segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Os deuses dentro






Os deuses sabem melhor do que nós
aquilo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,
mandam-nos um lobo, e não os entendemos.

A vida em cada dia os esquece,
a morte à noite inventa-os.

E as doenças, segundo o sábio dito,
são deuses agonizando no nosso corpo,
seu derradeiro templo em ruínas,
seu refúgio sem fé. Pedem piedade.

Os deuses não entendem a estranha insensatez
com que decidimos acabar connosco e com eles,
o orgulho com que os desprezamos.

Pedem pouco os deuses, só que os não olvidemos.

Mas é muito pedir a uma raça de escravos
que do olvido fizeram vida, missão
e razão de ser.
Os deuses calam-se,
resignados, e em silêncio morrem
em cada um dos antigos súbditos.


Juan Vicente Piqueras





A importância de adoecer







Psicanálise e Psicossomática

São conhecidos e freqüentemente lembrados dois exemplos de organizações de grande resistência ao adoecimento físico: o autismo, que parece incompatível com as doenças comuns da infância, de modo que o surgimento delas em crianças autistas costuma estar associado à melhora de seu quadro; e a psicose, que parece servir de eficaz proteção imunológica, especialmente quando em estado de descompensação. O que poderia haver nessas organizações que favorecesse tal estado de “saúde física”? Ou ainda: as diversas dinâmicas psíquicas seriam diferentemente vulneráveis à disfunção fisiológica? Estas perguntas seriam cabíveis em uma perspectiva psicanalítica?

Há um desconforto na psicanálise com investigações que incluam processos do corpo biológico. Tendo se diferenciado da medicina, e constituído seu campo pela delimitação de um psíquico irredutível ao somático, como poderia avançar para além de suas fronteiras? Caso o faça, não comete um abuso simétrico e oposto àquele que atribuímos às neurociências, em sua pretensão de abarcar o psíquico? De qualquer modo, as incursões psicanalíticas pelo campo da chamada psicossomática são um fato. E antes que se possa colocar os aventureiros em qualquer tribunal, propomos recuperar, embora de modo muito resumido, algumas das principais propostas feitas a esse respeito por psicanalistas.

Freud, ao que tudo indica, não se interessou em estender ele mesmo a psicanálise ao campo das desorganizações somáticas. A hipótese da conversão indicava que conflitos psíquicos podiam produzir sintomas corporais, mas neste caso a materialidade do distúrbio não exigia qualquer dano estrutural. Pelo lado das neuroses atuais, havia sem dúvida uma perturbação neurovegetativa, mas então o que faltava eram os complexos psicológicos; nada se encontrava nesse quadro, malgrado sua determinação sexual, que justificasse situá-los como psiconeuroses. Então, pela via freudiana, teríamos a tendência de não misturar os dados: realidade psíquica, “realidade somática”, eis dois crivos indicadores de campos clínico-teóricos distintos.

Verdade que Freud considerou a possibilidade de distúrbios sexuais interferirem nas funções fisiológicas: se várias destas funções eram capazes de produzir excitação sexual, então, por serem vias de mão dupla, perturbações na sexualidade podiam levar a alterações na alimentação, na excreção, na visão etc. Freud estende essa idéia, argumentando que os órgãos do corpo são obrigados a servir dois senhores (na época, as pulsões do eu e as pulsões sexuais), o que freqüentemente os leva a desconcertos não somente ligados à ação do recalcamento pelo seu uso erótico; mesmo sem essa defesa, pela intensificação do uso, mudanças na excitabilidade e na inervação poderiam prejudicar seu funcionamento. Em todo caso, seriam ocorrências ainda ligadas à dimensão psico-sexual, e cuja solução também estaria nela.

Há uma diferença entre falar do lastro corporal do psíquico, e suas relações, e pensar uma psicossomática. De fato, os primeiros psicanalistas que apontaram o leme para a terra das doenças físicas o fizeram sem usar essa noção, que sugere um campo específico de investigações. Pareciam somente falar de mais um tipo de sintomatologia; sem ocupar-se em demasiado com as dificuldades epistemológicas, pretendiam apenas fazer psicanálise.
Refiro-me a Walter Georg Groddeck e Sandor Ferenczi.

Groddeck (1866-1934) teria conhecido a ação dos símbolos e do inconsciente por via de seu trabalho em clínica médica. Soube da existência da psicanálise depois, por volta de 1910, mas chegou a escrever tomando posição contrária a ela em 1912, atitude que posteriormente atribuiu à inveja: queria ter sido ele o primeiro a divulgar aquelas descobertas que estava fazendo. Em 1917 iniciou sua correspondência com Freud, com cuja aprovação publicou, nesse mesmo ano, Condicionamento psíquico e tratamento de moléstias orgânicas pela psicanálise, no periódico Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse.

É um texto ousado e instigante. Nele já aparece o conceito de Isso, “por quem somos vividos”, ao qual atribui poder de ação sobre todo o organismo. Groddeck estende a teoria do processo conversivo a todo episódio de adoecimento, raciocinando de modo finalista: o motivo do sintoma, inconsciente, elucida-se pelas conseqüências que ele provoca, senão práticas, ao menos simbólicas. Assim, dores de cabeça aplacam os pensamentos; magreza e fraqueza denunciam a nostalgia da condição de recém-nascido; uma barriga, o desejo de gravidez. Groddeck cita vários de seus próprios sintomas que fez desaparecer – inclusive gota – somente com a auto-análise. Defende a doença como uma das expressões do Isso, tal como seriam o formato do nariz, o jeito de andar, enfim, como uma manifestação de vida, e não como um mal a ser combatido a qualquer preço.
A vida e a morte estariam sempre nas mãos do Isso.

A doença não provém do exterior, o próprio ser humano a produz; o homem só se serve do mundo exterior como instrumento para ficar doente, escolhendo em seu inesgotável arsenal de acessórios ora a espiroqueta da sífilis, ora uma casca de banana, depois uma bala de fuzil ou um resfriado (Groddeck,1923, p. 219).



Olhando em perspectiva

O percurso que realizamos pelas idéias da psicossomática mostrou diversas tentativas de abordar o adoecimento físico no campo psicanalítico, ora considerando-o como tendo o mesmo estatuto do sintoma neurótico, ora supondo-o como par antitético da elaboração psíquica, ou mesmo como um fenômeno intermediário entre o biológico e o representacional. A questão do sentido do sintoma esteve sempre no horizonte das discussões, mas em diferentes posições – segundo uns, a doença teria um sentido a ser interpretado; segundo outros não teria sentido algum; conforme terceiros, a doença apresentaria uma demanda de sentido, um sentido a ser construído a posteriori. No que se refere à implicação do “outro” no adoecimento, também as teorias diferem, algumas explicando a somatização em uma perspectiva intra-subjetiva, outras defendendo a necessidade de considerá-la no contexto da intersubjetividade. Uma primeira constatação, portanto, poderia ser pelo simples desacordo das idéias nessa área.

Entretanto, colocando-se estas diferenças em perspectiva no tempo, detecta-se o que parece ser um certo movimento (dialético): a somatização transita de um modelo mais estritamente conversivo para a sua negação, e em seguida para um terceiro estado em que se apresenta como um horizonte de significações ainda irrealizado. Também do ponto de vista da relação eu-outro, registra-se uma tendência semelhante – de um sintoma produzido pelos conflitos neuróticos do Eu, passa-se para uma reação da desorganização do Eu, e por fim para a expressão de distúrbios pré-egóicos, impasses das relações primitivas.

É como se, tendo-se iniciado a discussão em psicossomática com a metapsicologia da primeira tópica freudiana, tivesse havido um reconhecimento de processos cada vez mais primitivos, fronteiriços do psique-soma. Mas trata-se de uma fronteira nada estreita, em que cada vez mais se descobrem traços elementares de mecanismos complexos (neuróticos, psicóticos, perversos). Donde o reconhecimento de que ali, naqueles fenômenos psicossomáticos, deveríamos nos deparar com as ausências do psiquismo já constituído, mas também com todas as suas pré-condições.
A somatização não seria, portanto, nem propriamente a neurose do corpo, nem o retorno regressivo ao orgânico, mas a reativação de processos elementares, aquém da consciência e talvez mesmo do inconsciente, mas direcionados ao encontro com o outro e à significação. Eis o que parece ser a tendência das teorizações em psicossomática psicanalítica, e o que explicaria o título deste artigo.


Sidnei José Casetto





sábado, 8 de agosto de 2020

Vigílias do terceiro dia






Meu Deus, como compreendo a tua hora, 
quando tu, para que ela no espaço se arredondasse, 
a voz à tua frente colocaste outrora; 
para ti o nada era como uma ferida que não sarasse, 
e tu refrescaste-a com o mundo. 

Agora sara baixinho entre nós. 

Pois os passados bebiam 
as muitas febres que no doente apareciam, 
nós já sentíamos, em suaves oscilações que se abriam, 
o pulso calmo do fundo. 

Sobre o nada descansamos como abrigo 
e cobrimos todas as rupturas; 
mas tu cresces para o desconhecido 
à sombra do teu rosto sem fissuras.


Rainer Maria Rilke





A Psicossomática


Georg Walther Groddeck 
(13 October 1866 in Bad Kösen, Germany – 10 June 1934 in Knonau, near Zurich)



A DOENÇA COMO LINGUAGEM:
A PSICOSSOMÁTICA DE GEORG GRODDECK 



A Psicossomática é um campo do conhecimento que fornece um aparato teórico-conceitual de reconhecido valor heurístico para lidar com as questões que permeiam o percurso do adoecimento, uma vez que contempla a interface mente-corpo e a singularidade da experiência da doença. Inserida nesse campo, a obra do médico alemão Georg Walther Groddeck merece ser reconhecida por seu pioneirismo e sua capacidade de sensibilizar os leitores para a riqueza do processo saúde-doença. Tal processo é compreendido como um ato criativo do próprio indivíduo, em sua relação com o mundo e a natureza. 



O termo “doença psicossomática” tem sido tipicamente empregado para definir enfermidades que são produzidas como resultado direto ou indireto de emoções ou conflitos psíquicos. 
Contemporaneamente, podemos observar duas correntes teóricas de estudo dominantes nesse campo: a “medicina psicossomática” e a “psicossomática psicanalítica”. 
A medicina psicossomática investiga as chamadas “doenças orgânicas” nas quais a etiologia pode ser claramente identificada, de uma forma comprovável cientificamente, a partir de experimentações calcadas no modelo positivista, e referida a causas psicogênicas, principalmente emoções, tensões e estresse.

Uma das principais diferenças entre as abordagens supracitadas é que a psicossomática psicanalítica  reconhece que existe um sentido no sintoma, em geral relacionado à intencionalidade inconsciente ou a um simbolismo que reveste o processo de adoecer, enquanto que a medicina psicossomática não leva em conta esses postulados. A ideia de que um sintoma possui um sentido ou simbolismo advém dos questionamentos de Freud e seus seguidores a respeito da histeria. A manifestação histérica pode ser considerada enigmática e singular, pois é uma enfermidade que apresenta sintomas que não podem ser reduzidos à etiologia orgânica, mas que também não podem ser negados. Nessa linha de raciocínio, a histeria constitui um desafio à área médica, uma vez que, em seu cortejo sintomático, a fronteira entre mente e corpo, tão claramente definida na medicina ortodoxa, torna-se obscura e confusa. 

Embora Freud nunca tenha utilizado o termo “psicossomático” em sua obra escrita, podemos dizer que, historicamente, a psicanálise surge para responder aos enigmas de uma manifestação psicossomática que desafiava o saber médico do final do século XIX: a histeria. Nesse sentido, nota-se que o método psicanalítico está impregnado de um olhar que busca investigar questões complexas
que envolvem a interrelação entre corpo e mente. Por essa razão, a psicanálise seria privilegiada como base teórico-conceitual para sustentar ulteriores investigações sobre somatização e análise de “doenças orgânicas” por diversos psicanalistas, como Ferenzi, Alexander, Lacan Winnicott, Pierre Marty e Joyce McDougall.

Georg W. Groddeck, que viveu entre 1866 e 1934, não pertenceu a nenhuma das linhas de pensamento supracitadas, sendo, antes, seu precursor. Seu primeiro texto sobre psicossomática, cujo título é "Condicionamento psíquico e tratamento de moléstias orgânicas pela psicanálise", foi publicado em alemão pela primeira vez em 1917, ou seja, o desenvolvimento de suas ideias é anterior às escolas de psicossomáticas já mencionadas. Por este motivo, ele é considerado o pai da
psicossomática. O ponto de partida de Groddeck se diferencia dos demais pensadores em psicossomática psicanalítica, na medida em que ele parte da observação de doenças orgânicas crônicas, e não de fenômenos como a histeria, somatização, neurose atual ou hipocondria, para tirar suas conclusões a respeito da natureza do adoecimento (Dimitrijevic, 2008). 
Como o próprio Groddeck salienta:

Não cheguei à psicanálise tratando de doenças nervosas, como a maior parte dos discípulos de Freud, mas a partir de minha atividade terapêutica, desenvolvida junto a pacientes com doenças orgânicas crônicas, fui obrigado a recorrer ao tratamento psicológico e posteriormente ao psicanalítico. Os êxitos do post hoc ergo propter hoc( Post hoc ergo propter hoc: “Depois disso, logo, por causa disso”, fórmula com que se designava na Escolástica o erro que considera como sendo a causa o que é apenas um antecedente no tempo) me ensinaram que é igualmente válido imaginar o corpo dependendo da alma – e agir de forma correspondente – como o contrário. (Groddeck, 2011, p. 18) 

Ao considerar a relevância da obra desse autor para o desenvolvimento da escolas psicossomáticas, apresentaremos agora um panorama das principais contribuições de Groddeck para a psicanálise e para a psicossomática.
Georg Walther Groddeck nasceu em Bad Kösen, Alemanha, no ano de 1866
Quinto filho de uma família numerosa, Groddeck foi o único a seguir a mesma carreira que seu pai, médico. Desde o início de sua formação em medicina esteve profundamente interessado nas histórias de vida dos pacientes atendidos por seu pai, que o deixava estar presente durante as consultas que realizava. Podemos dizer que este foi um diferencial para a sua formação médica, uma vez que os estudantes de medicina já naquela época travavam seu primeiro contato com a profissão por meio de cadáveres, e não pela interação com seres humanos vivos.
Na universidade, Georg recebe influência profunda de Ernest Schweninger (1850-1924), famoso médico alemão que tratou do chanceler Bismark no século XIX. Schweninger era um médico de princípios hipocráticos, sendo um dos principais lemas o Nil Nocere ( Nil Nocere: Princípio máximo da ética médica, que propõe a obrigação de não infligir dano ao paciente.O profissional deve atuar seguindo o princípio bioético da não maleficência); seu tratamento se baseava, principalmente, na
prescrição de dietas, massagens e hidroterapia. A visão do mestre de Groddeck era de que estava na natureza a fonte de toda a cura e era o paciente que detinha os meios de se curar, deixando ao médico a tarefa de descobrir o que obstaculiza esse processo, que é natural e inerente à vida. Além disso, Groddeck aprendeu com Schweninger os efeitos da sugestão no progresso do tratamento e o
respeito ao doente como ser humano integral.

Depois de concluída a formação médica, Groddeck abre uma clínica em Baden-Baden no ano de 1900, iniciando uma longa e bem-sucedida carreira médica. Nesse local ele se dedica ao atendimento de pacientes com enfermidades graves e crônicas, e a partir das suas experiências com tais doentes, irá desenvolver e aprofundar suas principais ideias e concepções sobre saúde e doença. Seus tratamentos
foram tão bem sucedidos que ele passa a ser solicitado não só por alemães, como por estrangeiros que sofriam de doenças graves como esclerose múltipla, lúpus eritomatoso sistêmico, gota, bócio, sífilis e tuberculose, além de ser frequentemente indicado por outros médicos quando os mesmos já não tinham mais tratamentos para oferecer ao doente. 
Sigmund Freud (1856-1939) e Sandor Ferenczi (1873-1933) encaminharam diversos pacientes seus à clínica de Groddeck.

Em paralelo a sua atividade como médico no sanatório, Groddeck também encontrou tempo para se dedicar a seus outros interesses, como a literatura, trabalho social e criação de textos sobre suas principais ideias teóricas. Em 1917 publica seu texto seminal "Condicionamento psíquico e tratamento de moléstias orgânicas pela psicanálise", o qual inaugura a psicossomática moderna e a possibilidade de aplicar conceitos da psicanálise na compreensão do processo do adoecer e de suas
significações. Nesse mesmo ano, inicia uma troca de cartas com Freud, e descobre que os conceitos que ele mesmo já aplicava em seus tratamentos havia alguns anos, como transferência e resistência, já haviam sido consagrados por outro autor.

Freud e Groddeck mantiveram uma profícua e combativa relação, alimentada mediante troca de cartas ao longo de 17 anos. A correspondência mostra um misto de admiração e criticismo de ambos os lados. Essa duradoura relação epistolar constitui a base da obra "O livro d’Isso", romance publicado em 1923, no qual Groddeck resume, de maneira criativa, suas posições sobre saúde e doença, demonstrando como a psicanálise pode atuar nesse campo. 
Freud era entusiasta da ideia de aplicar os conceitos da psicanálise aos distúrbios somáticos e aprovava a utilização que Groddeck fazia da psicanálise, encorajando-o em suas pesquisas, além de publicar, em periódicos psicanalíticos, diversos textos do colega.
Por outro lado, apesar de Groddeck julgar as contribuições freudianas de grande utilidade terapêutica, mostrava reservas e tomava certa distância em relação à dimensão institucional da psicanálise. 

A relação entre Freud e Groddeck causou profundo impacto em ambos no que se refere à influência teórica mútua. O que se pode constatar é que Groddeck necessitava dos conceitos freudianos para dar consistência à sua psicossomática, enquanto que Freud encontrava nas ideias groddeckianas algumas de suas próprias intuições que ainda não ousava afirmar. Freud baseou seu conceito de id no constructo do Isso, que possui importância central na teoria groddeckiana. O próprio Freud revela a influência de Groddeck no seu pensamento no seguinte trecho de "O ego e o id"

Estou falando de Georg Groddeck, o qual nunca se cansa de insistir que aquilo que chamamos de nosso ego comporta-se essencialmente de modo  passivo na vida e que, como ele o expressa, nós somos ‘vividos’ por forças desconhecidas e incontroláveis. Todos nós tivemos impressões da mesma espécie, ainda que não nos tenham dominado até a exclusão de todas as outras, e precisamos não sentir hesitação em encontrar um lugar para a descoberta de Groddeck na estrutura da ciência. Proponho levá-la em consideração chamando a entidade que tem início no sistema Pcpt. e começa por ser Pcs. de ‘ego’, e seguindo Groddeck no chamar a outra parte da mente, pela qual essa entidade se estende e que se comporta como se fosse Ics., de ‘id’. (Freud, 1923/1996, p.14) 

Além de terem influenciado profundamente o pensamento de Freud e o desenvolvimento da psicanálise, as ideias de Groddeck levam as discussões sobre a expansão da psicanálise para outros níveis de realidade, bem além dos seus estudos iniciais sobre a neurose, aprofundando a discussão do enigma mente-corpo. Outros autores, como Poster, consideram Groddeck, juntamente com Sandor Ferenczi e Otto Rank, responsáveis por uma mudança paradigmática no desenvolvimento da psicanálise.

Groddeck foi rotulado como wild analyst, expressão que pode ser traduzida como “analista selvagem”. A figura do analista selvagem retrata um psicanalista emocionalmente envolvido e pessoalmente motivado, que exerce seu trabalho de modo intenso e comprometido. 
Dimitrijevic descreve traços marcantes da “selvageria” de Groddeck: um homem de extraordinária coragem para testar procedimentos que podiam colocar em risco sua reputação, além de ser capaz de trabalhar sem ser apoiado e tranquilizado pelo lado ideológico da psicanálise.
Além de suas contribuições notáveis para a psicanálise, Groddeck também ocupa um lugar na história da medicina. A teoria groddeckiana da doença é, fundamentalmente, diferente da atual concepção médica, no entanto, isso não impede que haja um diálogo entre ambas correntes de pensamento. Segundo Dimitrijevic, uma investigação da atitude terapêutica de Groddeck, juntamente com o espírito inovador de seu trabalho, que une psicanálise e medicina, podem constituir as bases de uma arrojada teoria sobre doença e cura.

Para Vaguerèse, a obra de Groddeck merece ser reconhecida por sua enorme capacidade de sensibilizar os leitores para a riqueza do processo saúde-doença, que é compreendido como um ato criativo do próprio indivíduo, em sua relação com o mundo e a natureza. Além disso, a autora ressalta que Groddeck enfatizou a dimensão inconsciente, os limites do eu e as sensações sexuais infantis na
determinação da personalidade. Sob esse ponto de vista, ele pode ser considerado o teórico precursor do estudo da relação precoce da díade mãe-filho, assim como da necessidade de dar atenção à vida intrauterina.
Apesar de ser um autor original, com ideias seminais para o desenvolvimento da psicanálise e da psicossomática, a obra de Groddeck sofreu a mais eficaz censura: o esquecimento
A Psicologia parece reservar pouca atenção a ela, e mesmo a psicossomática não reconhece sua influência. Segundo Ávila, a exclusão da obra groddeckiana do cenário atual é uma expressão da
distinção entre subjetivo e objetivo, frequentemente reforçada pelas tendências filosóficas do modelo biomédico.
Groddeck sofreu grave censura de sua obra e, em 1920, foi acusado de superficialismo, misticismo e até pornografia. 
No entanto, parece que toda obra nova é facilmente identificada como uma ameaça à ordem estabelecida, basta lembrar a segregação sofrida por Freud nos primórdios do desenvolvimento da
psicanálise. Segundo Vaguerèse,  é possível que a compreensão psicanalítica das doenças tenha sido ocultada por ser incisiva e subversiva, na medida em que abre uma brecha naquilo que a doença mostra ao homem, ou seja, o lado inumano, incontrolável e inefável da vida. 

Schávelzon diz ainda que o modelo psicossomático frequentemente é sentido como uma agressão narcísica, pois responsabiliza o sujeito pelo adoecimento. Além disso, o discurso groddeckiano obriga o médico a reconhecer seus limites, destoando do modelo biomédico, que centra na figura do médico o poder de vida e morte.

Depois de sua morte, em 1934, a obra de Groddeck caiu no mais completo esquecimento por cerca de 25 anos. São raras as citações e poucas as tentativas de tomar suas proposições como base para pesquisa e trabalho clínico. Suas ideias foram melhor acolhidas na França e na Alemanha, onde diversos autores de livros e artigos reconhecem suas contribuições seminais. 
No entanto, no ano de 1977, com a publicação de sua farta correspondência com Freud, sua obra ressurgiu e atraiu o interesse de diversos autores. 
O ressurgimento se deve, principalmente, ao reconhecimento da precedência de Groddeck no uso do conceito de id na psicanálise e ao pioneirismo da psicossomática em termos de proposição de paradigma alternativo ao modelo médico consagrado. 



Leonardo Moura Freitas
Manoel Antônio do Santos




sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ascensão





Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim, Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, –
nunca estive tão perto da verdade.


Jorge de Sena
in, ‘Perseguição’





Projectar







O que podemos projectar
que não seja o desenho

do nosso futuro incompleto?
Tudo é revisitação nessa caixa escura

onde células se movem e se escutam
mutuamente, como se esperassem

por um acontecimento primeiro,
uma revelação atenta do sangue

e do plasma, da música que te fez cego
e que trouxe as enumerações do sensível,

a evidência de uma cor extrema queimando
os signos e a gramática desenhada.

O que podemos projectar agora?


Luís Quintais
in, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro




Percepção é Projeção







A maravilhosa escritora Anais Nin escreveu uma das minhas frases preferidas:

"Nós não vemos o mundo como ele é. 
Nós vemos o mundo como nós somos."

Lembro-me de andar semanas a meditar sobre o significado desta frase e como ela afinal explicava tanta coisa, principalmente a enorme diferença de opiniões e visões da realidade das pessoas à minha volta. Sempre adorei conversas filosóficas e partilhas de conhecimento mas era desconfortável a forma por vezes rígida ou inflexível com que as pessoas defendiam a sua visão, não dando espaço a visões diferentes.

Mais tarde a PNL (Programação Neuro Linguística) reforçou o conceito da frase com um dos seus princípios:

"Percepção é projeção". 

Ou seja, o mundo que vemos mais não é do que uma tela de cinema onde é projectada a nossa realidade interna. 
Isso explica porque encontramos facilmente pessoas que passaram pela mesma realidade e a descrevem de forma diferente. Ou que depois de apresentadas a outras pessoas deixam impressões diferentes. Ou que perante um divórcio vemos o princípio ou o fim da vida. Ou mesmo perante um evento global como foi o caso da pandemia, seja vivida / processada / sentida / integrada de forma diferente.

Por exemplo, se estivermos comprometidos a fazer uma dieta, esta prioridade momentânea vai condicionar-nos a dar mais atenção à forma física das pessoas à nossa volta, vai fazer-nos reparar mais depressa numa notícia que fale em alimentos, vai nos fazer estar mais conscientes quando abrimos o frigorífico, vais fazer-nos inclusivé atrair pessoas e circunstâncias que vêm ampliar essa realidade interna/externa com que nos comprometemos.

 "Energy flows where attention goes."

Lembro-me que quando fiquei grávida pela primeira vez, passei meses a ver grávidas por todo o lado, carrinhos de bebé, tomei consciência de lojas de crianças perto de mim, tudo realidades que até àquele momento me tinham passado completamente despercebidas, precisamente porque internamente nada me conectava com elas.

Mas se este fenómeno já é desafiante de entender ou mesmo desconhecido para a maioria das pessoas, ainda mais complexo se torna se nos lembrarmos que já nascemos condicionados, que já trazemos memórias de experiências de outras vidas, que a nossa descrição da realidade não a define de forma neutra mas muito mais a forma como estamos condicionados, que estamos condicionados por energias que vêm cumprir a sua agenda de evolução e logo irão "arrastar" ou condicionar a nossa atenção precisamente para essas lições.

Não conhecer este fenómeno ou, não nos lembrarmos dele mais frequentemente é o que nos leva a discussões inúteis ou pior ainda, a julgamentos de quem pensa ou vê o mundo de forma diferente, partindo sempre do princípio que o outro está errado e nós é que estamos a ver a realidade da forma certa.

Na verdade ela é certa sim, mas apenas para nós...  e o que somos nós? Uma amálgama de energias feitas de emoções, polaridades, memórias, relações, valores, princípios, prioridades e um determinado grau de consciência que vai mudando de experiência em experiência, de vida para vida. 

A fantástica frase do Dr. Wayne W. Dyer resume a intenção:

“Quando você julga os outros, 
não os define, 
define-se a si mesmo.” 

Tendo em conta a complexidade e originalidade que cada um de nós representa, é importante lembrar que não estamos dentro do outro a espreitar o mundo pela lente dele, e a ver o que a lente dele lhe permite ver. Não somos todos iguais, não temos as mesmas prioridades, não estamos a viver os mesmos valores das mesmas maneiras. Não somos aos 20 a mesma pessoa que somos aos 40. Nem sempre estamos à altura da melhor resposta, nem sempre conseguimos ser positivos, optimistas, gratos, tolerantes simplesmente porque temos uma sombra que nos testa ao longo da nossa viagem pelo plano material.

Muito mais importante do que encontrarmos um molde de realidade que se ajuste a todos, ou lutarmos pela razão ou pela verdade, é encontrar o caminho do respeito pela diferença, da tolerância pelo molde diferente de cada um de nós. É, do momento muito único da viagem pessoal em que cada um de nós está, contribuindo assim de formas diferentes e criativas para o colectivo.


Vera Luz





quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Go, give the world







I do not crave to have thee mine alone, dear
Keeping thy charms within my jealous sight;
Go, give the world the blessing of thy beauty,
That other hearts may share of my delight! 

I do not ask, thy love should be mine only
While others falter through the dreary night;
Go, kiss the tears from some wayfarer’s vision,
That other eyes may know the joy of light!

Where days are sad and skies are hung with darkness,
Go, send a smile that sunshine may be rife;
Go, give a song, a word of kindly greeting, 
To ease the sorrow of some lonely life!


Otto Leland Bohanan





Ecologia Interior





O estado do mundo está ligado ao estado da nossa mente. Se o mundo está doente isso é sintoma de que a nossa psique também está doente. Há agressões contra a natureza e vontade de domínio porque dentro do ser humano funcionam visões, arquétipos, emoções que conduzem a exclusões e a violências. Existe uma ecologia interior tal como uma ecologia exterior e condicionam-se mutuamente.

Leonardo Boff
in, Ecologia: grito da terra, grito dos pobres


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Rogério Charraz Duetos

                           



                         




                           




                           




                           




                           




                               




                         






A Ballad For A Thin Man


Pedro Diaz Molins





Understood backwards. Lived forward. Life.
Haunted by diverging others. Us but not. Wraiths.
Ghosts of what if? Who then? What might have been?
Leave room. Turn left. Lovely house, wife, retirement.
Leave same room. Turn right. Shack, loneliness, poverty.
Theorize games. Physik quanta. Slide down strings.
Into Wonderland, Oz, Middle-Earth. Narnia.
All the places that don’t exist and matter the most.
Where doors open up to impossible possibilities.
Fight your way through every day. Pit bull of potential.
Just do your work and be kind.* That is a separate peace.
We may be others in other universes, but here we are just us.
**** it up. Love your life. Do what you must. Soldier on.
Real realities can really hurt. Take it like a Man. Or Woman.
Be grateful for your trials. Trials are you. Struggle.
Mount the philosopher’s donkey backwards, advance.


Mike Essig






Ordem Maior


Dariusz Klimczak 





Uma das maiores ilusões de óptica quando olhamos para o mundo é acreditarmos que o que vemos é caótico. Porque não conhecemos as leis universais, não entendemos os movimentos que vemos escondem uma ordem, tal como alguém a ver um jogo de futebol pela primeira vez, está inconsciente do propósito e das regras que o regem.

Quando não conhecemos a ordem ou as regras, tendemos a fazer julgamentos e a assumir coisas que na maior parte das vezes se irão revelar erradas perante a verdadeira ordem. No nosso dia a dia, conceitos como os de acaso, sorte, azar ou injustiça, são normalmente a maneira como assumimos e justificamos o que nos acontece, precisamente porque não conhecemos a ordem maior.

A cura do ser humano acontece não propriamente quando o mundo se organiza a nosso favor mas sim quando nos é permitido espreitar essa ordem por trás do aparente caos.
Deixo alguns exemplos muito comuns:

  • O carrasco, é afinal percebido como o mestre.
  • A raiva que sentíamos por alguém, consegue ser transformada em gratidão.
  • O medo de que sempre fugimos é afinal a chave do nosso poder pessoal.
  • A perda porque passámos foi o que permitiu a ponte para a nossa evolução.
  • A rejeição dos outros foi essencial para a descoberta do caminho pessoal.


O sofrimento é finalmente entendido à luz da lei do karma e aceite como aprendizagem essencial da vida presente.

Estes e muitos outros exemplos mostram o imenso potencial que todos temos de cura interior e que nada depende dos outros ou de ações ou movimentos externos.

O questionamento, a aprendizagem, a curiosidade, a leitura, a capacidade de colocarmos em causa as nossas crenças e verdades são essenciais para entendermos as dinâmicas inteligentes da vida e aprendermos a ver a Ordem Maior. Presos à visão deprimente, caótica e vitimizadora jamais iremos conseguir focar a nossa lente interna e ver a magia que todos os dias se esconde à nossa volta.



Vera Luz






Planet Frequencies


cymaglyphs created from the fundamental resonant tones of the planets





Cymatics is the study of visible sound and vibration. By sending sound waves through matter such as sand on a plate a cornstarch and water mixture, various geometric patterns emerge depending on the frequency and amplitude of the sound being played. 
Nassim Haramein




terça-feira, 4 de agosto de 2020

Educação das Habilidades e Educação das Sensibilidades


Joe Baran 





Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: “Veja!” e, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente… E ficando mais rico interiormente ele pode sentir mais alegria – que é a razão pela qual vivemos.

Já li muitos livros sobre Psicologia da Educação, Sociologia da Educação, Filosofia da Educação… Mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à Educação do Olhar. Ou à importância do olhar na educação, em qualquer um deles.

A primeira tarefa da Educação é ensinar a ver… É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo… Os olhos tem de ser educados para que nossa alegria aumente.

A educação se divide em duas partes:
Educação das Habilidades e Educação das Sensibilidades.
Sem a Educação das Sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido.
Os conhecimentos nos dão meios para viver.
A sabedoria nos dá razões para viver.

Quero ensinar às crianças. Elas ainda tem olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal.
Para as crianças tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra.
Coisas que os eruditos não vêem.

Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – mas esqueci. E nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore… Ou para o curioso das simetrias das folhas. Parece que naquele tempo as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras que com a realidade para a qual elas apontam.

As palavras só tem sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem… O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo e o mundo aparece refletido dentro da gente.
São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida.

Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança, jamais será sábio.


Rubem Alves




Viver É Arriscar-se


Abdullah Evindar  




Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor suas idéias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.

Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão de sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre...

Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...


Soren Kierkegaard





Segunda versão do poema:


Rir é arriscar-se a parecer doido,
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental,
Estender a mão é arriscar-se a comprometer-se,
Mostrar os seus sentimentos é arriscar-se a se expor,
Dar a conhecer as suas ideias, os seus sonhos,
é arriscar-se a ser rejeitado,
Amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor,
Viver é arriscar-se a morrer,
Esperar é arriscar-se a desesperar,
Tentar é arriscar-se a falhar,
Mas devemos nos arriscar!
O maior perigo na vida está em não arriscar.
Aquele que não arrisca nada,
− Não faz nada!
− Não tem nada!
− Não é nada!

Soren Kierkegaard







segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O Príncipe Da Imaginação


Mari Righez




 Vejo as mãos tocando a transparência do vidro.
Noite.
Vejo a luz fóssil do jogo
que não saberei reconstruir.
Jogo de dedos, tácteis sinais
e a memória de os saber, a eles
– filhos – ausentes,
de ter esquecido o movimento,
a veloz acrobacia do tempo
que me diz a desatenção.
Afortunado, oficiante do invisível,
sou o príncipe da imaginação.


LUÍS QUINTAIS





............................removing the soul of humanity






In the future, we will eliminate the soul with medicine. Under the pretext of a 'healthy point of view', there will be a vaccine by which the human body will be treated as soon as possible directly at birth, so that the human being cannot develop the thought of the existence of soul and Spirit. To materialistic doctors, will be entrusted the task of removing the soul of humanity. As today, people are vaccinated against this disease or that disease, so in the future, children will be vaccinated with a substance that can be produced precisely in such a way that people, thanks to this vaccination, will be immune to being subjected to the "madness" of spiritual life. He would be extremely smart, but he would not develop a conscience, and that is the true goal of some materialistic circles. With such a vaccine, you can easily make the etheric body loose in the physical body. Once the etheric body is detached, the relationship between the universe and the etheric body would become extremely unstable, and man would become an automaton, for the physical body of man must be polished on this Earth by spiritual will. So, the vaccine becomes a kind of arymanique force; man can no longer get rid of a given materialistic feeling. He becomes materialistic of constitution and can no longer rise to the spiritual. 
Rudolf Steiner 
(1861-1925)




domingo, 2 de agosto de 2020

Hora Grave






Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke






A VIDA E O TEMPO






As pessoas têm reclamado da quantidade de vida que estão desperdiçando durante o isolamento social. A sensação é de que 2020 já era, foi um ano morto. Há quem inclusive faça piada dizendo que não trocará de idade, manterá a do ano passado, até que possa festejar seu aniversário de novo.

É natural acreditar que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados. Ao cumprir inúmeras tarefas, utilizando todas as horas do dia com atividades práticas, parece que conseguimos manter a morte a distância - brincando de Deus, nosso hobby.

Mas aí vem essa crise sanitária que nos paralisa e nos joga na cara, diariamente, um número preocupante de óbitos. Manter a morte a distância não está mais relacionado com agitação, e sim com ficar paradinho dentro de casa, por mais que tanta gente não consiga compreender e tirar proveito disso.

Poderíamos ser menos obtusos se Filosofia fosse matéria escolar obrigatória, mas os alunos continuam tendo acesso apenas ao pensamento de seus ídolos, que certamente não são Aristóteles, Platão, Nietzsche ou Sêneca, que nunca gravaram uma live.

Nietzsche, por exemplo, dizia: "Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo". Deveríamos trabalhar oito horas e dedicar as outras 16 ao ócio, ao lazer, ao sono, à meditação. Tão lindo e tão irreal. Até início de março, gastávamos as 16 horas restantes em congestionamentos, farmácias, mercados, cartórios, bancos, lojas, consultórios, filas. Mas o cenário já não é este. Muita gente ainda precisa ir para a rua (pessoal da saúde dando expediente diário de 14h, 16h), mas eu e tantos outros estamos em home office e finalmente dispomos de dois terços do dia para fazer as refeições com mais calma, para ler, para "desperdiçar" com aquilo que equivocadamente chamamos de fazer nada.

Sêneca complementa: "Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo". Ou seja: nada está mais longe da vida do que o homem superocupado, que nunca se detém, não contempla seu passado, não desfruta o presente e está sempre de mãos vazias em relação ao futuro.

Filosofia em plena pandemia, sim.
Temos que extrair algo bom desse período.
Antes, sobravam só uns minutinhos para o que realmente valia a pena - telefonar para os avós, preparar um suco de laranja, contar uma história para uma criança.
Mudou. Podemos adicionar mais plenitude a este tempo que parece não passar. Não há pressa nem excesso de compromissos. A tarefa mais urgente é prestar atenção aos nossos sentimentos internos, que ficavam sem ser observados. Os dias andam repetitivos? Pois eles têm tudo para ser mais vívidos do que aquela agenda empanturrada que, por ora, deixou de nos atazanar.


Martha Medeiros





sexta-feira, 31 de julho de 2020

Tornar os outros grandes







Ser companheiro vale mais do que ser chefe. 
É preciso que os homens à sua volta nunca tenham nenhuma angústia, não sofram nunca por o sentirem a você superior a eles; a sua superioridade, se existir, deve ser um bálsamo nas feridas, deve consolá-los, aliviar-lhes as dores. 
A sua grandeza, querido Amigo, deve servir para os tornar grandes, no que lhes é possível, não para os humilhar, para os lançar no desespero, no rancor, na inveja.

Agostinho da Silva
in, Sete Cartas a um Jovem Filósofo