terça-feira, 9 de julho de 2019
Homem, serás feliz quando...
Perceberes que a mulher para estar ao teu lado (seja numa one night stand seja infinitamente enquanto dure) ganha o seu próprio dinheiro, alimenta os seus próprios sonhos, mantém as suas próprias amizades, realiza os seus próprios hobbies. Numa palavra, é um mulher por si e em si.
Não receares envolver-te com uma mulher assim, o mesmo é dizer não sentires medo (eu sei que usas mais a palavra intimidado mas... não estou aqui para gerar equívocos). Ou envolveres-te (eu sei, é desejável por demais) e depois tentares puxá-la para a tua caixinha do que a "mulher ideal para ser a tua namorada ou a mãe dos teus filhos" faz/diz/veste/pensa ou ficares a dar tão menos do que ela sabe receber.
Não mascarares as tuas emoções enchendo o peito à macho, enfrascando-te e esfumaçando-te à menino ou escondendo-te no trabalho... mesmo à workaholic. Pelo contrário, abri-lo mesmo que nunca tenhas sido incentivado a isso, mesmo que custe para caraças. É o que te torna real e te dá relações realmente boas. É o que te tira desse limbo de insatisfação constante, de recaídas com as ex, de mentiras e traições, de s.exo vazio (eu sei que tu o sentes assim).
Não projectares as frustrações contigo mesmo nela. Ao invés, responsabilizares-te inteiramente por aquilo que te faz sentir aquém e mudar.
É que a mulher com quem te vais sentir feliz não te abre a porta neste estado. E as que te abrem... não te sentes feliz com elas. Pois! Pelo menos, respeita-as, faz esse esforço, dizendo-lhes a verdade. Esta é, afinal, a base do homem digno, do homem bom.
Tudo isto vale também para todas as mulheres que abrem portas à carência, e às que as mantêm fechadas, por amor próprio.
Compaixão para as primeiras.
Orgulho para as segundas.
~ Tamar
segunda-feira, 8 de julho de 2019
SE EU FOSSE A TI
não perdia tempo, dizia-me que sim.
Não hesitava mais, fugia.
Dava o que tens, o que tenho,
para ter o que dás, o que me darias.
Soltava o cabelo, chorava
de prazer, cantava descalça, dançava,
punha em fevereiro um sol de agosto,
morria de prazer, não punha
nenhum mas a este amor, inventava
nomes e verbos novos, estremecia
de medo perante a dúvida de que fosse
só um sonho, fugia
para sempre de ti, de ali, comigo.
Se eu fosse a ti amava-me.
Dizia-me que sim, vinha
a correr para os meus braços,
ou pelo menos, sei lá, respondia
às minhas mensagens, às minhas tentativas
de saber que é feito de ti, telefonava-me,
que será de nós, dava-me
um sinal de vida, se eu fosse a ti.
Juan Vicente Piqueras
in, Instruções para Atravessar o Deserto
MÁGOAS
Domingo de manhã nesta cidade azul. Adivinho-te na estação de metro. Espera-te o hospital, os doentes ansiosos, o cansaço de seres humano todo o tempo. Entranhas-te no choro das crianças doridas e tomadas de pânico, no rasar de olhos da mulher que vai enviuvar dentro de minutos, agarrando o amor da sua vida pela mão para não partir. Também te imagino de olhos cerrados à procura de ânimo para as tuas próprias dúvidas existenciais. Chegando ao edifício que já tanto consideras como sendo a tua própria casa, tens à porta a mulher de um moribundo que te espera entre soluços e o esgaçar de um sorriso que teima em não aparecer. Como é que é suposto ser-se humano numa situação de desespero? Como é que eu vou fazer querer oferecer o meu tempo a um outro que não vai poder recebê-lo por inteiro? Que raio de tempo é este, onde uns têm tanto e a outros lhes escapa tão extraordinariamente por entre os dedos e as mãos tão penosamente trancadas? Começas o dia com a evidência do cansaço, exaurido, única e simplesmente pelas lembranças das caras contorcidas de quem pede com comiseração a preciosa ajuda de que tanto carece.
Enquanto jantávamos no “Mercy” no dia dos teus anos, tentei não abordar o teu quotidiano tão repetido e diverso. Também não quis falar de nós, pois este pronome arrefeceu nas mãos que já não damos, nos corpos que não se tocam e aquecem, nas nossas faces que não ardem nem nos corações a quererem sair do lugar, apenas pelo evocar de memórias.
Silêncio e vazio, frivolidades para lhes ocupar descaradamente o lugar. Ou da Maria, falamos da Maria exaustivamente, como se a nossa filha pudesse substituir ou preencher estes afectos desnudados, esvaziados... e que o tempo só perdoa se insistirmos que melhores dias poderão advir do nada e baseada numa irrealidade desgastada como a água que perfaz o mesmo percurso através das rochas que carcome. "A Maria está uma senhora!" Volto a repetir pela quarta vez em cinco minutos. A resposta veio na forma de um sorriso que te caracterizou tantas vezes nas noites de inverno em que ainda me lembro, te sentavas à janela a ver passar o carro do lixo enquanto vociferavas que tanto detrito só poderia ir parar perto da casa de alguém sem vida própria, alguém que ninguém reconhece com uma existência suficientemente notável e desprovido de olfacto. A Maria apanhou de ti o gosto por vezes exagerado com o ambiente e com os outros. Até com os animais mais insignificantes e invisíveis. Numa destas tardes mais húmidas, uma “maria-café” subiu a parede do quarto dela e, por uma fresta da janela, despenhou-se no chão, em queda livre. Apanhou-a e impediu-me de a devolver à rua para não ser devorada pelos pombos que proliferam por todos os lugares desocupados da cidade. Foi devolvê-la à parede da casa para ser livre como os peixes e os caranguejos, dizia.
O Inverno e o frio não se demoram, já se antevêem neste Outono que já não tem dias de início nem de termo. Continuarão as árvores nuas e impotentes, os ventos a soprarem debaixo da porta da rua que não isolaste antes de…partires sem partir. E o Inverno vai trazer de volta, mais copiosa e dura a tua ausência de mim. Vou encaracolar-me na manta em que te enrolavas, sentado na secretária e que guarda forte, intenso e apetecível o aroma do teu corpo. Faço de conta que a tua demora se deve ao facto de estares a fazer banco pela sétima vez esta semana. O teu odor consome todos os meus sentidos e dou comigo a passar a ponta dos dedos pelas almofadas ainda por lavar desde a altura em que fingias cá viver em casa. O Hospital, os doentes, as chamadas a meio da noite e em dias de fim-de-semana dilaceraram os antepenúltimos instantes que eram apenas nossos. Ressinto com amargura as saudades das noites em que fazíamos amor e éramos interrompidos pelo clamor de um doente, exigindo o teu corpo quase tão ofegante quanto eu reclamava pelo teu.
Quando comecei, era para te escrever uma carta, breve, concisa, quase lacónica para te dizer que a Maria pede para estares mais tempo com ela, já que sábados e domingos são dias semelhantes aos outros. Ia sugerir que a levasses ao colégio mais vezes durante as semanas de aulas e que a viesses buscar para jantar. Não. Quase me desencanto quando recaio dentro de mim e encontro nas minhas águas internas a imagem do outro lado do espelho da veracidade destas palavras que te ia escrever, quase destituídas de afectos. Sou eu que careço que me pegues ao colo, a correr como fazes com a Maria ou com algum ébrio que entreguem na urgência. Sou eu que necessito que tragas um sorriso quente e abras a porta da minha vida para a não fechares mais. Volta. Cresci como mulher com a tua ausência como as árvores de folha perene, mesmo na obscuridade do Inverno. Como elas, suportaria, pesada, a neve nos ramos, sabendo que apenas um vislumbre de sol as deixará de novo libertas, maduras.
…e assim termino esta vontade contida na evidência da tinta azul deste manuscrito que deixarei no teu cacifo no hospital quando não estiveres.
Cresce-se com o nada, o sofrimento, o frio. Que a vida, o humano e o transcendente beijem as tuas emoções e te recordem o nunca esquecido caminho até mim.
ANGIE SANTANA E LÍLIA TAVARES
in, Pequenos Contos
domingo, 7 de julho de 2019
Os Sons
- Os sons são outro elemento que te permite recarregares de energia para fazer de ti um Ser de Luz.
A Natureza é uma sinfonia de sons.
Cada corpo presente no Universo emite vibrações que, por sua vez, produzem sons.
(...)
Não são simplesmente um meio de comunicação, mas servem também para absorver a energia de que o corpo necessita e para expulsar a energia excedente.
Para absorveres os sons, serves-te dos ouvidos, instrumento delicado através do qual captas uma ampla gama de sons. Mas atenção: de todos os sons que existem na natureza, alguns são construtivos e recarregam a pessoa de energia, enquanto outros são negativos e debilitam a pessoa.
Muitas das composições musicais criadas pelo ser humano podem trazer um acréscimo de energia, mas muitas outras, em vez de transmitirem paz, tranquilidade, força e energia, precipitam a pessoa no caos e na confusão. Há sons que curam e sons que fazem adoecer: estes últimos são criações artificiais, meras imitações da sinfonia natural. Na realidade, só os sons naturais recarregam de energia e é por isso que é necessário saber quais escutar para escolher, em seguida, os sons que nos podem ajudar.
- E como posso escolher os sons? - perguntou Kantu a Condori.
- Terás de aprender a ser, por vezes, muito receptiva, outras vezes, muito surda, porque, como já te disse, há sons que podem criar o caos e a confusão, quando aquilo que tu queres alcançar é a Unidade do teu Ser. Quanto mais estreito for o teu relacionamento com a Natureza e com os teus sons, mais perto estarás da tua meta. Quanto mais ouvires sons artificiais, mais te afastarás da tua Unidade.
- Os sons da cidade são negativos?
- A maior parte dos sons urbanos são nefastos para o ser humano: ferem a mente e debilitam o corpo. Se tocares numa pessoa que vive na cidade, e numa que vive em contacto com a natureza, vais aperceber-te de que a energia delas é qualitativamente diferente: a segunda possui, seguramente, mais energia que a primeira.
Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira
PODIA
Laura Makabresku
Podia dizer-te que não me importo
Podia fingir que fugi
Ou que estou morto.
Podia deixar o galho frágil
onde pousa a minha vida,
abandonar o rotineiro rebuliço
das aves que abalam.
Com a verdade mais pura
A única verdade
A única que dura
Faria a minha despedida
A promessa de mil abraços
E uma palavra sofrida
Que sou eu mais que um pássaro só
que uma folha que no outono desiste
e se desfaz?
Podia dizer-te que volto
E seria breve
Como um poeta escreve
Livre e solto.
Sou azul como as gaivotas ao final da tarde,
branca como o leite que não bebi da ternura
mel como o sumo dos favos que abelhas interromperam
(E tu, minha vida, acreditas
Nas palavras que não digo?
Será o silêncio castigo?
Será em silêncio que gritas?)
Podia dizer-te que são pequenas
As saudades do teu sorrir
Mas seriam palavras apenas
E seria mentir.
Porque metade de mim permanece nas águas que choro,
outra metade partiu na certeza de um sol.
CARLOS CAMPOS e LÍLIA TAVARES
Poema escrito em intertexto
POEMA PUBLICADO AQUI
sábado, 6 de julho de 2019
À IMAGINAÇÃO
Quando da labuta diária estou cansada,
E do terreno devir de dor em dor,
E perdida me sinto, quase desesperada,
Tua voz terna chama-me ao labor:
Ah, fiel amiga! Não estou só,
Enquanto puderes falar-me nessa voz!
Nada espero do mundo exterior;
O mundo interior, prezo-o a dobrar;
O teu mundo, onde dúvida, ódio, desamor
E fria suspeição jamais hão-de medrar;
Onde tu, e eu, e a Liberdade,
Temos incontestada e suprema autoridade.
Que importa, se à nossa volta
Paira o perigo, a culpa, o breu,
Se há em nossa alma à solta
Um radioso e sereno céu,
Aquecido por dez mil raios luminosos
De sóis que não conhecem dias invernosos?
Na verdade, pode queixar-se a Razão
Da triste realidade da própria Natureza,
E dizer ao amargurado coração
Que são vãos os sonhos que ela tanto preza;
E pode a Verdade espezinhar rudemente,
Da Fantasia, as flores imanescentes:
Mas, atenta, tu refreias sempre
Meus voos delirantes e, enquanto
Derramas novas glórias sobre a nefanda nascente,
Extrais da Morte uma Vida de maior encanto.
E com voz divina me falas, ciciante,
De mundos reais, como o teu tão fascinantes.
Não me rendo à tua fátua bênção;
Porém, no silêncio do entardecer,
Con indefecível gratidão,
Eu te acolho, Benigno Poder;
Consolo, se a vida nos exaspera,
Esperança mais doce, quando a esperança desespera!
EMILY BRONTË
(ELLIS BELL)
in, POEMAS ESCOLHIDOS DAS IRMÃS BRONTË
The capacity to be alone is the capacity to love.
The capacity to be alone
is the capacity to love.
It may look paradoxical to you, but it is not.
It is an existential truth:
Only those persons who are capable of being alone are capable of love, of sharing, of going into the deepest core of the other person - without possessing the other, without becoming dependent on the other, without reducing the other to a thing, and without becoming addicted to the other. They allow the other absolute freedom, because they know that if the other leaves, they will be as happy as they are now.
Their happiness cannot be taken by the other,
because it is not given by the other.
Then why do they want to be together?
It is no longer a need; it is a luxury.
Try to understand it.
Real persons love each other as a luxury; it is not a need.
They enjoy sharing: they have so much joy; they would like to pour it into somebody.
And they know how to play their life as a solo instrument.
The solo flute player knows how to enjoy his flute alone.
And if he comes and finds a tabla player or a solo tabla player, they will enjoy being together and creating a harmony between the flute and the tabla.
Both will enjoy it.
They will both pour their richness into each other.
Osho
sexta-feira, 5 de julho de 2019
O RITO
1.
A nossa terra veio a ser um rito, um signo de descoberta
na qual o homem se encontrou.
A reconciliação com a terra pode talvez ser substituída pela necessidade,
pela inexorabilidade de existir que a terra impõe,
toda a terra, inclusivamente esta que com o coração escolheste
entre todas as outras.
Quando nela ganhas raízes para a vida e para a morte,
ela vai-te quebrantando até reduzir-te a pó.
Vês com dificuldade e com dificuldade te tornas visível
através da necessidade terrestre.
Supõe um esforço incessante subtrair os homens
à inexorabilidade imposta pela terra - e este
esforço tem um nome: «história.»
A história não é ressurreição, mas uma constante
conformidade com a morte, que apenas faz transparecer
a sucessão das agonias humanas.
Ela não alcança o rito em que se converteu a terra,
a nossa terra.
Daí nasce o amor à terra.
O amor não flui a par da morte: ultrapassa-a.
Pelo amor que ultrapassa a morte, a terra veio a ser um rito.
Pelo amor que ultrapassa a morte, a nossa terra converteu-se num rito.
2.
O rito das águas inumeráveis que surgem da terra como plantas;
- as plantas desta terra são os rios, como a água é a terra das plantas;
no inverno, os rios gelam, gelam os lagos e os tanques,
mas as fontes brotam: a Vida das águas fará o gelo explodir.
A nossa terra aproximar-se-á do sol e ele será suficiente
para que a vida ressurja.
Reviverão as águas, reviverão as árvores, REVIVERÁ
A TERRA e virá a ser um rito,
levar-te-á para lá do círculo da morte inscrito nela.
A necessidade de VIVER - dizem a terra e a água cada primavera -,
não é talvez mais forte que a necessidade de morrer?
- assim dizem a terra e a água no seu sussurro recíproco.
Tal sussurro, como o traduzirás na tua própria linguagem?
Como enxertarás no teu pensamento a morte e a Vida da terra?
O rito das águas tem uma voz diferente na primavera,
quando devolve a vida à terra,
e é diferente no verão, quando o homem arde em sede
como o leito de um rio
e o corpo é todo ele um anelo de pureza e frescura...
O homem absorve então o rito das águas
- e nele encontra o seu equilíbrio.
A água fala-nos mais de durar do que de passar
no fluxo dos teus destinos és duradoura, ó água!
A ti, homem imerso na água, digo
que és o destino da terra.
A nossa terra veio a ser um rito de plantas e de árvores
que se abrem como um pensamento saturado de sabedoria,
Sabedoria que é a nossa Pátria, escolhida pelo coração,
com o assentimento da terra.
3.
Com as suas mãos o homem agarra a luz como um
remador que dirige a barca,
entra na luz com todo o seu ser, com toda a carga
das suas palavras e dos seus atos.
Quer ficar nela, quer guardá-la dentro de si,
ou quer mesmo irradiá-la?
Sente a obscuridade, a penumbra, às vezes sustenta
sobre as palmas das mãos
um frágil véu de luz, como sustentaria uma criança recém-nascida;
e canta à luz as canções que uma ama cantaria ao embalar;
- depois cala-se e as canções brilham até que a criança
é envolvida na sombra da existência.
O terra que nos geras, não geras connosco a luz,
mas apenas o véu frágil, ténue, que basta às plantas e aos animais!
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa,
luz feita de substância que o abraço materno não pode encerrar.
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa...
Sou-te leal, terra, quando falo da luz que tu não podes dar
porque falo da LUZ: sem a qual o HOMEM não pode realizar-se,
nem tu tão-pouco, terra, te poderias realizar no homem.
No rito da água e da luz estás presente e calas.
O homem passará sobre o rito com a sua vida e a sua morte
e tu pensarás que o terá espezinhado. ..
Passará o homem, passarão os homens - correrão,
gritando «a vida é luta»
e da luta, que farão surgir: uma terra nova?
(Quando a terra, depois das lutas dos homens, ficar
plena da sua própria quietude, pensarás que a espezinha ?)
KAROL WOJTYLA
in, A PEDREIRA E OUTROS POEMAS
Não libertamos o que não amamos
Não é raro sairmos de situações difíceis e desafiantes com mágoas, ressentimentos e até revolta. O impacto energético, emocional e mental desses momentos mais fortes ou dessas experiências mais violentas é tão intenso que é comum a sensação de injustiça e a vontade até de vingança, não por maldade pura mas apenas o desejo de que o outro também um dia sinta a mesma dor pois só aí poderá parar de a causar.
Na maior parte das vezes, o simples afastamento não chega para curar o impacto que esses eventos ou pessoas deixam em nós.
Não libertamos o que não amamos.
Ainda tomados pela densidade dos mesmos, longe estamos ainda de aceder a um patamar mais elevado onde com mais calma e uma perspectiva mais ampliada, iremos ser capazes de entender o quanto aquele trambolhão que tantas nódoas negras deixou, foi afinal a cama elástica que nos permitiu libertar aqueles velhos padrões e aceder a uma nova consciência e visão da realidade.
Einstein dizia que não resolvemos problemas com a mesma mente que os criou.
Será então neste novo patamar de consciência que iremos descobrir que a viagem espiritual é solitária e pessoal, que os eventos e pessoas à nossa volta são apenas hologramas da nossa dualidade interior, que a nossa energia é magnética e como tal faz atrair eventos e pessoas na mesma vibração, que cada momento é um teste à nossa capacidade de escolhermos entre a luz e o medo, que enquanto cairmos na tentação de projetarmos as nossas questões em algo ou alguém, vivemos irresponsáveis para a nossa capacidade de mudarmos a nossa energia.
Amar implica:
- Aceitar que o que quer que esteja a manifestar-se na nossa realidade tem uma proposta escondida.
- Amar implica descobrir a aprendizagem por traz do encontro ou acontecimento.
- Amar pede de nós humildade, compaixão, tolerância e paciência por quem ainda não vê a luz.
- Amar pede rendição aos movimentos inteligentes da vida e uma atitude não de julgamento mas sim de curiosidade perante os eventos.
- Amar significa resistir à cega RE-ação violência-por-violência e aprender a agir com a consciência de que podemos perante a violência escolher qualquer uma das infinitas manifestações do amor.
- Amar pede de nós responsabilidade por elevarmos a nossa vibração e de sermos um farol de luz na densidade que ainda circula à nossa volta.
- Amar implica libertar todos os ressentimentos, projeções, culpas, sensações de injustiça, vingança ou vitimização e pede de nós a coragem de nos elevarmos desses estágio de aprendizagens e experiências em estado de amor.
- Amar é um verbo que implica movimento, expressão, manifestação. Da mesma maneira que a Lei do karma devolve a consequência da má ação, também devolve a consequência da ação amorosa por isso trabalhemos inteligentemente com ela. Por isso ama porque amar é a tua natureza.
Se queres mudar a tua vida, ama tudo, ama todos, ama as experiências que te rodeiam essenciais à tua evolução, ama as pessoas que fazem parte da tua história karmica, ama a tua densidade e ilumina-a com o teu amor, ama-te a ti mesmo o suficiente para poderes viver em amor.
Vera Luz
Não nos libertamos de um hábito
atirando-o pela janela;
é preciso fazê-lo descer a escada,
degrau a degrau.
Mark Twain
Mark Twain
quinta-feira, 4 de julho de 2019
A Baby's Bill of Rights
as an innocent and vulnerable human being
in need of
in need of
caring care in many ways.
I have the right to
be understood
be understood
as a fully embodied Soul
I have the right not to
have to
have to
justify my existence
I have the right to
have my ongoing needs for
have my ongoing needs for
shelter, quiet, calm voices,
to hear the heartbeat of a mother,
to be held, sung to, comforted.
I have the right to
identify myself differently
- a human being-
rather than an alien or other legalese term
I have a right to
keep my natal language
and to also learn a new language
I have a right to
be seen as a baby,
not as chattel,
not as a detainee
I have the right to
sleep in a bed,
to be protected from predators,
to have a full night's sleep,
to be fed nutritious food.
I have the right to
receive medical care with
a mother's insight and touch instead of
a via a governmental or ruling hierarchy mandate.
I have a right to live in sanitary conditions.
I have the right to
be with my familiares,
relatives, brothers and sisters,
primos, cousins, tios y tias
y mami y papi y abuelos.
I have the right not to
be shamed because of
my nationality,
race or ethnicity or religion.
I have the right to
grow up in dignity,
to be treated with integrity,
to be treated as others would want
their precious children treated...
I have a right to
have my first cry answered right away,
not to be forced into distressed weeping
and despairing sobbing,
and finally dead silence
I have the right to
sunshine, clean air, clean water,
to see the stars in the night,
to songs and music and art,
to have simple toys,
to laugh and to be happy.
Clarissa Pinkola Estés
OPIÁRIO
Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro
É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola para adaptar-me.
Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.
É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.
Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.
Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.
Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.
Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.
Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.
E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure,
Se nesta viagem nem houve procelas!
A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.
Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.
Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.
Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Para que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?
Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.
Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.
Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde —
Um escroc francês, conde de fim de enterro.
Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.
Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.
Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.
Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca... e o resto ele adivinha.
Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.
Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.
Os ingleses são feitos para existir.
Não há gente como esta para estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.
Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.
Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.
Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas para dormir e para comer,
Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!
Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Queria outro ópio mais forte para ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.
Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O facto essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.
Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, para vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pela coleira!
Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá prò fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.
E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.
Ah quanta alma haverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?
Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro.
Não fazer nada é a minha perdição.
Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!
Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.
O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...
Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci para mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.
E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!
No Canal de Suez, a bordo.
Álvaro de Campos
in, Orpheu
Quando os meninos me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"
Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora.
Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau.
Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos.
Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas.
Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.
As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.
As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses.
Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.
Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…
E os filhos faziam-se gente.
E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia.. ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!
Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!
A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.
E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.
E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.
E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos, mais as colegas da escola, mais as senhoras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que baptizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.
E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.
Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua à espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que estava há tempos no congelador.
As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos /grandes ditadores que até são seus filhinhos, e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.
Sabem que mais?!
Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.
Esta gente, foi a gente com quem me fiz gente.
Hoje, não há gente… é tudo transgénico.
O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.
Dizem que já estamos no século XXI...”
Profª. Lourdes dos Anjos
quarta-feira, 3 de julho de 2019
O Ofício
Recomeço.
Não tenho outro ofício.
Entre o pólen subtil
e o bolor da palha,
recomeço.
Com a noite de perfil
a medir-me cada passo,
recomeço,
pedra sobre pedra,
a juntar palavras;
quero eu dizer:
ranho baba merda
Eugénio de Andrade
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