domingo, 24 de julho de 2022

Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

 





O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontaneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno..., coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje... nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito. Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu...; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita. 

Fiodor Dostoievski
in, "Diário de um Escritor"




quinta-feira, 21 de julho de 2022

....................... my own family didn't support me

 


Tale of a Former Black Sheep


Rob Tol







For years I wore
your shame as my own
and lived unknown
in terror of being seen
like a leper
self-quarantined
intrinsically unclean

Your neglect
became to me
my insignificance
undeserving of your glance

Your abuse
became to me
my fault and utter blame
my soiled but rightful name 

Your abandonment
to me
was my unworthiness
unfit and valueless

'Til this layered shame became
a camouflaging cloak
wrapped about with care
disguising me as if
I wasn't even there

How I avoided them
my friends so true
for they could plainly see
the agony in me
and I couldn't control
it radiating through

Yet butterflies won't stay bound
in crippling cocoons
integrity impugned
by wings that cannot fly-
and I at last have found
the answer to my wounds
in exposing you
and all your lies

You were cruel-
I do matter

You were guilty-
I am not to blame

You were unfit-
I am worthy

You nearly destroyed me-
But I overcame

Now my only dread is
of leaving this world
as un-notably as I came
as invisibly as I lived
to be known only 
by others
as unredeemed as
you thought me to be-
No! the truth
will set me free...

I humbly give
this cloak to you
it was yours to wear
not mine to share

I'm through

I'm through

I'm through.


Rhona McFerran 




A Viagem da Ovelha Negra






O fenómeno da Ovelha Negra 
é bem real,  
não estamos a fazê-lo sozinhos e, 
este caminho 
não é para fracos de espírito! 



Esses são fáceis de encontrar pois estão algures presos a um qualquer rebanho social, familiar ou profissional, seja a dominar ou a ser dominados, em profundo estado de ilusão, irresponsabilidade e inconsciência tanto pessoal como espiritual. 

Aliás, onde há dependência, drama, toxidade, cobrança, violência, há rebanho e as suas típicas violências e projeções.
Onde há silêncio, trabalho, autonomia, solitude e responsabilidade pessoal, há uma Ovelha Negra que se cansou e se comprometeu em trilhar um novo caminho e a não compactuar mais com os dramas do velho rebanho.

Mas se a mente percebe bem o fenómeno e até o aceita e facilmente escolheria pelo sentido que ele faz e pela oportunidade de cura que ele oferece, as emoções não seguem à mesma velocidade e precisam de mais tempo para processar as dores que essa corajosa escolha acarreta ao longo do caminho:
  • Sensação de solidão - pela primeira vez em séculos, provavelmente, não vais sentir apoio, não vais poder depender de ninguém. Mas vais descobrir que consegues caminhar sozinho e que esses primeiros passos são o princípio da liberdade.
  • Desamparo - sim, vais aprender que quando caíres, não está ninguém para te amparar. Mas vais aprender sobre autonomia, resiliência e que consegues levantar-te e seguir sozinho sem ajuda.
  • Ressentimento - não te zangues com quem não te ajuda ou até dificulta a tua já por si desafiante proposta. Graças a eles vais desenvolver a auto-preservação, a coragem, a autoridade, saber por limites, e perceber que és mais e consegues mais do que alguma vez imaginaste.
  • Julgamento - Sim, vão-te chamar todos os nomes, acusar das mais variadas maneiras, fazer de tudo para te quebrar e fazer desistir da tua viagem. São apenas testes à tua firmeza, aprender a ignorar referências externas, a não permitir que os outros te definam e a reconectar com a vozinha do teu coração.
  • Tristeza - Faz parte do pacote de quem já rebentou a bolha das ilusões de viver no rebanho e se atreveu a aceitar que a sombra é uma realidade e faz parte da vida. Em breve descobrirás que a verdadeira alegria só é possível quando aceitamos a tristeza. 
  • Medo - O maior dos monstros. O caminho entre a imaturidade e a inconsciência e a Liberdade, Independência e Sucesso é íngreme, exigentíssimo, cheio de obstáculos, longo e vagaroso e não permite corta matos. Não raras vezes iremos querer desistir, acreditar que não somos capazes de o fazer. Mas é confiando e persistindo, que ele nos levará às tão ansiadas Liberdade, Independência e Sucesso.

O preço da cura, de conquistarmos esse novo patamar de crescimento e abundância é alto mas simples: desistir, libertar, morrer para todo e qualquer velho mecanismo de apego, projeção, manipulação, acusação, culpabilização, vitimização, ou seja, qualquer traço que revele imaturidade e falta de responsabilidade pessoal.

Se queres perceber em que parte do caminho estás, observa-te:

- Qual o teu grau de dependência financeira dos outros?
- Qual o teu grau de dependência emocional dos outros?
- Qual a tua capacidade de lidares com os desafios sem ajuda dos outros?
- O que é mais importante para ti; as tuas relações com os outros  ou a tua relação contigo mesmo?
- Qual a tua capacidade de resiliência quanto às provocações e testes de quem está no rebanho?
- Ainda te deixas arrastar pelo drama alheio?
- Já te rendeste à ideia de que a dor e os desafios que te rodeiam são o preço que estás a pagar pelas velhas escolhas feitas do tempo do rebanho?

Volto a repetir, a viagem da Ovelha Negra não é para fracos de espírito. 
Aproveito mesmo para validar e aplaudir a coragem de todas as almas que encarnaram com este projeto de evolução. Acreditem, não estão sozinhas!

E porque o Universo é uma criação inteligente e amorosa, algures a superação será recompensada e iremos curar e retornar à Essência de Abundância e Amor perdida.


Vera Luz




quarta-feira, 20 de julho de 2022

TESTAMENTO DA MULHER SUSPENSA



Nirav






Eis o que vos deixo:
um leve gosto
de renascer lembrada.

E um falso desejo de ser esquecida.

Que eu virei
buscar a espuma da onda
que ficou para sempre por quebrar.

Beleza não me bastou:
o que quis ser
foram cetins de fogo,
pétalas de cinza depois do abraço.

Nem flor invejei:
o que mais ilumina
vem de um oceano escuro.

Esperanças tive: todas naufragaram
ante cansaços e remorsos.
Procurei ilhas e mares:
só havia viagens,
travessias de água
nos olhos de quem amei.

Num mundo com remédios parcos
não clamei bravuras.
Injusto é viver
em perecível ser.

Menina,
aprendi a desenrolar tapetes
em rasos pátios voadores,
varandas maiores que o mundo
onde o tempo à nossa mão vinha beber.

Meus pequenos dedos
rasgaram céus,
mas o ensejo era largo:
em mim secaram
lembranças de um mar antigo.

Assim,
tudo o que sou
já fui
na criança que sonhou ser tudo.

Meus lutos, sem emenda, carrego:
viuvez de mulher
não vem de marido.

Vem do amor não mais sonhado.

Com a fragilidade de um riso
enfrentei ruínas e derrotas
e apenas a vida, calada, me calou.

Tudo falei com meus amantes.
Perante o amor, porém, não tive palavra.
O que da vida me restou:
pegadas alheias sob meus pés molhados.

Viver sabe quem ainda vai viver.

Deixo-me,
mulher que quase foi,
à mulher que nunca fui.


Mia Couto
in, Tradutor de Chuvas




CHIRON IN ARIES RETROGRADES







What hurts? What stings, is making you sad, frustrated or grumpy? It’s in the air…

Today, July 19, Chiron in Aries moves retrograde.

This offers many of us the chance to reflect on Groundhog Day type wounds. These painful patterns repeat because we are only halfway to understanding how to soothe the ache, or stop the pattern from creating suffering in our life.

What to do? INTEGRATE.

Integration is the process we undertake; we actively engage in self awareness, identify where we are in conflict, where we are engaging in blame, and become courageously willing to more truly see where we are separating from ourselves, where we are splitting off from deep wounds that want to be named, valued and felt (where we feel: abandoned, rejected, violated, denied, neglected, unloved).

Through deeper acknowledgement, by courageously feeling the pain and telling the truth about it, we embrace those self parts and include them in our identity. This is how we become whole. This is how we stop re-enacting a repetitive and painful cycle of suffering.

Chiron and the Healing Journey 
is the BEST book about Chiron. 


Chiron is stationing on my natal Moon-Chiron conjunction, so you can bet I’m feeling this right now. I’ve been curling up with this wonderful book, and journaling my reflections in my JUST LOVE journal.

Here’s more of what I’ve been personally re-exploring:

-Chiron holds repetitive patterns that feel we can never quite get healing resolution around.

-This repetition cycle enacts a wounding cycle where we are aware of a hurt or pain but feel unable to stop it from re-occurring.

-These wounds feel compulsive, and very difficult to sort through for a variety of reasons.

-Once we learn we cannot get these needs, desires, wants met, we may stop asking for this from our Self (Aries), or we simply don’t know how to do this for our Self because we weren’t shown how- which creates inner conflict and suffering.

-In this area, described by Chiron’s placement, we may feel unappreciated, rejected, neglected, abandoned and/or different.

-We tend to easily get stuck in cycles of blame in this area, mistaking the symptom for the actual CAUSE, we blame the person/thing/issue/conflict/difference instead of seeing the REAL problem — which is actually an internal psychological complex we are carrying with us from childhood. More deeply, we are trying to heal/address/fix a childhood wound. This is why we keep re-experiencing suffering. This requires both courageous truth-telling, and courage to feel the pain.

-If this wound involves a lot of defenses to the feeling/naming of it, we may have to more gently “take down our walls” over time.

-You may need to engage a number of healing tools and techniques in order to understand and heal this.

-The entire process at work is to allow the pain, and your limited understanding of it, to goad/irritate you to a place of greater understanding, self-awareness… and therefore freedom of choice. You can get to the place where the issue no longer compulsively controls your life and causes you to suffer, even if it keeps reoccurring. Commit to: feeling the pain (remember: it’s only pain, it won’t kill you), and then investigating it with more honesty and compassion, and you will get there.

-A hard truth that can free you is: This painful thing may not entirely go away, if ever (a chronic illness, terminal disease, difference, disability, for instance)… but your suffering around it can. Your WILLINGNESS, to figure out how to do that for yourself, is key.

-Those of us who have a strong Chiron signature in our natal chart often become healers and teachers. For us, the pain/difference is not just temporary, it is a lifelong PATH — and constantly working on this is a way for the Soul to self-actualize and feel fullness.

-Eventually, this process blooms into wisdom, self-love and the satisfaction of leading a self-aware, authentic, WHOLE SELF life.

Love yourselves, friends. ALL parts of you!



Jessica Shepherd



segunda-feira, 18 de julho de 2022

Quando vier a Primavera







Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro
In, Poemas de Alberto Caeiro




A Morte Não É Nada Para Nós


Nashoba




Habitua-te a pensar 
que a morte não é nada para nós, 
pois que o bem e o mal 
só existem na sensação. 


Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma ideia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. 

Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. 
É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.

Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. 
Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.

Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. 
Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. 

O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. 


Assim como não é a abundância dos manjares, 
mas a sua qualidade, que nos delicia, 
assim também não é a longa duração da vida, 
mas seu encanto, que nos apraz. 


Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado.


Epicuro
in, "A Conduta na Vida"




sexta-feira, 15 de julho de 2022

O SAPATEIRO









 Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.


Joan Margarit




....................... learning






I’m slowly learning that I don’t have to react to everything that bothers me.

I’m slowly learning that the energy it takes to react to every bad thing that happens to you drains you and stops you from seeing the other good things in life.

I’m slowly learning that I’m not going to be everyone’s cup of tea and I won’t be able to get everyone to treat me the way I want to be treated and that’s okay.

I’m slowly learning that trying so hard to ‘win’ anyone is just a waste of time and energy and it fills you with nothing but emptiness.

I’m learning that not reacting doesn’t mean I’m okay with things, it just means I’m choosing to rise above it.

I’m choosing to take the lesson it has served and learn from it.

I’m choosing to be the bigger person. I’m choosing my peace of mind because that’s what I truly need.

I don’t need more drama. I don’t need people making me feel like I’m not good enough.

I don’t need fights and arguments and fake connections.

I’m slowly learning that sometimes not saying anything at all says everything.

I’m slowly learning that reacting to things that upset you gives someone else power over your emotions.

 

You can’t control what others do, 

but you can control how you respond, 

how you handle it, how you perceive it and 

how much of it you want to take personally.

 

I’m learning that most of the time, these situations say nothing about you and a lot about the other person.

I’m slowly learning that maybe all these disappointments are just there to teach us how to love ourselves because that will be the armour and the shield we need against the people who try to bring us down. They will save us when people try to shake our confidence or when they try to make us feel like we’re worthless.

 

I’m slowly learning that 

even if I react, it won’t change anything, 

it won’t make people suddenly 

love and respect me, 

it won’t magically change their minds.

 

Sometimes it’s better to just let things be, let people go, don’t fight for closure, don’t ask for explanations, don’t chase answers and don’t expect people to understand where you’re coming from. I’m slowly learning that life is better lived when you don’t center it on what’s happening around you and center it on what’s happening inside you instead.

Work on yourself and your inner peace and you’ll come to realise that not reacting to every little thing that bothers you is the first ingredient to living a happy and healthy life.


Stevie Flood





terça-feira, 12 de julho de 2022

What Is the Main Purpose in Life? | Eckhart Tolle

CARTA A MARIA CLEA


Michael Tarasov






Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
 
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
 
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
 
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
 
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
 
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
 
******
 
Só, — enquanto a vida
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
 
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
 
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.


MARIA ÂNGELA ALVIM






A felicidade não é algo que pode ser encontrado, adquirido ou causado









 A felicidade não é algo que 
pode ser encontrado, 
adquirido ou causado. 
Pode apenas ser descoberto, revelado e reconhecido. 
É o brilho do nosso próprio ser descondicionado 
no meio das experiências.

RUPERT SPIRA 
in,  "You Are The Happiness You Seek"




Procurar a felicidade na experiência objetiva, ou seja, na experiência com as coisas, com as pessoas e com os eventos, "é fundamentalmente imperfeito", ele diz.

"É cortejar a miséria".
"Alguém que vê isso claramente desiste de ter expectativas e exigências de que as pessoas e as circunstâncias sejam fonte de felicidade. Procurar a paz e a felicidade na experiência objetiva é se lançar ao fracasso e à frustração e semear as sementes dos conflitos nos relacionamentos".

A busca da felicidade na experiência objetiva é o que chamamos geralmente de prazeres. 
Há prazer nisso, naquilo, na comida, no sexo, nas compras, nos lugares, nos luxos, nos eventos, na música, no aconchego, etc. 
Parece com felicidade, mas não é felicidade, são prazeres condicionados a essas experiências objetivas. E há uma esperança generalizada de que a felicidade possa ser um conjunto cada vez maior ou mais constante de prazeres.

Thich Nhat Hanh dizia que "a gente acha que buscando prazeres vamos evitar o sofrimento. Mas isso não funciona".

Segundo Spira, precisamos aprender a ser, descondicionados, no meio das experiências. 

Para Thay, precisamos ter compreensão, compaixão e amor, pois sem isso não há felicidade.



in, dharmalog



sexta-feira, 8 de julho de 2022

Soneto ao amigo


Alijeb





 Procure ao largo de alma o lenitivo
para este mal da vida, sem promessa.
O corpo vive alheio a se ter vivo
quando fome maior nos arremessa.

 Temos todos, enfim, um amor cativo
que tudo pode e inflama e tudo cessa
quando liberto em si vê seu motivo
a este amor dê tudo e nada peça.

 Cante em sua voz o rito e os dissabores
do tempo e acontecer mas abstraindo
aspecto transitório e fáceis cores.

 Só amor, enquanto é, nos anistia:
sem ele, seres, coisas, verso vindo;
são refúgios do medo sem poesia.



MARIA ÂNGELA ALVIM
in, Poemas seguidos de Carata a um Cortador de Linho





Não Sabemos Ler o Mundo

Laurent Penvern



 

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens. Mais do que saber ler, será que sabemos, ainda hoje, contar histórias? Ou sabemos simplesmente escutar histórias onde nos parece reinar apenas silêncio?


Mia Couto
in, 'E Se Obama Fosse Africano?'



 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

............................................ reações inconscientes

 



Culpa, 
drama, 
apego, 
vitimização, 
cobrança, 
julgamento, 
violência emocional ou psicológica, 
projeção, 
dependência, 
manipulação, 
agressividade, 
autoritarismo, 
comparação, 
irresponsabilidade pessoal, 
desrespeito pelos limites, 
invasão de espaço…. 


estas são apenas algumas das formas pela qual o ser humano se esquiva da responsabilidade sobre si mesmo. 

Aparentemente faz-nos ganhar batalhas momentâneas, 
mas far-nos-á perder a guerra final. 

Como a maioria destas reações são inconscientes, vivemos a perpetuar dinâmicas karmicas que só pela via da libertação e responsabilidade pessoal podem ser curadas. 

O segredo está então em manter a consciência, resistir à reação e procurar uma resposta positiva, saudável, evitando a qualquer custo todas as armas acima citadas.


Vera Luz





quarta-feira, 6 de julho de 2022

Tumbas das Hetairas


“In Bed with the Ancient Greek”
Museu de Arte de Berlim






Em seus longos cabelos elas jazem,
rostos escuros, encerrados em si mesmos,
olhos cerrados como se distantes.
Esqueletos e bocas, flores. E nas bocas
dentes polidos, como num xadrez de bolso,
peças enfileiradas em marfim.
Flores, pérolas amarelas, ossos finos
e mãos e mantas, murchas vestimentas,
e lá no fundo, o coração cravado.
Mas sob anéis e talismãs e pedras
de olhos azuis (regalos preferidos),
ainda resta, em sua cripta, o sexo mudo,
cumulado de pétalas de flores.
Pérolas amarelas, ainda, esparsas,—
pratos de terracota, curvos, adornados
de suas imagens, cacos verdoengos
de jarras de óleo olentes como flores,
miniaturas de deuses e altares,
céus de hetairas, deuses desejantes.
Cintos soltos, escaravelhos-pedras,
vultos pequenos com enormes falos,
boca ridente, atletas, dançarinas,
fíbulas de ouro, como arcos de caça
para amuletos de animais e pássaros,
e agulhas finas, utensílios raros,
e sobre um vaso circular, vermelho,
como a negra inscrição de algum portal,
as pernas rígidas de uma quadriga.
De novo flores, perólas roladas,
as ancas lisas da pequena lira,
e dentre os véus que caem como névoa,
como se de crisálidas-sandálias:
a borboleta leve de um artelho.

Jazem assim, acúmulo de coisas,
coisas preciosas, pedras, jóias, jogos,
bagatelas (caidas sobre elas)
no escuro, como se o leito de um rio.

Pois elas foram rios,
e em ondas breves e velozes, nelas,
precipitaram-se os corpos de jovens
(que ansiavam só por uma vida nova)
e torrentes de homens irromperam.
E às vezes os meninos das colinas
da infância vinham em tímidas quedas,
brincavam com as coisas até quando
a cachoeira enchia os seus sentidos:

Então davam à água rasa e clara
toda a extensão dos cursos expansivos
e enfrentavam remoinhos e águas fundas,
refletindo, pela primeira vez, as margens
e a voz dos pássaros ao longe —, e as noites
estelares de um país ameno abriam
um céu que nunca mais se fecharia.



Rainer Maria Rilke
in, em “Novos poemas I”





As heteras ou hetairas (do grego ἑταίραι, transl. hetaírai: 'companheiras', 'amigas'), na sociedade da Grécia Antiga, eram prostitutas refinadas, que, além da prestação de serviços sexuais, ofereciam companhia e sabedoria, frequentemente tinham relacionamentos duradouros com seus clientes, diferenciavam-se das prostitutas comuns (pornoi) da época, pois além do prazer carnal, ofereciam prazer cultural para seus companheiros, tendo casos com os homens que as procuravam.

O nome Hetaira, significa companheira, e foi utilizado em alusão a Afrodite Hetera, um dos epítetos da deusa Afrodite.




Necessidades maiores do que o gozo

 






A satisfação própria do sexo 
é uma emoção sensual 
como o simples mirar.

 
Ou, como a mera sensação que cumula a língua enquanto se saboreia uma fruta deliciosa. 
É uma experiência maior, infinita, que nos é oferecida; um conhecer do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber…
E o que é errado não é viver esta experiência, mas sim que quase todos abusem dela e a dissipem. 

Empregando-a como incentivo e dissipação nos momentos de maior lassidão, em vez de a viver em recolhimento para alcançar sublimes êxtases. 


Também do comer, decerto, fizeram os homens outra coisa. 
Por um lado a miséria e, por outra a opulência excessiva, deslustraram esta necessidade. 

De modo semelhante se turvaram também outras necessidades profundas e singelas, em função das quais a vida se renova. Mas cada indivíduo, para si mesmo, pode resgatar a sua pureza, vivendo-as com límpida singeleza. 

Se isto não está ao alcance de qualquer indivíduo – porque cada um depende demasiado dos outros – está ao alcance do homem solitário. Este pode recordar-se que tanto nas plantas como nos animais, toda a beleza é uma calada e persistente forma de amor e anseio. 
Pode também ver como os animais e as plantas se unem, multiplicam-se e crescem sem conhecer nenhum prazer ou sofrimento físico, mas sim curvando-se ante necessidades maiores do que o gozo e a dor, mais poderosas que toda a vontade e toda a resistência. 

Oh! Se o homem pudesse acolher com o espírito humilde e levar com maior seriedade este mistério do qual está prenhe a terra mesmo nas suas coisas mais pequenas. 
E o suportara, sentindo quão terrível e esmagador é o seu peso, em vez de o encarar de forma ligeira! 
E se inclinara com profunda veneração ante a sua própria fecundidade, que é apenas uma, quer pareça material ou espiritual. 

Pois também o criar do espírito ascende do mundo físico. 
É da sua mesma essência e como uma reprodução mais subtil, mais extasiante e mais perene do gozo carnal. 


Rainer Maria Rilke 
in, "Cartas a um Jovem Poeta"




sábado, 2 de julho de 2022

Os Velhos Rebanhos








Um dos maiores desafios 
da vida da Ovelha Negra, 
não é tanto o ter que aprender 
a caminhar sozinha, 
a lidar com a solidão 
e com a rejeição 
de quem ela um dia dependeu 
e foi protegida. 


Já sabemos que o desapego e a autonomia são condições essenciais para sair dos velhos padrões de dependência e conseguir trilhar um novo caminho mais saudável e mais livre.


Mais difícil ainda 
serão os testes 
e provocações 
que as pessoas 
do velho rebanho 
ainda provocam. 



Como nos ensina Plutão, 
enquanto não morrermos para quem fomos, não poderemos ser quem nascemos para ser.

Por não compreenderem a exigente proposta de libertação da Ovelha Negra, as personagens do velho rebanho irão tentar a todo o custo manter a Ovelha Negra dentro do rebanho, irão acusá-la de abandono, desrespeito e traição, irão ofendê-la pelo seu atrevimento de ser diferente, irão manipulá-la ao limite para que desista da sua necessidade espiritual de ser livre e de viver fiel à sua verdade. 
Não raras vezes a Ovelha cede pela simples razão de que este velho rebanho são os pais, são irmãos, até podem ser filhos e não raras vezes (ex-)companheiros, ou seja, pessoas muito próximas que amamos e não desejamos magoar com intenção. 

É por isso comum o dilema frequente na vida da Ovelha Negra:
  1. Ou sou fiel a mim mesma, avanço com coragem e terei que desiludir e dizer que não a quem insiste puxar-me de volta para o rebanho.
  2. Ou, cedo, agrado, anulo-me em prol da vontade externa, deixo o medo da rejeição ganhar, vivendo depois a amargura da traição a mim mesma.

Não é fácil viver entre estas duas forças. 
Decidir o tempo todo entre ceder ao passado ou corajosamente avançar para o novo. 
Entre o sacrifício de agradar o outro ou a coragem de ser fiel a si mesma.
Mas é essencial que quando avancemos, o façamos com e por amor ao nosso desafio e não apenas como fuga ou acto de rebeldia.

Diz uma famosa frase que não libertamos o que não amamos. 

Algures a Ovelha terá que olhar para trás e cheia de empatia e nostalgia, lembrar o seu tempo de inconsciência de si mesma, onde os apegos, dependências e validações externas dominavam a sua vida, assim como todas as pessoas que ainda representam essas energias. 
Depois de fazer esse reconhecimento e validação e com o coração cheio de amor, estará então livre para se virar para o futuro, para o novo, para a sua nova vida de consciência e liberdade.

Estamos numa semana explosiva de tensão entre Plutão e Marte que se irá arrastar por todo o mês de Julho por ter feito parte da Lua nova, por isso deixo a sugestão que vivamos este mês mais atentos e conscientes dos testes à nossa volta. 
É um mês maravilhoso para testar os nossos medos, dependências, apegos, manipulações, jogos psicológicos. 

Resumindo, todas as áreas, relações e circunstâncias onde ainda não somos verdadeiramente livres, que representem os velhos rebanhos, onde o nosso poder pessoal ainda anda nas mãos de alguém a ser usado contra nós.

É um mês extraordinário para nos libertarmos dessas energias e darmos um salto quântico rumo a uma nova realidade, rumo à nossa essência e liberdade de sermos quem Somos! 

Que depois deste intenso mês de Julho, Agosto nos acolha, nos encontre mais tranquilos, mais livres, mais perto do nosso propósito. 


Vera Luz




Symptom Recital


Marcel Marceau






 I do not like my state of mind;
I’m bitter, querulous, unkind.
I hate my legs, I hate my hands,
I do not yearn for lovelier lands.
I dread the dawn’s recurrent light;
I hate to go to bed at night.
I snoot at simple, earnest folk.
I cannot take the gentlest joke.
I find no peace in paint or type.
My world is but a lot of tripe.
I’m disillusioned, empty-breasted.
For what I think, I’d be arrested.
I am not sick, I am not well.
My quondam dreams are shot to hell.
My soul is crushed, my spirit sore;
I do not like me any more.
I cavil, quarrel, grumble, grouse.
I ponder on the narrow house.
I shudder at the thought of me…
I’m due to fall in love again.


Dorothy Parker
in, Complete Poems