sexta-feira, 19 de abril de 2019

Notre Dame






O que me irrita genuinamente na maioria das críticas/análises que eu vejo sobre Notre Dame é um sentimento profundo de que elas simplesmente não vêem o óbvio, aquilo que uma sociedade pós-iluminista nos treina para não ver, mas que qualquer grupo humano até há 300 anos atrás veria.
Essas duas coisas coisas são: 
A riqueza hermenêutica do evento que quase nos pede que o interpretemos, e a noção de que o mundo funciona principalmente por causa de agências não humanas (sejam elas Deus, deuses, demónios, a alma do mundo ou os espíritos do local).

A catedral de Notre Dame ardeu no primeiro dia da semana santa, o período mais importante do cristianismo que conduz àquilo que, do ponto de vista cristão, é o momento de redenção total da humanidade e a vitória final de Cristo sobre a morte. A torre principal da catedral ardeu e caiu, e algumas notícias apontam para que a reconstrução vá ser difícil por já não haver árvores grandes o suficiente em França para replicar a estrutura. Depois do evento, várias das pessoas mais ricas de França fizeram doações milionárias para a reconstrução da catedral. Tão milionárias que custa sequer imaginar a quantidade de dinheiro. As doações foram seguidas de críticas duras a noções de cultura como separada de projetos opressivos de poder, à distribuição da riqueza, a hábitos caridosos desadequados etc.
O interessante, mais uma vez, é que o evento se perdeu na crítica.

Para pessoas com interesse em tradições religiosas, e principalmente adivinhatórias, estas críticas soam pobres porque falham em reconhecer a voz da própria catedral, do génio do sítio que ardeu e que se expressou no incêndio.
No fundo, do presságio de Notre Dame. 
Qualquer crítica à preocupação das pessoas em ver a catedral a arder quando existem tragédias em Moçambique, quando o ambiente está a ser destruído, quando a Europa se radicaliza à direita, ignora que todas essas críticas estão contidas no próprio evento do fogo. A catedral arde por causa dessas coisas, não apesar dessas coisas, da mesma maneira que o Museu Nacional do Rio de Janeiro arde um mês antes da eleição do Bolsonaro. O incêndio, em ambos os casos, é a crítica mais cerrada ao estado do mundo.

Uma leitura deste tipo implica uma atitude simbólica perante a realidade, a ideia de que ela pode ser interpretada como uma obra de arte, e a ideia de que ela se pode expressar e protestar. O incêndio da catedral transforma-se ele mesmo numa teofania, numa imagem igual a tantas outras imagens religiosas.

É impossível não ver o décimo sexto arcano do tarot na torre de Notre Dame que ruiu, é impossível não associar a destruição da nossa senhora de Paris com as imagens cristãs, abundantes, do coração dilacerado da Virgem Maria. É impossível, a esta luz, não ver a compulsão dos ricos em esconder o presságio. Doações milionárias para disfarçar o facto de que até uma das catedrais mais famosas da Europa já não pode com eles. 

As doações são mal aplicadas porque também elas falham em ler a crítica. A lição do mito da Torre de Babel não é que havia poucos milionários para a reconstruir, é que a sua destruição era em si mesma uma crítica ao ethos de uma sociedade inteira que procurava o domínio do(s) mundo(s). A queda da torre de babel era uma crítica à húbris humana, e se milionários a tivessem tentado reconstruir, a húbris só teria sido amplificada.

A razão porque eu insisto nesta leitura é que o desespero cru das pessoas que gostavam da catedral porque se apaixonaram por ela, pelo seu lugar, talvez até pelo templo de Júpiter sobre o qual foi construída, é injustiçado nas críticas que têm sido feitas. As pessoas não sofrem por Notre Dame *apesar* do estado do mundo, elas sofrem por Notre Dame *por causa* do estado do mundo que ela representa metonimicamente.

A compulsão de restaurar a catedral com todo o dinheiro possível é, naturalmente, um defeito do literalismo que assombra os nossos dias. O que quer que a catedral possa representar para quem faz as doações, a expectativa é que o resultado seja a cura.
Se alguém vê em Notre Dame o “estado da cultura ocidental”, o passo literalista é recuperar a catedral para recuperar a cultura.
Se alguém vê nela o “estado do mundo”, as doações escondem o literalismo de resolver o estado do mundo na reconstrução da catedral.
Mas a questão com o literalismo é que ele é o problema, não a solução.
A compulsão de corrigir o presságio fazendo doações revela a ideia (puramente capitalista ocidental) de que atirar dinheiro a um problema com força suficiente faz com que o problema vá embora. Deixarmo-nos cair nesta leitura é deixar que a catedral tenha ardido em vão, é recusar a sua mensagem, a sua agência no fogo em si.

Júpiter, senhor de Notre Dame antes da Virgem Maria, viaja agora por um signo de fogo no céu.
Zeus Xenos, dos estrangeiros, que ofendemos com o aumento da xenofobia na Europa.
Zeus Phyxios, do refúgio, que ofendemos com a nossa gestão trágica da crise de refugiados.
Zeus Laiotes, do povo, que ofendemos com o nosso desprezo crescente pela democracia.
Zeus Labrandeus, furioso, que nos relembra que não podemos continuar a deixar o mundo a ferro e fogo impunemente.
Zeus Semaleos, dador de sinais, sinais que não podemos continuar a ignorar.


Simão Cortês



quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Segredo de Compostela






Sobre o segredo de Santiago de Compostela…afinal não é o apóstolo Tiago que está lá enterrado mas sim, Prisciliano.

Este livro leva-nos a fazer várias perguntas logo no início:

  1. E se no destino final a que nos conduzem os místicos caminhos de Santiago se esconder um dos segredos mais bem guardados do Ocidente?
  2. Afinal, quem está sepultado no túmulo?
  3. Qual o sentido atual das peregrinações a Santiago de Compostela?


Prisciliano, líder carismático do século IV e pioneiro defensor da igualdade das mulheres e dos valores do Cristianismo primitivo, é a figura preponderante neste enigma secular. De pagão tornou-se um sedento de conhecimento e de outras culturas para acabar por ser decapitado como herege e devedor. Pelo meio converteu-se à cristandade e tornou-se asceta. Comprometido com a força da sua espiritualidade, viveu no coração os sobressaltos de um amor proibido, envolto em ciúmes e intrigas. Apesar de aclamado bispo pelo povo, Prisciliano tornou-se no primeiro mártir da sua Igreja, a quem a História ainda não prestou o devido reconhecimento.
Foi decapitado em praça pública acusado de bruxaria.

A história acontece na Península Ibérica no Séc IV durante o Império Romano.
É um livro de investigação histórica, como todos os livros de Alberto S. Santos, e por isso se tornam muito mais interessantes por serem histórias verídicas. São aulas de história…
Fala sobre o confronto religioso entre o Paganismo e o Cristianismo emergente nessa altura.
No século IV as “inovações” facilmente se confundiam com bruxaria, e os chamados então de Priscilianistas, à medida que convertiam fiéis à sua causa, semeavam discórdia e cultivavam inimigos. Demasiado à frente do seu tempo, Prisciliano, considerava que todos os seres humanos eram iguais, incluindo mulheres e escravos. São um grupo diferente que defende a comunhão com a natureza, a vida longe de excessos, a amizade, a bondade e uma total dedicação à religião. Mas, tais filosofias foram a causa da sua morte, comum a todos os profetas.
A incrível atualidade desta situação fez-me pensar como hoje em dia muitas lutas se ganham e se perdem por motivos que nada têm a ver com as causas.
Mais importante que saber quem secretamente está sepultado em Compostela, uma dúvida que só tem a importância que a fé de cada um lhe atribui, é conhecer o percurso de vida deste homem que só quis aprender e ensinar.

“Elpídio acompanhava a discussão com os olhos esbugalhados de interesse. Estava cada vez mais claro para Prisciliano que a viagem de Elpídio a Alexandria estava relacionada com uma intensa sede de sabedoria. E Prisciliano, um rapaz que todos consideravam brilhante, sentia-se cada vez mais insignificante ao contactar tais seres. Àquela hora da viagem já não era o mesmo Prisciliano que aportara no Eunostos, deslumbrado com a cidade desconhecida, acompanhando o tio Sabino na busca da cura. Agora, ele próprio se sentia doente. O verdadeiro doente. Sofria as dores da ignorância por assuntos debatidos pelas mais sábias pessoas do século. As questões ontológicas e metafísicas nunca haviam sido a sua prioridade. Mas o ar que respirava em Alexandria era diferente de tudo o que conhecia. Despertava-o interiormente para inquietações que não imaginaria existirem sequer. E estremecia por o acaso lhe ter concedido a benesse de o colocar entre gente tão sábia. Olhou para Elpídio e agradeceu-lhe intimamente por tudo o que estava a viver. A seguir, recordou Egéria. Sem perceber a razão, pressentiu uma corrente espiritual que o conectava com ela, ao mesmo tempo que um sobressalto interior.”

Santiago, personagem do livro O Alquimista, de Paulo Coelho, caminhou na imensidão do deserto egípcio, procurando sempre escutar o que o seu coração dizia para lutar pelo seu sonho.
Um outro peregrino bem conhecido da literatura, criado por Hermann Hesse, é Siddartha, que abdicou da sua vida material e enveredou-se numa longa viagem existencial ao encontro da paz espiritual.
Um outro personagem real da nossa História, que viveu na Galécia (actual Galiza), na obsoleta Hispânia, no século IV, é Prisciliano, um homem amado e odiado, uma figura controversa, que tem suscitado ao longo dos tempos o interesse de estudiosos e pensadores, como Agostinho da Silva. Prisciliano só tentou desencadear uma revolução espiritual, nunca religiosa, e pagou por isso. Foi decapitado, decorria o ano de 385. O certo é que ele deixou uma marca espiritual muito forte no Ocidente da Península Ibérica.

As peregrinações a Santiago de Compostela, que são realizadas por fiéis há mais de mil anos, fazem parte de um pacto da Igreja para angariar cada vez mais dinheiro, doado pelos devotos. Quanto mais fiéis mais dinheiro angariavam. Este tipo de manobras por parte da igreja aconteceu muito.
Em Portugal, temos o caso da invenção do Milagre de Fátima por parte da Igreja para angariar devotos e o seu dinheiro, quando não havia segredo nenhum nem aparição nenhuma. Lúcia era vidente, e aproveitaram as suas visões para criar o milagre para construir e sustentar o que lá está hoje. Em Espanha o tema é “incómodo” e oculto, — tal como o túmulo enterrado na cripta da Catedral espanhola.

Como Prisciliano afirma: 

«Devemos conhecer para compreender, 
conhecer para concordar, 
conhecer para discordar»





O Gato





Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para 
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

Vinicius de Moraes






segunda-feira, 15 de abril de 2019

O SILÊNCIO DOS DIAS





Foi ali que o guardou naquele canto secreto
onde os silêncios eram jóias raras
e as palavras se misturavam nos perfumes do tempo
Já não importava o cansaço dos dias
nem as manhãs vestidas de cinza
a memória era um pequeno baú
onde guardava as lembranças mais vivas
existência rica de quem muito viveu
de quem muito se deu.
Abria o baú
de tempos a tempos
e o perfume das palavras
entranhava-se nas narinas
chegando ao âmago do ser.
Era aí que a luz mais brilhante raiava no quarto
nas cortinas cor de sangue
e no corpo tatuado de palavras e silêncios.
Foi ali que guardou a história que marcou um tempo
nesse tempo agitado de figurantes a deriva
de mares revoltos e ondas bravias
de mulheres perdidas de ciúme
e de homens tentando amainar as violentas marés
Foi ali no baú do tempo
que o guardou para sempre
longe dos holofotes 
projectores de sonhos inacabados
de esperanças naufragadas.
Foi ali que o guardou
para sempre
no silêncio dos dias que passam.



SÃO GONÇALVES




Aparição


Casa do Alto
Alto de S. Bento
Évora





Pela última vez, durmo na Casa do Alto.
É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas.
Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos.
Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razão sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa?
A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.
...
Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas.
Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...
...
Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita.
...

Fecho o álbum, acendo um cigarro.
Para lá da janela atinjo a linha azul do horizonte que se desvanece na tarde. Penso, penso. Não, não penso: procuro. Outra vez, outra vez. Não, não quero «saber», sei já há tanto tempo... Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição.
Porque o escrevo de novo?
A verdade é que nada mais me importa.

E, todavia, um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter, e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse. Mas uma reforma, uma regulamentação é já do lado de fora.
Quem é fiel a uma certeza e a pode «ver» quando lhe apetece?
A fidelidade é então só teimosia ou cedência à parte convencional da «nobreza de carácter», da «honradez». Não é isso, não é isso que eu quero.
Em que iluminação eu acredito quando falo em nome dela e a imponho a Ana, aos outros?
Falo de cor - a iluminação é então a minha noite de secura.

Por isso, quando ela volta, eu me abro à sua devassa, à acidez da sua presença.
Por isso eu recebo ainda agora e falo dela e me aqueço e queimo ao seu lume.
Não escrevo para ninguém, talvez, talvez: e escreverei sequer para mim?
O que me arrasta ao longo destas noites, que, tal como esse outrora de que falo, se aquietam já em deserto, o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte.
Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.


VERGÍLIO FERREIRA
in, APARIÇÃO






sábado, 13 de abril de 2019

Lou Reed - Walk on the Wild Side (audio)

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO





A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
in, "Nos Seus Olhos de Silêncio"





A Energia Sexual da Mulher





Condori explicou a Kantu:
- Na mulher, a energia sexual é um poder enorme que a natureza lhe deu para vencer sem ter de combater, para obter o que deseja apenas com amor e ternura, com força e coragem.
É uma energia que permite modelar e criar o próprio corpo para que dê guarida ao espírito que deseja visitar a Terra.
É uma energia que permite ser artífice da própria vida, curar-se a si própria e aos outros, restabelecendo o equilíbrio natural.
É uma energia que permite alcançar a imortalidade, não apenas sobre a Terra, mas em todo o Universo.
Mas, é fundamentalmente uma energia que te permitirá adquirir determinados conhecimentos, visitar universos distantes, mundos nunca vistos, paisagens inexistentes sobre a Terra.
Devo, porém, avisar-te de que, se esta mesma energia for mal utilizada, pode provocar morte, caos, sofrimento, ignorância, doenças e desgraças.
Kantu sentia que o uso impróprio da sua sexualidade pertencia ao passado; aprendera a distinguir entre amor e paixão, ordem e caos, paz e violência, saúde e doença, e sobretudo, entre o conhecimento e a falsidade.
- Estás pronta - disse-lhe Condori.
És uma verdadeira mulher com um domínio absoluto da tua pessoa, és uma guerreira do amor, uma semideusa. Poderás enfrentar qualquer homem, vencê-lo docemente para depois lhe ensinares o que é o amor, a paz, a fraternidade e a ordem.



Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira






quarta-feira, 10 de abril de 2019

AS MINHAS ASAS






Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

-Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que m'as deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.

-Veio a ambição, cóas grandezas,
Vinham para m'as cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,

-Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

-Tudo perdi n'essa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.



ALMEIDA GARRETT
in, FOLHAS CAIDAS





Choque de Gerações - Uma visão espiritual​





O choque de gerações é uma realidade quase sempre intensa e algo desconfortável​ na vida de quase todas as famílias​. Não é apenas a questão de idade que nos afasta aos poucos daqueles que um dia foram o nosso porto seguro. E também não é apenas a questão da maturidade que impede a saudável relação quando os nossos filhos chegam à ​desafiante ​adolescência.
O que realmente dói, são as projeções que fazemos​ e​ as desilusões das expectativas idealistas que temos tanto em relação aos pais como aos filhos. É o estado de ignorância que nos incapacita de percebermos porque afinal a lei da atração nos juntou a todos na mesma família.
​
Não é raro sentirmo-nos deslocados, que não fazemos parte, que não tivemos sorte com a familia que nos calhou​. Ralhamos e rogamos pragas ao que nem sempre parece fazer sentido ​quando apenas precisamos aprender a analisar estas dinâmicas pelos olhos da espiritualidade;

Projeção: A projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais inaceitáveis ou indesejados são atribuídos a outra pessoa mantendo-se o próprio em negação dos mesmos. A Projeção psicológica ocorre quando culpamos outros do que ainda não aceitamos em nós.

Ilusão: A ilusão é uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção. Na nossa língua, "iludir" significa ter a esperança de algo desejável. E não estamos todos iludidamente à procura do mundo/vida/pessoa/casa/filhos/pais perfeitos?

A viagem da vida obedece a um propósito de evolução que tanto acontece dentro de nós a nível individual como nas dinâmicas da própria família. A lei do karma, a lei da atração e a lei da vibração criam antes de encarnar o cenário perfeito para que o projeto individual de evolução possa acontecer. Nesse projeto estão já a família e cada membro da mesma, a cultura, ​a ​forma de pensamento, ideologias, crenças, circunstância​s​ diversas que farão parte da história​ e do que precisamos viver para nos cumprirmos​.

Tal como na preparação de uma peça de teatro, tudo o que está presente, foi escolhido com um propósito: usar a encarnação presente para fechar e curar os padrões negativos ​do passado ​de onde viemos e ter a coragem de abrir novo padrões que definam as experiências que desejamos algures no futuro para onde vamos. 

Deste ponto de vista, a geração seguinte (os filhos) traz sempre a responsabilidade e potencial energético de ir mais além do que ​a geração ​dos pais foram capazes. ​A família escolhida é precisamente a que lhe permite rever ou relembrar de onde vem pois antes de abrir um novo padrão, há que fechar o velho em estado de amor e gratidão pelas aprendizagens feitas. ​

Mas precisamente porque vêm preparados para transcender os velhos padrões, não percebem, durante algum tempo, que também os carregam dentro de si​, projetando assim o seu velho passado, nos pais que ainda o estão a viver.

E se a projeção já é um mecanismo violento de rejeição da própria sombra, a idealização ainda torna estas vivências mais complexas pois condiciona-nos a vermo-nos a nós e a esperar dos outros nada menos do que a visão ideal de perfeição. ​Precisamente porque não entendemos a razão de atraírmos uns pais desafiantes, sofremos com a ideia de que são tudo menos perfeitos. Que "deveriam" estar a comportar-se de forma ideal. Que se fossem ​ideais e ​o que gostaríamos que eles fossem, a nossa vida seria tão mais fácil​ e seríamos tão mais felizes​.

Tanto a projeção como a idealização são mecanismos de defesa inconscientes que apenas são usados enquanto a verdade nua e crua não vem ao de cima. Enquanto não nos atrevermos a olhar para nós próprios e a termos a coragem de assumirmos em nós o que até ali projetávamos facilmente nos outros.
Até ganharmos a responsabilidade de termos nós mesmos escolhido a família em que estamos. Escolhida não para ser a familia perfeita que queremos mas sim porque JÁ É a família perfeita que precisamos. 

Aprender a reconhecer quem é quem é essencial para sabermos como agir de acordo com cada um, que aprendizagens diferentes cada pessoa nos vem propor e como aproveitar a presença de cada um para a nossa própria evolução pessoal.
Do ponto de vista da lei da atração há uma intenção positiva e aprendizagens valiosas que leva a juntar determinados elementos na mesma família.
Ou seja, filhos saberão ver nos pais sombras de si mesmos que precisam ser transformadas, e pais verão nos filhos novos caminhos e formas de ser, um potencial futuro, normalmente só realizável numa futura encarnação.

Se soubermos reconhecer estas ligações e aprendizagens pelo olho da alma, temos tudo a ganhar, desenvolvemos a compaixão pelos que representam o passado e gratidão pelos que representam o nosso potencial. Pelo olho do ego caímos no julgamento e na infantil projeção e idealização que nos impede de evoluir e nos prende a violentas e dolorosas dinâmicas familiares.


Vera Luz






segunda-feira, 8 de abril de 2019

O Desespero Humano






Soren Kierkegaard, 
o primeiro filósofo existencialista, 
dinamarquês, 
que escreveu textos críticos sobre religião organizada, 
cristandade, moralidade, ética, psicologia, e filosofia da religião. 
Foi considerado o grande filósofo do séc. XIX.


Kierkegaard dizia que ansiedade/medo/angústia, dependendo do contexto, é o medo desenfreado. Usava o exemplo de um homem parado na beira de um edifício alto ou de um penhasco. A partir desta altura, ele podia ver todas as possibilidades da vida. Ele iria refletir sobre o que poderia acontecer se ele apenas se atirasse no poder de escolher. Enquanto ele fica lá, ele está na encruzilhada da vida, incapaz de tomar uma decisão e viver dentro dos seus limites. O simples facto de que alguém tenha a possibilidade e a liberdade de fazer e escolher algo, mesmo as mais terríveis das possibilidades, desencadeia imensos sentimentos de medo. E a isto ele chamou de "tonturas de liberdade".

No livro ”O Desespero Humano”, o meu livro preferido dele e que reli agora, ele fala do Eu Humano como uma composição de vários aspectos que devem ser levados ao equilíbrio consciente: o finito, o infinito, a consciência do "relacionamento dos dois para si mesmo" e uma consciência do "poder que postulava" o eu.

Os finitos (limitações como a morte, ou incapacidades do corpo) e o infinito (as capacidades que nos libertam de limitações, como a imaginação) sempre existem num estado de tensão. Essa tensão entre os dois aspectos do "eu" deve ser mantida em equilíbrio. Quando o eu está fora de equilíbrio, ou seja, tem a compreensão errada de quem é porque concebe muito de si mesmo em termos de suas próprias circunstâncias limitantes (e, portanto, não consegue reconhecer a sua própria liberdade para determinar o que deve ser), ou concebe muito de si mesmo em termos do que gostaria de ser (ignorando as suas próprias circunstâncias), essa pessoa está em desespero. Ele diz que alguém pode estar desesperado mesmo que se sinta perfeitamente feliz, ele diz que a forma mais comum de desespero é não ser quem tu és. O desespero não é apenas uma emoção. Num sentido mais profundo é a perda de si mesmo, ou seja, ele descreve o estado de desespero quando alguém tem a concepção errada de si mesmo.

No livro ele diz assim:
“Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.”

O indivíduo só se pode libertar do desespero acreditando em si próprio, isso coloca as qualidades infinitas, e finitas do indivíduo em equilíbrio, e ele pode reconhecer o que sempre esteve lá: um eu verdadeiro, isto é, o indivíduo reconhece-se, e pára de idolatrar ídolos que eram usados como substitutos de si próprio.
Tudo está dentro de nós!
Não precisamos de procurar fora.

Ele tem uma frase que diz assim:
"Quando em torno de um tudo se tornou silencioso, solene como uma noite clara e estrelada, quando a alma vem a estar sozinha no mundo inteiro, então atrás de você aparece, não um ser humano extraordinário, mas o próprio poder eterno, os céus se abrem, então o eu escolhe a si mesmo ou, mais corretamente, se recebe. Dessa forma a personalidade recebe o elogio da cavalaria que o enobrece pela eternidade. O cavaleiro da fé é o único homem feliz, o herdeiro do finito, enquanto o cavaleiro da resignação é um estranho e um alienígena" 

No prefácio do livro ele diz assim:
“O papel principal do saber filosófico é “ousarmos ser nós próprios, ousarmos ser um indivíduo, não um qualquer, mas este que somos, isolado na imensidade do seu esforço e da sua responsabilidade.”

Ou seja, ele não visaria “satisfazer uma humana curiosidade”, mas sim ser capaz de mostrar o único caminho para a verdadeira edificação humana. Esse caminho é único simplesmente porque tudo o que possa visar essa edificação ou a verdadeira salvação só podem percorrer também o mesmo caminho.
Mas, vem logo à tona as questões:

  • A que exatamente visa esse caminho?
  • Do que ele pretende salvar-nos?
  • É realmente necessária essa salvação?


O caminho de salvação sobre o qual fala Kierkegaard visa a descoberta do que cada um deve fazer de seu ‘si próprio’; esse caminho pretende salvar-nos de uma doença chamada desespero, que, segundo o autor, acomete a todos, sem exceção; e, sim, essa salvação é necessária.

Segundo ele, o desespero é “a doença e não o remédio;” “morrer para o mundo é o remédio.” Ou seja: todos nós somos desesperados e o único remédio para isso é morrer para o mundo. Kierkegaard interpreta que, enquanto desesperados, nós morremos aos poucos. Se nós morrermos de uma só vez, isso nos libertaria para sermos nós mesmos.
Vivemos no desespero justamente na medida em que buscamos aplacar esse desespero voltando-nos para fora, para o mundo que incessantemente traz novidades. Ao seguir esse movimento “para fora”, nós apenas aprofundamos cada vez mais o mesmo desespero.

A única via de saída desse movimento é, então, morrer para o mundo.
Mas, podemos perguntar: em que consiste exatamente essa morte?
Nas palavras de Kierkegaard: Visto que na linguagem humana a morte é o fim de tudo, enquanto há vida há esperança.
Isto é: a morte, na linguagem dele, consiste justamente numa espécie de desfazer-se das tentações ordinárias, que nos tiram de nós mesmos. Morrer, nesse sentido, seria parar essas tentações. Isto porque enquanto estamos presos a essas requisições, elas podem mesmo parecer necessárias, constitutivas do nosso ser, quando, realmente, não o são.

Vem ao caso a pergunta:
Como distinguir entre as requisições ordinárias e as que realmente se mostram como necessárias na vivência em comunidade?
Kierkegaard é claro ao fazer essa distinção: tudo aquilo que corrobora com o desespero é ordinário.
Ele aqui, parece apontar para uma certa experiência: para aqueles que não a viveram, tudo é uma doença mortal, para quem passa por essa experiência “nada é uma doença mortal”. Isto é resumido na seguinte passagem: “o homem natural pode enumerar à vontade tudo o que é horrível – e tudo esgotar,(...) o homem natural treme do que não é horrível.

Kierkegaard faz, então, a sua definição do homem:
“O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O eu não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida. O homem é a síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto-de-vista, o eu não existe ainda.”

Isto é, Kierkegaard compreende que nós somos um voltar-se para dentro. Esse, por sua vez, não é nada mais do que um terceiro elemento, que reúne os outros dois - finito e infinito, temporal e eterno, liberdade e necessidade. A esse voltar-se, ele dá o nome de eu. Esse ´eu´, contudo, ainda não existe, ou seja, ele é o elemento transcendente que nos constitui. Ele não se dá simplesmente como algo já existente ou já constituído, mas, sempre, como algo, a vir a ser constituído. Segundo Kierkegaard, “daí provém que haja duas formas do verdadeiro desespero”: a vontade desesperada de sermos nós próprios e a vontade de não sermos nós próprios.

A respeito da nossa constituição transcendente, que não somos nada em específico, mas sim um movimento de vir a ser a partir do infinito e do finito, do eterno e do temporal, o problema é que, para chegar a essa verdade, é necessário levarmos à morte tudo aquilo que insiste em dizer que nós somos um algo “em específico”.
É por isso que Kierkegaard assume como sendo o caminho próprio da salvação o aforismo socrático “Conhece-te a ti mesmo”.
Esse conhecer é tanto o caminho da salvação quanto propriamente o elemento transcendente constitutivo de todos nós. Sendo constitutivo da essência humana, a transcendência acontece sempre, mas, no entanto, poucos são aqueles que conseguem estar sempre despertos para essa essência, devendo a filosofia, segundo Kierkegaard, sempre nos lembrar disso, como o único remédio para a doença, que pode levar à morte, chamada desespero.

Kierkegaard foi o primeiro que de uma maneira explicita colocou as questões existencialistas como principal foco do exame filosófico da vida humana. Todo o seu pensamento é desenvolvido a partir do seu íntimo, onde encontra os elementos considerados por ele como importantes para a sua filosofia. O resultado do seu pensamento foi uma novidade para a época, porque estava muito mais de acordo com as suas experiências do que com outras teorias anteriores ao seu tempo.

Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.

Ele partiu da ideia de que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e vivê-la de maneira íntegra, sincera e apaixonada, mesmo com os inúmeros obstáculos que podem surgir.
E assim surgiu o existencialismo!

O existencialismo rejeita a ideia de alma imutável, dando ao indivíduo o papel de construtor da sua própria realidade. Toda a sua energia se transformou em inspiração para a produção literária que aborda temas diversos da existência humana.

Kierkegaard, tal como Fernando Pessoa, escreveu sempre com pseudónimos.
Todas as suas obras foram publicadas com pseudónimos como: Victor Eremita, Johannes de Silentio, Climacus, entre outros, possivelmente para se proteger do conflito que tinha com o bispo da Igreja Luterana.



Arriscar-se é viver

Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor o seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor as suas ideias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.

Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar a evitar o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão da sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre...

Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...


Soren Kierkegaard






We are an extension of the Universe









quinta-feira, 4 de abril de 2019

Ana Popovic - Slow Dance (feat. Robben Ford)

O CAMINHANTE





Não me perguntes 
O que é salvação 
Ou onde a encontrar, 
Não sou investigador, mas apenas poeta... 
Vivo agarrado a esta terra. 
Perante mim corre o rio da vida... 
Levando na sua corrente 
Luz e sombra, bem e mal, 
Ganhos e perdas, lágrimas e risos, 
Coisas que se entrelaçam 
E se esquecem! 
Sobre as suas águas 
A manhã chega em profundos matizes, 
O ocaso estende o seu véu carmesim, 
E os raios lunares caem como o suave tacto de uma mãe. 
Na noite escura 
As estrelas elevam as suas orações; 
Sobre as suas ondas 
A madhuri oferece os seus dons, 
E as aves soltam os seus cantos. 
Quando ao ritmo das ondas 
Silencioso dança o meu coração 
Então nesse ritmo 
Estão os meus limites e a minha liberdade. 
Não desejo conservar nada 
Nem apegar-me a nada. 
Desatando os nós da união e da separação, 
Quero flutuar com o Todo 
Içando as minhas velas ao vento que paira. 

Oh, grande Caminhante! 
Para ti abrem-se os dez caminhos 
Nos confins da terra, 
E não tens templo, nem céu, 
Nem limite final. 
A cada passo tocas o chão sagrado. 
Caminhando a teu lado, oh, Incansável! 
Encontro a salvação 
No tesouro do caminho. 
Em luz e sombra, 
Nas páginas sempre novas da criação, 
Em cada novo instante de dissolução 
Ouve-se o ritmo das tuas danças e canções. 


Rabinadranath Tagore





Envelhecer






Numa das suas mais belas prosas poética, Eugénio de Andrade perguntava: 

“Envelhecer não é assim tão simples, por mais que o digam. Quantos dias de sol o declínio nos reserva? Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender? Esta alegria de noutros corpos sermos ainda alguma juventude, como guardá-la, sem a degradar?”. 

Prisioneiro, ainda e para sempre!, de fascinada gratidão por quem Óscar Lopes descreveu como o poeta solar, o professor de Antropologia Médica sorri, em face de tamanha idealização da juventude. E de uma teoria, no mínimo desencantada, do envelhecimento.
Porque encará-lo como um doloroso recuo, passo a passo, rumo ao nada a que a vida por momentos nos surripiou; abençoado, aqui e ali, por umas horas soalheiras, o riso dos netos ou memórias ternurentas, não é justo.

Mas prefiro vasculhar o travo a culpa nostálgica que se desprende do monólogo do Eugénio.
Dir-me-ão que fala especificamente de amor. Concedo.
Poderíamos discutir qual, não tenho dele visão essencialista, que o transforme numa entidade abstracta, alheia a diferentes culturas e momentos históricos. Também não me atardarei em questões de léxico. Na Idade Média, por exemplo, numa das cortes ocitanas em que nasceu o amor cortês, bastava o estatuto de solteiro – e não de bom rapaz… - para ser considerado jovem, ao arrepio da nossa intuitiva certeza - juventude e B.J. andam sempre de mãos dadas.
Caminhos que me são queridos, hoje considero adequado trilhar outros.

Quando o Eugénio se interroga sobre a eventual ofensa aos jovens, cristaliza na relação amorosa uma angústia mais geral, agressiva e recente – não os ofenderá a nossa mera existência?
Tomemos os gregos.
Quando Alcibíades se lamenta por não ter seduzido Sócrates, apesar de o saber sensível à sua decantada beleza, o despeito não belisca a admiração sentida pelo filósofo. E pela razão de gentil recusa - a beleza do corpo não passava de um degrau na busca da Beleza e do Bem.
Sócrates e Alcibíades, sem esquecer Platão que os escreveu, ficariam surpresos com o que hoje acontece. Beleza e Juventude valem por si, ponto final. Traduzem um verdadeiro paradigma, no sentido original do termo – modelo, normas a seguir por um grupo. Seguir e perseguir, acrescentaria eu! A nostalgia de transcendência perdeu-se pelo caminho. A beleza não tenciona levantar voo da dimensão física, numa sociedade que privilegia a aparência em detrimento da essência, vive como peixe na água, transformada num produto que se vende bem e ajuda a vender os outros. (Escusado será dizer que com um indiscutível efeito de género, os homens podem trocar o adjectivo belo por interessante sem grandes consequências. Ou até com vantagens no mercado da oferta e da procura.) No caso da juventude, arrisco-me a dizer que a auto-satisfação é ainda maior, a inevitabilidade do envelhecimento só lhe acentua a aura ameaçadora, apetece rosnar entredentes como ao Satanás de antanho – vade retro.

Qual foi o nosso trajecto? 
A partir da década de sessenta, a juventude não se limitou a monopolizar a beleza sedutora, de um momento para o outro, os filhos da guerra adoptavam existências e ideologias em absoluto diversas das dos pais. Não raro, teoricamente… Por exemplo, os relatos de educadores assustados e furiosos, por se surpreenderem a repetir processos que tinham jurado exilar, obrigam-nos a matizar os discursos. Ou o salve-se quem puder de Wall Street!, a velha frase de Sartre espreita dos bastidores – “os universitários são revolucionários até se formarem. Depois vão ganhar a vida.” Mas a rebelião de alguns, por vezes comodista e burguesa, e a estranheza defensiva de outros, embalaram expressão clássica – vivíamos um conflito de gerações. Decreto grandiloquente, o mais das vezes apenas traduziu vivência aflita de contraste desejável.
Pobre da sociedade em que os filhos não passam de fotocópias ou pseudópodes dos pais…

Mas se em termos de psicologia do desenvolvimento o alarido foi enorme, e nos deixou com a “invenção” da adolescência como estádio autónomo, merecedor da célebre moratória de Eriksson e do olhar guloso dos publicitários, que através dela alvejavam os bolsos parentais, o imperialismo estético e a recusa do envelhecimento não mais pararam de se acentuar.
Numa sociedade capitalista rendida à aparência, os objectivos são lógicos – guerra sem quartel às rugas e ao envelhecimento em geral, encarado como derrota e saída de cena, merecedor até de xenofobia encapotada. 
Lembremos o novo diagnóstico de analfabetos funcionais - de que vale saber ler, escrever e contar, à boa maneira salazarista, se não dominamos Excel, PDF e Power Point?
Em termos gerais, vivemos numa cultura que não incita as gentes a envelhecerem bem, pacificadas, cuidando-se física e psicologicamente, mas a negarem esse envelhecimento com todas as forças e recursos económicos. 
Efeito de género?
Claro que continua presente, nenhum de nós terá o desplante de afirmar que a pressão sobre os homens é equivalente à sofrida pelas mulheres.
Mas efeito de classe também!, quem trabalha de sol a sol e namora montras envelhece mais cedo e sem grandes angústias existenciais.
De nada valeriam, a preocupação pela sobrevivência a curto prazo diminui a esperança de vida e o vasculhar do horizonte, a pergunta clássica de psi, “como se imagina daqui a dez anos?”, é frequente surgir resposta risonha de tão trágica – “nem sei se lá chego”.

Alguém definia a Estatística como a Ciência de mentir através dos factos e não serei eu a nega-lo, cada noite de análise de resultados eleitorais serve de álibi, os mesmos números justificam declarações inflamadas de vitória de todos os quadrantes, empurrando o espectador para uma acefalia que nada fica a dever à semeada pelos intervalos publicitários.
Mas há dados que até a Houdini resistiriam, quando os defrontamos título de velha canção dos Dire Straits nos invade o espírito – solid rock. Assim são os demográficos, esta sociedade envelhece. Na minha opinião, inexoravelmente. O que não permite descurar a obrigação ética de promover todas as medidas que incentivem a natalidade, protejam a gravidez adolescente e evitem a xenofobia para os que vieram de longe, de muito longe, o que eles andaram para aqui chegar e – com sorte… - trabalhar.
Mas os factos e as previsões aí estão – menos jovens e cada vez mais idosos, o sonho de eternas juventudes dá lugar a quotidianos centrados em longos e às vezes penosos ocasos. A Ciência em geral e a Medicina em particular aprenderam no século XX truques muito eficazes para brincadeira favorita – trocar as voltas à Mãe Natureza e ao seu braço de foice armado, a selecção natural.
Vivemos mais? Sim. Melhor? Nem sempre.

Amiúde nem sequer tão bem, a quantidade não garantiu a qualidade.
En passant, lembro-lhes que estão obrigados a segredo profissional, não quero sair desta sessão olhando por cima do ombro, receoso de uma qualquer brigada da ASAE.
E se eu o afirmo baseado nos canhenhos de Antropologia Médica, na escuta de psiquiatra e em anos e nódoas negras vividos, vocês confirmam-no todos os dias na prática. Vocês; que são a primeira linha de defesa da Clínica e da organização institucional; e a última contra uma Medicina fascinada pela super-especialização, que transforma o Doente num somatório de órgãos e sistemas. Analisado até à sua e nossa exaustão, esquecendo a síntese que o devolve à condição de Sujeito de pleno direito.

Na realidade, e aqui entre nós, também a Medicina alimentou sonhos adolescentes de eterna juventude. E assim reforçou um paradigma popular com outro, científico, no sentido que Kuhn lhe deu. Qualquer historiador da nossa arte, e a palavra não é casual ou descuidada, vos dirá que a explosão de terapêuticas, surgida em meados do século XX, gerou uma vertigem optimista de omnipotência, que sobretudo o VIH, a doença oncológica e as demências se encarregaram de travar. Mas tal soberba teve ecos fatais no ensino, com os jovens médicos a beneficiarem de uma formação a meio caminho entre a clínica e a ciência, à custa das horas dedicadas ao que um colega americano crismou de bricabraque psicológico. Da super-especialização, vista como o futuro adequado aos melhores, em contraste com uma Medicina Geral e Familiar subalternizada, porto de refúgio para não dizer refugo, da sua incapacidade de manter uma visão holística do Doente, já falei. Mas também o mais profundo conceito da profissão gemeu sob o jugo dessa ideologia, as duas faces da Medicina viraram-se as costas como as das moedas, o cuidar foi entregue – com mal disfarçado alívio… - a outros especialistas, permitindo-nos o luxo de apenas nos concentrarmos na busca do El Dorado da cura.

Da cura, mas de humildade, a que tal Medicina vem sendo sujeita não preciso, como disse, falar-vos, são vocês a sofrer-lhe as agruras. Depois de a maioria ter sido formada quase exclusivamente para lidar com a doença aguda, eis-vos emaranhados nas crónicas e no seu cortejo de queixas itinerantes, efeitos colaterais de terapias, sofrimento que jamais se deixará enjaular na palavra dor. Aceitem a compaixão, no sentido original do termo, que como psiquiatra vos ofereço, a doença psíquica também me ensinou que o ego sofre rudemente com visitas raras de acontecimento que torna a separação despedida de corações ligeiros – a alta.

A Medicina Científica foi obrigada a crescer e envelhecer. 
Não sentindo o bafo da grande ceifeira, ela mesma funciona como seguro de vida da profissão, mas valorizando a sageza, o passo em frente cauteloso e multidisciplinar, em detrimento das águas complacentes em que se mirava Narciso. Não curaremos todos; não os tornaremos imortais; não seremos capazes de lhes assegurar a felicidade; não conseguiremos evitar a influência de variáveis sociais. De uma vez por todas é imperioso que o Poder o entenda - a busca do Santo Graal da Saúde não pode ser levada a cabo apenas pelos seus profissionais. As consequências da crise, já evidentes nos planos físico e psíquico, provam-no de modo insofismável. E por isso, é bom que as promessas dos políticos, sobretudo no que aos Cuidados Primários diz respeito, não se limitem a voar de bocas habituadas a campanhas eleitorais e deixem os tinteiros rumo à legislação. Sob pena de uma Democracia tão jovem como a nossa poder acumular fissuras de sistema envelhecido, à mercê dos que dela exigem os direitos para lhe planearem o enterro.

Também nós, os psis, fomos obrigados a calibrar o tiro. 
Fascinados pelo mergulho freudiano no inconsciente, nas experiências precoces e respectivas impressões digitais, assoberbados pela tarefa de manter na corrida frenética em que vivemos gente sem tempo para se meditar, nostálgicos da bala dourada da farmácia, que promete tudo resolver pelo reequilíbrio de mediadores químicos, olimpicamente alheios às narrativas de vida, tentados a resolver sintomas isolados incapacitantes, numa espécie de “psiquiatria de órgão”, que ignora a vida mental no seu todo, o envelhecimento não nos atrai particularmente.
Se Freud desaconselhava a psicanálise depois da meia-idade, pela angústia que podia provocar no paciente, alguns de nós, na melhor das intenções, encaram o trabalho com os mais velhos apenas no registo da psicoterapia de apoio, quando não no da mera escuta empática.

Trata-se de um erro crasso, por clínica e cientificamente comprovado.
As novas tecnologias e a investigação que sugeriram, estilhaçaram as velhas teorias sobre a imutabilidade melancólica dos nossos neurónios, a adaptação dos seus circuitos continua ao longo da vida. (Para o melhor e o pior!, mas não é o momento de nos debruçarmos sobre as relações juvenis que mantemos com e através de Net, sms, mails e robótica, bastará admitir que pensamos, sentimos e avaliamos eticamente de forma diversa, duas ou três décadas volvidas.)
Mas essa neuro-plasticidade, verdadeira infância guardada em neurónios que envelhecem, não acarreta apenas vantagens.
Ouçamos Pascual-Leone: 
“Além de ser o mecanismo do desenvolvimento e da aprendizagem, a plasticidade pode ser causa de patologia.”. 
Porquê? Porque quanto mais o doente se concentra nos sintomas, mais profundamente eles ficam gravados nos seus circuitos neuronais, diz Nicholas Carr.

Mas mesmo fora da patologia a mensagem é clara, segundo Doidge, “se deixamos de exercitar as nossas capacidades mentais não nos limitamos a esquecê-las: o mapa espacial do cérebro que lhes pertence é ocupado pelas que as substituem”, num processo apelidado, com indiscutível humor, de “sobrevivência dos mais ocupados”.
E por isso o envelhecimento activo, melhor ainda, o envelhecimento saudável!, depende tanto da caminhada à beira-mar como da frequência de uma universidade sénior ou dos benefícios de uma relação terapêutica que não sacrifica a ambição no altar do bilhete de identidade.

A reificação da juventude e da beleza continua de boa saúde? É verdade. 
Basta lançar uma vista de olhos por revistas em salas de espera, grávidas de discursos gémeos de tanta gente que pede ao bisturi que atrase os ponteiros do relógio do envelhecimento; ver na capa da Vanity Fair a fotografia do secretário do Papa com a legenda “ser bonito não é pecado”; escutar a amargura de quem foi convidado a passar à pré-reforma porque a empresa necessita de sangue e imagem novos.

E nós?
Fomos capazes de sacudir um paradigma cartesiano, que tudo prometia ao corpo e lhe impunha fronteiras na relação com o espírito; batemo-nos hoje por outro, que preconiza a abordagem psicossomática e holística da pessoa.
A Medicina não nasceu para vencer a morte, Asclépio foi fulminado por Zeus, alegadamente por o conseguir e de tal feito se gabar. Não, não nascemos para matar a morte. Nem sequer para a recusar, por encarniçamento terapêutico, a vidas que já se apagaram.
Nascemos para curar e cuidar os vivos. 

A juventude não é eterna, a velhice já não é breve, a adolescência espalha-se pela infância; e por uma adultícia pouco segura de possuir a maturidade... Criámos para as nossas vidas fronteiras tão artificiais como as que geraram horas e minutos à custa de estações do ano, colheitas e fases da lua. A medicina holística não aborda a pessoa inteira num dado momento, aborda-a inteira porque lhe escuta os momentos… de uma vida inteira. E assim cala o murmúrio sedutor de uma qualquer fonte da eterna juventude!

E a beleza, dir-me-ão? A física? 
A sua exigência, numa sociedade rendida à imagem, trar-nos-á clientes, e repito – clientes, mas também questões éticas – onde pára a intervenção terapêutica e começa a cedência ao capricho ou à anemia das nossas contas bancárias?

Devolvo a palavra a Eugénio de Andrade:
“Porque a beleza, ou é esta entrega a quem de súbito a descobre, ou se esconde, cruel, a quem faz da sua procura uma perseguição de carniceiro”. 

Estou de acordo.
Os Antigos diziam dos médicos que eram mestres de pensar o corpo, gosto de acreditar que podemos ajudar outros a fazerem o mesmo. E assim descobrirem a beleza, não apenas física, que em todos nós brilha, inacessível a pressas de talhante. Mas disposta a conceder o benefício da dúvida a médico e doente capazes de tocar a consulta a quatro mãos.



Júlio Machado Vaz




terça-feira, 2 de abril de 2019

A Morte Absoluta





Morrer. 
Morrer de corpo e de alma. 
Completamente. 

Morrer sem deixar o triste despojo da carne, 
A exangue máscara de cera, 
Cercada de flores, 
Que apodrecerão - felizes! - num dia, 
Banhada de lágrimas 
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. 

Morrer sem deixar porventura uma alma errante... 
A caminho do céu? 
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? 

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, 
A lembrança de uma sombra 
Em nenhum coração, em nenhum pensamento, 
Em nenhuma epiderme. 

Morrer tão completamente 
Que um dia ao lerem o teu nome num papel 
Perguntem: "Quem foi?..." 

Morrer mais completamente ainda, 
Sem deixar sequer esse nome.


Manuel Bandeira






A Herança Emocional dos nossos Antepassados






A herança emocional é tão decisiva quanto intransigente e impositora. Estamos enganados quando pensamos que a nossa história começou quando emitimos o nosso primeiro choro. Pensar dessa forma é um erro, porque assim como somos o fruto da união do óvulo e do esperma, também somos um produto dos desejos, fantasias, medos e toda uma constelação de emoções e percepções que se misturaram para dar origem a uma nova vida.

Atualmente falamos muito sobre o conceito de “história familiar”.
Quando uma pessoa nasce, ela começa a escrever uma história com suas ações. Se observarmos as histórias de cada membro de uma família, encontraremos semelhanças essenciais e objetivos comuns. Parece que cada indivíduo é um capítulo de uma história maior, que está sendo escrita ao longo de diferentes gerações.

“A verdade sem amor dói. 
A verdade com amor cura. ”
-Anónimo-

Esta situação foi muito bem retratada no livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, que mostra como o mesmo medo é repetido através de diferentes gerações até que se torna realidade e termina com toda uma linhagem. 
O que herdamos das gerações anteriores são os pesadelos, os traumas e as experiências mal resolvidas.


A herança de nossos antepassados que atravessa gerações

Esse processo de transmissão entre as gerações é algo inconsciente.
Normalmente são situações ocultas ou confusas que causam vergonha ou medo. 
Os descendentes de alguém que sofreu um trauma não tratado suportam o peso dessa falta de resolução. Eles sentem ou pressentem que existe “algo estranho” que gravita ao seu redor como um peso, mas que não conseguem definir o que é.

Por exemplo, uma avó que foi abusada sexualmente transmite os efeitos do seu trauma, mas não o seu conteúdo. Talvez até mesmo seus filhos, netos e bisnetos sintam uma certa intolerância em relação à sexualidade, ou uma desconfiança visceral das pessoas do sexo oposto, ou uma sensação de desesperança que não conseguem explicar.

Essa herança emocional também pode se manifestar como uma doença.
O psicanalista francês Françoise Dolto, disse, “o que é calado na primeira geração, a segunda carrega no corpo”.

Assim como existe um “inconsciente coletivo“, também existe um “inconsciente familiar”. 
Nesse inconsciente estão guardadas todas as experiências silenciadas, que estão escondidas porque são um tabu: suicídios, abortos, doenças mentais, homicídios, perdas, abusos, etc.
O trauma tende a se repetir na próxima geração, até encontrar uma maneira de tornar-se consciente e ser resolvido.

Esses desconfortos físicos ou emocionais que parecem não ter explicação podem ser “uma chamada” para que tomemos consciência desses segredos silenciados ou daquelas verdades escondidas, que provavelmente não estão na nossa própria vida, mas na vida de algum dos nossos antepassados.



O caminho para a compreensão da herança emocional

É natural que diante de experiências traumáticas as pessoas reajam tentando esquecer.
Talvez a lembrança seja muito dolorosa e elas acreditam que não serão capazes de suportá-la e transcendê-la. Ou talvez a situação comprometa a sua dignidade, como no caso de abuso sexual, em que apesar de ser uma vítima, a pessoa se sente constrangida e envergonhada. Ou simplesmente querem evitar o julgamento dos outros. Por isso, o fato é enterrado e a melhor solução é não falar sobre assunto.

Este tipo de esquecimento é muito superficial. Na verdade o tema não está esquecido, a lembrança é reprimida. Tudo que reprimimos se manifesta de uma outra forma. É mais seguro quando volta através da repetição.

Isto significa que uma família que tenha vivenciado o suicídio de um dos seus membros provavelmente vai experimentá-lo novamente com outra pessoa de uma nova geração. Se a situação não foi abordada e resolvida, ficará flutuando como um fantasma que voltará a se manifestar mais cedo ou mais tarde. O mesmo se aplica a todos os tipos de trauma.

Cada um de nós tem muito a aprender com os seus antepassados.
A herança que recebemos é muito mais ampla do que supomos.
Às vezes os nossos antepassados nos fazem sofrer e não sabemos o porquê.

Talvez tenhamos nascido numa família que passou por muitas vicissitudes, e não saibamos qual é o nosso papel nessa história, na qual somos apenas um capítulo. É provável que esse papel nos tenha sido atribuído sem o nosso conhecimento: devemos perpetuar, repetir, salvar, negar ou encobrir as feridas destes eventos transformados em segredos.

Todas as informações que pudermos coletar sobre os nossos antepassados serão o melhor legado que podemos ter. Saber de onde viemos, quem são essas pessoas que não conhecemos, mas que estão na raiz de quem somos, é um caminho fascinante que só nos trará benefícios. 
Isto nos ajudará a dar um passo importante para chegar a uma compreensão mais profunda de qual é o nosso verdadeiro papel no mundo.


Edith Casal