segunda-feira, 24 de maio de 2021

Hiroshima Meu amor





“O tempo virá em que não saberemos 
que nome dar ao que nos unirá. 
O nome apagar-se-á 
a pouco e pouco 
da nossa memória.”


Hiroshima. Nevers. 
O que une estes dois locais? A destruição? 
Que destruição poderá Nevers conter que se iguale a uma cidade dizimada por uma bomba atómica?
Que horrores terão sido vividos nas suas ruas? 
De quantas mortes desnecessárias terá sido palco? Nevers. Uma aparentemente doce e bucólica terra francesa, a terra que viu morrer o amor.

Uma mulher, uma actriz, está em Hiroshima no pós-guerra a rodar um filme sobre a paz. 
Que outro tipo de filme se poderia fazer em Hiroshima, questiona. O passado é, em Hiroshima, um fantasma que a persegue. Na vida que regressou ao normal, na cidade plenamente reconstruída, onde a catástrofe não é mais do que uma memória longínqua que se afugenta, há uma ameaça eminente de que o que Hiroshima viveu seja esquecido. 

Hiroshima tem de ser lembrada sempre, como o têm de ser todas as grandes tragédias. Mas a vida teima em cobrir os acontecimentos desagradáveis com um véu apaziguador. Até que não restem mais do que sombras. Até que comecemos a duvidar que o que aconteceu aconteceu mesmo.

Um amor em Hiroshima. Um homem casado, como ela, que nos seus braços sonha com um grande amor. Um homem que é mais do que aquele homem japonês, que é um arquétipo do amante proibido, uma recordação viva do amor vivido em Nevers. Em Hiroshima, a mulher percebe que ela própria tem vindo a esquecer, que a dor dilacerante que parecia capaz de a matar acabou por sossegar e, com o avançar dos dias, a vida continuou, apesar da imagem de destruição absoluta. Experimentou o maior dos horrores e agora vive, com uma aparência de normalidade.

O que une Hiroshima e Nevers? 
A destruição. 
A destruição de que pensamos não conseguir emergir. 
Mas também o esquecimento, a traição de uma vida que o continua a ser, a insustentável leveza do ser de que Kundera falaria.

“Hiroshima Meu Amor”, o guião que valeu a Marguerite Duras a nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original, foi também a primeira longa-metragem de Alain Resnais, protagonizada por Emmanuelle Riva. O filme tem o mérito de, mantendo-se fiel à visão de Duras, a ter dotado de imagens icónicas cuja beleza nada fica a dever às palavras escritas.


   





"Este homem japonês é um homem moderno, esclarecido quanto ao essencial.
Nunca se sentirá profundamente deslocado em qualquer país do mundo.
Coincide com a sua idade, tanto física como moralmente.
Não fez "batota" com a vida.
Não teve de a fazer: é um homem que sempre se interessou pela sua existência e sempre o bastante para não "arrastar" atrás de si um mal de adolescência que tantas vezes faz dos homens de quarenta anos falsos adolescentes ainda à procura do que poderiam fazer de forma a parecerem seguros de si.
Não é verdadeiramente um sedutor, mas também não é descuidado.
Não é dos que andam atrás das mulheres.
É casado com uma mulher que ama e tem dois filhos.
No entanto, gosta de mulheres.
Mas, nunca fez uma carreira de "conquistador".
Pensa que esse género de carreira é uma carreira de "substituição" desprezível, e, ainda mais, suspeita. 
Pensa que quem nunca conheceu o amor por uma só mulher passou ao lado do amor, e mesmo da virilidade.
É por não acreditar na virtude dos amores do acaso que vive com esta sinceridade, com esta violência, um amor de acaso com a francesa."


"A francesa sabe que não se morre de amor.
Durante a sua vida teve uma esplêndida ocasião para morrer de amor.
Ela não morreu em Nevers.
Depois, e até hoje, em Hiroshima, onde encontra este japonês, arrasta consigo, dentro de si, a "melancolia" de quem viu adiada a única oportunidade de decidir o seu próprio destino.
Não é o facto de lhe terem rapado o cabelo por ter amado o inimigo e de a terem desonrado que marca a sua vida, mas essa frustração de não ter morrido de amor no dia 2 de Agosto de 1944, quando assassinaram o seu amor alemão no cais do Loire.
Isto não é contraditório com a sua atitude, em Hiroshima, com o japonês.
Pelo contrário, está em relação directa com a sua atitude com o japonês.
O que ela conta ao japonês é essa oportunidade que, ao tê-la perdido, a definiu.
Ela transporta-se literalmente para fora de si própria e entrega a este japonês, em Hiroshima, o que tem de mais precioso no mundo, a sua própria expressão actual, a sua sobrevivência à morte do seu amor, em Nevers."



Marguerite Duras
in, Hiroshima Meu Amor 



   

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Queixa Das Almas Jovens Censuradas


 




Dão-nos um lírio e um canivete 
E uma alma para ir à escola 
Mais um letreiro que promete 
Raízes, hastes e corola 

Dão-nos um mapa imaginário 
Que tem a forma de uma cidade 
Mais um relógio e um calendário 
Onde não vem a nossa idade 

Dão-nos a honra de manequim 
Para dar corda à nossa ausência. 
Dão-nos um prémio de ser assim 
Sem pecado e sem inocência 

Dão-nos um barco e um chapéu 
Para tirarmos o retrato 
Dão-nos bilhetes para o céu 
Levado à cena num teatro 

Penteiam-nos os crânios ermos 
Com as cabeleiras das avós 
Para jamais nos parecermos 
Connosco quando estamos sós 

Dão-nos um bolo que é a história 
Da nossa história sem enredo 
E não nos soa na memória 
Outra palavra que o medo 

Temos fantasmas tão educados 
Que adormecemos no seu ombro 
Somos vazios despovoados 
De personagens de assombro 

Dão-nos a capa do evangelho 
E um pacote de tabaco 
Dão-nos um pente e um espelho 
Pra pentearmos um macaco 

Dão-nos um cravo preso à cabeça 
E uma cabeça presa à cintura 
Para que o corpo não pareça 
A forma da alma que o procura 

Dão-nos um esquife feito de ferro 
Com embutidos de diamante 
Para organizar já o enterro 
Do nosso corpo mais adiante 

Dão-nos um nome e um jornal 
Um avião e um violino 
Mas não nos dão o animal 
Que espeta os cornos no destino 

Dão-nos marujos de papelão 
Com carimbo no passaporte 
Por isso a nossa dimensão 
Não é a vida, nem é a morte.


Natália Correia 
in, Dimensão Encontrada




Luca Argel - Queixa das Almas Jovens Censuradas | Um Disco para José Már...

quinta-feira, 20 de maio de 2021

WOLF LARSEN "If I Be Wrong" Official Music Video

                                                           



Wolf is a disabled musician, writer, and activist. 
She does not perform live due to her health.
Wolf Larsen was Sarah's grandfather's name.   

Wolf Larsen is the stage name of Sarah Ramey, a name that she adopted out of Jack London’s “Sea Wolf”, as a way of getting through what appeared to be a serious health condition that also led her to start performing songs at an open mic in San Francisco.

This song in her album called: "Quiet at the kitchen door".

She writes under her real name, Sarah Ramey, and has published a book, in July 2015, with Penguin Random House called "The Lady's Handbook for Her Mysterious Illness" where she unravels her story and, in her own words, how: "prejudice, embarrassment, ignorance, and annoying behaviour from patients, medical professionals and alternative health practitioners which has led to millions of women leading lives of misery and pain because of undiagnosed and untreated illness."




What if I'm wrong, what if I've lied 
What if I've dragged you here to my own dark night 
And what if I know, what if I see 
There is a crack run right down the front of me 

What if they're right, what if we're wrong 
What if I've lured you here with a siren song 
But if I be wrong, if I be right 
Let me be here with you tonight 

Ten thousand cars, ten thousand trains 
There are ten thousand roads to run away 

But I am not lost, I am not found 
I am not Dylan's wife, not Cohen's hound 
But if I be wrong, if I be right 
Let me be here with you tonight 

And what if I can't, what if I can 
What if I'm just an ordinary man 

If there is a will, there is a way 
I will escape for sure, I am David Blane 
But if I be wrong, if I be right 
Let me be here with you 
If I be wrong, if I be right 
Let me stay here in your arms tonight 
And I have been wrong, I have been right 
I have been both these things all in the same night 
So if I be wrong, if I be right 
Let me here with you tonight








The Lady's Handbook for Her Mysterious Illness

 






Dear Reader,

There may exist a graceful and elegant way to begin one’s gynecologic and colorectal memoir, but it never does spring to mind.

Let us start then with a story. We can travel back to where it all began, and for a moment leave the particulars behind. That sounds much nicer—lovely even—considering it all began so many years ago with a cool, luxuriant swim in Walden Pond.

~

I remember it well. The heat was heavy, I was a summer student at Harvard with no air-conditioning, and Walden beckoned for the reasons it always will. Though I suppose the busloads of tourists beached on the imported sand should have sounded some instinctive alarm when I arrived, they didn’t. I walked right on past and made my way to the side of the pond where the water was still and the snorkelers out of sight.

I remember walking into the water. I remember floating on my back. I remember the coolness and the peace and the poetry of the place, and I remember feeling like I couldn’t ask for anything more.

The next day in the emergency room, I had quite forgotten all of that.

A urinary tract infection, known as a UTI, is a very painful but easily treatable infection of the urethra. Most people describe it as “peeing broken glass,” and I would have to agree with most people.

But my ER doctors patted me on the back as they ordered up the standard antibiotics and I bounded off to the pharmacy, clutching my prescription, counting the minutes in the twenty-four hours they told me it would take to go away.

Fifty-six hours later, I was back in the emergency room. It had not gone away.

In fact, it did not go away for six months. “How strange,” the college physician said as he took my history. I had never been sexually active, which made things particularly challenging, both diagnostically and emotionally. I was a senior in college, and it was my time. I even had the right person picked out.

But the UTI stayed. We joked and called it my PUTI, or permanent UTI, and I laughed along with the rest. But in private, in the bathroom, I was profoundly unamused.

~

This prologue is typical of women like me. A simple and innocuous medical event—often with a gyno or gastro tilt—that should have resolved simply, but didn’t. She thinks it is just another one of life’s ups and downs, when in fact Up is about to become a distant memory.

There is a secret society of sorts that no one—not even the members—has heard of. We don’t look alike, we don’t dress alike, and we’re from all over. There is no secret handshake, no meeting place, no cipher.

We are the women with mysterious illnesses, and we are everywhere.

~

When I went home for Christmas just outside of Washington, D.C., my parents—who are both top-notch physicians—made an appointment for me to see Washington’s preeminent, top-notch urologist.

Dr. Damaskus said I seemed like a nice, normal young woman who would probably like to get back to the business of being able to pee and have sex freely, and he saw no reason why he couldn’t make that happen. He determined I no longer had an active infection—and then proposed a procedure, to be done right there, that day, in the office. As he described it, he would insert a small instrument into the urethra, rip it, and this would solve the problem.

I frowned.

But Dr. Damaskus assured me it was the only option, should I want a normal life again—the gentle ripping, he explained, was more of a light stretching of the tissue, and it would interrupt the muscle spasm and break the cycle of pain. He handed me a paper gown.

I’m almost nostalgic for my naïveté. I took the gown, steeled my nerves, saddled up, and put my feet in the stirrups.

The procedure began benignly enough with a small swabbing of topical lidocaine, but in the next step a device not unlike a very small car jack was inserted in the urethra and then ratcheted out several notches until the urethra, as promised, tore. It was a blinding pain that no amount of lidocaine would dull. He peeked over the paper blanket and asked if I thought he had gone enough notches. I was crying too hard to do anything but nod. He went one more notch.

Dear, patient reader, I have not forgotten about you, or our purpose here—or the cautionary voice in the back of my head whispering something about too much information. But I think this history is important. So before we move out of this reverie, let me come quickly to the end of the beginning of our story.

That night, after Dr. Damaskus sent me hobbling back on my way, intuition’s warning bell finally took up its low, steady thrum. I sat silently through dinner, and put myself to sleep early. Something was not right—something flulike, but menacing, was starting to bristle. Everything hurt, not just my urethra. My ears hurt. My teeth hurt. I fell asleep, my hands clenching and unclenching of their own accord.

When I woke, I was on the floor, quaking with rigors, drenched in sweat, and making a very bad noise. My mother was calling the hospital and dragging me toward the car. I had become septic, an infection of the bloodstream that would have ended badly if my mother weren’t such a top-notch physician. We were at the hospital in minutes.

I was not witness to the miraculous save, but I heard all about it when I woke up. Top-shelf, nuclear-grade antibiotics pumped into me by the gallon, and it seemed like every doctor at Sibley Memorial Hospital (except one Dr. Damaskus) came to sit by my side, making sure the doctors’ daughter pulled through. I was extremely well taken care of. I was going to live. It would all be all right.

By the next day, everyone had gone back to their private practices, wishing me well, which I very much appreciated. The only problem was (and I hated to be a stickler)—I wasn’t all right. I was still aching all over, badly, even though the infection was gone. I had a fever every afternoon, and intense pain all down my legs. The broken-glass pain was starting to radiate out to the surrounding muscles in the vagina, rectum, and bladder. My bowels seized up and stopped working. I itched.

“Strange,” my doctors murmured, making notes. “How very strange.”

They ran dozens of tests, but everything came back negative. At a loss (and at my insistence), they sent me back to school with painkillers and portable IV antibiotics. They said it would slowly all start to get better, and I believed it. When had my body ever done anything but get all better? I was ready to get back to the business of peeing and expressing my sexuality freely. I would carry my little IV from class to class if that’s what it took.

But my body did not get better.

Class after feverish class, night after achy night, and morning after urethrally excruciating morning, I could not deny: it was getting much worse.

And in the most mysterious ways.

I was on so many medications and getting so sick so fast, it was like a rabbit hole had opened up beneath me—that I was falling slowly past the clocks and the candlesticks, and that my parents and doctors were peering over the edge, quietly watching me float down and away.

~

The entire point of The Lady’s Handbook for Her Mysterious Illness is this:

It would have been helpful to know what a well-trafficked rabbit hole that was.

~

The unfortunate but innocuous series of medical events.

The gallons of antibiotics and fistfuls of painkillers.

The severe digestive issues, gynecologic issues, joint pain, itching, and fatigue.

The referrals, the specialists, the puzzlement.

The growing doctor-patient antipathy.

The dramatic health avalanche.

The clocks. The candlesticks.

The despair.

I thought I was the strangest medical case on the East Coast.

I was wrong.

~

Seventeen years later, I have become a well-known woman with a mysterious illness.

In the early years of this distinction, other women with mysterious illnesses would frequently introduce themselves to me, often at the most unexpected moments—at weddings, in elevators, or leaning across a bank of guests at a crowded Thanksgiving table—all wanting to discuss their own mysterious maladies. I just had to speak the words Candida or Subclinical Hypothyroid—or the most potent of all, Gluten—and three heads would rubberband in my direction. They either knew a woman with a mysterious illness, were married to a woman with a mysterious illness, or were themselves a woman with a mysterious illness. While other people grilled kebabs, we would speak discreetly and in low tones about constipation. When the daiquiri pitcher appeared from the kitchen, we would duck our heads to discuss whether or not daiquiris were gluten-free. At elegant cocktail parties, women were constantly pulling me into corners to talk about their vaginas.

You most likely know one of us already—a coworker, an aunt, a sister—some beleaguered old girl endlessly dealing with her health issues. She’ll be reluctant to talk about the particulars but noticeably lacking in a solid diagnosis. Most people privately agree she actually suffers from an acute case of hypochondria.

This woman may not know it yet, but she is in the club.

~

WOMI.

wo.mi | whoa-mee | noun

A woman with a mysterious illness.

~

I had to make this word up myself. I would have preferred a committee, or a wealthy patron—whoever is in the business of naming—to do it for me, but no one volunteered. I’d also have preferred something more dignified than WOMI—something with gravity, preferably in the Latin. Something that provoked the right response, which in my case is, “Holy fucking shit.” But because there is no name for what’s wrong with me, people don’t say holy fucking shit. They ask if I have tried green juice or positive thoughts.

Having a word helps.

Either way, I am sure you know a WOMI already. A spouse, a little sister, a cousin.

The signs are unmistakable. She is exhausted, gluten-free, and likely in possession of at least one autoimmune disease. She is allergic to ____ (everything), aching from tip to toe, digestively impaired, and on uneasy terms with her reproductive system. She is addled, embarrassed, ashamed, and inflamed.

She is one of us.

~

The following scene is unfolding in an office in your town every day, perhaps right now at this very moment:

Jane Doe crosses her ankles in the waiting room, absently turning the pages of People magazine. She looks around often—now at the oversize clock, now at the receptionist, now at the generic watercolors on the walls.

“Ms. Doe,” a flat voice calls out. “Dr. Bowels will see you now. Second door on the left.”

Jane takes a seat in the doctor’s office, regarding the diplomas on the wall. On the desk stands a life-size replica of the human intestinal tract. When Dr. Bowels bustles in, he introduces himself as he looks over her chart for what is clearly the first time.

“Now, Ms. Doe,” he says cheerfully. “What can I do for you?”

The interaction begins very seriously, a furious scribbling of notes, a furrowing of the brow, a lot of nodding. The usual diseases are ruled out and Jane confirms she has been tested, twice, for everything under the sun. Her primary symptoms are severe constipation, distention, and pain in the lower left quadrant of her abdomen. As the doctor pages through her thick medical file, Jane takes the opportunity to share some of the stranger nonbowel symptoms she has experienced—aching in the bones, fatigue, itching, unexplained gynecologic symptoms, memory problems, lower back pain—but the words are scarcely out of her mouth before she wishes she had kept her addenda to herself. She can see the red flags rising behind his eyes, and the note taking slowly tapers off. Before she knows it, where once Sherlock Holmes scribbled furiously, hot on the trail, bent on solving her mystery—he now leans back in his swivel chair, tip of his pen in the corner of his mouth, checking his watch. His look is saturated with understanding, for he has solved the case.

What we have here is not a rare, tropical disease, Watson. What we have here is an unhappy woman, badly in need of an antidepressant.

~

Six years went by before I was aware of the proverbial Jane Doe.

And again, I come from a family of excellent doctors. My mother, my father, my stepfather—even my grandmother was a famous endocrinologist. I am the absolute last person who should have walked off a medical cliff without so much as a Wile E. Coyote deadpan to the camera.

But this is how it always begins. The appointment with Dr. Bowels will likely be followed by a similar experience with Dr. Vulva, only to be repeated with Dr. Rheuma, who sends her on to Dr. Uro, and then Dr. Neuro, followed by Dr. Thyro, then possibly Dr. Chiro, and finally cycling back to Dr. Bowels. Since no lightbulbs have gone off over anyone’s head, off she goes to Dr. Freud.

This long and expensive chain of events is not only common for this type of patient—it is the norm.


Sarah Ramey 
in, The Lady's Handbook for Her Mysterious Illness




terça-feira, 18 de maio de 2021

In Jerusalem








In Jerusalem, and I mean within the ancient walls,
I walk from one epoch to another without a memory
to guide me. The prophets over there are sharing
the history of the holy ... ascending to heaven
and returning less discouraged and melancholy, because love
and peace are holy and are coming to town.
I was walking down a slope and thinking to myself: How
do the narrators disagree over what light said about a stone?
Is it from a dimly lit stone that wars flare up?
I walk in my sleep. I stare in my sleep. I see
no one behind me. I see no one ahead of me.
All this light is for me. I walk. I become lighter. I fly
then I become another. Transfigured. Words
sprout like grass from Isaiah’s messenger
mouth: “If you don’t believe you won’t be safe.”
I walk as if I were another. And my wound a white
biblical rose. And my hands like two doves
on the cross hovering and carrying the earth.
I don’t walk, I fly, I become another,
transfigured. No place and no time. So who am I?
I am no I in ascension’s presence. But I
think to myself: Alone, the prophet Muhammad
spoke classical Arabic. “And then what?”
Then what? A woman soldier shouted:
Is that you again? Didn’t I kill you?
I said: You killed me ... and I forgot, like you, to die.


Mahmoud Darwish
in, "In Jerusalem" from The Butterfly’s Burden





Solitude

 





Solitude is dangerous. It's very addictive. It becomes a habit after you realize how calm and peaceful it is. It's like you don't want to deal with people anymore because they drain your energy.
~ Jim Carrey

To practice solitude is to practice being in this singular moment, not caught in the past, not carried away by the future, and most of all not carried away by the crowd. You don’t have to go to the forest.
~ Thich Nhat Hanh

It's beautiful to be alone. To be alone does not mean to be lonely. It means the mind is not influenced or contaminated by society.
~ Jiddu Krishnamurti

If you cannot be at ease with yourself when alone, you will seek a relationship to cover up your unease. You can be sure that the unease will then reappear in some other form within the relationship, and you will probably hold your partner responsible for it.
~ Eckhart Tolle

Be a loner. That gives you time to wonder, to search for the truth. Have holy curiosity. Make your life worth living.
~ Albert Einstein

Be alone, that is the secret of invention; be alone, that is when ideas are born.
~ Nikola Tesla

You are not alone as a person, You are alone as the entire universe.
~ Mooji

You have to get away from all that madness for a while because we become insane, we get confused with our roles, as being who we really are. Man is not his role. Man is something deeper than that. So, go into the forest or some place ALONE in nature, all by yourself, and find out who you really are! And when you no longer confuse yourself with your particular temporary body, but identify with the entire process of nature and the whole cosmos… When death comes, what a funny thing that will happen. Death comes, and will find no one to kill.
~ Alan Watts




 

domingo, 16 de maio de 2021

Tatanka e Miguel Araújo - Império dos Porcos

Rádio Comercial | "Believe" por The Black Mamba, no Comercial Night Our

MCMXIV

 

Dimitrios Koskinas





Those long uneven lines
Standing as patiently
As if they were stretched outside
The Oval or Villa Park,
The crowns of hats, the sun
On moustached archaic faces
Grinning as if it were all
An August Bank Holiday lark;

And the shut shops, the bleached
Established names on the sunblinds,
The farthings and sovereigns,
And dark-clothed children at play
Called after kings and queens,
The tin advertisements
For cocoa and twist, and the pubs
Wide open all day;

And the countryside not caring:
The place-names all hazed over
With flowering grasses, and fields
Shadowing Domesday lines
Under wheat’s restless silence;
The differently-dressed servants
With tiny rooms in huge houses,
The dust behind limousines;

Never such innocence,
Never before or since,
As changed itself to past
Without a word – the men
Leaving the gardens tidy,
The thousands of marriages,
Lasting a little while longer:
Never such innocence again.


Phillip Larkin





Ser una Mujer consciente


Daniele Cascone



Cuando pedimos al Hombre 

lo que nosotras 

no nos podemos dar, 

vamos mal.

 

Sirve para relaciones de amistad donde recae sobre el/la otra la responsabilidad de tu felicidad.

Para encontrar a un Hombre consciente, tú debes ser una Mujer consciente.

Ser consciente que no puedes vomitar toda tu basura en él cada vez que te apetezca.

 

Debes amarte tanto que no sea su responsabilidad ni deber el hacerte sentir hermosa, y teniendo en cuenta que no eres más que nadie, no puedes pretender que menosprecie la belleza de otras Mujeres ni que te haga sentir superior a ellas.

Un Hombre comprometido aparecerá en tu Vida cuando tú seas una Mujer comprometida: 
con tu Vida, tu felicidad y tu crecimiento.

Alguien con quien compartir vendrá a ti cuando sepas compartir y no acaparar, destruir y pedir perdón para volver a destruirlo de nuevo cuando la confianza en ti misma se vea amenazada por su propia confianza.

Deberás haber conquistado el victimismo perpetuo de quien aún siendo niña caprichosa pide un Hombre maduro a su lado.

Deberás ser inspiración cuando llegues a casa si quieres tener a un Hombre inspirado a seguir contigo.

Amar tus ciclos menstruales para  que Él los respete y no se le venga el mundo encima cuando la Bruja aparezca de un día para el otro y vuelque sobre él todos sus miedos.

Enterrar el hacha de guerra disfrazada de lucha por la igualdad usando sus mismas armas, para ahora, enterrarlos a ellos.

Dejar de decir que somos iguales porque no lo somos.

Ni falta que nos hace.

Ni falta que les hace.

Recuperar la puta que hay en ti, la sanadora, la que ama a sus semejantes, la que danza con las Lunas y toma el Sol por su energía.

Porque si sigues con el rol de:

La niña herida.

La victima redomada.

La egocentrista que llora por los rincones para ser consolada.

La que quiere que le bailen el agua sin que ella haya aprendido a danzar, 

no podrás ver realmente cuando se te acerque un Hombre comprometido y consciente, probablemente porque esté a años luz de tu disponibilidad.

En definitiva, para tener a un Hombre consciente y grandioso a tu lado, debes ser una Mujer consciente y majestuosa cada día.


Rous Baltrons





quarta-feira, 12 de maio de 2021

C








 Habíamos caminado mucho; pero ahora ya era todo tan firme, 
tan exacto, que una profunda sensación de desconsuelo nos 
invadió serenamente, empezó a circular despacio, como aceite 
vertido en nuestras arterias.

Aquél era el lugar; aquélla, la casa. Y aunque nunca la 
habíamos visto, la reconocimos desde el primer instante como 
si hubiera hablado en el encuentro la voz de la sangre. 
Una sangre misteriosa que hubiera estado trazando sus caminos en el 
aire.
También de «dentro» nos reconocieron, porque encendieron 
todas las luces y abrieron de par en par todas las puertas.

Fue entonces cuando vimos a través de los cristales, a través de 
las paredes, a través de nuestra vieja ceguera, que todo lo 
perdido estaba allí, reunido cuidadosamente con paciencia de 
amor y silencio de fe.

Allí guardados el primer sueño, las alegrías olvidadas, la rosa 
intacta de la adolescencia, el agua vertical que fue al principio.
Y mientras contemplábamos suspensos la deslumbradora, 
inesperada riqueza, el tiempo fue perdiendo toda su premura, y 
el alma toda su angustia, y el mundo todo su imperio.

Y fue así que nos echamos a dormir al pie de las ventanas 
iluminadas... Creo que sí, que nos dormimos... La noche estaba 
quieta; y ya lo ves: no entramos en nuestra casa.


Dulce María Loynaz






A maior parte das pessoas não chega a desabrochar na vida

 





O que é que acontece no Mundo - e isto é a nossa experiência de todos os dias... - para que a maior parte das pessoas não chegue a desabrochar na vida? 
São plantas que não se cumprem a si próprias, e quando uma planta não se cumpre a si própria é porque foi mal plantada, ou o terreno é ingrato, ou não levou adubo suficiente, ou não caiu chuva bastante. Temos que nos voltar, imediatamente, para as condições físicas que não permitem que a flor desabroche. Ora nós sabemos, perfeitamente, que na vida - e tem sido uma luta quotidiana do Ser Humano para ver se vence isso - as condições materiais em que na maior parte das vezes temos vivido, as condições educacionais, as condições sociais, políticas, filosóficas, têm impedido uma porção de gente de desabrochar. Têm sido obrigados a ser aquilo que, num determinado momento, podiam ser e vamos ter que considerar quase heróis aqueles que, para se cumprirem, arriscaram a vida e a morte tiveram. 

 Agostinho da Silva
in, TERCEIRA CONVERSA - O PASSADO NO FUTURO



 


domingo, 9 de maio de 2021

15 ALVOS A TER EM CONTA







15 ALVOS A TER EM CONTA
Narrativa (3). Meios (5). Fins (7).

Imaginem aquele desafio nas feiras de diversões, em que latas se empilham em andares e têm de disparar para derrubar tudo. O que é mais fácil: atirar às de cima, ou às que estão na "fundação"?
Nos tempos atuais, a situação é idêntica.

Na base, temos os 3 pilares da Narrativa:

(1) Testes PCR
(2) Transmissão por Assintomáticos
(3) Carimbos para mortes Co\/id.

No patamar seguinte, temos 5 Meios, suportados pela onda de terror criada pela Narrativa propagandeada sem real contraditório há um ano (e que são essenciais aos Objectivos Finais), a imposição de:

(4) Máscaras
(5) Dois metros de distanciamento
(6) Confinamentos gerais
(7) Vacinação de todos
(8) Passaporte digital

No último patamar temos os 7 Objectivos Finais:

(9) Redução da população
(10) Segregação e divisão da sociedade
(11) Monitorização total constante (por chip)
(12) Ditadura (desejada e aceite)
(13) Escravidão dos 99%
(14) Transumanismo
(15) Morte de Deus


Agora, pergunto: 
o que é mais eficaz para derrubar toda a estrutura? 
Atirar ao que sustenta 
o terceiro patamar, o segundo ou o primeiro?


As pessoas são míopes - e vaidosas. Nem vêm, nem querem (estão abertas a) ver o que está "mais lá à frente".  Tudo o que cheire a conspiração afasta as ovelhas. Elas são superiores a isso. "Conspiração" é para estúpidos. Mas é preciso mudar algumas ovelhas para que algo mude. Não adianta sermos muitos leões e até ter alguma eficácia no topo (mudar o poder) se a sociedade como um todo continuar amedrontada e na "narrativa vigente". Ela iria pedir a ditadura sanitária de volta. 
500 leões não valem de nada contra 1.000.000 de gnus em fúria.

Cada um deve fazer o que quer - óbvio. 

Da minha parte, sem esquecer o todo (não sou parvo nem cego), o meu foco está em "atirar" aos 3 pilares que suportam a primeira mesa. Por exemplo, os Meios (4) e (5) dependem largamente do pilar (2), a Transmissão por Assintomáticos. Já os Meios (7) e (8) dependem bastante do pilar (3), os carimbos de mortes. E tudo está influenciado por (1), os Testes PCR. 

Se os 3 pilares da Narrativa ruírem, tudo o resto irá ruir. 
Nem será preciso "falar" nesses outros patamares. E se a primeira mesa realmente ruir, depois da poeirada assentar, talvez muitas ovelhas possam até perguntar-se o que "estaria afinal por vir", tendo em conta a manipulação tida no primeiro patamar, e olhando com olhos de ver para os "escombros" do que ruiu.

Agora, eu gosto (mesmo) muito que o João Pereira da Silva esteja permanentemente focado no segundo patamar, ligando-o ao terceiro. Cada um deve fazer o que melhor faz e, claro, o que quer e apetece. O "trabalho" é complementar e ele fá-lo muitíssimo bem.

Saibamos, contudo, não esquecer as latinhas da feira de diversões. 
O calcanhar de Aquiles são os 3 pilares.



Tiago Mendes



Song for the Old Ones






My fathers sit on benches
        their flesh counts every plank
        the slats leave dents of darkness
deep in their withered flanks.

They nod like broken candles
        all waxed and burnt profound
        they say “It’s understanding
That makes the world go round.”

There in those pleated faces
        I see the auction block
        the chains and slavery’s coffles
the whip and lash and stock.

My fathers speak in voices
        that shred my fact and sound
        they say “It’s our submission
that makes the world go round.”

They used the finest cunning
        their naked wits and wiles
        the lowly Uncle Tomming
and Aunt Jemimas’ smiles.

They’ve laughed to shield their crying
        then shuffled through their dreams
        and stepped ‘n’ fetched a country
to write the blues with screams.

I understand their meaning
        it could and did derive
        from living on the edge of death
They kept my race alive.


  
 Maya Angelou





sexta-feira, 7 de maio de 2021

SONNETS—UNREALITIES


Gabriel Guerrero Caroca





VIII

When the proficient poison of sure sleep 
bereaves us of our slow tranquillities 

and He without Whose favour nothing is 
(being of men called Love) upward doth leap 
from the mute hugeness of depriving deep,

with thunder of those hungering wings of His, 

into the lucent and large signories 
-i shall not smile beloved;i shall not weep: 

when from the less-than-whiteness of thy face
(whose eyes inherit vacancy) will time 
extract his inconsiderable doom, 
when these thy lips beautifully embrace 
nothing 
            and when thy bashful hands assume 

silence beyond the mystery of rhyme


E. E. Cummings
in, Complete Poems





........................... tudo se regista em nós





Todos os pensamentos, todos os sentimentos, todos os actos, bons ou maus, se registam em nós. Evidentemente, é impossível não se fazer alguns registos negativos, mas, pelo menos, estai conscientes, vigilantes e, logo que vos apercebais de que registastes algo de mau, reagi imediatamente tentando corrigir.

Vós tivestes maus pensamentos, maus sentimentos em relação a alguém, dissestes algumas palavras que feriram, fostes injustos: procurai tomar consciência disso e reparar as consequências.
De momento, muitas vezes vós não podereis fazer mais, mas, pelo menos, fazei isso.

Certas pessoas não fazem nada, mas nada, para reparar um pensamento, um sentimento ou um acto negativo, elas nem sequer se dão conta daquilo que fizeram.
Então, como é que podem progredir?
Pode suceder a cada um de nós cometer erros, isso não é um crime.
O que é grave é nunca ter consciência disso, pois, para uma pessoa se corrigir, ao menos tem que tomar consciência daquilo que faz.


Omraam Mikhaël Aïvanhov











quarta-feira, 5 de maio de 2021

Ouse a solidão


Feinerkerl




Solidão é requisito para nascer e para morrer. 

Que me desculpem os desesperados mas solidão é fundamental para viver. 

Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço. Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço. Sem ela os silêncios são estéreis e as noites sôfregas, povoadas de assombramentos e desejos insaciáveis. Sem ela não percebo as saídas, os milagres, os espinhos. Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só. Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas, confundindo estar cercada por pessoas com ter amigos. Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia. Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias tolas só para não ter que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo. Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazia em leitos áridos. Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei. 

Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim. Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro. Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser. 

Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto. Num mundo tão volúvel, desencantado e ansioso a solidão pode ser alimento e não fome. Num mundo tão barulhento, egoísta, atribulado a solidão pode ser trégua e não luta. Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto. Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio. Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser liberdade e não fracasso. 

Tempo e solidão são hoje os bens mais preciosos, o verdadeiro luxo. 

Marque encontros com você mesmo. Experimente. Dê-se um tempo. Surpreenda-se. Solidão é exercício, visitação. É pausa, contemplação, observação. É inspiração, conhecimento. É pouso e também vôo. É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se faz companhia. Quando a gente se livra da engrenagem e troca o medo de ser só pela coragem de estar só. Não falo de isolamento, nem ruptura ou apartamento. Adoro gente 1 mas mesmo assim, e talvez até por isso, preciso de solidão. Preciso estar em mim para estar com outros. 

Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado. Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos. Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma comunidade. Somos sociáveis, gregários. Queremos família, amigos, amores. Queremos laços, trocas, contato. Queremos encontros, comunhão, companhia. Queremos abraços, toques, afeto. É a nossa vocação. Mas, ainda assim, revendo o poeta, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz. 

O desafio é poder recolher-se para sair expandido. É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho e esquecer o medo da própria sombra. Existem pensamentos, orações, sorrisos, encontros e realizações que só acontecem quando estamos a sós. Existem curas, revelações, idéias, lembranças que só podem vir à tona quando estamos sós. Mesmo os momentos compartilhados só serão inesquecíveis se uma parte nossa estiver inteiramente só para apreender tudo que apenas a nós se revelará e tocará. 

Existe uma pessoa que só conhecemos se conseguimos ficar sós: nós mesmos! 

Seja amigo da solidão. Aceite seus convites, passeie com ela, desmistifique-a. Não corra dela, não tenha medo. Desassombre-se. 
Ouse a solidão e fique em ótima companhia. 


Hilda Lucas





segunda-feira, 3 de maio de 2021

Poema Insone


 





Levanta-se a luz 
surpreendendo as coisas
em sua indolência desirmanada 
o calor principia a operar 
o seu motim 
com todo o vazio do espaço
pela frente

esse ruído de fundo
que passa ao lado da nossa fanfarra inútil
essa fábula da morte e da vida
que teimamos em ignorar
como se bastasse encher os pulmões
e ficar em apneia
para impeder a violência
de terminar

se habitamos
a explosão de algo que ruiu
assim seremos
nenhum escândalo
tomar o pulso ao prazo de tudo
e fruí-lo na imensa probabilidade
de ser essa a via
para o nosso real
duramos para sempre 
na medida da nossa revolta
contra o frio
ecoando no crânio
de um simples pensamento

toda a escuridão
é um braço esticado
para a margem
e a margem
esta carne à revelia
com que povoamos
um mesmo lugar
de falta.


Vasco Gato





O Efeito Flynn

 



O QI médio da população mundial, 
que sempre aumentou desde o pós-guerra
 até ao final dos anos 90, 
diminuiu nos últimos vinte anos. 
É a inversão do efeito Flynn.


Parece que o nível de inteligência, medido pelos testes, diminui nos países mais desenvolvidos. 
Pode haver muitas causas para este fenómeno. 
Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem.
Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.

O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.
A simplificação com o tratamento por tu, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de "golpes mortais" na precisão e variedade de expressão.

Apenas um exemplo: eliminar a palavra "menina, senhorita/mademoiselle" (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.
Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras.
Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível.

Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.
A história está cheia de exemplos e muitos livros (George Orwell - "1984"; Ray Bradbury - "Fahrenheit 451") contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.
Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. 
E não há pensamento sem palavras. 

  • Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional? 
  • Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro? 
  • Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e a sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

Caros pais e professores: 
Façamos com que os nossos filhos, os nossos alunos falem, leiam e escrevam. 
Ensinemos e pratiquemos o idioma nas suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.
Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem dos seus "defeitos", abolir géneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana. 
Não há liberdade sem necessidade. 
Não há beleza sem o pensamento da beleza.


Christophe Clavé




As línguas podem passar por períodos de decadência — mas na escrita… Quando o Império Romano desapareceu, os níveis de alfabetização desceram. No entanto, as línguas em si, na oralidade, não se transformaram em subprodutos linguísticos — acabaram por dar origem às nossas línguas, que simplificaram partes do latim, mas complexificaram outras (os artigos, por exemplo).

Ora, mesmo na escrita não vivemos hoje num período de decadência: a alfabetização é superior a qualquer época passada. Ainda não estamos bem? Pois claro que não. Preocupa-me a falta de leitura de muitos jovens, que não permite ganhar capacidades de escrita adequadas para um mundo em que vivemos pela escrita. Mas de uma preocupação que todos podemos partilhar até conclusões catastróficas sobre a evolução da língua, o estado da gramática, do vocabulário, da violência e de tudo o mais — vai, claro, uma grande distância…

Temos de ser muito exigentes. A língua exige uso e estudo, principalmente na escrita. É por isso que proponho que se leia mais sobre a língua, para lá de impressões de café.

Por exemplo, este artigo Different languages, similar encoding efficiency: Comparable information rates across the human communicative niche mostra como as línguas tendem a transmitir informação com a mesma eficiência, afinada ao longo dos milénios pelas capacidades cerebrais e auditivas dos seres humanos. É um artigo difícil? Com certeza que sim… Nada que assuste quem tanto grita a favor da exigência. É uma das pistas que apontam para uma certa constância das línguas humanas no que toca à complexidade e às capacidades cerebrais necessárias para as falar.

Proponho ainda um livro de que já falei anteriormente, mas que é um bom ponto de partida para percebermos como as línguas não se desfazem no tempo: The Unfolding of Language, de Guy Deutscher. É um livro exigente, como certamente Clavé e os seus leitores gostam. É também um livro muito interessante e muito informado sobre as línguas. Já agora, como estamos a falar de um texto francês, deixo também outra sugestão de leitura: Le Français dans tous les sens, de Henriette Walter. Sobre a nossa própria língua, temos o recente (e já muito recomendado por aqui) Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio. Talvez sirvam, todos eles, como antídoto para o vício do catastrofismo linguístico.

São exemplos de textos inteligentes e exigentes, que nos entusiasmam para saber mais sobre as línguas e sobre a linguagem humana.


Marco Neves