quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O Guardião da Flor de Lótus





A história passa-se no Perú, India, Dharamsala onde vive o Dalai Lama e todos os exilados do Tibete quando foram expulsos pelos chineses; Nepal; Tibete e Caxemira.
A misteriosa morte do lama tibetano, Lobsang Singay, que estava prestes a revelar uma descoberta sem precedentes na história da medicina chama a atenção de todos. Após anos de investigação no seu mosteiro, Singay conseguiu fundir os avanços científicos do ocidente com a sabedoria ancestral dos tibetanos, no entanto pouco antes de partir para a tão aguardada conferência em Harvard, morre em estranhas circunstâncias. Jacobo, um jovem espanhol imerso numa crise pessoal e profissional, vê-se empenhado em investigar o que há por trás dessa intrigante morte. A resposta poderia estar num documento milenar budista que os serviços de inteligência do exército chinês anseiam possuir. Para encontrá-lo, Jacobo empreende uma vertiginosa viagem pelos inacessíveis cumes dos Himalaias, a partir do norte da Índia até as profundidades do fascinante Tibete. Ao mesmo tempo em que tenta desviar-se dos perigos que o cercam, aprenderá com o seu mestre Gyentse que esse universo mágico também abriga a solução dos seus conflitos internos. A investigação de um crime torna-se uma jornada espiritual para o coração do Budismo e para o nosso coração interno.


O Tibete tem uma história triste…é uma das grandes calamidades mundiais, porque a Comunidade Internacional decidiu não intervir em favor dos tibetanos quando foram invadidos e massacrados pelos chineses, para não entrar em conflito com a China, que é uma das grandes super potências do mundo.
O Tibete é uma região de planalto da Ásia, um território disputado, situado ao norte da cordilheira do Himalaia. É habitada pelos tibetanos e outros grupos étnicos como os monpas e os lhobas, além de grandes minorias de chineses han e hui. O Tibete é a região mais alta do mundo, com uma altitude média de 4 900 metros de altitude, e por vezes recebe a designação de "o teto do mundo" ou "o telhado do mundo".
Durante a sua história, o Tibete existiu como uma região composta por diversas áreas soberanas; como uma única entidade independente; e como um Estado vassalo, sob  soberania chinesa. Foi unificado pela primeira vez pelo rei Songtsän Gampo, no século VII. Por diversas vezes, da década de 1640 até a de 1950, um governo nominalmente encabeçado pelos Dalai Lamas (uma linhagem de líderes políticos espirituais tidos como emanações de Avalokiteśvara - Chenrezig, Wylie: [spyan ras gzigs] em tibetano - o bodisatva da compaixão) dominou sobre uma grande parte da região tibetana. Durante boa parte deste período a administração tibetana também esteve subordinada ao império chinês da Dinastia Qing.
Em 1913, o 13º Dalai Lama expulsou os representantes e tropas chinesas do território formado atualmente pela Região Autónoma do Tibete. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia tibetana, esta independência proclamada do Tibete não foi aceite pelo governo da China nem recebeu reconhecimento diplomático internacional e, em 1945, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela Organização das Nações Unidas. 

A partir do século VII a região tornou-se o centro do Lamaísmo, religião baseada no budismo, transformando o país num poderoso reinado. Antigo objeto de cobiça dos chineses, no século XVII o Tibete é declarado incluído no território soberano da China. A partir daí seguem-se dois séculos de luta do Tibete por independência, conquistada - temporariamente - em 1912.

Em 1950, o regime comunista da China ordenou a invasão da região, que foi anexada como província. A oposição tibetana foi derrotada numa revolta armada em 1959. Como consequência, o 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder espiritual e político tibetano, retirou-se para o norte da Índia, onde instalou em Dharamsala um governo de exílio.


Após uma invasão contundente e uma batalha feroz em Chamdo, em 1950, o Partido Comunista da China assumiu o controle da região de Kham, a oeste do alto rio Yangtzé; no ano seguinte o 14º Dalai Lama e o seu governo assinaram o Acordo de Dezessete Pontos. Em 1959, juntamente com um grupo de líderes tibetanos e de seus seguidores, o Dalai Lama fugiu para a Índia, onde instalou o Governo do Tibete no Exílio em Dharamsala.
Pequim e este governo no exílio discordam a respeito de quando o Tibete teria passado a fazer parte da China, e se a incorporação do território à China é legítima de acordo com o direito internacional. Ainda existe muito debate acerca do que exatamente constitui o território do Tibete, e de qual seria a sua exata área e população.

Em setembro de 1965, contra a vontade popular dos seus habitantes, o país torna-se região autónoma da China. Entre 1987 e 1989, tropas comunistas reprimiram com violência qualquer manifestação contrária à sua presença. Há denúncias de violação dos direitos humanos pelos chineses, resultantes de uma política de genocídio cultural.

A causa da independência do Tibete ganhou força perante a opinião pública ocidental após o massacre de manifestantes pelo exército chinês na praça da Paz Celestial e a concessão do Prémio Nobel da Paz a Tenzin Gyatso, ambos em 1989. O Dalai Lama passou a ser recebido por chefes de Estado, o que provocou protestos entre os chineses. 

O Tibete é, ainda hoje, considerado pela China como uma região autónoma chinesa (Xizang).
Que de autónoma não tem nada, visto que se os tibetanos não viverem de acordo com as regras chinesas, são perseguidos, presos e torturados pelas autoridades chinesas.
A perseguição continua ainda hoje, e os tibetanos passam os seus filhos clandestinamente para a Índia, para irem para Dharamsala estudar na esperança de terem um futuro melhor longe do comunismo chinês.


O livro tem partes lindíssimas, de grande sabedoria.
Partilho aqui o que me tocou especialmente:

Fala dos Xamãs tibetanos que viviam no Planalto Tibetano, tinham o poder de prever todas as desgraças, doenças do corpo humano, calamidades, e conseguiam absorver as forças dos 5 elementos (Ar, Fogo, água, Terra e Éter) e assim limpar a energia da pessoa doente. A doença psíquica e física surge do desequilíbrio entre o Ser Humano e o Universo. Esse desequilíbrio é provocado pelos espíritos da natureza que absorvem a energia negativa dos humanos. Por isso eles defendiam que era fundamental reestabelecer a situação harmónica do corpo e da Mente. Fala também dos 4 Demónios: o da Ignorância; o Branco com cabeça de tigre que nos obriga a sofrer a dor do nascimento; o Amarelo com cabeça de crocodilo que significa as amarras que nos prendem às coisas materiais, o apego que nos provoca sofrimento por medo de perda; e o Negro do ódio, que nos submete à dor da morte.
Na tradição tibetana, não existem os heróis solitários, não existe o “eu” mas sim o “todos”, em que todos contribuem com a sua peça do puzzle. Tudo se resume a recompor este puzzle que é a Vida, em que cada um contribui com a sua peça específica. Cada um deve por a sua peça do puzzle e deve fazê-lo no momento preciso. Tudo na nossa vida acontece para que estejamos preparados para por a nossa peça do puzzle na altura certa, e assim contribuirmos para o equilíbrio do planeta Terra e do Cosmos. Tudo obedece a um Plano Maior. Tudo tem uma razão se ser.
Muita gente segue causas, fazem trabalho humanitário, tornam-se voluntários, cooperantes de ONG’s, mas não estão ali para ajudar o povo tibetano, mas sim por interesse próprio, como todos os políticos ocidentais que prometem e no fim nada fazem para alterar a situação de exilados dos tibetanos. Tudo faz parte da Nova Ordem Mundial. As Organizações Não Governamentais e os Governos do Ocidente, com as suas Instituições Humanitárias, têm as mesmas debilidades. Os tibetanos lutam pela sua terra, para poderem regressar à sua terra e às suas tradições milenares de onde foram expulsos, torturados e assassinados pelos chineses há mais de 50 anos. Os ocidentais lutam longe de casa e os escrúpulos perdem-se pelo caminho. Acabam por traficar com os recursos, a miséria e o exílio dos tibetanos, em favor dos seus próprios interesses individuais. Algumas ONG’s dependem demasiado dos Governos o que limita bastante o seu poder de acção. E o que se retira disto é que, por vezes a Caridade não serve para solucionar os problemas, porque no dia seguinte está tudo na mesma e o problema continua por resolver. Eu não acredito na caridade que pouco ou nada resolve. Eu acredito na Fraternidade, no tratar os outros como se fossem nossos irmãos e ajudá-los a ter ferramentas de forma a eles se tornarem autossuficientes e independentes, de forma a conseguirem ter uma vida digna sem dependerem de ninguém.
Quando vemos claramente o que queremos, não pomos a hipótese de estar errados no Caminho. No Ocidente não somos educados para lidar com o sacrifício, nem a ter paciência, e muito menos a direcionarmos os nossos dons em benefício dos outros de forma gratuita e desinteressada. Não nos ensinam que a única via para desenvolver uma vida plena é ter uma meta bem clara (não para alcança-la, mas para tender para ela). Não somos educados para entender que o mais satisfatório é sermos consequentes com os nossos actos. Quando carecemos dessa meta, lançamo-nos sem pensar sobre tudo o que aparece pela frente. E isso leva-nos a cair na desordem, no ruído, culpando aqueles que temos mais próximo das nossas próprias limitações. Se víssemos claramente essa meta, esse objectivo vital, sentiríamos em cada momento que estávamos a agir corretamente. E o mais importante, sentiriamo-nos livres, que é algo imprescindível para nos realizarmos em todas as esferas, para sermos sinceros e deixarmos que aqueles que temos à nossa volta nos ajudem a melhorar.
Relata como os chineses torturaram os monges, em praça pública, puseram-nos todos nus, obrigaram-nos a ter sexo anal uns com os outros, e depois ligavam cabos às baterias dos carros de patrulha e davam-lhes choques elétricos nos genitais. No fim, fuzilavam-nos. Na maioria dos casos, Pequim nem tinha conhecimento, porque como não havia controlo nem exigiam responsabilidades, as tropas faziam o que lhes apetecia.
Explica que os sintomas que por vezes temos no nosso corpo físico, como a febre, diarreias,etc… são vias de escape que o nosso corpo utiliza para aliviar a pressão que os nossos conflitos interiores exercem. Nesses casos, para curar a essência da doença não podemos tomar medicamentos para não camuflar a origem dos sintomas. Não devemos ver a doença como um obstáculo, nem como uma virtude. Mas sim como uma purga necessária. Os ocidentais concentram a sua atenção em aliviar os sintomas com os medicamentos. Os orientais concentram-se mais  a descobrir a origem desses sintomas, de forma a curar na raíz o problema. Eles vêm no corpo humano, para além dos órgãos internos, as correntes energéticas que nos vinculam ao resto da existência. E são essas vias que eles procuram restabelecer para tratar as doenças. Por exemplo: no umbigo, acumula-se a energia da nossa forma física, e dele partem os canais principais e onde confluem os 5 elementos (água, terra, ar, fogo e éter) que são as forças dinâmicas da natureza. Os médicos tibetanos consideram que o elemento terra está associado aos ossos, à pele, às unhas e ao cabelo. A água aos fluidos corporais. O fogo ao calor associado com o metabolismo e a digestão. O ar, à energia vital. E o Éter (O espaço) à consciência. Os desequilíbrios dos 5 elementos produzem doença e por vezes leva à morte. Todas as emoções negativas contaminam as células corporais, inclusive o descontentamento connosco próprios. As doenças surgem das atitudes com que limitamos o nosso corpo físico. Agarramo-nos a ele e não conseguimos ver que é um maravilhoso e irrepetível veículo, que bem conduzido, pode ajudar-nos a alcançar o despertar definitivo. Enquanto não curarmos o nosso Espírito e restabelecermos os nossos canais energéticos, não deixaremos de sofrer, de adoecer.
Fala sobre a tribo Kampa, que vive nos Himalaias do Tibete Oriental, na passagem mais direta entre a China e o Tibete. São conhecidos na Ásia pela sua coragem, valentia e também pelos seus costumes e tradições. São uma tribo nómada. E neste livro ensinam-nos que, por vezes nós ocidentais refugiamo-nos numa vida nómada de sentimentos para não enfrentar nenhum compromisso connosco próprios, e isso impede-nos de nos comprometermos com os outros, condenando-nos inevitavelmente à prisão da solidão. 
Ensina que é importante meditar todos ao dias para desacelerar o ritmo, abrandar, serenar, para podermos recuperar a perspectiva sobre as coisas. Através da meditação atingimos um estado de serenidade que nos permite analisar os problemas com lucidez. A nossa mente é como o mar: quando está agitado, o fundo é removido e as águas tornam-se turvas. Assim, não se pode distinguir nada. No entanto, as águas de um mar calmo são sempre cristalinas, já que o sedimento se comprime no fundo. A posição para meditar pode ser a posição de lotus ou sentado numa cadeira: o importante é manter as costas direitas para não cair num estado de sonolência. Depois, concentar a atenção na respiração: inspirar e expirar. Sentir o ar a entrar no corpo e a sair. E não pensar em mais nada. É apenas isto!
Para os tibetanos, a flor de lótus é o símbolo máximo da pureza e da santidade, já que floresce em todo o seu esplendor até nas águas mais impuras, sem perder o ápice da sua beleza. O Dalai Lama e todos os Lamas que o precederam, pertencem à Família Búdica chamada o Clã do Lótus. Por tudo isto, essa flor de sublime beleza é o ser vivo que melhor pode representar o legado imortal do povo tibetano. Nós somos os Guardiões desse legado.
Tudo o que fazemos, o que escolhemos, tem consequências nos outros. Tudo está interligado. Estamos todos conectados. Somos todos Um. Ao curarmo-nos a nós, estamos automaticamente a curar os que nos rodeiam. Tudo flui e em qualquer momento as coisas podem ser ou não ser. Dirigirmo-nos sempre para este estado óptimo universal, passo a passo.
Por vezes, usamos as doenças dos outros, como desculpa para disfarçar as nossas próprias carências. E são essas nossas carências que nos torturam verdadeiramente. É muito fácil lançar a culpa nos outros. Carecemos de pilares que possam sustentar verdadeiras relações de compromisso. Fomos educados para a realização a partir da individualidade, potenciando a competitividade, e o êxito e sucesso como único meio para alcançar a felicidade. Necessitamos sempre de mais. Nunca estamos satisfeitos. E isso faz com que nos sintamos permanentemente vazios por dentro. Por isso, quando alguma coisa corre mal, como é o caso da doença de uma pessoa querida, é derrubado tudo o que ilusoriamente conseguimos até então através da nossa busca egoísta. E o pior acontece quando nos damos conta de que, além disso, essa ilusão acabará ao mesmo tempo que a nossa própria vida. Não terá tido nenhuma repercussão em nada, nem em ninguém. Não nos podemos martirizar pelo que fizemos no passado, porque vai impedir-nos de avançar e faz com que estejamos sempre em sofrimento sem cura pessoal. A Doutrina Tibetana é o último pulmão que existe na Terra. Não só a tibetana, mas qualquer filosofia que nos permita entender que o pilar fundamental de uma existência plena é procurar alcançar a felicidade fazendo felizes os outros. O amor e a entrega aos que nos rodeiam torna-nos felizes, livres, permite-nos prescindir das nossas amarras pessoais e também superar as nossas limitações. A nossa existência deixa de ser finita, já que sobrevive nas pessoas que amamos.
Há sempre algo mais, algo oculto, por detrás do que vemos num primeiro olhar. É como as mandalas de areia que no fim de serem feitas se deixam desfazer pelo vento. Parecem representar algo terreno, como os mosteiros onde são feitas, mas quando se vê mais além, vê-se todo o Tibete e o resto do Mundo, o nascimento, a morte e o renascimento. As mandalas não são representações da verdade, mas o mero vínculo para que, com a sua contemplação e através da meditação, cheguemos a essa verdade. É apenas um veículo que nos ajuda a chegar à Verdade.
Não se pode escrever o Amor, nem a Morte, nem os Segredos da Vida. Nem mesmo através da Poesia. Há que construí-los a cada momento, com cada pequena acção, aproveitando a liberdade que a nossa condição humana nos oferece. A verdadeira essência do budismo tibetano baseia-se nas imensas possibilidades do ser humano para aprender. É esse o verdadeiro poder da Flor de Lótus. Na simplicidade das coisas, está a sua grandeza. Este é o verdadeiro poder do Tibete. Na solidão das montanhas do Planalto no Tibete, os tibetanos não dispõem de outra coisa além da sua própria vontade, mas sabem que ela lhes é suficiente para alcançar a verdade. Tudo o resto desaparece com o tempo, como a areia das mandalas, à espera do momento propício para ser espalhada pelo vento. Para chegar à Verdade das Coisas, só dispomos do nosso potencial como pessoas, da liberdade inerente à condição humana. E que temos de fazer uso desse potencial para crescer e aprender, aplicando-o dia após dia em cada um dos nossos actos. Tudo o que é importante está dentro de nós mesmos e que tudo o que vem de fora não tem nenhuma valia.





quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Arriscar-se é viver





Rir é arriscar-se a parecer louco.
Chorar é arriscar-se a parecer sentimental.
Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver.
Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor o seu eu verdadeiro.
Amar é arriscar-se a não ser amado.
Expor as suas ideias e sonhos ao público é arriscar-se a perder.
Viver é arriscar-se a morrer...
Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção.
Tentar é arriscar-se a falhar.

Mas... é preciso correr riscos.
Porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.
Podem estar a evitar o sofrimento e a tristeza.
Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...
Acorrentadas às suas atitudes, são escravas;
Abrem mão da sua liberdade.
Só a pessoa que se arrisca é livre...

Arriscar-se é perder o pé por algum tempo.
Não se arriscar é perder a vida...


Soren Kierkegaard





E o que é afinal evoluir?





A maior parte de nós foi educado para cumprir uma série de leis e regras “terrenas” que quando seguidas fariam de nós seres “semi-perfeitos” e dessa maneira garantiríamos a paz, o amor, a alegria e a abundância que tanto ansiamos.

Temos regras para as dinâmicas sociais, profissionais, familiares e amorosas. Temos regras de trânsito, regras de cozinha, regras de saúde, regras e leis para gerir dinheiro, compras, impostos e todo o tipo de burocracias e até a religião tem os seus compêndios de exigentes regras a cumprir. Temos regras para aprender, para brincar, para escrever, para comportar e até arranjámos profissões que garantem que se essas regras não forem cumpridas, pesadas consequências nos esperam…

Poucos de nós fomos educados quanto à nossa existência espiritual e ao propósito que traz o espírito à matéria. Ou seja qual a nossa intenção de vir à Terra e que regras e leis cósmicas já nos regiam ainda antes de encarnarmos num corpo?

Tenho observado ao longo dos anos, principalmente nas pessoas da meia idade embora o veja já em jovens, que por trás das mais variadas emoções pesadas, depressões, frustrações, desânimos e sentido de desorientação, estão todos os que se dedicaram anos a fio a cumprir as ditas regras terrenas e a procurar atingir os impossíveis e irrealistas níveis de perfeição, apenas para descobrirem que, mesmo depois de cumpridas todas as leis e regras na perfeição, elas simplesmente não devolveram a tal paz, o amor, a alegria e a abundância.

– E porquê?

Precisamente porque vivemos ignorantes, resistentes, fechados ou descrentes desse mesmo propósito espiritual anterior ao propósito terreno.

Enquanto o lado espiritual da nossa existência não é levado em conta na fórmula da nossa vida terrena, a paz, o amor, a alegria e a abundância não acontecem.

Claro que estou a falar de estados de SER, e não estados de TER…

Num mundo cheio de tralha tentadora, é muito fácil iludirmo-nos com o brilho exterior e confundirmos o TER com o SER.

Das mais variadas maneiras, mais cedo ou mais tarde, a máquina cósmica irá boicotar todas as tentativas de compensação que consciente ou inconscientemente fazemos para mascarar o enorme desequilíbrio que se esconde dentro de nós.

Infelizmente e mais uma vez a nossa ignorância não nos permite ver que toda a perda é um convite a evoluir, é uma oportunidade de tornar consciente o que vive inconsciente.

São muitas as maneiras com que nos iludimos a acreditar que finalmente já atingimos o tão ansiado patamar superior… poder, dinheiro, cargos e títulos, filhos, carros, marcas de luxo e todo o tipo de ostentação que não é mais do que ilusão e brilho externo para esconder o drama interno. Infelizmente e mais uma vez a nossa ignorância não nos permite ver que se harmonizarmos o interior com o exterior, a história terrena com a história espiritual, a perda deixa de fazer sentido e a abundância surge sem esforço.

– Então afinal que propósito é esse ou que peça do puzzle é essa que tanto falta ao mundo para começarmos a subir os degraus da paz, a alegria e a abundância?

Simplesmente mantendo consciente em nós o propósito de evolução a cada momento.

– E o que é afinal evoluir?

Lembrando que a experiência terrena é uma experiência emocional, será sempre a superação das emoções mais pesadas em direcção às emoções mais leves que nos irá aos poucos libertando e permitindo evoluir para estados mais leves, amorosos e abundantes.

Imagina uma escala emocional desde a mais fria indiferença, medo, revolta, tristeza, às mais leves alegria, esperança, confiança e amor incondicional.

Evoluir é então a consciência de que cada um de nós é responsável por libertar as bolas de ferro provenientes de experiências passadas que nos prendem aos velhos dramas.

Evoluir é permitirmo-nos acompanhar e fluir no movimento rumo ao amor.

Tal como nos mostra a Natureza no processo da semente até à flor, evoluir é sempre abrir, desbloquear, crescer, maturar, permitir a viagem da terra para o céu, sair da prisão da semente em busca da beleza, cor e aroma da flor. É sair da densidade escura da Terra para a luz do Sol.

Evoluir podemos então resumir que será sempre passarmos de um determinado estado interno de ser para outro mais leve e mais amoroso e deste ponto de vista, todo o desafio, confronto ou perda são oportunidade de dar uma nova, mais positiva e amorosa resposta às velhas energias, independentemente se o resto do mundo concorda ou entende. A validação do processo de evolução jamais estará dependente do exterior mas apenas de uma escolha nossa…

A Humanidade não chegou ainda ao ponto de viver o seu expoente espiritual aqui na terra ou seja, a vivência permanente da paz, do amor, da alegria e da abundância.

Depois de séculos desligados da Luz a dar poder às energias menos positivas do medo, da vitimização e da culpa, estamos todos em peso num imenso processo de ajustes kármicos, equilíbrios internos, libertação de densidades e limpezas internas que infelizmente ainda não nos permitem viver esse tão ansiado estado.

Mas será nas minúsculas, pequenas e invisíveis escolhas pessoais que cada um está a fazer dentro de si, de superação das suas próprias energias, que iremos mudar o todo…

Tal como a semente os faz por si até chegar a flor.



Vera Luz






segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Viver é não saber que se vive





Às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face…
E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos?
Ah, não!
Existe outra coisa… mas o quê?
Afinal, para que pensar?

Viver é não saber que se vive.
Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos.
Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade.
Examinar em detalhe é criar novos detalhes.
Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura.
Porque me não esqueço eu de viver… para viver?


Florbela Espanca





Carpe Diem








Do not let the day end without having grown a bit, without being happy,
without having risen your dreams.
Do not let overcome by disappointment.
Do not let anyone you remove the right to express yourself,
which is almost a duty.
Do not forsake the yearning to make your life something special.
Be sure to believe that words and poetry it can change the world.
Whatever happens, our essence is intact.
We are beings full of passion. 
Life is desert and oasis.
We breakdowns, hurts us, teaches us, makes us protagonists of our own history.


Although the wind blow against the powerful work continues:
You can make a stanza. Never stop dreaming, because in a dream, man is free.


Do not fall into the worst mistakes: the silence.
Most live in a dreadful silence. Do not resign escape.
"Issued by my screams roofs of this world," says the poet.


Rate the beauty of the simple things.
You can make beautiful poetry on little things, but we can not row against ourselves. 
That transforms life into hell.


Enjoy the panic that leads you have life ahead. 
Live intensely, without mediocrity.
Think that you are the future and facing the task with pride and without fear.
Learn from those who can teach you. 
The experiences of those who preceded us in our "dead poets", help you walk through life.
Today's society is us "poets alive." 
Do not let life pass you live without that.



Walt Whitman 








sábado, 8 de setembro de 2018

Biografia



Cascate Delle Marmore
Umbria - Itália





Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
e não serei eu.

Repetirás o que ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
Que mortal nos poderia prender?



Cecília Meireles





Ser como a água





Precisamos aprender a ter a força da água, que não é dura como uma pedra, mas chega sempre onde quer através dos caminhos alternativos que encontra. Flua entre os problemas. Eles são apenas acontecimentos que ainda não compreendemos. Quando fluímos entre as dificuldades, somos como a água que envolve uma pedra: podemos ver todos os lados da situação, conhecê-la melhor e superá-la com mais facilidade. 
~ Roberto Shinyashiki


















quarta-feira, 5 de setembro de 2018

As Casas


Santorini - Grécia






Oh as casas as casas as casas 
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo
in, "O Problema da Habitação - Alguns Aspectos"







ZYGMUNT BAUMAN SOBRE A AMIZADE






Quantos amigos você tem no Facebook? 500? 5000? Essas perguntas dificilmente importariam, porque o que está em jogo aqui é o que você entende por “amigo”.

“Um viciado em Facebook me confessou, não confessou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz ‘amigo’ e eu digo ‘amigo’, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes”, explica Zygmunt Bauman.

Nada de novo saber que conceitos mudam conforme o desenvolvimento da sociedade. Não se trata disso. Trata-se de se questionar se, neste processo de mudança, algo crucial foi perdido. Para Zygmunt Bauman sim. Habilidades sociais básicas, necessárias para qualquer interação humana, estão gradativamente sendo perdidas na rede.


  • Já leu em algum site sobre a rapidez com que as pessoas começam e terminam relacionamentos amorosos hoje em dia? 
  • Ou sobre como somos uma sociedade que “desiste fácil” das relações? 
  • Isso lhe soa familiar? 
  • Quantos amigos você apagou este ano? 
  • Com quantos destes você conversou antes de fazê-lo?


Estas questões foram apresentadas pelo sociólogo polaco num dos top 10 vídeos mais assistidos de Zygmunt Bauman no Fronteiras e também numa entrevista que concedeu ao El País. Reunimos os conteúdos e vamos propor uma boa reflexão sobre o que estamos fazendo das nossas vidas e sobre o que faremos com a maior consequência desta facilidade em apagar relações: a solidão e a sensação de abandono, “os grandes medos nestes tempos de individualização”.



ZYGMUNT BAUMAN | O QUE ENTENDEMOS POR “AMIZADE”
Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”. Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes.
Qual é a diferença entre comunidade e rede? 
A comunidade precede você. Você nasce numa comunidade.
Por outro lado, temos a rede.

O que é uma rede?
Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra é desconectar. E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí. Que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar, fazer amigos. Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.

Imagine que estamos falando não de amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas sim de conexões offline, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Neste caso, romper relações é sempre um evento muito traumático. Você tem que encontrar desculpas, você tem que se explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc. É difícil. Na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto. Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos.

Os laços humanos são uma mistura de bênção e maldição.

Bênção porque é realmente muito prazeroso, é muito satisfatório ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma bênção… E eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.

Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre. Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre. O que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro. Talvez amanhã, ou no mês que vem, ou no ano que vem, haja novas oportunidades. Agora, você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.

Então, é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenómeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários. Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.

Em entrevista ao El País, o sociólogo polaco comenta outro conceito que está se transformando às custas da perda de uma capacidade elementar para o ser humano: o diálogo.
“Diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você.”



ZYGMUNT BAUMAN | O QUE ENTENDEMOS POR “DIÁLOGO”
A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido numa tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto.

A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. Na rede, você se sente no controle. Você pode adicionar amigos, se quiser, você pode deletá-los, se quiser. Você controla as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão, o abandono, são os grandes medos nestes tempos de individualização.

Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver num diálogo.

As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… 
Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde a única coisa que veem são os reflexos de suas próprias faces.
As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.



in, Fronteiras





segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Aquele que abre um livro






Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.


António Ramos Rosa





Hipnose





O estado hipnótico é um fenómeno natural no ser humano. Estudado e observado desde o princípio dos tempos, e presente em quase todas as culturas à volta do mundo, a hipnose tem sido usada de forma lúdica mas muito mais como forma de cura, principalmente nos meios espirituais. Os Xamãs e Sacerdotes das civilizações antigas como a Grécia, Mesopotamia ou o Egípto, tribos várias à volta do mundo e mesmo no Oriente, a hipnose era e continua a ser usada regularmente em formas de transe que procuram transcender a realidade física em busca de sabedoria sagrada, comunicação espiritual, limpeza e cura.

Embora a hipnose seja uma palavra que até hoje causa fascínio e até medo à maioria, o estado hipnótico é normal a todos nós e pode ser tão simples como a leitura de um livro, uma paixão amorosa ou o mergulho num filme interessante.
Diz o Wikipédia que: "Hipnose, segundo a atual definição pela Associação Americana de Psicologia, é um estado de consciência que envolve atenção focada e consciência periférica reduzida, caracterizado por uma maior capacidade de resposta à sugestão."

Só por aqui percebemos então como em tantos assuntos no nosso dia a dia podemos estar de facto a viver em estado hipnótico, onde perdemos a capacidade de nos dissociarmos, de desfocar, ver o mesmo assunto por outros ângulos, de relativizar de maneira a sermos capazes de dar respostas conscientes e não tanto reações inconscientes induzidas por factores externos. Ou seja, o estado hipnótico não depende da presença de um hipnotizador propriamente dito pois podemos estar em estado hipnótico quanto a ideias, crenças, sugestões, visões do mundo, ideologias sem qualquer consciência de que só estamos a ver aquela realidade por um prisma e que há de facto outras maneiras diferentes de olhas para a mesma realidade.

A experiência de hipnoterapia mostrou-me que quanto mais inconscientes estamos acerca do que é o estado hipnótico, mais sujeitos estamos a cair nele. O estado hipnótico, embora raramente leve a um estado de inconsciência total, ele reduz bastante a nossa visão da realidade, torna-nos vulneráveis a sugestões variadas pondo em causa o nosso livre arbítrio e estado oposto de alerta ou consciência como o nosso estado ideal, de saúde, de poder pessoal e equilíbrio.

Podemos perceber um pouco sobre o fenómeno por exemplo quando em estado de consciência decidimos fazer uma dieta, comer bem, deixar o cigarro mas uma alternativa e sempre presente sugestão parece sempre desafiar e boicotar essas iniciativas e levar a sua avante.
Por exemplo, o famoso Despertar espiritual que tantos tão bem conhecem que nos mostrou como vivemos em estado hipnótico presos a velhos moldes de vida, crenças e prioridades sociais e de repente um novo estado de consciência surge e nos vem convidar a ver a mesma realidade sob um novo e diferente prisma obrigando-nos a rever todo o nosso molde de vida.

Utilizada como forma de cura, e responsavelmente assistido, o estado hipnótico é extremamente útil e o portal essencial para transcendermos a realidade material e aceder a partes nossas (energias, memórias, emoções, crenças) que não conseguiríamos de outra maneira. O perigo esconde-se quando percebemos que tanto podemos estar sujeitos a estados hipnóticos a uma micro escala como macro. Por exemplo, velhas crenças religiosas que não foram ainda actualizadas ou os anúncios de publicidade a que estamos todos sujeitos, nada mais são do que meios que condicionam a nossa escolha e o nosso estado de consciência.

Para facilitar percebermos então melhor como estes estados acontecem dentro de nós, vamos considerar que temos então duas lentes dentro de nós:

- A lente da personalidade, muito ligada ao nosso corpo físico, que usa e vai focar exageradamente no mundo material para satisfazer os seus desejos e necessidades básicas como a proteção, a deslocação, o alimento, o sexo e a sobrevivência de uma identidade social.
- A lente da alma ou o olho do espírito, vê e usa o mundo material como manifestação das energias opostas, como meio de evolução espiritual, como palco de dinâmicas kármicas e como meio de transcendência da dualidade de maneira a cumprir a nossa missão individual.

Conhecendo então um pouco do fenómeno e sabendo que cada uma das nossas lentes irá focar no que lhe interessa, podemos então passar a estar mais atentos ao momento presente de maneira a conseguirmos harmonizar ambas as necessidades. Como disse antes, quanto mais inconscientes estamos do fenómeno mais facilmente caímos nele e uma das agendas passa então a condicionar a maioria das nossas escolhas, colocando as necessidades da agenda oposta em causa.

Como em tudo, a consciência, o espírito crítico e o estado de alerta é o que nos permite fazer escolhas de qualidade que por sua vez irão criar consequências positivas. Sem este trabalho interno, tornamo-nos presas fáceis de visões redutoras e energias densas que irão condicionar a nossa vida e a nossa evolução. Para evitar isto precisamos estudar, ler, viver conscientes, estudar as antigas sabedorias e leis universais, colocar em causa as nossas crenças e ideias, estarmos sempre disponíveis para mudanças em todas as áreas da nossa vida, ou seja ir descristalizando velhas visões do homem e do mundo para dar lugar ao ser iluminado.


Vera Luz





domingo, 2 de setembro de 2018

Poderoso caballero es Don Dinero






Madre, yo al oro me humillo,
Él es mi amante y mi amado,
Pues de puro enamorado
Anda continuo amarillo.
Que pues doblón o sencillo
Hace todo cuanto quiero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.

Nace en las Indias honrado,
Donde el mundo le acompaña;
Viene a morir en España,
Y es en Génova enterrado.
Y pues quien le trae al lado
Es hermoso, aunque sea fiero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.

Son sus padres principales,
Y es de nobles descendiente,
Porque en las venas de Oriente
Todas las sangres son Reales.
Y pues es quien hace iguales
Al rico y al pordiosero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.

¿A quién no le maravilla
Ver en su gloria, sin tasa,
Que es lo más ruin de su casa
Doña Blanca de Castilla?
Mas pues que su fuerza humilla
Al cobarde y al guerrero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.

Es tanta su majestad,
Aunque son sus duelos hartos,
Que aun con estar hecho cuartos
No pierde su calidad.
Pero pues da autoridad
Al gañán y al jornalero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.

Más valen en cualquier tierra
(Mirad si es harto sagaz)
Sus escudos en la paz
Que rodelas en la guerra.
Pues al natural destierra
Y hace propio al forastero,
Poderoso caballero
Es don Dinero.



Francisco de Quevedo





............................ there is no such thing as "dark matter"






In modern physics, field equations within the "standard model" predict that there is a certain amount of stuff (matter) out there in the universe. However, when looking for the predicted mass with telescopes and other advanced technology, it was realized that most of the mass that was predicted to be there was actually "missing", not just a little bit of it... 96% of the matter was missing(!)

At this point you might expect a reexamining and consequential adjustment in the predictive model. Instead, a new type of matter was invented "out of thin air" in hopes it could make all the equations work out. They needed to come up with a highly technical term for this new type of invented matter and since they couldn't seem to find it anywhere they decided to call it.... "dark matter" and "dark energy".

Perhaps the mass is "missing" because of another fundamental error in the standard model, one that that got rid of a rather incredibly large (approaching infinite) number that represents how dense empty space actually is. Most physics students are not even aware of this mathematical trick called "renormalization" where the density of space was effectively ignored despite the scientifically verified through experiment (the Casmir effect) density of space-time itself in peer reviewed and published laboratory experiments.

Perhaps we are getting closer to the point where the standard model realizes there is no such thing as "dark matter" and that the missing mass is in fact the energy within the structure of the space-time manifold itself, something that Nassim Haramein has predicted in his unified field theory model for many years.


in, Resonance Science Foundation





sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Corinna Confesses


Tyler  Rayburn 







To think that my eyes once could draw your eyes down for a moment,
    From their lifting and straining up toward the opulent heights—
To think that my face was the face you liked best once to look on,
    When fairer ones softened to pleading ’neath shimmering lights!

Regret you? Not I! I am glad that your proud heart disowned me,
    The while it was lying so sullenly under my feet;
Since Love was to you but a snare and a pain, and you knew not
    Its height and its depth, all unsounded, and soundless, and sweet.

Too dark was the shadow that fell from your face bending over me—
    Too hot was the pant of your breath on the spring of my cheek!
I but dimly divined, yet I shrank from the warring of passions
    So strong that they circled and shook me while leaving you weak.

Acknowledge! You knew not aright if you loved me or hated;
    But you pushed me aside, since I hindered your seeing the heights.
They were but the cold, barren peaks up which selfish sould clamber,
    And for which they surrender the gardens of scented delights.

From where I am sitting I watch your lone steps going upward,
    And to-night I am back in those nights that we knew at the start.
I think of your eyes dark with pain, full of thwarted caressings,
    And suddenly, after these years, from my hold slips my heart!

But no matter! There’s too much between us—we cannot go back now
    I’m glad of it!—yes, I will say it right on to the end!—
I’m glad that my once sore-reluctant, tempestuous lover
    Hasn’t leisure nor heart now to be my most leisurely friend!

My lover! Why how you would fling me the word back in fury!
    Remembering you loved me at arms’ length, in spite of denial;
That the protests were double: each went from the struggle unconquered:
    The hour of soft, silken compliance was not on our dial.

You were angry for loving me, all in despite of your reasoning—
     I was angry because you were able to hold your love down;
And jealous—because in the scales of your logic you weighed me,
    And slighted me for the dry bread of a sordid renown.

So I laughed at your loving—I laughed in the teeth of your passion;
    And I made myself fair, but to stand in you light from sheer malice;
Delighting to hold up the brim to the lips that were thirsting,
    While I scorned to let fall on their dryness one drop from the chalice!

Alas, for the lips that are strange to the sweetness of kisses—
    The kisses we dream of, and cry for, and think on in dying!
Alas, for unspoken endearments that stifle the breathing;
    Since such in the depths of two hearts, never wedded, are lying!

You say, “It is best!” but I know that you catch your breath fiercely.
    I say, “It is best!” but a sob struggles up from my bosom;
For out of a million of flowers that our fingers are free of,
    The one that we care for the most is the never-plucked blossom.

Yet, O, my Unbroken, my strong one—too strong for my breaking!—
    I am glad of the hours when we warred with each other and Love:
Though you never drew nearer than once when your hair swept my fingers
    And their touch flushed your cheek as you bent at my side for my glove.

Never mind! I felt kisses that broke through the bitterest sayings.
    Never mind! since caresses were hid under looks that were proud.
Shall we say there’s no moon when she leaves her dear earth in the shadow
    And hides all her light in the breast of some opportune cloud?

Yet this germ of a love—could it ever have bourgeoned to fulness?—
    For us could there ever have been a sereneness of bliss,
With the thorns overtopping our flowers, turning fondness to soreness?
    Ah, no! ’twas a thousand times better it ended like this!

And yet, if I went to you now in the stress of your toiling—
    If we stood but one moment alone while I looked in your eyes—
What a melting of ice there would be! What a quickening of currents!
    What thrills of despairing delight betwixt claspings and cries!




Laura Redden Searing
(under the pseudonym Howard Glyndon)





O Cego





Queria inventar uma história para ti, disse o cego alisando-lhe a mão.
Já procurei em todo o meu escuro e o que aparece é um eco muito repetido de coisas que já todos disseram, contaram, inventaram.
Posso falar-te de mim.
Ainda vens longe e já sei que vens. Escuto os passos e sei quem os dá. Cheiro-te quando entras para confirmar ou para acabar a imagem que me nasce no cérebro.
Sinto agora bem melhor do que quando via. O pior de mim foi aprender a não ver. Depois de tiradas as vendas continuei perdido. Adiantei as mãos como fiz desde que soube que teria de ficar cego por um tempo. Muito do que tocava não tinha recorte nem nome.
Depois, sim. Toco e toda a força de sentir me passa aos dedos. Tessitura, calor e humidade. Se acontece saber logo o que pode ser, sinto o odor e muitas vezes evoco o sabor até de beijos antigos que sepultei onde só com mil regressos acho.
Passei a associar tudo, a conhecer as sequências, a registar os mínimos detalhes. Reside nisso a cor que fui esquecendo. Diz-me vermelho e ver-me-ás tenso, preocupado, receoso. Temo muito o que, como o vermelho, grita, aparece sem aviso e se impõe. Em boa verdade já o transformei em sons e força. Temo-o por ser cor de fogo, de paixão, de sangue. Já o branco, porque nada me diz, me deixa indiferente enquanto o negro, cor da minha vida desperta, me relaxa, úbere, como se fosse o mapa do que há no meu universo de vozes, silêncios, aragens.
Beijas-me e a minha língua te lê por inteiro.
Hoje sei que estás porque prescindes dos meus olhos.
Estás por amar-me sem eles.


Rogério Edgardo Xavier





quarta-feira, 29 de agosto de 2018

................................... mentalidade pequenina de quintal





A noção (e portanto, o "problema", porque são as nossas noções que no-los criam) das 'fronteiras', dos 'imigrantes' e dos "refugiados" perpetuar-se-ão enquanto a mentalidadezinha do homem pensar em termos de nações, países, posses, e quintais - em vez de pensar 'Planeta, Sistema Solar, Cosmos'. 

Nuno Michaels




This is My Life



Abdullah Evindar 




To feed my soul with beauty till I die;
To give my hands a pleasant task to do;
To keep my heart forever filled anew
With dreams and wonders which the days supply;
To love all conscious living, and thereby
Respect the brute who renders up its due,
And know the world as planned is good and true—
And thus —because there chanced to be an I!

This is my life since things are as they are:
One half akin to flowers and the grass:
The rest a law unto the changeless star.
And I believe when I shall come to pass
Within the Door His hand shall hold ajar
I’ll leave no echoing whisper of Alas!



William Stanley Braithwaite





Livro do Desassossego - Fernando Pessoa






“O coração, se pudesse pensar, pararia.”

“...não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.”

“É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”

“A solidão desola-me. A companhia oprime-me. A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos.”

“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria.”

“Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.”

“Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias. (...) Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. (...) Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.”

“O oráculo que disse “Conhece-te” propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge.”

“Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais.”

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha."

“Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto.”

“Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”

“O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. (...) Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.”

“Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam?”

“Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.”

“Sou uma prateleira de frascos vazios.”

“Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a quem me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.”

“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”

“Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto.”

“Minhas pálpebras dormem, mas não eu.”

“Parece-me que sonho cada vez mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.”

“A alma humana é um abismo escuro e viscoso, um poço que se não usa na superfície do mundo”

“No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade...”

“Sou os arredores de uma vila que não há. (...) Sou uma figura de romance por escrever.”

“A liberdade é a possibilidade de isolamento. (...) Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

“...certas personagens de romance tomam para nós um relevo que nunca poderiam alcançar os que são nossos conhecidos e amigos, os que falam conosco e nos ouvem na vida real.”

“...como tudo dói se o pensamos como conscientes de pensar, como seres espirituais em que se deu aquele desdobramento da consciência pelo qual sabemos que sabemos!”

“A condição essencial para ser um homem prático é a ausência de sensibilidade (...). A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve que esquecer.”

“O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo.”

“Dói-me o universo porque a cabeça me dói.”

“A memória, afinal é a sensação do passado... e toda sensação é uma ilusão.”

“Fechos subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem.”

“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.”

“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (...) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

“Errei sempre os gestos que ninguém erra; o que os outros nasceram para fazer, esforcei-me sempre para não deixar de fazer. Desejei sempre conseguir o que os outros conseguiram quase sem o desejar. Entre mim e a vida houve sempre vidros foscos: não soube deles pela vista, nem pelo tato; nem a vivi essa vida ou esse plano, fui o devaneio do que quis ser, o meu sonho começou na minha vontade...”

“Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais do que ser uma dor que nós temos.”

“O maior domínio de si próprio é a indiferença por si próprio.”

“A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque sempre faz tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.”

“Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas (...) E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”






terça-feira, 28 de agosto de 2018

HOMEOPTOTO


Carlo Tarsia





Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)

Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem

Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam 


Ruy Belo 
in, "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1