quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Estas Tonne - The Song of the Golden Dragon

A Forma Justa





Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 



Sophia de Mello Breyner Andresen
in "O Nome das Coisas" 






A Verdade a sair do poço



Quadro: A Verdade a sair do seu poço
Jean-Léon Gérôme




"Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se.

Diz a Mentira à Verdade:
"Está um dia tão bonito".
E estava de facto um dia muito bonito.

Passam algum tempo juntas até que chegam junto de um poço.
" A água está tão agradável, porque não tomamos um banho as duas?" sugere a Mentira.
A Verdade, embora reticente, lá toca na água e a água estava realmente agradável.

Despem-se então e banham-se.
De repente a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade salta do poço e corre todos os lugares para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes.

O Mundo, vendo-se confrontado com a nudez da Verdade, revira os olhos, entre o desprezo e a raiva. A Verdade volta então ao poço onde desaparece para sempre, escondendo a sua vergonha.

Desde então a Mentira tem percorrido o Mundo com as roupas da Verdade, satisfazendo os caprichos das pessoas e das sociedades, e o Mundo, esse, continua a recusar-se a encarar a Verdade nua." 







terça-feira, 9 de outubro de 2018

Poema do Silêncio





Sim, foi por mim que gritei. 
Declamei, 
Atirei frases em volta. 
Cego de angústia e de revolta. 

Foi em meu nome que fiz, 
A carvão, a sangue, a giz, 
Sátiras e epigramas nas paredes 
Que não vi serem necessárias e vós vedes. 

Foi quando compreendi 
Que nada me dariam do infinito que pedi, 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas, 
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas 
Que, sem rumo, 
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo... 

O que buscava 
Era, como qualquer, ter o que desejava. 
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo, 
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo. 

Que só por me ser vedado 
Sair deste meu ser formal e condenado, 
Erigi contra os céus o meu imenso Engano 
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano! 

Senhor meu Deus em que não creio! 
Nu a teus pés, abro o meu seio 
Procurei fugir de mim, 
Mas sei que sou meu exclusivo fim. 

Sofro, assim, pelo que sou, 
Sofro por este chão que aos pés se me pegou, 
Sofro por não poder fugir. 
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir! 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação! 
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...) 
Senhor dá-me o poder de estar calado, 
Quieto, maniatado, iluminado. 

Se os gestos e as palavras que sonhei, 
Nunca os usei nem usarei, 
Se nada do que levo a efeito vale, 
Que eu me não mova! que eu não fale! 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim, 
Era por um de nós. E assim, 
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade, 
Lutava um homem pela humanidade. 

Mas o meu sonho megalómano é maior 
Do que a própria imensa dor 
De compreender como é egoísta 
A minha máxima conquista... 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros 
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, 
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, 
E sobre mim de novo descerá... 

Sim, descerá da tua mão compadecida, 
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. 
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome 
Saciarão a minha fome. 


José Régio 
in, 'As Encruzilhadas de Deus' 





Amor não é medicamento




"As pessoas ficam procurando o amor 
como solução para todos os seus problemas 
quando, na realidade, 
o amor é a recompensa 
por você ter resolvido os seus problemas". 

Norman Mailer


Copiem. Decorem. Aprendam.

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca.
Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet, buscamos o amor na parada de ônibus. Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas salas de aula, nas plateias dos teatros. Ele certamente está por ali, você quase pode sentir o seu cheiro, precisa apenas descobri-lo e agarrá-lo o mais rápido possível, pois lhe ensinaram que só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.

Calma.
Amor não é medicamento. 

Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor não se aproximará, e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa, porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas, como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e da falta de auto-estima.

Você já ouviu muitas vezes alguém dizer:
"quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu".

Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas. 
"As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas". Norman Mailer.
Divulguem. Repitam. Convençam-se.

O amor, ao contrário do que se pensa, não tem que vir antes de tudo: antes de estabilizar a carreira profissional, antes de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia de que, a partir do seu surgimento, tudo o mais dará certo. Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz para só então surgir diante de você sem máscara e sem fantasia. 

É esta a condição. É pegar ou largar.

Para quem acha que isso é chantagem, arrisco sair em defesa do amor: ser feliz é uma exigência razoável e não é tarefa tão complicada. Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa dos erros que cometem. 

Felicidade é serenidade. 
Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos com príncipes encantados.

O amor é o prêmio para quem relaxa.


Martha Medeiros 
in, Paixão Crónica





segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Life and Death






"Life is the companion of death;
death is the beginning of life,
Who can understand
how the two are related?
But if life and death are companions,
why should you be concerned?
All things are connected at the root.
We arrive here from the unknown
and go back to where we came from.

What people love about life
is its miraculous beauty;
what they hate about death
is the loss and decay around it.
Yet losing is not losing, and decay
turns into beauty, as beauty
turns back into decay.
We are breathed in, breathed out.
Therefore all you need
is to understand the one breath
that makes up the world.
The Master is always conscious
of the mistery at the heart of all things."




"A vida é a companheira da morte;
a morte é o início da vida,
quem consegue compreender
como se relacionam as duas?
Mas se vida e morte são companheiras,
por que haverias de te preocupar?
Todas as coisas estão ligadas na raiz.
Chegamos aqui provindo do desconhecido
e regressamos ao lugar de onde viemos.

O que as pessoas amam acerca da vida
é a sua beleza miraculosa;
o que elas odeiam acerca da morte
é a perda e decadência que a envolvem.
E no entanto perder não é perder, e a decadência
torna-se beleza, tal como a beleza
se torna novamente decadência.
Somos inspirados, expirados.
E portanto tudo o que precisas
é compreender a respiração
de que é composto o mundo.
O Mestre está sempre consciente
do mistério no coração de todas as coisas."



Stephen Mitchell, 
in, "The Second Book of the Tao"





A Cabana





O livro, "A Cabana", do canadiano William P. Young, de 2007, conta a história de Mackenzie Allen Phillips, que durante muito tempo viveu imerso num mar de dor e sofrimento ocasionado pelo sequestro e morte de Melissa, a sua filha mais nova. Mack, nome pelo qual também é tratado, nunca foi um beato e, desde a perda de Missy, forma carinhosa pela qual chamavam a Melissa, a sua relação com a religião piorou.
Willie, um amigo de Mack, narra a história.

Descendente de uma linhagem irlandesa-americana, no início do livro Mack já traz no seu coração marcas dolorosas da sua infância, especialmente do seu relacionamento com o pai. Mackenzie Allen Phillips teve uma infância muito difícil, o seu pai era alcoólico, agredia-o e à sua mãe com frequência. Aos treze anos Mackenzie fugiu de casa, e desde então nunca mais reviu nem o seu pai nem a sua mãe. Passou por muitas dificuldades, até que se casou com Nannete A. Samuelson, chamada pelo marido e por amigos mais próximos de Nan, com quem teve cinco filhos: Jon, Tyler, Josh, Katherine (Kate) e Melissa, uma menina incomum, cheia de ideias e concepções brilhantes para uma menina de seis anos.

Durante um fim-de-semana que deveria ser muito especial, no qual Mack se sente mais que nunca próximo de Josh e das filhas, com quem ele partiu para uma última aventura de férias numa Reserva na cidade de Joseph, antes do reinício das aulas, onde Missy, Kate e Josh decidem fazer um passeio de canoa. A canoa vira e Josh não consegue emergir, Mack sai disparado para salvar Josh e a Kate, deixando Missy sozinha. Quando regressam não encontram a Missy, e dá-se inicio a uma procura pela menina. A melhor pista que têm foi alguém ter visto uma criança com roupas semelhantes às de Melissa a ser  levada num jipe verde por um homem desconhecido.
As autoridades encontram na cena do crime um broche de joaninha com detalhes específicos que o FBI após examinar percebe ser a assinatura do Matador de Meninas, um misterioso assassino do qual nada se sabia, exceto essa peculiar assinatura.
Algum tempo depois descobrem uma velha cabana, onde encontram o vestido que a menina vestia e uma poça de sangue...

Os anos passam e, quatro anos depois, porém, o protagonista tem a oportunidade de rever o seu passado à luz de uma nova compreensão. Ironicamente o encontro de Mack com ele mesmo e com os seus assustadores fantasmas interiores se dá justamente no lugar onde tudo começou, na cabana onde a sua Missy supostamente tinha sido assassinada. Guiado por um intrigante bilhete depositado na sua caixa de correio, ele embarca numa viagem surpreendente que promete reconciliar a sua alma com a Divindade que ele não consegue perdoar.  Por ser um dia de inverno com muita neve, o carteiro nem tinha conseguido chegar até a residência de Mack e isso deixou-o bastante intrigado.
A curiosidade falou mais alto e Mack resolveu enfrentar todos os seus pesadelos e voltar ao local onde a sua filha foi brutalmente assassinada.
Na cabana encontra Deus e a Santíssima Trindade.
Nesta parte do livro são feitos diálogos que falam principalmente sobre fé e religião. Mack passa por um processo de aproximação com Deus e vai perdoando, aceitando e aprendendo a lidar com a tragédia que abalou não apenas a sua vida, mas a de toda a sua família.
A Santíssima Trindade e Deus resolvem levá-lo num passeio e mostram a Mack onde estava o corpo de Missy e, juntos, transladam-no de volta para a cabana. Ao chegarem, Jesus tinha preparado um esquife de madeira para depositarem os restos de Melissa e, no jardim que Sarayu (nome dado pelo autor ao Espírito Santo) cremaram a criança.

Quando Mack regressava a casa, sofre um acidente de carro e passa dias internado em estado grave no hospital. Para surpresa de Mack, ele nunca chegou à cabana...durante a viagem um carro passa no sinal vermelho e bate no seu jipe, e passa três dias internado em estado de profundo coma. Mas, após a  recuperação, junto com a polícia de Joseph, ele vai até ao local onde estivera com Deus – em sonho - para resgatar o corpo de Melissa e, para assombro de todos, lá estava Missy! Algum tempo depois, a polícia através das pistas encontradas no local onde o corpo de Missy foi escondido pelo Matador de Meninas, pode prender o assassino. Mackenzie depôs no julgamento e explicou como encontrou o local, por mais inacreditável, comovente e surpreendente que fosse.

O livro traz ensinamentos importantes.
Ele mostra-nos que os acontecimentos da vida podem ser encarados de várias maneiras.


Partilho aqui um pouco dessa sabedoria:

1. “Perdoar não significa esquecer.”

2. “Você quer a promessa de uma vida sem dor, isso não existe.”

3. “O ser transcende a aparência! Assim que você começa a descobrir o ser que há por trás de um rosto muito bonito ou muito feio, de acordo com seus conceitos e preconceitos, as aparências superficiais desaparecem até simplesmente não importarem mais…”

4. “Ninguém fica impune de nada. Tudo tem as suas consequências.”

5. “Só porque você acredita firmemente numa coisa não significa que ela seja verdadeira.”

6. “Se prestarmos bastante atenção, sempre conseguiremos descobrir alguma compensação no sofrimento.”

7. “Às vezes a memória pode ser uma companheira enganosa.”

8. “A confiança é fruto de um relacionamento em que você sabe que é amado.”

9. “Quando tudo o que conseguimos ver é só a nossa dor, talvez seja aí que perdemos a visão de Deus.”

10. “Todas as vezes que você perdoa, o universo muda. Cada vez que você estende a mão e toca um coração ou uma vida, o mundo se transforma…”

11. “Não é da natureza do amor forçar um relacionamento, mas é da natureza do amor abrir um caminho.”

12. “- Mas você tem de admitir que as regras e os princípios são mais simples do que os relacionamentos.
– É verdade que os relacionamentos são muito mais complicados do que as regras, mas as regras nunca lhe irão dar as respostas para as questões profundas do coração. E nunca irão amar você.”

13. “A pessoa que vive dominada pelos medos não encontra liberdade no meu amor.”

14. “O amor sempre deixa uma marca significativa.”

15. “Bom, às vezes a vida é dura, mas eu tenho muita coisa para agradecer.”

16. “E se você odiar a minha história, desculpe, ela não foi escrita para você.”

17. “Crescer significa mudar, e mudar envolve riscos, uma passagem do conhecido para o desconhecido.”

18. “O mundo está cheio dessas pessoas que têm o sorriso nos lábios e o veneno no coração: que são dóceis desde que nada as ofenda, mas que mordem à menor contrariedade; cuja língua dourada, quando falam frente-à-frente, se transforma em dardo envenenado quando falam por trás.”

19. “Deus não precisa castigar as pessoas pelos pecados. O pecado já é o próprio castigo, devora as pessoas por dentro. O objetivo de Deus não é castigar, Sua alegria é curar.”

20.“A vida custa um bocado de tempo e um monte de relacionamentos.”

21. “Existem as doenças da sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro. E há os anúncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa confluência de inibidores multifacetados o que é de fato a liberdade.”

22. “As emoções são as cores da alma.”

23. “Jamais desconsidere a maravilha das suas lágrimas. Elas podem ser águas curativas e uma fonte de alegria. Algumas vezes são as melhores palavras que o coração pode falar.”

24. “Cada relacionamento entre duas pessoas é absolutamente único. Por isso você não pode amar duas pessoas da mesma maneira. Simplesmente não é possível. Você ama cada pessoa de modo diferente por ela ser quem ela é e pela especificidade do que ela recebe de você. E quanto mais vocês se conhecem, mais ricas são as cores desse relacionamento.”

25. “O perdão existe em primeiro lugar para aquele que perdoa, para libertá-lo de algo que vai destruí-lo, que vai acabar com a sua alegria e capacidade de amar integral e abertamente…”

26. “Não estou a pedir que acredite em nada, mas vou lhe dizer que você vai achar este dia muito mais fácil se simplesmente o aceitar como é, em vez de tentar encaixá-lo nas suas ideias preconcebidas.”

26. “Ainda acho que precisamos conhecer o inverno para compreender o verão, assim como é necessário passar por momentos de tristeza profunda para conseguir identificar e valorizar a felicidade quando ela chegar. E não devemos, nunca, nos esquecer das pessoas que amamos.”

27. “Entendo como é difícil para você começar a perceber, quanto mais imaginar, o que são o verdadeiro amor e a bondade. Porque você está tão perdido nas suas percepções da realidade e ao mesmo tempo tão seguro dos seus julgamentos. O amor verdadeiro nunca força.”

28. “Já julgou muitas pessoas durante a vida. Julgou os atos e até mesmo as motivações dos outros, como se soubesse quais eram. Julgou a cor da pele, a linguagem corporal e o odor pessoal.(…) Até julgou o valor da vida de uma pessoa segundo o seu conceito de beleza.”

29. “A vida magoou você. As mentiras são um dos lugares mais fáceis para onde os sobreviventes correm. Elas dão um sentimento de segurança, um lugar onde você só precisa contar consigo mesmo. Mas é um lugar escuro, não é?”

30. “É bom para a alma deixar que as águas rolem de vez em quando, as águas que curam.”






sábado, 6 de outubro de 2018

A Mais Perfeita Imagem







Se eu varresse todas as manhãs as pequenas 
agulhas que caem deste arbusto e o chão 
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para 
o que me levou a desamar-te. Se todas as manhãs 
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além 
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência 
que o nada representa, veria que o arbusto não passa 
de um inferno, ausente o decassílabo da chama. 
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar-lhe os 
ramos, também a entendia, a essa imperfeição 
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes 
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse 
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu 
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e 
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do 
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra 
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou 
a um neurónio meu, unia memória que teima ainda 
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária. 
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.


Ana Luísa Amaral
in, 'A Arte de Ser Tigre'






Tudo vem a seu tempo





De uma coisa podemos ter certeza: de nada adianta querer apressar as coisas;
tudo vem a seu tempo, dentro do prazo que lhe foi previsto.

Mas a natureza humana não é muito paciente. Temos pressa em tudo e aí acontecem os atropelos do destino, aquela situação que você mesmo provoca,
por pura ansiedade de não aguardar o tempo certo.

Mas alguém poderia dizer: Qual é esse tempo certo?

Bom, basta observar os sinais.

Quando alguma coisa está para acontecer ou chegar até sua vida, pequenas manifestações do quotidiano enviarão sinais indicando o caminho certo.

Pode ser a palavra de um amigo, um texto lido, uma observação qualquer. Mas, com certeza, o sincronismo se encarregará de colocar você no lugar certo, na hora certa, no momento certo, diante da situação ou da pessoa certa.

Basta você acreditar que nada acontece por acaso.
Talvez seja por isso que você esteja agora a ler estas linhas.

Tente observar melhor o que está a sua volta. Com certeza alguns desses sinais já estão por perto e você nem os notou ainda.

Lembre-se que, o universo sempre conspira a seu favor quando você possui um objetivo claro e uma disponibilidade de crescimento.



Paulo Coelho





quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Dia de Descanso





Hoje reservo o dia inteiro para chorar 
É o domingo decadente    em que muitos 
esperam pela morte de pé 
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade 
circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos 
dos amores que deram em estribilhos 
das correrias pederásticas para o futebol em calções 
mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10% 
de desconto em todo o vestuário 

E choro   choro   porque a coragem 
não me falta para tudo isto e assisto 
na nega de me ceder ao braço dado 

Precisarei de um cansaço mas 
lá estavam espertas 
as mil e não sei quantas lojas abertas 
para mo vender! 

Mas hoje é domingo 
Lá está o chão reluzente de martírio 
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter 
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser 

E choro de coragem    isto é 
as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos 
Falo cristalinamente sozinho 
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair 
algum acaso    isto é 
o eco, de qualquer drama vazio 

Espero como quem espera 
o momento de posse entre dois ponteiros 
de torneira em torneira nas súplicas febris 
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas 
para as não cortar em gritos 
Espero e entretanto o mundo não se cansa 
de me dar drogas para dormir e criar 
novelos de lã à volta do coração 
Não me lastimo grito 
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis 
e não ficar pr'aqui moldado estátua 
em verdete de ser chorado 
A tropeçar onde não há perigo 
com calçado duro a pisar as nuvens 
neste tão estreitado mundo 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso 
podem pensar os homens das ideias revolucionárias 
e choro 
choro de coragem e para os microfones da revolução 
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento 
por amor ao chão de terra que me pisam 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução 
alheia às tais guerras de papel químico 

Espero sem esperança mas certo 
do que espero como de saber que um homem 
não chora e choro 

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar 
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé 
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo 

Uma vez era ainda pequeno 
chorei ao ver um prédio desabitado 
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me 
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas 
Sei que nada adianta 
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno 
Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar 
ao choro da coragem de esperar 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado 
um grito afinal terá assim o seu eco 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente 
até que a noite me venha 
cobrir o corpo de abafo quente 

Então sairei à procura da prostituta cega 
para lhe contar junto ao peito 
como as pessoas se comportam aos domingos 


Fernando Lemos
in, 'Teclado Universal' 






Raiva





Todos sentimos vez ou outra.

Há as raivas lícitas e boas, como por exemplo quando sentimos raiva ao ver um adulto espancar uma criança.
Nesses casos, sentir raiva é ter acesso a uma poderosa energia que deve ser utilizada para a transformação da situação que a provocou.

Existe, no entanto, a raiva que brota a partir de nossas distorções. Raiva que vem quando as coisas não acontecem como a gente quer, ou quando revisitamos uma ferida emocional.

Entenda...
TODAS as pessoas sentem isso de vez em quando, principalmente nos relacionamentos.
Então imagine...
O outro fez algo e lá vem a raiva, fumegante como um dragão, emergindo de dentro de você.
- O que fazer???
O que muitos fazem, na sua inconsciência, é DAR PASSAGEM à raiva e despejá-la sobre o outro, com consequências devastadoras.
Ouça.
Não importa o que o outro tenha feito, aquela raiva é sua!
Exceto nos casos em que a raiva seja necessária para sua proteção, ela deve ser vencida em seu íntimo.
Despejá-la sobre o outro seria como jogar sobre o outro o seu lixo.

Outros tentam lidar com a raiva REPRIMINDO-A. Mas essa energia é muito poderosa e não pode ser contida. Raiva reprimida se transforma em atitudes inconscientes de agressão ao outro: ironia, irritação constante por qualquer atitude, atitudes vingativas, afastamento gélido, etc.
Ou seja, continuamos jogando o lixo sobre o outro, só que agora de forma disfarçada.

A maneira mais equilibrada de evitar os extremos (jogar raiva sobre o outro X reprimi-la) seria REVELAR a raiva ao outro.
Expressar o que se está sentindo SEM A DESCARGA EMOCIONAL.
Mostrar ao outro essa emoção, sabendo que não compete ao outro resolvê-la, é uma forma de lhe darmos um fluxo saudável e não destrutivo. 

Expor a raiva é um ato de extrema vulnerabilidade, confiança e coragem.

"Independentemente da reação do outro", quando fazemos isso, limpamos nosso campo emocional, o que abre espaço para sentimentos de auto valorização e amor próprio.
Assumimos nossa humanidade com humildade, sem permitir que se torne destrutiva.
"A evolução trata-se sempre de algo que acontece no encontro de nós com nós mesmos."



Patricia Gebrim




terça-feira, 2 de outubro de 2018

GOLPE





Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio.


GASTÃO CRUZ
in, EXISTÊNCIA






Somos monogâmicos porque somos pobres





As visões sobre sexo do espanhol Manuel Lucas Matheu, de 69 anos, contrariam - e muito - o senso comum. Presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia e membro da Academia Internacional de Sexologia Médica, ele argumenta que os seres humanos não são predispostos à monogamia. Se a praticamos, é por um único motivo: somos pobres.

O sexólogo apresenta outras visões marcantes.
Diz, por exemplo, que o verdadeiro órgão sexual dos seres humanos é a pele.

A BBC News Mundo, o serviço espanhol da BBC, entrevistou Matheu, considerado um dos maiores especialistas em sexualidade:

BBC News Mundo - Woody Allen dizia: "Há duas coisas muito importantes na vida, uma é sexo e da outra não me lembro". Sexo é, de fato, tão fundamental?
Manuel Matheu - Sexo é importantíssimo, muito mais importante do que pensa a maioria das pessoas, as instituições e a sociedade em geral. O sexo determina em grande medida a nossa qualidade de vida e é a origem de vários comportamentos.


BBC News Mundo - O senhor, por exemplo, defende que as sociedades mais pacíficas, com menos conflitos, são aquelas que vivem a sexualidade de maneira mais livre, desinibida...
Matheu - Não sou eu quem diz, é um estudo que fiz, em que analisei 66 culturas diferentes, algumas com pesquisa de campo.

Estive, por exemplo, nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. E a conclusão desse estudo é que as sociedades mais pacíficas são aquelas onde a moralidade sexual é mais flexível e onde o feminino tem um papel preponderante.

Em contrate, as sociedades reprimidas e nas quais as mulheres têm papel secundário, como as sociedades ocidentalizadas em que vivemos, são mais agressivas.


BBC News Mundo - Para entender do que estamos falando, o senhor poderia nos dar um exemplo de sociedade sem repressão sexual e onde o feminino é muito valorizado?
Matheu - Os chuukies, uma sociedade que estive estudando por quatro meses nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. Trata-se de uma sociedade em que todos os bens são herdados através da linha materna. Ou seja, a mãe é quem determina o poder económico.

Ao contrário do que ocorre na sociedade ocidental, em que se dá uma enorme importância ao tamanho do pénis, ali o que importa é o tamanho dos lábios menores da genitália das mulheres. Enquanto no Ocidente a menstruação era considerada algo impuro, lá ela é considera vantajosa e é empregada até para fins medicinais.

Além disso, a mulher é a voz mais forte nas relações sexuais. É ela a responsável pelos encontros sexuais. Os homens se aproximam gatinhando nas cabanas das mulheres, solteiras e casadas, e introduzem nas cabanas pedaços de pau talhados que permite à mulher identificar quem é cada um deles.

Se a mulher quiser ter relações sexuais naquela noite, ela retém na cabana o talo correspondente ao homem que lhe interessou. Isso significa que ele está autorizado a entrar na cabana. É assim todas as noites.

Ali não existe ciúme, nem o conceito tradicional de fidelidade. A moralidade sexual é muito mais flexível que aqui. Ao mesmo tempo, essa é uma sociedade muito pacífica, enquanto a sociedade ocidental é muito agressiva.


BBC News Mundo - Então a monogamia não é algo intrínseco ao ser humano, algo que faz parte da sua natureza?
Matheu - Não, não é. A monogamia não é uma característica do ser humano de forma alguma.

Basta olhar o atlas etnográfico de Murdock, que analisou mais de 800 sociedades e mostrou que 80% delas não são monogâmicas. Elas são poligínicas (um homem com várias parceiras) ou poliândricas (uma mulher com vários parceiros).


BBC News Mundo - E por que o Ocidente adotou a monogamia?
Matheu - As espécies animais que são monogâmicas são aquelas que não têm tempo nem recursos suficientes para poder se dedicar a cortejar.

É o caso das cegonhas, que são monogâmicas porque têm que empregar muita energia todos anos às longas migrações que realizam. E os animais que vivem em locais onde é mais difícil encontrar alimento tendem a ser mais monogâmicos.


BBC News Mundo - Quer dizer que a monogamia está relacionada à economia?
Matheu - Exatamente. Nós somos monogâmicos porque somos pobres. É só observar nossa sociedade para compreender: os ricos não são monogâmicos, na melhor das hipóteses são monogâmicos sequenciais - ao longo da vida têm vários parceiros consecutivamente, um atrás do outro.

Os que não são ricos não podem ser monogâmicos sequenciais, porque se divorciar ou separar causa um enorme dano económico. E a poligamia (ter vários parceiros sexuais ao mesmo tempo) também é muito cara.


BBC News Mundo - Se as sociedades com maior liberdade sexual são mais pacíficas, a nível individual as pessoas agressivas podem agir assim por terem problemas com sexo? É razoável pensar que muitos ditadores são pessoas reprimidas sexualmente?
Matheu - Bem, Hitler, Franco e outros ditadores tinham problemas de autoestima e problemas sexuais importantes.

Acredito que as pessoas que se dedicam a acumular riqueza ou poder de maneira compulsiva sofrem o que chamo de "erótica do poder", compensam a sua falta de satisfação sexual com isso (poder).


BBC News Mundo - Qual a sua opinião sobre o presidente americano Donald Trump, que é protagonista de vários escândalos de natureza sexual?
Matheu - Para mim, Donald Trump parece acima de tudo um desequilibrado mental, mas também aparenta ter problemas sexuais.

Todos os escândalos sexuais que protagonizou, a meu ver, denotam que sua autoestima é baixa. As pessoas de autoestima alta são, em general, pacíficas e tranquilas, não se vendem como galos de briga. É difícil provocá-las. Elas não têm muita variação de humor e sua forma de amar é pouco possessiva.

As pessoas com problema de autoestima podem reagir de maneiras diferentes: fechando-se em si mesas, numa timidez incapacitante, ou fazendo uso de um comportamento grosseiro e desafiante, como é o caso de Trump e de outros políticos.


BBC News Mundo - O orgasmo é superestimado e mitificado?
Matheu - Com certeza. O psicanalista Wilhem Reich dizia que reprimimos a libido não apenas de maneira quantitativa, mas também qualitativa. A sociedade burguesa capitalista, ele dizia, concentrou a sexualidade nos órgãos genitais para que o resto do corpo pudesse focar em produzir para o sistema.

Não sei se é isso mesmo, mas é sim verdade que há muito tempo começamos a concentrar nossa sexualidade nos genitais e nos esquecemos, com o tempo, da pele. Os seres humanos têm a pele mais sensível de todos os mamíferos, mas a aproveitamos muito pouco na nossa cultura.

Hoje em dia, nos acariciamos muito pouco. As famílias se dedicam a acariciar cachorro e gato, mas não se acariciam.


BBC News Mundo - A pele seria o ponto G?
Matheu - Isso, a pele é o verdadeiro ponto G, o grande ponto sexual do ser humano. E, além de tudo, a pele funciona do nascimento à morte. Mesmo que tenhamos uma doença terminal, a pele segue funcionando.

Quando alguém nos abraça de verdade, soltamos uma enorme quantidade de endorfina. É nisso que se baseia grande parte da nossa sexualidade.

O problema é que convertemos a sexualidade numa atividade de ginástica, na qual o homem primeiro tem que ter uma ereção, depois tem que mantê-la a todo custo para não ejacular antes do tempo. Isso acontece porque consideramos que o homem, com seu pénis, é um mago com uma varinha mágica que consegue dar prazer à mulher. E, por fim, a mulher tem que ter um orgasmo.

No entanto, 60% das mulheres da nossa cultura ocidental já simularam um orgasmo em algum momento da vida.

E, quando lhes perguntamos por que fizeram isso, a resposta costuma ser: "para que o outro ficasse satisfeito" ou "porque assim o outro me deixaria em paz".

Tanto os homens quanto as mulheres fizeram da sexualidade um exercício físico e mental, quando a sexualidade é se fundir, sentir um ao outro, sentir-se em baixo da pele do outro, como dizia Frank Sinatra.


BBC News Mundo - Vivemos num mundo em que a pornografia está ao alcance de todos, em que adolescentes crescem vendo pornografia. Que efeito isso tem nas relações sexuais?
Matheu - O problema da pornografia não é mostrar os atos sexuais explícitos. Nesse sentido, me parecem mais perigosos os programas de televisão que fazem pornografia da intimidade, a calúnia, a fofoca, ou alguns filmes violentos.

O problema da pornografia é que é uma pornografia absolutamente "genitalizada", que reforça a ideia de sexo como ginástica.

Eu não acho que a pornografia deva desaparecer, mas sim mudar. Deve deixar de ser aquela pornografia tediosa do mete e tira, para se converter numa pornografia de pele.



Irene Hernández Velasco





sábado, 29 de setembro de 2018

Narciso





Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, 
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... 
Ah, que terrível face e que arcabouço 
Este meu corpo lânguido escondia! 

Ó boca tumular, cerrada e fria, 
Cujo silêncio esfíngico bem ouço! 
Ó lindos olhos sôfregos, de moço, 
Numa fronte a suar melancolia! 

Assim me desejei nestas imagens. 
Meus poemas requintados e selvagens, 
O meu Desejo os sulca de vermelho: 

Que eu vivo à espera dessa noite estranha, 
Noite de amor em que me goze e tenha, 
...Lá no fundo do poço em que me espelho! 


José Régio
in, 'Biografia' 




O que é o Fascismo?





A palavra “fascismo” vem do italiano fascio, que significa “feixe”. Na Roma Antiga, o fascio (também conhecido como fascio littorio), era um machado revestido por varas de madeira. Ele geralmente era carregado pelos lictores, guarda-costas dos magistrados que detinham o poder.
O fascio podia ser usado para punição corporal, e também era um símbolo de autoridade e união: um único bastão é facilmente quebrável, enquanto um feixe é difícil de arrebentar.

No século XX, o político italiano Benito Mussolini se apossou desse símbolo para o seu novo partido. Em 1914, ele fundou o grupo Fasci d’Azione Rivoluzionaria (mais tarde, em 1922, surgiria o conhecido Partido Nacional Fascista). O uso do fascio não foi à toa. A Itália enfrentava uma profunda crise desde sua unificação tardia (concluída em 1870), e as consequências da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) pioraram a situação. Mussolini prometia, com o fascismo, trazer de volta os tempos áureos do antigo Império Romano.

Em 1919, os italianos Alceste de Ambris e Filippo Marinetti publicaram o Il manifesto dei fasci italiani di combattimento, texto hoje conhecido como Manifesto Fascista, que propunha um conjunto de medidas para resolver a crise da época. Nas décadas seguintes, o termo “fascismo” passou a ser usado para designar as políticas adotadas por Mussolini e seus seguidores.

O regime de Mussolini começou oficialmente em 1922, quando ele assumiu o cargo de primeiro ministro da Itália, e foi um sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático. Ele implantou um governo totalitário que privilegiou conceitos de nação e raça sobre os valores individuais. 

O fascismo italiano quase acabou em 1943, quando os países Aliados invadiram a Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os nazistas ainda deram uma segunda hipótese ao ditador: os alemães reocuparam a Itália, resgataram Mussolini e o levaram para o norte do país, onde ele tentou restituir seu governo. No fim, em 1945, os Aliados tomaram o norte e Mussolini foi capturado e fuzilado por guerrilheiros da resistência italiana. Seu corpo foi exposto em praça pública. Com a derrota da Itália (e das forças do Eixo) na guerra, “fascista” virou um termo pejorativo.






Mas, o que exatamente foi o fascismo nem os maiores estudiosos sabem definir com precisão.
Não existe nenhuma definição universalmente aceite do fenómeno, seja quanto à sua abrangência, origens ideológicas ou formas de ação que o caracterizem. Algumas das principais características atribuídas ao fascismo  italiano -nacionalismo, corporativismo, racismo- não estão presentes em todos os regimes ditos fascistas. 

George Orwell, no seu “O que é Fascismo?”, afirma que as definições populares do termo vão de “democracia pura” a “demonismo puro”. Ele mesmo afirma que é uma palavra “quase inteiramente sem sentido”. Isso se deve, principalmente, ao fato de o fascismo não possuir um arcabouço teórico forte, e ter sido determinado, na prática, pelas atitudes de Mussolini. Nas palavras do próprio: “Não temos uma doutrina pronta; nossa doutrina é a ação.” 
Outros movimentos são bem mais formalizados.
O marxismo, por exemplo, antes de ser uma prática política, é uma doutrina com base teórica nos escritos de Marx e Engels. O nazismo, mais próximo do fascismo, teve no livro Mein Kampf (Minha Luta), escrito em 1925 por Adolf Hitler, seu manual de instruções. Mas as regras do regime de Mussolini foram basicamente definidas na hora, no calor do momento.

O fascismo propriamente dito ocorreu num contexto bem específico da história, mas há quem considere que o regime de Franco, na Espanha, ou o de Salazar, em Portugal, também tenham sido fascistas. 

Talvez dessa indefinição surja a generalização. 

Hoje, a palavra virou sinónimo de “extrema direita”, mas é usada até para se referir a “totalitarismo” e “autoritarismo” – o que não faz sentido, já que o regime comunista de Stalin foi ainda mais autoritário que o de Mussolini.

Em suma: a própria definição de fascismo é relativa. 
E as pessoas vão continuar a usar essa palavra cada uma à sua maneira.
Mas, na próxima vez em que você escutar alguém usando o termo, saberá do que se trata: alusão a um antigo instrumento de poder romano, que virou símbolo de alguns dos piores momentos do século XX.


Ingrid Luisa


















sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Nascença Eterna





Nascença Eterna, 
Nasce mais uma vez! 
Refaz a humílima Caverna 
Que nunca se desfez. 

Distância Transcendente, 
Chega-te, uma vez mais, 
Tão perto que te aqueças, como a gente, 
No bafo dos obscuros animais. 

Os que te dizem não, 
Os épicos do absurdo, 
Que afirmarão, na sua negação, 
Senão seu olho cego, ouvido surdo? 

Infelizes supremos, 
Com seu fracasso alcançam nomeada, 
E contentes se atiram aos extremos 
Do seu nada. 

Na nossa ambiguidade, 
Somos piores, nós, talvez, 
E uns e outros só vemos a verdade 
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês. 

Se nada tem sentido sem a fé 
No seu sentido, Sol que não te apagas, 
Rompe mais uma vez na noite, que não é 
Senão o dia de outras plagas. 

Perpétua Luz, Contínua Oferta 
A nossa escuridade interna, 
Abre-te, Porta sempre aberta, 
Mais uma vez, na humílima Caverna. 


José Régio
in, 'Obra Completa' 





Faz as pazes com a vida que escolheste! ​





Cada vez mais a visão irrealista e idealista 
que nos fazia ansiar 
por um mundo perfeito e uma vida perfeita 
começa a ser substituída pela visão real de que 
vivemos num mundo dual onde 
sombra e luz, medo e amor, bem e mal 
andam lado a lado.


Há mais de 4000 anos que os Mestres Taoístas nos ofereceram a sua visão dual da realidade através do símbolo Yin Yang e praticamente todas as filosofias do mundo a mencionam nos seus textos, mensagens e metáforas. A ciência juntou-se a esta visão no estudo do átomo.

A verdade é que não precisamos de filosofias nem da ciência que defendam a dualidade pois cada um de nós a vive e comprova diariamente. Dia, noite, chuva, sol, trabalho, descanso, homem, mulher, alegria, tristeza, doença, saúde, enfim, não caberiam numa enciclopédia todos os exemplos de experiências da dualidade.

Para fazermos as pazes com a nossa vida teremos que primeiro ​aceitar o conceito da dualidade ​pois é​ essencial para vivermos uma vida de qualidade. E por qualidade não quero dizer que tudo irá ser perfeito e correr bem obviamente. Quero dizer sim, capacidade de viver em paz com o que a realidade dual é e de aceitar o que a vida traz a cada momento como expressões inteligentes dessa dualidade.

Aceitar a dualidade é então reconectar com a Unidade pois atrás de cada experiência está sempre a sua oposta e é na consciência dos opostos que encontramos o Divino.

E porque perceber isto é tão importante, perguntas tu?

♦ Porque fazer as pazes com a nossa história é uma das maiores curas que podemos fazer.
♦ Porque aceitar a nossa proposta de encarnação é um acto de humildade e maturidade.
♦ Porque só aceitando o lado sombra ​e o lado luz podemos fazer as pazes com a nossa vida​.

Em vários textos e livros​ que escrevi, fui mostrando como podemos tomar consciência destas energias tanto dentro como fora de nós ​de maneira a harmonizá-las.
A proposta deste texto é apenas a de te colocar o desafiante convite de aceitares a tua história aqui e agora. De finalmente fazeres as pazes com a tua proposta de vida e com tudo o que ela ​teve, ​tem ​e terá​ para te oferecer; a dualidade!
De conseguires finalmente dizer: "Eu estou em paz com a vida que escolhi"

Sei bem que quando as coisas não nos correm a favor e as experiências negativas acumulam​, é um desafio fazê-lo. Mas apenas porque ninguém nos ensinou que todas as experiências são válidas, inteligentemente atraídas que escondem valiosas aprendizagens. Quando finalmente percebemos que toda a dualidade não é mais do que uma expressão da Unidade ou do Divino, a antiga resistência dá lugar à aceitação e a uma maravilhosa paz interior capaz de ir reconhecendo a dualidade em tudo e em todos. Confiando que a experiência presente irá sempre fazer-nos chegar a sua oposta para que tomemos consciência dela e em última análise, lhe demos o devido valor. ​

Só quando fizermos as pazes com esta visão da vida podemos então ser observadores da dualidade e sentir a importância e riqueza do que ela nos permite experimentar como por exemplo, ver todo o espectro de cores, ouvir a variedade de sons, provar os mais diferentes sabores, sentir todo o tipo de emoções, ou seja, distinguir os mais variados opostos que compõem a realidade.

E não são os opostos que afinal dão vida e riqueza à realidade material​?

Aceitar a dualidade é um acto de fé pois aprendemos a confiar que toda a experiência esconde a sua oposta e ​é dessa visão de "dois pratos" que o termo equilíbrio nasce e faz sentido.
Que vida seria esta se apenas fosse vivido apenas o lado positivo da balança?
Será que o amor, saúde, alegria, felicidade, segurança, riqueza, abundância, prazer, coragem, doçura, proteção teriam valor sem os seus opostos? Eu não acredito.
Acredito sim é que num tempo futuro, a distância entre opostos irá diminuir.

A nossa evolução irá permitir que o ​fosso de diferença ​entre positivo e negativo ​que conhecemos hoje,​ irá ser mais curto e logo, mais fácil ​de viver.

Até que esse tempo chegue, aceitemos a viagem a que nos propusemos. ​Façamos as pazes com o nosso roteiro. Tentemos lembrar o momento antes de encarnar onde decidimos os desafios presentes e todos os equilíbrios de opostos que viemos fazer e respeitemos ​que a nossa vida não é mais do que esse plano.

Uma das maneiras mais confortáveis de trabalhar os opostos é não nos identificarmos com nenhum deles, vendo-os apenas ​então ​como polos de experiência.
Tal como nós não somos o frio nem o quente. 
Somos quem experimenta o frio e o quente. ​

Procura dentro de ti o teu centro, a consciência do teu espírito. O Observador. ​Um ponto neutro que apenas sai do seu centro para ir lá fora ao mundo fazer a sua experiência e voltar ao centro com a consciência da mesma. Seja ela positiva ou negativa. A partir deste ponto ​neutro, ​​vai validando como as várias experiências não são mais do que toques cósmicos na nossa energia de modo a que ela se equilibre​ e ​consiga​ estabiliza​r dentro de nós.

​Costuma-se dizer que:

"A dor é sempre proporcional à resistência"​

Fazer as pazes com a nossa vida e aprender a aceitar as aprendizagens por trás de cada experiência, ajuda a desactivar a resistência e logo, a intensidade da dor.



Vera Luz