quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Innov Gnawa - Toura Toura

Vem sentar-te comigo






Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
.
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses:
.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no
regaço.



RICARDO REIS
in, ODES DE RICARDO REIS





terça-feira, 6 de agosto de 2019

Baba Aziz O Príncipe que Contemplava sua Alma

                                               


O filme inicia-se com a história de um dervixe chamado Baba Aziz e sua neta, Ishtar.
Juntos, percorrem o deserto para uma grande reunião de dervixes que ocorre uma vez a cada 30 anos. Tendo a fé como único guia, os dois viajam por vários dias pela imensidão.
Para ajudar a suportar a viagem, Baba Aziz passa a contar a história do príncipe que deixou o seu reino para contemplar a sua alma ao lado de um pequeno lago no deserto.
No decorrer da narrativa, os viajantes encontram outros que também contam suas histórias.

Baba Aziz (Parviz Shahinkhou), é um velho sufista cego que, junto com sua neta espiritual Ishtar (Maryam Hamid), uma menina com cerca de dez anos, percorre durante dias um oceano de areia em direção a uma reunião de dervixes (monges e mendicantes maometanos) que ocorre a cada 30 anos.
O sábio homem conhece a natureza em que está, suas belezas e adversidades e, é escutando o silêncio do deserto e a sua intuição, que descobre qual a direção correta a seguir. A todo tempo ele procura estabelecer contato com Deus por meio de práticas espirituais. O caminho que trilha vai ao encontro de uma vida interior rica, incluindo o respeito ao próximo, o amor, a cortesia e a doçura.
Ao longo do filme ele passa seus ensinamentos à jovem Ishtar que, como ele próprio a descreve, “é uma criança, mas tem espírito velho”. A menina, como tantas outras da sua idade, é curiosa, sonhadora, apaixonada por histórias e pela música, se deslumbra por tudo aquilo que anima a sua imaginação. Ansiosa e sem saber exatamente para onde caminha, a menina questiona o avô sobre o local do encontro. Sem a resposta e com medo do incerto, pede a Baba Aziz que não prossigam, pois certamente irão se perder. Mas o velho afirma seguramente que “quem tem fé nunca se perde”, lição que logo será comprovada pela pequena.
A dado momento, Ishitar se depara com um grupo de peregrinos indo em certa direção e quer segui-los, mas seu avô a alerta que cada um deve achar seu próprio caminho para o encontro.
Para a entreter durante a longa viagem, Baba Aziz conta-lhe a história de um príncipe que segue uma gazela através do deserto, deixando para trás a sua vida de luxúria. Após alguns dias ausente, ele é encontrado olhando a sua imagem num pequeno lago. Um dervixe que o observa garante que o príncipe está a contemplar a sua alma.
O conto permeia todo o filme e no final revela uma relação surpreendente com a neta e o avô.
Nesta jornada, a dupla encontra outros personagens que carregam histórias curiosas e ilustram os anseios do sufismo. Este é o caso de Osman (Mohamed Grayaa), que salta para um poço para tentar voltar ao palácio onde encontrou a sua amada, e Zaid (Nessim Kahioul), que anda em busca da bela Noor, mulher que fugiu com as suas roupas, documentos e seu coração após uma noite de amor.

Repleto de imagens maravilhosas e belíssima música, Nacer Khemir criou uma fábula inédita e encantadora, filmada nas areias da Tunísia e do Irão.
O roteiro deste filme foi escrito pelo próprio Khemir, em parceria com Tonino Guerra.

Baba Aziz tem forte influência do formato narrativo das Mil e uma noites, no qual Khemir cultua e cultiva ainda mais profundamente a cultura árabe clássica. Ao mesmo tempo, permite-se uma transposição para o novo e estabelece uma porta para a compreensão – e para a falta dessa – em torno do árabe contemporâneo, essencialmente após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001.

Em diferentes entrevistas dadas por Khemir por ocasião do lançamento do filme, ele deixa claro o seu desejo de mostrar a beleza da cultura árabe, sua riqueza de características muito viva e presente.
Além disso, salienta de forma subtil que a cultura árabe islâmica é uma cultura de paz e de encontro, podendo o sufismo ser um elo que une ainda outras culturas e línguas.

Como bem descreveu o professor Michel Sleiman ao comentar o filme Baba Aziz, tal “inova no tratamento dos temas do sufismo, explorando de maneira fresca a relação mestre-discípulo, ao colocar um velho e uma menina criança, afirmando ser a menina ‘antiga de espírito’, embora tão nova na idade. Inova também por incluir o feminino na busca da sabedoria e da união com o divino, descerrando a cortina do machismo histórico”.

Embora tenha sido finalizado em 2004, Baba Aziz foi lançado somente em 2008, tendo atingido um número bastante elevado de exibições em diferentes salas de cidades dos EUA e da Europa, fato inédito para uma produção independente. Nesse sentido, há que se salientar o excelente trabalho do TypeCast, um distribuidor especial de filmes independentes que representam culturas que normalmente encontram pouca visibilidade e são pouco exploradas pelo cinema moderno.

Com cenários exuberantes, cheios de cores e sabores, Baba Aziz traz a possibilidade da vida na morte e do renascimento em todos os momentos.

Quem escuta o silêncio e o próprio coração encontra o caminho certo a seguir e para isto é necessário estabelecer um contato direto com a Fonte por meio do auto-conhecimento, da valorização do ser humano, do amor, da beleza interior, do desenvolvimento das virtudes espirituais, do sentimento puro e do desapego material.
Esta é a mensagem na qual se apoia o filme Baba Aziz, do diretor tunisiano Nacer Khemir.
O enredo da produção desenrola-se nas estonteantes paisagens dos desertos da Tunísia e do Irão, com belíssimas representações da tradição árabe e a arte que este povo desenvolveu de contar histórias.

A banda sonora dá ritmo e ainda mais emoção às cenas.
É um filme que nos instiga a saber mais e compreender o que os personagens tanto caminham para encontrar. Quase um conto de fadas, é uma expressão mística do Islão.







Learning to sing





There is a brokenness
out of which comes the unbroken,
a shatteredness
out of which blooms the unshatterable.
There is a sorrow
beyond all grief which leads to joy
and a fragility
out of whose depths emerges strength.

There is a hollow space
too vast for words
through which we pass with each loss,
out of whose darkness
we are sanctioned into being.

There is a cry deeper than all sound
whose serrated edges cut the heart
as we break open to the place inside
which is unbreakable and whole,
while learning to sing.


Rashani Réa





Stop trying to heal yourself





Stop trying to heal yourself, fix yourself, even awaken yourself. Let go of letting go. Stop trying to fast-forward the movie of your life, chasing futures that never seem to arrive.
Instead, bow deeply to yourself as you actually are. Your pain, your sorrow, your doubts, your deepest longings, your fearful thoughts are not mistakes, and they aren’t asking to be healed. They are asking to be held.
Here, now, lightly, in the loving arms of present awareness… 

 ~ Jeff Foster




segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Poema De Agradecimento À Corja





Obrigado, excelências.

Obrigado por nos destruírem o sonho 
e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.

Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar 
de como é possível viver 
sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.

Obrigado por nos roubarem. 
Por não nos perguntarem nada. 
Por não nos darem explicações.

Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos 
e às quais temos direito.

Obrigado por nos tirarem até o sono. 
E a tranquilidade. 
E a alegria.

Obrigado pelo cinzentismo, 
pela depressão, 
pelo desespero.

Obrigado pela vossa mediocridade. 
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.

Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias 
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.

Obrigado por não disfarçarem 
a cobiça, a corrupção, a indignidade. 
Pelo chocante imerecimento 
da vossa comodidade e da vossa felicidade 
adquirida a qualquer preço. 
E pelo vosso vergonhoso descaramento.

Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, 
o que nunca deveremos fazer, 
o que nunca deveremos aceitar.

Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. 
Para que não sejamos também assim. 
E para que possamos reconhecer facilmente 
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa




O Naufrágio das Civilizações





Quando observamos a evolução do mundo ao longo das últimas décadas, não podemos deixar de nos surpreender com um paradoxo perturbador: no plano da ciência, da tecnologia e também da economia, há avanços sem precedentes na História. Vivemos durante mais tempo e com melhor saúde. Temos à nossa disposição todo o saber dos homens e muitos instrumentos que nos facilitam a vida. Testemunhamos o desenvolvimento económico das nações mais populosas do mundo, como a China ou a Índia. Tudo isto é, sem dúvida, fascinante, mas o progresso moral da Humanidade não segue o mesmo ritmo. Alguns acontecimentos parecem mesmo uma verdadeira regressão moral...
(...)
Um “mundo em decomposição”. Porquê?
Porque nada foi feito para travar essa deriva. Infelizmente, observamos isso em relação a vários domínios. Tomemos, como exemplo, a questão das alterações climáticas. Falamos disso constantemente, exprimimos as nossas preocupações, mas será que estamos a usar todos os meios para suster esta deriva? De modo algum. É como se, no fundo, não acreditássemos que o risco é real. Ou como se esperássemos que o problema se resolvesse sozinho, como por magia, sem termos de lidar com ele. O mesmo acontece com as derivas identitárias. Falamos disso sem cessar, mas a verdade é que não procuramos resolver os problemas...
(...)
Vivemos num mundo onde, graças ao progresso nas comunicações, estamos em permanente contacto com os nossos contemporâneos. Podemos até dizer que cada um de nós tem milhares de milhões de vizinhos, alguns dos quais no mesmo país, na mesma cidade, na mesma rua. Como organizar as relações entre todas estas pessoas, de inúmeras origens, para evitar as tensões, as discriminações, as incompreensões, os ódios e as violências? Todas as sociedades contemporâneas enfrentam esta situação, algumas delas vivendo num estado de tensão permanente que perturba o seu clima político e intelectual, que pesa sobre a sua vida diária.
Uma parte significativa da população sente-se marginalizada, perdeu a fé no futuro e sente que os responsáveis políticos não se preocupam com o seu destino, porque têm outras prioridades.



Amin Maalouf
in, O Naufrágio das Civilizações





domingo, 4 de agosto de 2019

Sound & Silence Experience @ Corfu, Greece 2016

Desfloramento





Venho das noites escuras 
e aprendi a ver nas trevas 
e a ler nas trevas. 
Venho das noites escuras 
e sei o grande soluço das sombras 
e os cânticos impotentes dos peregrinos. 
Venho das noites escuras 
daí o meu amor imenso pela luz! 
Quanto mais treva era a treva 
melhor eu aprendia a amar a luz do sol
e dos meus olhos sempre mais e mais abertos 
a luz interior irradiando aniquilava as sombras... 
E sendo sempre noite já a pouco e pouco era mais manhã. 
E cada vez mais enorme e definitiva a manhã subia
apesar da treva apesar do silêncio apesar de tudo! 
O negrume da noite era uma incandescência prenhe.

A flor romântica da treva esfolhou-se-me nos dedos. 
E então nasci. 
E então vi que estava nu
e alegrei-me por estar nu
enfim! 
Sorvi os frutos da terra
e já não me souberam a papel impresso! 
Sacudi a poeira do que me tinham ensinado
e comecei a saber. 

Sob as palavras surgiu enfim a voz
e a canção ardente da vida já não encontrou algodão 
nos meus ouvidos. 

Ah! Só quem veio das trevas e das noites escuras 
pode amar assim o imenso mundo do sol! 


Adolfo Casais Monteiro





Wild & Free





"Every woman in her truest nature is Wild.
Not that she has a reckless lifestyle or enjoys partying a bit too much, although if that is your cup of then completely accept that and live it.
Wild, in the sense I am speaking of here, means that she has a deep soul-craving to explore, to create, to wander and to discover herself again and again in new and surprising ways. The wild woman is infused with life. She isn't afraid to Dance to the beat of her own drum. She's the truth-teller. She uses passion and intuition to lead her to and through all the world. She dares and creates and destroys- she makes all creative acts and arts possible..."




sábado, 3 de agosto de 2019

Love was the antidote


Alexander Eravoev





I fell In love with a wound,
then I let go.
Walking through a dark corridor haunted by my past. 
I began to close those doors. 
One by one. 
Each door representing a wound, a trauma, an attachment. 
I let go, I let go of the old stories.
Some of which weren’t mine to carry. 
I had become a prisoner of others fate. 
So I reclaimed my sovereign self.
Remembered who I was.
Turned my love unto myself, 
As if by magic, 
that dark corridor filled with open doors to my past 
disappeared. 
The spell was broken, the needs vanished. 
The trauma cycle broken.
I fell in love with me again. 
Illuminated from the inside, 
centered within my own power. 
Grace returned to my heart. 
Forgiveness was the gift I gave to myself. 
Focus and alignment was the task at hand. 
Self worth was the medicine.
Love was the antidote. 
Healed, Renewed, Reborn....


Saffron Hughes








As Ovelhas Negras da Família





As chamadas "ovelhas negras" da família 
são, na verdade, 
caçadores natos de caminhos de libertação
 para a árvore genealógica.


Os membros de uma árvore que não se adaptam às normas ou tradições do sistema familiar, aqueles que desde pequenos procuravam constantemente revolucionar as crenças, indo em direção contrária ou diferente dos caminhos marcados pelas tradições familiares, aqueles criticados, julgados e mesmo rejeitados, esses, geralmente são os chamados a libertar a árvore de histórias repetitivas que frustram gerações inteiras.

As "ovelhas negras", as que não se adaptam, as que gritam rebeldia, cumprem um papel básico dentro de cada sistema familiar, elas reparam, apanham e criam o novo e desabrocham ramos na árvore genealógica.

Graças a estes membros, as nossas árvores renovam as suas raízes. Sua rebeldia é terra fértil, sua loucura é água que nutre, sua teimosia é novo ar, sua paixão é fogo que volta a acender o coração dos ancestrais.

Incontáveis desejos reprimidos, sonhos não realizados, talentos frustrados de nossos ancestrais se manifestam na rebeldia dessas ovelhas negras procurando realizar-se. A árvore genealógica, por inércia quererá continuar a manter o curso castrador e tóxico do seu tronco, o que faz a tarefa das nossas ovelhas um trabalho difícil e conflituoso.

No entanto, quem traria novas flores para a nossa árvore se não fosse por elas?
Quem criaria novos ramos?
Sem elas, os sonhos não realizados daqueles que sustentam a árvore gerações atrás, morreriam enterrados sob as suas próprias raízes.

Que ninguém te faça duvidar, cuida da tua"raridade" como a flor mais preciosa da tua árvore.

Tu és o sonho de todos os teus antepassados.


Bert Hellinger




sexta-feira, 2 de agosto de 2019

INSTANTES





Se eu pudesse viver novamente minha vida, Na próxima,
trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão
perfeito, relaxaria mais, Seria mais tolo ainda do que
tenho sido, Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico, correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria
mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da vida: claro que tive momentos
de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feita
avida, só de momentos; não perca o agora. Eu era um desses
que nunca ia a parte alguma sem um termómetro, uma bolsa de
água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse
a viver viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no
começo da primavera e continuaria assim até o fim do
outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo.


Nadine Stair





........................ sacrificar uma amizade pela política





Em nosso tempo, aprendemos a submeter a amizade àquilo que chamamos de convicções. E até mesmo com o orgulho de uma retidão moral. É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa certeza ou verdade. Ao contrário da fidelidade pueril a uma convicção, a fidelidade a um amigo é uma virtude, talvez a única, a última. Hoje eu sei: na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é a das amizades feridas; e nada é mais tolo do que sacrificar uma amizade pela política. 

Milan Kundera





quarta-feira, 31 de julho de 2019

TRAZ-ME UM TEMPO





Traz-me um tempo sem mistério. 
Um tempo sem mácula e límpido, 
comigo sentado na soleira 
por entre o zunido dos insetos 
e a cantilena dos homens no lagar.

Devolve-me os gestos que julgava perdidos.
Não me fales de viagens! 
De cidades onde não vivi, 
dos corpos que consumiste 
em aventuras mais ou menos frustradas, 
quando eu nem miragem era.

Cala o que me desarma, 
o que me avoluma o tédio:
a imagem desses bares onde bebias, 
nessas noites em que tropeçavas noutros 
e eu não passava de uma impossibilidade 
a fermentar numa paisagem 
antecipadamente derrotada.

Concede-me de novo esse tempo sem mistério, 
um tempo cristalino, 
um tempo de loucura e inocência, 
um tempo de desejos transparentes, 
de corpos ardentes e simples 
como só as coisas puras conseguem ter.


VICTOR OLIVEIRA MATEUS 
in, AQUILO QUE NÃO TEM NOME




O ego não sobrevive à entrega






“A aceitação e a entrega se tornam muito mais fáceis quando você percebe que todas as experiências são fugazes e se dá conta de que o mundo não pode te oferecer nada que tenha um valor permanente. Ao aceitar e entregar-se, você continua a conhecer pessoas e a se envolver em experiências e atividades, mas sem os desejos e medos do “eu” autocentrado. Você deixa de exigir que uma situação, uma pessoa, um lugar ou um fato te satisfaça ou te façam feliz. A natureza imperfeita de tudo pode ser como é. A ironia é que, quando você deixa de fazer exigências impossíveis, todas as situações, pessoas, lugares e fatos ficam satisfatórios, harmoniosos, serenos e pacíficos. Quando você deixa de resistir internamente, abre-se para a consciência livre de condicionamentos, que é infinitamente maior do que a mente humana. Essa vasta inteligência pode então se expressar através de você e ajudá-lo tanto por dentro quanto por fora. É por isso que, ao parar de resistir internamente, você costuma achar que as coisas melhoraram.
Você acha que estou lhe dizendo: “Aproveite o momento, seja feliz”? Não. Estou dizendo para você aceitar este momento tal como ele é. Isso já basta.
A aceitação e a entrega existem quando você não se pergunta mais: “Por que isso foi acontecer comigo?”. A História mostra homens e mulheres que, ao enfrentarem uma grande perda, doença, prisão ou a ameaça de morte iminente, aceitaram o que era aparentemente inaceitável e assim encontraram “a paz que vai além de toda compreensão”.”

“Há situações em que nenhuma resposta ou explicação satisfaz. Nesses momentos a vida parece perder o sentido. Ou alguém em desespero pede sua ajuda e você não sabe o que fazer ou dizer. Mas quando você aceita plenamente que não sabe, desiste de lutar contra a resposta usando o pensamento de sua mente limitada. Ao desistir, você permite que uma inteligência maior atue através de você. Até mesmo o pensamento pode se beneficiar disso, pois a inteligência maior flui para dentro dele e o inspira.”

“Às vezes entregar-se significa desistir de querer entender, e sentir-se bem com o que você não sabe. Quando você se entrega, a noção que tem de si mesmo muda. O “eu” deixa de se identificar com uma reação ou um julgamento mental e passa a ser um espaço em torno dessa reação ou desse julgamento. O “eu” não se identifica mais com a forma – o pensamento ou a emoção – e você se reconhece como algo sem forma: o espaço da consciência.”

Deixe que a Vida seja!



Eckhart Tolle
in,O Poder do Silêncio






terça-feira, 30 de julho de 2019

AS BOAZINHAS QUE ME PERDOEM





Qual é o elogio que toda mulher adora receber?
Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns 700: mulher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais. Diga que ela é uma mulher inteligente e ela irá com a sua cara. Diga que ela tem um ótimo caráter, além de um corpo que é uma provocação, e ela decorará o seu número. Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua presença de espírito, da sua aura de mistério, de como ela tem classe: ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa. Mas não pense que o jogo está ganho: manter-se no cargo vai depender da sua perspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta. Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe, que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades, que ela é um avião no mundo dos negócios. Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade, seu bom gosto musical.
Agora, quer ver o mundo cair? Diga que ela é muito boazinha.

Descreva aí uma mulher boazinha.
Voz fina, roupas pastéis, calçados rentes ao chão. Aceita encomendas de doces, contribui para a igreja, cuida dos sobrinhos nos finais de semana. Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor. Nunca teve um chilique. Nunca colocou os pés num show de rock. É queridinha. Pequeninha. Educadinha. Enfim, uma mulher boazinha.

Fomos boazinhas por séculos. 
Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada, ceguinhas. Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e nenezinhos. A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas, crucifixo em cima da cama, tudo certinho. Passamos um tempão assim, comportadinhas, enquanto íamos alimentando um desejo incontrolável de virar a mesa. Quietinhas, mas inquietas.

Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coitadinhas.
Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes, estrelas, profissionais.
Adolescentes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen.
Ser chamada de patricinha é ofensa mortal.
Pitchulinha é coisa de retardada.
Quem gosta de diminutivos, definha.

Ser boazinha não tem nada a ver com ser generosa.
Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo.
As boazinhas não têm defeitos. Não têm atitude. Conformam-se com a coadjuvância. Ph neutro. Ser chamada de boazinha, mesmo com a melhor das intenções, é o pior dos desaforos.

Mulheres bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas, apressadas, é isso que somos hoje. Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos.
As inhas não moram mais aqui.
Foram para o espaço, sozinhas.



Martha Medeiros



Confissão





esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.



Charles Bukowski




Ludovico Einaudi - Fly (Intouchables Soundtrack)

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Do not ignore


David Uzochukwu





Do not ignore and push down the symptoms, feelings and uncomfortable edges that arise within the body. They are messengers who’s voices need to be heard, so you can understand which way to go on your healing journey. Let those messengers enter, give them space, welcome them and work with them so they can go on their way; having done the job of guiding you away from destruction. 
 ~ Brigit Anna McNeill