sexta-feira, 12 de abril de 2019
quarta-feira, 10 de abril de 2019
AS MINHAS ASAS
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
-Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que m'as deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
-Veio a ambição, cóas grandezas,
Vinham para m'as cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
-Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
-Tudo perdi n'essa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
ALMEIDA GARRETT
in, FOLHAS CAIDAS
Choque de Gerações - Uma visão espiritual
O choque de gerações é uma realidade quase sempre intensa e algo desconfortável na vida de quase todas as famílias. Não é apenas a questão de idade que nos afasta aos poucos daqueles que um dia foram o nosso porto seguro. E também não é apenas a questão da maturidade que impede a saudável relação quando os nossos filhos chegam à desafiante adolescência.
O que realmente dói, são as projeções que fazemos e as desilusões das expectativas idealistas que temos tanto em relação aos pais como aos filhos. É o estado de ignorância que nos incapacita de percebermos porque afinal a lei da atração nos juntou a todos na mesma família.Não é raro sentirmo-nos deslocados, que não fazemos parte, que não tivemos sorte com a familia que nos calhou. Ralhamos e rogamos pragas ao que nem sempre parece fazer sentido quando apenas precisamos aprender a analisar estas dinâmicas pelos olhos da espiritualidade;
Projeção: A projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais inaceitáveis ou indesejados são atribuídos a outra pessoa mantendo-se o próprio em negação dos mesmos. A Projeção psicológica ocorre quando culpamos outros do que ainda não aceitamos em nós.
Ilusão: A ilusão é uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção. Na nossa língua, "iludir" significa ter a esperança de algo desejável. E não estamos todos iludidamente à procura do mundo/vida/pessoa/casa/filhos/pais perfeitos?
A viagem da vida obedece a um propósito de evolução que tanto acontece dentro de nós a nível individual como nas dinâmicas da própria família. A lei do karma, a lei da atração e a lei da vibração criam antes de encarnar o cenário perfeito para que o projeto individual de evolução possa acontecer. Nesse projeto estão já a família e cada membro da mesma, a cultura, a forma de pensamento, ideologias, crenças, circunstâncias diversas que farão parte da história e do que precisamos viver para nos cumprirmos.
Tal como na preparação de uma peça de teatro, tudo o que está presente, foi escolhido com um propósito: usar a encarnação presente para fechar e curar os padrões negativos do passado de onde viemos e ter a coragem de abrir novo padrões que definam as experiências que desejamos algures no futuro para onde vamos.
Deste ponto de vista, a geração seguinte (os filhos) traz sempre a responsabilidade e potencial energético de ir mais além do que a geração dos pais foram capazes. A família escolhida é precisamente a que lhe permite rever ou relembrar de onde vem pois antes de abrir um novo padrão, há que fechar o velho em estado de amor e gratidão pelas aprendizagens feitas.
Mas precisamente porque vêm preparados para transcender os velhos padrões, não percebem, durante algum tempo, que também os carregam dentro de si, projetando assim o seu velho passado, nos pais que ainda o estão a viver.
E se a projeção já é um mecanismo violento de rejeição da própria sombra, a idealização ainda torna estas vivências mais complexas pois condiciona-nos a vermo-nos a nós e a esperar dos outros nada menos do que a visão ideal de perfeição. Precisamente porque não entendemos a razão de atraírmos uns pais desafiantes, sofremos com a ideia de que são tudo menos perfeitos. Que "deveriam" estar a comportar-se de forma ideal. Que se fossem ideais e o que gostaríamos que eles fossem, a nossa vida seria tão mais fácil e seríamos tão mais felizes.
Tanto a projeção como a idealização são mecanismos de defesa inconscientes que apenas são usados enquanto a verdade nua e crua não vem ao de cima. Enquanto não nos atrevermos a olhar para nós próprios e a termos a coragem de assumirmos em nós o que até ali projetávamos facilmente nos outros.
Até ganharmos a responsabilidade de termos nós mesmos escolhido a família em que estamos. Escolhida não para ser a familia perfeita que queremos mas sim porque JÁ É a família perfeita que precisamos.
Aprender a reconhecer quem é quem é essencial para sabermos como agir de acordo com cada um, que aprendizagens diferentes cada pessoa nos vem propor e como aproveitar a presença de cada um para a nossa própria evolução pessoal.
Do ponto de vista da lei da atração há uma intenção positiva e aprendizagens valiosas que leva a juntar determinados elementos na mesma família.
Ou seja, filhos saberão ver nos pais sombras de si mesmos que precisam ser transformadas, e pais verão nos filhos novos caminhos e formas de ser, um potencial futuro, normalmente só realizável numa futura encarnação.
Se soubermos reconhecer estas ligações e aprendizagens pelo olho da alma, temos tudo a ganhar, desenvolvemos a compaixão pelos que representam o passado e gratidão pelos que representam o nosso potencial. Pelo olho do ego caímos no julgamento e na infantil projeção e idealização que nos impede de evoluir e nos prende a violentas e dolorosas dinâmicas familiares.
Vera Luz
terça-feira, 9 de abril de 2019
segunda-feira, 8 de abril de 2019
O Desespero Humano
Soren Kierkegaard,
o primeiro filósofo existencialista,
dinamarquês,
que escreveu textos críticos sobre religião organizada,
cristandade, moralidade, ética, psicologia, e filosofia da religião.
Foi considerado o grande filósofo do séc. XIX.
Kierkegaard dizia que ansiedade/medo/angústia, dependendo do contexto, é o medo desenfreado. Usava o exemplo de um homem parado na beira de um edifício alto ou de um penhasco. A partir desta altura, ele podia ver todas as possibilidades da vida. Ele iria refletir sobre o que poderia acontecer se ele apenas se atirasse no poder de escolher. Enquanto ele fica lá, ele está na encruzilhada da vida, incapaz de tomar uma decisão e viver dentro dos seus limites. O simples facto de que alguém tenha a possibilidade e a liberdade de fazer e escolher algo, mesmo as mais terríveis das possibilidades, desencadeia imensos sentimentos de medo. E a isto ele chamou de "tonturas de liberdade".
No livro ”O Desespero Humano”, o meu livro preferido dele e que reli agora, ele fala do Eu Humano como uma composição de vários aspectos que devem ser levados ao equilíbrio consciente: o finito, o infinito, a consciência do "relacionamento dos dois para si mesmo" e uma consciência do "poder que postulava" o eu.
Os finitos (limitações como a morte, ou incapacidades do corpo) e o infinito (as capacidades que nos libertam de limitações, como a imaginação) sempre existem num estado de tensão. Essa tensão entre os dois aspectos do "eu" deve ser mantida em equilíbrio. Quando o eu está fora de equilíbrio, ou seja, tem a compreensão errada de quem é porque concebe muito de si mesmo em termos de suas próprias circunstâncias limitantes (e, portanto, não consegue reconhecer a sua própria liberdade para determinar o que deve ser), ou concebe muito de si mesmo em termos do que gostaria de ser (ignorando as suas próprias circunstâncias), essa pessoa está em desespero. Ele diz que alguém pode estar desesperado mesmo que se sinta perfeitamente feliz, ele diz que a forma mais comum de desespero é não ser quem tu és. O desespero não é apenas uma emoção. Num sentido mais profundo é a perda de si mesmo, ou seja, ele descreve o estado de desespero quando alguém tem a concepção errada de si mesmo.
No livro ele diz assim:
“Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio; tal como os médicos dizem de uma doença, o homem traz em estado latente uma enfermidade, da qual, num relâmpago, raramente um medo inexplicável lhe revela a presença interna.”
O indivíduo só se pode libertar do desespero acreditando em si próprio, isso coloca as qualidades infinitas, e finitas do indivíduo em equilíbrio, e ele pode reconhecer o que sempre esteve lá: um eu verdadeiro, isto é, o indivíduo reconhece-se, e pára de idolatrar ídolos que eram usados como substitutos de si próprio.
Tudo está dentro de nós!
Não precisamos de procurar fora.
Ele tem uma frase que diz assim:
"Quando em torno de um tudo se tornou silencioso, solene como uma noite clara e estrelada, quando a alma vem a estar sozinha no mundo inteiro, então atrás de você aparece, não um ser humano extraordinário, mas o próprio poder eterno, os céus se abrem, então o eu escolhe a si mesmo ou, mais corretamente, se recebe. Dessa forma a personalidade recebe o elogio da cavalaria que o enobrece pela eternidade. O cavaleiro da fé é o único homem feliz, o herdeiro do finito, enquanto o cavaleiro da resignação é um estranho e um alienígena"
No prefácio do livro ele diz assim:
“O papel principal do saber filosófico é “ousarmos ser nós próprios, ousarmos ser um indivíduo, não um qualquer, mas este que somos, isolado na imensidade do seu esforço e da sua responsabilidade.”
Ou seja, ele não visaria “satisfazer uma humana curiosidade”, mas sim ser capaz de mostrar o único caminho para a verdadeira edificação humana. Esse caminho é único simplesmente porque tudo o que possa visar essa edificação ou a verdadeira salvação só podem percorrer também o mesmo caminho.
Mas, vem logo à tona as questões:
- A que exatamente visa esse caminho?
- Do que ele pretende salvar-nos?
- É realmente necessária essa salvação?
O caminho de salvação sobre o qual fala Kierkegaard visa a descoberta do que cada um deve fazer de seu ‘si próprio’; esse caminho pretende salvar-nos de uma doença chamada desespero, que, segundo o autor, acomete a todos, sem exceção; e, sim, essa salvação é necessária.
Segundo ele, o desespero é “a doença e não o remédio;” “morrer para o mundo é o remédio.” Ou seja: todos nós somos desesperados e o único remédio para isso é morrer para o mundo. Kierkegaard interpreta que, enquanto desesperados, nós morremos aos poucos. Se nós morrermos de uma só vez, isso nos libertaria para sermos nós mesmos.
Vivemos no desespero justamente na medida em que buscamos aplacar esse desespero voltando-nos para fora, para o mundo que incessantemente traz novidades. Ao seguir esse movimento “para fora”, nós apenas aprofundamos cada vez mais o mesmo desespero.
A única via de saída desse movimento é, então, morrer para o mundo.
Mas, podemos perguntar: em que consiste exatamente essa morte?
Nas palavras de Kierkegaard: Visto que na linguagem humana a morte é o fim de tudo, enquanto há vida há esperança.
Isto é: a morte, na linguagem dele, consiste justamente numa espécie de desfazer-se das tentações ordinárias, que nos tiram de nós mesmos. Morrer, nesse sentido, seria parar essas tentações. Isto porque enquanto estamos presos a essas requisições, elas podem mesmo parecer necessárias, constitutivas do nosso ser, quando, realmente, não o são.
Vem ao caso a pergunta:
Como distinguir entre as requisições ordinárias e as que realmente se mostram como necessárias na vivência em comunidade?
Kierkegaard é claro ao fazer essa distinção: tudo aquilo que corrobora com o desespero é ordinário.
Ele aqui, parece apontar para uma certa experiência: para aqueles que não a viveram, tudo é uma doença mortal, para quem passa por essa experiência “nada é uma doença mortal”. Isto é resumido na seguinte passagem: “o homem natural pode enumerar à vontade tudo o que é horrível – e tudo esgotar,(...) o homem natural treme do que não é horrível.
Kierkegaard faz, então, a sua definição do homem:
“O homem é espírito. Mas o que é espírito? É o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu é uma relação, que não se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo própria. Mais e melhor do que na relação propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relação para a própria interioridade. O eu não é a relação em si, mas sim o seu voltar-se sobre si própria, o conhecimento que ela tem de si própria depois de estabelecida. O homem é a síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto-de-vista, o eu não existe ainda.”
Isto é, Kierkegaard compreende que nós somos um voltar-se para dentro. Esse, por sua vez, não é nada mais do que um terceiro elemento, que reúne os outros dois - finito e infinito, temporal e eterno, liberdade e necessidade. A esse voltar-se, ele dá o nome de eu. Esse ´eu´, contudo, ainda não existe, ou seja, ele é o elemento transcendente que nos constitui. Ele não se dá simplesmente como algo já existente ou já constituído, mas, sempre, como algo, a vir a ser constituído. Segundo Kierkegaard, “daí provém que haja duas formas do verdadeiro desespero”: a vontade desesperada de sermos nós próprios e a vontade de não sermos nós próprios.
A respeito da nossa constituição transcendente, que não somos nada em específico, mas sim um movimento de vir a ser a partir do infinito e do finito, do eterno e do temporal, o problema é que, para chegar a essa verdade, é necessário levarmos à morte tudo aquilo que insiste em dizer que nós somos um algo “em específico”.
É por isso que Kierkegaard assume como sendo o caminho próprio da salvação o aforismo socrático “Conhece-te a ti mesmo”.
Esse conhecer é tanto o caminho da salvação quanto propriamente o elemento transcendente constitutivo de todos nós. Sendo constitutivo da essência humana, a transcendência acontece sempre, mas, no entanto, poucos são aqueles que conseguem estar sempre despertos para essa essência, devendo a filosofia, segundo Kierkegaard, sempre nos lembrar disso, como o único remédio para a doença, que pode levar à morte, chamada desespero.
Kierkegaard foi o primeiro que de uma maneira explicita colocou as questões existencialistas como principal foco do exame filosófico da vida humana. Todo o seu pensamento é desenvolvido a partir do seu íntimo, onde encontra os elementos considerados por ele como importantes para a sua filosofia. O resultado do seu pensamento foi uma novidade para a época, porque estava muito mais de acordo com as suas experiências do que com outras teorias anteriores ao seu tempo.
Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.
Ele partiu da ideia de que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e vivê-la de maneira íntegra, sincera e apaixonada, mesmo com os inúmeros obstáculos que podem surgir.
E assim surgiu o existencialismo!
O existencialismo rejeita a ideia de alma imutável, dando ao indivíduo o papel de construtor da sua própria realidade. Toda a sua energia se transformou em inspiração para a produção literária que aborda temas diversos da existência humana.
Kierkegaard, tal como Fernando Pessoa, escreveu sempre com pseudónimos.
Todas as suas obras foram publicadas com pseudónimos como: Victor Eremita, Johannes de Silentio, Climacus, entre outros, possivelmente para se proteger do conflito que tinha com o bispo da Igreja Luterana.
Arriscar-se é viver
Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor o seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor as suas ideias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.
Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...
Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar a evitar o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão da sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre...
Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...
Soren Kierkegaard
quinta-feira, 4 de abril de 2019
O CAMINHANTE
Não me perguntes
O que é salvação
Ou onde a encontrar,
Não sou investigador, mas apenas poeta...
Vivo agarrado a esta terra.
Perante mim corre o rio da vida...
Levando na sua corrente
Luz e sombra, bem e mal,
Ganhos e perdas, lágrimas e risos,
Coisas que se entrelaçam
E se esquecem!
Sobre as suas águas
A manhã chega em profundos matizes,
O ocaso estende o seu véu carmesim,
E os raios lunares caem como o suave tacto de uma mãe.
Na noite escura
As estrelas elevam as suas orações;
Sobre as suas ondas
A madhuri oferece os seus dons,
E as aves soltam os seus cantos.
Quando ao ritmo das ondas
Silencioso dança o meu coração
Então nesse ritmo
Estão os meus limites e a minha liberdade.
Não desejo conservar nada
Nem apegar-me a nada.
Desatando os nós da união e da separação,
Quero flutuar com o Todo
Içando as minhas velas ao vento que paira.
Oh, grande Caminhante!
Para ti abrem-se os dez caminhos
Nos confins da terra,
E não tens templo, nem céu,
Nem limite final.
A cada passo tocas o chão sagrado.
Caminhando a teu lado, oh, Incansável!
Encontro a salvação
No tesouro do caminho.
Em luz e sombra,
Nas páginas sempre novas da criação,
Em cada novo instante de dissolução
Ouve-se o ritmo das tuas danças e canções.
Rabinadranath Tagore
Envelhecer
Numa das suas mais belas prosas poética, Eugénio de Andrade perguntava:
“Envelhecer não é assim tão simples, por mais que o digam. Quantos dias de sol o declínio nos reserva? Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender? Esta alegria de noutros corpos sermos ainda alguma juventude, como guardá-la, sem a degradar?”.
Prisioneiro, ainda e para sempre!, de fascinada gratidão por quem Óscar Lopes descreveu como o poeta solar, o professor de Antropologia Médica sorri, em face de tamanha idealização da juventude. E de uma teoria, no mínimo desencantada, do envelhecimento.
Porque encará-lo como um doloroso recuo, passo a passo, rumo ao nada a que a vida por momentos nos surripiou; abençoado, aqui e ali, por umas horas soalheiras, o riso dos netos ou memórias ternurentas, não é justo.
Mas prefiro vasculhar o travo a culpa nostálgica que se desprende do monólogo do Eugénio.
Dir-me-ão que fala especificamente de amor. Concedo.
Poderíamos discutir qual, não tenho dele visão essencialista, que o transforme numa entidade abstracta, alheia a diferentes culturas e momentos históricos. Também não me atardarei em questões de léxico. Na Idade Média, por exemplo, numa das cortes ocitanas em que nasceu o amor cortês, bastava o estatuto de solteiro – e não de bom rapaz… - para ser considerado jovem, ao arrepio da nossa intuitiva certeza - juventude e B.J. andam sempre de mãos dadas.
Caminhos que me são queridos, hoje considero adequado trilhar outros.
Quando o Eugénio se interroga sobre a eventual ofensa aos jovens, cristaliza na relação amorosa uma angústia mais geral, agressiva e recente – não os ofenderá a nossa mera existência?
Tomemos os gregos.
Quando Alcibíades se lamenta por não ter seduzido Sócrates, apesar de o saber sensível à sua decantada beleza, o despeito não belisca a admiração sentida pelo filósofo. E pela razão de gentil recusa - a beleza do corpo não passava de um degrau na busca da Beleza e do Bem.
Sócrates e Alcibíades, sem esquecer Platão que os escreveu, ficariam surpresos com o que hoje acontece. Beleza e Juventude valem por si, ponto final. Traduzem um verdadeiro paradigma, no sentido original do termo – modelo, normas a seguir por um grupo. Seguir e perseguir, acrescentaria eu! A nostalgia de transcendência perdeu-se pelo caminho. A beleza não tenciona levantar voo da dimensão física, numa sociedade que privilegia a aparência em detrimento da essência, vive como peixe na água, transformada num produto que se vende bem e ajuda a vender os outros. (Escusado será dizer que com um indiscutível efeito de género, os homens podem trocar o adjectivo belo por interessante sem grandes consequências. Ou até com vantagens no mercado da oferta e da procura.) No caso da juventude, arrisco-me a dizer que a auto-satisfação é ainda maior, a inevitabilidade do envelhecimento só lhe acentua a aura ameaçadora, apetece rosnar entredentes como ao Satanás de antanho – vade retro.
Qual foi o nosso trajecto?
A partir da década de sessenta, a juventude não se limitou a monopolizar a beleza sedutora, de um momento para o outro, os filhos da guerra adoptavam existências e ideologias em absoluto diversas das dos pais. Não raro, teoricamente… Por exemplo, os relatos de educadores assustados e furiosos, por se surpreenderem a repetir processos que tinham jurado exilar, obrigam-nos a matizar os discursos. Ou o salve-se quem puder de Wall Street!, a velha frase de Sartre espreita dos bastidores – “os universitários são revolucionários até se formarem. Depois vão ganhar a vida.” Mas a rebelião de alguns, por vezes comodista e burguesa, e a estranheza defensiva de outros, embalaram expressão clássica – vivíamos um conflito de gerações. Decreto grandiloquente, o mais das vezes apenas traduziu vivência aflita de contraste desejável.
Pobre da sociedade em que os filhos não passam de fotocópias ou pseudópodes dos pais…
Mas se em termos de psicologia do desenvolvimento o alarido foi enorme, e nos deixou com a “invenção” da adolescência como estádio autónomo, merecedor da célebre moratória de Eriksson e do olhar guloso dos publicitários, que através dela alvejavam os bolsos parentais, o imperialismo estético e a recusa do envelhecimento não mais pararam de se acentuar.
Numa sociedade capitalista rendida à aparência, os objectivos são lógicos – guerra sem quartel às rugas e ao envelhecimento em geral, encarado como derrota e saída de cena, merecedor até de xenofobia encapotada.Lembremos o novo diagnóstico de analfabetos funcionais - de que vale saber ler, escrever e contar, à boa maneira salazarista, se não dominamos Excel, PDF e Power Point?
Em termos gerais, vivemos numa cultura que não incita as gentes a envelhecerem bem, pacificadas, cuidando-se física e psicologicamente, mas a negarem esse envelhecimento com todas as forças e recursos económicos.
Efeito de género?
Claro que continua presente, nenhum de nós terá o desplante de afirmar que a pressão sobre os homens é equivalente à sofrida pelas mulheres.
Mas efeito de classe também!, quem trabalha de sol a sol e namora montras envelhece mais cedo e sem grandes angústias existenciais.
De nada valeriam, a preocupação pela sobrevivência a curto prazo diminui a esperança de vida e o vasculhar do horizonte, a pergunta clássica de psi, “como se imagina daqui a dez anos?”, é frequente surgir resposta risonha de tão trágica – “nem sei se lá chego”.
Alguém definia a Estatística como a Ciência de mentir através dos factos e não serei eu a nega-lo, cada noite de análise de resultados eleitorais serve de álibi, os mesmos números justificam declarações inflamadas de vitória de todos os quadrantes, empurrando o espectador para uma acefalia que nada fica a dever à semeada pelos intervalos publicitários.
Mas há dados que até a Houdini resistiriam, quando os defrontamos título de velha canção dos Dire Straits nos invade o espírito – solid rock. Assim são os demográficos, esta sociedade envelhece. Na minha opinião, inexoravelmente. O que não permite descurar a obrigação ética de promover todas as medidas que incentivem a natalidade, protejam a gravidez adolescente e evitem a xenofobia para os que vieram de longe, de muito longe, o que eles andaram para aqui chegar e – com sorte… - trabalhar.
Mas os factos e as previsões aí estão – menos jovens e cada vez mais idosos, o sonho de eternas juventudes dá lugar a quotidianos centrados em longos e às vezes penosos ocasos. A Ciência em geral e a Medicina em particular aprenderam no século XX truques muito eficazes para brincadeira favorita – trocar as voltas à Mãe Natureza e ao seu braço de foice armado, a selecção natural.
Vivemos mais? Sim. Melhor? Nem sempre.
Amiúde nem sequer tão bem, a quantidade não garantiu a qualidade.
En passant, lembro-lhes que estão obrigados a segredo profissional, não quero sair desta sessão olhando por cima do ombro, receoso de uma qualquer brigada da ASAE.
E se eu o afirmo baseado nos canhenhos de Antropologia Médica, na escuta de psiquiatra e em anos e nódoas negras vividos, vocês confirmam-no todos os dias na prática. Vocês; que são a primeira linha de defesa da Clínica e da organização institucional; e a última contra uma Medicina fascinada pela super-especialização, que transforma o Doente num somatório de órgãos e sistemas. Analisado até à sua e nossa exaustão, esquecendo a síntese que o devolve à condição de Sujeito de pleno direito.
Na realidade, e aqui entre nós, também a Medicina alimentou sonhos adolescentes de eterna juventude. E assim reforçou um paradigma popular com outro, científico, no sentido que Kuhn lhe deu. Qualquer historiador da nossa arte, e a palavra não é casual ou descuidada, vos dirá que a explosão de terapêuticas, surgida em meados do século XX, gerou uma vertigem optimista de omnipotência, que sobretudo o VIH, a doença oncológica e as demências se encarregaram de travar. Mas tal soberba teve ecos fatais no ensino, com os jovens médicos a beneficiarem de uma formação a meio caminho entre a clínica e a ciência, à custa das horas dedicadas ao que um colega americano crismou de bricabraque psicológico. Da super-especialização, vista como o futuro adequado aos melhores, em contraste com uma Medicina Geral e Familiar subalternizada, porto de refúgio para não dizer refugo, da sua incapacidade de manter uma visão holística do Doente, já falei. Mas também o mais profundo conceito da profissão gemeu sob o jugo dessa ideologia, as duas faces da Medicina viraram-se as costas como as das moedas, o cuidar foi entregue – com mal disfarçado alívio… - a outros especialistas, permitindo-nos o luxo de apenas nos concentrarmos na busca do El Dorado da cura.
Da cura, mas de humildade, a que tal Medicina vem sendo sujeita não preciso, como disse, falar-vos, são vocês a sofrer-lhe as agruras. Depois de a maioria ter sido formada quase exclusivamente para lidar com a doença aguda, eis-vos emaranhados nas crónicas e no seu cortejo de queixas itinerantes, efeitos colaterais de terapias, sofrimento que jamais se deixará enjaular na palavra dor. Aceitem a compaixão, no sentido original do termo, que como psiquiatra vos ofereço, a doença psíquica também me ensinou que o ego sofre rudemente com visitas raras de acontecimento que torna a separação despedida de corações ligeiros – a alta.
A Medicina Científica foi obrigada a crescer e envelhecer.
Não sentindo o bafo da grande ceifeira, ela mesma funciona como seguro de vida da profissão, mas valorizando a sageza, o passo em frente cauteloso e multidisciplinar, em detrimento das águas complacentes em que se mirava Narciso. Não curaremos todos; não os tornaremos imortais; não seremos capazes de lhes assegurar a felicidade; não conseguiremos evitar a influência de variáveis sociais. De uma vez por todas é imperioso que o Poder o entenda - a busca do Santo Graal da Saúde não pode ser levada a cabo apenas pelos seus profissionais. As consequências da crise, já evidentes nos planos físico e psíquico, provam-no de modo insofismável. E por isso, é bom que as promessas dos políticos, sobretudo no que aos Cuidados Primários diz respeito, não se limitem a voar de bocas habituadas a campanhas eleitorais e deixem os tinteiros rumo à legislação. Sob pena de uma Democracia tão jovem como a nossa poder acumular fissuras de sistema envelhecido, à mercê dos que dela exigem os direitos para lhe planearem o enterro.
Também nós, os psis, fomos obrigados a calibrar o tiro.
Fascinados pelo mergulho freudiano no inconsciente, nas experiências precoces e respectivas impressões digitais, assoberbados pela tarefa de manter na corrida frenética em que vivemos gente sem tempo para se meditar, nostálgicos da bala dourada da farmácia, que promete tudo resolver pelo reequilíbrio de mediadores químicos, olimpicamente alheios às narrativas de vida, tentados a resolver sintomas isolados incapacitantes, numa espécie de “psiquiatria de órgão”, que ignora a vida mental no seu todo, o envelhecimento não nos atrai particularmente.
Se Freud desaconselhava a psicanálise depois da meia-idade, pela angústia que podia provocar no paciente, alguns de nós, na melhor das intenções, encaram o trabalho com os mais velhos apenas no registo da psicoterapia de apoio, quando não no da mera escuta empática.
Trata-se de um erro crasso, por clínica e cientificamente comprovado.
As novas tecnologias e a investigação que sugeriram, estilhaçaram as velhas teorias sobre a imutabilidade melancólica dos nossos neurónios, a adaptação dos seus circuitos continua ao longo da vida. (Para o melhor e o pior!, mas não é o momento de nos debruçarmos sobre as relações juvenis que mantemos com e através de Net, sms, mails e robótica, bastará admitir que pensamos, sentimos e avaliamos eticamente de forma diversa, duas ou três décadas volvidas.)
Mas essa neuro-plasticidade, verdadeira infância guardada em neurónios que envelhecem, não acarreta apenas vantagens.
Ouçamos Pascual-Leone:
“Além de ser o mecanismo do desenvolvimento e da aprendizagem, a plasticidade pode ser causa de patologia.”.
Porquê? Porque quanto mais o doente se concentra nos sintomas, mais profundamente eles ficam gravados nos seus circuitos neuronais, diz Nicholas Carr.
Mas mesmo fora da patologia a mensagem é clara, segundo Doidge, “se deixamos de exercitar as nossas capacidades mentais não nos limitamos a esquecê-las: o mapa espacial do cérebro que lhes pertence é ocupado pelas que as substituem”, num processo apelidado, com indiscutível humor, de “sobrevivência dos mais ocupados”.
E por isso o envelhecimento activo, melhor ainda, o envelhecimento saudável!, depende tanto da caminhada à beira-mar como da frequência de uma universidade sénior ou dos benefícios de uma relação terapêutica que não sacrifica a ambição no altar do bilhete de identidade.
A reificação da juventude e da beleza continua de boa saúde? É verdade.
Basta lançar uma vista de olhos por revistas em salas de espera, grávidas de discursos gémeos de tanta gente que pede ao bisturi que atrase os ponteiros do relógio do envelhecimento; ver na capa da Vanity Fair a fotografia do secretário do Papa com a legenda “ser bonito não é pecado”; escutar a amargura de quem foi convidado a passar à pré-reforma porque a empresa necessita de sangue e imagem novos.
E nós?
Fomos capazes de sacudir um paradigma cartesiano, que tudo prometia ao corpo e lhe impunha fronteiras na relação com o espírito; batemo-nos hoje por outro, que preconiza a abordagem psicossomática e holística da pessoa.
A Medicina não nasceu para vencer a morte, Asclépio foi fulminado por Zeus, alegadamente por o conseguir e de tal feito se gabar. Não, não nascemos para matar a morte. Nem sequer para a recusar, por encarniçamento terapêutico, a vidas que já se apagaram.
Nascemos para curar e cuidar os vivos.
A juventude não é eterna, a velhice já não é breve, a adolescência espalha-se pela infância; e por uma adultícia pouco segura de possuir a maturidade... Criámos para as nossas vidas fronteiras tão artificiais como as que geraram horas e minutos à custa de estações do ano, colheitas e fases da lua. A medicina holística não aborda a pessoa inteira num dado momento, aborda-a inteira porque lhe escuta os momentos… de uma vida inteira. E assim cala o murmúrio sedutor de uma qualquer fonte da eterna juventude!
E a beleza, dir-me-ão? A física?
A sua exigência, numa sociedade rendida à imagem, trar-nos-á clientes, e repito – clientes, mas também questões éticas – onde pára a intervenção terapêutica e começa a cedência ao capricho ou à anemia das nossas contas bancárias?
Devolvo a palavra a Eugénio de Andrade:
“Porque a beleza, ou é esta entrega a quem de súbito a descobre, ou se esconde, cruel, a quem faz da sua procura uma perseguição de carniceiro”.
Estou de acordo.
Os Antigos diziam dos médicos que eram mestres de pensar o corpo, gosto de acreditar que podemos ajudar outros a fazerem o mesmo. E assim descobrirem a beleza, não apenas física, que em todos nós brilha, inacessível a pressas de talhante. Mas disposta a conceder o benefício da dúvida a médico e doente capazes de tocar a consulta a quatro mãos.
Júlio Machado Vaz
terça-feira, 2 de abril de 2019
A Morte Absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."
Morrer mais completamente ainda,
Sem deixar sequer esse nome.
Manuel Bandeira
A Herança Emocional dos nossos Antepassados
A herança emocional é tão decisiva quanto intransigente e impositora. Estamos enganados quando pensamos que a nossa história começou quando emitimos o nosso primeiro choro. Pensar dessa forma é um erro, porque assim como somos o fruto da união do óvulo e do esperma, também somos um produto dos desejos, fantasias, medos e toda uma constelação de emoções e percepções que se misturaram para dar origem a uma nova vida.
Atualmente falamos muito sobre o conceito de “história familiar”.
Quando uma pessoa nasce, ela começa a escrever uma história com suas ações. Se observarmos as histórias de cada membro de uma família, encontraremos semelhanças essenciais e objetivos comuns. Parece que cada indivíduo é um capítulo de uma história maior, que está sendo escrita ao longo de diferentes gerações.
“A verdade sem amor dói.
A verdade com amor cura. ”
-Anónimo-
Esta situação foi muito bem retratada no livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, que mostra como o mesmo medo é repetido através de diferentes gerações até que se torna realidade e termina com toda uma linhagem.
O que herdamos das gerações anteriores são os pesadelos, os traumas e as experiências mal resolvidas.
A herança de nossos antepassados que atravessa gerações
Esse processo de transmissão entre as gerações é algo inconsciente.
Normalmente são situações ocultas ou confusas que causam vergonha ou medo.
Os descendentes de alguém que sofreu um trauma não tratado suportam o peso dessa falta de resolução. Eles sentem ou pressentem que existe “algo estranho” que gravita ao seu redor como um peso, mas que não conseguem definir o que é.
Por exemplo, uma avó que foi abusada sexualmente transmite os efeitos do seu trauma, mas não o seu conteúdo. Talvez até mesmo seus filhos, netos e bisnetos sintam uma certa intolerância em relação à sexualidade, ou uma desconfiança visceral das pessoas do sexo oposto, ou uma sensação de desesperança que não conseguem explicar.
Essa herança emocional também pode se manifestar como uma doença.
O psicanalista francês Françoise Dolto, disse, “o que é calado na primeira geração, a segunda carrega no corpo”.
Assim como existe um “inconsciente coletivo“, também existe um “inconsciente familiar”.
Nesse inconsciente estão guardadas todas as experiências silenciadas, que estão escondidas porque são um tabu: suicídios, abortos, doenças mentais, homicídios, perdas, abusos, etc.
O trauma tende a se repetir na próxima geração, até encontrar uma maneira de tornar-se consciente e ser resolvido.
Esses desconfortos físicos ou emocionais que parecem não ter explicação podem ser “uma chamada” para que tomemos consciência desses segredos silenciados ou daquelas verdades escondidas, que provavelmente não estão na nossa própria vida, mas na vida de algum dos nossos antepassados.
O caminho para a compreensão da herança emocional
É natural que diante de experiências traumáticas as pessoas reajam tentando esquecer.
Talvez a lembrança seja muito dolorosa e elas acreditam que não serão capazes de suportá-la e transcendê-la. Ou talvez a situação comprometa a sua dignidade, como no caso de abuso sexual, em que apesar de ser uma vítima, a pessoa se sente constrangida e envergonhada. Ou simplesmente querem evitar o julgamento dos outros. Por isso, o fato é enterrado e a melhor solução é não falar sobre assunto.
Este tipo de esquecimento é muito superficial. Na verdade o tema não está esquecido, a lembrança é reprimida. Tudo que reprimimos se manifesta de uma outra forma. É mais seguro quando volta através da repetição.
Isto significa que uma família que tenha vivenciado o suicídio de um dos seus membros provavelmente vai experimentá-lo novamente com outra pessoa de uma nova geração. Se a situação não foi abordada e resolvida, ficará flutuando como um fantasma que voltará a se manifestar mais cedo ou mais tarde. O mesmo se aplica a todos os tipos de trauma.
Cada um de nós tem muito a aprender com os seus antepassados.
A herança que recebemos é muito mais ampla do que supomos.
Às vezes os nossos antepassados nos fazem sofrer e não sabemos o porquê.
Talvez tenhamos nascido numa família que passou por muitas vicissitudes, e não saibamos qual é o nosso papel nessa história, na qual somos apenas um capítulo. É provável que esse papel nos tenha sido atribuído sem o nosso conhecimento: devemos perpetuar, repetir, salvar, negar ou encobrir as feridas destes eventos transformados em segredos.
Todas as informações que pudermos coletar sobre os nossos antepassados serão o melhor legado que podemos ter. Saber de onde viemos, quem são essas pessoas que não conhecemos, mas que estão na raiz de quem somos, é um caminho fascinante que só nos trará benefícios.
Isto nos ajudará a dar um passo importante para chegar a uma compreensão mais profunda de qual é o nosso verdadeiro papel no mundo.
Edith Casal
domingo, 31 de março de 2019
Anthem
The birds they sang, at the break of day
Start again, I heard them say
Don’t dwell on what has passed away
Or what is yet to be.
Ah the wars, they will be fought again
The holy dove she will be caught again
Bought and sold and bought again
The dove is never free.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack in everything
That’s how the light gets in.
We asked for signs. The signs were sent
The birth betrayed, the marriage spent
Yeah the widowhood of every government
Signs for all to see.
I can’t run no more with that lawless crowd
While the killers in high places say their prayers out loud.
But they’ve summoned, they’ve summoned up a thundercloud and
They’re going to hear from me.
Ring the bells that still can ring…
You can add up the parts but you won’t have the sum
You can strike up the march, there is no drum
Every heart, every heart to love will come
But like a refugee.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That’s how the light gets in.
Leonard Cohen
O Homem da Montanha Rubra
Sei que possuis um grande poder, mas não sou eu que pode ensinar-te a usá-lo, disse Anselmo.
Se queres aprender a lidar com ele, tens de procurar o homem que vive na Montanha Rubra.
Trata-se de um poderoso curandeiro que conhece o Poder da Serpente do Fogo.
Só ele pode ensinar-te a utilizar os poderes que tens. Já não existem muitos curandeiros do fogo, mas são eles os únicos que conhecem e possuem os segredos, os dons, os poderes dos seres humanos. Mais ninguém, além deles, os conhece.
Trata-se dos famosos Amaru Runakuna, homens e mulheres serpente que vivem no anonimato!
Estes curandeiros do Fogo e da Água, conhecem o Poder da Terra, da Lua e do Sol, e sabem como utilizar o Poder da natureza. São os donos da Vida e da Morte, e são capazes de curar até as doenças mais graves.
(...)
- Sou Justo Condori, Amaru Runakuna.
Parece-me que tens um poder adormecido dentro de ti, mas antes de mais, tenho de verificar se assim é. Tenho de me certificar de que és realmente aquilo que pareces ser.
A primeira vez que me apareceste aqui, observei-te com atenção.
Tive a impressão de que, se tivesses vivido no tempo dos Incas, terias sido uma sacerdotisa do Sol; uma Aklla, ou talvez uma Qoya. Trata-se de uma antiga tradição que diz que, há muito tempo, viveu um grupo de mulheres sábias. O lugar onde eram formadas encontrava-se em Cuzco e era conhecido como Akllawasi, o "Centro das Escolhidas". Chamavam-se Akllakunas, ou "Filhas do Sol".
Antes de começar, preciso de saber o que diz a Pachamama a teu respeito, o que comunicam os Apakuna, os espíritos protectores dos seres humanos. Primeiro tenho de saber se a Pachamama está de acordo em eu te começar a instruir, e iniciar a tua preparação.
É bom que saibas que não podemos revelar o nosso saber indiscriminadamente, pois assim que ele é posto em prática, torna-se Poder.
O Poder Oculto que tu gostarias que eu te revelasse, e que tu pretendes saber, é o Poder das Serpentes. O Poder da Serpente é terrível. Se queres servir-te da Serpente para atingires os teus objectivos, primeiro tens de aprender a dominá-la, a fazer dela tua ajudante, tua colaboradora...a aprendizagem pode ser terrível e não sei se aguentarás.
A natureza encarrega-se sempre de utilizar um isco qualquer para conseguir que as pessoas aprendam alguma coisa, algo que está para lá da pessoa e em que ela se vê obrigada a aprender a todo o custo.
(...)
- O sinal é bom.
A Pachamama consente que eu te instrua e inicie a tua preparação.
Espero que saibas merecer essa honra.
Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira
.......................
Nota 1 - Os Amaru Runakuna são um Grupo Espiritual que propõe um itinerário em que ensina a dominar a Serpente Ígnea encerrada em cada ser humano.
AMARU é a Serpente Sagrada da Mitologia Andina, e representa a Energia.
Nota 2 - Aklla, era uma das Escolhidas do Império Inca. Recebia uma educação rigorosa e meticulosa que lhe permitia, mais tarde, fazer parte da Elite Feminina.
Nota 3 - Qoya, era a Esposa do Chefe dos Incas.
Em geral, era a Aklla que pertencia ao Akllawasi.
sexta-feira, 29 de março de 2019
quinta-feira, 28 de março de 2019
Examinemos um homem no chão
Examinemos um homem no chão
Testemos a transformação de um homem por terra
A sua natureza tão diferente da lava, a sua maneira mineral
De adormecer.
O que mais interessa é ver o seu lugar rodando para perceber o eixo
Que o move no mundo
Ou como pode a sua posição orientar as aves e os astros.
Interessa também a pedra que ele agarra como alimento
Ou que mão escolhe par lhe servir de funda
- se é que não usa a própria boca para lançar o grito.
Examinemo-lo quando desperta para percebermos de onde vem
Para sabermos se o caminho se repete. Se abre os olhos
Prontos a receber imagens ou então alguém que desmaiou
Ao chocar contra si próprio
Interessa perceber os motivos da colisão, se acaso
Terá mastigado a pedra até a misturar no sangue.
Examinemos a sua semelhança com um meteoro que cai
Uma fisionomia sem vocação para subir ao céu
O peso do seu corpo quando o nosso olhar o levanta.
Interessa perceber o íman que cria para nós um lugar junto dele
Um lugar dentro dele. Há um olhar que nos desloca -
A placa giratória do amor?
Interessa também o coração que ele agarra como fruto que colhe
Ou que veia abre no corpo para beber
- se não é que é a pedra o que ele bebe com as mãos.
Examinemo-lo como quem sai de casa e vê o seu irmão
Examinemo-lo voltado, em viagem, a orientação discreta
De quem cava no peito a bússola.
Interessa reparar como tropeça no mistério
E se levanta a pedra para compreender.
Daniel Faria
in, "Homens que são como Lugares mal Situados"
Conhecer o Homem e a Mulher
Kantu andava pensativa sobre a sua relação com Juan.
Suplicava-lhe para que ficasse com ele, que fizessem amor, que não o deixasse, mas depois, satisfeita a sua necessidade de afecto e apetite sexual, transformava-se; o homem terno e afectuoso que minutos antes a elogiara e acariciara, tornava-se frio, distante, deixando-a sozinha com as suas dúvidas.
Mama Maru explicou a Kantu:
- O homem e a mulher não são iguais, mas sim complementares.
Na natureza, aquilo que um tem o outro não tem, e vice-versa.
Homem e Mulher são profundamente diferentes ao nível do corpo, da mente e do espírito. Captam a realidade através dos sentidos que, porém, estão sintonizados com frequências diferentes consoante a sua natureza; por consequência, vêem o mundo de diferentes perspectivas.
O Homem interessa-se mais pela forma, pelo aspecto exterior das coisas.
A Mulher capta a profundidade, interessa-se pela beleza das coisas e pelos seus inúmeros cambiantes.
Kantu sentia-se apreensiva. amava profundamente Juan, mas ele não compreendia a essência do amor.
Com a voz serena, Mama Maru continuou:
- Com os anos, consegui compreender esta verdade: o homem é diferente da mulher. Outrora, eu julgava que éramos iguais, que pensávamos da mesma maneira, que queríamos as mesmas coisas. Mas a Vida é Mestra e os ensinamentos, por vezes cruéis.
Conhecer essas diferenças vai ajudar-te a compreender os homens, a saber o que pensam, o que querem, o que desejam.
Deste modo, saberás a quem dedicar o teu amor.
O teu Corpo, a tua Alma, o teu Ser, não devem ser oferecidos a quem não os merece. Quando te entregares a um homem, será para o ajudares a crescer, para o conduzires pelo caminho do amor. Ensiná-lo-ás a amar e, graças à força desse amor, a vossa união poderá ser luminosa; caso contrário, a tua vida será estéril. Terás de aprender a ajudar os homens a encontrar a sua essência espiritual. Só assim te elevarás e te tornarás um Ser de Luz.
- Mama Maru, podes dizer-me de que te serviu ficar a saber tais diferenças?
- Minha filha, quando compreendi essas diferenças, fiquei a saber qual era a essência de ser mulher, um ser privilegiado, dotado de um poder extraordinário...e percebi a essência da minha própria vida. Graças aos conhecimentos adquiridos, poderia ter qualquer homem a meus pés, mas era coisa que já não desejava, e por isso, decidi ajudar os outros a crescer. Amei intensamente um homem com quem partilhei parte da minha existência. Depois, chegou o momento em que compreendi que o meu amor jamais se apagaria. Vivi a minha vida intensamente, percebi os seus segredos, entreguei-me toda e, em troca, recebi experiência e sabedoria. Foi então que decidi retirar-me do mundo. Agora, neste lugar tão afastado, acabo de tecer a trama da minha vida e preparo-me para entrar, um dia, na dimensão que está para além da vida.
(...)
Quando compreenderes a sua diversidade, começarás a conhecê-los, conhecendo-os, começarás a percebê-los, e assim que os perceberes, começarás a amá-los de uma maneira que vai além da posse dos seus corpos ou das suas vidas - concluiu a velha curandeira.
- Mama Maru, em que é que nós mulheres somos diferentes dos homens?
- Em geral, o homem é mais objectivo, pensa em termos individualistas, enquanto a mulher possui um profundo sentido de colectividade, através da qual se exprime o amor.
O termo "nós" é mais usado pelas mulheres do que pelos homens.
Para se impor, o homem recorre à energia e à força dos seus músculos, enquanto a mulher, por razões óbvias, não pode fazer o mesmo, utiliza a paciência, a doçura, a persuasão. O homem prefere analisar, transformar, dividir, destruir; a mulher, pelo contrário, prefere unificar, dar vida, justificar, curar, criar.No sexo, o homem é mais superficial: busca o prazer, a procriação. A mulher, é mais profunda, espiritual: busca o amor, o dar sem nada receber em troca.
O primeiro semeia, a segunda recolhe e faz germinar a vida. O homem constrói a casa, a mulher dá calor ao lar.
Perante os outros, o homem procura o reconhecimento; se é um militar, almeja ser um herói; se é um intelectual, deseja ser um génio. O homem busca sempre a notoriedade em tudo o que faz; quer um trono para que os outros o exaltem prestando-lhe homenagem. A mulher não quer um trono; aquilo que deseja do fundo do coração, é ser Templo de Amor e, para tal, serve-se de todo o seu encanto, de toda a sua graça, de toda a sua beleza interior.
- Mama Maru, que devo fazer para conhecer verdadeiramente um homem?
- Observa-o minuciosamente: o seu aspecto, os seus gestos, os seus modos. Depois, fecha os olhos e escuta atentamente o tom, o ritmo da sua voz. Se assim fizeres, conseguirás obter muitas informações a seu respeito: o que pensa, como reage, o que quer, quais são os seus ideais, se é um homem sincero ou não. De seguida, pergunta-lhe o que pensa da família, do trabalho, dos amigos, da vida, da religião, do amor, dos sentimentos, pergunta-lhe quais são as suas aspirações, sonhos e interesses.
Observa-o em acção prestando atenção a como trabalha, a como exprime ou reprime as suas emoções, a como enfrenta as dificuldades, e descobrirás as potencialidades de que é dotado, de maneira a poderes ajudá-lo a exprimir-se.
Só quando souberes se um homem é ou não conveniente para ti, é que poderás dedicar-te a ele com amor, dedicação e alegria.
Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira
terça-feira, 26 de março de 2019
ESTRELA DA TARDE
Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.
Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.
Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
Por amor da vida
Amar alguém que está tão longe de nós como o inicio das inesperadas tempestades.
Os amores platónicos que nascem e borbulham em caldeiras de mil perigos.
As incontáveis loucuras.
Amar o proibido.
O risco enorme de sucumbir e nunca consumar o amor, nem tocar a amada.
O acto sublime de amar uma esfinge, uma sombra, um rosto intocável.
O inatingível corpo. O que só vemos sem ver. Uma cegueira sem retorno. O que nos perturba a existência até ao fim dos nossos dias.
Sofremos e fazemos sofrer.
Tudo o que vemos é o que não nos é permitido ter.
Percorremos estradas e caminhos sempre em busca do que sabemos impossível de encontrar.
Uma caminhada ao avesso da razão.
A cambaleante, mas enorme vontade. O corpo a desfazer-se.
Não tentem retirar essa loucura sem nome da cabeça do amante.
Todas as bruxarias, rezas, promessas e outras mezinhas irão falhar.
É coisa atada por cordas fortes e nós impossíveis de desatar.
Por amor da vida.
JORGE C. FERREIRA
sábado, 23 de março de 2019
Somewhere
somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose
or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands
E. E. Cummings
Subscrever:
Mensagens (Atom)















