quarta-feira, 11 de julho de 2018

Segunda Elegia de Natal





Teria hoje dezasseis anos
a nossa filha que nasceu morta
Só no silêncio a recordamos
tanto a sentimos à nossa volta

Ano após ano sempre em silêncio
emocionados fomos seguindo
todos os passos de um crescimento
no seu sorriso que nunca vimos

Subiu aos ferros da nossa cama
sem termos medo de que tombasse
Tocou nos livros que fui comprando
sem que rasgasse nem uma página

Andou connosco por longe e perto
sem ter saído do seu abrigo
Hoje intercede pelos meus netos
que nem suspeitam ser seus sobrinhos

Não teve nome    Não há retrato
E de tais dados não precisamos
Mesmo sem rosto cresceu-lhe o rasto
ao longo destes dezasseis anos

Senta-se à mesa da consoada
numa cadeira que não existe
mas cujas tábuas trazem a marca
das mãos aladas de Jesus Cristo

Agora vejo-a da tua altura
com uma fita sobre o cabelo
Vem ilibar-me de toda a culpa
dentro dos versos em que a descrevo

É tão sensata que até parece
ser mais adulta que nós os dois
Os nossos laços ela os aperta
Mal-entendidos ela os transpõe

É ela sempre quem nos reúne
Mais porventura que estando viva
Que importam chamas luas ou lumes
perante o brilho daquela cinza

Da sua morte nunca falamos
Ei-la a velar-nos do alto céu
E já tem hoje dezasseis anos
a nossa filha que não morreu.


David Mourão Ferreira





Cada um dá o que tem





Quando somos carentes, desejamos receber... mais do que dar.
E quando somos carentes orgulhosos, usamos o artifício de dar com o intuito de receber algo em troca. Agimos sem demonstrar que somos carentes, mas nos frustramos, sentimo-nos rejeitados se não temos o retorno almejado.

É o mesmo que dizer:
- Olha como eu sou bom, o quanto eu dou, quantas coisas boas eu faço, por favor, me devolvam algo em troca, me aceitem, me amem!

Se nos sentimos obrigados a dar para receber, o movimento é falso, é apenas satisfação para a carência. A moeda fica sem conteúdo, pois o ideal seria dar por amor.
Mas para isso, temos que nos encontrar primeiro em nós. Encontrar a paciência, a alegria, a confiança, a autoestima, o sorriso, o céu interior.

Afinal, cada um só pode dar o que tem.
Por isso é tão importante deixar fluir a fonte de luz e abundância que existe dentro de nós.
Assim podemos manifestar a verdadeira prosperidade.


Marcelo Dalla





sábado, 7 de julho de 2018

Gulls





My townspeople, beyond in the great world,
are many with whom it were far more
profitable for me to live than here with you.
These whirr about me calling, calling!
and for my own part I answer them, loud as I can,
but they, being free, pass!
I remain! Therefore, listen!
For you will not soon have another singer. 

First I say this: you have seen 
the strange birds, have you not, that sometimes 
rest upon our river in winter? 
Let them cause you to think well then of the storms 
that drive many to shelter. These things 
do not happen without reason. 

And the next thing I say is this: 
I saw an eagle once circling against the clouds 
over one of our principal churches - 
Easter, it was - a beautiful day! 
three gulls came from above the river 
and crossed slowly seaward! 
Oh, I know you have your own hymns, I have heard them -
and because I knew they invoked some great protector 
I could not be angry with you, no matter 
how much they outraged true music - 

You see, it is not necessary for us to leap at each other, 
and, as I told you, in the end 
the gulls moved seaward very quietly.


William Carlos Williams





Ordem Maior





No nosso dia a dia, conceitos como os de 
acaso, sorte, azar ou injustiça, 
são normalmente a maneira como 
assumimos e justificamos o que nos acontece, 
precisamente porque não conhecemos 
a Ordem Maior.




Uma das maiores ilusões de óptica quando olhamos para o mundo é acreditarmos que o que vemos é caótico. Porque não conhecemos as leis universais, não entendemos os movimentos que vemos escondem uma ordem, tal como alguém a ver um jogo de futebol pela primeira vez, está inconsciente do propósito e das regras que o regem.

Quando não conhecemos a ordem ou as regras, tendemos a fazer julgamentos e a assumir coisas que na maior parte das vezes se irão revelar erradas perante a verdadeira ordem.

A cura do ser humano acontece não propriamente quando o mundo se organiza a nosso favor mas sim quando nos é permitido espreitar essa Ordem por trás do aparente caos.
Deixo alguns exemplos muito comuns:


  • O carrasco, é afinal percebido como o mestre.
  • A raiva que sentíamos por alguém, consegue ser transformada em gratidão.
  • O medo de que sempre fugimos é afinal a chave do nosso poder pessoal.
  • A perda porque passámos foi o que permitiu a ponte para a nossa evolução.
  • A rejeição dos outros foi essencial para a descoberta do caminho pessoal.
  • O sofrimento é finalmente entendido à luz da lei do karma e aceite como aprendizagem essencial da vida presente.


Estes e muitos outros exemplos mostram o imenso potencial que todos temos de cura interior e que nada depende dos outros ou de ações ou movimentos externos.

O questionamento, a aprendizagem, a curiosidade, a leitura, a capacidade de colocarmos em causa as nossas crenças e verdades são essenciais para entendermos as dinâmicas inteligentes da vida e aprendermos a ver a Ordem Maior. Presos à visão deprimente, caótica e vitimizadora jamais iremos conseguir focar a nossa lente interna e ver a magia que todos os dias se esconde à nossa volta.



Vera Luz




quinta-feira, 5 de julho de 2018

Our home supercluster, Laniakea





The largest living organism on Earth was a 2,400 acre continual area of mycelium, the vegetative part of fungus, consisting of a mass of branching, thread-like hyphae that closely resemble the structures galaxies form in massive superclusters, like our home supercluster, Laniakea. 
Nassim Haramein




Conto de fadas para mulheres do Séc. XXI


Paolo Roversi




Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa independente e
cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como
o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades
ecológicas, se deparou com uma rã.

Então, a rã pulou para o seu colo e disse: -Linda princesa, eu já fui um
príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu
transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me
transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar
feliz no teu lindo castelo.

A minha mãe poderia vir morar conosco e tu
poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os
nossos filhos e viveríamos felizes para sempre…
E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée,
acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a
princesa sorria e pensava:
-Nem mortaaaa!


Luis Fernando Verissimo





quarta-feira, 4 de julho de 2018

Essay on the One Hand and on the Other





Consider the palms. They are faces,
eyes closed, their five spread fingers
soft exclamations, sadness or surprise.
They have smile lines, sorrow lines, like faces.
Like faces, they are hard to read.

Somehow the palms, thought they have held my life
piece by piece, seem young and pale.
So much has touched them, nothing has remained.
They are innocent, maybe, though they guess
they have a darker side that they cannot grasp.

The backs of my hands, indeed, are so different
that sometimes I think they are not mine,
shadowy from the sun, all bones and strain,
but time on my hands, blood on my hands -
for such things I have never blamed my hands.

One hand writes. Sometimes it writes a reminder
on the other hand, which knows it will never write, 
though it has learned, in secret, how to type.
That is sad, perhaps, but the dominant hand is sadder,
with its fear that it will never, not really, be written on.

They are like an old couple at home. All day,
each knows exactly where the other is.
They must speak, though how is a mystery,
so rarely do they touch, so briefly come together,
now and then to wash, maybe in prayer.

I consider my hands, palms up. Empty, I say,
thought it is exactly then that they are weighing
not a particular stone or loaf I have chosen
but everything, everything, the whole tall world,
finding it light, finding it light as air.



James Richardson





Bioenergia





Ciência perto de comprovar que 
pessoas absorvem energia de outras.


Quem nunca sentiu uma energia densa seja em algum lugar ou na presença de alguma pessoa?!

No Mundo da Ciência, é comum ouvirmos dizer que tudo é energia, o que não seria diferente em nós e para nós.

O artigo trata de uma experiência feita em algas, e com o resultado, a doutora e terapeuta Olivia Bader Lee, sugere que o mesmo pode se aplicar aos humanos.

A equipe de pesquisa da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, fez uma interessante descoberta mostrando que as plantas podem absorver fontes de energias alternativas de outras plantas.

Essa descoberta pode causar um grande impacto no futuro da bioenergia, eventualmente fornecendo a evidência de que pessoas absorvem energias de outras, da mesma maneira.

Membros da pesquisa biológica do Professor Olaf Kruse, confirmaram pela primeira vez que uma planta, Chlamydomonas Reinhardtii, não apenas realiza a fotossíntese, mas também tem uma fonte alternativa de energia, que pode absorver de outras plantas, conforme publicado no site Nature.com.

As flores precisam de água e luz para crescerem, e as pessoas não são diferentes.


Nossos corpos físicos são como esponjas, 
absorvendo o ambiente a nossa volta.

“É exatamente por isso que há pessoas que se sentem desconfortáveis onde há um certo grupo com mistura de energias e emoções”, disse a psicóloga e terapeuta Dr. Olivia Bader Lee.

Plantas produzem a fotossíntese a partir do dióxido de carbono, água e luz. Numa série de experimentos, o Professor Ola Kruse e a sua equipa, cultivaram a alga microscopicamente pequena, Chlamydomonas Reinhardtii, e observaram que quando expostas à falta de energia, essas plantas de células únicas podem absorver energia de vegetais ao redor.

A alga ‘digere’ as enzimas de celulose, tornando-as pequenos componentes de açúcar, sendo então transportados para células e transformados em fontes de energia.

“Esta é a primeira vez que esse comportamento é confirmado num organismo vegetal. Essas algas poderem digerir a celulose, contradiz todos os livros anteriores. Até certo ponto, o que vemos são plantas a alimentarem-se de plantas”, diz  Professor Kruse.

Dr. Bader Lee diz que quando os estudos sobre energia se tornarem mais avançados nos próximos anos, nós poderemos ver toda essa ação sendo traduzida também para os seres humanos.

Bader Lee complementa: “O organismo humano é bastante similar à uma planta, que suga, absorve a energia necessária para alimentar seu estado emocional, e isso pode energizar as células ou causar o aumento de cortisol e catabolizar, alimentar as células dependendo da necessidade emocional.”

Finalizando, Dr. Bader fala da conexão do homem com a natureza, que se perdeu durante os anos mas que está a reencontrar-se novamente, afirmando que o ser humano pode absorver e curar através de outros seres humanos, animais e qualquer parte da natureza. É por isso que estar perto da natureza é frequentemente tonificante, curativo e energizante para tantas pessoas.

Ao contrário do que pensam muitos ‘cientistas’ da idade moderna, que clamam conhecer tudo, se existe o Mundo Espiritual, ele não é separado da Ciência, e sim separado da ciência reduzida do homem.

Por conta de inúmeros relatos de pessoas com capacidades ‘paranormais’ para o padrão moderno do mundo, pesquisadores da Universidade de Granada, na Espanha, conduziram um estudo sobre o fato de pessoas que afirmam verem a aura de outras, conforme publicado no site MedicalXpress.

O fenómeno neuropsicológico ‘Synesthesia’, é uma condição na qual um padrão cognitivo leva a outro, misturando seus sentidos. Dessa maneira, as pessoas que possuem essa capacidade, podem ver ou até mesmo sentir o som, ouvir um cheiro, ou associar pessoas a um tipo de cor ou música.

Vemos que não se trata apenas de uma suposição, mas algo sendo descoberto pelos cientistas e afirmado por outros, o que há milénios se sabia nas culturas orientais, por exemplo.

Sendo assim, o nosso campo áurico pode tanto afetar quanto ser afetado não só por pessoas ao nosso redor, mas também por objetos, já que conforme afirma a Ciência, tudo é energia.

O BioField Global, fala detalhadamente sobre os nossos corpos mais subtis, do conhecimento dos antigos hindus, e do aprofundamento dos estudos da aura com o auxílio da moderna tecnologia.



in, Estou no Cosmos







Estão sugando a sua energia?


"Você vai a uma festa ou a um jantar muito animado e lá, de repente, começa a sentir-se deprimida, desanimada, sufocada, com vontade de sair correndo daquele lugar?

Estando em casa ou no trabalho, do nada e sem motivo aparente, você sente frio, arrepios, enjoo, falta de ar, dores no corpo, atordoamento, sensação de desmaio?

Minha experiência tem demonstrado que esses sintomas são provocados por conexão de energias pesadas que estão à nossa volta, provenientes de formas pensamentos de pessoas, ou espíritos desencarnados desequilibrados.

Essa conexão tem várias causas. Sendo que, conforme o teor de seus pensamentos e atitudes, você se torna vulnerável a elas. Por esse motivo é fundamental manter a atenção sobre o que vai em seu mundo interior, se quiser evitar essa desagradável situação.

Hoje em dia, os médicos, os cientistas em geral, ensinam que, para ter longevidade e saúde é necessário manter o otimismo, cultivar a alegria, ficar de bem com a vida.

A agitação do mundo moderno, o ritmo vertiginoso em que nos envolvemos, nos faz correr de um lado a outro para cumprir as obrigações a que nos impusemos. Mergulhados no círculo vicioso entre o trabalho e o consumismo, esquecemos de satisfazer as necessidades básicas do nosso espírito. Nós estamos aqui para desenvolver a consciência, conquistar a lucidez e saber o que fazer para conquistar a felicidade.

Você já sabe o que a faria feliz?
Já descobriu como ficar alegre?
Está fazendo alguma coisa nesse sentido?
Sempre que faço essas perguntas recebo resposta evasiva.
As pessoas estão perdidas, não têm foco nem rumo.

Mas a verdade é que você é inteiramente responsável por tudo quanto acontece em sua vida. É livre para fazer suas escolhas e são elas que determinam os resultados que colherá mais à frente.

Como é que você vai conduzir sua vida se não sabe para onde vai?
Sem controlar seu mundo interior, você está a mercê das energias descontroladas ao redor.
É como uma folha levada pelas intempéries ao sabor do vento.

Vivendo na Terra, é importante trabalhar, manter a família, mas sem deixar de atender as necessidades de sua alma que precisa abrir os olhos para uma verdade que vai além das transitórias necessidades da vida física.

Acreditar no invisível, buscar conhecimento sobre as leis perfeitas que regem a vida e viver a ética espiritual. Entrar no seu mundo íntimo, sentir sua vocação e focar seus objetivos nela vai dar outro rumo à sua vida, fazendo-a conquistar realização, progresso e paz."

Zibia Gasparetto





segunda-feira, 2 de julho de 2018

Canção Breve





Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas, 
as areias onde ardi impaciente. 

Tudo me prende do mesmo triste amor 
que há em saber que a vida pouco dura, 
e nela ponho a esperança e o calor 
de uns dedos com restos de ternura. 

Dizem que há outros céus e outras luas 
e outros olhos densos de alegria, 
mas eu sou destas casas, destas ruas, 
deste amor a escorrer melancolia. 


Eugénio de Andrade




I Ching - 64 hexagrams - Encode the geometry of the fabric of the vacuum - Vector Equilibrium


Photo: Michele Nessen Mikulskis



"An ancient copy of the I Ching found in the Shanghai, China library reveals that not only do the 64 hexagrams of this ocular system that predates written language encode the geometry of the fabric of the vacuum, they also expresses the dynamics of the vacuum as it curls toward singularity at all scales... (pictured with a sunflower)"







sábado, 30 de junho de 2018

Rock Me to Sleep





Backward, turn backward, O Time, in your flight,
Make me a child again just for tonight!
Mother, come back from the echoless shore,
Take me again to your heart as of yore;
Kiss from my forehead the furrows of care,
Smooth the few silver threads out of my hair;
Over my slumbers your loving watch keep; -
Rock me to sleep, mother, - rock me to sleep!

Backward, flow backward, O tide of the years!
I am so weary of toil and of tears, -
Toil without recompense, tears all in vain, -
Take them, and give me my childhood again!
I have grown weary of dust and decay, -
Weary of flinging my soul-wealth away;
Weary of sowing for others to reap; -
Rock me to sleep, mother - rock me to sleep!

Tired of the hollow, the base, the untrue,
Mother, O mother, my heart calls for you!
Many a summer the grass has grown green,
Blossomed and faded, our faces between:
Yet, with strong yearning and passionate pain,
Long I tonight for your presence again.
Come from the silence so long and so deep; -
Rock me to sleep, mother, - rock me to sleep!

Over my heart, in the days that are flown,
No love like mother-love ever has shone;
No other worship abides and endures, -
Faithful, unselfish, and patient like yours:
None like a mother can charm away pain
From the sick soul and the world-weary brain.
Slumber’s soft calms o’er my heavy lids creep; -
Rock me to sleep, mother, - rock me to sleep!

Come, let your brown hair, just lighted with gold,
Fall on your shoulders again as of old;
Let it drop over my forehead tonight,
Shading my faint eyes away from the light;
For with its sunny-edged shadows once more
Haply will throng the sweet visions of yore;
Lovingly, softly, its bright billows sweep; -
Rock me to sleep, mother, - rock me to sleep!

Mother, dear mother, the years have been long
Since I last listened your lullaby song:
Sing, then, and unto my soul it shall seem
Womanhood’s years have been only a dream.
Clasped to your heart in a loving embrace,
With your light lashes just sweeping my face,
Never hereafter to wake or to weep; -
Rock me to sleep, mother, - rock me to sleep! 


Elizabeth Akers Allen







............................... vector equilibrium





Nassim Haramein theorizes that space seems to us to be empty even though we know it is completely filled with energy because the structure of space itself is in a state of perfectly balanced equilibrium.

The only 3D geometry that is in a perfectly balanced state, where all the vectors (lines) in the geometry are the same length, is something first described by Buckminster Fuller as the "vector equilibrium", otherwise known as a cuboctahedron.

Perhaps the space that makes up the entire universe from the infinitely large to the infinitely small is one infinite scalar geometric array in a perfect vector equilibrium...





sexta-feira, 29 de junho de 2018

Amei Demais





Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.


Joaquim Pessoa
in 'Ano Comum'





A nossa vida é como um jogo de xadrez





A dualidade manifestada no mundo material dá-nos uma sensação falsa de caos, de que tudo está desarrumado, de desordem, que por sua vez origina a sensação de ansiedade e medo. Mas esta visão distorcida da realidade é baseada numa crença falsa pois na verdade tudo o que nos rodeia é perfeitamente ordenado, tem um sentido e razão de ser.

Tal como um jogo de xadrez ao fim de 1 hora de jogo, o tabuleiro parece caótico e as peças todas desarrumadas, quando na verdade elas têm uma razão para estar assim de acordo com a intenção dos jogadores. Nenhum dos jogadores está com medo ou ansioso pois sabe que está a lidar com alguém inteligente que está sujeito às mesmas regras que ele próprio deve seguir. Concentra-se sim em preparar a sua próxima jogada de acordo com os movimentos do outro jogador.

Assim é a dinâmica entre nós e a Vida. Os nossos movimentos criam uma reação nos movimentos da Vida e vice-versa, onde somos cada um de nós, pões dessas forças. É uma dança permanente entre os nossos desejos e a intenção da Vida em nos ajudar a evoluir. O nosso jogo flui quando as nossas jogadas são baseadas no amor e a favor do nosso crescimento, amadurecimento e evolução pessoal. Quando os nossos movimentos partem do medo, do egoísmo e do ganhar a qualquer custo, a resposta da Vida torna-se implacável, fazendo um xeque-mate à nossa intenção.

As peças do jogo não discutem diretamente entre si. Aguardam sim a proposta de movimento ditada pelos seus mestres. Não nos deixemos cair então na tentação de personalizar as batalhas com quem quer que seja. A nossa dança é entre nós e a Vida. A harmonia é um processo interno. Os outros são apenas mensageiros que vêm fazer disparar essas forças. 
Procuremos sim, antes de reagir, procurar a melhor ação, descobrir que mensagem tem aquele movimento e que movimento inteligente devo fazer como resposta.

Que este Verão repensemos as nossas ações, reações, onde usamos criativamente ou desperdiçamos a nossa energia de maneira a que joguemos com a Vida um jogo inteligente e fluido.


Vera Luz




quinta-feira, 28 de junho de 2018

L’Envoi





Where are the loves that we have loved before
When once we are alone, and shut the door?
No matter whose the arms that held me fast,
The arms of Darkness hold me at the last.
No matter down what primrose path I tend,
I kiss the lips of Silence in the end.
No matter on what heart I found delight,
I come again unto the breast of Night.
No matter when or how love did befall,
’Tis Loneliness that loves me best of all,
And in the end she claims me, and I know
That she will stay, though all the rest may go.
No matter whose the eyes that I would keep
Near in the dark, ’tis in the eyes of Sleep
That I must look and look forever more,
When once I am alone, and shut the door.


Willa Cather





Os aliados ocultos de Hitler





Grandes corporações alemãs e até americanas 
patrocinaram o nazismo, 
enviaram funcionários judeus a campos de concentração 
e venderam a tecnologia 
que tornou o Holocausto possível. 
Tudo em nome de uma ideologia: 
o lucro.




A solução final tecnológica

O Holocausto não teria acontecido nos moldes em que ocorreu não fosse a International Business Machines, mais conhecida como IBM. A tradicional empresa de tecnologia organizou toda a Solução Final, o plano de extermínio total dos judeus da face da Terra. Desde o fim do século 19, a IBM dominava uma tecnologia ancestral do computador, os cartões perfurados. Esse sistema, desenvolvido para fazer censos, podia capturar qualquer tipo de informação por meio de furos feitos em colunas e fileiras de um cartão especialmente preparado. Linhas horizontais e verticais tinham significados diferentes e, com o cruzamento delas, obtinha-se a informação, que seria interpretada por uma máquina da empresa.

O equipamento foi bastante útil para o Terceiro Reich. “Com a IBM como parceira, o regime de Hitler pôde substancialmente automatizar e acelerar as seis fases dos 12 anos de Holocausto: identificar, excluir, confiscar, `guetizar¿, deportar e exterminar”, diz o jornalista americano Edwin Black no livro Nazi Nexus (“O nexo nazista”, inédito no Brasil).

Assim, ficou muito mais fácil para o Reich descobrir quem eram os judeus na Alemanha, onde viviam, em que trabalhavam. Confiscaram seus bens, tiraram seus empregos, jogaram-nos em guetos. Mais tarde, quando eles foram enviados para campos de concentração, a IBM coordenava todos os sistemas de trens para levá-los até lá. Já nos campos, as informações organizadas pelos programas da empresa eram usadas para os mais variados propósitos: gerenciar a mão de obra escrava, quem iria para a câmara de gás etc. O número de identificação tatuado no braço dos prisioneiros de Auschwitz nada mais era, a princípio, do que o número do cartão perfurado da IBM correspondente à pessoa. “Desde os primeiros momentos do relacionamento estratégico com a Alemanha, iniciado em 1933, o Reich tornou-se o maior consumidor internacional da IBM”, escreveu Black. Em valores atuais, o serviço prestado aos nazistas rendeu à subsidiária alemã US$ 200 milhões.

Pós-guerra – Hoje, a IBM se limita a dizer que não tem muita informação sobre a guerra e que perdeu o controle de seus negócios na Alemanha no período.


A máquina de batalha

Em fevereiro de 1933, Gustav Krupp, cabeça da Krupp, grupo alemão de aço e armamentos, foi chamado, com outros 24 dos principais industriais da Alemanha, para uma reunião com o Partido Nazista. Hitler anunciou então seus planos, entre eles investir pesadamente nas Forças Armadas alemãs. Krupp, no papel de dirigente da Associação da Indústria Alemã do Reich, espécie de Fiesp de lá, anunciou que a instituição estava alinhada com os objetivos do futuro Führer e que estaria à disposição para ajudá-lo. Ou seja, o grosso do PIB do país, a elite industrial alemã, fechou com Hitler desde o começo.

Em 1936, já governante, Hitler elaborou o Plano de Quatro Anos, cujo objetivo era fazer com que a Alemanha nazista fosse autossuficiente em matérias-primas, essencialmente combustível, borracha, fibra têxtil e metais não-ferrosos – tudo isso como medida de preparação para os planos imperialistas do país. O desenvolvimento de produtos sintéticos foi acelerado, apesar dos altos custos. A produção de aço, por exemplo, subiu de 74 mil toneladas em 1933 para 477 mil em 1938.

“Quando Hitler subiu ao poder, os industriais não falavam uma língua só”, diz Jonathan Wiesen. “Mas a maioria estava feliz de apoiar nazistas em vez de comunistas, e de dar suporte a um movimento político que prometia limitar, senão esmagar, o crescente poder dos trabalhadores organizados. Gustav Krupp foi um que se tornou apoiador do regime.” Mesmo depois que ele sofreu um derrame e deixou o poder da empresa, em 1941, a Krupp continuou com o governo. Alfried, sucessor de Gustav, deu continuidade ao papel de principal fornecedor de armas e tanques da Alemanha. Durante a guerra, a indústria expandiu suas fábricas para todos os países ocupados, como siderúrgicas na Áustria e montadora de tratores na França. Como grande parte das empresas da época, a Krupp usou mão de obra forçada, com prisioneiros de guerra e de campos de concentração, e também civis dos locais ocupados. Acredita-se que o número de escravos tenha chegado a 100 mil.

Outra grande joia da indústria alemã a usar e abusar da mão de obra escrava foi a Siemens. Ela operava um subcampo em Auschwitz e um em Ravensbrück, na Alemanha, de onde retirou centenas de milhares de operários. Eles fabricaram telefones, telégrafos e rádios para a comunicação militar durante a guerra, componentes elétricos para motores de aviões, equipamentos para geração de energia, estradas de ferro e munições. A empresa ainda foi acusada de ter construído as câmaras de gás nas quais morreram milhões de judeus, mas isso nunca foi comprovado. Já o uso de mão de obra escrava era público e notório.

Pós-guerra – No Tribunal de Nuremberg, 12 pessoas foram condenadas, inclusive Alfried Krupp. Em 1999, a empresa se fundiu a outra grande siderúrgica alemã, formando a ThyssenKrupp. Na década passada, a Siemens começou a pagar indenizações às famílias de seus operários escravizados.


O alimento da guerra

Os negócios do alemão Max Keith viviam tempos difíceis com o início da Segunda Guerra. A empresa que dirigia, filial alemã da Coca-Cola, estava isolada da matriz, em Atlanta, EUA. E do resto do mundo também. A bebida tinha conquistado os alemães nas décadas anteriores, a ponto do país ter se tornado o maior mercado da empresa fora dos EUA. Mas, com a guerra, a Coca-Cola da Alemanha não conseguia importar os ingredientes necessários para produzi-la. Foi então que Keith teve uma ideia: fabricar um refrigerante com o que tivesse a mão. Nascia assim a Fanta.

A fábrica usou o que tinha de disponível, como soro da proteína do leite, subproduto da fabricação de queijo, e fibra de maçã, que vinha da fabricação da cidra. E o principal, as frutas mais fáceis de conseguir: laranja e uva. Keith foi reconhecido e passou a comandar também as filiais da Coca-Cola nos países ocupados pela Alemanha. Convidado a se filiar ao Partido Nazista, ele recusou. Mas enquanto nos EUA a Coca forjava a imagem de ícone americano e parceira inseparável dos jovens do front, sua subsidiária alemã usava mão de obra escrava, especialmente nos últimos anos da guerra.

Além de Coca, os nazistas gostavam bastante dos chocolates da Nestlé. A empresa suíça obteve lucros monumentais em contratos com os alemães. E, mais uma vez, com milhares de escravos em suas linhas de produção. Segundo um relatório elaborado pelo historiador suíço Jean François Bergier, a Nestlé não só usou mão de obra forçada em sua subsidiária alemã como a matriz estava a par de tudo. “Como regra, as empresas não se importavam com a situação. Desde que a produção fosse mantida, elas não pensavam em intervir na política de gerenciamento de suas subsidiárias”, afirma o estudo.

Recentemente, outra indústria do ramo alimentício teve seu envolvimento com o nazismo vindo à tona – por vontade própria. A Dr. Oetker, aquela de bolos, sobremesas e chás, encomendou no ano passado um estudo sobre sua história durante o regime nazista. O patriarca, Rudolf-August Oetker, tinha as mãos sujas e era contra a investigação. Mas seu filho August decidiu que o trabalho deveria ser feito.

A pesquisa descobriu que, como muitos industriais da época, o diretor-executivo da companhia, Richard Kaselowsky, filiou-se ao Partido Nazista e doou grandes quantias a Heinrich Himmler, líder da SS (a tropa pessoal de Hitler). Rudolf-August Oetker, seu enteado e sucessor, manteve a proximidade. Em 1941, chegou a se alistar como voluntário da Waffen-SS, responsável pela vigilância dos campos de concentração. Além disso, a empresa também usou mão de obra forçada.

A Dr. Oetker é o mais novo nome em uma lista de empresas que pesquisam o passado que as condena. Esse movimento não é novo. “Desde 1970, uma boa parte das instituições e indivíduos alemães tentam encarar seu passado nazista”, diz Martin A. Ruehl, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e especialista em história intelectual da Alemanha moderna. “Em alguns casos, isso aconteceu em resposta a pressões externas, como nos julgamentos conduzidos nos EUA. Em outros, não houve essa indução.” Para ele, essas empresas sentiram necessidade de encarar a própria colaboração para não serem vistas como silenciosas ou complacentes.

Pós-guerra – A Nestlé admitiu o envolvimento e pagou US$ 14,5 milhões para um fundo das vítimas de trabalho escravo. A Coca-Cola pediu desculpas publicamente.


Os Motores do Terceiro Reich

Várias montadoras se envolveram até o pescoço com os crimes nazistas. A BMW usou cerca de 30 mil trabalhadores forçados em sua fábrica durante a guerra. Além de veículos terrestres, prisioneiros de países ocupados e de campos de concentração eram a mão de obra para a produção de motores também para a Luftwaffe, a Força Aérea nazista. A Daimler-Benz, dona da Mercedes-Benz, também fez caminhões e motores de avião. Por volta de 1941, toda a produção dela era voltada para fins militares. Em 1944, cerca de metade dos 63.610 trabalhadores eram prisioneiros ou civis de países invadidos obrigados a trabalhar.

Como vimos no começo da reportagem, não foram só montadoras alemãs que negociaram com os nazistas. James D. Mooney caiu nas graças de Hitler, mas quem decidiu toda a operação da General Motors com o governo nazista foi o presidente da empresa, Alfred P. Sloan. A guerra foi um grande negócio para a GM. Mas, diferentemente da maioria dos colaboradores de Hitler, que tinham no lucro sua maior – senão única – motivação, o presidente da GM tinha razões políticas. “Sloan desprezava o emergente estilo de vida americano trabalhado pelo presidente Franklin Roosevelt. Ele admirava a força, determinação irreprimível e a magnitude da visão de Hitler”, afirma Edwin Black.

Figura central da racista American Liberty League, Sloan cooperou em todos os aspectos com os nazistas, dando dinheiro para atividades do partido e demitindo todos seus funcionários judeus. Das fábricas da Opel saíram motores de avião para a Luftwaffe, detonadores de minas terrestres e torpedos. O volume de vendas para o Exército era 40% maior que para civis. Em 1937, quase 17% dos caminhões produzidos pela Opel eram comercializados diretamente com os militares nazistas. No ano seguinte, o número saltou para 29%.

Hitler via na indústria automobilística um parceiro-chave. Ao estimular a criação de um carro do povo (ou volkswagen, em alemão), ele ganhou uma arma política formidável, e um símbolo do boom econômico do governo: o Fusca. Criado pelo engenheiro Ferdinand Porsche, o carro que se tornaria o mais vendido da história foi um sucesso antes e durante a guerra, já que seu sistema de refrigeração a ar permitia atravessar até desertos. A fábrica do carro, que também tinha mão de obra escrava, foi bombardeada, tomada pelos ingleses, devolvida aos alemães depois da guerra e enfim privatizada para se tornar a Volkswagen de hoje.

Hitler foi influenciado pelo Ford T, carro americano muito barato que fez de Henry Ford gênio industrial e um dos homens mais ricos dos EUA. Os dois tinham muito em comum. Antissemita, Ford comprou um jornal para divulgar suas ideias, inspiradas por uma teoria da conspiração recorrente que diz que os judeus têm um plano de dominação do mundo, manipulando imprensa, governos e economias. Os textos viraram um livro, O Judeu Internacional, traduzido em várias línguas. Na Alemanha, onde Ford era venerado como empresário, O Judeu Internacional foi um sucesso ao ser lançado, em 1921. A obra virou uma bíblia dos antissemitas alemães, entre eles Hitler. Na primeira edição de Minha Luta, seu livro-manifesto, há a dedicatória: “Apenas um grande homem, Ford.” A devoção ao americano seria depois expressada em uma foto emoldurada em seu escritório.

Empresário visionário e antissemita? Nada melhor para ganhar a admiração de Hitler. Com isso, a Ford explorou o rico mercado alemão, montando inclusive fábricas de veículos militares no país – antes mesmo do início da guerra. Com isso, a Ford da Alemanha mais que dobrou de tamanho entre 1939 e 1945.

Não importava, para os alemães, que a empresa fosse americana. De acordo com Charles Higham, autor de Trading with the Enemy (“Comercializando com o inimigo”, inédito no Brasil), empresários dos EUA continuaram de conluio com o governo alemão mesmo depois da entrada do país no conflito, em dezembro de 1941. Na mesma semana em que declararam guerra, os EUA proibiram qualquer negócio com os inimigos. Mas um decreto presidencial permitia algumas exceções, especialmente quando tinha muito dinheiro envolvido. A Standard Oil, de Nova Jersey, transportava o combustível para a Alemanha através da neutra Suíça, e os caminhões da Ford eram fabricados na França (que estava sob domínio nazista) com autorização da matriz, por exemplo.

De seu lado, o governo alemão prometeu que, se saísse vitorioso, as propriedades de alguns empresários americanos não seriam afetadas. “Qualquer que fosse o vencedor, os poderes que faziam o país funcionar não seriam prejudicados”, escreve Higham. Dessa forma, os investimentos das subsidiárias de empresas americanas na Alemanha chegaram a US$ 475 milhões na época – dentre eles, US$ 35 milhões da GM e US$ 17,5 milhões da Ford, que fabricou cerca de um terço dos caminhões nazistas.

Pós-guerra – GM e Ford contrataram historiadores para investigar a época. A Ford abriu os arquivos, e um livro sobre o passado da GM foi publicado. Em 2007, um documentário sobre a família Quandt, dona da BMW, escancarou sua relação com o nazismo. A empresa reconheceu isso quatro anos depois. A Daimler admitiu o envolvimento, pediu perdão pela escravidão e se propôs a pagar indenizações às famílias das vítimas.


Cultura nazista

Coco Chanel revolucionou a moda e virou sinônimo de sofisticação e elegância. Mas, para o serviço de inteligência alemão, a estilista era só um número: F-7124. Entre 1940 e 1944, ela foi agente nazista durante a ocupação alemã na França. A história foi revelada pelo jornalista americano Hal Vaughan no livro Dormindo com o Inimigo – A Guerra Secreta de Coco Chanel, lançado no Brasil em 2011.

A ligação de Chanel com os alemães começou após a ocupação de Paris, quando ela teve um caso com um espião da Alemanha, o barão Hans Günter Dinklage. A função dela era mediar negociações entre os alemães e pessoas de seu círculo social – que, como é de se esperar, era cheio de gente importante. Ela colocou os alemães em contato com o duque de Westminster, então o sujeito mais rico da Europa, e o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill. Tudo em troca da libertação de seu sobrinho André Palasse, prisioneiro dos nazistas. Ou seja, o serviço de agente até tinha um objetivo nobre. Mas o resto, não. Chanel tentou, sem sucesso, se livrar de seus sócios judeus, que investiram nela no começo da carreira.

Outro ícone da moda marcado pelo nazismo foi Hugo Boss. Dono de uma fábrica de roupas, ele recebeu uma encomenda de camisas marrons para o então pouco conhecido Partido Nacional-Socialista. Mais tarde, a agremiação encomendou a produção de seus uniformes. Finalmente, em 1931, Boss virou o membro 508.889 do Partido Nazista. Graças à ligação, ele passou a fazer roupas também para a Juventude Hitlerista e o Exército. Seus lucros subiram de 200 mil para 1 milhão de marcos.

Durante a guerra, Boss usou 140 escravos, que trabalhavam sob condições desumanas, em barracões imundos e com pouca comida. Um dos casos mais chocantes foi o de uma empregada polonesa, Josefa Gisterek. Ela fugiu, foi capturada e mandada para Auschwitz. Boss usou suas conexões para encontrá-la e levá-la de volta à fábrica. Não se sabe sua real motivação, mas, ao chegar à confecção, o capataz a fez trabalhar tanto que ela teve um colapso e se matou, colocando a cabeça em um forno a gás. Boss pagou todas as despesas do funeral.

Pós-guerra – A Chanel diz que o papel de Coco deve ser mais estudado e não admite que ela era antissemita, pois inclusive tinha amigos judeus. A Hugo Boss pediu desculpas formais.


Cineclube do Führer

Toda noite, antes de dormir, Hitler assistia a um filme. No jantar, pegava um de uma lista e levava seus convidados a um cinema privativo na Chancelaria do Reich, em Berlim. Quando seus funcionários alertaram que logo não haveria mais filmes alemães inéditos, ele decidiu ver longas americanos. Suas opiniões eram sempre anotadas. É assim que sabemos, por exemplo, que ele achou Tarzan ruim e que era fã de Mickey e de O Gordo e O Magro. Mas o mais importante dessa paixão por cinema foi a lição política que Hitler teve: filmes são capazes de convencer as pessoas e moldar suas opiniões.

Essas revelações estão em The Collaboration: Hollywood¿s Pact With Hitler (“A colaboração: o pacto de Hollywood com Hitler”, inédito no Brasil), lançado no ano passado. No livro, o jornalista australiano Ben Urwand conta sobre a relação de Hitler com os estúdios de cinema americanos. E afirma que Hollywood, pensando em não perder o grande mercado alemão, submeteu-se não apenas à censura nazista, mas também colaborou com a propaganda do regime.

Nos anos 30, para se aproximar de Hitler, Paramount, Columbia e outros estúdios demitiram funcionários judeus. A Fox alterou cenas em que oficiais alemães foram retratados de um jeito que desagradou Hitler em O Lanceiro Espião (1937). A Warner retirou a palavra “judeu” dos diálogos do filme A Vida de Émile Zola (1937). Jack Warner, chefão da casa do Pernalonga, foi o primeiro a convidar oficiais nazistas para Los Angeles, para que eles palpitassem nos cortes que queriam nos filmes. Em 1945, Warner teria ido a um passeio no iate de Hitler, no qual teria discutido oportunidades de negócio no pós-guerra.

A MGM também pegou pesado. O lucro de empresas estrangeiras era proibido de sair da Alemanha. Então esse dinheiro ficava com as subsidiárias, sem chegar às matrizes em outros países. Quem não tinha uma filial e quisesse fazer negócio lá precisava usar seus representantes para dar um jeito, às vezes com certa malandragem nazi. Em 1938, a MGM seguiu uma recomendação dos nazistas e investiu em armamentos para a Alemanha, segundo o historiador americano Tom Doherty, estudioso do envolvimento dos estúdios com o nazismo. Para completar, Joseph Goebbels, o poderoso ministro da Propaganda alemão, teria pedido a Frits Strengholt, chefe da MGM no país, que se divorciasse de sua mulher judia. Ele atendeu o pedido e, segundo Urwand, há evidências de que a ex-esposa foi para um campo de concentração.

O mais espantoso é que não só as esposas, mas muitos dos próprios dirigentes dos estúdios eram judeus. “Assim como outras empresas americanas, os estúdios colocaram os lucros acima dos princípios”, afirma Urwand. “Mas Hollywood não era uma distribuidora de mercadorias, era uma fornecedora de ideias e cultura. Eles tinham a chance de mostrar ao mundo o que estava acontecendo. E aqui o termo `colaboração¿ adquire seu significado mais completo.” Jonathan Wiesen lembra que toda empresa sabia que o que se passava era uma guerra racial. “Esperamos que elas tivessem dito `não¿ para trabalhar para a guerra? Provavelmente sim, apesar de eu não conseguir imaginar isso acontecendo.” Tudo o que se sucedeu foi possível, em boa parte, graças aos esforços financeiros de quem via a guerra como um grande negócio, nos dois lados do Atlântico. E o que mais instiga os especialistas é que provavelmente há dados ocultos. E que, possivelmente, ainda existam muitos arranha-céus imponentes com uma velha suástica escondida em seus arquivos.

Pós-guerra – As denúncias são recentes e nenhum estúdio se manifestou publicamente a respeito.



Os vários Schindlers

O industrial alemão Oskar Schindler salvou mais de mil judeus empregando-os em sua fábrica. A história, contada no filme A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, é um dos vários casos de empresários, executivos e funcionários de grandes empresas que arriscaram suas vidas para salvar judeus no Holocausto. Conheça algumas dessas histórias:

Frits Philips – Empresário holandês salvou 400 pessoas

Viu a empresa de sua família, a Philips Electronics, virar uma gigante multinacional. Durante a guerra, ficou na Alemanha para tocar as várias unidades do conglomerado, inclusive uma que operava dentro do campo de concentração de Vught. Lá, salvou trabalhadores judeus. Virou CEO da empresa em 1961.

Berthold Beitz – Executivo alemão salvou 800 pessoas

Escondeu judeus em casa com a ajuda da mulher. Como executivo de uma empresa de petróleo, obtinha informações privilegiadas sobre ações dos nazistas, e avisava a comunidade judaica. Salvou 250 pessoas de embarcarem em um trem com destino ao campo de concentração de Belzec, afirmando que eram seus empregados. Assinou falsas permissões de trabalho para livrar judeus de outros campos. Nos anos 50, virou presidente da Krupp

Raoul Wallenberg – Empresário sueco Salvou 25 mil pessoas

Diretor de uma empresa alimentícia, trabalhou como diplomata em Budapeste. Na capital da Hungria, ocupada pelos nazistas, organizou uma rede de resgate que dava abrigo em casas protegidas pela embaixada da Suécia. Foi preso em 1945 pelos soviéticos, e morreu em 1947.

Franjo Sopianac – Industrial croata

Dono de uma empresa de petróleo, vivia com a família em Zagreb, Croácia, então sob domínio nazista. Em 1941, quando as leis antissemitas foram anunciadas e as ordens de deportação começaram, usou os prédios da refinaria para esconder judeus. Ele conseguiu várias permissões de viagem e mandou judeus à zona ocupada pelos Aliados na Itália, livrando-os dos campos.

Alfred Rossner – Empregado de indústria alemão salvou 10 mil pessoas

Administrador de uma tecelaria em Bedzin, na Polônia, que produzia uniformes para o Exército alemão, protegeu empregados judeus e cuidou dos parentes deles, para que não fossem deportados. Também abrigou vários judeus nas fábricas sob sua administração quando houve o extermínio dos guetos. Foi descoberto e preso pela SS em 1943 e condenado à morte por enforcamento.



Cláudia de Castro Lima




quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Escriba Acocorado


Charles Santérian




Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nos chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.


RUI KNOPFLI
in, O Corpo de Atena







Somos um enorme convento de carmelitas autistas





... vi sete pessoas sete à espera na paragem do autocarro, todas de olhos baixos, a picarem o seu quadradinho de plástico com o indicador, alheadas do universo. Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais.

Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo, trocando banalidades arrasadoras com criaturas e acontecimentos tão fantasmáticos quanto elas. Não se relacionam entre si: relacionam-se com silhuetas vazias, interessam-se por acontecimentos ocos, os afectos transformam-se em siglas, a ternura em bjs sem carne, meia dúzia de consoantes e de k estratégicos substituem os sentimentos e as emoções. Os corpos transformam-se em silhuetas, a partilha em frases feitas, o amor no supermercado do face book onde as pessoas se apaixonam por criaturas irreais, ou seja fotografias minúsculas e ideias sem carne, encharcando os iphones de lugares comuns patetas nos quais se sente o enorme peso de uma solidão irremediável. Tenho muito dó desses infelizes fantasmas procurando desesperadamente outros infelizes fantasmas na esperança de uma relação fantasmática que, ao fim e ao cabo, não é possível porque não se pode amar uma ausência sem espessura de gente. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, parece-me não uma criatura mas um nada falante. Não é ao artista que me refiro agora, é ao homem que tentava existir através da bebida na esperança de obter, por intermédio de um substituto do leite materno, a densidade carnal que não tinha e, portanto, os seus escritos não respiram. Fingem que respiram, num sofrimento imenso. As criaturas dos iphones não pensam, não lhes interessa pensar, interessa-lhes existir no vazio, relacionando-se com vazios tão brancos quanto os deles, procurando desesperadamente bjs sem substância. Conversam com ninguéns em diálogos de uma pobreza afectiva absoluta que é o único anteparo de que são capazes para tentarem lutar contra a depressão, porque ao princípio não era o Verbo, era a Depressão, e as nossas almas tão sozinhas, tão pobres. O que queremos de facto, o que esperamos ainda é encontrar um modo de nos acharmos menos desamparados, menos indefesos, menos perdidos, e esperamos, como crianças que esqueceram o caminho para casa, que um bj nos aponte o caminho. E não aponta porque nenhum bj se transforma em beijo, é uma metamorfose impossível. Toma o meu bj, dá-me o teu bj em troca. E ficamos cada um com o bj do outro na palma a pensar

– O que faço eu com isto?

enquanto as duas letras se dissolvem ou se evaporam num écranzinho que não responde. Na fila dos automóveis de regresso a casa ao fim do dia vemos as pessoas sentadas no carro, olhando fixamente em frente, imóveis e sérias. Se repararmos nos olhos delas estão todas mortas atrás dos olhos. Não faz mal: o iphone está aqui no bolso; em chegando a casa ligo-o e encontro outros desgraçados, tão defuntos quanto eu, à espera de um colo que não existe. Há uma ausência apenas e lá ao fundo, na cozinha, uma torneira que não veda bem a pingar no lava-loiças o ritmo angustiado do nosso desespero. Talvez um bj ajude um bocadinho a torná-lo suportável: é que somos tão pobres que nos contentamos com uma côdeazita de nada. E amanhã encontraremos na fronha algumas migalhas que sobraram. Se as metermos na boca têm um gosto a lágrimas.


ANTÓNIO LOBO ANTUNES





segunda-feira, 25 de junho de 2018

Cancion Otoñal






Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas,
pero mi senda se pierde
en el alma de la niebla.
La luz me troncha las alas
y el dolor de mi tristeza
va mojando los recuerdos
en la fuente de la idea.

Todas las rosas son blancas,
tan blancas como mi pena,
y no son las rosas blancas,
que ha nevado sobre ellas.
Antes tuvieron el iris.
También sobre el alma nieva.
La nieve del alma tiene
copos de besos y escenas
que se hundieron en la sombra
o en la luz del que las piensa.

La nieve cae de las rosas,
pero la del alma queda,
y la garra de los años
hace un sudario con ellas.

¿Se deshelará la nieve
cuando la muerte nos lleva?
¿O después habrá otra nieve
y otras rosas más perfectas?
¿Será la paz con nosotros
como Cristo nos enseña?
¿O nunca será posible
la solución del problema?

¿Y si el amor nos engaña?
¿Quién la vida nos alienta
si el crepúsculo nos hunde
en la verdadera ciencia
del Bien que quizá no exista,
y del Mal que late cerca?

¿Si la esperanza se apaga
y la Babel se comienza,
qué antorcha iluminará
los caminos en la Tierra?

¿Si el azul es un ensueño,
qué será de la inocencia?
¿Qué será del corazón
si el Amor no tiene flechas?

¿Y si la muerte es la muerte,
qué será de los poetas
y de las cosas dormidas
que ya nadie las recuerda?
¡Oh sol de las esperanzas!
¡Agua clara! ¡Luna nueva!
¡Corazones de los niños!
¡Almas rudas de las piedras!
Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas
y todas las rosas son
tan blancas como mi pena.


Federico García Lorca
in, "Antologia poética"






Tradução de William Agel de Mello:


Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?
Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como a minha pena.