sexta-feira, 5 de julho de 2019

O RITO






1. 
A nossa terra veio a ser um rito, um signo de descoberta 
na qual o homem se encontrou. 
A reconciliação com a terra pode talvez ser substituída pela necessidade, 
pela inexorabilidade de existir que a terra impõe, 
toda a terra, inclusivamente esta que com o coração escolheste 
entre todas as outras. 
Quando nela ganhas raízes para a vida e para a morte, 
ela vai-te quebrantando até reduzir-te a pó. 
Vês com dificuldade e com dificuldade te tornas visível 
através da necessidade terrestre. 

Supõe um esforço incessante subtrair os homens 
à inexorabilidade imposta pela terra - e este 
esforço tem um nome: «história.» 
A história não é ressurreição, mas uma constante 
conformidade com a morte, que apenas faz transparecer 
a sucessão das agonias humanas. 
Ela não alcança o rito em que se converteu a terra,
a nossa terra. 
Daí nasce o amor à terra. 
O amor não flui a par da morte: ultrapassa-a. 
Pelo amor que ultrapassa a morte, a terra veio a ser um rito. 
Pelo amor que ultrapassa a morte, a nossa terra converteu-se num rito. 

2. 
O rito das águas inumeráveis que surgem da terra como plantas; 
- as plantas desta terra são os rios, como a água é a terra das plantas; 
no inverno, os rios gelam, gelam os lagos e os tanques, 
mas as fontes brotam: a Vida das águas fará o gelo explodir. 
A nossa terra aproximar-se-á do sol e ele será suficiente 
para que a vida ressurja. 
Reviverão as águas, reviverão as árvores, REVIVERÁ 
A TERRA e virá a ser um rito, 
levar-te-á para lá do círculo da morte inscrito nela. 
A necessidade de VIVER - dizem a terra e a água cada primavera -, 
não é talvez mais forte que a necessidade de morrer? 
- assim dizem a terra e a água no seu sussurro recíproco. 

Tal sussurro, como o traduzirás na tua própria linguagem? 
Como enxertarás no teu pensamento a morte e a Vida da terra? 
O rito das águas tem uma voz diferente na primavera, 
quando devolve a vida à terra, 
e é diferente no verão, quando o homem arde em sede 
como o leito de um rio 
e o corpo é todo ele um anelo de pureza e frescura...
O homem absorve então o rito das águas 
- e nele encontra o seu equilíbrio. 

A água fala-nos mais de durar do que de passar 
no fluxo dos teus destinos és duradoura, ó água! 
A ti, homem imerso na água, digo 
que és o destino da terra. 
A nossa terra veio a ser um rito de plantas e de árvores 
que se abrem como um pensamento saturado de sabedoria, 
Sabedoria que é a nossa Pátria, escolhida pelo coração, 
com o assentimento da terra. 

3. 
Com as suas mãos o homem agarra a luz como um
remador que dirige a barca, 
entra na luz com todo o seu ser, com toda a carga 
das suas palavras e dos seus atos. 
Quer ficar nela, quer guardá-la dentro de si, 
ou quer mesmo irradiá-la? 
Sente a obscuridade, a penumbra, às vezes sustenta 
sobre as palmas das mãos 
um frágil véu de luz, como sustentaria uma criança recém-nascida; 
e canta à luz as canções que uma ama cantaria ao embalar; 
- depois cala-se e as canções brilham até que a criança 
é envolvida na sombra da existência. 

O terra que nos geras, não geras connosco a luz, 
mas apenas o véu frágil, ténue, que basta às plantas e aos animais! 
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa, 
luz feita de substância que o abraço materno não pode encerrar. 
Bem diferente é a luz de que uma criança precisa...

Sou-te leal, terra, quando falo da luz que tu não podes dar 
porque falo da LUZ: sem a qual o HOMEM não pode realizar-se, 
nem tu tão-pouco, terra, te poderias realizar no homem. 

No rito da água e da luz estás presente e calas. 

O homem passará sobre o rito com a sua vida e a sua morte 
e tu pensarás que o terá espezinhado. .. 
Passará o homem, passarão os homens - correrão,
gritando «a vida é luta» 
e da luta, que farão surgir: uma terra nova? 
(Quando a terra, depois das lutas dos homens, ficar 
plena da sua própria quietude, pensarás que a espezinha ?) 



KAROL WOJTYLA
in, A PEDREIRA E OUTROS POEMAS





Não libertamos o que não amamos






Não é raro sairmos de situações difíceis e desafiantes com mágoas, ressentimentos e até revolta. O impacto energético, emocional e mental desses momentos mais fortes ou dessas experiências mais violentas é tão intenso que é comum a sensação de injustiça e a vontade até de vingança, não por maldade pura mas apenas o desejo de que o outro também um dia sinta a mesma dor pois só aí poderá parar de a causar.
Na maior parte das vezes, o simples afastamento não chega para curar o impacto que esses eventos ou pessoas deixam em nós.

Não libertamos o que não amamos.

Ainda tomados pela densidade dos mesmos, longe estamos ainda de aceder a um patamar mais elevado onde com mais calma e uma perspectiva mais ampliada, iremos ser capazes de entender o quanto aquele trambolhão que tantas nódoas negras deixou, foi afinal a cama elástica que nos permitiu libertar aqueles velhos padrões e aceder a uma nova consciência e visão da realidade.

Einstein dizia que não resolvemos problemas com a mesma mente que os criou.

Será então neste novo patamar de consciência que iremos descobrir que a viagem espiritual é solitária e pessoal, que os eventos e pessoas à nossa volta são apenas hologramas da nossa dualidade interior, que a nossa energia é magnética e como tal faz atrair eventos e pessoas na mesma vibração, que cada momento é um teste à nossa capacidade de escolhermos entre a luz e o medo, que enquanto cairmos na tentação de projetarmos as nossas questões em algo ou alguém, vivemos irresponsáveis para a nossa capacidade de mudarmos a nossa energia.


Amar implica: 

  • Aceitar que o que quer que esteja a manifestar-se na nossa realidade tem uma proposta escondida.
  • Amar implica descobrir a aprendizagem por traz do encontro ou acontecimento.
  • Amar pede de nós humildade, compaixão, tolerância e paciência por quem ainda não vê a luz.
  • Amar pede rendição aos movimentos inteligentes da vida e uma atitude não de julgamento mas sim de curiosidade perante os eventos.
  • Amar significa resistir à cega RE-ação violência-por-violência e aprender a agir com a consciência de que podemos perante a violência escolher qualquer uma das infinitas manifestações do amor.
  • Amar pede de nós responsabilidade por elevarmos a nossa vibração e de sermos um farol de luz na densidade que ainda circula à nossa volta.
  • Amar implica libertar todos os ressentimentos, projeções, culpas, sensações de injustiça, vingança ou vitimização e pede de nós a coragem de nos elevarmos desses estágio de aprendizagens e experiências em estado de amor.
  • Amar é um verbo que implica movimento, expressão, manifestação. Da mesma maneira que a Lei do karma devolve a consequência da má ação, também devolve a consequência da ação amorosa por isso trabalhemos inteligentemente com ela. Por isso ama porque amar é a tua natureza.


Se queres mudar a tua vida, ama tudo, ama todos, ama as experiências que te rodeiam essenciais à tua evolução, ama as pessoas que fazem parte da tua história karmica, ama a tua densidade e ilumina-a com o teu amor, ama-te a ti mesmo o suficiente para poderes viver em amor.

Vera Luz



Não nos libertamos de um hábito
atirando-o pela janela; 
é preciso fazê-lo descer a escada, 
degrau a degrau.

Mark Twain





quinta-feira, 4 de julho de 2019

A Baby's Bill of Rights





I have a right to
be seen 
as an innocent and vulnerable human being
in need of 
caring care in many ways.

I have the right to
be understood 
as a fully embodied Soul

I have the right not to
 have to 
justify my existence

I have the right to
have my ongoing needs for 
shelter, quiet, calm voices, 
to hear the heartbeat of a mother, 
to be held, sung to, comforted.

I have the right to
 identify myself differently
 - a human being- 
rather than an alien or other legalese term

I have a right to 
keep my natal language 
and to also learn a new language

I have a right to 
be seen as a baby, 
not as chattel, 
not as a detainee

I have the right to 
sleep in a bed, 
to be protected from predators, 
to have a full night's sleep, 
to be fed nutritious food.

I have the right to 
receive medical care with 
a mother's insight and touch instead of 
a via a governmental or ruling hierarchy mandate.
 I have a right to live in sanitary conditions.

I have the right to
 be with my familiares, 
relatives, brothers and sisters, 
primos, cousins, tios y tias 
y mami y papi y abuelos.

I have the right not to 
be shamed because of 
my nationality, 
race or ethnicity or religion.

I have the right to 
grow up in dignity, 
to be treated with integrity,
 to be treated as others would want 
their precious children treated...

I have a right to 
have my first cry answered right away, 
not to be forced into distressed weeping 
and despairing sobbing, 
and finally dead silence 

I have the right to 
sunshine, clean air, clean water, 
to see the stars in the night, 
to songs and music and art, 
to have simple toys, 
to laugh and to be happy.



Clarissa Pinkola Estés






CARMINHO - Estrela [ Official Music Video ]

OPIÁRIO

         




              Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola para adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure,
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Para que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde —
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos para existir.
Não há gente como esta para estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas para dormir e para comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Queria outro ópio mais forte para ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O facto essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, para vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pela coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá prò fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma haverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci para mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

                        No Canal de Suez, a bordo.


Álvaro de Campos
in, Orpheu






Quando os meninos me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"






Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora.

Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau.
Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos.

Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas.

Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.
As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.

As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses.
Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.

Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…

E os filhos faziam-se gente.

E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia.. ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!

Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!

A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.

E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.

E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.
E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos, mais as colegas da escola, mais as senhoras da Casa do Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que baptizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.

E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.

Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua à espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que estava há tempos no congelador.

As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos /grandes ditadores que até são seus filhinhos, e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.

Sabem que mais?!

Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.

Esta gente, foi a gente com quem me fiz gente.

Hoje, não há gente… é tudo transgénico.

O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.

Dizem que já estamos no século XXI...”


Profª. Lourdes dos Anjos






quarta-feira, 3 de julho de 2019

O Ofício





Recomeço.
Não tenho outro ofício.

Entre o pólen subtil
e o bolor da palha,
recomeço.

Com a noite de perfil
a medir-me cada passo,

recomeço,
pedra sobre pedra,
a juntar palavras;

quero eu dizer:
ranho baba merda


Eugénio de Andrade




O Feitiço de Marraquexe





Marraquexe tem um encanto especial:
Tem o mítico Hotel La Mamounia e o Jardim Majorelle, os meus preferidos na cidade.

O Hotel La Mamounia, o mítico hotel de Marraquexe, é impressionante.
É o hotel onde se hospedam as estrelas de cinema e os grandes magnatas.
Fiquei fascinada com a diversidade dos uniformes dos funcionários do hotel. O director-executivo disse que "Nós chamamos-lhes vêtements d'images. Achamos uniformes muito vulgar." E, de facto, no La Mamounia nada é vulgar.
A forma como os 170 funcionários do hotel estão vestidos ultrapassa em muito a roupa. "Não há sinalética no hotel. O pessoal é ele mesmo a sinalética." Cada traje é pensado em função do lugar dentro do La Mamounia, cada serviço ou departamento tem um, e cada funcionário tem um vêtement d'image diferente para o dia, para a noite, para o Verão, para o Inverno, num total de perto de 800 roupagens.
O La Mamounia esteve fechado três anos, e em 2009 - o tecto pintado por Jacques Majorelle, o artista plástico francês que no início do século XX se instalou em Marraquexe, foi "redescoberto".
"Sabia-se que este tecto pintado existia, mas estava escondido atrás de outro". Agora, no eixo entre a entrada e os jardins, o tecto de Majorelle é novamente o centro. E as empregadas de mesa trajam de amarelo-torrado porque essa é também a cor dominante da pintura de Majorelle. E é a cor dominante no chão, onde começa um longo tapete que acompanha por grande parte do hotel - são "28 mil m2 de tapete, feito exclusivamente para aqui".
A experiência com os vêtements d"images começa logo quando se entra no La Mamounia. Como tudo no hotel, esse momento foi pensado para ser uma experiência. Filme de Hollywood? Conto das Mil e Uma Noites? Numa coreografia que se repete mil vezes ao longo do dia, dois porteiros de esvoaçantes capas brancas e luvas abrem o primeiro conjunto de portas. Logo de seguida, novo conjunto de portas e mais outros dois porteiros, integralmente de branco, a abri-las do interior do hotel.
No átrio, oferecem a bebida tradicional de boas-vindas em Marrocos: leite de amêndoas fresco, com um pouco de açúcar e água de rosas. E também uma tâmara, como se fôssemos viajantes que atravessaram o deserto e encontram finalmente um oásis que os acolhe.
O La Mamounia tem 2264 portas. Podemos viver ali para sempre, guiando-nos pelos vêtements d'image para saber se é dia ou noite, Verão ou Inverno. Viver esquecidos do mundo como no filme italiano "O Jardim dos Finzi-Contini", em que uma família de judeus da alta sociedade vive no seu jardim, a jogar ténis e a receber os amigos, enquanto o mundo lá fora mergulha na II Guerra Mundial.
Também o Mamounia foi refúgio para quem queria esquecer o mundo durante a II Guerra. Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico e o mais célebre dos muitos hóspedes célebres do hotel, dizia que este era "o sítio mais belo de todo o mundo". Diz-se que nos anos 1940 esses hóspedes, vindos da Europa e dos Estados Unidos para se abrigarem nos jardins que um dia o rei Sidi Mohammed Ben Abdellah ofereceu ao seu filho Mamoun, traziam as próprias mobílias para se sentirem completamente em casa.
Antes disso, apesar de ser já uma referência em Marrocos, o La Mamounia (construído em 1923 pelos arquitectos Henri Prost e Antoine Marchisio por encomenda da Companhia de Caminho de Ferro) tinha apenas 50 quartos. Em 1946 cresceu para 100 quartos, e depois sofreu remodelações nos anos 1950, em 1986 e por fim em 2006, já com Jacques Garcia que, "recuperou muito do espírito original". Hoje o hotel tem 210 Quartos, 71 Suites e três Riads cada um com três quartos, salões marroquinos e piscina privada.
E tem um fabuloso spa com 2500 m2, onde são usados cinco produtos com a assinatura Mamounia: o ghassoul (argila especial muito utilizada em Marrocos), sabão negro, água de flor de laranjeira, água de rosas e óleo de argão. Também a música foi feita especialmente para ali, tal como o leve perfume que se sente por todo o hotel. "Um cheiro e uma música que só existem aqui." Para que, a cada regresso, tenhamos a sensação, sem sabermos exactamente porquê, de que voltámos a casa.
Nos vários restaurantes que existem lá dentro dá-se importância ao equilíbrio, sobretudo no uso das especiarias, sempre presentes na cozinha marroquina. "As especiarias não vão com toda a cozinha, uma coisa tem que saber a cominhos, outra a alho, outra a gengibre. Não se pode pôr cominhos em tudo, ou o açafrão, ou a pimenta, se não sabe tudo ao mesmo." E esta é uma cozinha de sabores fortes, mas também de subtilezas.
Na alameda rodeada de oliveiras - há 400 com mais de 700 anos nos jardins do Mamounia, 800 laranjeiras, 500 palmeiras e 6000 roseiras brancas - de repente, o silêncio é interrompido por um cântico que se eleva, à vez, de diferentes pontos da cidade. É o chamamento para a oração muçulmana, que parece vir de todos os lados, numa mistura de vozes que sobe ao céu.
Quando termina, o jardim volta a silenciar-se, mas ao longe ouve-se, abafado, o batuque de tambores que vêm da praça Jemaa El Fnaa. Há festa na praça, como todas as noites - há encantadores de serpentes, aguadeiros, charlatões a vender poções mágicas, há restaurantes envoltos em fumo dos grelhadores, vendedores de caracóis e sumos de laranja. Há a vida toda lá fora. Mas, presos por um qualquer encantamento, como os louros filhos dos Finzi-Contini, ficamos ali no jardim do La Mamounia.
Este é sem dúvida o hotel histórico de Marraquexe, mas nos últimos anos a concorrência tem-se tornado cada vez mais forte com investimentos impressionantes nos palácios-hotel da cidade - chefs três estrelas Michelin, decorações orientalistas, villas privadas dentro dos hotéis entre jardins de sonho, lagos e até ilhas.
Mas quem não tiver dinheiro para este luxo pode sempre optar por um Riad.
Como foi o meu caso…

Nas ruas de Marraquexe, perdemos-nos pelos souks, entre montes de folhas de menta, especiarias de todas as cores, roupas, pulseiras, trabalhos em couro, em metal, um almoço de espetadas de diferentes carnes e molhos, muito calor, palácios e jardins frescos, e mais souks - e, ao cair do dia, a multidão a começar a chegar à Jemaa el-Fnaa, e nós a assistirmos enquanto bebemos um sumo de laranja no velhinho Café de France. Jemaa el-Fatal, Esta praça tem feitiço, só pode! É difícil dizer o que vai ali, tanto é em cor e vibração. E começa logo pela manhã com os vendedores de sumo de laranja, de frutos secos e especiarias, os encantadores de serpentes e os aguadeiros, para continuar dia fora num frenesim aparentemente caótico. Em caindo a noite, já se ergueram as tendas dos comes e, na praça, juntam-se contadores de histórias, dançarinos, cuspidores de fogo, tira-dentes, curandeiros, astrólogos e outros charlatães, e tudo o mais que possam imaginar, e estimule o mercadejo, num delírio que avassala e não apetece largar. É então que à praça acorrem os da cidade e das redondezas e mais ainda os turistas, aos magotes, e a noite triunfa em luz, cor, batuques e odores.

Este é o coração vibrante de Marrakech, lugar de sortilégios e encantações. Das mil e uma noites. Património Imaterial da Humanidade, por decisão da Unesco, desde 2001.
Os jardins de Marraquexe têm este efeito. Como no La Mamounia, o mundo deixa de existir. E no meio de duas mil portas não queremos encontrar a que nos leva à saída.

E por falar em jardins, vou falar do meu jardim preferido em Marraquexe, O Jardim Majorelle:
O Jardim Majorelle é um jardim botânico inspirado nos jardins islâmicos situado no centro de Marraquexe, Marrocos, onde também funciona um museu da cultura berbere.
Ocupa cerca de um hectare a noroeste da almedina e alberga cerca de 3 000 espécies botânicas.
O nome deve-se ao seu fundador, o pintor francês Jacques Majorelle (1886–1962), que o criou em 1931. Comprado por Yves Saint Laurent e Pierre Bergéem 1980, atualmente pertence à Fundação Jardim Majorelle, subsidiária da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent. A casa situada no interior está classificado como "Casas dos Ilustres" (Maison des Illustres) pelo Ministério da Cultura francês desde 2011.
Em 1919, o pintor francês Jacques Majorelle, filho do célebre ebanista e designer art nouveau Louis Majorelle, de Nancy, instalou-se na almedina de Marraquexe, durante o Protetorado Francês em Marrocos. Em 1922 comprou um palmeiral a noroeste da almedina, onde manda construir em 1931 a sua vivenda de estilo mourisco e art déco, desenhada pelo arquiteto Paul Sinoir. A arquitetura do edifício, inspirado na obra de Le Corbusier, é de uma modernidade extraordinária. O pintor instalou a sua residência principal no primeiro andar e transforma o rés de chão num imenso atelier para ali pintar as suas enormes telas.
Apaixonado por botânica, Majorelle criou o seu jardim inspirado nos jardins islâmicos, com a luxúria dum jardim tropical, em volta da casa, que alguns descrevem como "um jardim impressionista" ou "uma catedral de formas e de cores". O jardim é estruturado em volta de um tanque central, com diversos ambientes variados, onde centenas de pássaros fazem os seus ninhos. O jardim é uma obra viva em movimento, composta por plantas exóticas e de espécies raras que o pintor trouxe das suas viagens pelo mundo: catos, yuccas, nenúfares, lótus, jasmins, buganvílias, palmeiras, coqueiros, bananeiras, alfarrobeiras, agaves, ciprestes, etc. Há também uma alameda de aloés e duas matas de bambus, nas partes sul e oeste, junto ao muro exterior. É decorado com fontes, lagos, jatos de água, vasos em cerâmica, alamedas, pérgulas, etc.
Em 1937 o artista criou o "azul Majorelle", um azul ultramar/cobalto simultaneamente intenso e claro, com que ele pinta as paredes da sua vivenda, e depois todo o jardim, para fazer um quadro vivo que abre ao público em 1947. Depois de ter sofrido um acidente de automóvel, Majorelle foi viver para Paris, onde morreu em 1962. O jardim ficou ao abandono durante vários anos.

Yves Saint Laurent e Pierre Bergé descobriram o Jardim Majorelle em 1966, durante a primeira estadia em Marraquexe: «fomos seduzidos por aquele oásis onde as cores de Matisse se misturam com as da natureza». Os dois compraram o jardim em 1980, para o salvarem de um projeto de um complexo hoteleiro que previa o seu desaparecimento; seria a terceira aquisição do casal na cidade de Marraquexe. Os novos proprietários decidiram habitar na vivenda do artista, que rebatizaram Villa Oásis, e empreenderam importantes trabalhos de restauração do jardim para «fazerem do Jardim Majorelle o jardim mais belo, aquele que Jacques Majorelle tinha pensado, planeado.» O atelier de pintura foi transformado num museu berbere aberto ao público, no qual está exposta a coleção de arte de Yves Saint Laurent e de Pierre Bergé.
As cinzas de Yves Saint Laurent, morto em junho de 2008 foram dispersadas no roseiral da Villa Oásis e no jardim há um memorial composto por uma coluna romana trazida de Tânger, sobre uma base onde há uma placa com o seu nome. Em novembro de 2010, a princesa Lalla Salma, esposa do rei Maomé VI de Marrocos, inaugurou a exposição "Yves Saint Laurent e Marrocos", ao mesmo tempo que foi dado o nome do criador de moda a uma rua. Em dezembro de 2011 foi inaugurado o "museu berbere" no rés de chão da vivenda, com a presença do ministro da cultura francês, Frédéric Mitterrand, e a casa onde viveu Saint Laurent foi classificada como Maison des Illustres.
O jardim emprega cerca de vinte jardineiros e é um dos locais turísticos mais visitados de Marraquexe e de Marrocos, com mais de 600 000 visitantes anualmente.

Mas, de volta ao livro:
No coração da histórica Medina de Marraquexe, entre os animados souks e bazares, encontra-se um grupo de europeus, desfrutando da tranquilidade de um riad. Ali dão os primeiros passos no conhecimento da inebriante gastronomia marroquina. Entre eles, Nell, uma jovem inglesa que sonha abrir um restaurante na sua Cornualha natal e Amy, uma fotógrafa inglesa que reúne material para editar um livro de cozinha e pretende levar a cabo uma exposição sobre Marrocos na sua galeria de arte, no Dorset. Nell procura dar sentido à sua vida, depois da morte da mãe; Amy procura Glenn, um primo americano, cujo último paradeiro conhecido é algures em Marrocos. E, assim, ambas embarcam numa viagem de descoberta das suas próprias raízes que surpreendentemente se encontram ligadas. Em “O Feitiço de Marraquexe”, os coloridos souks e bazares são descritos por Rosanna Ley com tal vivacidade que provocam uma irresistível vontade de deambular pela histórica Medina de Marraquexe.
Cada capitulo que era escrito pelo Glenn sobre Marrocos, fazia-me pegar no meu álbum de fotografias e viajar novamente para as pequenas vilas, as grandes cidades, as montanhas do Atlas, o deserto do Sahara, as comidas tradicionais, a sua cultura, e para um povo especial que me acolheu de braços abertos sempre que entrava num riad ou mesmo num estabelecimento, mas são esses momentos que com o tempo ficam esquecidos, mas quando lemos um livro assim afinal não estão nada esquecidos.

Nell e a mãe eram muito unidas, mas agora que a mãe morreu Nell sente-se completamente desamparada. A juntar a isso, a relação com o marido Callum está a passar por uma fase menos boa.
Talvez para tentar alegrar a sua esposa, Callum oferece-lhe uma viagem a Marraquexe, juntamente com um curso  de culinária, como prenda de aniversário.

Amy trabalha como fotógrafa numa galeria de arte que, através de um projecto que quer implementar sobre a cultura marroquina, em Dorset, parte para aquele país. O objectivo é também procurar o paradeiro de um tio, desaparecido há mais de 30 anos.
Juntas vão encontrar-se no hotel Riad Lazulli e tornam-se companheiras de viagem e confidentes.

O facto de Nell querer saber mais sobre o passado da mãe, beber mais da cultura que a sua mãe gostava tanto vai fazer com que esta viagem seja uma forma de conhecer ainda mais sobre Marrocos e a mãe. O ambiente, os cheiros das especiarias, a comida, tudo nos remete para o açafrão, para o amarelo, para as cores fortes e garridas.
Por outro lado, há também o desejo por parte de Amy querer saber mais sobre o paradeiro do seu tio, que esteve em Marraquexe há muitos anos. O passado da mãe de Nell e de Glenn, tio de Amy, tem tudo a ver com Marrocos, que será o palco de muitas descobertas.

"Por mais tempo que vivas num lugar, isso não faz dele a tua terra."

Mas, o que mais me fascinou no livro foi uma visita que Amy e Nell fizeram a uma Quinta de Açafrão, onde um Guia Turístico explicou toda a história do Açafrão. A Quinta no livro é em Essaouira ( quer dizer em árabe “a bem desenhada”), também conhecida por Mogador.
Cidade à beira-mar no Atlântico, na costa sudoeste de Marrocos, capital da província homónima, que faz parte da região
Marrakech-Tensift-Al Haouz  é Património Mundial da UNESCO.

O açafrão é a especiaria mais cara do mundo e a marroquina orgulha-se de ser uma das melhores. A produção de açafrão concentra-se maioritariamente na região do Vale de Ourika, a 30 quilómetros de Marraquexe.

Na pequena aldeia de Tnine Ourike há algumas quintas de açafrão que estão abertas ao público. O açafrão é uma planta pequena e muito delicada. Para extrair os pequenos filamentos vermelhos da flor são precisas muitas horas de trabalho meticuloso das muitas mulheres marroquinas que assim encontram ocupação na época da colheita da especiaria.
Para ver campos de flores lilases então temos de visitar a quinta no final de Outubro início de Novembro, altura em que a flor abre e logo depois é colhida. Nessa altura é também interessante observar o trabalho das mulheres na colheita. O trabalho totalmente manual, a pouca quantidade extraída e a sua qualidade superior, fazem do açafrão o tesouro desta região.
Taliouine (com uma população de 5.000 pessoas) continua a capital e o núcleo industrial de açafrão de Marrocos. O rico solo vulcânico da região possui excelente drenagem, o que é importante para a saúde dos bulbos, e o clima.
Taliouine é uma cidade do sudoeste de Marrocos, situada a meio caminho entre Agadir e Ouarzazate, que faz parte da província de Taroudant e da região de Souss-Massa-Draâ, conhecida pelo seu casbá e pelo açafrão de primeira qualidade. A cidade, habitada principalmente por berberes chleuhs, é um ponto de paragem popular na estrada entre Agadir e Ouarzazate, estrada essa que é também a rua principal na qual há muitos restaurantes e cafés. Situa-se nas montanhas do Anti-Atlas, a pouco mais de 1 000 metros de altitude, na encosta de uma montanha com cerca de 1 500 m, e é atravessada pelo uádi (oued, ribeiro) Zagmouzen. A área é caracterizada por montes áridos e rochosos cuja altitude média varia entre 1 200 e 1 400 metros. O vale fértil está coberto de argões e prolonga a planície do Haouz até ao deserto.
O célebre açafrão de Taliouine, que alegadamente é a especiaria mais cara do mundo, é cultivado em zonas um pouco afastadas da cidade, principalmente entre Tagouyamt e Aït es Sine, no planalto de Souktana a uma altitude entre 1 300 e 1 300 m, do maciço de Sirwa.
Mais de 1 500 famílias dedicam-se ao cultivo da planta (Crocus sativus) em cerca de 3 000 parcelas que ocupam pouco mais de 500 ha (750 ha segundo outras fontes). A especiaria é usada em culinária, medicina, cosméticos e como corante e pigmento. Para produzir um quilograma de especiaria são necessários entre 140 e 150 mil flores. 95% do açafrão produzido em Marrocos é proveniente de Taliouine, que na prática é a única área de África onde é cultivada aquela planta. Anualmente são produzidas cerca de 3 200 kg de açafrão, o que corresponde a mais de 450 milhões de flores, o que faz de Marrocos o quarto produtor mundial, a seguir ao Irão, Índia e Grécia. A produção rende cerca de 6,5 milhões de dirhams (575 000 euros, 1 400 000 reais). Cerca de dois terços da produção é exportada. Estima-se que o açafrão dê emprego a mais de 12 000 pessoas.
A Cooperativa Souktana de Açafrão de Taliouine, que produz açafrão certificado pela ECOCERT está aberta ao público e ali é mostrado aos visitantes como o produto é preparado.

Juntamente com o açafrão, cujos campos são rodeados de oliveiras e amendoeiras, na região são cultivadas outras plantas medicinais.
Se existe algum ingrediente que podemos comparar com o diamante, esse certamente é o açafrão, mas não por suas características físicas, e sim pelo seu altíssimo preço. Ingrediente fundamental na Paella espanhola e no Risoto ala Milanese, o açafrão é sinónimo de luxo desde a antiguidade.
O açafrão, que em Marrocos se diz Zafran, é nada menos do que o pistilo da flor Crocus sativus, que possui cor lilás, e mede apenas 20 cm.
O açafrão é extraído dos estigmas de flores de Crocus sativus, uma planta da família das Iridáceas. É utilizado desde a Antiguidade como especiaria, principalmente na culinária do Mediterrâneo — região de onde a variedade é originária — no preparo de risotos, aves, caldos, massas e doces. É um ingrediente essencial à paelha espanhola. É tida como uma das especiarias mais caras do mundo uma vez que, para se obter um quilograma de açafrão seco, são processadas, manualmente, cerca de 150 000 flores, e é preciso cultivar uma área de aproximadamente 2 000m². Quando seca, a flor desprende de seus órgãos um pigmento amarelo e um óleo volátil, tradicionalmente usado como corante de tecidos.
Há séculos é também empregado para fins medicinais. Historicamente foi utilizado no tratamento do câncro e de estados depressivos. Tais aplicações têm sido pesquisadas atualmente. Efeitos promissores e seletivos contra o câncro têm sido observados in vitro e in vivo, mas não ainda em testes clínicos. Efeitos antidepressivos também foram encontrados in vivo e em estudos clínicos preliminares. Há portanto interessantes perspectivas de uso dos extratos de açafrão na fitoterapia racional.
Não deve ser confundido com a cúrcuma, também chamada de açafrão-da-terra, ou açafrão-da-índia que é um pó amarelo proveniente de uma raíz parecida com a do gengibre, mas é de cor laranja.
Seu cultivo é fácil, e o alto preço se justifica pelo enorme trabalho exigido para extrair de flor em flor o pistilo. O processo de obtenção do açafrão consiste em apenas quatro etapas, mas muito trabalhosas: Cultivo, colheita, separação e secagem. Após apanhar as flores, retira-se o pistilo que possui cor vermelha. Em seguida, leva-se o pistilo para uma secagem (maneira encontrada para conservar o açafrão). Depois de feita a secagem, o açafrão original está pronto para ser usado.

O açafrão é e sempre foi a especiaria mais cara e fina existente. 
Cultivado na Ásia desde a antiguidade, foi levado para a Espanha pelos árabes há mais de mil anos, e com o passar do tempo, a Espanha tornou-se a maior produtora de açafrão do mundo, com 70% da produção mundial. É cultivado também na maioria dos países do mediterrâneo, e em outros países como Irão, e Marrocos.
A época ideal para plantar a flor do açafrão, é entre junho e julho, com colheita entre outubro e novembro. Como acontece com a maioria dos ingredientes, as condições climáticas e do solo podem influenciar no sabor do açafrão, e por isso o espanhol é considerado o de melhor qualidade. Névoa e umidade são condições ideias para as flores de açafrão. Os pistilos que normalmente possuem três filamentos são extremamente aromáticos, e sua principal função é dar uma tonalidade amarelada para a comida, além de fornecer um sabor diferenciado.
O preço do açafrão se justifica pelo intenso e minucioso trabalho manual durante o processo, principalmente na etapa de retirar o pistilo. Para 1 kg de açafrão, são necessárias 150 mil flores, tornando o produto ainda mais valorizado. Pelo alto preço e pelo grande trabalho empregado, a quantidade de falsos açafrões existentes é muito grande. Não existe açafrão barato em nenhum lugar, sendo ainda mais caros nos países que não são produtores.
Com o grama em torno de $5, e o kg variando de 3 a 20 mil euros, o açafrão é um ingrediente único e fundamental ao preparo de alguns pratos. Possui um sabor marcante, difícil até mesmo de explicar. O açafrão é resultado de um trabalho delicado, e que necessita de muito volume pelo fato dos pistilos serem muito pequenos e bem leves.
Originalmente cultivado na região do Vale de Ourika, é na pequena aldeia de Tnine Ourike que encontramos algumas quintas de Açafrão, podendo ser apreciadas pelo público em geral.
Açafrão é uma delicada planta que possui uma flor, a qual dela são extraídos seus filamentos vermelhos, para isso é necessário muito cuidado e horas de trabalho. Normalmente esse tipo de trabalho é executado por mulheres marroquinas numa determinada época de colheita. Digamos que a colheita do açafrão agrega muito valor para as mulheres na cultura do Marrocos.
Considerado o ingrediente mais caro da gastronomia, é muito confundido com o açafrão da terra, mas o verdadeiro é uma raridade e quase um tesouro. Para terem uma ideia, um quilo de açafrão precisa de cerca de 150 flores mil flores, cada flor contém apenas 3 filamentos vermelhos de açafrão e são colhidos um kilo diariamente.
Na questão económica, podemos dizer que comprar açafrão é o mesmo que comprar ouro. Um quilo pode chegar ao valor de até 35 mil euros, o mesmo peso de ouro custa 45 mil –  por isso, dizer que o açafrão tem quase o peso do ouro, não é assim tão fora da realidade.
Para quem deseja aproveitar o máximo desse tempero tão exepcional, a dica é dissolve-lo em água para ter alta concentração de sabor e aroma. Ele sempre dá um toque final nos pratos, mas se usado de forma errada pode literalmente amargar tudo. Usar Açafrão em molhos e com acompanhamentos, tornou-se a forma mais popular de consumo. O creme de açafrão com risoto é o que mais se destaca entre os pratos mais pedidos mundo fora.
A pouca quantidade extraída por colheita e a alta qualidade faz o açafrão ser esse tesouro tão amado e idolatrado.

Aqui no livro, a mãe de Nell tinha uma quinta de açafrão na Cornualha no Reino Unido, e fiquei intrigada como o Açafrão foi parar ao Reino Unido, e como os ingleses se tornaram produtores de açafrão. No livro, Glenn explica a Nell como isso aconteceu através dos Fenícios que levaram o Açafrão para lá.
Ele teve a sua origem no Sudoeste da Ásia, depois foi levado para a Ásia Central, e na Europa foi cultivado pela primeira vez na Grécia.
Os árabes chamam-lhe Za’fran.
Em Marrocos dizem Zafran.
No Reino Unido, dizem Saffron.
Na França dizem Safrón.
Na Espanha dizem Safrà.
Na Itália dizem Zafferano.
Na Grécia dizem Krokos.

Antigas lendas gregas contam que audaciosos marinheiros embarcaram em viagens longas e perigosas à remota ilha de Cilícia, onde viajaram para encontrar o que consideravam como o açafrão mais valioso. A lenda helénica mais conhecida do açafrão é a do Croco e da Esmílace: o lindo e jovem Croco vai em busca da ninfa Esmílace, nos bosques próximos a Atenas. Num interlúdio galanteador sobre amor idílico, Esmílace é lisonjeada pelos avanços apaixonados dele, mas logo se cansa de suas intenções. Ele insiste mas ela resiste. Ela enfeitiça Croco e ele transformar-se-ia então num açafrão croco. Seus estigmas alaranjados e radiantes foram criados como um brilho de uma paixão imortal e não correspondida.
Para os antigos mediterrâneos, o açafrão encontrado na cidade costeira siciliana de Solos era de grande valor, particularmente para uso em perfumes e pomadas. Entretanto, Heródoto e Plínio, o Velho classificaram os concorrentes açafrões assírio e babilónio do Crescente Fértil como os melhores para o tratamento gastrointestinal ou renal. O açafrão grego da Caverna de Corício do monte Parnasso também foi importante: a cor do croco de Corício é mencionada na obra Argonautas de Apolónio de Rodes e a fragrância do croco usada nos epigramas de Marcial.

Cleópatra, que viveu no Egito ptolemaico, usava um pouco de açafrão em seus banhos quentes, pois apreciava as suas propriedades cosméticas e de coloração. Ela usava o açafrão antes de se encontrar com homens, acreditando que ele tornaria o ato sexual ainda mais prazeroso. Os curandeiros egípcios usavam o açafrão para tratar todas as variedades de distúrbios gastrointestinais. Para dores estomacais com hemorragia interna, o tratamento egípcio consistia das sementes do açafrão croco misturadas e esmagadas com restos de árvores aager, gordura de gado, coentro e mirra. Essa pomada ou cataplasma era aplicado no corpo. Os médicos acreditavam que isso “expelia o sangue pela boca ou pelo reto, como se fosse um sangue de porco cozido”. Os problemas urinários também eram tratados com uma emulsão à base de óleo feita de flores jovens de açafrão e grãos torrados. Nos homens, isto era usado topicamente. Já as mulheres, ingeriam uma preparação mais complexa.

Na era greco-romana, o açafrão era largamente comercializado pelos fenícios no Mediterrâneo. Seus clientes iam desde fabricantes de perfumes em Roseta, no Egito, até médicos em Gaza e na cidade vizinha de Rodes, que por sua vez usavam bolsas de açafrão a fim de camuflar a presença de conterrâneos mal cheirosos durante as idas ao teatro. Para os gregos, o açafrão era diretamente associado a cortesãs e conselheiras conhecidas como heteras. Grandes tinturarias de Sídon e Tiro usavam o açafrão em banhos como ingrediente substituto. Ali, vestes reais eram mergulhadas três vezes em tinturas roxas. Para as vestes de pretendentes reais e plebeus, os últimos mergulhos eram feitos com açafrão, que criava uma tonalidade roxa menos forte.
Os antigos gregos e romanos valorizavam o açafrão como perfume ou desodorante e o espalhavam em lugares públicos, como saguões reais, cortes e anfiteatros. Como exemplo, quando Nero chegou a Roma, as pessoas espalharam açafrão pelas ruas. Além disto, os romanos ricos também usavam o açafrão em banhos diários. O açafrão era usado como rímel, em vinhos, em saguões e ruas como pot-pourri e oferecido a divindades. Colonizadores romanos levaram o açafrão quando povoaram a Gália romana ao Sul, onde foi amplamente cultivado até a invasão bárbara da Itália em 271. Teorias opostas alegam que o açafrão somente retornou à Gália com os mouros do século VIII ou com o Papado de Avinhão no século XIV.

O cultivo do açafrão na Europa sofreu uma redução acentuada após a Queda do Império Romano do Ocidente. Como consequência, durante muitos séculos, o cultivo do açafrão era raro ou praticamente inexistente em toda a Europa. Isto mudou quando a civilização islâmica se espalhou pelo Norte da África, fixando-se no processo na Península Ibérica, bem como por algumas regiões da França e no Sul da Itália. Há uma teoria que afirma que os árabes trouxeram o açafrão para a região de Poitiers após perderem a Batalha de Tours para Carlos Martel em 732. Dois séculos após a conquista da Espanha, os árabes plantaram açafrão nas regiões das províncias de Andaluzia, Castela, Mancha e Valência.
Na França, é provável que o cultivo de açafrão tenha iniciado durante o século XIII. Possivelmente, o crocus sativus se popularizou na Espanha e no Oriente Médio com os peregrinos, comerciantes e cavaleiros. Há registos de que foi usado pela primeira vez no sudoeste do Reino Unido por volta do ano de 1250. É provável que reis e religiosos tenham tentado cultivar o crocus sativus naquela época: o açafrão era raro, caro e muito requisitado. O crocus sativus podia ser cultivado em regiões de latitude na França. Até o século XIV, o uso do açafrão para apimentar e colorir a comida surgiu em livros de receitas, como "Viandier", escrito pelo cozinheiro Guilherme Tirel dos reis Carlos V(r. 1364–1380) e Carlos VI (r. 1380–1422). E, por volta do século XV, o cultivo local do açafrão passou a ser feito com os impostos cobrados pelo poder religioso, que revelam o quão importante foram as culturas de açafrão. Por exemplo, em 1478, o imposto cobrado pelo bispo de Albi referente ao açafrão atingiu 1/12 da produção de açafrão.

A procura por açafrão aumentou na época em que a Peste Negra atingiu a Europa, entre 1347 e 1350. Dentre os que mais procuravam pela iguaria, estavam os infectados pela peste para utilizar o açafrão para fins medicinais. Mesmo assim, muitos dos agricultores que ainda o cultivavam acabaram por morrer. Grandes quantidades de açafrão não-europeu foram encontradas - portanto, houve importação. Os melhores fios de açafrão muçulmano estavam indisponíveis para os europeus por causa das hostilidades geradas pelas Cruzadas. Assim, Rodes e outros lugares eram os principais fornecedores para a Europa Central e do Norte.
O açafrão foi um dos pontos de hostilidade entre o declínio da aristocracia rural e arrivista e os comerciantes cada vez mais ricos. A "Guerra do Açafrão", que durou 14 semanas, ganhou força quando 363 kg de açafrão foram roubado por nobres. A carga, que estava a caminho da cidade de Basileia, teria, no mercado de hoje, preços avaliados em mais de 500 000 dólares. Essa remessa finalmente voltou, mas o comércio do século XIII foi alvo de pirataria em massa. Os ladrões que operavam nas águas do Mediterrâneo muitas vezes ignoravam as joalherias e prefeririam roubar o açafrão comercializado em Génova e no Vietname, cujo destino era a Europa. Preocupada por tal aborrecimento, a Basileia plantou seus próprios bulbos. Vários anos de colheitas grandes e prósperas tornaram a Basileia uma cidade extremamente próspera comparada a outras cidades europeias. Os cidadãos procuraram proteger o seu estatuto proibindo o transporte de bulbos fora da cidade. Da mesma forma, guardas foram designados a impedir que os ladrões colhessem flores ou desenterrassem bulbos. No entanto, dez anos depois, a colheita de açafrão diminuiu e a cidade de Basel abandonou o hábito da colheita.

A região de Nurembergue tornou-se o centro de comercialização de açafrão na Europa. Os comerciantes de Veneza adotaram as regras de comercialização do Mediterrâneo, negociando produtos vindos da Sicília, França, Espanha, Áustria, Creta e Grécia, além do Império Otomano. Produtos falsificados também circulavam entre as mercadorias: embebidos em mel, misturados com pétalas de cravo-de-defunto ou mantidos em porões húmidos - tudo para agregar um volume rápido e barato. As autoridades de Nurembergue, irritadas, aprovaram o código Safranschou para regularizar o comércio de açafrão. Assim, falsificadores foram condenados, presos e executados por imolação.

A Inglaterra foi o próximo país a se tornar um grande produtor. Uma teoria afirma que a colheita se disseminou pelas regiões costeiras do Leste da Inglaterra no século XIV, durante o reinado de Eduardo III (r. 1327–1377). Nos anos seguintes, o açafrão passou a ser cultivado em toda a Inglaterra. Norfolk, Suffolk e o Sul do Condado de Cambridge foram especialmente acometidos com bulbos. Durante os séculos XVI e XVII, Rowland Parker apresentou seu cultivo na aldeia de Foxton como "feito por pessoas que detém uma pequena quantidade de terra". Um hectare de açafrão plantado poderia render uma colheita que possibilitaria "uma cultura muito rentável, uma vez que havia abundância de mão-de-obra não remunerada disponível; o trabalho não remunerado era uma das características básicas da agricultura e assim continuaria por mais dois séculos.”
Até então, o cultivo de açafrão alastrou-se por todo o Reino Unido. O açafrão desenvolveu-se principalmente em Albi, Angoumois, Gascónia,Gatinais, Normandia, Périgord, Poitou, Provença e Quercy. O seu declínio misterioso começou no século XVIII, possivelmente devido a doenças fúngicas pandémicas destruindo bulbos e safras, a invernos particularmente frios e ao mercado de concorrentes de países do Mediterrâneo.
Na Inglaterra, o cultivo continuou somente nos solos bem drenados do norte da zona rural de Essex. A cidade de Essex chamada Saffron Walden tem o seu nome como um centro de cultura e comércio do açafrão. O nome original era Cheppinge Walden, mas foi modificado no intuito de intensificar a importância da cultura para o povo da cidade - nesta cidade, por exemplo, ainda se encontram flores de açafrão. Visto que a Inglaterra surgiu a partir da Idade Média, sentimentos puritanos ascendentes e novas conquistas ameaçaram o cultivo e o uso do açafrão pelos ingleses. Partidários puritanos favoreceram alimentos cada vez mais austeros, sem adornos e sem temperos. O açafrão também foi uma cultura de trabalho intensivo, que se tornou uma desvantagem crescente à medida que os salários e os custos de oportunidade do tempo aumentaram. E, então, um afluxo de especiarias mais exóticas do leste devido ao renascido comércio de especiarias, significava que os ingleses, bem como outros europeus, tinham vários temperos diferentes e mais baratos.
Essa tendência foi registada pelo reitor de Manchester, o reverendo William Herbert. Ele coletou amostras e informações a respeito de diversos aspectos sobre o açafrão. Ele se preocupava com o declínio no cultivo de açafrão ao longo do século XVII e o início da Revolução Industrial. A introdução de milho e batatas, facilmente cultiváveis, não ajudou. Além disso, a elite tradicionalmente composta pelo mercado de açafrão, estava agora cada vez mais interessada nos interessantes produtos recém-chegados, como chocolate, café, chá, e baunilha. O cultivo significativo de açafrão prevaleceu apenas no sul da França, na Itália e na Espanha, onde a colheita de açafrão era culturalmente primitiva.








terça-feira, 2 de julho de 2019

CANTA





Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um centavo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada
amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu
corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para
cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida, talvez beleza, orgulho,
pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.


JOAQUIM PESSOA
in, VOU-ME EMBORA DE MIM






The energy of a place





It’s said that after arriving in a new place, we will have replaced the entirety of the water in our bodies with that of the local watershed in just a few days. Though these adaptations happen at a biological level, we are vastly unconscious of the implications a place has on our psyche. Just as humans carry an energetic signature, so too do geographies. However, like fish swimming in water, we are rarely aware of what energy a place holds until we leave it, or return to it after time away.
Toko-pa Turner



segunda-feira, 1 de julho de 2019

DESDE O CHÃO





A pele porosa do silêncio 
agora que a noite sangra nos pulsos 
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro 
violento da beladona cega a terra. 
Cega também, a boca procura 
trabalhos de amor. Encontra apenas 
o nó de sombra das palavras.

Palavras…Onde um só grito 
bastaria, há a gordura 
das palavras. Palavras…, 
quando apetecem claridades súbitas, 
o sumo estreme, a ponta extrema 
do teu corpo, arco, flecha, 
corola de água aberta 
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas, 
eis as areias. Cala-te. 
Deita-te. Debaixo dos meus flancos. 
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.


Eugénio de Andrade
in, Obscuro Domínio






Dominar a nossa energia interior





Condori disse a Kantu:
- Quando conseguires activar a tua Energia Vital, poderás estender a ponte que liga à eternidade.
Só então começarás a saber como lidar com a Pachachaka.
Hoje, a energia vital, a sexualidade, o sexo, são entendidos como um acto puramente genital.
As pessoas julgam que o sexo está apenas ligado ao prazer ou à procriação e, pelo contrário, não percebem que se trata do fluxo de uma energia vital que atinge os recantos mais escondidos do nosso Ser. É a energia que favorece a união do mundo visível com o mundo invisível, e não contempla simplesmente o acto de reprodução como fim em si mesmo. É um acto que dá saúde, criatividade, inspiração. O sexo, enquanto energia, modela a nossa atitude social, psicológica, moral, em relação ao outro e a nós próprios, estabelece os limites da consciência e da responsabilidade.
- Mas, o que é o sexo? - perguntou Kantu.
- O sexo é o modo como a energia vital se manifesta nos seres vivos - respondeu-lhe Tata Condori- Todos os seres vivos respondem a determinadas leis que têm a sua origem precisamente no sexo. A diferença entre o homem e a mulher, entre o masculino e o feminino, parece conduzir a extremos opostos; na realidade, estes extremos encarnam as diferenças que servem apenas para nos recordar de que existe uma unidade superior que se baseia na bissexualidade e que pode tender para um dos extremos consoante a inclinação: mais para o masculino ou mais para o feminino.
No início, a manifestação desta energia é fundamentalmente feminina. Tudo o que existe a partir da criação, da reprodução, da gestação do novo ser é feminino. O homem fecunda, mas é a mulher que cria e desenvolve a vida. Por isso, a parte feminina é a coluna, a parte inicial da vida.
- Não percebo - confessou Kantu.
- É muito simples.
Nesta parte, chamada Chaka - disse, indicando a zona entre o osso sacro e o monte de Vénus - reside a energia vital, que, na mulher é uma energia criativa muito poderosa. É por essa razão que a mulher possui uma sexualidade e uma energia muito mais fortes que as do homem, mas das quais não tem consciência por ser vítima de uma série de condicionalismos e de tabus culturais que, por sua vez, mascaram os interesses económicos, políticos, sociais e religiosos. Alguns homens tentaram dominá-la, subjugá-la. O sexo feminino é temido e invejado; só os verdadeiros homens aprendem a respeitar e a valorizar esta parte íntima da mulher.
Consciente de que , mais cedo ou mais tarde, teria de aprender a activar a sua própria energia interior, Kantu perguntou:
-Sei que daqui a uns dias vamos começar com o Caminho da Pachachaca, mas por que não posso começar já?
- Antes tenho de te explicar algumas coisas sobre os orgãos genitais, porque é com eles que vamos trabalhar. Nós, curandeiros, chamamos ao orgão genital feminino Paqarina, que significa " lugar do nascimento", ou "lugar em que é conservado o destino da humanidade". Outro nome que lhe damos é Ullana, ou seja, "lugar do conhecimento", e é por isso que o consideramos sagrado. Aí, o homem pode compreender as Leis Universais, imutáveis e soberanas, que estão para lá do tempo e do espaço terrenos e que dependem da consciência divina que existe em cada um de nós.
(...)
Isto que te transmito, é um meio de transmissão secreto, cujas origens remontam a tempos imemoráveis, património dos Qhapaqkuna, uma antiquíssima irmandade espiritual andina cujos membros trabalhavam para despertar o sol Interior existente em cada um de nós, e que trabalhavam em segredo para manterem viva a luz da espiritualidade nos Andes.
Condori continuou:
- O homem quando se aproxima da mulher deve fazê-lo numa atitude quase de adoração, de contemplação, porque só através da porta feminina poderá abrir-se ao infinito. e a mulher, por seu lado, terá de estender a ponte de energia existente entre o seu sexo e o seu coração.
Pacha é o termo que o nosso povo utiliza para designar o tempo e o espaço, para além de designar também a Terra como ente espiritual. Chaka significa a ponte, algo construído entre dois pontos de apoio, e é a palavra usada para indicar o ponto de cruzamento entre a linha vertical e a linha horizontal. Por seu lado, Chacana, que é o ponto de encontro e centro da criação divina, é o osso sacro. Nesta cavidade, jaz enrolada sobre si mesma a Amaru, a serpente de energia que sobe ou desce pela coluna vertebral pondo em contacto e em função determinados centros de poder do nosso corpo.
Ou seja, nós aqui não iremos na direcção a que estás habituada, que se reduz à busca do prazer.
Nós iremos trabalhar a contemplação e a percepção desse mesmo prazer.
Sê sempre uma observadora do teu corpo e descobrirás que ele é como um instrumento musical sofisticado com o qual um músico, consoante a sua habilidade, pode executar autênticas sinfonias, acordes simples, ou apenas sons desgarrados. a verdadeira arte de activar a energia interior consiste em criar uma sinfonia capaz de te unir ao Universo: uma sinfonia de amor, de expansão para o alto.
(...)
Condori prosseguiu:
- Chegou o momento de obrigar Amaru a erguer-se.
Esta serpente desperta e move-se em sintonia com os nossos pensamentos, sentimentos e acções, levantando-se até à cabeça. Amaru está em constante movimento: levanta-se e baixa-se, sobe e desce, seguindo os impulsos que nós lhe damos. Por meio de determinadas práticas físicas, mentais e espirituais, somos capazes de elevar esta energia para o alto, mas, do mesmo modo, também somos capazes de a aprofundar até aos níveis mais baixos. Amaru é uma energia de Fogo de que nos servimos para queimar todos os defeitos físicos, mentais e espirituais do nosso corpo e para nos convertermos em seres de energia limpa e pura, a única que nos permite aproximarmo-nos do Grande Espírito. Quanto mais alto conseguires elevar esta tua energia, tanto mais a sensação que experimentares te aproximará do Divino.
Para entenderes isto, tens de viver a experiência, tens de ter consciência das sensações que experimentas quando a energia começa a mover-se dentro de ti.
Aquele que consegue utilizar esta energia segundo a própria vontade adquire a capacidade de usar todo o poder de que a natureza o dotou.
Ainda que em quantidades diferentes, todas as pessoas possuem esta energia.


Hernán Huarache Mamani
in, A Profecia da Curandeira