quarta-feira, 15 de maio de 2019

...................... get over your own bullshit






At a certain point, you have to get over your own bullshit.

You have to get tired of your addiction to suffering with the same tired story you've been repeating for years.

You have to stop blaming your challenges on others, or your circumstance in life. Your challenges exist to help you grow, not to keep you down. You are only a victim to your own mental limitations.

Once you recognize your challenges, it's good to emotionally process the anger, sadness, and fear. But at a certain point, lingering in self-pity by pointing the finger externally only hurts yourself by neglecting self-responsibility.

People say "trust your feelings" and "go with the flow", but this isn't always good advice. Would you tell an alcoholic to "trust their feelings" when they want to beat their spouse and keep drinking? Of course not. You have to accept that you are addicted to lying to yourself, imagining you can see reality clearly, and trust your own thinking 100%. Depending on how quickly you want to turn your life around, you may need to subject yourself to "spiritual maturity bootcamp". Sometimes self-love is a swift kick in the ass. You may need to post reminders on your walls. You may need to set your alarm to 7am each day, with a schedule of priorities you must achieve. You may need to recruit the help of a friend or life coach. You may need to sell all your belongings and change your life entirely because you have too many distractions surrounding you.

Don't be afraid to set fire to your life. It's better to burn in a blaze of intensity and make a few "mistakes" than slowly simmer your life away in the pitiful embers of apathy and regret.


Humberto Braga





VARIAÇÃO PRIMEIRA





Ao sol ardente, ao mar azul, ao vento que
lhes faz vibrar a pele, os deuses dão-se
numa nudez total de agreste juventude
que impudica se exibe e se deseja,
se acaso olhos humanos os espiam.
.
Promíscuos tombam num tropel de corpos,
de pernas, braços, bocas e cabelos,
ancas e mãos, de línguas e gemidos,
uivos de espasmo, seios e tremuras,
e sexo é tudo o que se entrega e tudo
o que num ritmo seguro arranca
sacões em que se ajusta mais ao fundo
e túrgido se escoa e recomeça.
Torcem-se os corpos, arfam e agitam-se,
soerguem-se e arqueiam-se e descaem,
e pouco a pouco vão ficando plácidos
e como que dormindo na difusa,
anónima e divina confusão final.
.
De súbito, levantam-se altíssimos
ao pé dos corpos que ainda jazem trémulos.
Mais outros se levantam, se recortam
na luz que irisa a negridão dos sexos.
As gargalhadas tinem pela praia clara
num cascalhar sereno da ressaca
lambendo a areia que, trazida, fica
como suspensa no limiar do vento.
.
Ao mar acorrem que espadanam breves,
enquanto um só dos deuses se demora
à beira de água e se espreguiça erguendo
ao alto os braços num curvar das ancas
sobre as retesas pernas que espraiada
a espuma molha pelos tornozelos.
Num grito atira-se e mergulha e segue
os outros que são pontos na distância,
ou sombras só de pequeninas vagas
quebrando-se, e ao longe, contra a luz.
.
Silvos ligeiros, lépidos, irónicos
alisam pela praia o que ficou dos corpos
— areia remexida, vagos moldes
de ancas e torsos, calcanhares e nucas,
e até gotas dispersas de vertido amor.
.
Promíscuo o amor dos deuses, se os espiam
olhares humanos, sequiosos, turvos,
e dissipado, violento, abrupto.
.
Apenas o tinir das gargalhadas
subsiste ainda, e na memória o vulto
do deus que se espreguiça à beira de água.


JORGE DE SENA
in, VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO




segunda-feira, 13 de maio de 2019

AMOROSA ANTECIPAÇÃO





Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios
serão favor tão misterioso
como olhar o teu sono envolvido
na vigília dos meus braços:
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.
Entregue à serenidade,
divisarei essa praia última do teu ser
e ver-te-ei acaso pela primeira vez
como Deus te verá,
já dissipada a ficção do Tempo,
sem o amor, sem mim.



JORGE LUIS BORGES






I’ve learned that...






If I’ve learned anything from life, it’s that sometimes, the darkest times can bring us to the brightest places. I’ve learned that the most toxic people can teach us the most important lessons; that our most painful struggles can grant us the most necessary growth; and that the most heartbreaking losses of friendship and love can make room for the most wonderful people.

I’ve learned that what seems like a curse in the moment can actually be a blessing, and that what seems like the end of the road is actually just the discovery that we are meant to travel down a different path.

I’ve learned that no matter how difficult things seem, there is always hope. And I’ve learned that no matter how powerless we feel or how horrible things seem, we can’t give up.

We have to keep going. Even when it’s scary, even when all of our strength seems gone, we have to keep picking ourselves back up and moving forward, because whatever we’re battling in the moment, it will pass, and we will make it through.

We’ve made it this far.
We can make it through whatever comes next.


Daniell Koepke





MOROCCAN GNAWA MUSIC

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Não Sabemos Mesmo O que Importa





Com todos os pensamentos saí
do mundo: e aí estavas tu,
tu, meu silêncio, tu, minha abertura, e -
recebeste-nos.

Quem
disse que tudo nos abandonou,
quando o olho se quebrou?
Tudo despertou, tudo principiou.

Um grande sol aproximou-se a nado, nítida
oposição lhe moveram as almas, claras
e severas lhe ocultaram
seu rumo.

Ameno
se abriu teu seio, mudo
um sopro se elevou no éter,
e o que toldou não era,
não era forma nem do nosso mundo,
não era
tão bom quanto um nome?


Paul Celan





It's Karma Time!





Karma é o movimento entre ação e sua respectiva reação ou consequência.
O Karma não é bom nem mau.
Ele depende da qualidade dos nossos actos e do uso mais ou menos consciente que fazemos do nosso livre arbítrio.

Na visão astrológica, o karma é representado pelo signo de Capricórnio e pelo seu regente Saturno, ou seja, onde ambos se encontram no nosso mapa é onde seremos convidados a aprender e amadurecer através precisamente do que a vida nos traz como consequência de actos antigos.

Saturno é considerado o Mestre do Tempo. 
Não o Tempo Chronos que conhecemos tão bem da nossa realidade física diária mas sim, do Tempo Kairos que rege o tempo interior que levamos a atingir a nossa iluminação ou melhor dito, o Tempo que levamos a amadurecer, a aprender as nossas lições e a "voltar a casa".

Porque todo o acto gera consequências e porque elas precisam do tempo certo para retornarem, muitas destas consequências são empurradas de uma vida para a outra, tal como fazemos com tarefas que não fizemos ontem mas que teremos que cumprir hoje.

Este fenómeno explica o sentimento de "injustiça" ou a sensação de sermos "vítimas" de alguém ou das circunstâncias quando na verdade na visão karmica nenhuma das palavras se aplica pois pela Lei da Atração, tudo o que chega a nós, é nosso!
Ou seja, embora tenhamos o nosso Karma pessoal na posição que Saturno ocupa no nosso mapa, tudo o que chega à nossa vida, traz "feedback" de algo que também nós já demos início algures num outro tempo.

Saturno leva cerca de 29 anos a cumprir uma volta completa ao Zodíaco, o que quer dizer que só de 29 em 29 anos é que Saturno volta à sua posição Natal, tornando-o mais forte e poderoso do que nas suas visitas a qualquer outro Signo, e é onde ele está desde Dezembro de 2017 até Dezembro de 2020.

Não sei se já sentiram ou repararam como as consequências dos nossos actos estão mais rápidas do que nunca. O estado do mundo nas notícias mostra bem isso... Com o devido olho da visão karmica podemos ver cada um a colher consequências dos seus actos, cada vez mais pessoas apanhadas em flagrante, a natureza a acelerar os processos de purificação, fogos simbólicos a pedir morte e renascimento.

E se para uns estes retornos são a oportunidade de limpeza e libertação dessas velhas energias e padrões negativos, ainda vemos muita resistência em todos os que ainda não renderam os seus planos de poder pessoal ao Poder Maior.

Se estivermos atentos, iremos perceber isto nas nossas vidas, nas nossas relações pessoais, nos eventos e circunstâncias diárias. A proposta é então resistirmos à fácil reação do nosso ego que está programado para resistir a qualquer processo de responsabilidade pessoal, e aprendermos a observar o que nos chega como velhas energias que um dia criámos e que agora voltam em busca de consciência, cura, transformação.

⭐️Se for uma dor ou incómodo no corpo estranho, procura o seu significado simbólico.

⭐️Se for um encontro casual com alguém desconhecido, procura o "recado" que essa pessoa te vem trazer de ti mesma nesse momento.

⭐️Se for uma pessoa desafiante, estuda o espelho do que ela te devolve de partes inconscientes de ti mesma. Resiste a projetar no outro, agradece a mensagem e liberta com compaixão.

⭐️Se for uma perda, abandono, traição, considera que grau de apego tinhas a essa coisa ou pessoa e aceita a proposta presente de reencontrares o teu equilíbrio sem aquele apego.

⭐️Se for uma emoção pesada, procura a oposta correspondente que precisas ativar para encontrar o equilíbrio das duas. Aproveita este tempo poderoso para olhares mais para dentro numa qualquer terapia.

Ainda temos uns mesinhos intensos pela frente de intenso crescimento interior.
Mas se a educação Ocidental nunca incentivou a responsabilidade pessoal, inspiremo-nos nos Budistas que, melhor do que qualquer outro povo, vivem a cada momento o princípio do Karma com a atitude certa: Rendição à Vida, aceitação incondicional do que a vida devolve, postura de amor e humildade, princípio da não reação, responsabilidade pessoal de expressar amor.

O Karma não é mau, como muitos ainda pensam. 

Se apenas agirmos pelo amor, verdade, coragem, alegria, responsabilidade, e todos os bons valores, Saturno não tem como não devolver as maravilhosas consequências destes atos e na verdade, essa é a grande e última lição do ser humano. Até lá, precisamos de ainda lidar com as consequências de não sermos ainda capazes de tão elevada proposta.



Vera Luz




quarta-feira, 8 de maio de 2019

PODIA


Andrey Zadorin





Podia dizer-te que não me importo
Podia fingir que fugi
Ou que estou morto.
Podia adiar para outro dia
Invocar uma qualquer lei
Dizer-te que não sei
Ou fiquei sem bateria.

Com a verdade mais pura
A única verdade
A única que dura
Faria a minha despedida
A promessa de mil abraços
E uma palavra sofrida

Podia dizer-te que volto
E seria breve
Como um poeta escreve
Livre e solto.

(E tu, minha vida, acreditas
Nas palavras que não digo?
Será o silêncio castigo?
Será em silêncio que gritas?)

Podia dizer-te que são pequenas
As saudades do teu sorrir
Mas seriam palavras apenas
E seria mentir.


CARLOS CAMPOS
in, "RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS"






When a man chooses a woman who follows her calling






When a man chooses a woman who follows her calling, his only chance to maintain the connection is in following her… and above all in creating space for her to follow her own path.

It may happen that he needs to abandon his own neediness, or that he finds a means of healing through their common path – but not in the gentlest manner.

When a man chooses a woman who heals the collective wounds of the women by following her calling, his Yes for her equals a Yes to a bigger purpose far beyond building a house or raising children. Their connection goes beyond fulfilling the classical gender role models.

For this man accepts the job of having the back of this woman, of catching her when she cannot transform the pain of the world anymore. It means for him to welcome a different form of sexuality, since healing on the level of sexuality is one of the most profound issues of the woman who needs to become a healer.

For him this, again, is about welcoming slowness, softness and healing –about holding back or redirecting his own drive.. about being present for the whole.

Because when a man chooses a woman who aims for freedom, they can only achieve this together, and by him leaving his narcissistic aspects behind and recognizing the path of the woman as his own path towards freedom.

When a man chooses a woman who is bigger, he cannot dwell in the places of energies of oppression or of playing small. He – if he chooses to take on this mission with her – accepts a task serving the well-being of all men, even though it happens in the background. Within this background he creates space of security, of keeping her safe from an ambush bred by his own old wounds, driving her into submission.

When a man chooses a woman out of his fascination with her radiance and wisdom, it must be obvious to him that he cannot be stuck within his own deficits in a way that makes him want to diminish her radiance… purely out of fear of having to share her with others.

When a man chooses a woman who follows her calling, he cannot fear these words: respect, humility and surrender. He will rather walk the path of divinity – alongside his woman, the healer – with gratitude and an overflowing heart.

For such a woman will choose – if she ever needs to choose – in favour of the well-being of all women …and she will choose walking her path alone instead of leaving it for him. Nevertheless, she is aware of the power that lies in the presence of a man who is beating the drums… for her.


Mokshadevi





domingo, 5 de maio de 2019

Palavras





Direi apenas as palavras de amor que te endereço
envolvidas na nudez inicial!...
Direi as que te envio pelo fio telefónico,
as que te escrevo numa carta lacrada,
as que guardas à chave na gaveta;
as que a minha boca coloca nos teus olhos
e as que transformam o teu riso em arbustos floridos.
Direi somente as palavras vulgares e milenárias, 
viciadas pelos usos mais diversos,
que têm mentido amores, construído amores,
envenenado e sustentado amores...
direi apenas essas - mais nenhumas!
As que projectam luz directa nos teus passos
para contar a nossa história, a pobre história
de uma casa, uma cama, um orçamento,
- a história tão banal mas espiada
por entidades misteriosas e solenes
que velam para que nada seja escrito.
Direi apenas as palavras de paixão
que te remeto em flechas aceradas
por sobre a multidão espavorida;
as que te arrancam de um corredor sombrio
para outro que os meus dedos iluminam;
as que fecham o alçapão das tuas mágoas
e rasgam a parede de silêncio;
as que telefono com a cabine aberta
cuspindo na ironia dos que passam;
as que te oferecem um galhardete colorido
e te auxiliam a patinar sorrindo
sobre a endurecida maldição antiga;
as que destroem o veneno da tristeza
e garantem a tua marcha musculado;
direi apenas essas... mais nenhumas!
As que arborizam o interior da solidão
e as que te escrevo com um dedo nas espáduas.


Egito Gonçalves





O choque de gerações





É conhecido o choque de gerações. Embora a maturidade e a experiência de vida sejam as duas normais grandes fontes de atrito entre pais e filhos, existe uma outra bem pior que, ao contrário da maturidade e a experiência de vida, poderia ser evitável; a idealização.

Todos os dias, pais queixam-se dos filhos, filhos queixam-se dos pais, ambos curiosamente pela mesma razão; “Eles não são/foram o que eu queria que eles fossem ou não me dão/deram o que eu precisava.”

Esta ilusão de procurarmos a perfeição no outro e de o idealizarmos exageradamente, leva-nos a grandes desilusões, frustrações e as mais variadas dores emocionais que normalmente passam pela solidão, rejeição, abandono, violência, etc. sem o devido entendimento das forças invisíveis que fizeram juntar pais e filhos, vamos perpetuar essas mesmas dores e viver num estado permanente de vitimização, de sensação de injustiça, de impotência e resistência que nada mais são do que fruto da ignorância em relação aos movimentos da vida.

Resistimos o mais que podemos a assumir a responsabilidade pelo que a nossa energia atrai pois é tão mais fácil por a “culpa” nas costas do outro do que assumirmos o poder de sermos criadores da nossa realidade, seja ela negativa ou positiva. O problema com a projeção é que culpar o outro não resolve o problema, não nos permite evoluir e transcender a frequência em que estamos.

Mais cedo ou mais tarde, por consciência ou desespero, procuramos abordagens diferentes e acabamos por perceber o que até ali nos recusávamos a aceitar:


  • Que somos responsáveis pelo estado da nossa energia.
  • Que o fenómeno dos espelhos é o que nos permite ver de fora o que carregamos em nós.
  • Que a lei do karma irá sempre devolver-nos as consequências dos nossos atos passados.
  • Que a lei da atração irá mostrar-nos o estado da nossa energia fazendo-nos atrair energias idênticas.
  • Que o que atraímos não se limita ao que somos hoje, mas ao que carregamos também de inconsciente, tanto de vidas passadas como de potencial futuro.


Porque a nossa educação espiritual não nos ensinou esta visão e estas leis, passámos a julgar, criticar, projectar e culpar o outro quando na verdade o outro foi escolhido e está na nossa vida, não por aquilo que idealizámos como pais ou filhos, mas porque são as energias que precisamos para cumprirmos a nossa história.

Percebermos por exemplo que as desafiantes características daquela mãe ou daquele pai difíceis, são na verdade velhas expressões de nós próprios em vidas passadas, que ainda precisamos curar em nós, irá ajudar-nos a olhar esses mesmos pais com a humildade e compaixão de quem já aceita essas mesmas características em si mesmo. Idêntico fenómeno se passa com os filhos que tanto podem ser espelhos das nossas questões passadas e por isso nos escolheram como pais para os ajudarmos a curá-las, como podem ser a representação de um potencial futuro de cura e por isso nos chocam pela sua diferença e por serem capazes do que para nós ainda é difícil ou impensável.

Porque cada um de nós tem uma energia pessoal, condicionada pelos padrões karmicos tanto pessoais como familiares, cada história deve ser analisada individualmente e por isso a comparação é inútil e impede-nos de ver das verdadeiras razões do papel das pessoas na nossa vida. E embora pais e filhos escondam muitas vezes as propostas mais fortes, precisamos levar o mesmo principio para todas, mas mesmo todas as pessoas que estão presentes na nossa realidade pessoal.

Se ainda não percebeste quem te rodeia e te achas vitima de pais ou filhos difíceis, tenta descobrir qual o papel deles para que possas curar e transcender essas energias. Sem esse entendimento, elas irão manter-se e materializar-se noutras pessoas à nossa volta.



Vera Luz




quinta-feira, 2 de maio de 2019

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável





Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.


ALBERTO CAEIRO
in,  POEMAS INCONJUNTOS







The structure of space-time





The structure of space-time is a quantized infinite scalar Flower of Life lattice. 
In other words, space itself is made of discreet super tiny tiny tiny packets of energy: the smallest little vibration that the electromagnetic spectrum manifests. These tiny packets are what you could think of as the "pixels" that make up the universe and since they are not square, but spherical, they are actually called "voxels".

First discovered by Max Planck, the smallest distance you can possibly measure is the length of this universal fundamental wave-from called the Planck length: 0.000000000000000000000000000000000001616cm
(10 to the -35cm)

It is nearly impossible to visualize how small the Planck is. 
However if you picture a little dot that is .1mm (or about the smallest thing the unaided human eye can see) and blew up that little dot like a balloon to the size of the observable universe, the Planck would then be about a .1mm dot in that universe. Or in other words, that original .1mm dot is about 1/2 way in scale between the size of the observable universe and the Plank!

Nassim Haramein calls these tiny energy packets Planck Spherical Units (PSUs) because they are spherical, like most other structures the universe creates at all scales. These spherical waveforms overlap and perfectly pack together to form the 3D flower of life structure of space itself.

Using these universal voxels (spherical pixles), Nassim calculates how many of them fit on the inside of a proton volume compared to how many are present on the outside surface area of the proton (or any black hole). This ratio, a geometric relationship, is the gravitational field!

Gravity is essentially a ratio of information on the inside to information on the surface of black holes in a holofractographic space-time manifold.

Nassim has discovered a discreet, quantized, pixelated (voxelated) way of describing gravity in which all you need to do is essentially count these little Planck Spherical Units without having to use highly complex tensor equations normally needed to solve Albert Einstein's field equations.

A geometric solution for gravity.

The irony of it all is that this solution has been right under our noses this whole time thanks to many ancient cultures encoding this geometric relationship right into their monuments and documents in the form of the flower of life symbol...



Jamie Janover





terça-feira, 30 de abril de 2019

COPOS DE SEDE





Se duvidas da tua sede, se não te atreves
a perguntar-lhe ou a dar-lhe um nome,
se só sabes que procuras uma água
que a sacie e não encontras senão poços,
e neles ecos que te chamam, bebe.

Se a sede ao beber desaparece
é porque era só sede. Continua a procurar.

Mas se cresce em ti quando a sacias,
se queres não deixar de ter sede
e sim continuar a beber dia e noite
copos de sede, não duvides:
podes chamar-lhe amor, continuar sofrendo,
e saber que não existe quem te guie.


 Juan Vicente Piqueras
in, Instruções para Atravessar o Deserto





Uma Lágrima na Face da Índia





O livro conta a história de um enfermeiro inglês chamado Noah com 32 anos, que trabalha num hospital em Londres, no serviço oncológico da Pediatria. Um trabalho muito difícil de gerir emocionalmente porque lida diariamente com crianças com cancro, muitas delas acabam por não resistir e partem deixando os pais num desgosto profundo.
O livro começa por relatar esse dia-a-dia desse enfermeiro e da sua decisão de tirar licença no trabalho para viajar para a Índia, Cambodja e Bali. Acabou por se sensibilizar com a situação fragilizada das mulheres indianas e ficou só pela Índia.

Tudo começou quando, ainda no hospital, leu um livro que dizia assim:
“ Aproveitas-te, meu velho, a tua vida como sempre sonhaste?
E o teu talento, o que fizeste com o teu talento? Pegaste nele e fizeste maravilhas pelo mundo, ou deitaste-o fora, com verdadeira cobardia, enquanto pensavas que estavas a desperdiçar uma vida inteira e te lamentavas, perdido nos recantos da tua casa, que eras incapaz de seguir para diante?”
Também eu passei por isto aos 36 anos, o que me fez olhar para uma porta que eu teimava em manter fechada, sem saber o que podia encontrar lá dentro, quando à minha espera estavam outros gritos, outros sons, e uma nova felicidade que teimava em não chegar.
Não parece nada demais, pois não?
Questionamos, pensamos e agimos.
Eu, tal como o Noah, sentia que estava a desperdiçar a minha vida com coisas sem importância, e pensava que, devia fazer algo diferente com a minha vida, com mais valor, com mais significado. Pensava nas mulheres e crianças que vivem para lá do meu horizonte, o que estariam a fazer e se precisariam da minha mão amiga pronta a ser estendida e amparar a queda de alguém. O que eu não sabia era que para o saber fazer com o coração, teria primeiro de amparar a minha própria queda.
Precisava de ir em busca de não-sei-o-quê, com uma nova língua e uma nova força, pelo mundo, porque o mundo é uma casa sem teto para todos nós. E, tal como o Noah, o meu coração chama-me para a Índia, para amparar a queda de meninas e mulheres que vivem nas ruas sem teto.
Por tudo isto, este livro me tocou profundamente no coração.

Quando chega à India, hospeda-se em Old Delhi, e descreve várias experiências que teve lá e que são o ponto de arranque para tudo o que acontece a seguir. Conhece um comerciante chamado Ilesh em Chandni Chowk, um dos mercados mais antigos de Old Delhi, que lhe dá o contacto de uma sobrinha de um amigo seu, para ser a sua Guia Turística durante a sua estadia na Índia, chamada Sahana. Quando a vê apaixona-se de imediato, mas ela já estava prometida em casamento contra sua vontade pela família para um polícia de Delhi. E é através da Sahana que passamos a ter conhecimento sobre como é nascer menina na Índia. 

Antes de conhecer Sahana, depois de sair da loja do Sr. Ilesh, foi comer um Sheekh Kabab por 40 rupias, a moeda da Índia, que são 0,60 cêntimos (lá é tudo muito barato desde que seja comprado na rua) e conheceu um homem chamado Lambodar que lhe contou que era casado há 46 anos e que era pai de 7 filhos todos rapazes, e disse-lhe que era um homem de sorte porque não tinha filhas. Explicou-lhe que as mulheres são uma Maldição. Que as mulheres na Índia não são livres, porque antes de nascerem já o seu destino está traçado: a morte ou o sofrimento.
Depois, através da Sahana ficamos a saber a razão do Lambodar ter dito isto a Noah.

Um dia, ao observar as pessoas na rua, interrogou-se “Onde estão as mulheres?”.
Poucas eram as mulheres que caminhavam no meio dos homens, e as poucas que por ali andavam, tinham um olhar assustado, preocupado, e tímido. Foi pesquisar na net, e encontrou uma imensidão de notícias assustadoras sobre as mulheres da Índia: mulheres violadas, mulheres espancadas, mulheres assassinadas, bebés meninas mortas à nascença, meninas abandonadas na rua, mulheres e meninas raptadas, desaparecidas. 
Leu um artigo de jornal que relatava uma violação colectiva num autocarro em Delhi no dia 29 de Dezembro de 2012( eu vi um documentário sobre isto na net e fiquei arrasada). A rapariga era estudante de medicina e foi violentamente espancada e violada por 6 homens, incluindo o motorista, dentro do autocarro, até à sua morte.
Depois, numa viagem que fez até Varanasi com Sahana, ela explicou-lhe que a principal razão para haver tanta pobreza e miséria na Índia é a existência dos Varnas e das Castas. Os Varnas são uma categoria, condição social, uma posição numa ordem hierárquica. Enquanto que as Castas (Jati em hindu) são entidades mais pequenas, que dependem da origem, da zona onde se vive, do trabalho que se tem, do parentesco. Cada Casta é única e tem as suas próprias características, rituais, língua, deuses, regras… os Varnas são Categorias que, embora se encontrem dentro das Castas, não as constituem. É uma complexa divisão social hindu, e quem nasce nesta ou naquela Casta, vive e morre nessa determinada Casta. Entretanto, foi declarada ilegal mas, o sistema permanece como forma de tradição, desigualdade social e discriminação.

Existem 4 Varnas, por ordem de importância: 
- Brahmins, a classe mais alta, considerados quase Deuses, e são os sacerdotes, os professores e os filósofos;
- Kshatriyas, são os soldados, os polícias e os administradores;
- Vaishyas, são os comerciantes e homens de negócios;  
- Shudras, são os camponeses, artesãos, operários e servos.
Por último, há um grupo que é considerado sem Casta. São excluídos da sociedade e são considerados impuros e por isso ninguém lhes toca. São os Dalits, os chamados Intocáveis, aqueles que fazem os trabalhos mais desprezíveis, como limpar o lixo, etc…

O Sistema de Castas assenta numa noção religiosa: a pureza e a Impureza.
Milhões de Dalits continuam a sofrer de forma permanente a discriminação. Dão-lhes trabalhos sujos, como limpar o lixo, excrementos, varrer, pavimentar, eliminar corpos humanos das ruas, limpeza de esgotos, limpeza de fossas, sendo obrigatório que a limpeza seja feita com as próprias mãos sem luvas.
Ninguém lhes toca, e não comem comida feita pelos Dalits, ou tocada por eles, para não contaminarem as pessoas de outras Castas. Não lhes é dado nenhum respeito nem nenhuma dignidade. Quem nasce Dalit, morre Dalit, e muitas crianças acabam abandonadas nas ruas, porque filhos de Dalit serão sempre Dalits.

Isto das Castas é um problema sério com fortes consequências nas comunidades indianas.
As crenças religiosas hindus continuam enraizadas nas comunidades, porque existe uma enorme resistência à mudança. As meninas e as mulheres Dalits continuam a ser exploradas e são maltratadas. Habitualmente são mulheres sem educação e analfabetas. Algumas são chamadas Devadasis, ou Servas de Deus. O hinduísmo é caracterizado por ter muitos Deuses e diferentes Ritos, e este das Devadasis é praticado há muitos anos, em que se acredita que as meninas nasceram para servir uma divindade de um templo, durante toda a sua vida. Elas estão presas ao trabalho e são exploradas desde a sua infância. Depois, mais tarde, são obrigadas a prostituir-se. Quando as meninas são entregues a um templo local, elas casam-se com a deusa Yellamma, a Deusa da Fertilidade, assim que atingem a puberdade. Nessa altura, geralmente entre os 8 e os 12 anos, a sua virgindade é vendida a um homem de Casta Superior e, a partir daí, tornam-se escravas da Deusa. Depois disso, não podem casar com nenhum homem e são obrigadas a usarem objectos que demonstram que são Devadasis. A função delas, até serem consideradas velhas ou pouco atractivas, é servir os desejos sexuais dos homens das suas comunidades. Dizem delas “ Devadasi, Servas de Deus mas esposas de toda a cidade”.
Elas são presas dentro deste sistema, e fazem-nas acreditar que o que fazem é perfeitamente aceitável porque é algo que estão a fazer por devoção à Deusa Yallemma, que está presente na comunidade e tem poder sobre a vida das pessoas, e por isso estas mulheres e meninas crianças acreditam (ou acreditavam algumas) que se não cumprirem a devoção pela Deusa, toda a sua família será amaldiçoada, mas se cumprirem e agradarem a Deusa, ela trará saúde e riqueza. Elas não recebem dinheiro em troca mas, recebem presentes. Dantes viviam no templo mas, hoje em dia isto transformou-se num negócio, em que são vistas como superiores em relação às prostitutas normais dando-lhe um carácter sagrado valorizando mais o negócio para quem o explora.
Para combater a pobreza, os pais entregam as suas meninas ao templo, em troca de um emprego ou dinheiro. Eles sabem que não estão a prestar nenhuma devoção á Deusa mas, fecham os olhos a troco de algum dinheiro. São os pais que decidem a vida delas, e elas nem sabem para o que vão, só descobrem mais tarde quando chegam à puberdade. Outras meninas e mulheres, são vendidas para tráfico e exploração sexual em várias localidades da Índia. 
Esta prática foi proibida pelo Estado, mas são os próprios polícias e políticos a recorrer às Devadasis para satisfazerem as suas necessidades sexuais, e nos dias de hoje elas continuam a prestar a devoção á Deusa em suas casas, sendo uma fonte de rendimento para os seus pais.

A violência sexual na India é um crime frequente o que leva a que as mulheres não se sintam seguras na rua. As mulheres grávidas de meninas são obrigadas a abortar, a matar as bebés à nascença ou a abandoná-las na rua. 
Este é o maior problema da India:
Violação sexual, Infanticídio e Genocídio.       
 
Quanto ao Infanticídio e Genocídio, as famílias acreditam que os rapazes trarão Força, riqueza, bênçãos e saúde à Família. As raparigas são consideradas uma maldição para a família porque, terão de dar um dote à família do noivo (bens materiais e dinheiro) para eles a sustentarem. Ficam sem a filha e sem os seus bens e o seu dinheiro. É o fim de uma linhagem familiar.

Quanto à Violação, a India tem uma cultura que apoia e defende que as mulheres devem ser violadas como forma de castigo, de poder masculino e disciplina. 
Todos os anos são mortas mais de 100 mil mulheres só porque elas não reproduzem rapazes, ou porque os maridos não ficam satisfeitos com a quantidade de dinheiro que recebem da família da noiva quando se casam.

As crenças tradicionais hindus dizem que as meninas têm de ser educadas para serem boas filhas e esposas obedientes. Elas devem ficar em casa e fazer todo o trabalho doméstico. Uma mulher que se desvia das normas sociais representa uma vergonha para a família e para a sociedade, e é punida violentamente como meio de controlo social e castigo. Por exemplo, uma mulher nunca deve sair à noite sozinha, muito menos com um homem. Nem deve sair à rua de noite para fazer as suas necessidades em zonas onde não existem casas de banho. É completamente inaceitável. Mulheres idosas são violadas por irem de noite à rua fazer as suas necessidades, e na sua maioria morrem na rua abandonadas. 
Os homens culpam sempre as mulheres pelas suas violações. Em alguns casos, são obrigadas a casar com o agressor, se ele o exigir, de forma a recuperar a sua dignidade. E o preocupante é que, algumas mulheres, admitem por vezes por medo que, provocaram um comportamento violento por parte dos homens. Acreditam que não têm outra escolha senão aceitar a violência por parte dos homens. E isto acontece tanto com as mais velhas, como com as estudantes do ensino médio e universitário.

Eu acredito que o problema está na educação dos mais novos, que crescem em ambientes hostis.
Se eles vêm ao longo do seu crescimento desde pequenos, um comportamento de violência contra a mulher, existe uma forte probabilidade de seguirem o mesmo comportamento porque é o considerado normal e aceitável. Isto chama-se de Modelagem. Por isso acredito que a solução está, a médio e longo prazo, na reeducação de valores e crenças tradicionais.
50 milhões de mulheres estão desaparecidas na India!
Todos os dias, 100 mulheres são violadas!
Uma grande parte da violência contra as mulheres indianas é violência doméstica, queimadas com ácido e espancadas até à morte, raptadas e mortas, fruto de uma crueldade medonha por parte dos maridos e dos sogros, por receberem dotes pequenos, não terem rapazes… é precisamente no leio conjugal onde ocorrem o maior número de crimes. Isto acontece em todos os estratos sociais e económicos, mas a pobreza  e a baixa escolaridade agravam bastante a situação devido ao stress económico, à falta de conhecimento sobre as leis, e à falta de informação sobre a igualdade de género. Quando os homens perdem o controlo socioeconómico vingam-se na mulher espancando-a por tudo e por nada. É uma forma de Poder e Controlo, de mostrar a sua masculinidade, de mostrar quem manda. O homem indiano de classe média acredita que masculinidade é agir com autoridade, exercendo livremente esse privilégio de ser homem para estabelecer regras nas relações pessoais e para controlar as mulheres. Para serem homens precisam de ser rígidos, e o pior é que muitas mulheres acreditam e aceitam isto.

Quando uma mulher não se apaixona por um homem logo cedo, passado algum tempo a família escolhe um homem para ela casar e ter filhos, porque é uma vergonha para a família ter uma filha que não seja casada. Eles têm esse poder sobre as filhas. Se as mulheres ficarem muito tempo sozinhas, as famílias começam a sentir vergonha porque os outros começam a dizer que ninguém as quer porque andam na rua com outros homens e não prestam. 
É o estatuto social da família que fica em causa.
As mulheres na India são sempre propriedade de alguém…primeiro dos pais, e depois dos maridos e da família dos maridos. Podem mantê-las, vendê-las ou matá-las. Por isso existem 50 milhões de mulheres desaparecidas na India. Esses desaparecimentos não são investigados.
Quando os dotes não são do agrado do marido e da família do marido, a violência começa logo no início do casamento. Os dotes podem ser em dinheiro e em bens materiais, como terras, casas, carros, ou outras coisas de valor. Na india, quando o noivo não fica satisfeito com os dotes que recebe da parte da família da noiva, ele pode espancá-la ou matá-la, como forma de castigo, de revolta, de machismo. A entrada de uma mulher na família do noivo não serve para nada se a sua família não der bons dotes ao noivo. As mulheres são uma fonte de entrada de dinheiro na família do noivo, e por isso só querem ter rapazes, porque é uma fonte de rendimento.
Os dotes estão fortemente relacionados com o infanticídio e com o genocídio. 
As mulheres na India vivem numa sociedade que diz. “Nós não queremos mulheres. Mulheres são uma maldição!”

Quando uma mulher engravida de uma menina é obrigada pela família do noivo a abortar antes da bebé nascer. Se a mãe não aceitar é perseguida até ao fim da gravidez e quando a menina nasce é morta pela família do noivo. Se a mãe conseguir salvar a menina, tem de a fazer desaparecer de casa, abandonando-a na rua. São obrigadas a abortar e a engravidar até terem rapazes, e caso não consigam, são consideradas inúteis e por isso são espancadas e assassinadas, para poderem casar de novo. 

As mulheres significam 
a saída de dinheiro e bens materiais numa família.
Os homens significam 
a entrada de dinheiro e bens materiais na família.
E isto faz com que as meninas sejam logo indesejadas.


Os indianos dizem: “perdemos as nossas filhas porque passam a ser propriedade da família do noivo, ficamos sozinhos sem ninguém para cuidar de nós, e ainda temos de pagar para mantê-las noutra família.
Ter uma filha na India é como regar o jardim do vizinho.”

Muitos pais nem se sentem tristes quando matam as filhas. Eles acreditam que, em vez da criança sofrer no dia-a-dia por ser menina na pobreza ( 1 em cada 4 não resiste até à puberdade, por homicídio por negligência por falta de tratamento médico), é preferível matá-la logo após o seu nascimento. 
Isto não acontece só na India.
Há outros países asiáticos e africanos que fazem o mesmo.
No mundo, há cerca de 200 milhões de mulheres desaparecidas.
Só na India são 50 milhões.
Elas estão desaparecidas porque deixaram de existir, foram assassinadas.

Os rapazes quando nascem são vistos como uma bênção.
As raparigas quando nascem são vistas como uma maldição.
Elas são mortas através do aborto selectivo, ou pelo infanticídio, ou abandonadas na rua, e por isso deixam de existir demograficamente.  
Na India e na China, 30% das meninas são mortas antes de nascerem.

Isto virou um negócio bastante rentável porque, o Estado proibiu os aparelhos de ultrassom para saber o sexo do bebé antes de nascer, e passou a ser obrigatório registar os aparelhos de ultrassom e a informar quem queria fazer o teste e porquê, mas a maioria dos médicos ignora a Lei e aceita o dinheiro das famílias como suborno. Ganham milhões com isto.
As famílias pobres, que não têm possibilidade de recorrer à medicina, para evitar os dotes, matam as filhas à nascença ou abandonam-nas na rua. 

Outra forma de fazer desaparecer as mulheres é através da violência física. 
Elas são brutalmente assassinadas pelas famílias dos maridos.

Outras também desaparecem por serem traficadas para fins de exploração sexual, muitas vezes vendidas aos traficantes pelos maridos.

Há coisas que estão a mudar na India, mas há outras que só levantam polémicas, nomeadamente no que diz respeito à Educação.
A India criou a Lei do Direito à Educação, mas depois o Governo aprovou uma alteração na Lei de Proibição do Trabalho Infantil, que permite que as crianças com menos de 14 anos trabalhem nos negócios familiares. Isto é um retrocesso porque a Lei deveria proibir qualquer trabalho infantil e ser obrigatório irem para a escola. Esta alteração à lei, para além de permitir o trabalho infantil, também permite que as famílias recusem a entrada dos filhos na escola. Esta alteração foi feita porque acreditam que trará vantagens para as crianças. Acreditam que estão a ajudá-las a ganhar espírito de empreendedorismo. Isto é inacreditável!
O que representa uma criança que faz um trabalho contra a sua vontade?
Escravidão!
Primeiro salientam a importância de irem à escola, mas depois emendam uma Lei antiga, que proibia o trabalho infantil em 83 áreas consideradas perigosas, passando a proibir qualquer trabalho infantil, excepto nos negócios familiares. Ou seja, agora têm as crianças a trabalharem, com a desculpa de serem negócios familiares. Não dá para entender uma emenda destas nesta lei, quando a India é o país com mais incidência de trabalho infantil.
Agora, as crianças voltaram a trabalhar nas fábrica e nos campos. As escolas vão ficar vazias de novo, e recomeçará o tráfico humano de crianças para a exploração comercial. Haverá sempre a desculpa de que a criança é parente de alguém, e não haverá forma de provar o contrário.
O que aconteceu de imediato foi: a maior parte das meninas deixaram de ir à escola, e a maior parte delas estão desaparecidas. 
Se as mulheres têm o mesmo tratamento na escola? Sim e não.
Por Lei, elas têm o mesmo direito à Educação que os homens, mas depois verifica-se que os homens com os mesmos cursos que elas, têm salários muito mais altos e muito mais regalias. A descriminação continua, e elas têm um nível de Educação bastante inferior ao dos homens, e a maior parte abandonam a escola precocemente por causa do dever patriarcal. 

Seria um grande avanço se as mulheres estudassem, porque existem vários estudos que associam a baixa escolaridade à pobreza e à necessidade das mulheres trabalharem em casa, além de que a educação das mulheres tem um papel importantíssimo para o país. A Alta Educação permite que elas sejam mais competentes dentro e fora de casa, encoraja e promove a educação das crianças, especialmente as do sexo feminino, reduzindo assim a taxa de feticídio. Podemos prevenir o feticídio com o aumento da escolaridade!!

A India, em muitas zonas rurais, vê na Educação o veículo para uma mudança social na comunidade. Está provado que a falta de educação nas mulheres surge associado à pobre nutrição dos seus filhos e também à morte dos mesmos.
A Educação serve não só para explicar o feticídio, como também a violência contra as mulheres. E por isso, a educação é importante para as mulheres, mas também para os homens, porque os homens com uma educação mais elevada e com atitudes favoráveis em relação à igualdade de género, estão menos propensos a terem comportamentos violentos contra as mulheres. 
Por outro lado, o stress económico, o fracasso no trabalho e a insegurança parecem agravar e perpetuar a violência contra as mulheres. Isto está relacionado com as normas de masculinidade e as expectativas dos homens relativamente a sustentar economicamente a família, mesmo nas situações em que a mulher trabalha e tem o seu salário. Logo, pela lógica, se houvesse mulheres com mais escolaridade, elas teriam os seus salários e a situação financeira da família melhoraria e evitaria comportamentos violentos contra elas mas, na realidade não é isso que acontece…em muitos casos, quando elas ganham mais dinheiro do que eles, a violência doméstica aumenta, para os homens demonstrarem o seu poder e superioridade.
E assim voltamos ao problema da masculinidade, e à superioridade dos homens em relação às mulheres na India.

As questões para se chegar à Discriminação levam-nos a várias situações, como o abuso sexual, o espancar, e a violência psicológica que acontecem dentro de cada família, e à observação da violência entre os pais.
Esta questão da observação, chama-se Teoria de Aprendizagem Social de Bandura, em que o processo de aprendizagem decorre a partir da Observação do comportamento de outras pessoas. É o que se chama de Modelagem. No entanto, os comportamentos não serão postos em prática sem que haja uma motivação, mesmo que os tenha observado e memorizado.
A motivação será, “Se ele pode bater nas mulheres, eu também posso”, “Se ele bate nas mulheres, então eu também irei bater”. As crianças são muito influenciadas por aquilo que vêem nas figuras masculinas. O controlo sobre as mulheres nas suas variadas formas e o respeito incutido que lhes dá outro estatuto social. Os rapazes interiorizam estes comportamentos violentos contra as mulheres como sendo aceitáveis para expressar a sua insatisfação, o stress ou a sua desaprovação. Ou seja, a violência e a discriminação podem ser desenvolvidas como normais se a criança, durante a sua infância, observar ou for vítima de algum tipo de violência ou discriminação. Essas crianças terão quatro vezes mais probabilidades de terem comportamentos violentos, quando comparado com homens que nunca experienciaram este tipo de violência e discriminação. 

A lei de 2013 inclui agora pena de morte para as violações que causam a morte ou estado vegetativo da vítima, a relação sexual de um marido sobre a esposa durante o divórcio, a relação sexual de uma pessoa numa posição de autoridade, e a violação colectiva. Inclui também crimes como ferir alguém com ácido, assédio sexual, voyeurismo, intensão de se despir e perseguição. Estas alterações foram importante para a India, no entanto existe muita corrupção na polícia e na maioria das vezes os processos não chegam aos tribunais e a justiça nunca é feita. Os elementos das Forças Armadas continuam com imunidade e são uma enorme ameaça para as mulheres. Para além disto, a idade mínima para casar continua a ser os 16 anos, e a violação no casamento é legal.  

Está lá no Código Penal:
“ Relações sexuais ou acto sexual por um homem com a própria mulher, não tendo ela menos de 15 anos, não é violação”. 

Isto é permitido para não criar situações de stress nas famílias e também por questões culturais e religiosas do hinduísmo. A India é uma sociedade patriarca, onde os homens lideram em casa, e a mulher é considerada um Ser Inferior. Só por ser mulher, ela tem de se sujeitar a fazer o que ele manda. E se eles quiserem ter sexo, é obrigação da mulher aceitar e não se negar, porque quando ela casa com um homem, ela já sabe que é esperado que ele domine em todas as esferas da vida. No fundo, o corpo delas é deles. Quando uma mulher casa, o homem assume que ela está a consentir ser dominada por ele e a ter relações sexuais, e por isso exige que ela lhe obedeça. Quando por algum motivo, ela não dá o seu consentimento, ele tem o direito de a forçar através da violência. Isto proíbe legalmente as mulheres de dizerem “Não”. Os homens sabem que a lei os protege, o que lhes permite fazerem o que querem das mulheres dentro de casa. Isto explica a enorme incidência de violência doméstica na India.

As mulheres na India não têm qualquer valor: são mortas à nascença, assassinadas, raptadas para exploração de trabalho infantil, trabalho sexual, escravidão, são espancadas, violadas… 

Eu continuo a achar que a melhor forma de alterar isto é através da Educação, tanto dos meninos como das meninas. Por várias vezes me disseram que “Não podemos fazer nada!” e cruzam os braços e ficam a assistir nos seus sofás à miséria humana nas televisões, tornando-se indiferentes a tanta tragédia humana que lhes entra em casa pela televisão. Nós podemos não conseguir mudar milhões de vidas mas, se cada um de nós mudar uma vida, se preocupar com outra e lhe fizer bem, imaginem o bom que este mundo poderia ser. 
Sermos uma para cada uma!
Eu acho que este é o dever de todas as pessoas!
Começar por aí, por ser uma para cada uma!
Depois, se conseguirmos mudar mais vidas, melhor.
É claro que é nosso dever cuidar e respeitar todas as pessoas que se cruzam no nosso Caminho!
Mas, num país como a India, onde os homens odeiam as mulheres, que mais podemos nós mulheres desejar, a não ser que cada um se preocupe com uma só mulher, e mude a vida de uma só mulher?
Seria um excelente começo!
O importante é Salvar alguém! 
As pessoas têm de ter consciência disto. 
A Paz e a dignidade é um Direito de Todos!!!





          

sábado, 27 de abril de 2019

Desejos Vãos





Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta a vastidão imensa!
Eu queria ser a pedra que não pensa,
A pedra do caminho rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bom do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras… essas… pisa-as toda a gente! …


Florbela Espanca










Adios Nonino - Astor Piazzolla