a assumir, a partir da Revolta dos Boxers, que os chineses afinal não eram mais do que assassinos impiedosos. A presença dos chineses, encarada como uma bênção na altura da construção dos caminhos-de-ferro, passou a ser considerada uma maldição após o colapso das minas no Nevada em 1878.

Inúmeros factores contribuíram para a segregação e xenofobia em relação aos chineses.
As organizações laborais apoiaram com veemência as Exclusion Acts, dado que as principais consequências de uma imigração sem limites era de aumentar a competição desigual pelos postos de trabalho. Um patrão sem escrúpulos nem moral não hesitaria em empregar chineses, mão-de-obra barata que se sujeitava a qualquer trabalho, em vez de trabalhadores brancos.
As Chinatowns tornaram-se atracções turísticas, famosas pela sujidade, vício e estranhos odores, recheadas de um misticismo sombrio, associado às “sociedades secretas” chinesas, que se dizia controlarem antros de prostituição e de ópio.
Para além destas atitudes muito pouco favoráveis em relação aos chineses, o presidente Theodore
Roosevelt descreveu-os como sendo uma “immoral, degraded and worthless race”.


A aliança Sino-Americana durante a Segunda Guerra Mundial na revogação das Chinese Exclusion Acts: A entrada forçada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial trouxe uma
nova realidade e um novo “perigo amarelo”, bem mais concreto e bem mais perigoso do que os chineses: o Império do Sol Nascente. A ambição de criar uma “grande Ásia” sem ocidentais e governada pelos senhores nipónicos, fez com que o Japão se lançasse numa aventura expansionista que espalhou a guerra e a morte por todo o Pacífico. 

O ataque surpresa a Pearl Harbor mudou de forma radical a política dos Estados Unidos em relação à China. No dia a seguir ao ataque, os Estados Unidos e a China declararam guerra ao Japão, tornando-se aliados a partir desse momento, o que teve um papel relevante na mudança da política americana para o extremo Oriente, sobretudo com a China.
A 1 de Janeiro de 1942 uma declaração conjunta das Nações Unidas incluiu a China como o 4º signatário, a seguir aos Estados Unidos, GrãBretanha e União Soviética, o que demonstrou que a China passara a ser indispensável para o esforço de guerra americano.

No entanto, os Estados Unidos adoptaram uma “Europe First Policy” desde o início da guerra, o que implicava que a estratégia de guerra americana na Ásia era secundária.
No entanto, os Estados Unidos viram na China um aliado capaz de manter milhões de soldados japoneses envolvidos no conflito, até que houvesse uma vitória aliada na Europa.
Por essa razão, os Estados Unidos concederam um empréstimo de 500 milhões de dólares à China em Janeiro de 1942, o que não foi apenas um gesto de boa vontade mas sim uma jogada política e estratégica para revitalizar e manter a China activa e combativa na guerra. 
Para alcançar esse objectivo em termos políticos, os Estados Unidos ajudaram a China a entrar na cena internacional como uma grande potência mundial.

Apesar de toda esta viragem e aprofundamento das relações com a China, as desigualdades raciais continuaram a existir entre os Estados Unidos e a China. De facto, a continuação da existência das Chinese Exclusion Acts era bem o exemplo de que ainda faltavam ocorrer as mudanças de raiz.


Após o ataque a Pearl Harbor, o Japão começou a chamar à guerra “the Greater East Asia War”, cujo objectivo era “libertar a Ásia oriental dos imperialistas anglo-saxónicos” (numa alusão clara aos britânicos e americanos). O grande propósito japonês era estabelecer “the Greater East Asia
Co-Prosperity Sphere”, que se basearia no princípio de “igualdade e harmonia racial”.
Em Fevereiro de 1942 foi publicado outro artigo, intitulado “A New Step towards Emancipation of Asian Peoples”, com o intuito de reforçar o efeito da propaganda, insistindo que a essência das injustiças e desigualdades estava enraizada na exploração americana dos povos asiáticos.
Para além da frente de combate, os japoneses mostravam-se determinados em desmoralizar o inimigo, atacando-o ideologicamente com uma campanha que tinha como objectivo atingi-lo no seu ponto mais fraco, na contradição entre os valores que defendiam e aquilo que faziam na prática. Com esse propósito, a revista “Front”, uma das mais importantes da propaganda japonesa em tempo de
guerra, começou a ser publicada no início de 1942, condenando a opressão ocidental na Ásia e enaltecendo a harmonia racial na “Greater East Asia CoProsperity Sphere”. Os japoneses argumentavam, dessa forma, que os ideais americanos de igualdade eram hipócritas, dado que a essência da “suposta igualdade” era o “beast-like treatment or semi-starvation pay to the Asiatics”.
Em Junho de 1942, começaram a ser publicadas uma série de cartas abertas, “Open Letters to Asian Peoples”, nas quais eram denunciadas a exploração e opressão dos poderes anglo-saxónicos: “Asia must be one − in her aim, in her action and in her future”. A propaganda japonesa afirmava aos povos asiáticos que “when Asia becomes one in truth, a new order will be established throughout the world”. Na prática, a propaganda japonesa procurava ridicularizar os Aliados nos jornais e programas de rádio dirigidos aos povos asiáticos, insinuando que estes nunca receberiam um tratamento igual e imparcial por parte dos ocidentais.
Um dos seus argumentos mais fortes eram as “Chinese Exclusion Acts”, para desconstruir a validade das “Four Freedoms” de Roosevelt, no discurso proferido perante o Congresso a 6 de Janeiro de 1941, de onde a igualdade racial fora excluída.
As leis de discriminação racial contra os asiáticos continuavam a existir na legislação americana em vigor. Por essa razão, a propaganda nipónica detectou pontos fracos na legislação americana por onde apelar aos asiáticos, sobretudo aos chineses, que a China, a primeira aliada inter-racial da América, não era tratada com igualdade, como outras potências aliadas.

Estas acusações mostravam na prática como a legislação americana anti-chinesa se reflectia na vida de milhares de chineses “aliados” dos Estados Unidos, mas sem quaisquer direitos ou regalias, procurando sensibilizar a opinião pública asiática para a causa nipónica.

Antes da guerra do Pacífico ter rebentado e de os Estados Unidos terem sido forçados a entrar na Segunda Guerra Mundial, a opinião pública americana já nutria alguma simpatia e solidariedade para com a China e o seu povo, atacados pelo Império japonês. Por essa razão, havia condições propícias para que a lei pudesse vir a ser revogada. A guerra de propaganda entre os Estados Unidos e o
Japão tinha posto a descoberto uma realidade que era bastante embaraçosa para os americanos, arautos da liberdade e da igualdade, mas com uma situação legal insustentável, que dava razão aos argumentos japoneses. Após o ataque a Pearl Harbor, o apoio e a solidariedade da opinião pública americana para com o povo chinês tornou-se ainda maior, passando a sentir essa causa mais sua, dado que a partir daquele momento começaram a ter um inimigo comum. Como reflexo desse apoio, surgiram vários editoriais a reforçar a ideia de que a China iria ser um aliado imprescindível para que os Estados Unidos ganhassem a guerra mais depressa.
A partir do momento em que os Estados Unidos entraram na guerra, a discriminação legal contra os chineses foi trazida ao conhecimento da opinião pública. Todos estes factores contribuíram, de forma decisiva, para a revogação das Chinese Exclusion Acts.

A imagem e a reputação dos chineses na América começou a mudar de forma lenta mas segura. 
Com a necessidade premente de aumentar a eficácia da máquina de guerra chinesa, muitos jovens chineses receberam treino militar nos Estados Unidos, nomeadamente na Força Aérea, vindo mais tarde a desempenhar um papel bastante importante nos céus da China, formando um esquadrão que abateu muitos aviões japoneses, o que lhes granjeou bastante fama.

Pearl Sydenstricker Bucka primeira escritora americana a ser galardoada com o prémio Nobel da Literatura em 1938, surgiu como uma figura de vulto na mudança de atitude do povo americano em relação aos chineses, bem como na luta a favor da revogação dessas leis. 
Para tal, contribuía o facto de ela ter vivido cerca de três décadas e meia na China, e de ser uma profunda conhecedora da cultura, da língua e da realidade chinesas, transmitindo as suas ideias através dos seus romances e das suas intervenções políticas.
PSB chamou a atenção para o facto de que, para se alcançar a vitória, era também necessário estabelecer a cooperação entre os povos sem os preconceitos da raça, cor ou nação.
Era, por isso, fundamental que os Estados Unidos abandonassem a crença da “supremacia branca” sobre os povos de cor.

É interessante verificar que aqueles que mais contribuíram para esta campanha foram pessoas que tinham uma forte ligação e uma dívida de gratidão para com a China. Para além de PSB , que vivera mais de 35 anos na China, e que escrevera inúmeros romances sobre este país asiático, e Richard Walsh, seu segundo marido e editor dessas obras nos Estados Unidos, contava-se ainda com Henry Luce, que nascera e vivera mais de 10 anos na China, e o congressista Walter H. Judd, outrora missionário médico na China durante mais de 12 anos.

Após muito esforço e perseverança por parte de inúmeras organizações e individualidades, incluindo PSB, a lei foi revogada e acabou por atribuir, em termos técnicos, uma quota anual simbólica e por permitir que os imigrantes chineses pudessem alcançar a cidadania americana. Por estas razões, a revogação das leis anti-imigração constituíram uma viragem na História dos Estados Unidos
da América. Pela primeira vez, fora criada a ideia de que os chineses eram “assimiláveis” na sociedade americana, apesar da quota atribuída ser mínima. 

A Segunda Guerra Mundial acabou, no fundo, por contribuir de forma decisiva para alterar as relações América – Ásia e para a criação de uma América multicultural.

A mudança de mentalidade foi o aspecto mais importante decorrente desta alteração da lei. Mas começava a ser insustentável manter um país com atitudes diferentes perante raças diferentes sem haver igualdade de oportunidades. A propaganda racial japonesa foi a primeira a denunciar o racismo americano, levando o grande público americano a tomar consciência do racismo existente no seu próprio país. A América reconheceu que, para além de ganhar a guerra no palco das operações militares, também tinha que ganhar a guerra de propaganda contra o Japão e provar ao mundo a sua sinceridade e boas intenções a favor da igualdade e da tolerância racial.
Antes da guerra, a comunidade sino-americana era alvo de discriminação, sobretudo devido à lei existente. A invasão da China pelo Japão, e sobretudo depois da entrada dos Estados Unidos na guerra ao lado da China, melhorou de forma considerável a imagem e reputação dos chineses americanos. Apesar de tudo, a revogação da lei não trouxe uma situação de paridade de quotas com os imigrantes de países europeus. O “American nativism” continuou a ter um papel importante na mente dos americanos e na sua falta de aceitação dos chineses, em particular, e dos estrangeiros, em geral. 

Durante a década seguinte surgiram novas leis anti-imigração de asiáticos, que permitiram a assimilação de indianos, filipinos e, mais tarde, de japoneses na sociedade americana.
No entanto, a revogação destas leis não alterou o status quo existente na sociedade americana, do tratamento racialmente discriminatório dos povos asiáticos. Estes teriam de esperar mais uma década até atingirem paridade total na legislação americana sem ter, no entanto, um verdadeiro significado na prática.

As relações de maior proximidade com a China, iniciadas em 1943 no auge da guerra no Pacífico, com a revogação da lei anti-imigração, constituíram um ponto de viragem na política externa americana.

Essas relações viriam a atravessar uma fase muito agitada, quando o maior aliado dos Estados Unidos, Chiang Kai-shek, somou derrotas militares, tendo que se refugiar na ilha da Formosa (Taiwan), para fugir às forças de Mao Tse-tung, dando origem a “duas Chinas”, uma continental, comunista e ameaçadora, e outra insular, capitalista e democrática. 

Desde esse momento que o relacionamento privilegiado com Taiwan criou aos Estados Unidos dificuldades no seu entendimento com a China comunista, dado esta encarar a ilha como uma província renegada, mas fazendo parte integrante da “grande China”. 
Apesar dos esforços levados a cabo por sucessivas administrações, desde o fim da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria, passando pela visita histórica de Richard Nixon à China, em Fevereiro de 1972, até ao bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado em Maio de 1999, as relações diplomáticas com a China não têm sido fáceis.



Fonte: Estudos Americanos, Paulo Mascarenhas Franco




Nanjing University 
Pearl S. Buck Memorial House





Pearl S. Buck Museum
Zhenjiang






sexta-feira, 22 de maio de 2020

O que é a Liberdade?





Um discípulo perguntou a um mestre:
“Diga-me, o que é a liberdade?”

“Que liberdade?”, perguntou-lhe o mestre.

A primeira liberdade é a estupidez. Lembra o cavalo que, relinchando, derruba o cavaleiro, só para sentir depois o seu pulso ainda mais firme.
A segunda liberdade é o remorso. Lembra o timoneiro que, após o naufrágio, permanece nos destroços em vez de subir ao barco salva-vidas.
A terceira liberdade é a compreensão. Ela sucede à estupidez e ao remorso. Assemelha-se ao caule que se balança com o vento e, por ceder onde é fraco, permanece de pé.”

“Isso é tudo?”, perguntou o discípulo.

O mestre lhe respondeu:“Algumas pessoas acham que são elas que procuram a verdade de suas almas. Contudo, é a grande Alma que pensa e procura através delas. Como a natureza, ela pode permitir-se muitos erros, porque está sempre e sem esforço substituindo os maus jogadores. Mas aquele que a deixa pensar recebe dela, às vezes, certa liberdade de movimento. E, como um rio que carrega o nadador que se deixa levar, ela o leva até à margem, unindo sua força à dele.”



Bert Hellinger






um caso de estetoscópio


Emanuel Lopes
WC Homens - Shopping Center em Portugal





meu médico recém entrou em sua sala
vindo da cirurgia.
ele me encontra no banheiro masculino.
“puta que pariu”, ele me diz,
“onde você a encontrou? oh, como é bom
olhar para garotas como esta!”
eu lhe digo: “é minha especialidade: corações de
cimento e corpos esculturais. se conseguir ouvir um
batimento, me avise.”
“vou cuidar dela direitinho”, ele diz.
“sim, e por favor lembre-se de todos os códigos
de ética de sua honorável profissão”, eu lhe disse.

fechou primeiro a braguilha e depois lavou as mãos.
“como está a sua saúde?” ele pergunta.
“fisicamente funciono como um relógio.
mentalmente estou perdido, condenado, carregando minha pequena
                                              [cruz, toda
essa merda.”

“cuidarei bem dela.”

“sim. e me avise a respeito dos batimentos cardíacos.”

ele saiu.
terminei, fechei a braguilha e também saí.
mas não lavei minhas mãos.

estou muito à frente dessas preocupações.


Charles Bukowski
in, O Amor É Um Cão Dos Diabos






quarta-feira, 20 de maio de 2020

DIZ-ME A VERDADE SOBRE O AMOR






Alguns dizem que o amor é um rapazinho,
E outros dizem que é um passarito,
Alguns dizem que faz o mundo girar,
E outros dizem que é um mito.
E quando perguntei ao vizinho,
Que parecia ser pessoa avisada,
A mulher dele intrometeu-se e objectou
Que o amor não servia para nada.

Será como um par de pijamas,
Ou como o doce num hotel termal?
Terá um odor como o dos lamas,
Ou um cheiro mais normal?
Será áspero como os espinhos de uma sebe,
Ou será como um edredão em suavidade?
É afiado ou suave nas arestas?
Ah, sobre o amor diz-me a verdade.

Os livros de história falam dele
Em curtas notas de rodapé,
É um tópico comum nos cruzeiros
Que cruzam a maré;
Já encontrei referências ao assunto
Em relatos suicidários,
E até em frases manuscritas
Na contracapa de horários.

Será que uiva como um lobo esfomeado,
Ou ressoa como a banda militar de lei?
Poderá ser imitado na perfeição,
Com uma serra ou um piano Steinway?
O seu canto nas festas é apreciado,
Ou é apenas mais um clássico cantor?
Será que pára quando se quer ficar sossegado?
Ah, diz-me a verdade sobre o amor.

Procurei-o na casa de verão,
Nunca o encontrei de verdade,
Tentei o rio junto à foz,
E o ar tonificante da cidade,
Não sei o que cantava o melro,
Ou por quem a tulipa chama,
Não estava no quintal das galinhas,
Nem debaixo da cama.

Fará caretas destemidas,
Enjoará se balançar borda a borda?
Passará o tempo nas corridas,
Ou a tomar violino com pedaços de corda?
Terá opinião sobre o dinheiro?
Será patriota com sinceridade?
Dirá frases banais mas engraçadas?
Ah, sobre o amor diz-me a verdade.

Quando chega, chega sem avisar,
Como quem põe o dedo no nariz?
Baterá à minha porta ao madrugar,
Ou pisar-me-á no autocarro por um triz?
Chegará como uma mudança de tempo?
Será amável ou estupor?
Vai mudar a minha vida toda?
Ah, diz-me a verdade sobre o amor.


WYSTRAN HUGH AUDEN
in, TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE - TEN POEMS




Relacionamentos, Solidão e Equívocos


segunda-feira, 18 de maio de 2020

O Homem que Contempla







Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.


Rainer Maria Rilke
in,  "O Livro das Imagens"





Consciência





A Consciência 
é algo muito difícil de definir.
As pessoas 
têm tentado explicar a consciência 
e perceber o que é exactamente.
O que significa para nós, 
Seres Humanos.
Porque é que sequer a temos.

Andrew Newberg




Nick Herbert, físico de Oxford, trabalhou em magnética, electrostática, física termal e óptica, escreveu o livro "Quantum Reality: Beyond the Physics", diz que o universo demonstra a sua interconectividade para além do Espaço e do Tempo. E por isso se dedica agora a investigar a Consciência.
Ele diz que a Consciência é o maior problema, e por isso a Física se descartou desse problema.
Podemos encontrar todas as forças e todas as partículas da natureza mas, e depois?
Diz que vamos ter de lidar com os problemas mais difíceis como, a natureza da Mente, e outros ainda maiores que ainda nem sabemos problematizar.

Todos temos Consciência!
Todos somos seres conscientes.
Ela anda sempre connosco.
Qualquer sensação, experiência, pensamento, acção e interacção joga com a Consciência.
Ela é fundamental a tudo o que fazemos.

Arte, ciência, relacionamentos, vida.
É a constante das nossas vidas.
E contudo, a ciência tem-na examinado com muito pouca profundidade.
Nos seus 400 anos de vida, a ciência fez imensos progressos na compreensão do universo físico a todas as escalas, desde o Quark ao Quasar.
Mas, a consciência continua a ser um "buraco negro intelectual".


Por que estamos nós aqui?
Bem, essa é a questão principal, não é?
Por nós, entendo que se esteja a falar de seres conscientes, ou seja, nós.

Stuart Hameroff


Muitos cientistas, na física como na psicologia e neurologia, ainda estão imersos no paradigma materialista/newtoniano, vêem a consciência como um produto do funcionamento do cérebro.
Chamam-lhe "Epifenómeno", que significa basicamente efeito secundário ou subproduto.
Basicamente isto significa que "Eu" sentir alguém é um acidente da evolução.
E que quando o cérebro morre, o "acidente" desaparece e o pacote vai ter com o resto do embrulho ao lixo.

Se a consciência é tão importante e fundamental, por que é que se sabe tão pouco acerca dela?
Uma das explicações é que é como estar à procura dos óculos com eles na cara. Sempre ali esteve, por isso é tomada como certa. Outra razão ´é que vivemos numa Era extremamente materialista, dominada pela ciência materialista. Por outras palavras, enquanto cultura, estamos muito interessados nas coisas "lá fora" e pouco no que se passa "cá dentro".
E, quando voltamos a nossa atenção para dentro, preocupamo-nos mais com o conteúdo da consciência, a matéria que popula as redes de neurónios - pensamentos, sonhos, planos, especulações - do que com a consciência propriamente dita. Interessamo-nos pelas imagens do filme, mas esquecemo-nos de que sem o ecrãn no qual passam as imagens não estaria lá nada.
Mas, provavelmente a razão mais importante seja que a consciência não cabe no paradigma newtoniano. Não é feita de matéria mensurável. Não podemos pôr uma régua na consciência.
E a maior parte dos cientistas permanece imersa na visão do mundo que há centenas de anos Descartes separou: intangível, ou não-físico, ou espiritual, para sempre separado do físico. Assim, para explicarem a consciência apenas têm um fenómeno de química e circuitos neurais baseados no cérebro. E nesse paradigma, os cientistas chegaram a chamar à consciência uma "anomalia".

"Um grande reflexo da nossa sociedade materialista é:
Quem são os heróis nas nossas escolas?
As escolas significam educação, conhecimento, aprendizagem, ou seja, a vida mental.
Os heróis são os atletas, a vida física!"

William Arntz


A verdade é que, actualmente, a ciência não tem estrutura para compreender a consciência.
E por isso, a maior parte dos cientistas virou-lhe as costas e voltou-se para outras coisas.
Isto é o que acontece quando os paradigmas são desafiados, e as pessoas são postas em causa.
Quando aparecem pela primeira vez anomalias num paradigma, são normalmente subestimadas ou rejeitadas.

"A pesquisa ao nosso cérebro ajudou a lançar luz sobre estados de consciência mais altos, para além de estar acordado, sonhar e dormir. Existem sete estados de consciência. Para além dos três que normalmente sentimos, existe a consciência pura. É o estado mais simples de consciência humana, um estado silencioso, profundamente instalado, de consciência livre no qual a mente se identifica com e sente o campo unificado de todas as leis da natureza."
John Hagelin

O fenómeno do Electromagnetismo não podia ser explicado segundo os termos dos princípios aceites da física, mas também não podia ser descartado. Assim, contra a resistência prevalecente, tornou-se necessário levar os Campos em consideração. Fala-se de Campos desde o início do Séc XIX, mas durante muito tempo não foram levados a sério. Foram então aceites como aspectos intrínsecos e fundamentais do Cosmo.
Talvez seja a altura de fazer o mesmo com a Consciência!
O desafio pode ser semelhante.
Tal como a carga electromagnética e os Campos eléctricos e magnéticos tinham uma característica ou natureza diferente dos objectos sólidos que estavam no âmago do modelo newtoniano, a consciência é um nível de realidade ainda mais subtil do que as Forças ou os Campos de Forças.
Mas, se é um nível de realidade, e se a física pretende arranjar uma genuína "teoria de tudo", a consciência tem de ser incluída, integrada.

"Temos estado dentro de um modelo científico que diz que tudo pode ser reduzido apenas a matéria ou a energia. Tudo é na realidade energia, sendo a matéria uma forma de energia. E segundo este modelo, a consciência como nós a sentimos, é apenas epifenomenal. Ou seja, é um subproduto da actividade cerebral; não é fundamental.
Mas, isto pode não ser verdade!
Pode ser a consciência em si que é fundamental, e a matéria-energia ser o produto da consciência.
Este tem sido o assunto básico com o qual lidamos há muito tempo, sem nunca o conseguirmos resolver com clareza."

Ed Mitchell

O estranho comportamento do mundo subatómico forçou os cientistas a mudar.
O paradigma em que viviam era uma teoria linda destruída por um facto feio.
Há "factores feios" a forçar o mundo científico a mudar, tais como:


  • A maior parte das pessoas já teve pelo menos uma experiência que não pode ser explicada pelos meios normais ou descartada como sendo apenas uma coincidência.
  • Têm sido estudados registos de experiências de quase-morte que relatam experiências muito semelhantes às de "fora-do-corpo".
  • As regressões de memória a vidas passadas apresentaram factos obscuros de tempos passados aos quais o sujeito não poderia ter tido acesso e que se revelaram ser verdade.
  • A visão remota, a capacidade de transcender o tempo e o espaço para obter informação, tem tido tanto sucesso que os EUA e a Rússia tinham e têm equipas de visionários à distância a fazer espionagem, e também a ajudar a resolver crimes inexplicáveis.
  • Existem experiências que demonstram estatisticamente como a intenção humana altera processos quânticos aleatórios, e não apenas colapsar funções de onda.
  • Curas milagrosas, em casos de esperança de vida curta.
  • Sonhos proféticos.
  • E a lista continua...


Começa a parecer um pouco descabido insistir que todos estes factores são apenas ilusões, coincidências, e continuar a negar que a consciência possa ser uma realidade.

"Se a existência da consciência não pode derivar de leis físicas, a Teoria da Física não é uma verdadeira teoria de tudo. Assim, terá de haver uma teoria final que contenha um componente adicional fundamental. Para isto, proponho que a experiência consciente seja considerada uma característica fundamental, irredutível a qualquer coisa mais básica"
David Chalmers

"Penso que a consciência é este alerta que temos, esta vida interior de experiência, que nos distingue dos robots e dos zombies, que podem ter um comportamento complexo, tratando dos seus assuntos e fazendo as suas coisas sem ter nenhuma experiência interior.
Eu diria que a consciência é uma sequência de eventos discretos. Estes eventos conscientes, que são efectivamente este tipo particular de estado de redução quântica devida ao limiar do nível fundamental, de geometria espaciotemporal, acontecem cerca de quarenta vezes por segundo"

Stuart Hameroff


Stuart Hameroff e Roger Penrose avançam nessa direcção, apresentando uma Teoria da Consciência baseada em microtúbulos do cérebro.
Perguntar "O que é a Consciência?", e "O que é a Realidade?", são os dois lados da mesma moeda!
Em vez de presumir que a consciência de alguma coisa provém do mundo material, tal como faz a maior parte dos cientistas, temos de considerar a visão alternativa que diz que a consciência é tida como um composto fundamental da Realidade. Tão fundamental como o Espaço e o Tempo, a Matéria, e talvez ainda mais.
O componente fundamental em que todas as coisas provêm da nascente subjacente da consciência.

"A mais antiga experiência, o início do universo, digamos, acontece quando a consciência pura, o Campo Unificado ao olhar para si próprio, cria dentro da sua natureza essencialmente unificada a estrutura tripla do observador, observado e processo de observação. Daí, no mais profundo nível da realidade, a consciência cria a criação de forma a que, sim, exista uma relação muito íntima entre o observador e o observado. Estão em última análise unidos como um Todo inseparável na base da criação, que é o Campo Unificado, que é também a nossa mais interior consciência, o Eu."
John Hagelin


É preciso usar a Consciência, para investigar a Consciência!!!
Tal como os cientistas físicos usam aparelhos físicos de medição, os exploradores da consciência usam o mesmo veículo para descobrir a realidade. As fronteiras do "Eu" desaparecem revelando que o "Eu" é Tudo, em Todo o Lado, em todos os momentos.
O que sugere que não só a consciência não é criada pelo cérebro, como o cérebro limita a consciência.
Quando essa experiência acontece, apercebem-se de que representa um nível mais fundamental de realidade do que a nossa realidade material quotidiana onde vivemos normalmente.
De facto, quando já não estão a ter a experiência, continuam a percepcionar que essa realidade é mais real, que representa a forma mais verdadeira e mais fundamental da realidade. E o mundo material em que vivem passa a ser uma espécie de realidade secundária para eles.

Mas, estarão a mudar a realidade "lá fora"?
Por exemplo: O risco no seu carro não o afecta grande coisa, mas pode mudar o risco no carro?
Só cada um pode determinar isso para si.



in, Afinal O Que Sabemos Nós?





domingo, 17 de maio de 2020

LIVROS


Eleanor Dante Heks 





O tempo cumpriu as promessas que nos fez
e o dia já não é corrigido pela música:
estas casas não terminam em nenhum jardim,
estão viradas de frente para o inverno, a nossa
direcção. Mas não deixa de ser estranho
reler agora os livros de que gostávamos, os livros
que não podíamos compreender ainda:
enchemos com eles as estantes do futuro,
para o dia em que não poderíamos suportá-los,
de tão próximos. A bela geometria das superfícies
não pode continuar a distrair-nos de tudo
o que nos atormenta: a vida é isto, esta imensa
e inútil espera, e os livros afinal
jamais nos ensinaram outra coisa.


Rui Pires Cabral






A Boa Terra





The Good Earth é um romance da escritora Pearl S. Buck publicado em 1931 e premiado em 1932 com o Prémio Pulitzer. 
É o primeiro livro da trilogia “The House of Earth” ("A Casa da Terra"), que Buck escreveu logo após East Wind: West Wind (1930).
A trilogia é composta por este livro, The Good Earth ( "A Boa Terra"), 
seguido de "Sons" ("Os Filhos de Wang Lung"), em 1932, e
"A House Divided" ("A Casa Dividida"), em 1935.


O livro relata a história de uma família chinesa antes da Guerra Civil Chinesa.
O romance pode ter auxiliado na preparação dos americanos dos anos 30 para considerar os chineses como aliados na Segunda Guerra Mundial, contra o Japão.

Para Wang Lung, o Lavrador, é da terra que vem o sustento para si e para o seu velho pai. Por isso, todos os gastos são ponderados e, mesmo ao escolher com quem casar, Wang Lung não procura uma mulher bela, mas alguém capaz de o auxiliar nas tarefas da terra. E tudo parece correr bem. O-lan é uma esposa dedicada: dá-lhe filhos e ajuda-o no trabalho. Mas um dia a fome chega e a única alternativa é viajar para o Sul em busca de uma oportunidade. Aí, começará um caminho de mudanças, da miséria à prosperidade... a uma prosperidade que não basta para conseguir a paz.

Escrito de forma simples e directa, sem grandes elaborações a nível de linguagem, é na visão precisa de uma época e de uma cultura tão diferentes que reside a força deste livro. Questões como a impossibilidade de questionar o comportamento dos mais velhos (mesmo quando este é questionável) e a forma como os casamentos são conduzidos (mais como um negócio que como qualquer associação sentimental) são encaradas com a naturalidade de actos do quotidiano e, ao não formar juízos de valor sobre cada situação, a autora deixa o leitor a capacidade de reagir segundo os seus próprios valores, enternecendo-se ou revoltando-se, consoante as circunstâncias.

Se, analisando o percurso da família de Wang Lung, há muito que propicia à reflexão, mais o há se se considerar o percurso pessoal de Wang Lung e a forma como este condiciona os que o rodeiam. Com a passagem das grandes dificuldades e a ascensão à prosperidade, há uma mudança considerável no rumo do protagonista: se antes o movia a determinação de se arrancar (e aos seus) à miséria em que vivia, começam, mais tarde, a surgir alguns caprichos e, com a nova posição social, vem também o despertar de um certo autoritarismo. Assim, também a própria vida de Wang Lung é feito de contrastes: a imposição de Lotus à sua primeira mulher contrasta com a resignação com que tem de enfrentar a vontade do tio; a submissão à autoridade paterna contrasta com a rebeldia do filho mais novo; e a sua quase devoção à "sua tolinha" contrasta com a indiferença com que lida com todos os restantes. E depois há a dedicação, a obsessão pela terra, sempre a terra, alvo de uma dedicação maior que qualquer dos seres humanos em redor.
É, pois, na forma como a fluidez serena da narração contrasta com as fortes emoções que evoca no leitor, que se encontra o mais marcante deste livro. Uma obra cativante, evocando sentimentos contraditórios para com as personagens e deixando, no final da história, muito sobre que reflectir acerca do tempo e da cultura diferentes que apresenta.

O livro retrata a vida na China, numa época de grandes transformações económicas e sociais, testemunhando a passagem do país de uma economia agrária para uma potência emergente. Com trabalho e perseverança, o chinês Wang Lung, de humilde camponês transforma-se num grande proprietário, e as terras que possui são investidas de sacralidade, tornando-se-lhe mais importantes até do que sua família e até mesmo do que seus deuses. Descrevendo a trajetória de Wang Lung e sua família, o livro revela, assim, todas as fases da vida e suas vicissitudes, lutas, ambições e recompensas.


A história começa no dia do casamento de Wang Lung, e segue a ascensão e queda de sua fortuna. A casa dos Hwang, uma família de ricos proprietários de terras, vive na cidade vizinha, onde a futura esposa de Wang, O-Lan, vive como uma escrava. Como a casa de Hwang decresce lentamente, devido ao uso de ópio e gastos frequentes e descontrolados, Wang Lung, através de seu próprio trabalho duro e da habilidade de sua esposa, O-Lan, lentamente ganha dinheiro suficiente para comprar as terras da família Hwang.

O casal tem dois filhos e duas filhas; a primeira filha torna-se mentalmente deficiente como resultado da desnutrição grave provocada pela fome, e o pai a chama de “Poor Fool”, um nome pelo qual ela é reconhecida por toda a vida. Assim que a segunda filha nasce, O-Lan a mata para lhe poupar a miséria de crescer naqueles tempos difíceis. Durante a fome devastadora e a seca, a família deve fugir para uma grande cidade do Sul para encontrar trabalho. O maligno tio de Wang se oferece para comprar suas posses e terras, mas por um valor significativamente menor do seu valor. A família vende tudo, exceto a terra e a casa. Wang Lung, em seguida, enfrenta a longa jornada para o Sul, contemplando como a família sobreviverá andando, quando descobre que o “firewagon”, como os habitantes locais chamam ao comboio recém-construído, leva as pessoas ao Sul por uma taxa.

Enquanto na cidade, O-Lan e as crianças mendigam, Wang Lung puxa um riquexó para sobreviver; eles se sentem estranhos entre seus compatriotas mais metropolitanos, que parecem diferentes e falam com um sotaque rápido. Eles só não morrem de fome devido aos pratos de arroz das refeições beneficentes de um centavo, mas ainda vivem em extrema pobreza. Wang Lung pensa em voltar à sua terra, e quando os exércitos se aproximam da cidade, ele só pode trabalhar à noite, transportando mercadorias, com medo de ser recrutado. Em determinado dia, seu filho traz para casa carne que ele tinha roubado. Furioso, Wang Lung lança a carne na terra, acreditando que, se eles se mantivessem roubando, seus filhos iriam crescer como ladrões. O-Lan, no entanto, calmamente pega a carne e começa a cozinhá-la novamente, representando que ela preferia a saúde à honestidade. Quando um motim irrompe, por alimentos, Wang Lung involuntariamente se junta a uma multidão, que saqueia uma rica casa e aprisiona o seu dono num canto; temendo por sua vida, o homem dá a Wang Lung todo o dinheiro que tem para comprar a sua segurança. Enquanto isso, a sua esposa tinha roubado jóias de outra casa, escondendo-as nos seus seios.

Wang Lung usa o dinheiro para levar a família para casa, comprar um boi novo, ferramentas agrícolas, e contratar funcionários para trabalhar a terra. Na época, mais dois filhos nascem, um filho e uma filha. Usando as jóias que O-Lan saqueou na casa da cidade, Wang Lung é capaz de comprar a terra restante da casa de Hwangs. Ele é finalmente capaz de enviar seus primeiros dois filhos para a escola e o segundo como aprendiz de um comerciante. Como Wang Lung se torna mais próspero, ele compra uma concubina chamada Lotus. Morre O-Lan, mas não antes de assistir ao casamento dos seus primeiros filhos. Wang Lung e sua família mudam-se para a cidade e alugam a antiga casa de Hwang. Wang Lung, agora um homem velho, quer paz, mas sempre há controvérsias, principalmente entre os seus filhos e suas esposas. O terceiro filho de Wang está afastado para se tornar um soldado. No final do romance, Wang Lung ouve os seus filhos a planearem vender a terra e tenta dissuadi-los; eles dizem que vão fazer como ele deseja, mas sorriem conscientemente em si.


A obra de Pearl Buck constitui uma unidade coesa, que faz com que as partes que constituem o todo não sejam identificáveis de forma acessível. Ela consegue criar uma identificação com as suas personagens, de forma completa e verosímil, o que é raro encontrar em ficção. A sua linguagem é bastante simples e clara, dando a impressão de que se está perante uma leitura na língua nativa das personagens, o que lhe confere uma autenticidade que vem reforçar ainda mais o carácter genuíno da obra. Essa “simplicidade” advém do facto de Pearl não utilizar nenhuma palavra que não possa ser traduzida de forma literal para chinês. É por este facto que The Good Earth possui uma autenticidade só possível de alcançar, graças ao conhecimento profundo da cultura e das tradições milenares da China, obtido através da vivência quotidiana in situ desde a infância, e do relacionamento directo com pessoas em tudo semelhantes às personagens autênticas que criou.

Pode considerar-se que The Good Earth possui características próprias do romance histórico, na medida em que é um reflexo da China na passagem da tradição confucionista imperial, através do período revolucionário da mudança para a modernização e para a república. Por todas estas razões,  através da sua escrita, Pearl estabeleceu não só pontos de contacto entre os povos do Oriente e do Ocidente, mas também entre uma cultura milenar e uma cultura moderna, abordando ainda outros temas, como o conflito de gerações, as diferentes atitudes acerca de Deus e questões sobre nacionalismo, paternidade, maternidade e amor. Será que o entendimento entre Oriente e Ocidente continuará a ocorrer? É uma possibilidade.

A importância da terra
Ao longo da História da Humanidade os povos têm estabelecido uma relação privilegiada com a terra onde vivem. A sociedade rural chinesa não é excepção e Pearl dá-nos conta dessa forte ligação com a terra em The Good Earth. O próprio título da obra alerta o leitor, desde o primeiro contacto com o romance, para a importância que a terra e a ligação com esta tem para as personagens principais.
Desde o início do livro, Wang Lung diz a O-lan que eles deveriam comprar campos de arroz à grande casa de Hwang, estranhando o facto de essa família poderosa estar a vender terras. Para ele, essa atitude causava-lhe uma enorme estupefacção. Mais tarde, no final do capítulo 8, quando toda a região foi assolada por uma seca de grandes proporções e todas as pessoas passavam fome, o tio de Wang Lung convenceu os outros camponeses de que o único local onde ainda havia comida era na casa de Wang Lung. A família de Wang Lung também se encontrava numa situação muito precária, sofrendo de fome e de pobreza extremas, mas o desespero levou os camponeses das redondezas, instigados pelo próprio tio de Wang Lung, a saquear a sua casa e a levar-lhe os escassos feijões secos e uma taça de milho seco que ainda lhe restava.
Apesar do susto e da consternação sofrida, que foi logo suavizada, quando pensou na sua terra. A terra nutria a família de Wang Lung, graças à sua dedicação e ao suor do seu trabalho, mas também devido à colaboração incansável de O-lan a todas as tarefas domésticas e da lavoura. Pouco tempo após o nascimento do primeiro filho, ela já estava de volta à lida da terra. Apesar de ter o filho recém nascido para cuidar, O-lan não se contentava em ser apenas dona de casa e mãe − ela fazia questão de ajudar e contribuir para a prosperidade da família, retirando da terra o máximo que ela podia dar.
A simbiose existente entre a terra e a mulher era perfeita − ambas davam vida. A terra era produtiva, fornecendo alimentos em abundância, e O-lan tornava-se também fecunda, dando à luz um filho saudável, que crescia gordo e feliz graças à sua progenitora fértil em leite nutritivo, que o alimentava a ele mas era tão abundante que se tornava excessivo e O-lan deixava-o fluir livre e copioso para o solo, devolvendo parte dessa riqueza à terra, como agradecimento por tanta fartura inesgotável. Apesar de Wang Lung e a sua família terem passado por momentos difíceis, a terra e o Céu pareciam conspirar a favor de quem amava a terra e respeitava o Céu. Há momentos em que a ansiedade impera, por ausência de chuva para fertilizar os campos de trigo. No entanto, a providência acaba por recompensar quem tinha trabalhado com amor e dedicação. Essa era uma bênção vinda do Céu e os camponeses agradeciam por, nesse momento, poderem descansar, dado que a irrigação dos campos estava agora nas “mãos” do Céu.  A forte ligação telúrica era reforçada pela crença de que deuses viviam e abençoavam a terra, bem como os homens que nela habitavam. A união de Wang Lung com a terra era reforçada pela sua fé nos deuses feitos de barro, que estavam num templo modesto construído pelo seu avô. As duas figuras, masculina e feminina, representavam a dualidade taoista do Yang e do Yin, do princípio masculino e feminino, que permeava tudo, desde os seres na terra até aos deuses no Céu. Toda a comunidade reverenciava esses seres divinos, e Wang Lung ainda mais. Quando foi buscar O-lan à Grande Casa de Hwang para constituir família, ao regressar a casa já com ela pararam no templo construído com terra para honrar e pedir a bênção dos deuses feitos de barro para a sua união, num acto de comunhão simples mas com uma certa solenidade, como se as figuras que representavam os deuses fossem testemunhas do seu casamento. Wang Lung confiava nesses deuses com toda a sua alma e nem mesmo em momentos de grande felicidade e de sorte se esquecia deles.

Da terra vinha o sustento; dos deuses cuja representação era feita de terra, vinha a protecção − o Homem era a ponte entre a terra e o Céu, e abençoado por ambos. Em momentos de crise, o apelo da terra soava no coração de Wang Lung acima de tudo o resto. Quando ele e a família tiveram que abandonar a terra e partir para a grande cidade a sul para fugir à fome, sonhava de forma constante com o regresso a casa. Numa altura em que começaram a soprar ventos de mudança na cidade e em que o descontentamento dos pobres se transformou em revolta, Wang Lung, apesar de sentir também essa mesma revolta, nada mais desejava senão voltar para a sua terra bem-amada. Mais tarde, depois de ter regressado a casa e de ter enriquecido à custa do seu trabalho e da ajuda constante de O-lan, Wang Lung consegue comprar a Grande Casa de Hwang, e torna-se burguês. Vive, então, longos anos afastado da lida da terra, rodeado de luxos e de prazeres carnais. Após umas cheias que devastam as suas terras, Wang Lung fica quase à beira de um colapso nervoso. Quando por fim as águas descem, Wang Lung olha para os campos já secos e o seu coração volta a vibrar, e do seu interior irrompe uma voz que o desperta da sua letargia burguesa. O contacto directo com a terra exerce uma acção terapêutica sobre Wang Lung. A influência doentia dos luxos tinham-no enfraquecido e corrompido o seu carácter. Mas no fundo, bem no seu íntimo, Wang Lung continuava a ser o mesmo e a possuir o mesmo amor e a mesma atracção pela terra, que acabou por curá-lo. Esse contacto directo com a terra confere-lhe uma força e um vigor dos quais já quase não se lembrava. Revigorado e feliz, reencontra a sua essência perdida, deixando-se permear pela força telúrica da terra que o viu nascer, sempre pródiga em lhe conferir o sustento e a prosperidade da sua família. Apesar de já não necessitar de o fazer, trabalhou de forma árdua lado a lado com os seus trabalhadores, repousando no final do dia, exausto, mas realizado. Para Wang Lung, estar privado do contacto com a sua terra era impensável.

Quando descobre que o tio o está a chantagear e que pertence a uma organização de bandidos, os “barbas ruivas”, fica petrificado de medo. Ao tentar encontrar uma solução para esse problema, põe a hipótese de o denunciar e recolher-se dentro das muralhas da cidade. A família de Wang Lung é uma extensão da sua ambição, bem como o símbolo da prosperidade rural. O-lan é uma verdadeira força da Natureza e, como a terra, é fecunda. No final da vida, quando O-lan se encontra muito doente, Wang Lung dá-se conta, afinal, da importância que aquela mulher mal-parecida e rude tinha exercido na sua vida e de todos os sacrifícios que ela tinha feito por ele e pelos filhos. Para tentar salvá-la, Wang Lung está disposto a vender terras para poder pagar ao médico a quantia exorbitante que este lhe exige. No entanto, O-lan estava em fase terminal e nada a poderia salvar. Inconformado e destroçado com a proximidade da morte da mulher, Wang Lung estaria disposto a tudo para a salvar, até mesmo vender todas a suas terras. O-lan recusa de forma terminante essa hipótese irrealista pois, como Wang Lung, também ama a terra e sabe que nada é mais importante do que esta, porque é a única coisa que perdura.
No final da obra, quando sente que o seu fim está próximo, Wang Lung faz os preparativos para o seu enterro. Decide ir ver o local onde vivera e onde o pai, o tio, a O-lan e o seu velho amigo Ching estão enterrados. Decide regressar à terra onde nasceu e que tanto lhe dera. Essa sensação de conforto que Wang Lung sentiu, de se imaginar a repousar eternamente no seio da mãe terra, foi perturbada de forma abrupta quando um dia ouviu os seus filhos a conspirar sobre como iriam vender as terras dele e dividir o dinheiro. Surpreendidos pelo pai, os filhos apressaram-se a tranquilizá-lo, garantindo-lhe que não iriam vender as terras. Wang Lung sabia que, à semelhança do que se tinha passado com a família da Grande Casa de Hwang, a partir do momento em que se começava a delapidar o património mais valioso de uma família − a terra - o fim seria inevitável. Depois de tanto trabalho, suor e lágrimas, de tanto sofrimento para singrar na vida, aumentar e manter o património adquirido ao longo de toda uma existência, Wang Lung encontrava-se perante o seu mais temido pesadelo pela mão dos seus próprio filhos, provenientes de uma geração sem ligações afectivas à terra onde tinham nascido. Apesar dos avisos alarmistas do pai, fruto da sabedoria e da experiência de uma vida de trabalho e de privações, os filhos de Wang Lung apenas disfarçaram as suas intenções com palavras falsas, cientes da facilidade em levar por diante os seus planos após a morte do patriarca. A fixação de Wang Lung pela terra e a obtenção de mais terrenos ao longo da sua vida mostram bem a importância e o valor que aquela possuía para ele. Todo o seu esforço foi direccionado no sentido de deixar a terra para os filhos e descendentes.

A relação íntima de Wang Lung e de O-lan com a terra, sobretudo no início, é uma pedra basilar no romance. PSB descreve uma família de camponeses chineses que trabalha a terra de forma árdua, com ferramentas básicas, apenas à custa de trabalho braçal e força de animais, transportando aos ombros água e estrume em baldes feitos de terra, enquanto O-lan recolhe estrume seco e erva seca para servir de combustível. A autora enaltece as virtudes de um estilo tradicional de vida sã, que contrasta com os seus contemporâneos americanos, que se apoiam em tecnologias agrárias modernas para o tempo.
PSB dá a conhecer ao Ocidente uma cultura milenar, salientando os aspectos positivos da profunda interacção e integração com o meio ambiente. Apesar de mais atrasados nas técnicas agrárias, os camponeses chineses conseguiam obter melhores resultados com a diversificação das culturas do que os agricultores americanos do mesmo período, que optavam pela monocultura do trigo, correndo o risco de tudo perderem em caso de contratempos climatéricos. Numa época de grande turbulência nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, PSB publicou The Good Earth, uma obra que mostra bem a dureza da vida rural e dos frutos produzidos por esse esforço e dedicação à terra, ao contrário das políticas de desleixo e de não aproveitamento de recursos, bem como da pobreza resultante da falência de sistema económico americano.

A opressão das mulheres na cultura chinesa
A posição das mulheres na sociedade chinesa é abordada em The Good Earth por PSB através de uma das personagens mais importantes e centrais da obra, O-lan.
Através da sua história pessoal de escravatura na Grande Casa de Hwang, passa por todas as dificuldades da vida como mulher de um camponês, até ao momento de o ver trocá-la por uma concubina e desprezá-la. O-lan suporta tudo com o mesmo silêncio subserviente de sempre.
Apesar de ter assumido uma posição feminista de defesa dos direitos das mulheres ao longo de toda a sua vida, PSB assume uma posição neutra, mesmo um pouco distante, em relação à discriminação e à opressão sofridas pelas mulheres na China confucionista imperial. Ela opta pela descrição das práticas do enfaixamento dos pés das mulheres, do infanticídio feminino e da venda de filhas como escravas tendo, no entanto, o cuidado de mostrar as circunstâncias extremas em que tais actos quase bárbaros eram cometidos. A autora mostra ainda que o facto de os maridos terem concubinas, enquanto as mulheres trabalhavam como se fossem escravas, não faz deles homens cruéis ou maus mas apenas seres humanos que se comportam de acordo com as regras e com os princípios da sociedade vigente. O-lan, a heroína silenciosa, é a legítima representante das mulheres chinesas. O-lan, à semelhança das outras mulheres chinesas, conhece bem o seu lugar na sociedade, de acordo com as regras confucionistas “As Três Obediências e as Quatro Virtudes”84. As mulheres não eram tidas em grande consideração pela tradição confucionista chinesa, que encarava a mulher como um ser inferior. Os seguintes provérbios ilustram bem este aspecto: “Uma mulher sem talento é uma mulher de virtude” e “É mais rentável criar gansos do que filhas”. Qualquer que fosse o seu estrato social, as mulheres tinham que cumprir o seu destino, ter filhos homens.  O-lan, no entanto, apesar de cingida por leis rígidas de conduta moral, consegue intervir em momentos decisivos da história para salvar a família e, através de todo o seu trabalho, dedicação e sentido de oportunidade, proporcionar-lhe um futuro cada vez melhor. No início da obra, ficamos a conhecer O-lan através do olhar de Wang Lung. Ciente dos seus deveres como mulher, O-lan cumpre todas as suas obrigações por iniciativa própria sem um queixume, sem reivindicar nada para si. O próprio Wang Lung questionou-se sobre o porquê do seu silêncio, ficando intrigado com a atitude da mulher. Que razões esconderia ela? No entanto, para quê preocupar-se?  Com o passar do tempo, Wang Lung modifica a sua opinião em relação a O-lan. Quando chega o momento de dar à luz o primeiro filho, pára o trabalho no campo ao lado de Wang Lung, dizendo-lhe que chegou o momento do nascimento do filho. Chegada a casa, recusa qualquer ajuda, mesmo de uma parteira, e ainda consegue preparar o jantar antes de dar à luz sozinha, o que deixa Wang Lung muito surpreendido. Tudo o que ela faz ao longo da obra é feito em silêncio, demonstrando que não é só uma trabalhadora exímia, competente em todas as tarefas domésticas e de trabalho no campo, mas que também possui um espírito prático que a faz realizar tudo o que diz respeito à família com um enorme sentido de oportunidade. O-lan nunca deixa de trabalhar, nem mesmo quando está grávida. No dia em que nasce o segundo filho, deixa Wang Lung por algumas horas apenas para dar à luz, mas no final do dia está de volta ao campo e ao trabalho, surpreendendo o marido que, apesar disso, não se compadece do esforço que ela fez naquele dia e, de forma egoísta, não a impede de voltar à lavoura. É interessante verificar que O-lan vive em estreita relação com a Natureza e, como qualquer animal, dá à luz sem ajuda, sem um queixume, em condições que seriam impensáveis para qualquer mulher dos países ditos civilizados. O espírito empreendedor de O-lan é típico das camponesas chinesas, mas possui características muito próprias, com uma dedicação e diligência que ultrapassam qualquer outra mulher. Para além das inúmeras dificuldades e trabalho da vida de camponesa, O-lan ainda tem que suportar de forma estóica desgostos e dores psicológicas. Quando a região onde vivem é assolada por uma seca de grandes proporções e toda a família passa fome, O-lan é quem mais sofre. Grávida de uma filha, ela tem que fazer a dura opção de cometer infanticídio, ao matar o bebé à nascença, dado que não existem condições para alimentar mais uma boca. Wang Lung fica estupefacto. A atitude que O-lan toma é inevitável, em todas as circunstâncias, mas também por saber que Wang Lung não quereria uma filha naquele momento.
A prática de infanticídio feminino na China remonta a tempos feudais remotos. Numa sociedade na qual a mulher tinha pouco valor, ter filhas era considerado uma infelicidade, até mesmo um mau
presságio. Tendo em conta que o próprio Confúcio afirmava que a mulher era um ser inferior, classificando-as como “escravas” e “pequenas humanas”, tais práticas não surpreendem de todo dado que estão enraizadas na cultura chinesa, mantendo-se ainda hoje em dia. Com a política de restrição do número de filhos de apenas um por casal, os progenitores optam ou preferem ter um filho homem. As próximas gerações na China terão que lidar com as consequências desse acto, o facto de a breve prazo não existirem mulheres em número suficiente para os homens, quase os únicos a terem ainda direito à vida na China. O-lan teve que suportar a gravidez em tempo de fome extrema, para depois não poder deixar viver a filha. Em inúmeros momentos, a força interior e a presença de espírito de O-lan revelam-se de extrema importância para Wang Lung e para a família. Durante o período da fome, ela ajuda Wang Lung a resistir à proposta desonesta de venda das suas terras feita pelo tio e por dois especuladores da cidade, garantindo assim que a família possa mais tarde regressar a casa e à terra, e voltarem a ser auto-suficientes. Por outro lado, é ela quem impede os outros aldeãos de lhes saquear as mobílias, quando já não têm mais para comer. Impondo o respeito que o marido não conseguiu, O-lan enfrenta o tio e os homens de maneira frontal, exibindo a sua barriga de grávida. O-lan supera Wang Lung de várias formas, entre elas, ultrapassa-o no sentido prático, uma característica típica das mulheres. Por altura da grande seca e para impedir que a família morra de fome, a solução é Wang Lung matar o boi que o ajudava na lavoura, mas não consegue. Para ele, o boi era como uma extensão da terra, matá-lo seria destruir a possibilidade de trabalhar a terra. É O-lan que o mata, aproveitando tudo, desde o sangue até à carne. Wang Lung recusa-se a assistir à morte e esquartejamento do animal e só vai para a mesa quando a carne está cozinhada. Da mesma forma, quando se encontram mais tarde na grande cidade e o segundo filho traz para casa um pedaço de carne que roubou, O-lan revela possuir um sentido prático que Wang Lung não tem. Este fica furioso perante o facto de um filho seu ter cometido um furto. Pegou na carne e atirou-a para o chão, o que suscitou em O-lan uma reacção pronta e decidida: pegou na carne, lavou-a e voltou a colocá-la no tacho, deixando implícito que quem tem fome não se pode dar ao luxo de ter princípios morais. Apesar de O-lan ir contra algumas das decisões do marido, ela nunca o faz de forma ostensiva, sabendo bem que deve ser submissa a ele. A mulher é como se fosse a “executora” daquilo que Wang Lung não consegue fazer. O-lan é-nos apresentada como uma mulher limitada, estúpida até. Apesar de ela ser submissa e estar sempre muito calada, apercebemo-nos com o desenrolar da acção que ela é “very intelligent, thoughtful, and much more practical than Wang Lung − qualities that seem to have been lost in her silence.”. O seu silêncio tem raízes na tradição chinesa confucionista de exploração e opressão das mulheres, fazendo-as esperar tão pouco da vida. No caso de O-lan, o sofrimento e as privações são ainda maiores, dado que se encontrava no fundo da pirâmide social, por ser escrava, para além de mulher. Ao conseguir sair da Grande Casa de Hwang e da condição de escrava, para se casar com um camponês, O-lan entrega-se de corpo e alma à sua nova família, sendo capaz de suportar os maiores sacrifícios e humilhações. Por essas razões, ela habitua-se a suportar tudo em silêncio, numa obediência cega e muda, pois enquanto escrava fora oprimida e mal tratada durante dez anos da sua vida.
O-lan não passa apenas por dores e sofrimentos físicos, ela tem de enfrentar inúmeras situações que lhe causam enorme sofrimento. Desde sempre que carrega consigo o estigma da fealdade. O próprio Wang Lung constata esse facto desde o dia em que a foi buscar à Grande Casa de Hwang, mas não foi isso que a impediu de cumprir as suas obrigações, de ser uma mulher trabalhadora, obediente e de gerar três filhos homens. No entanto, não só o seu rosto mas também os pés grandes foram objecto de reprovação por parte de Wang Lung, quando a viu pela primeira vez. Mais tarde, o facto de O-lan não ter os pés enfaixados, seria também alvo de crítica e de repúdio por parte de Wang Lung. É curioso como até mesmo um camponês como ele sentia atracção, um certo fetiche, por uma mulher com os pés enfaixados. Porém, se O-lan tivesse os pés enfaixados ser-lhe-ia totalmente impossível trabalhar na lavoura, dada a incapacidade de andar muito ou apenas de permanecer de pé durante algum tempo, devido às dores provocadas. Ter os pés enfaixados significava que se pertencia a um estrato social elevado e era algo que os homens valorizavam. Quando Wang Lung se torna dono de muitas terras e a riqueza lhe sobe à cabeça, começa a criticar O-lan, exigindo que melhore a sua aparência, a sua forma de vestir. Nesse momento, não consegue deixar de reparar, mais uma vez, no aspecto horrível dos grandes pés de O-lan, esquecendo tudo o que ela fez por ele e pela família, e que não teria sido possível se ela tivesse os pés enfaixados. Esses comentários magoam-na de forma profunda. A intenção de enfaixar os pés da sua filha mais nova é para lhe proporcionar aquilo que ela não teve e permitir-lhe um futuro melhor, para que quando casar tenha um marido que goste dela, ao contrário do que se passou consigo. Com o passar do tempo, Wang Lung foi ficando cada vez mais distante e mais intolerante para com O-lan, sobretudo desde que começou a frequentar a companhia de Lotus. Um dos momentos mais difíceis para O-lan foi quando Wang Lung lhe pediu as duas pérolas com as quais ela tinha ficado. Essas pérolas pertenciam ao conjunto das jóias que ela tinha descoberto numa casa rica na cidade, onde tinham entrado misturados na multidão. O-lan tinha-as guardado para quando a filha mais nova se casasse. Wang Lung desdenhou essa razão, Wang Lung queria as pérolas para as oferecer a Lotus, a sua amante, por quem estava completamente perdido de amores. O-lan ficou destroçada. Mais tarde, Wang Lung descobre a verdade sobre o grande sofrimento da mulher através da filha mais nova. Nesse momento, apercebe-se do desgosto que ela sentiu, por ele a ter rejeitado. Wang Lung dá-se conta de como foi injusto e de como magoou O-lan, trocando-a por uma mulher cujo único propósito era satisfazê-lo como objecto sexual e que não possuía nenhuma das qualidades de O-lan, que permitiram que a sua família se tornasse próspera. O-lan é uma pedra basilar na existência de Wang Lung dado que, desde o momento em que ele a desposou, a sua qualidade de vida melhorou de forma exponencial. Antes da chegada de O-lan à casa dele, Wang Lung tinha que tomar conta de tudo na casa e do pai, para além de cuidar da terra, e a sua vida era miserável. Após o casamento, a mulher assume por completo todas as tarefas domésticas, levando Wang Lung a reflectir e a disfrutar.
Para Wang Lung, a sua vida tornou-se idílica e tudo graças à presença e aos cuidados constantes de O-lan. O-lan proporciona a Wang Lung uma felicidade e um orgulho que muito lhe apraz, por ter uma mulher que se destaca das outras camponesas, mulheres dos seus vizinhos.
Wang Lung deve muito a O-lan, de facto, quase tudo. Foi graças às jóias que ela descobriu na pilhagem à casa de ricos na grande cidade, que Wang Lung conseguiu comprar terras e mais terras, conduzindo-o a uma posição com a qual ele nunca tinha sonhado. Em vez de trazer mais felicidade, a prosperidade corrompe o coração e a integridade moral de Wang Lung, fazendo-o afastar-se pouco a pouco de O-lan, convencido de que, como rico proprietário de terras, merece mais do que uma simples ex-escrava como mulher. Por essa razão, passa a relacionar-se sexulamente com Lotus, negligenciando O-lan, não reparando que a saúde dela se agrava de dia para dia.
Quando O-lan adoece e fica incapacitada para gerir a casa, a família desmoronase. O seu afastamento em relação a O-lan corrompe o ambiente de harmonia existente em casa, que se deteriora em grande escala e se transforma em zangas e intrigas, instalando-se a doença no corpo desgastado de O-lan.
O descalabro na família de Wang Lung intensifica-se após a morte de O-lan, a força aglutinadora que unia e mantinha tudo em ordem. Tudo corre mal na sua ausência e os membros mais frágeis da família são os primeiros a sofrer, o velho pai e a filha deficiente. Wang Lung deixa-se influenciar pelo poder que o dinheiro lhe dá, esquecendo-se que caminha no mesmo trilho antes percorrido pela faustosa Casa de Hwang. O afastamento da terra e o deslumbramento provocado pelo dinheiro levam-no à perdição.

PSB mostra, desta forma, não só que as mulheres chinesas são melhores do que os homens como também a corrupção dos homens é fomentada pela sociedade vigente. Devido ao afastamento de Wang Lung da terra em prol dos prazeres que o dinheiro lhe confere, PSB retrata-o como alguém que se comporta de acordo com os cânones que lhe são impostos pela sociedade chinesa − os homens ricos devem disfrutar ao máximo dos prazeres da vida, vivendo de forma ociosa e satisfazendo os seus desejos mais carnais com as concubinas. Partindo deste exemplo, a autora cria uma obra sobre a ascensão e queda de um camponês chinês e, em simultâneo, destaca as enormes qualidades, o valor e os sacrifícios realizados por O-lan, uma digna representante das mulheres trabalhadoras de todo o mundo.


O discurso racial em The Good Earth
De que forma se pode falar na presença de uma “consciência de cor” na obra de Pearl?
Apesar de o romance não abordar de forma aberta o tema das questões raciais, detectam-se alguns pormenores em vários momentos do desenrolar da acção. É também importante perceber a razão pela qual The Good Earth atingiu tão grande popularidade numa altura em que o racismo dominava a cultura americana. O romance acabou por reflectir os valores das classes média e operária americanas na década de 30: “It reflects their valuing of the land and nostalgia for rural life in a time of expanding industrialism and urbanization.” 
The Good Earth apresenta aspectos relacionados com a influência que a pele de cor “clara” ou “escura” tem na vida e no status das personagens, sobretudo para Wang Lung. Quando este vai buscar O-lan à Grande Casa de Hwang, não encontra qualquer sinal de beleza no rosto dela, sendo os adjectivos “brown” e “dark” enfatizados e conotados pelo narrador como antíteses da beleza: “He saw that it was true there was not beauty of any kind in her face − a brown, common, patient face. But there were no pock-marks on her dark skin”
Impregnados pela terra que lhes dá vida, O-lan e o seu primogénito são vistos pelo narrador como seres “brown as the soil and they sat there like figures made of earth”, na sua condição de pobres camponeses de baixa condição social. Esta imagem de fealdade contrasta com a do momento em que Wang Lung pretende oferecer a uma prostituta as duas pérolas que O-lan tinha reservado para
o dia em que a sua primeira filha se casasse quando, muito irritado, ele diz-lhe: “Why should that one wear pearls with her skin as black as the earth? Pearls are for fair women!”, numa clara alusão ao desperdício que seria oferecer pérolas a um ser inferior, de pele escura como a terra.
Noutro momento, a pele clara é elogiada e privilegiada mais uma vez pelo narrador, quando é mencionada a beleza e a delicadeza da pele da sua segunda filha: “an exceedingly pretty girl
(…) Her skin was fair and pale as almond flowers”. 
Estas alusões à cor da pele não deixam margem para dúvidas:
“These descriptions privilege light skin, associating dark skin with rural life, poverty, and labor, and, in short, equating dark skin with lower-class status.” 
Durante a sua estada na cidade, Wang Lung depara-se com dois seres que nunca antes tinha visto, dois ocidentais, que o impressionam de sobremaneira, levando-o a reflectir acerca da origem e da condição daqueles homens e mulheres ocidentais na China. Fica patente mais uma vez a associação incontornável entre o tom da pele e a classe social. No primeiro encontro, Wang Lung conduz um passageiro, “a creature the like of whom he had never seen before. He had no idea whether it was male or female, but it was tall and dressed in a straight black robe (…) and there was a skin of a dead animal wrapped about its neck”.  A sua surpresa perante este acontecimento inusitado levou-o a indagar outro condutor de ricksha acerca do seu passageiro: “Look at this − what is this I pull?" And the man shouted back at him, "A foreigner − a female from America − you are rich”.  Este encontro faz Wang Lung reflectir sobre a relação entre a condição social baixa das pessoas de cabelo e olhos escuros, e a condição social elevada das pessoas de cabelo e olhos claros, que ele descobre existir: “after all people of black hair and black eyes are one sort and people of light hair and light eyes are of another sort.” Ao relatar este encontro a O-lan, esta conta-lhe que sempre pede esmola a esses estrangeiros, porque lhe dão moedas de prata em vez de cobre. Wang Lung toma, então, consciência de que pertence à sua própria espécie, ou seja, põe-se no seu lugar: “through this experience he learned what the young men had not taught him, that he belonged to his own kind, who have black hair and black eyes.”
No segundo episódio com um homem branco, Wang Lung dá boleia a um homem de “eyes as blue as ice and a hairy face”. Este encontro permite não só estabelecer um contraste entre raças mas, sobretudo, um contraste de culturas e de crenças religiosas. Neste momento do enredo, Pearl faz uma crítica acérrima à presença dos missionários ocidentais na China, quando Wang Lung se cruza com um missionário estrangeiro que lhe dá um papel para a mão. Apesar de intimidado pela presença e pelo aspecto do homem, Wang Lung não se atreve a recusar esse papel, mas só tem coragem para olhar para ele quando o estrangeiro se afasta.

PSB mostra, desta forma, através do olhar inocente de Wang Lung, o choque de culturas e de credos existente entre a China e o Ocidente. 
Para ele, a imagem de um homem quase nu pregado numa cruz é algo que suscita estupefacção e horror, ao contrário da piedade e reverência sentidas por um ocidental. À noite, quando chega junto da família, Wang Lung e o pai tentam decifrar o significado da imagem e das letras, mas sem sucesso. O pai conclui, “Surely this was a very evil man to be thus hung.” Wang Lung, por seu lado, ficou atemorizado com a imagem e com as razões que teriam levado aquele homem de aspecto tão frio a entregar-lhe aquele papel, bem como as consequências que dali pudessem advir: “But Wang Lung was fearful of the Picture and pondered as to why a foreigner had given it to him, whether or not some brother of this foreigner’s had not been so treated and the other brethren seeking revenge.” O-lan, por seu turno, revelou mais uma vez o seu lado prático de mulher habituada a lidar com as coisas de forma muito pragmática e viu no papel uma oportunidade para remendar a sola de um sapato: “after a few days, when the paper was forgotten, O-lan took it and sewed it into a shoe sole together with other bits of paper”. Para um ocidental crente, tal procedimento seria impensável, mesmo se a necessidade fosse muita, dado que constituiria um sacrilégio colocar a imagem de Cristo crucificado na sola de um sapato, que seria como estar a espezinhar a imagem. Estes contactos mostraram a Wang Lung que à pele branca ou mais clara estava associada a vida urbana, a riqueza e um status superior.

Noutra ocasião, Wang Lung recebe outro papel, desta vez entregue por um jovem chinês bem vestido que falava alto, enquanto distribuía os panfletos por entre a multidão de pessoas que se aproximavam para saber o que se passava. Ao olhar para a imagem nele contido, Wang Lung verificou que também se tratava de uma cena de morte e de sangue. No entanto, dessa vez não se tratava de um homem branco, de um estrato social superior, mas de alguém como ele, “a common fellow, yellow and slight and black of hair and eye and clothed in ragged blue garments.”, pertencendo à sua raça e classe social. A cena com que Wang Lung se deparou não era nada agradável: “Upon the dead figure a great fat one stood and stabbed the dead figure again and again with a long knife he held. It was a piteous sight.”. Perante a perplexidade de não entender o porquê da cena e dos caracteres por baixo, Wang Lung perguntou a um homem perto dele se sabia o que significavam. Foi aconselhado a escutar o “jovem professor”, o homem que distribuíra os panfletos, ouvindo pela primeira vez tais palavras:
“The dead man is yourselves," proclaimed the young teacher, "and the murderous one who stabs you when you are dead and do not know it are the rich and the capitalists, who would stab you even after you are dead. You are poor and downtrodden and it is because the rich seize everything.”

Esse discurso era, contudo, demasiado politizado e um tanto confuso para Wang Lung. Habituado a culpar o céu e os desígnios insondáveis dos deuses pela ausência ou pelo excesso de chuva, via-se agora perante um raciocínio diferente, proferido por aquele jovem bem falante. Intrigado, dispôs-se a escutá-lo até ao fim, para saber pormenores sobre as razões da seca e descobrir soluções para a mesma. Como o jovem nada disse sobre esse assunto, Wang Lung decidiu indagar: “Sir, is there any way whereby the rich who oppress us can make it rain so that I can work on the land?” A reacção do revolucionário foi de escárnio e insulto, rebaixando-o à sua condição de campónio ignorante e de costumes retrógrados, como o uso de uma longa trança no cabelo. Estas razões não satisfizeram Wang Lung nem um pouco. Aquele discurso podia ser muito eloquente mas não ia ao cerne da questão. E a terra? Só a terra permanecia, o dinheiro e a comida gastavam-se. E depois? Voltaria a haver fome, se não houvesse um equilíbrio entre o sol e a chuva, e o trabalho árduo dele para fazer a terra produzir alimentos. Apesar de tudo, não satisfeito com o discurso, não deitou fora o papel que lhe fora dado pelo jovem. Nas condições em que se encontravam, desterrados na cidade, tudo era aproveitado para enfrentar e minorar as dificuldades por que passavam: “Nevertheless, he took willingly the papers the young man gave him, because he remembered that O-lan had never enough paper for the shoe soles, and so he gave them to her when he went home.”

Embora The Good Earth não aborde de forma directa questões raciais, é feita, por um lado, uma alusão implícita e uma conotação positiva associada à pele clara, conotada com riqueza, luxo urbano e um estatuto social elevado; por outro lado, é feita uma alusão negativa à pele escura, associada à pobreza, às precárias condições rurais e a um baixo estatuto social. Ainda que tenha sentido de forma directa a discriminação por pertencer a uma raça diferente, enquanto estrangeira na China, PSB viveu protegida enquanto filha de missionários, com privilégios típicos das elites. A importância dada aos brancos e aos chineses de pele mais clara, e ao seu elevado estatuto social, referenciados em The Good Earth, parece contradizer a posição anti-racista de PSB e a sua posição pela defesa dos direitos dos mais desfavorecidos. No entanto, e apesar de The Good Earth apontar para uma certa supremacia “branca”, a escritora não fez mais do que retratar a sociedade chinesa da época como a conhecia e como a vivenciou, tornando-se inevitável mostrar que, de facto, uma pele mais clara era cobiçada como sinal de status social superior, por oposição a uma pele mais escura, muito menos delicada por ser típica dos camponeses, escurecida e tisnada pelo sol.



A imagem dos camponeses chineses em The Good Earth
De todos os sinólogos que procuraram mostrar e interpretar os chineses para os americanos, nenhum foi tão bem sucedido como Pearl Buck. Nenhuma obra teve um impacto tão grande como The Good Earth. De facto, pode-se afirmar que ela criou estereótipos dos chineses na mente dos americanos, da mesma forma que Charles Dickens o fez com as pessoas que viviam na Inglaterra Vitoriana. Nascida quase por acaso nos Estados Unidos, motivada pela convalescença da mãe missionária, PSB viveu quase a primeira metade da sua vida na China desde os três meses de idade, o que lhe conferiu características muito “chinesas” à sua personalidade e à sua escrita, quase consagrada na totalidade à China e ao Oriente.
Apesar de filha de missionários, Pearl acabou por abandonar os ideais e as crenças evangelizadoras, tornando-se num modelo de bondade, humanidade e com um espírito maternal, não só para com os chineses em particular, mas também para com todo o mundo em geral. The Good Earth foi a sua obra mais expressiva e que mais impacto teve nos Estados Unidos, apesar de abordar um tema banal, a vida
de um camponês chinês e da sua mulher e a sua luta contra a adversidade, contra a inveja e a crueldade dos homens e contra os desígnios da Natureza.
Esta obra mudou a forma como os americanos encaravam e viam os chineses − massa indistinta, sem rosto ou quaisquer sentimentos humanos. De acordo com a opinião de um jornalista citado por Isaacs no seu livro, PSB foi capaz de alterar por completo a visão errada que a América tinha da China,
transformando os chineses em seres humanos, após a sua obra ter vindo a público. The Good Earth teve esse mesmo efeito, através da história das personagens Wang Lung e O-lan. Criou sentimentos de empatia para com a partilha universal das emoções fortes vividas por eles, do sofrimento, dos sacrifícios, alegrias, tristezas, fraquezas e aspirações: “She has a truly extraordinary gift for presenting the Chinese, not as quaint and illogical, yellow-skinned, exotic devil-dolls, but as human beings merely, animated by motives we can always understand”. Por esse motivo, Wang Lung e O-lan “are certainly the first such individuals in all literature about China with whom literally millions of Americans were able to identify warmly.”.

Ao contrário de outros autores que escreveram sobre a China, como Lin Yutang, que, em My Country and My People, se debruçou sobre a delicadeza dos modos e da sabedoria chinesas, Pearl Buck escreveu acerca dos mais inferiores de todos os chineses, os camponeses, e da sua dura vida pela sobrevivência. 

O filme trouxe ainda maior notoriedade à obra escrita e contribuiu para reforçar a imagem positiva do povo chinês.






sábado, 16 de maio de 2020

Minha Mãe


Elena Shumilova





Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: - Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


Vinicius de Moraes






UMA VIOLA-DE-AMOR







Dêem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim... "Sairei de mim mesmo e irei ao encontro das flores humildes dos caminhos e das lentas aves dos crepúsculos, cujo pipilo suspende na paisagem uma lágrima que nunca se derrama. Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais...

"Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos...

"Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o carnponês a consertar a roda do seu carro...

"Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol...

"Possa eu mirar novamente os pélagos e compreendê-los; atravessar os desertos e amá-los. Possa eu deitar-me à noite na areia das praias e manter com as estrelas em delírio o colóquio da eternidade. Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem deliqüescência...

"Bem haja o meu irmão no meu caminho, com as suas úlceras à mostra, que a ele eu hei de curar e dar abrigo no meu peito, Bem haja no meu caminho a dor do meu semelhante, que a ela estarei desvelado e atento...

"Seja a mulher a mãe, a esposa, a amante, a filha, a bem-amada do meu coração; possa eu amá-la e respeitá-la, dar-lhe filhos e silêncios. Possa eu coroá-la de folhas da primavera em seu nascimento, seu conúbio e sua morte. Tenha eu no meu pensamento a idéia constante de querê-la e lhe prestar serviço...

"Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo...

"Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm. Pois o meu coração está com a ovelha e não com o lobo; com o condenado e não com o carrasco…

"E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...".

Dêem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste, de tanta vã mentira que lhe ensinaram.



VINICIUS DE MORAES
in, PARA UMA MENINA COM UMA FLOR