segunda-feira, 11 de julho de 2016

.............a delicadeza de estar disponível para o outro





Sempre existe em cada um de nós uma palavra não dita, um sentimento inconfesso e reprimido, um desejo implícito que quer ter vida. O nosso eu interno precisa de ar. Precisa respirar um pouco aqui fora, no mundo onde talvez ele possa ser compreendido e amado. Mas no quotidiano das urgências e dos prazos, onde o Ter impera e o Ser vai perdendo mais e mais status, já não há muito espaço para a expressão do sentir.

E, se poucos são aqueles que param para ponderar acerca das próprias emoções e desejos, quem teria, nos dias de hoje, tempo e interesse de ouvir o desabafo do outro?

Na tentativa de sublimar os seus conflitos internos, os poetas versejam o que punge, os pintores delineiam as emoções em traços e tons, os escultores se esmeram em dar expressão concreta aos abstratos da alma, os músicos dão som aos ais e às alegrias mais profundas. Mas, e aqueles que não se inclinam às artes? A estas, que correspondem à esmagadora maioria de nós, resta a velha terapêutica da amizade: o desabafo.

Desabafar é fazer fluir a palavra para dar vazão a uma emoção afogada em nossa represa interior. A dor pode deslizar nas ondas das frases, a alegria pode transbordar dos verbos e dos substantivos mais delicados… O desejo, a frustração, tudo muda quando dito, quando confessado. A emoção recebe rajadas de luz. Mas poucos, infelizmente, são aqueles que, hoje, ao apregoarem ou até jurarem uma sincera amizade, emprestam os seus ouvidos ao outro.

Penso que talvez a maioria de nós não perceba que quem desabafa não quer conselhos. Não quer norte. Não quer reprimendas ou aplausos. Só quer saber que outro humano se importa. Que outro humano é capaz de ouvir e talvez dimensionar a sua dor. Quer sentir que no mundo há outros que também sentem e que compreendem os seus vazios, ou as suas falsas plenitudes.

Talvez o que temamos seja ver no outro a nossa dor espelhada a que há muito não notamos, e que está abafada, aturdida, asfixiada pela pressa quotidiana, mas que, em silêncio, sangra. Talvez o que tenhamos, de facto, seja o medo de constatar a imensa humanidade que ainda resta em nós, embora nos cerquemos de máquinas e números e metas concretas.

Não ouvir, não querer ler no outro as linhas mais significativas do seu íntimo é prova incontestável de que a amizade não existe. A amizade consiste na delicadeza do “estar disponível” para sentir o outro. Ela é o exercício da empatia.

Aquele que é incapaz de ouvir, por mais bem-sucedido que seja no mundo dos factos, é ainda indigente nos terrenos da alma. É estrangeiro no solo da afeição. E nem percebe que, de tanto omitir-se de ouvir, a sua alma emudece e se esquece, um tanto mais e a cada dia, do existir.




Nara Rúbia Ribeiro


GOLDMAN SACHS - O BANCO QUE DIRIGE O MUNDO




Título Original: Goldman Sachs: Les Nouveaux Maîtres du Monde (2011)
De: Jean-Luc Leon
Idioma: Francês
Narrado e legendado PT

O Goldman Sachs (GS) é um dos maiores bancos de investimento mundial e co-responsável directo, com outras entidades (como a Moody’s), pela actual crise e por todas as crises bolsistas nos últimos 80 anos, a começar pelo grande “crash” de 1929.
É também um dos grandes beneficiados com as mesmas.

Chris Edges, jornalista galardoado com um Pulitzer e autor do livro “O império das ilusões”, referiu no documentário da Canal+, transmitido na TVI24, que os altos quadros da GS são «empurrados» para fora da instituição e passam a gravitar na órbita do sistema político, havendo vários ex-quadros que conseguiram posições muito próximas dos decisores do poder, desde a altura de Bush pai até Obama, o que significa que nos EUA e agora também na Europa vai ser impossível aos governos votarem contra os interesses desta corporação.

Lucas Papademos (líder grego após a renúncia de Papandreou), Mario Monti (agora à frente do governo italiano) e Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) estão entre esses ex-altos quadros da Goldman e não demorará muito para que o “polvo” se estenda a Portugal (se é que não estão já por cá), Espanha e a outros países que falsa, criminosa e especulativamente são vítimas, programadas, desta e doutras instituições americanas.


"O Banco de investimento criado em Nova Iorque em 1868 conseguiu o seu sucesso e a sua reputação à base do silêncio a toda a prova. Goldman Sachs foi a instituição bancária que correu mundo a trabalhar em segredo. Mas hoje Goldman Sachs é acusada de ter ajudado os países como a Grécia a encobrir o seu déficit. O banco de investimento ganhou milhões de dólares para ajudar a esconder a verdadeira dimensão da dívida - levando-a praticamente a dobrar de tamanho. Da mesma forma, cidades e estados americanos têm sido obrigados a cortar serviços essenciais por estarem presos a operações similares.
Um documentário que nos leva de Nova Iorque a Atenas, com paragens em Londres, Paris e Bruxelas."




 
GOLDMAN SACHS - O BANCO QUE DIRIGE O MUNDO / La Banque qui Dirige le Monde (2012) from fimda estrada on Vimeo.




De acordo com o “Wall Street Journal”, o GS aconselha os seus clientes a apostarem no colapso financeiro da Europa. Tudo gira à volta dos juros dos empréstimos.
Quando os grandes bancos declaram que determinado país está insolvente as consequências são drásticas, pois forçam essa nação a continuar a pedir empréstimos e a implementar medidas de austeridade que empobrecem a economia nacional.

Somos todos reféns deste jogo de especulação. 
Nos EUA ninguém tem poder sem a aprovação do sector financeiro.
Desde o colapso de 2008 que se tem visto que ninguém toca nessas instituições financeiras e que ninguém tem poder para detê-las. Sabe-se que saquearam o Tesouro americano e que continuam no casino da especulação como antes do estouro da bolha imobiliária.

Qualquer ideia de que é preciso legislação para controlar Wall Street é poesia, pois, apesar de tudo, continuam os derivados tóxicos, os produtos de proveniência duvidosa e agora, mais do que nunca, computadores com programas baseados em algoritmos matemáticos, vendem e compram, ao ritmo das equações, alterando os preços de bens essenciais num jogo mortal.

Nos EUA, universidades, meios de comunicação social, tribunais, partidos políticos e sectores executivos do governo, todos dançam ao som da música que eles tocam. Não há nada que o cidadão comum possa fazer. Não existe nenhum mecanismo dentro das estruturas formais do poder, que nos permita lutar contra eles. Não vivemos numa democracia, mas sim noutro estado, uma “corporatocracia” a quem o filósofo Wolin chamou de “totalitarismo invertido”, aquele que diferente do totalitarismo clássico, que se expressa através de um líder ou ditador, neste caso é dirigido por uma sociedade anónima.

Estamos a ser destruídos, financeira, política e economicamente e o GS é a jóia da coroa dessas instituições. 
Transformam tudo num mercado que exploram até a exaustão ou ao colapso.
É por isso que a crise ambiental está claramente ligada à crise económica.
A morte do império americano não é uma tragédia. O que assusta é a forma como a América está a morrer, estrebuchando como um animal ferido.
A queda dos impérios acaba quase sempre com o consumo dos recursos e guerras internas, como aconteceu na ilha de Páscoa, só que, o que se iniciou nos EUA em 2008 está a ter uma dimensão global pelo que não haverá um “oásis” para onde possamos migrar. No entanto, os grandes bancos de investimento, como abutres, andarão por aí a recolher os destroços e a se beneficiar com o colapso da civilização.


Ficamos assim com uma ideia mais clara do que é este monstro financeiro que domina a política e tem tentáculos em toda a parte.
Durão Barroso com a sua ambição desmedida já há muito tempo que passou para o lado da Máfia, a coordenar o Grupo Bilderberg.
A diferença é que agora passou a líder do maior Banco de Investimento do Mundo!
Há claramente aqui um Conflito de Interesses!!!!!
Que não devia ser permitido aos políticos com informação privilegiada.
São mais do que óbvias as ligações entre as empresas a que está ligado e os seus lobbies ao processo legislativo europeu.

Quando o Lehman Brothers faliu em 2008 e provocou a maior crise financeira desde 1929, poucos teriam previsto o impacto que tal acontecimento teria nas dívidas soberanas dos países europeus, particularmente os do sul. Em vez de atacar as causas e os responsáveis pelo sucedido (sistema financeiro internacional, politica monetária dos bancos centrais – BCE incluído, desregulamentação dos mercados), Durão Barroso culpou os governos dos respectivos países de viverem acima das possibilidades e de não possuírem disciplina fiscal. Apoiou de forma entusiástica o resgate dos países afectados de modo a evitar o colapso do Euro e do sistema BCE em caso de incumprimento dos mesmos.

As medidas de austeridade que foram impostas aos países intervencionados, e amplamente defendidas por Durão Barroso, entram em conflito directo com o projecto social europeu a qual a UE se refere incessantemente como uma bandeira sua.
As intervenções da troika aumentaram de forma exponencial a pobreza, desemprego, e miséria social, atirando milhões de europeus para o abismo. No caso Português, Durão sempre defendeu o programa de resgate e a necessidade de cumpri-lo na íntegra, sabendo perfeitamente o que isso implicaria para os seus co-cidadãos.

Durão e a Comissão Europeia utilizaram a crise para promover de forma agressiva o Fundo de Estabilidade Financeiro Europeu, a União Bancária e a União fiscal.
Estando prestes a destruir de vez a maldita noção de soberania nacional, declara publicamente que deseja uma Europa Federal. O que durante anos era a vontade secreta e não declarada de muitos Eurocratas é afirmada sem receio. O processo de integração está demasiado adiantado para ser detido.

A sua visão Europeia prevê a centralização de todo o poder efectivo em Bruxelas.
A sua comissão, constituída por pessoas que não são eleitas por sufrágio popular, ditou as regras para 500 milhões de pessoas. O estado-nação pertencerá à história. É a União Soviética renascida – a EUSSR. Ao que parece, os seus tiques de comunismo nunca desapareceram.

E como se não bastasse, agora está como Presidente não-executivo e consultor do maior banco de investimento do mundo.
Consultor?
Traidor, melhor dizendo!!!!
A Goldman Sachs conseguiu colocar os seus peões na direcção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas económicas da União Europeia:
Mario Draghi, Mario Monti, Lukas Papademos ... Durão Barroso.
Todos eles com informação e contactos privilegiados.

Isto é brincar à descarada com a cara do povinho!!!!!!!!!!!!


domingo, 10 de julho de 2016

Não se encontra o que se procura




É fácil dizer que se morre por amor, mas não é fácil de facto, morrer por amor.

A maior parte das vezes, curte-se o desgosto, limpam-se as armas e sai-se de novo em campanha. É assim para nós, nas sociedades ocidentais em que vivemos e em que aprendemos - no amor como no resto - a aplicar a tudo a Lei de Lavoisier:
"Na Natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma."


Miguel Sousa Tavares
in, Não se encontra o que se procura




....................o silêncio é um ovo às avessas



O rugido do leão ecoaria dentro de si, rasgando-lhe as horas. 
Ficou um tempo na varanda a perscrutar o escuro. 
Talvez essa quietude lhe trouxesse repouso. 
Mas o silêncio é um ovo às avessas: 
a casca é dos outros, mas quem se quebra somos nós. 

— Mia Couto


Fracasso...por Emil Cioran




A atitude heróica é o privilégio e a condenação dos desintegrados, dos fracassados.
in, Pe Culmile Disperǎrii

§

"A idade da Inocência." Quanto mais se contemplam os quadros de Reynolds, mais se persuade de que só existe um fracasso: deixar de ser criança. O paraíso projecta no passado esse estágio de nossa vida, nos consola de nossa infância desaparecida. Olha esta mão delicada que a criança repousa sobre o peito como que para defender timidamente sua felicidade… Reynolds compreendera tudo isso? Ou esses olhos pensativos expressam um vago espanto ante o que se deverá perder? Como os amantes, as crianças têm o pressentimento dos limites da felicidade.
in, Lacrimi şi Sfinţi

§

O fracasso é um paroxismo da lucidez. O mundo se torna transparente para o olho implacável daquele que, estéril e clarividente, já não se apega a nada. Mesmo inculto, o fracassado sabe de tudo, vê através das coisas, desmascara e anula toda a criação.
O fracassado é um La Rochefoucauld sem génio.
in, Lacrimi și Sfinți

§

Ter amado sempre as lágrimas, a inocência e o niilismo. Os seres que sabem de tudo e os que não sabem de nada. Os fracassados e as crianças.
in, Lacrimi şi Sfinţi

§

Sempre que um ser não encontra seu «acômodo» na existência, se encontra na presença do Mal. Deste deriva todo fracasso e, e ao ser imanente ao devir, todos os seres têm de lutar contra ele.
Na medida em que Deus não está acomodado em si mesmo, por esta deficiência de sua condição, participa do mal. Ademais, não é ele o Grande Fracassado?
Em relação ao  homem, que anda buscando seu destino desde Adão até hoje, fez-se credor da dignidade em sua luta contra o mal. Seu fracasso tem algo de reconfortante e heroico: não estando presente como ser, não tendo lugar algum na existência, criou para si uma condição a partir de sua falta de condição, de modo que ninguém pode dizer ainda se o homem é algo, nada ou tudo.
Todos sabemos, ou suspeitamos, que é um animal ou um Deus. Em todo caso, eles «estão». Mas o homem não está; pois, não é um agente de enlace entre os mundos? Ai! Oxalá o fosse! Mas no valor modal do verbo se encontra a definição mesma do Mal.
Em uma teologia «séria», que intentasse salvar Deus de forma absoluta, o mal não encontra uma explicação válida. As teodiceias se revelaram insuficientes frente a este obstáculo essencial.
A existência do mal converte o Todo-poderoso em um Absoluto decrépito. O devir engoliu seu mistério e seu poder.
O mal só é comparável a um Deus… laico.
in, Amurgul Gândurilor

 §

O experimento homem fracassou. Encontra-se em um beco sem saída, enquanto que um não‑homem é mais: uma possibilidade.
Olha fixamente nos olhos de um «semelhante»: que te leva a crer que não podes esperar mais nada? Todo homem é muito pouco…
in, Amurgul Gândurilor


§

Só somos nós mesmos pela soma de nossos fracassos.
in, Breviário de Decomposição

§

“Para quê?”, adágio do Fracassado, de um simpatizante da morte…
in, Breviário de Decomposição

§

Génese da tristeza – Não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: nossos fracassos provêm de nossa incapacidade para conceber o Paraíso e aspirar a ele, como nossos mal-estares da fragilidade de nossas relações com o absoluto. “Sou um animal religioso incompleto, padeço duplamente todos os males” – adágio da Queda, que o homem se repete para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre à moral, decide seguir, expondo-se ao ridículo, seu conselho edificante. “Resolve-te a não estar mais triste”, lhe responde esta. E ele se esforça por entrar no universo do Bem e da Esperança… Mas seus esforços são ineficazes e antinaturais: a tristeza remonta à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original…
in, Breviário de Decomposição


§

Fracassar na vida é ter acesso à poesia — sem o suporte do talento.
in, Silogismos da Amargura


§

Na antiguidade, o filósofo que não escrevia mas pensava, não se expunha ao desprezo; desde que nos prostramos ante a eficácia, a obra se converteu no absoluto do vulgo; os que não produzem são considerados “fracassados”. No entanto, esses “fracassados” teriam sido os sábios de outros tempos; eles reabilitarão a nossa época por não haver deixado traços nela.
in, Silogismos da Amargura

§

“Senhor, sem ti estou louco, mas mais louco ainda contigo!” Esse seria, na melhor das hipóteses, o resultado de um reatamento de contacto entre o fracassado de baixo e o fracassado do alto.
in, Silogismos da Amargura

§

Só os povos fracassados se aproxima de um ideal “humano”; os outros, os que triunfam, portam consigo os estigmas de sua glória, de sua atrocidade dourada.
in, Silogismos da Amargura


§

A “experiência homem” fracassou? Já havia fracassado com Adão. Entretanto, é legítimo perguntar: teremos bastante imaginação para parecer ainda inovadores, para agravar tal fracasso?
Enquanto esperamos, perseveremos no erro de ser homens, comportemo-nos como farsantes da Queda, sejamos terrivelmente frívolos!
in, Silogismos da Amargura

§

Toda forma de impotência e de fracassos comporta um caráter positivo em ordem metafísica.
in, Le Mauvais Demiurge


§

Nisto se reconhece aquele que tem disposições para a busca interior: colocará o fracasso por cima de qualquer êxito, inclusive buscará esse fracasso; inconscientemente, é claro. E é que o fracasso, sempre essencial, nos desmascara, nos permite ver-nos como Deus nos vê, enquanto que o êxito nos distancia do que há de mais íntimo em nós e em tudo.
in, De l’inconvenient d’être Né

§

Uma existência constantemente transfigurada pelo fracasso.
in, De l’inconvenient d’être Né

§

Não é o temor de empreender algo, mas o temor de consegui-lo o que explica mais de um fracasso. in, De l’inconvenient d’être Né

§

"Você errou em contar comigo." Quem pode falar assim? Deus e o Fracassado.
in, De l’inconvenient d’être Né

§

O fracasso, inclusive reiterado, parece sempre novo; enquanto que o êxito, ao multiplicar-se, perde todo interesse, todo atractivo. Não é a desgraça, mas la felicidade insolente o que conduz ao tom ágrio e ao sarcasmo.
in, De l’inconvenient d’être Né

§

Para o ansioso não há diferença entre êxito e fracasso. Sua reação frente a ambos é a mesma. Os dois o molestam igualmente.
in, De l’inconvenient d’être Né

§

O método mais eficaz para fazer amigos fiéis é felicitá-los por seus fracassos.
in, Aveux et Anathèmes


§

Não existe maior obstáculo para conseguir a libertação que a necessidade de fracasso.
in, Aveux et Anathèmes

§

Proceder de um país onde o fracasso constituía uma obrigação e onde "não pude me realizar" era o leitmotif de todas as confidências.
in, Aveux et Anathèmes


§

Viver com o temor de entediar-me em todo lugar, inclusive em Deus… Na obsessão desse tédio extremo vejo eu a razão do meu fracasso espiritual.
in, Aveux et Anathèmes

§

Salvação? Quem pretende salvar-se? Eu me escondi do tempo. Tenho o privilégio do desespero, admiro os insatisfeitos e os fracassados, que deixam fugir suas respostas. A história entronizou os atrozes. E n o que concerne ao tempo, não desejo usufrui-lo, nem no agora como os poderosos, nem no porvir como os encurralados por seus sonhos sonhos.
in, Entrevista a Gonzalo Márquez Cristo




sábado, 9 de julho de 2016

Interromper a vida de vez em quando




"O que o Amor nos permite é interromper a vida de vez em quando. 
É essa a sua maior vantagem, podermos dizer à vida que espere um bocadinho porque temos coisas mais interessantes para fazer, seja sexo, um passeio à beira-mar ou um abraço apertado.
(...)
Quando não Amamos ninguém estamos sempre a viver. 
Não é que viver seja mau, mas assim sem interrupções pode cansar um bocado.
Aliás, sempre me pareceu que é a vida que estraga o Amor e não contrário.
O Amor tenta ajudar a vida mas ela não costuma deixar.
Depois trama-o."




O Homem não Deseja a Paz




Que estranho bicho o homem.
O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em acção. Da paz se diz que é «podre», porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inactividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz.
Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de facto é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.


Vergílio Ferreira
in, Conta-Corrente IV



O Amor é o Homem Inacabado





Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                             [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                          [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                             [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                          [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                   [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.


Paul Eluard
in, "Algumas das Palavras"



sexta-feira, 8 de julho de 2016

A Chegada do Amor


Cais das Colunas
Lisboa



O amor chegou, e desembarcou no cais, 
onde ninguém o esperava, fazendo 
a cidade inteira estremecer, como se 
o amor a tocasse.

Mas alguém o viu sair 
do barco, e levou-o para a fila 
da alfândega, onde lhe perguntaram: "Donde 
vem? Que traz consigo? Mostre 
o passaporte." O amor não percebeu 
o que lhe pediam; pôs o arco sobre 
a mesa, e juntou-lhe as flechas.

“Tudo apreendido: não queremos agressões 
nesta cidade; proibidas as armas brancas.” E 
o amor, sem passaporte, ficou no cais, 
por entre sacos de lixo e vagabundos 
sem nada para fazer.

E à noite, quando a cidade 
adormece, todos perguntam 
quando chega o amor.


Nuno Júdice 
in “A Chegada do Amor”





Mooji - Eu Não Preciso Ser Amado Por Ninguém - Moscovo

La mamma morta




Andrea Chénier 
é uma ópera em quatro actos 
do compositor Umberto Giordano, 
com um libretto italiano de Luigi Illica. 


A ópera é baseada na vida do poeta francês André Chénier (1762 - 1794), que foi executado durante a Revolução Francesa.

A primeira performance aconteceu no Teatro Alla Scala em Milão no dia 28 de Março de 1896.

Acontece nos arredores de Paris, por volta de 1789 e 1793, no Castelo di Coigny durante a Revolução Francesa.
O popular poeta Andrea Chénier vai a um baile dado pela Condessa de Coigny, e apaixona-se pela irmã da Condessa, Maddalena de Coigny. A condessa pede-lhe para cantar e ele recusa, mas Maddalena, a flertar, pede-lhe para cantar e sugere o tema amor, ele aceita mas canta sobre a miséria, o sofrimento dos pobres e sobre os nobres.
Com excepção de Maddalena, todos os convidados se sentem ofendidos pelo ideais sociais e crenças de Chénier.
Chénier é agora um revolucionário e um homem procurado.
Seu amigo Roucher aconselha-o a partir e consegue um passaporte. Chénier está apaixonado por Maddalena e nega-se a ir sem ela. Maddalena abandona a sua família, com o desejo de se unir à Revolução.
Gérard, que também ama Maddalena vai ao encontro de Chénier.
Duelam com espadas e Gérard sai ferido.
Gérard a pensar que vai morrer, adverte Chénier sobre a fúria dos seus inimigos e pede que salve Maddalena.
Quando chegam pessoas uns minutos depois, Gérard diz-lhes que não conhece o seu atacante.
Entretanto, Gérard está recuperado e preside um tribunal revolucionário.
Uma espiã anuncia a detenção de Chénier. É uma excelente oportunidade para se vingar do seu rival e, para o punir, no entanto, vacila por um momento, ao lembrar-se que foi um verso de Chénier que despertou o seu patriotismo e agora, para satisfazer a sua paixão, é capaz de sacrificar um amigo.
A luta entre a honra e o desejo domina por uns momentos Gérard mas finalmente triunfa o desejo.
Maddalena, que tinha acabado de perder a mãe (os revolucionários invadiram a sua casa, a mãe morre para salvar Maddalena, de seguida incendeiam a sua casa. Maddalena que vinha de uma família nobre fica sozinha e sem nada) vai ter com Gérard, conta-lhe como a mãe morreu para a salvar e promete ficar com ele, para tentar salvar a vida de Chénier. Gérard diz-lhe que vai libertar Chénier.
Confinado na tristeza da prisão de San Lazzaro, Chénier espera a sua execução.
Maddalena entra na prisão. Gérard leva-a para ver Chénier.
Os apaixonados têm um breve momento antes da última apelação, que falha.
Finalmente, Chénier é executado.
Incapaz de viver sem o seu amado, Maddalena toma o lugar de uma condenada e morre, junto ao seu amor.


O incêndio da casa de Maddalena acontece no Terceiro Acto, em que ela canta a ária "La Mamma Morta" para Gérard a explicar-lhe como a mãe morreu para a salvar da ira dos revolucionários durante os tumultos da Revolução Francesa. Depois incendeiam a casa, ela quase desiste de viver e fica gravemente doente, e a sua criada Bersi vende-se como prostituta para salvar a vida de Maddalena.
A ária divide-se em duas partes: primeiro começa de uma forma melancólica em que ela conta o que lhe aconteceu, e depois a segunda parte mais forte em que ela relata o que a voz de Deus lhe disse.



La mamma morta m'hanno                                                        
alla porta della stanza mia
Moriva e mi salvava!
poi a notte alta
io con Bersi errava,
quando ad un tratto
un livido bagliore guizza
e rischiara innanzi a' passi miei
la cupa via!
Guardo!
Bruciava il loco di mia culla!
Così fui sola!
E intorno il nulla!
Fame e miseria!
Il bisogno, il periglio!
Caddi malata,
e Bersi, buona e pura,
di sua bellezza ha fatto un mercato,
un contratto per me!
Porto sventura a chi bene mi vuole!
Fu in quel dolore
che a me venne l'amor!
Voce piena d'armonia e dice
Vivi ancora! Io son la vita!
Ne' miei occhi è il tuo cielo!
Tu non sei sola!
Le lacrime tue io le raccolgo!
Io sto sul tuo cammino e ti sorreggo!
Sorridi e spera! Io son l'amore!
Tutto intorno è sangue e fango?
Io son divino! Io son l'oblio!
Io sono il dio che sovra il mondo
scendo da l'empireo, fa della terra
un ciel! Ah!
Io son l'amore, io son l'amor, l'amor
E l'angelo si accosta, bacia,
e vi bacia la morte!
Corpo di moribonda è il corpo mio.
Prendilo dunque.
Io son già morta cosa!


They killed my mother
at the door of my room
She died and saved me.
Later, at dead of night,
I wandered with Bersi,
when suddenly
a bright glow flickers
and lights were ahead of me
the dark street!
I looked –
My childhood home was on fire!
I was alone!
surrounded by nothingness!
Hunger and misery
deprivation, danger!
I fell ill,
and Bersi, so good and pure
made a market, a deal, of her beauty
for me –
I bring misfortune to all who care for me!
It was then, in my grief,
that love came to me.
A voice full of harmony says,
"Keep on living, I am life itself!
Your heaven is in my eyes!
You are not alone.
I collect all your tears
I walk with you and support you!
Smile and hope! I am Love!
Are you surrounded by blood and mire?
I am Divine! I am oblivion!
I am the God who saves the World
I descend from Heaven and make this Earth
A heaven! Ah!
I am love, love, love."
And the angel approaches with a kiss,
and he kisses death –
A dying body is my body.
So take it.
I am already dead matter!


Sempre que ouço esta música emociono-me sempre.
Hoje acordei a cantarolar esta música...
Cantada pela Maria Callas.

Faz lembrar a cena do filme Philadélfia, em que o Tom Hanks, agarrado ao suporte da medicamentação, explica a Denzel Washington a história da ária cantada em italiano.
Para mim, uma das melhores cenas de sempre do cinema...
Inesquecível!






quinta-feira, 7 de julho de 2016

Ronda




A alma dele é revestida de um feminino invisível. 
Transparente. Tem quebras, rasgos, impulsos, 
momentos de 
uma grande carência, de uma loucura clandestina. 
Eu o construo diariamente no meu quarto, lhe dou 
coloridos, 
lhe deixo a barba malfeita, o mando pra rua sozinho, 
inseguro, 
com medo dos outros. 
Ele atravessa a avenida São João, se escora nas sombras 
dos 
desconhecidos, nas memórias, toma um café amargo 
e se sente espião dos seus próprios actos, acende um 
cigarro, 
tenta espantar uma ideia de solidão. 
Esbarro nele, mas às vezes chego tão perto, tão dentro,
quase no avesso. Depois ele se mistura, se perde no 
trânsito, 
me despista e eu de repente o localizo enfrentando 
anónimo 
a noite, o centro da cidade, o descubro escrevendo 
palavrões 
na porta de um banheiro. 
Meio desertor da vida, inutilmente refugiado na 
multidão, 
no escuro das esquinas, nas olheiras. 
Delator silencioso de não ter lugar, nem importância, 
percorrendo os túneis da própria marginalidade, 
Insónia. 
Ele anda, pára em balcões de bar, em bancas de jornais, 
olha 
nos olhos dos outros, os outros, todos os possíveis 
outros 
que passam. Tem a alma multipartida, multifacetada. 
Eu o deixo de madrugada na Avenida Ipiranga com um 
pouco 
de frio nas mãos e na cabeça a banda sonora dos 
super-heróis. 


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão



As Pessoas Nobres Não Se Sentem Superiores A Ninguém


Emanuele Dascanio


Todos gostamos das pessoas nobres e humildes, 
que não se acham mais do que os outros, 
que promovem a importância de conhecer 
as suas próprias limitações através das suas acções 
e que não fazem alarde desnecessário 
de virtudes e bondades.


As pessoas nobres fogem da humildade falsa e afectada, do “eu faço muito melhor”, do orgulho narcisista e do egoísmo desmedido. Acontece que a soberba daquelas pessoas com ar de superioridade é tão insuportável quanto desprezível.

Mesmo assim, como veremos a seguir, falar muito e presumir em demasia costuma ser o reflexo de algum tipo de carência, vazio ou descontentamento com a própria vida.
Ou seja, o que normalmente expressamos com aquilo de “muito barulho e pouco resultado”.



Uma lição de humildade das pessoas nobres

“Eu caminhava com meu pai quando ele se deteve numa curva e depois de um pequeno silêncio me perguntou:
– Além da cantoria dos pássaros, você ouve mais alguma coisa?
Agucei os meus ouvidos e alguns segundos depois lhe respondi: “Estou a ouvir o barulho de uma carroça”. – É isso. Disse o meu pai. É uma carroça vazia.
Perguntei ao meu pai: “Como sabe que é uma carroça vazia, se ainda não a vimos?”Então o meu pai respondeu:
– É muito fácil saber quando uma carroça está vazia, pelo barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.”


Transformei-me em adulto e agora, quando vejo uma pessoa a falar demais, a interromper a conversa de todos, a ser inoportuna ou violenta, a sentir-se poderosa e a desprezar as pessoas, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai a dizer: 
“Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz”.

A humildade consiste em calar as nossas virtudes e permitir aos outros descobri-las. Ninguém está mais vazio do que aquele que está cheio de si mesmo.


Diga como você se exibe e lhe direi qual é o seu vazio

As pessoas completas são as melhores porque não têm necessidade de competir ou de ter razão. Também não precisam aparentar ou mentir, pois o que são aparece nas suas atitudes, na sua moderação e no seu saber estar.

Por isso a humildade tem como base o respeito pelos outros e a amabilidade. 
Esse é o pano de fundo dos olhares sinceros, autores destes sentimentos que nascem do coração.

Contudo, quando conseguimos algo muito importante para nós, é normal e comum mostrar orgulho. Mas do orgulho pelo esforço e o objectivo alcançado, à altivez e à arrogância, há uma boa distância.



Neste sentido, para ser humilde com as nossas conquistas e êxitos é preciso ter clareza sobre duas premissas que constituem a base da bondade e da nobreza:


  • Não é preciso exibir as suas conquistas, é suficiente esperar que sigam o seu exemplo. A verdadeira conquista está em se aprimorar a si mesmo e aos outros.
  • Não é preciso exigir da vida o que lhe falta, é preciso agradecer pelo que ela lhe deu.


Nada do que possamos alcançar nos faz dignos de louvor, nem de nos acharmos superiores aos outros. Só a bondade e a humildade nos ajudam a nos elevarmos e se constituirão como suportes da nossa felicidade no caminho.



Raquel Aldana


Yoda Wisdom Do, or Do not. There is no try!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

When You Are Old


Miika Järvinen



When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.



William Butler Yeats
in, The Rose



"Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século"...para filhos e alunos




Excesso de estímulos
“Estamos a assistir ao assassinato colectivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão a perder as habilidades sócio-emocionais mais importantes: colocar-se no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam  gerir os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reacção, no esquema ‘bateu, levou’, e a desenvolver altruísmo e generosidade”.


Geração triste
“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar as nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Esta geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa lembrar-se de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contacto com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais”.


Dor compartilhada
“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve a aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir a sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam o seu mundo com o dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos na sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores, perdas e frustrações”.


Intimidade
“Pais que não cruzam o seu mundo com o dos filhos e só actuam como manuais de regras estão aptos a lidar com máquinas. É preciso criar uma intimidade real com os pequenos, uma empatia verdadeira. A família não pode só criticar comportamentos, apontar falhas. A emoção deve ser transmitida na relação. Os pais devem ser os melhores brinquedos dos seus filhos. A nutrição emocional é importante mesmo que não se tenha tempo, o tempo precisa ser qualitativo. Quinze minutos na semana podem valer por um ano. Pais têm que ser mestres da vida dos filhos. As escolas também precisam mudar. São muito cartesianas, ensinam raciocínio e pensamento lógico, mas se esquecem das habilidades sócio-emocionais”.


Mais brincadeira, menos informação
“Criança tem que ter infância. Precisa brincar, e não ficar com uma agenda pré-estabelecida o tempo todo, com aulas variadas. É importante que criem brincadeiras, desenvolvendo a criatividade. Hoje, uma criança de sete anos tem mais informação do que um imperador romano. São informações desacompanhadas de conhecimento. Os pais podem e devem impor limites ao tempo que os filhos passam em frente às telas. Sugiro duas horas por dia. Se não colocarem limites, eles vão desenvolver uma emoção viciante, precisando de cada vez mais para sentir cada vez menos: vão deixar de reflectir, se interiorizar, brincar e contemplar o belo”.


Parabéns!
“Em vez de apontar falhas, os pais devem promover os acertos. Todos os dias, filhos e alunos têm pequenos acertos e atitudes inteligentes. Pais que só criticam e educadores que só constrangem provocam timidez, insegurança, dificuldade em empreender. Os educadores precisam ser carismáticos, promover os seus educandos. Assim, o filho e o aluno vão ter o prazer de receber o elogio. Isso não tem ocorrido. O ser humano tem apontado comportamentos errados e não promovido características saudáveis”.


Conselho final para os pais
“Vejo pais que reclamam de tudo e de todos, não sabem ouvir não, não sabem trabalhar as perdas. São adultos, mas com idade emocional não desenvolvida. Para actuar como verdadeiros mestres, pai e mãe precisam estar equilibrados emocionalmente. Devem desligar o telemóvel no fim de semana e ser pais. Muitos são viciados em smartphones, não conseguem desconectar-se. Como vão ensinar os seus filhos e fazer pausas e contemplar a vida? Se os adultos têm o que eu chamo de síndrome do pensamento acelerado, que é viver sem conseguir aquietar e mente, como vão ajudar seus filhos a diminuírem a ansiedade?”.



Augusto Cury
in, Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século Para Filhos e Alunos

Quando o riso dói




Faço alguém feliz quando descubro que ele pode ser feliz também em minha ausência. Quando o amor abdica da aura de condenação e do monopólio da felicidade do outro.

As ameaças românticas sempre giram na subtracção do contentamento com a distância. Se quem amamos não está connosco, será infeliz.

Pois o riso do outro, sem a nossa presença, significaria que ele não nos valoriza, identificado como dispensa, alta traição, insensibilidade diante da dedicada dependência. Sentimos ciúme desproporcional, a ponto da gargalhada sem a nossa autoria doer como uma lágrima.

Não é verdade, o nosso par é capaz de ser bem feliz separado. Há o desejo perverso de que o outro se dane afastado. Mas é uma ansiedade infantil de possessividade.

Não somos a única fonte de felicidade de uma pessoa. Ela foi feliz antes de nos conhecer e será também depois. Esta noção salva casamentos, elimina restrições e chantagens, acentua o livre-arbítrio, valoriza a relação.

Não é que ela está comigo porque não consegue ser feliz longe, é que, mesmo podendo ser feliz longe, ainda é mais feliz comigo. Somos a melhor opção, não a única. Somos a companhia predilecta, não a que restou.

O certo é se enxergar o destino de uma alegria, em vez de sua viciada origem. No momento em que condicionamos o bem-estar, prosperamos o pânico.  Funda-se a convivência pelo medo de perder o que se tem, jamais pela confiança de ter sido escolhido e eleito todo dia.

Não podemos sequestrar a felicidade do outro no casamento ou no namoro, como se fosse nossa, como se só dependesse de nossa proximidade, vinculando a alegria ao egoísmo dos laços.
Maturidade é ser indispensável justamente por deixar a porta aberta.



Fabrício Carpinejar


terça-feira, 5 de julho de 2016

Hino




Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.


Bruna Lombardi
in, O Perigo do Dragão


Aproximação e Aterragem No Aeroporto De Lisboa Filmada No Cockpit Do Airbus A330





Maravilhosa perspectiva da aproximação e aterragem na pista 03 do Aeroporto Internacional de Lisboa, filmada a bordo de um Airbus A330 da TAP Air Portugal pelo Comandante António Escarduça.


Os Ninguéns




As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.


Eduardo Galeano
in, O Livro dos Abraços