terça-feira, 20 de março de 2018

PODRES PODERES





Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais

Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval

Queria querer cantar afinado com Ellis
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas
E nos Gerais?

Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo
Tins e bens e tais



Compositor: 
Caetano Emmanuel Viana Teles Veloso






                             






segunda-feira, 19 de março de 2018

Green God





Trazia consigo a graça 
das fontes quando anoitece. 
Era um corpo como um rio 
em sereno desafio 
com as margens quando desce. 

Andava como quem passa 
sem ter tempo de parar. 
Ervas nasciam dos passos, 
cresciam troncos dos braços 
quando os erguia no ar. 

Sorria como quem dança. 
E desfolhava ao dançar 
o corpo, que lhe tremia 
num ritmo que ele sabia 
que os deuses devem usar. 

E seguia o seu caminho, 
porque era um deus que passava. 
Alheio a tudo o que via, 
enleado na melodia 
duma flauta que tocava. 


Eugénio de Andrade 
in, "Poesia" 








........... a new, harmonious relationship with the universe





With our minds alone 
we can discover those principles 
we need to employ 
to convert all humanity to success
 in a new, harmonious relationship 
with the universe. 

Buckminster Fuller







sábado, 17 de março de 2018

O fio da vida


Bill Smith





Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obcessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não creem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.



Rui Knopfli
in, Mangas Verdes Com Sal





SHIVARATRI





Shivaratri, a fusão cósmica de Shiva e shakti, é celebrada na lua escura de maghaEsta união simboliza o conceito de kundalini yoga em que shiva vai encontrar-se com shakti. Representa o despertar da consciência no nível material de existência e a união com shakti no ponto mais alto da evolução. A Palavra ' Ratri ' usada aqui refere-se à ' noite escura da alma ', o estado pouco antes da iluminação. Shivaratri é considerado o dia mais auspicioso para sannyasins e para tomar sanyas diksha (Iniciação).

Ao longo da história, em shivaratri, a noite mais escura do ano, Shiva, Senhor de yogis, dirige-se para a casa de Parvati, filha dos himalaias. Shiva é o asceta; ele vem montado num touro, nu, coberto de cinzas, e coberto de cobras. O seu casamento de demónios e fantasmas, simbolizando as tendências  instintivas e animalescas de quem ele é controlador, é igualmente horrendo. Alguns não têm cabeça, alguns caminham apenas com uma perna ou talvez três. Alguns têm orelhas de elefante enormes que se mexem na brisa, outros têm um olho vermelho no meio da testa ou na barriga. No entanto, mal shiva e seus companheiros entram no reino dos himalaias de Parvati, eles são todos instantaneamente transformados em seres adoráveis com rostos bonitos, roupas finas e ornamentos brilhantes.
O mesmo instinto, torna-se intuição.
Assim, o casamento tem lugar entre grandes maravilhas, alegria e folia.
Então Shiva e Shakti vão até o topo do Mt. Kailash, que simboliza o chakra sahasrara, onde se abraçam e se fundem na mais alta felicidade da consciência cósmica.

Após consumar o seu casamento, Shiva e shakti descem juntos, simbolizando que a maior consciência está agora a manifestar-se no plano da dualidade. 
Shiva e shakti se tornam um, agora capazes de agir no mundo como dois. 
Este evento é de grande importância para a evolução de todos os seres, porque também representa o processo que acontece em cada aspirante que experimenta um despertar espiritual, e depois retorna com uma maior consciência para trabalhar no mundo.

No Tantra, Shiva representa o princípio masculino, a consciência, para lá de toda a acção e mudança. Shakti representa o princípio feminino, a evolução eterna através da acção. Ela é o negativo para o seu positivo; ele inicia, ela recebe e transmite.
Shakti é a energia criativa que o universo manifesta, que inspira a consciência de Shiva.
Nós os percebemos como dois, mas eles na realidade são os aspectos complementares do UM, pois a energia sem consciência é dissipada e a consciência sem energia é impotente.
Eles são inerentes um ao outro - tal como o brilho no sol - e a sua união é a imagem primitiva da comunhão feliz, e a consciência da unicidade através da dualidade.

No plano físico, os sábios têm mantido há muito tempo, e a ciência agora concorda, que a matéria, a consciência e a energia são Uma. A unidade básica da matéria, o átomo, é agora conhecida como um núcleo estático e positivo de energia, equilibrado por um campo de força dinâmico e negativo - a união de Shiva e shakti. 
O que se aplica ao átomo micro cósmico, também se aplica ao microcosmo que é mantido em conjunto pelo cruzamento dos campos de energia.
No Reino da psique humana, a união de Shiva e shakti é um arquétipo profundo da integração pessoal alcançada quando, através do Yoga, nós viemos para entender as forças que constituem a nossa personalidade.
Dentro de cada homem existe o ideal masculino, e ao explorar esta natureza interior, podemos passar para um modo mais rico de ser. Através do tantra exploramos o terreno escuro da mente inconsciente, concedendo reconhecimento consciente às paixões incontroláveis, impulsos violentos e fantasias irracionais, que são reprimidas no dia-a-dia da vida. Esta parte instintiva da nossa natureza, como foi simbolizada na história do início do texto pelos companheiros demoníacos de Shiva, é transformada quando nós equilibramos os opostos dentro de nós mesmos - positivo e negativo, masculino e feminino, Shiva e shakti.
Um despertar acontece, e o potencial não realizado dentro da nossa psique torna-se actualizado, revelando a nossa verdadeira natureza interior.
O que era há muito considerado monstruoso, torna-se divino.

Shiva é a eterna faculdade de consciência, a imutável e estática centelha do divino em cada um de nós. Shakti dá-nos a mente e o corpo, que são as nossas ferramentas para a percepção directa desta consciência divina.
Shakti é o poder que nos impulsiona aos picos de consciência expandida.

No plano espiritual, a união deste casal cósmico é a imagem primitiva da união feliz com o absoluto. No arrebatamento sexual esquecemos os nossos Eus isolados e vivemos um fragmento de alegria, mas isto é apenas uma amostra do êxtase eterno que dissolve a consciência individual no supremo. A União de Shiva e shakti é o símbolo primordial da comunhão eterna com o divino. Aqui não há pureza nem impureza, nem afirmação nem negação, nem forma nem sem forma, mas um estado de ser super consciente que está além de toda a dualidade. A União de homem e mulher torna-se a união de Shiva e shakti; a união física torna-se a união psíquica no mais alto estado da consciência transcendental. O homem e mulher comuns, as criaturas da paixão e da ignorância, são transmutadas nos transcendentais Shiva e Shakti, incondicionais e livres.

Hoje muitas pessoas perguntam-se como podem elevar o seu nível de consciência para que esta união cósmica se torne uma realidade nas suas próprias vidas. 
Para o fazer, devemos primeiro perguntar-nos:
Qual é o nosso verdadeiro propósito na vida, qual é a nossa necessidade básica? 
Precisamos de mais prazeres sensuais, ou precisamos de encontrar um modo de vida mais elevado, mais simples e mais gratificante? 

Claro que existem diferentes tipos de pessoas. 
Alguns são completamente sensuais e são atraídos para o mundo, a fim de realizar inúmeros desejos e ambições.
Outros são mais moderados, e vivem uma vida equilibrada, sendo capazes de integrar os seus sentimentos e percepções internas com experiências sensuais externas. 
Depois há aqueles cujos desejos sensuais são marginais, os que esgotaram as suas ambições terrenas, e que são mais atraídos para a vida espiritual.
Para aqueles que basicamente procuram um modo mais elevado de existência, o caminho de sannyas oferece a rota mais direta para a realização interna real. Mesmo para aqueles que são moderadamente e totalmente sensuais, sannyas oferece um caminho mais amplo para a vida, acabando por culminar na maior experiência de libertação e harmonização com todo o cosmos.

A maioria de nós tem muitos desejos e ambições. 
Estes em si não são maus, mas quando fazemos do seu cumprimento o nosso único propósito na vida, perdemos a nossa direcção divina. 
É neste ponto que a vida se torna uma existência superficial cheia de frustração, insatisfação e infelicidade. Pessoas que estão sempre a procurar fora de si por prazer e contentamento nunca o encontram. É por isso que ninguém está satisfeito. Onde você vai, você acha que o marido está cansado de esposa, a esposa é infeliz com o marido, os pais estão fartos dos filhos, os filhos não ouvem os pais. Ninguém está feliz com o seu trabalho, os sindicatos estão em greve, os estudantes odeiam a escola, as mulheres já não querem ficar em casa. Nunca há dinheiro suficiente para pagar todas as contas, a casa é muito pequena, o carro é muito velho, as roupas fora de moda. Mesmo a nível nacional, as pessoas nunca estão satisfeitas com os dirigentes políticos e os regimes governamentais, a tributação é demasiado elevada e os fundos governamentais estão a ser desperdiçados.

Em nenhum lugar é possível encontrar qualquer satisfação, qualquer paz neste mundo. Por conseguinte, temos de fazer a nossa própria paz, a nossa própria vida mais elevada, mais simples e satisfatória, e o sannyas é o caminho.
Não é necessário ser um asceta para renunciar aos estreitos limites da vida pessoal e assumir o caminho amplo que engloba toda a humanidade.
O Sannyas não é apenas para aqueles que esgotaram os seus desejos, é a chave para uma vida mais completa.
É o caminho universal em que podemos cumprir a nossa necessidade básica de expandir a nossa experiência e consciência da vida, trabalhando no mundo para a evolução de todos os seres.
De facto, este é o único caminho verdadeiro para a paz e a satisfação, especialmente para os jovens que são os mais inquietos e insatisfeitos de todos.
Esse tempo não estará longe quando vermos milhares de jovens a realizar os seus sonhos frustrados através do sannyas.


Swami Satyananda Saraswati



"Being able to integrate inner feelings and perceptions with external sensual experiences"
Analisar esta frase na perspetiva não dual da filosofia tântrica, em relação ao propósito maior da fusão entre shakti kundalini com Shiva.
Que significa estarmos disponíveis para acedermos à energia do espirito em integração com a da matéria, isto é, vivermos para nos auto conhecermos, termos a capacidade para nos auto percepcionarmos e sentimentos/pensamentos nobres (como Shiva quando está a meditar em consciencia) mas ao mesmo tempo não descurarmos o prazer que é viver, o desfrutar do corpo, dos sentidos, da arte, da criatividade, do eros e do amor (como Shakti quando está a dançar e a manifestar neste plano).
Para sermos inteiramente realizados, ambas as abordagens casam-se.
Rita Évora Ferreira



Osho a respeito do Sannyas:

“Olhando a vida do ponto de vista da auto-ignorância é sansara, o mundo. 
Olhando a vida do ponto de vista do auto-conhecimento é sannyas.

Portanto, sempre que alguém me diz que recebeu sannyas, a coisa toda parece muito falsa para mim. Este 'receber' o sannyas cria a impressão de que é um ato antagónico contra o mundo. Pode o sannyas ser tomado? Pode alguém dizer que ‘recebeu’ o saber? E um saber que possa ser tomado desse jeito ser um verdadeiro saber?
Um sannyas que é recebido, não é sannyas.

Você não pode se cobrir com um manto da verdade. 
A verdade tem que ser despertada dentro de você. O sannyas nasce. Ele chega através da compreensão e com tal compreensão nós vamos sendo transformados.
Na medida em que a nossa compreensão muda, a nossa visão muda e o nosso comportamento é transformado sem qualquer esforço. O mundo permanece onde ele está, mas o sannyas gradualmente nasce dentro de nós. Sannyas é a consciência de que ‘Eu não sou apenas o corpo, eu também sou a alma.’ Com este saber, a ignorância e os apegos dentro de nós são abandonados. 
O mundo estava do lado de fora e ele ainda continua lá, mas dentro de nós haverá uma ausência de apegos a ele.
Em outras palavras, não haverá nenhum mundo, nenhum sansara dentro de nós.”


Osho
in, The Perfect Way







quinta-feira, 15 de março de 2018

Circe





It was easy enough
to bend them to my wish,
it was easy enough
to alter them with a touch,
but you
adrift on the great sea,
how shall I call you back?

Cedar and white ash,
rock-cedar and sand plants
and tamarisk
red cedar and white cedar
and black cedar from the inmost forest,
fragrance upon fragrance
and all of my sea-magic is for nought.

It was easy enough -
a thought called them
from the sharp edges of the earth;
they prayed for a touch,
they cried for the sight of my face,
they entreated me
till in pity
I turned each to his own self.

Panther and panther,
then a black leopard
follows close -
black panther and red
and a great hound,
a god-like beast,
cut the sand in a clear ring
and shut me from the earth,
and cover the sea-sound
with their throats,
and the sea-roar with their own barks
and bellowing and snarls,
and the sea-stars
and the swirl of the sand,
and the rock-tamarisk
and the wind resonance -
but not your voice.

It is easy enough to call men
from the edges of the earth.
It is easy enough to summon them to my feet
with a thought -
it is beautiful to see the tall panther
and the sleek deer-hounds
circle in the dark.

It is easy enough
to make cedar and white ash fumes
into palaces
and to cover the sea-caves
with ivory and onyx.

But I would give up
rock-fringes of coral
and the inmost chamber
of my island palace
and my own gifts
and the whole region
of my power and magic
for your glance. 



Hilda Doolittle





Que Economia é esta?????





"A economia tornou-se a grande preocupação dos humanos. No interesse da economia, eles sentem-se obrigados a correr, a viver uma vida agitada, porque é preciso produzir cada vez mais para vender cada vez mais e comprar cada vez mais... E todos os que não são considerados suficientemente “rentáveis” são eliminados.

Mas que economia é esta, na qual se acha normal sacrificar os humanos? Ela torna-se cada vez mais florescente, isso é verdade, mas, com isso, os humanos estragam o seu sistema nervoso, e não é só o seu sistema nervoso que sofre, mas também o seu coração, o seu estômago, os seus pulmões, pois toda essa atividade, toda essa produção e todo esse consumo acelerados geram uma poluição que envenena a atmosfera, os mares, as florestas, a água, a terra, os alimentos, etc.
Aonde é que está a inteligência?
Aonde é que está a razão?

Uma “economia” que esbanja, que desperdiça, que suja, que destrói, será a verdadeira economia?"


Mikhael Omraam Aivanhov





quarta-feira, 14 de março de 2018

Pedra no caminho


Tommy Ingberg





Toma essa pedra em tua mão,
toma esse poliedro imperfeito,
duro e poeirento. Aperta em
tua mão esse objecto frio,
redondo aqui, acolá acerado.

Segura com força esse granito
bruto. Uma pedra, uma arma
em tua mão. Uma coisa inócua,
todavia poderosa, tensa,
em sua coesão molecular,
em suas linhas irregulares.

Ao meio-dia em ponto, na avenida
ensolarada, tu és um homem
um pouco diferente. Ao meio-dia
segurando uma pedra. Segurando-a
com amor e raiva.


RUI KNOPFLI
in, Reino Submarino




Galaxy Cluster





This newly released detailed simulation of the current state of the universe's large scale structure is centered on a large galaxy cluster and was created as part of the Illustris simulation. The distribution of what is thought of as "dark matter" is shown in blue and gas distribution is in orange over a region which is about 300 million light-years across. 
This image also resembles a neural network, root system, mycelial network, the internet's structure and the patterning of the construction of modern cities. We are the universe learning about itself...
Nassim Haramein




segunda-feira, 12 de março de 2018

Mulher Amor






Diz-me mulher de asas redondas quais os segredos do teu corpo. 
Fala-me dos teus mais íntimos desejos, 
da vertigem da busca, 
dos socalcos da vida. 

Conta-me do que te falta no teu sentir. 
As minhas mãos serão tuas sempre que o desejares. 
As tuas mãos guiarão as minhas pela tua pele até ao fim de tudo. 

Amante, mulher, heroína das noites encontradas. 
Também mãe, colo meu, meu suor, minha luz, meu cordão. 
Assim te percorro, assim me percorres. 
Um diálogo silencioso. 
Um reaprender a viver. 
Um sonho escrito numa lousa. 
As teclas de um piano sem som. 
O adormecer num fetal aconchego. 

Amar uma mulher sem nome e chamar-lhe: Amor. 
Gritar a toda gente que aquela é a mulher que amamos. 
Ter uma cama. 
Incensar com o perfume das deusas o nosso caminho. 
Sentir o calor de todos os sentimentos. 
Amar.


JORGE C. FERREIRA
in, À SOMBRA DO SILÊNCIO






Aprender a Arte do Silêncio





“Que as grandes fortunas foram feitas em silêncio e a velha guarda dos bilionários às vezes é flagrada até viajando numa classe económica. Não sei porquê, mas boa parte dos homens mais ricos que conheci tinham a camisa meio surrada e, quando tinham avião, sempre era em sociedade com amigos. E jamais entraram num Ferrari ou sabem o que é um camarote de boate. A não ser que tenham sociedade na boate, é claro.
Um dia, perguntei a um poderoso amigo Francês por que os ricos de sua terra eram discretíssimos em relação ao dinheiro, a ponto de jamais tocar no assunto e levar uma vida de classe média.
Num surto de sinceridade, meu amigo, cujas filhas só ficaram sabendo aos 30 anos que o pai tinha um avião, disse: ” Tão perigosa quanto a inveja é a capacidade de o ser humano achar que chegou ao topo. Quando ele acha que pode tudo, começa o fim.” 
 
Bruno Astuto 



Minha avó já dizia, contra a inveja, o silêncio.
Ninguém precisa saber da sua vida, das suas conquistas, dos caminhos que pretende seguir, dos tombos, fracassos, enfim, da sua rotina. Você não deve explicação à ninguém.
Não precisa sair por ai gritando a felicidade ou reclamando no facebook, viver a sua vida, já está de bom tamanho. Ninguém é feliz e tão bem sucedido como no facebook.
Você não precisa fazer propaganda da sua vida numa rede social para dizer que é melhor do que o outro. Ninguém é melhor do que ninguém, o dinheiro faz (de conta) que umas pessoas são melhores que as outras, quanto engano.
Uma meta para este ano: Ficar mais em silêncio.
Tenho a péssima mania de contar algumas conquistas e coisas bacanas para os outros. Mesmo sendo bem seletiva, descobri como poucas que a inveja não tem nome ou sobrenome, vem de quem a gente menos imagina.

Além do silêncio, a outra meta é fazer coisas acontecerem, sem ninguém perceber. 
Como já disse e repito, não conte a sua vida para ninguém e verá como será feliz.

É Bruno Astuto, se tem uma frase que marcou a minha vida e vai ser levada à risca agora em diante é essa:
” Tão perigosa quanto a inveja é a capacidade de o ser humano achar que chegou ao topo. Quando ele acha que pode tudo, começa o fim.”

Pés no chão, boca fechada, olhar para frente e coração-bussola. 
Se a gente tem isso e saúde, não há mal que sempre vença.



Juliana Manzato 






quinta-feira, 8 de março de 2018

Mulher Pássaro





Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave


Vinicius de Moraes






Ser Mulher vs Ser Feminina






Num tempo em que cada vez mais se fala em energia, já não faz muito sentido falar do papel da mulher na família, como mãe, como matriarca ou sequer do seu papel na sociedade, seja dentro do casamento seja no seu papel activo como contribuinte e participante da sociedade numa qualquer empresa.

Desde os anos 60 que se discute o feminismo tanto no seu lado positivo como no seu lado negativo. Se por um lado equilibrámos direitos, resgatámos regalias e reclamámos igualdades perante os homens, por outro perdemos a nossa capacidade de estar perto dos filhos e de cultivarmos a nossa comunidade onde se partilham histórias, onde se criam vínculos, onde nos sentimos apoiadas pelas outras mulheres da nossa “tribo”. Perdidas num mundo de homens, longe da toca que seria o abrigo da nossa Alma, sem espaço de qualidade para o sentir e respeitar o mundo interior, acabamos por nos sentirmos sozinhas, frustradas e cansadas por andarmos a lutar uma luta desigual.

Sim, hoje podemos votar, temos a liberdade de fazer o que queremos, temos os mesmos direitos e regalias que os homens e de um ponto de vista terreno, foi um imenso passo, uma conquista importante que nos deu um modo de viver aparentemente mais equilibrado.
Do ponto de visto energético, emocional e espiritual, temos ainda muito trabalho pela frente…

Passo a explicar.
Do ponto de vista físico, o corpo masculino e o corpo feminino são apenas manifestações físicas das energias femininas e masculinas presentes em tudo o que existe. O célebre circulo do Yin e Yang não é mais do que o símbolo do equilíbrio entre a energia Yin (feminina) e Yang (masculina). Tudo o que existe pode ser dividido desta simples maneira. O Sol e a Lua, o dia e a noite, Marte e Vénus, a alegria e a tristeza, o positivo e o negativo, o Ar e o Fogo, a Terra e a Água, Acção e Emoção, enfim .. é uma lista interminável onde podemos arrumar practicamente tudo o que existe.

A ciência revela-nos hoje com alguma segurança que tudo o que existe é energia.
Para definir os conceitos de Feminino e Masculino vou dar apenas palavras chave:

Energia Feminina: Elementos Terra e Água, sentir, noite, passividade, interior, intuição, fragilidade, sensibilidade, centro, força interior, vulnerabilidade, emoção, nutrir, cuidar, Vénus, prazer, desfrutar, Lua.

Energia Masculina: Elementos Fogo e Ar, acção, dia, actividade, exterior, busca, força, coragem, brilho, ego, força exterior, resistência, arrogância, Marte, agir Sol.

Seja a mais frágil, insegura e medrosa das mulheres, seja o mais corajoso, forte e agressivo dos homens, todos nós temos dentro numa muito especifica fórmula, energia masculina e energia feminina. O desafio? O equilíbrio. 
Ninguém admira ou se inspira num homem que apenas representa a força, a agressividade, a acção e a coragem da mesma maneira que ninguém respeita uma mulher que vibra apenas no sentir, na fragilidade, na passividade e na intuição.
Aqueles que realmente nos inspiram são só que já conseguiram um determinado grau de equilíbrio entre as duas energias.

Sabendo agora as palavras chave de cada energia, facilmente chegamos à conclusão da energia predominante no mundo em que vivemos, certo?

Ou seja, a partir do momento em que a mulher, representante da energia feminina e da (sobre)vivência da mesma no mundo, vive sujeita ao excesso de uma qualquer energia masculina ou simplesmente abandona as suas características para passar a competir com a energia do homem, tentando a todo o custo provar que consegue ser igual a ele, criou a um nível global, todo um desequilíbrio energético. Numa sociedade patriarcal, gerida maioritariamente por homens e orientados por um Deus Pai, homem também, estamos hoje a viver as consequências desse abandono na violência e excesso de agressividade do mundo, dentro de nós, entre nós, contra a Mãe Natureza em que descartámos quase por completo as características essenciais ao equilíbrio da energia feminina.

Como disse antes, este desequilíbrio está a acontecer dentro de todos nós e não só das mulheres. 
Por isso, e como reacção contrária energética, nunca antes vimos tantos homens com qualidades femininas, muito mais sensíveis, frágeis e passivos numa busca inconsciente por esse invisível equilíbrio.
Quem sabe não serão os abusadores de vidas passadas que vêm agora em busca do equilíbrio?

O mundo não precisa de mais mulheres a competir com homens.
O que o mundo precisa é de mais representantes dessa bela energia feminina do amor, do cuidar, do sentir, do tocar... Mais do que provas de força exterior e egóica, o mundo precisa sim de força interior e humildade.

Para todos, em especial para as mulheres, que este dia seja um tempo de reflexão, de consciência, de respeito e de resgate do que temos de mais belo dentro de nós…



Vera Luz



quarta-feira, 7 de março de 2018

A DEFESA DO POETA




Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Natália Correia
in, Poesia Completa





Percepção Vigilante


Olho - zoom




Percepção, observação, atenção, vigilância, posição do observador... 
Estas palavras denotam as mesmas coisas.
Ser vigilante significa viver conscientemente ao longo do dia, da semana, do ano, ou para toda a vida. É uma constante percebermos nossa situação, nossas sensações, pensamentos e ações.

Por exemplo, enquanto eu caminho pela rua posso perceber o ar a minha volta, pássaros cantando, outras pessoas, meus pensamentos, minha respiração, meu corpo, meus passos. Quando me alimento, sei o que estou mordendo e deglutindo. Quando corro, posso sentir minha respiração e o caminho por onde corro e onde meus pés pisam.
Alguém pode dizer : “Eu também sei que estou indo a uma loja ou para o trabalho e sei o que estou fazendo”. Entretanto, não é tão simples assim.
Quantas vezes já lhe aconteceu de ter trancado a porta e retornado para certificar-se que a havia realmente trancado? Naquele momento, você estava pensando em algo completamente diferente e não estava percebendo tudo o que estava fazendo.
Quantas vezes você procurou por alguma coisa da qual não se lembrava onde havia deixado? Isso não acontece se a pessoa for uma pessoa vigilante, pois uma pessoa vigilante sabe que ela está virando a chave ao trancar a porta. Então esta pessoa não precisa procurar pela chave porque ela está consciente de onde a guardou.

Vigilância é atenção permanente.
Quando estamos vigilantes, não nos fundimos com as coisas. Estamos em uma posição de observador.


A MENTE
Nossa mente trabalha por si própria, sem nosso controle. Você não acredita nisso? O que você faz quando vai a algum lugar, ou quando senta em seu carro? Você fala consigo mesmo. Todo o tempo, durante todo o dia, toda a vida, antes de dormir; e pela manhã imediatamente após acordar, você entra novamente no mesmo carrossel. O resultado é que você acaba não aceitando uma opinião diferente da sua e muda a engrenagem para a forma estereotipada. A mente de uma pessoa assim imediatamente condena ideias diferentes, música, estilo de vida, comida, ou um programa de TV. “Eu não gosto desta música”, diz alguém sem sequer ouvi-la. A mente interfere imediatamente e a pessoa definitivamente condena qualquer coisa que não corresponda à sua convicção.

Continuamos pensando sobre o passado; justificamos nossos atos e procuramos por alguém que nos apoie em nossas justificativas. Isso porém não colocará nossos atos sob uma luz melhor. Somente nos sentimos bem quando alguém concorda conosco e nos defende. Já escutei muitas vezes: “Eu lhe disse para não interferir. E então, imagine, começou a gritar comigo”. E queremos que nosso ouvinte nos diga que fizemos o certo. Nós frequentemente escutamos a nós mesmos e nossa mente é nossa confidente e justificadora.


PENSAMENTO E PERCEPÇÃO
“Pessoas comuns percebem tão pouco que acabam esquecendo que existe uma diferença entre o pensar e o perceber. Esqueceram-se a ponto de acharem que aquilo que pensam é o que percebem. Projetam seus pensamentos a uma realidade externa e assim, continuamente, afastam-se da realidade, substituindo-as por seus pensamentos”.
Victor Sanchez

Pensar não é perceber.
O pensamento humano é focado no mundo externo de onde extrai situações encontradas individualmente e então continuamente as revê, anexando-se novamente a elas. Além do mais, a mente muda a realidade experimentada e pára de perceber o mundo como é, substituindo-o por seus próprios pensamentos. Ainda conversamos conosco sobre nossa vida, quer seja sobre o que fizemos, justificando nossas atitudes, sentindo-nos ofendidos, ou quer criando nossas preocupações. Pensar é parte do nosso ego. Mantemos nossas ideias sobre nós mesmos e sobre este mundo sempre moldadas pelo nosso pensamento.

Na percepção vigilante ou na meditação, uma pessoa volta-se para seu próprio interior, sua consciência. Esta pessoa pode ver a realidade externa sem limitar-se a ela ou identificar-se com ela. A meditação ocorre em qualquer lugar e em qualquer momento. Então por que deveria estar restrita a determinado momento do dia, posição do corpo e com os olhos fechados?


O MOMENTO PRESENTE
Passado, Presente e Futuro – isto é o tempo.
Vivemos em um mundo que não é estável. O cronómetro nunca pára. Algumas pessoas adivinham o futuro, outras pensam sobre seu passado e avaliam suas ações pensando todo o tempo: “Será que eu devo fazer isso?”, “Eu não deveria ter ido lá”, “Eu deveria ter contado a ele”, “o que pensei sobre isso”, “Ontem eu estava no jardim”.
Todos os pensamentos estão concentrados no passado ou no futuro, não permitindo que nossa mente se foque no presente. 
Entretanto, o presente é o único momento que podemos influenciar.

Existe um grande segredo neste pequenino, tão curto momento, entretanto.
Por que devemos lidar com nossos atos do passado e por que devemos justificá-los? Eles não podem ser mudados; somente podemos aprender com eles. E o futuro? Tampouco nos pertence. Poderemos não estar mais aqui no próximo segundo. As preocupações diárias que as pessoas criam são inúteis, porque amanhã poderá ser completamente diferente.
Então vocês dizem a si mesmos que se preocuparam tanto, mas a situação acabou sendo diferente e que suas preocupações de ontem foram mesmo inúteis. E o Presente? É imperceptível pela mente. Quando a mente começa a lidar com ele, já é Passado. 
Você consegue compreender?
Ah, agora entendo... Agora, neste instante, ISTO!
Agora e o que? ISTO – mas já se foi...
O Presente é sempre novo.


PARA QUE SERVE AFINAL?
Assim, você reconhecerá a você mesmo, seus pensamentos, atitudes; descobrirá suas rotinas e ganhará conhecimento a partir dos hábitos de outras pessoas. Você se libertará de seus preconceitos e falsos caminhos, porque você poderá enxergar. Você terá habilidade para enxergar o lado interior das pessoas; perceberá suas fraquezas e intenções. Não desperdiçará suas energias e não ficará preocupado ou zangado. Permanecerá em paz e tranqüilo. Nada poderá tirar seu equilíbrio.
Ao transferir a vigilância para o seu sono, você poderá entrar no limiar dos sonhos vigilantes. Você não terá mais a impressão de ter “desperdiçado tempo” em várias situações. Começará a notar com prazer pequeninas coisas e se encantará com elas. Até mesmo uma folha caindo de uma árvore o fará feliz. Sentirá a liberdade e muitas outras coisas também.

A Vigilância tem me proporcionado mais do que quaisquer outras possíveis teorias, livros, opiniões e discussões. É a experiência do “ser” que pertence somente a você (é muito difícil colocar em palavras).


COMO COMEÇAR?
Praticá-la é realmente simples. Sinta e observe tudo a seu redor, o máximo que puder, tente focar naquilo que esteja vivenciando, percebendo, pensando, conversando, etc.

É possível começar agora mesmo: seus olhos seguem cada linha deste texto. Sinta onde você está sentado e qual a posição do seu corpo, suas mãos, sua respiração, e tudo o que está a seu redor. Sossegue seus pensamentos e esteja o mais atento possível. Leia o texto e tente percebê-lo. Enquanto escrevo estas linhas, eu percebo como meus dedos deslizam pelo teclado; como vejo o monitor, e sinto a posição do meu corpo e o som do universo ambiente.

O mais fácil (relativamente) é caminhar pela rua e tentar ser vigilante somente por um instante, mas até o momento que você se aproxime de seu destino, a somente alguns passos de distância. Você verá que não é tão simples assim. Então, torne-se consciente de pequenas atitudes como calçar os sapatos, entrar no carro, etc. Ao aproximar-se de alguém e iniciar uma conversa, tente também ser vigilante. Pronuncie as palavras claramente e sem pressa – faça-o com consciência. Você sentirá uma mudança no horizonte, ao comparar com sua conversa normal, quando você diz tantas palavras inúteis. Então você pode tentar qualquer coisa que venha a sua mente: comer vigilantemente, caminhar, ler, assistir TV, fazer compras. Você não precisa dizer: “Agora estou sentado, agora estou caminhando, agora estou respirando” – isso funciona também sem pensar, somente fazer.

No início, é muito difícil permanecer como um observador por um longo período de tempo.
Com o tempo, será mais fácil, mesmo em situações mais duras. Com o tempo, manter a atenção será automático. E então, manter a vigilância se tornará uma parte óbvia e natural de você. Você até ficará surpreso do porquê as pessoas não observarem isto.

E agora, ao fim deste parágrafo? Você ainda está vigilante? Sente sua respiração e a posição de seu corpo?


VIGILÂNCIA E RESPIRAÇÃO
Observar sua respiração é uma das ferramentas mais poderosas que podem ser utilizadas para acalmar sua mente. Não é necessário alterar seu ritmo; você não precisa fazer nada. Entretanto, ao observar sua respiração, você a aprofunda um pouco. À medida que percebo minha respiração – inspiração e expiração – depois de um tempo sinto que esta respiração tornou-se meu purificador. Meus pensamentos tornam-se menos pesados e a atenção fica mais acurada a cada inspiração, como se uma brisa estivesse soprando dentro de mim.


VIGILÂNCIA AO CAMINHAR
Sempre estamos caminhando. Caminhamos todos os dias. Caminhamos até o banco, até o restaurante, até uma loja, até o cinema. Caminhar tornou-se uma atividade automática. Para chegarmos a algum lugar nós caminhamos, nossos passos têm sempre um destino. Muitas vezes nem sequer sabemos em quais lugares estivemos e o que vimos no percurso do nosso caminho. Nossa mente está ocupada com o pensar. Entretanto, é o caminhar que pode nos levar às mais lindas das meditações. É simples. É o suficiente apenas caminhar e olhar ao redor, permitir influenciar-se pelo ambiente, tranquilizar sua mente, aprofundar sua respiração e simplesmente ser. De repente, você percebe que gosta de caminhar. Você não precisa ter um destino certo; caminhar simplesmente pelo ato de caminhar – o mais bonito de todos. Se você está atento durante sua caminhada, você poderá sentir energia e conforto. Seus passos serão diferentes. As pessoas a sua volta também sentirão. Onde quer que você vá, sua caminhada será como uma caminhada em um bosque – uma caminhada em paz. As pessoas a sua volta dirão: “Hoje aquela pessoa está tendo um bom dia”. Entretanto, você não terá um dia melhor, todos os seus dias serão agradáveis.

Certo dia, eu experimentei caminhar sem destino. Era Outono e folhas coloridas caíam das árvores; o vento brincava comigo. Eu observava minha respiração, as cores, e as folhas pairando no ar. Depois de algum tempo, encontrei um homem. Ele parou e me perguntou: “Aonde você vai com este tempo?” “Vou caminhar no bosque”, respondi. “Mas, por que está indo para o bosque? Nesta época do ano, não há mais cogumelos para apanhar”. É uma pena pensarmos que o ato de caminhar tenha que ser feito sempre com algum propósito definido.


ALGUNS CONSELHOS
Não tente lutar com seus pensamentos. 
A luta com eles os deixará mais fortes.
Se quiser enfraquecê-los, concentre-se na sua essência interna e perceba o mundo ao seu redor sem julgá-lo. É importante começar seu dia tranquilizando seus pensamentos. Tente ser vigilante em todas as situações. Entretanto, no início, é mais fácil estar vigilante quando você está sozinho, por exemplo, durante sua caminhada e outras atividades simples.
No início, é difícil praticar a vigilância quando você conversa com outras pessoas e quando você está em situações intensas. Mais tarde, torna-se uma experiência muito bonita.
É mais fácil começar pela manhã do que tentar sustentar sua atenção no meio do dia.
Se estiver cansado, ou em uma situação maçante e tenha problemas para permanecer vigilante, mude esta situação, ou faça alguma coisa diferente.





in, Na Luz da Verdade 
Abdrushin





segunda-feira, 5 de março de 2018

Adão e Eva


Mariya Andriichuk




1

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para, depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

2

E, além de feliz, era a nudez
encontro de surpresa e de substracto
- dentro palpites de sinais, e até
intento a consumar o corpo, em estado
de o espírito iluminar a tez
que também se enriquece à luz do tacto.
Ou a surpresa é dar-se o estar a ser
com o dentro a difundir o seu espaço
num paraíso de animais que vêm
ao encontro de serem nomeados.

3

E tudo encontra na evidência o nome.
A recente nudez da novidade
traz o enigma do que vem de longe
sem reserva qualquer nele entregar-se.
Ou cada coisa do seu dentro rompe
perpetuamente àquele feliz instante
em que estarem a vê-lo lhe recolhe
estar a ser. Com todo o ser em fase.


E, enfim, era a nudez, corpo visível
onde, invisível, se ajustava o acto
de olhar. Não para enclausurar limites,
ou reduzir o que se estava dando.
A nudez recrudescia. A abrir-se
com a frequência a exceder o impacto
da visibilidade. E assim o timbre
da sua luz estimulava o ângulo
que a sagrava num espaço inextinguível.
E tinha o pulso de animal sagrado.



Fernando Echevarría





Os Quatro Medos Básicos


Kirill Voronstov




A escala emocional mostra-nos a viagem do medo para o amor. 
Até chegarmos ao amor máximo e incondicional, o medo irá sempre fazer parte da equação em todas as situações. Não há como evitá-lo ou fingir que não existe pois ele é afinal, o grande teste que a alma vem superar. Ou seja, é a conquista do medo que nos permite subir mais um pouco rumo ao amor.

Porque não nos ensinaram que o medo é para ser superado, vivemos seus prisioneiros. 
Vidas inteiras inconscientemente condicionadas para nos mantermos ilusoriamente seguros, falsamente poderosos e iludidamente protegidos, verdadeiras teias de aranha emaranhadas e pegajosas dificílimas de nos libertarmos delas. São poderosos os infinitos e deprimentes esquemas e jogos que fazemos para evitar enfrentar o medo.

A partir do momento em que o medo se apodera da nossa mente, iremos enfrentar os mais variados esquemas de sobrevivência que nos irão impedir de seguir viagem rumo ao amor.
Através da dúvida, da descrença, do pânico, do stress, o medo irá congelar-nos e impedir a nossa evolução.


Embora sejam infinitos os medos dentro do ser humano, eu tenho observado ao longo dos anos serem 4 os que estão na raiz de todos os outros. 
Trabalhando estes 4, acredito que muitos outros se irão dissolver por si:

Medo de não ser aceite por quem sou. 
Mostro a alma e atrevo-me a ser quem sou ou vivo para alimentar a máscara e viver a altura das expectativas dos outros?

Medo de perder segurança que normalmente gera apego a bens materiais ou pessoas.
A segurança interior é um estado de ter ou um estado de SER?

Medo da rejeição e solidão tanto romântica como social.
É mais importante a ilusão do “juntos para sempre” ou investir na autonomia emocional e no amor próprio?

Medo de não encontrar sentido para a nossa vida.
É mais importante ter sucesso profissional ou resgatar os anseios da nossa alma e evoluir espiritualmente?



O medo alimenta-se principalmente da nossa cobardia, da nossa inconsciência, ou seja da nossa ignorância quanto ao papel que ele representa na nossa evolução. Acredito que todos nós temos muitos ramos em cada um destes medos básicos, que depois se escondem nas nossas rotinas e condicionam a nossa liberdade de festejarmos a vida. Mas tal como a árvore, se acabarmos com a raiz, todos acabam por morrer.



Como restaurar então a raiz da nossa árvore para que ela viva apenas de amor, fé e coragem? Investindo nas energias capazes de superar o medo; a coragem, a sabedoria e a responsabilidade. Só a partir destas posturas poderemos então afirmar:

Eu aceito-me como sou, valorizo os meus talentos e celebro a minha diferença. Rodeio-me de quem me aceita e faz sentir bem e rejeito quem me rouba energia e coloca o meu equilíbrio em causa.

Eu sou responsável pela minha segurança interior cuidando com respeito das minhas emoções e também da minha independência material.

Eu sou um ser completo e maravilhoso e não dependo de ninguém para me sentir completa ou feliz pois essa é uma responsabilidade minha.

Eu tenho a liberdade de ser quem sou e de seguir o coração e o que me faz sentido, rejeitando abafar-me atrás de papéis variados, status social ou poder financeiro.


Procura em cada área da tua vida em que estado está cada um destes medos assim como os esquemas que te mantêm preso a ele.
Reforça dentro de ti que tens o que precisas para mudar a tua vida e enfrentar os teus medos, começando primeiro com a mudança interior de os veres como um adversário a enfrentar e não como algo a evitar.

Questionar a nossa vida e predispormo-nos a enfrentar os nossos medos para sermos quem somos é um acto de coragem que por vezes espera anos ou mesmo vidas para acontecer. É o momento mágico em que finalmente dizemos corajosamente, eu enfrento os meus medos com coragem porque mereço chegar mais perto da luz. É precisamente da perspectiva da luz que iremos perceber como o medo afinal era ridículo!



Vera Luz




quinta-feira, 1 de março de 2018

Photograph Printed With Hatch-Marks Or Lines Across The Portrait





Some photographs invent a method of fiction, a illogical trying
to think differently history. The true aim of archives is:

a complex, relating, narrating voice and rare versions of what
happened, actuality of actuality. This requires a plastic mind.
Archives of photographs create a direct category linked to the
culture of written history, along with the premise of what may
have happened, spread over the course of images that exist in
two different temporal dimensions, i.e. when the photo was
made and when we see it.

These opposed logics disfigure the true act - the incidental fact
that this did exist - morphing the two times into one
simultaneous reality where temporality remains to say this:
what did exist may still exist. I think the living know this or else
will come to know it when they look at this photograph.


Mary Jo Bang
in, A Doll for Throwing: Poems