quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Historiador







O Historiador é fruto de 10 anos de pesquisas da autora, Elizabeth Kostova, e é inspirado na história real do Conde Vlad III, numa mistura magistral de folclore e mito, com preciosos dados históricos, antropológicos e geográficos. 
Mas a explicação do seu imenso sucesso está na força dramática do enredo e na imensa vitalidade dos personagens. De tal forma que foi feito um filme baseado neste romance.

Certa noite bem tarde, ao explorar a biblioteca do pai, uma adolescente encontra um livro antigo e um maço de cartas amareladas. As cartas estão todas endereçadas a "Meu caro e desventurado sucessor", e fazem-na mergulhar num mundo com o qual ela nunca sonhou - um labirinto onde os segredos do passado de seu pai e o misterioso destino de sua mãe convergem para um mal inconcebível escondido nas profundezas da história.
As cartas fazem alusão a um dos poderes mais maléficos que a humanidade jamais conheceu, e a uma busca secular pela origem desse mal e a sua erradicação. É uma caça à verdade sobre Vlad, o Empalador, o governante medieval cujo bárbaro reinado gerou a lenda do Conde Drácula. Gerações de historiadores arriscaram a reputação, sanidade, e até mesmo as próprias vidas para conhecer essa verdade. Agora, esta adolescente precisa decidir continuar ou não essa busca - e seguir o seu pai numa caçada que quase o levou à ruína anos antes, quando ele era um estudante universitário cheio de energia e a sua mãe ainda era viva.

Tudo é tão bem arquitetado que até parece real. As questões históricas, antropológicas, as lendas. O trabalho de pesquisa da autora foi incrível.
Além disso, a história passa-se durante um período conturbado do mundo: a guerra fria. Paul, o herói, pai da narradora, era americano e, para um americano, conseguir entrar nos países da Cortina de Ferro era bem complicado.

Apesar da aparente frieza do tema, existe também margem para emoções e sentimentos.
Mesmo que este não seja um livro romântico, o amor está presente: o amor romântico, de pai e filha, e é claro, o amor pela História, pelos livros.

O que a lenda de Vlad, o Empalador tem a ver com o mundo moderno?
Será possível que o Drácula mítico tenha realmente existido - e continuado a viver, pelos séculos afora? 

A resposta a estas perguntas atravessa o tempo e as fronteiras enquanto primeiro o pai, e depois a filha perseguem pistas que os levam de empoeiradas bibliotecas de universidades norte-americanas a Istambul, Budapeste, Bucareste, e aos confins da Europa oriental. Em cada cidade, mosteiro e arquivo, em cartas e conversas secretas, emerge a horrível verdade sobre o feroz reinado de Vlad - e sobre um pacto atemporal que pode ter mantido a sua monstruosa obra viva através dos tempos.

Na contra-capa do livro diz assim:“Juntando indícios escondidos e textos até então desconhecidos, e interpretando as mensagens em código enredadas na trama das tradições monásticas medievais - bem como esquivando-se dos adversários que farão de tudo para proteger os milenares poderes de Vlad -, uma mulher desvenda o segredo de seu passado e enfrenta a própria definição do mal. O Historiador é uma aventura de proporções monumentais, uma narrativa incansável que mistura factos e fantasia, passado e presente, num estilo de suspense quase intolerável - e impossível de esquecer."

Drácula é o vampiro mais famoso do mundo. 
Vivo no imaginário coletivo, podemos dizer que ele é imortal. 
E se Drácula realmente tivesse existido? 
Um homem real, que foi capaz de cometer atos inomináveis de crueldade e maldade? 
E se ele estivesse vivo ainda hoje, com uma linhagem de sucessores ao seu serviço? 
Elizabeth Kostova conta-nos essa assustadora história.

Narrado na primeira pessoa, o livro trata da saga de uma família que vive à sombra de Drácula. Ainda adolescente, uma rapariga  de dezasseis anos descobre cartas misteriosas que ligam o pai a um grande mistério. Questionado por ela, ele resolve desabafar e contar tudo sobre a sua relação com o Conde Vlad III, o Drácula. Entre correspondências, viagens pelo mundo e relatos populares, revela-se a face do terrível conde e as lendas que surgiram, alimentadas pelas pessoas aterrorizadas por sua maldade.

A história entrelaça acontecimentos inimagináveis em três continentes e dois séculos.
Toda a vida da filha está permeada pela influência do mal de Drácula.
O pai é alguém que ela jamais conheceu de verdade, um homem atormentado por tragédias e segredos sombrios, perseguido pelo peso da maldade, fugindo do terror.
Mas, a sua filha está decidida a livrar a sua família dessa sina e vai em busca da verdade.
E surge a dúvida, pai e filha vão encontrar, e vencer, a temível criatura do mal?
A sede por desvendar os mistérios leva a filha a um enigma de solução surpreendente.

São 541 páginas recheadas de História. 
Da invasão otomana a Constantinopla – Istambul, até situações atuais e locais.
A primeira fase é vivida por Bartholomew Rossi, professor inglês e historiador que vive na América. Durante a década de 30, o professor Rossi encontra entre os seus livros um velho e amarelado livro, de aparência medieval, completamente vazio. Há apenas, no meio do livro, uma xilogravura com a imagem de um dragão de asas abertas e uma cauda enrolada e das garras pendia um estandarte escrito em caracteres góticos: Drakulia. Depois de realizar uma meticulosa pesquisa, o professor Rossi vai em busca da tumba de Drácula e descobre a possibilidade de que ele ainda viva. Ninguém sabe onde realmente está enterrado o corpo do príncipe Vlad e a sua história está recheada de crueldades feitas aos seus inimigos e com os seus vassalos. E a sua preocupação com mosteiros e a sua vida após a morte leva Rossi a descobrir descendentes diretos de Drácula e a apaixonar-se.

Paul é um jovem historiador americano que está a ser orientado na sua tese de graduação pelo mesmo professor Rossi, na década de 50. Ele também encontra um livro semelhante ao de Rossi (depois de deixá-lo na biblioteca o livro reaparece entre as suas coisas). Não é exatamente igual, nem tem tamanho igual, mas a xilogravura é exatamente a mesma (vê-se por marcas próprias no desenho). Ele também parte numa busca principalmente depois do professor Rossi desaparecer após lhe dar cartas escritas por ele na época da sua investigação. Com ele parte Helen Rossi, filha do professor desaparecido, também historiadora. Detalhe: o professor não sabe que tem uma filha. Ela é romena, filha de uma das descendentes de Vlad, o Empalador, por quem Rossi se apaixonou na década de 30.

Esta história é toda contada para a filha de Paul e Helen, por seu pai, e pelas cartas do professor Rossi e de seu pai, depois que ela descobre o livro na estante e inicia a pesquisa. Ela é uma jovem de 16 anos, interessada por história, que não conheceu a mãe, supostamente morta quando era pequena. Muito curiosa ela vai desvendando o mistério pouco a pouco enquanto aprende a história da época de Vlad, a história que envolve os países da Europa oriental (alguns comunistas) da década de 30 e pós-guerra na década de 50.
O ápice da história é quando Paul e Helen descobrem a descendência de Helen e a paixão que o professor Rossi teve pela mãe dela (uma camponesa romena descendente de Vlad).
É uma história fantástica que mistura antropologia, lendas, superstições, romance e história real. O livro é rico em detalhes históricos e geográficos e mistura a história real de Vlad Tepes que reinou na Valaquia no sec XV com o lendário personagem o Conde Drácula do livro de Bram Stoker.  Uma lição sobre a história medieval da Roménia, Bulgária, Hungria e Turquia, principalmente os movimentos invasivos dos Otomanos.



Agora, vamos aos factos reais, aos factos históricos:
Vlad III - o Empalador, era um conquistador do século XV, que aprendeu com os Otomanos, a quem foi "vendido" em pequeno pelo pai num negócio de expansão do reino, diversos métodos muitíssimo sádicos de tortura. Ficou conhecido como Empalador, pois esta era a sua forma favorita de tortura, que consistia literalmente em enfiar uma estaca de grandes dimensões através do ânus ou dos órgãos genitais, da pessoa que era torturada, e empurrá-la até sair por outra parte do corpo, o que naturalmente proporcionava a morte da pessoa exposta a tal crueldade. Vlad é referido em inúmeros documentos históricos como Draculea ou Drakulya que significa "filho do dragão", pois o seu pai tinha o nome de Vlad Dracul (Dracul=Dragão) . Vlad III serviu de inspiração para o famoso e também sádico vampiro Drácula do romance de Bram Stoker. 
Vlad III, Monarca, Principe da Ordem do Dragão (Draculea) e, posteriormente, Rei (voivoda) da Valáquia por três vezes: Em 1448; de 1456 a 1462; e em 1476; onde ficou conhecido como Vlad, o Empalador (em romeno: Vlad Tepes). Conquistou a coroa da Valáquia ao resgatar o trono de seu pai, Vlad II, em lugar do seu irmão Mircea II da Valáquia (Principe Voivoda), herdeiro do trono. Ambos assassinados pelos aliados do Império Otomano. Vlad II foi assassinado a mando do então governador regente da Hungria: John Hunyadi, submisso do Imperador Sigismundo, também fundador da Ordem do Dragão. O corpo de Vlad II nunca foi encontrado. Hunyadi então colocou o segundo primo de Vlad, Vladislau II da Hungria, como o novo Voivoda da Valáquia contrariando, assim, a ordem sucessória do Trono da Valáquia.
Hunyadi lançou uma campanha militar contra os Otomanos, no outono de 1448, e Vladislau acompanhou-o. Vlad invadiu a Valáquia com apoio otomano em outubro, mas Vladislau retornou e Vlad refugiou-se no Império Otomano até ao final do ano. Ele retornou à Moldávia em 1450 e depois para a Hungria. Invadiu a Valáquia com apoio húngaro em 1456, onde lutou com Vladislau e o matou. Vlad então começou a expurgar todos os traidores da Valáquia para fortalecer a sua posição. Entrou em conflito com os saxões da Transilvânia, que apoiavam os seus oponentes: Dan II da Valáquia e Bassarabe III da Valáquia, irmãos de Vladislau e o meio irmão ilegítimo de Vlad: Vlad, o Monge. Vlad atacou e saqueou vilas saxãs, levando-os cativos para a Valáquia, onde os empalou. A paz foi restaurada na região em 1460.
O sultão otomano, Maomé II, o Conquistador, ordenou a Vlad que lhe pagasse tributos pessoalmente, mas Vlad capturou e empalou os emissários do sultão. Em fevereiro de 1462, ele invadiu território otomano, massacrando milhares de turcos e búlgaros. Maomé II lançou-se contra a Valáquia para substituir Vlad pelo seu irmão mais novo, Radu. Vlad então tentou capturar o sultão uma noite em Târgoviște, no mesmo ano, mas o sultão e muitos comandantes do seu exército partiram da Valáquia, enquanto vários cidadãos passaram a apoiar Radu para o trono. Vlad procurou auxílio na Transilvânia com Matias I, rei da Hungria, no final de 1462, mas Matias fez dele seu prisioneiro.
Vlad foi mantido em cativeiro em Visegrád de 1463 a 1475. Foi neste período que anedotas e comentários sobre a sua crueldade começaram a circular pela Alemanha e pela Itália. Ele foi libertado a pedido de Estêvão III da Moldávia, no verão de 1475. Ele lutou no exército de Matias contra os otomanos na Bósnia, no começo de 1476. Tropas húngaras e búlgaras auxiliaram-no a forçar Bassarabe III, que tirou Radu do poder, a fugir da Valáquia em novembro. Bassarabe ainda retornaria com apoio otomano antes do final do ano, mas ele foi assassinado por Vlad em janeiro de 1477. Livros que descrevem os atos cruéis de Vlad tornaram-se famosos em todos os territórios de língua germânica. Na Rússia, histórias populares sugerem que Vlad só era capaz de fortalecer o governo através de brutais punições a inimigos e uma visão semelhante foi adotada sobre ele por historiadores romenos do século XIX. Sua fama de crueldade e brutalidade serviu de inspiração para o famoso vampiro do livro de Bram Stoker, de 1897, Drácula.

Historicamente, Vlad é lembrado pela sua luta contra o expansionismo do Islão na Europa Oriental, servindo a Igreja Católica, marcado pela crueldade para com os seus inimigos. Mesmo com a fama brutal que acompanha o seu nome, ele é ainda considerado um herói nacional na Roménia e na Moldávia. Construiu diversos mosteiros no seu reinado, mas morreu a tentar reconquistar o trono da Valáquia dois anos depois de ser libertado do cativeiro húngaro.

Conde Drácula é um personagem fictício que dá título ao livro de Bram Stoker escrito em 1897. 
Esse personagem deu origem a várias histórias literárias, e a vários filmes de Hollywood.






quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O TÉDIO RECOMPENSADO





I

Entre mulheres, eu sinto-me cansado.
Veio profundo
corre por mim
que aflora antigas ocorrências,
que me demovem
a fastidiosas empresas.

Sorrio agora
quando muito.

Há supercílios oculares que iludem
a passagem do tempo.


II

Mulher, mulheres, mulher,
fruto proibido
pela carne que ma nega.

Fruto desejado,
tomá-lo-ei nas mãos. Afluirei
aromas de mulher,
com ócios masculinos, reflectindo,
delicado.


III

Saciado,
procuro os teus lábios
semiabertos. Flor
quase a abrir-se…
Meto os teus dedos
nos meus. Suspiro fundo.
E renuncio ao mundo
esquecido de mim em ti.


RUY CINATTI 
in, O Tédio Recompensado






OS SUPERALIMENTOS QUE FAZEM MAL A MEIO MUNDO





Abacate, perca-do-nilo, quinoa... 
A 'fome' do mundo ocidental por certos alimentos 
está a ter efeitos sociais e ambientais desastrosos 
em países em desenvolvimento. 
É o lado negro do nosso apetite.



Um dia, é o salmão. Outro, os mirtilos. Depois, chia. Açaí. Goji. Maca. Abacate. Quinoa. As comidas da moda. Chamam-lhes superalimentos – termo que pretende dizer muita coisa e que na prática não significa nada (a União Europeia, aliás, proibiu que se use a designação na venda de um produto, a não ser que se consiga provar que os seus efeitos no organismo são particularmente benéficos). Mas uma coisa é certa: quanto mais exótico for, mais super soa.

É aí que surgem os problemas. Os países ricos têm descoberto supostos produtos milagrosos longe de casa, em regiões menos desenvolvidas. Alimentos que são muitas vezes uma parte importante da dieta dos povos locais. Em alguns casos, o súbito aumento da procura, aliado ao aparecimento de novos produtores, torna os preços mais instáveis, e as populações não se conseguem adaptar à montanha russa de subidas e descidas. Há situações em que é o ambiente que sofre. Há até histórias de tráfico de armas associadas ao transporte de alimentos. E de financiamento de traficantes de droga, como acontece com o abacate

O fruto mexicano, usado no guacamole, em ceviches e em saladas, tem sido um sucesso na Europa, que lhe descobriu riquezas nutritivas importantes (a começar pelas gorduras monoinsaturadas, que segundo alguns estudos ajuda a reduzir o “colesterol mau”). Chegou, viu e venceu. O que pouca gente sabe é que o abacate se tornou tão valioso devido à procura que é hoje uma importante fonte de rendimento de gangues de droga mexicanos. No estado de Michoacán, a região que produz mais abacates em todo o mundo, e onde o fruto ganhou a alcunha de ouro verde, vários grupos criminosos montaram um complexo esquema de extorsão dos produtores. Um dos maiores cartéis de droga do país, os Caballeros Templarios, por exemplo, exige a cada agricultor uma “taxa de proteção”: o equivalente a €0,9 por cada dez quilos de abacate produzido, mais €99 por hectare – e €215 no caso de ser para exportar. Quem não paga, corre o risco de ter os filhos raptados e mortos (entre 2006 e 2015, houve 8 258 homicídios em Michoacán).
Entretanto, nos últimos quatro anos, os produtores de abacate organizaram-se em grupos de autodefesa, armados com metralhadoras, transformando a região num palco de guerra.


O CUSTO DA GLOBALIZAÇÃO
Uma das maiores estrelas recentes das modas alimentares é a quinoa. Originária do Peru e da Bolívia, onde há muitos séculos serve de base alimentar aos mais pobres, foi tema de um artigo no jornal britânico The Guardian, que acusava o apetite ocidental por este alimento (que não é tecnicamente um cereal) de ser responsável por um enorme aumento dos preços. Por causa disso, argumentava-se, as populações locais já não conseguiam comprar quinoa.

A crer numa investigação do Centro de Comércio Internacional, uma agência das Nações Unidas e da Organização Mundial de Comércio, a febre da quinoa melhorou, na verdade, as vidas dos agricultores peruanos, e injetou dinheiro na economia do país, beneficiando a sociedade como um todo. A única desvantagem, aponta o relatório, publicado em maio de 2016, é que os agricultores estavam a concentrar-se nas espécies mais valorizadas comercialmente e a abandonar outras, reduzindo a variedade disponível.

Mas os preços, entretanto, começaram a cair – agricultores da Europa e da América do Norte apanharam o comboio da quinoa, produzindo de forma mais barata e eficiente (usando, claro, maquinaria pesada para arar a terra, em vez de bovinos). Em resposta à queda de valor, os produtores do Peru e da Bolívia começaram a reter o produto, na esperança de que os preços subissem novamente. E os outros, então, fizeram o mesmo. O braço de ferro tem derrotados anunciados: o custo do quilo de quinoa já está abaixo do que é considerado o mínimo para um estilo de vida condigno nos Andes. Os agricultores originais não têm forma de competir com os novos adversários. Basta recordar que a batata também nasceu nesta região, mas globalizou-se, e hoje Peru e Bolívia nem se encontram entre os maiores produtores mundiais.


O PIOR PEIXE DO MUNDO?
O caso da quinoa é de certa forma replicado por vários outros alimentos. Os consumidores urbanos descobrem exóticos produtos novos, e os locais acabam por deixar poder pagar por eles, trocando-os por outros, menos nutritivos. Nesta categoria estão vários alimentos indianos, como uma série de cogumelos selvagens, mas igualmente o açaí, a maca e a chia, da América do Sul.

O ambiente também fica, muitas vezes, a perder. A desflorestação da Amazónia, por exemplo, deve-se em parte ao cultivo de soja. Neste caso, os responsáveis não são propriamente quem opta por uma alimentação vegetariana – a maioria da soja acaba transformada em rações para animais. O consumo de água é outro problema: para produzir um quilo de abacate gasta-se 123 litros de água. E ainda há que somar a pegada ecológica do transporte, muitas vezes de um lado para o outro do planeta.

Mas talvez não haja uma situação tão trágica como a da perca-do-nilo. O peixe foi introduzido artificialmente, no final dos anos 50, no lago Vitória, em África, o segundo maior reservatório de água doce do mundo, com 69 mil quilómetros quadrados (mais de três quartos do território português). Sendo um animal enorme, que pode atingir dois metros de comprimento, logo tomou a posição de predador de topo, dizimando centenas de espécies nativas, base de alimentação dos povos da Uganda e da Tanzânia que viviam nas margens do lago. Hoje, segundo um relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), 80% da biomassa de peixe é constituída pela espécie invasora.

Por outro lado, o valor comercial da perca tornou-a incomportável para as populações locais, que se limitam a ficar com os restos do peixe, quase incomestíveis – a atividade, de grande escala, é uma indústria profissionalizada, controlada por grandes empresários. Em redor do lago, nasceram centenas de fábricas de processamento de perca, que substituíram as secas tradicionais, ao sol. Essas unidades modificaram por completo a região, levando à criação de minicidades improvisadas, sem as mais básicas condições de saneamento e onde muitas crianças acabam na prostituição.

Um documentário chamado "O Pesadelo de Darwin" (nomeado para um Oscar de melhor documentário em 2006), revelou esta realidade.
E outra: os mesmos aviões russos usados para transportar perca para os supermercados europeus transportam, no regresso, armas. Na prática, a perca não alimenta só gente – também alimenta guerras em África.



LUÍS RIBEIRO






O premiadíssimo "O Pesadelo de Darwin" pode ser considerado "O Sonho das Corporações", ou seja, lucros extremos e silêncio do povo. Este é sem dúvida o extremo oposto da história contada pela "Revolução dos Cocos".
Tanzânia e o seu Lago do Nilo, berço da humanidade, exporta uma espécie introduzida no local: a tilápia, que está acabando com as espécies nativas e servindo de lucro para grandes empresas exportadoras que levam filés do peixe para Europa e traficam armas para as guerras africanas. Enquanto 500 mil kilos de peixe são levados diariamente para Europa por gigantescos aviões, o povo da Tanzânia morre de fome, vivendo na extrema miséria diante da vontade das grandes corporações. O conformismo e a desesperança da população, transformou o país num verdadeiro inferno. Prostituição, abandono infantil, crise de fome, violência quotidiana. As cenas são dramáticas e dantescas. O terceiro mundo, para certos setores sociais, é apenas um lugar para ser explorado... de todas as formas.

O desaparecimento do reverse-tooth cichlid, um peixe da família dos ciclídeos que ganhou esse nome por apresentar uma mordida levemente cruzada quando saboreava pequenos moluscos, foi interpretado como um sinal claro de que havia algo errado com seu habitat, o Lago Vitória.
Com 69 000 quilómetros quadrados, que se dividem entre os territórios da Tanzânia, do Quênia e de Uganda, o Vitória é o segundo maior lago de água doce do mundo.

Não é difícil imaginar a importância que uma reserva de água desse porte tem para esses três países africanos: um terço dos 90 milhões de habitantes é abastecido pelo Vitória. Estima-se que três milhões de pessoas obtenham o sustento diretamente dele. O lago fornece 200 000 toneladas de peixe por ano, água para agricultura e para uso industrial, energia hidroelétrica e é uma das principais atrações turísticas da África.

O reverse-tooth cichlid sucumbiu às mudanças de condições no Vitória causadas pela interferência humana. Como obstáculo adicional à sobrevivência das espécies nativas de peixe, houve nos anos 70 a introdução de duas espécies, a tilápia-do-nilo e a perca-do-nilo, que rapidamente se tornaram predominantes no lago, reduzindo o espaço das 400 espécies que já estavam lá.
Outro fenómeno foi a multiplicação das algas, o que reduziu a oxigenação da água.




terça-feira, 18 de setembro de 2018

Migrações

Laura Zalenga





As transformações por que a alma passa 
são análogas às daquela árvore que tenho no quintal. Já a vi despida, 
ébria, numa ânsia de líquidos 
e nuvens. Depois vi-a 
resplandecente de folhas, pesada, 
impondo-me o respeito dos seus frutos - como 
se eles não estivessem ali para que eu os colhesse antes que 
apodreçam, caídos no chão, ou os pássaros os comam! E 
pergunto-me: que relação existe entre 
essa árvore nua do inverno, e a árvore sob o verde manto 
do verão? Serão os mesmos ramos os que se estendem na sua despida 
fragilidade, como se nada os prendesse no ar, e os que ostentam 
a jóia de flores e rebentos, com o seu ar primaveril? 

Ao cortá-los, para que não tapem o sol às plantas que têm de 
nascer à sua volta, penso nesta comparação 
entre a árvore e a alma; e em como, nas coisas da natureza, não se liga 
a sentimentos, deitando fora o que é inútil para que o novo possa ter
o seu lugar. Mas uma alma não se 
deixa podar, como a árvore. O seu crescimento faz-se sobre si mesma; não 
perde as folhas de um inverno para o outro; e as novas flores e frutos crescem 
sobre outras flores e frutos, juntando-se nessa mistura 
que obriga o homem a decidir, a ter de esquecer partes da sua vida, 
mesmo que saiba que a alma guarda tudo, e que um dia tudo voltará 
ao de cima. 

O que não é diferente, numa alma ou 
numa árvore, são os pássaros: tanto esses pardais que o outono leva, e 
o calor volta a trazer, como as aves abstractas que cantam, por vezes, por dentro 
da alma, no verão como no inverno. Só que estas, nenhuma fisga 
as enxota para o outro lado do muro. São as aves do poema. Voam 
num céu de palavras, como se tivessem todo o tempo do mundo 
para atravessar o horizonte. O poeta, esse, colecciona-as na página: presas 
como borboleta do entomologista louco, debatem-se numa agonia de asas (sim tal 
como esse pássaro visado pelo caçador, 
a ave da alma é tão mortal como o sopro do amor). 

Então, 
dou-lhes a sua ração diária de versos, alimentando-as 
com a tua imagem.  E elas 
sobrevivem.




Nuno Júdice 
in, "Cartografia de emoções"





E agora? Como é?…


Isabel Saldanha






Uma das minhas melhores amigas separou-se há umas semanas, nesse dia ligou-me a dizer que tinha consumado a decisão com uma conversa directa e assertiva. Não hesitou, não vacilou e a voz não lhe tremeu. O seu discurso emanava na velocidade o “cagaço” óbvio da decisão.
Deixei-a falar, deixei a discorrer sobre os motivos, revendo-os, como se reforçasse para sí mesma a certeza da sua acção. Quando lhe começaram a escassear as palavras, quando a voz cansada se enramelou de dor, senti-a respirar profundo e soletrou: – E agora? Como é?…

Não gosto de conselhos vagos em situações difíceis.
A amizade compadece-se das melhores verdades.
E agora? Agora vai ser difícil. Vai ser diferente. Mas vais conseguir. Como eu consegui.
Nos próximos tempos vais rever muitas vezes os motivos, vais ser atravessada pela incerteza de tudo o que deixas para trás. Vais ter medo. E vais te sentir irremediavelmente sozinha, mesmo quando tiveres rodeada de todos os que gostam de ti.
Mas tu estavas sempre tão bem disposta…?
Parecia eu sei.

Mas sabes, convém fazer uma certa cerimónia com a dor.
Dá-lhe espaço de manobra para o teu próprio crescimento, mas lembra-la sempre, que quem comanda o rumo das coisas és tu. E que a decisão que tomaste tinha como Norte, ser mais feliz.

Sabes que a separação, faz-me sempre lembrar o pânico que nos assalta quando mudamos de casa, e nos encontramos sozinhas entre os caixotes espalhados pelas divisões.
Parece tão titânico o esforço, que a vontade de abraçar a nova morada é substituída por uma vontade súbita de ir dormir para um hotel. Os caixotes têm escrito o que contêm, foste tu que os arrumaste, lembras-te? Parecem muitos, demasiados e és só tu. Os teus braços e os teus olhos só alcançam o esforço de tudo o que há para fazer.

Não faças nada hoje.
Deita-te entre os caixotes, no colchão improvisado da tua decisão.
Amanhã quando acordares e começares a desembrulhar devagarinho, os despojos dessa guerra, parecer- te-ão as primeiras tábuas da ponte que mandaste construir. E devagarinho a ordem normal das coisas que conheces, dar-te-á a confiança que precisas para enfrentar o que ainda não conheces.

E agora?
Agora chora um bocadinho.
Que não se muda uma casa sem se lavar o chão.


Isabel Saldanha






domingo, 16 de setembro de 2018

Poesia






Poesia são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte mais emocional do nosso cérebro. Há poemas que despertam um tsunami emotivo real e nos arrepiam, como “A Primeira Elegia”, de Rainer Maria Rilke, cujos versos dizem:


“A beleza é nada mais que o princípio do terrível,
Aquilo que somos apenas capazes de suportar,
Aquilo que admiramos porque serenamente deseja nos destruir,
Todo anjo é terrível. ”


Rilke descreveu o terror que sentimos quando adquirimos um conhecimento mais amplo, o momento em que ficamos mais conscientes de nossas limitações e da complexidade do mundo, e percebemos tudo o que não entendemos, conscientes daquilo que nunca iremos compreender. É uma possibilidade bela e sedutora, mas também muito assustadora.

A poesia tem a capacidade de enviar poderosas mensagens emocionais e ativar a reflexão, ainda que seja certo dizer que o maior prazer que sentimos ao ler um poema, como quando desfrutamos de uma obra de arte, não provém de uma reflexão profunda, mas de sensações que nós experimentamos. Na verdade, Vladimir Nabokov disse que não se deve ler com o coração ou com o cérebro, mas com o corpo.

Pesquisadores do Instituto Max Planck de Estética Empírica se propuseram a explorar mais a fundo as influências da poesia em nosso cérebro, e os resultados de seu estudo são fascinantes.


A poesia gera mais prazer, a nível cerebral, que a música.
Pesquisadores pediram a um grupo de pessoas, alguns liam poesia com frequência, para ouvir poemas lidos em voz alta. Alguns dos poemas pertenciam a conhecidos poetas alemães como Friedrich Schiller, Theodor Fontane e Otto Ernst, apesar de que foi dada a opção para os participantes escolherem algumas obras, incluindo autores como William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Nietzsche, Edgar Allan Poe, Paul Celan e Rilke.

Enquanto os voluntários escutavam os poemas, os pesquisadores registavam o ritmo cardíaco, expressões faciais e até mesmo os movimentos dos pelos sobre a pele. Além disso, quando as pessoas sentiam um arrepio, elas eram instruídas a avisar, pressionando um botão.
Curiosamente, todas as pessoas, mesmo aquelas que não tinham costume de ler poesia, relatavam calafrios em algum momento durante e leitura, 40% sentiram arrepios várias vezes. Estas são respostas similares àquelas que experimentamos quando escutamos música ou assistimos a uma cena de um filme que gera grande ressonância emocional.

No entanto, as respostas neurológicas estimuladas pela poesia eram únicas. Os dados mostraram que ao tomar contato com os poemas, partes do cérebro usualmente desativadas quando expostas ao estímulo de filmes e música foram despertadas.
Os neurocientistas descobriram que a poesia cria um estado que chamaram de “pré-relaxamento”; ou seja, que provoca uma reação de prazer gradativo a cada estrofe escutada. Na prática, ao invés da emoção nos invadir repentinamente, como quando escutamos uma canção, a poesia gera um crescendo emocional que começa até 4,5 segundos antes de sentirmos o arrepio.
Curiosamente, esses picos emocionais ocorriam especificamente em trechos dos versos, como no final das estrofes e, acima de tudo, no final da poesia. É uma descoberta muito interessante, especialmente considerando-se que 77% dos participantes que nunca tinha escutado um poema também mostraram as mesmas reações e sinais neurológicos que antecipavam os focos emocionais da leitura.

A poesia estimula a memória, facilita a introspecção e nos relaxa.
Neurocientistas da Universidade de Exeter scanearam os cérebros de um grupo de participantes enquanto liam conteúdos diferentes, desde um manual de instalação de ar-condicionado, passando por diálogos de novela, até sonetos e poemas.

Estes pesquisadores descobriram que o nosso cérebro processa a poesia de forma diferente que a prosa. É ativada uma “rede de leitura” peculiar que abraça diferentes áreas, entre elas, aquelas responsáveis pelo processamento emocional, ativadas fundamentalmente pela música.
Eles também perceberam que a poesia estimula áreas do cérebro associadas com a memória, como o córtex cingulado posterior e o lobo temporal médio, áreas que são despertadas quando estamos relaxados, ou introspectivos.

Isto demonstra que existe algo muito especial na estrutura do texto poético que gera prazer. Na verdade, a poesia é uma expressão literária muito especial que transmite sentimentos, pensamentos e ideias, praticando síntese métrica, trabalhando rimas e aliteração.



Jennifer Delgado Suárez





Rainer Maria Rilke, 1906
by George Bernard Shaw




PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO


Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego quotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num voo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos tremulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.


Rainer Maria Rilke




“Contam que Rilke, depois dos primeiros versos que o vento lhe ditou nas altas penedias de Duíno, viveu doze anos com aquele germe, em viagens, em mudanças, em desperdícios, em guerras, até o momento de realizar, em quatro dias, como quem morre, as suas elegias perfeitas.
Não será sempre assim?
Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?”

GUSTAVO CORÇÃO
in, Lições de Abismo








GRANDE Ney






" Eu não defendo gay apenas, defendo índios, fiz um vídeo recentemente pedindo a demarcação de terras. Defendo os negros, que estão na mesma situação que viviam nas senzalas, estão presos aos guetos. Me enquadrar como "o gay" seria muito confortável para o sistema.
Que gay o caralho.
Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto, de terceiro lugar.
Ter caráter, ser uma pessoa honesta, de princípios, que trata bem as outras. Ser uma pessoa afetuosa, amorosa. Isso é mais importante do que com quem eu trepo.
Sou benquisto e recebo isso nas ruas, das pessoas."


" Acho deselegante esfregar minha vida pessoal na cara das pessoas, como se estivesse esfregando minhas peças de roupas íntimas."
"Orgulho de ser gay?
Coisa mais estúpida, me orgulho de ser um homem e ter sido gerado através de uma mulher que amo"

Ney Matogrosso





sexta-feira, 14 de setembro de 2018

The Old Man At The Sea





He stands silently looking seaward, 
Perhaps longing to be free? 
To be free from land's firm clutches 
To roam the endless sea? 

Perhaps he's just a dreamer? 
Staring at a peaceful tide. 
Or was he once a surfer 
Dreaming of huge waves to ride? 

There's a sadness in his staring, 
Looking neither left nor right. 
Standing on a lonely boardwalk 
From dawn to late at night. 

His suit has seen its best of days. 
His shirt unbuttoned at the top. 
There's a pride - Yes! There's a longing 
For his looking never stops. 

Does he see his early youth 
On a Merchant Navy ship? 
Did he fish the deepest oceans 
On each fraught, each dangerous trip? 

Did he lose his dearest love one 
In a battle with the foam? 
Or does he spend his lonely hours 
Wishing that the sea was home? 

There's an ocean full of questions 
Which he would think absurd. 
There's a sea so full of answers 
Which never will be heard!


Joe Hughes 





Terrorismo Infantil





“Nascemos na década de 80. Somos a geração que comeu Cerelac, Nestum com mel e papas de farinha Maizena. Somos a geração que levava cem escudos para a escola primária e comprava um Bollycao no intervalo da manhã. Metíamos manteiga nas bolachas Maria e Nesquick no leite. As nossas festas de anos tinham sandes de fiambre e queijo mas também tinham salame e tortas Dancake. A nossa geração bebia Coca-Cola quando tinha diarreia mas antes as nossas mães "tiravam-lhe o gás". Comíamos batatas fritas da Matutano e fazíamos colecção de pega-monstros e tazos. Apesar disto somos também uma geração que aprendeu a comer sopa a todas as refeições e peixe cozido quando as nossas mães assim o entendiam. Não havia comida especial para nós e quando perguntávamos o que era o almoço recebíamos como resposta um "casquinhas de tremoço". Comíamos fruta como sobremesa porque nem nos passava pela cabeça não o fazer. Somos a geração que brincava na rua até à hora de jantar e, no Verão, ainda podíamos brincar depois dessa hora. Andávamos de bicicleta e íamos a pé para a escola, sozinhos ou com amigos. Até para mudar de canal na televisão tínhamos que nos levantar. Somos a geração que ligava para os discos pedidos, a geração que não dissocia a Ana Malhoa do Buereré, a geração que comprava cassetes dos Onda Choc nos expositores dos cafés. Fomos as princesas da Disney e os Power Rangers. Ainda somos do tempo em que os carros não tinham cinto de segurança nos bancos traseiros nem ar condicionado. Jogámos Tetris e tivemos Walkmans e Mega Drives. Tomámos comprimidos de flúor e bebemos óleo de fígado de bacalhau.

A nossa geração comeu açúcar que se fartou, viu desenhos animados cheios de lutas e outros em que as meninas eram princesas à espera do príncipe encantado. E nenhum mal veio daí. Porque a nossa geração fez tudo com conta, peso e medida. A nossa geração teve mães que faziam o que podiam da melhor forma que sabiam, que seguiam o coração e não viam um papão em cada esquina. As nossas mães eram as mães que nos deixavam lamber a massa crua dos bolos mas que diziam que comer o bolo quente nos dava a volta à barriga. Podiam ser incoerentes, é certo, mas tinham filhos felizes. E nós tivemos mães imperfeitas mas que, na sua imperfeição, souberam dosear tudo e encontraram o equilíbrio. Saibamos nós ser hoje tão imperfeitas como elas foram um dia. Os nossos filhos ficarão gratos. Tal como nós somos gratos.

Que maravilhosas foram as mães dos filhos de 80.”




RECADOS DE UMA MÃE PARA UMA AVÓ QUE VAI FICAR COM OS NETOS ALGUNS DIAS EM AGOSTO

• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.



RESPOSTA DA AVÓ QUE FICOU COM OS NETOS ALGUNS DIAS NAS FÉRIAS!

• Olha, filha, não sei se percebi bem os recados que me deixaste. Dizias que a Matilde não come arroz, mas houve um dia em que ela quis provar do arroz de frango que fiz para mim e para o teu pai e gostou. E pediu para repetir. Duas vezes. Já não me lembro se vocês são vegetarianos ou não, se os miúdos comem carne às vezes ou só às terças e quintas, mas ela pareceu tão consolada que no dia seguinte fiz mais. E também gostou do sarrabulho.

• Não lhes dei bolos, como pediste. Mas o teu pai não leu os recados. E ele deu. Todos os dias ao fim da tarde iam dar um passeio com o avô e o cão e passavam por casa da tia Idalina, que lhes dava uns biscoitos. Só soube isto no fim das férias. Mas acho que os biscoitos são muito bons. Depois peço-lhe a receita para te dar. Mas ela não usa cá açúcar amarelo. Não há disso na aldeia.

• Comeram iogurtes e tivemos de comprar mais queijo porque eles acabaram num instante o que tínhamos cá em casa. Já não me lembro se podiam comer queijo ou não ou se era o leite de vaca que não podiam beber. Mas como é difícil arranjar leite de cabra, comprámos do outro na mercearia e não nos chateámos com isso. Não te chateies tu também.

• Não brincaram com o iPad. Enquanto estiveram cá na aldeia nem lhe mexeram. Mas adormeciam a ver televisão. Dizias uma coisa qualquer sobre ecrãs à noite, mas eu não percebi bem.

• Houve algumas birras. E numa delas o João fartou-se de chorar. Ele disse que ia ligar-te, mas o teu pai disse-lhe para ir mas é jogar à bola e estar calado e a coisa resultou.

• Não lhes comprei brinquedos de plástico na feira, como tu disseste. E eles ficaram amuados comigo e não quiseram voltar à feira mais nenhum dia, o que foi uma chatice. Que raio de ideia, filha. Isso não correu muito bem.

• O champô que mandaste para eles, aquele das plantas medicinais, cheirava mesmo mal. Tem paciência, mas lavei a cabeça dos teus filhos com o meu champô. É bem mais barato do que o teu. Andas a gastar uma fortuna numa coisa malcheirosa, filha.

• As toalhas de algodão armado ao pingarelho que tu mandaste são tão fofinhas e estavam tão bem arrumadas que as deixei estar no sítio. Tive medo de as estragar. Os teus filhos tomaram banho todos os dias e limparam-se às toalhas que havia cá em casa. E não lhes caiu nenhum pedaço de pele. Acho que fiz tudo bem.

• Querias que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei mais, noutros não dei nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à Matilde, porque estava a fazer uma fita, mas depois acalmou.

• Não houve cá abraços a árvores. Esqueci-me. E houve um dia em que o Pedro caiu da árvore do quintal e fez uns arranhões. Acho que não tinha vontade nenhuma de dar abraços ao tronco.

• Aquela coisa de o João vestir as saias da Matilde é que me pareceu esquisito. Ele nunca pediu para vestir a roupa da irmã. Eu achei isso bem e fiquei contente.

• Todas as noites ouviram música, como pediste, mas não foi o CD dos monges tibetanos, que isso irritava o teu pai. Ouviam a música dos altifalantes da festa. Não querias o Despacito, mas ouviram isso umas dez vezes por dia. E o Toy também. E o Tony Carreira e o Emanuel.

• Só deves ver este papel quando acabares de tirar as coisas dos sacos dos miúdos. Deixei isto no fundo da mochila do Pedro de propósito. Assim, antes de saberes das coisas que não fiz como tu querias, viste os teus filhos e viste como estavam bem alimentados e cuidados.

PS: não precisas de colar isto na porta do frigorífico. Não quero que gastes fita-cola. Se tiveres alguma dúvida, telefona-me. É isso que as mães fazem: atendem o telefone às filhas para responder a dúvidas sobre os netos.


Paulo Farinha





quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O algo que importa





Todo amanhecer, dona coelha reunia seus filhos e dizia:
“Esse é o dia mais importante das suas vidas. Façam ‘algo que importa’, hoje.” 
Eles, habituados a ouvirem o refrão, não se apercebiam do sentido da mensagem.

Dona coelha, então, resolveu questionar seus filhos:
“Todos os dias chamo a atenção de vocês para a importância do dia que nasce e nunca me perguntam o porquê. Então, eu lhes digo: Esse é o dia mais importante porque estamos vivos e é nesse dia precisamente que podemos realizar ‘algo que importa’.
Nem ontem, que já passou, nem amanhã, que ainda não existe. Mas, hoje. Pensem bem, logo mais quero saber o ‘algo que importa’ que fizeram.”

Ao final do dia, todos reunidos, dona coelha quis ouvir seus filhos. Disse o primeiro:
- Bom, sabe aquele rio que temos que atravessar, em condições precárias, arriscando nossas vidas? Pois é. Convenci meus amigos que deveríamos construir uma ponte.
- Muito bem, se você os convenceu, o sonho vai se realizar.
Diz o outro:
- Não sei se foi “algo que importa”, mas dona coruja estava com o pé quebrado e, assim, sem condições de levar sua filhinha à escola, coloquei-a em minhas costas e chegamos a tempo.
- Certamente,  você fez “algo que importa”, pois além de prestar um serviço, fez a mãe coruja feliz.
O terceiro, diante do relato dos anteriores, ficou deprimido, pois reconhecia não ter feito nada que importa.
- Se você pesquisar bem, disse dona coelha, possivelmente vai descobrir ter feito “algo que importa”, mas o mais importante foi ter tomado consciência e confessado sua aparente omissão.
Isso é o que mais importa para você, hoje.


Francisco Gomes de Matos




Este conto fez-me lembrar o filme "O Que de Verdade Importa", título original "The Healer" do extraordinário ser humano Paco Arango.

Sinopse:
Alec vive uma vida feita de hedonismo, mulheres e bebida, em Londres, onde tem uma loja de reparação de electrónica, só que também tem inúmeras dívidas que fazem com que a falência esteja muito perto. Um dia, um tio que ele nunca conheceu propõe-lhe saldar todas as suas contas com apenas uma contrapartida: que ele se mude para o Canadá e viva lá durante um ano.
Chegado à aldeia Nova Escócia, o engenheiro ganha a reputação de alguém que pode curar pessoas e não só aparelhos electrónicos, o que o leva a descobrir um segredo de família.
Pelo meio, cruza-se com uma adolescente com um cancro terminal. 






Este filme vem depois de "Maktub", o segundo filme de Paco Arango, que também foi cantor e nasceu no México, cresceu em Espanha e estudou nos Estados Unidos.

Paco Arango produtor e escritor de cinema, em determinada altura da vida e porque até aí tinha tido muita sorte, queria dedicar parte do seu tempo a um projeto de voluntariado. Por sugestão de um amigo começou a fazer voluntariado com crianças com cancro.
Em 2005 criou a Fundação Aladina, com o objetivo de melhorar as condições de crianças e adolescentes com cancro, assim como dar atenção às suas famílias.
Estreou-se como diretor de cinema em 2011 com o filme “Maktub” e destinou o primeiro meio milhão de euros das receitas para a melhoria do Hospital Oncológico Menino Jesus.
O realizador faz voluntariado com crianças com cancro, todos os dias há 17 anos, e os lucros mundiais do filme revertem a favor de instituições que apoiem quem sofre dessa doença.
No caso de Portugal, as receitas irão para o IPO.
Até agora, que ainda está no início, já arrecadou para as crianças 4 milhões.

Ele tem uma Fundação,
FUNDAÇÃO O QUE DE VERDADE IMPORTA www.loquedeverdadimporta.org


E para ti,  O QUE DE VERDADE IMPORTA?











A PALAVRA SEDA






A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, académica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.



João Cabral de Melo Neto









O Guardião da Flor de Lótus





A história passa-se no Perú, India, Dharamsala onde vive o Dalai Lama e todos os exilados do Tibete quando foram expulsos pelos chineses; Nepal; Tibete e Caxemira.
A misteriosa morte do lama tibetano, Lobsang Singay, que estava prestes a revelar uma descoberta sem precedentes na história da medicina chama a atenção de todos. Após anos de investigação no seu mosteiro, Singay conseguiu fundir os avanços científicos do ocidente com a sabedoria ancestral dos tibetanos, no entanto pouco antes de partir para a tão aguardada conferência em Harvard, morre em estranhas circunstâncias. Jacobo, um jovem espanhol imerso numa crise pessoal e profissional, vê-se empenhado em investigar o que há por trás dessa intrigante morte. A resposta poderia estar num documento milenar budista que os serviços de inteligência do exército chinês anseiam possuir. Para encontrá-lo, Jacobo empreende uma vertiginosa viagem pelos inacessíveis cumes dos Himalaias, a partir do norte da Índia até as profundidades do fascinante Tibete. Ao mesmo tempo em que tenta desviar-se dos perigos que o cercam, aprenderá com o seu mestre Gyentse que esse universo mágico também abriga a solução dos seus conflitos internos. A investigação de um crime torna-se uma jornada espiritual para o coração do Budismo e para o nosso coração interno.


O Tibete tem uma história triste…é uma das grandes calamidades mundiais, porque a Comunidade Internacional decidiu não intervir em favor dos tibetanos quando foram invadidos e massacrados pelos chineses, para não entrar em conflito com a China, que é uma das grandes super potências do mundo.
O Tibete é uma região de planalto da Ásia, um território disputado, situado ao norte da cordilheira do Himalaia. É habitada pelos tibetanos e outros grupos étnicos como os monpas e os lhobas, além de grandes minorias de chineses han e hui. O Tibete é a região mais alta do mundo, com uma altitude média de 4 900 metros de altitude, e por vezes recebe a designação de "o teto do mundo" ou "o telhado do mundo".
Durante a sua história, o Tibete existiu como uma região composta por diversas áreas soberanas; como uma única entidade independente; e como um Estado vassalo, sob  soberania chinesa. Foi unificado pela primeira vez pelo rei Songtsän Gampo, no século VII. Por diversas vezes, da década de 1640 até a de 1950, um governo nominalmente encabeçado pelos Dalai Lamas (uma linhagem de líderes políticos espirituais tidos como emanações de Avalokiteśvara - Chenrezig, Wylie: [spyan ras gzigs] em tibetano - o bodisatva da compaixão) dominou sobre uma grande parte da região tibetana. Durante boa parte deste período a administração tibetana também esteve subordinada ao império chinês da Dinastia Qing.
Em 1913, o 13º Dalai Lama expulsou os representantes e tropas chinesas do território formado atualmente pela Região Autónoma do Tibete. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia tibetana, esta independência proclamada do Tibete não foi aceite pelo governo da China nem recebeu reconhecimento diplomático internacional e, em 1945, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela Organização das Nações Unidas. 

A partir do século VII a região tornou-se o centro do Lamaísmo, religião baseada no budismo, transformando o país num poderoso reinado. Antigo objeto de cobiça dos chineses, no século XVII o Tibete é declarado incluído no território soberano da China. A partir daí seguem-se dois séculos de luta do Tibete por independência, conquistada - temporariamente - em 1912.

Em 1950, o regime comunista da China ordenou a invasão da região, que foi anexada como província. A oposição tibetana foi derrotada numa revolta armada em 1959. Como consequência, o 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder espiritual e político tibetano, retirou-se para o norte da Índia, onde instalou em Dharamsala um governo de exílio.


Após uma invasão contundente e uma batalha feroz em Chamdo, em 1950, o Partido Comunista da China assumiu o controle da região de Kham, a oeste do alto rio Yangtzé; no ano seguinte o 14º Dalai Lama e o seu governo assinaram o Acordo de Dezessete Pontos. Em 1959, juntamente com um grupo de líderes tibetanos e de seus seguidores, o Dalai Lama fugiu para a Índia, onde instalou o Governo do Tibete no Exílio em Dharamsala.
Pequim e este governo no exílio discordam a respeito de quando o Tibete teria passado a fazer parte da China, e se a incorporação do território à China é legítima de acordo com o direito internacional. Ainda existe muito debate acerca do que exatamente constitui o território do Tibete, e de qual seria a sua exata área e população.

Em setembro de 1965, contra a vontade popular dos seus habitantes, o país torna-se região autónoma da China. Entre 1987 e 1989, tropas comunistas reprimiram com violência qualquer manifestação contrária à sua presença. Há denúncias de violação dos direitos humanos pelos chineses, resultantes de uma política de genocídio cultural.

A causa da independência do Tibete ganhou força perante a opinião pública ocidental após o massacre de manifestantes pelo exército chinês na praça da Paz Celestial e a concessão do Prémio Nobel da Paz a Tenzin Gyatso, ambos em 1989. O Dalai Lama passou a ser recebido por chefes de Estado, o que provocou protestos entre os chineses. 

O Tibete é, ainda hoje, considerado pela China como uma região autónoma chinesa (Xizang).
Que de autónoma não tem nada, visto que se os tibetanos não viverem de acordo com as regras chinesas, são perseguidos, presos e torturados pelas autoridades chinesas.
A perseguição continua ainda hoje, e os tibetanos passam os seus filhos clandestinamente para a Índia, para irem para Dharamsala estudar na esperança de terem um futuro melhor longe do comunismo chinês.


O livro tem partes lindíssimas, de grande sabedoria.
Partilho aqui o que me tocou especialmente:

Fala dos Xamãs tibetanos que viviam no Planalto Tibetano, tinham o poder de prever todas as desgraças, doenças do corpo humano, calamidades, e conseguiam absorver as forças dos 5 elementos (Ar, Fogo, água, Terra e Éter) e assim limpar a energia da pessoa doente. A doença psíquica e física surge do desequilíbrio entre o Ser Humano e o Universo. Esse desequilíbrio é provocado pelos espíritos da natureza que absorvem a energia negativa dos humanos. Por isso eles defendiam que era fundamental reestabelecer a situação harmónica do corpo e da Mente. Fala também dos 4 Demónios: o da Ignorância; o Branco com cabeça de tigre que nos obriga a sofrer a dor do nascimento; o Amarelo com cabeça de crocodilo que significa as amarras que nos prendem às coisas materiais, o apego que nos provoca sofrimento por medo de perda; e o Negro do ódio, que nos submete à dor da morte.
Na tradição tibetana, não existem os heróis solitários, não existe o “eu” mas sim o “todos”, em que todos contribuem com a sua peça do puzzle. Tudo se resume a recompor este puzzle que é a Vida, em que cada um contribui com a sua peça específica. Cada um deve por a sua peça do puzzle e deve fazê-lo no momento preciso. Tudo na nossa vida acontece para que estejamos preparados para por a nossa peça do puzzle na altura certa, e assim contribuirmos para o equilíbrio do planeta Terra e do Cosmos. Tudo obedece a um Plano Maior. Tudo tem uma razão se ser.
Muita gente segue causas, fazem trabalho humanitário, tornam-se voluntários, cooperantes de ONG’s, mas não estão ali para ajudar o povo tibetano, mas sim por interesse próprio, como todos os políticos ocidentais que prometem e no fim nada fazem para alterar a situação de exilados dos tibetanos. Tudo faz parte da Nova Ordem Mundial. As Organizações Não Governamentais e os Governos do Ocidente, com as suas Instituições Humanitárias, têm as mesmas debilidades. Os tibetanos lutam pela sua terra, para poderem regressar à sua terra e às suas tradições milenares de onde foram expulsos, torturados e assassinados pelos chineses há mais de 50 anos. Os ocidentais lutam longe de casa e os escrúpulos perdem-se pelo caminho. Acabam por traficar com os recursos, a miséria e o exílio dos tibetanos, em favor dos seus próprios interesses individuais. Algumas ONG’s dependem demasiado dos Governos o que limita bastante o seu poder de acção. E o que se retira disto é que, por vezes a Caridade não serve para solucionar os problemas, porque no dia seguinte está tudo na mesma e o problema continua por resolver. Eu não acredito na caridade que pouco ou nada resolve. Eu acredito na Fraternidade, no tratar os outros como se fossem nossos irmãos e ajudá-los a ter ferramentas de forma a eles se tornarem autossuficientes e independentes, de forma a conseguirem ter uma vida digna sem dependerem de ninguém.
Quando vemos claramente o que queremos, não pomos a hipótese de estar errados no Caminho. No Ocidente não somos educados para lidar com o sacrifício, nem a ter paciência, e muito menos a direcionarmos os nossos dons em benefício dos outros de forma gratuita e desinteressada. Não nos ensinam que a única via para desenvolver uma vida plena é ter uma meta bem clara (não para alcança-la, mas para tender para ela). Não somos educados para entender que o mais satisfatório é sermos consequentes com os nossos actos. Quando carecemos dessa meta, lançamo-nos sem pensar sobre tudo o que aparece pela frente. E isso leva-nos a cair na desordem, no ruído, culpando aqueles que temos mais próximo das nossas próprias limitações. Se víssemos claramente essa meta, esse objectivo vital, sentiríamos em cada momento que estávamos a agir corretamente. E o mais importante, sentiriamo-nos livres, que é algo imprescindível para nos realizarmos em todas as esferas, para sermos sinceros e deixarmos que aqueles que temos à nossa volta nos ajudem a melhorar.
Relata como os chineses torturaram os monges, em praça pública, puseram-nos todos nus, obrigaram-nos a ter sexo anal uns com os outros, e depois ligavam cabos às baterias dos carros de patrulha e davam-lhes choques elétricos nos genitais. No fim, fuzilavam-nos. Na maioria dos casos, Pequim nem tinha conhecimento, porque como não havia controlo nem exigiam responsabilidades, as tropas faziam o que lhes apetecia.
Explica que os sintomas que por vezes temos no nosso corpo físico, como a febre, diarreias,etc… são vias de escape que o nosso corpo utiliza para aliviar a pressão que os nossos conflitos interiores exercem. Nesses casos, para curar a essência da doença não podemos tomar medicamentos para não camuflar a origem dos sintomas. Não devemos ver a doença como um obstáculo, nem como uma virtude. Mas sim como uma purga necessária. Os ocidentais concentram a sua atenção em aliviar os sintomas com os medicamentos. Os orientais concentram-se mais  a descobrir a origem desses sintomas, de forma a curar na raíz o problema. Eles vêm no corpo humano, para além dos órgãos internos, as correntes energéticas que nos vinculam ao resto da existência. E são essas vias que eles procuram restabelecer para tratar as doenças. Por exemplo: no umbigo, acumula-se a energia da nossa forma física, e dele partem os canais principais e onde confluem os 5 elementos (água, terra, ar, fogo e éter) que são as forças dinâmicas da natureza. Os médicos tibetanos consideram que o elemento terra está associado aos ossos, à pele, às unhas e ao cabelo. A água aos fluidos corporais. O fogo ao calor associado com o metabolismo e a digestão. O ar, à energia vital. E o Éter (O espaço) à consciência. Os desequilíbrios dos 5 elementos produzem doença e por vezes leva à morte. Todas as emoções negativas contaminam as células corporais, inclusive o descontentamento connosco próprios. As doenças surgem das atitudes com que limitamos o nosso corpo físico. Agarramo-nos a ele e não conseguimos ver que é um maravilhoso e irrepetível veículo, que bem conduzido, pode ajudar-nos a alcançar o despertar definitivo. Enquanto não curarmos o nosso Espírito e restabelecermos os nossos canais energéticos, não deixaremos de sofrer, de adoecer.
Fala sobre a tribo Kampa, que vive nos Himalaias do Tibete Oriental, na passagem mais direta entre a China e o Tibete. São conhecidos na Ásia pela sua coragem, valentia e também pelos seus costumes e tradições. São uma tribo nómada. E neste livro ensinam-nos que, por vezes nós ocidentais refugiamo-nos numa vida nómada de sentimentos para não enfrentar nenhum compromisso connosco próprios, e isso impede-nos de nos comprometermos com os outros, condenando-nos inevitavelmente à prisão da solidão. 
Ensina que é importante meditar todos ao dias para desacelerar o ritmo, abrandar, serenar, para podermos recuperar a perspectiva sobre as coisas. Através da meditação atingimos um estado de serenidade que nos permite analisar os problemas com lucidez. A nossa mente é como o mar: quando está agitado, o fundo é removido e as águas tornam-se turvas. Assim, não se pode distinguir nada. No entanto, as águas de um mar calmo são sempre cristalinas, já que o sedimento se comprime no fundo. A posição para meditar pode ser a posição de lotus ou sentado numa cadeira: o importante é manter as costas direitas para não cair num estado de sonolência. Depois, concentar a atenção na respiração: inspirar e expirar. Sentir o ar a entrar no corpo e a sair. E não pensar em mais nada. É apenas isto!
Para os tibetanos, a flor de lótus é o símbolo máximo da pureza e da santidade, já que floresce em todo o seu esplendor até nas águas mais impuras, sem perder o ápice da sua beleza. O Dalai Lama e todos os Lamas que o precederam, pertencem à Família Búdica chamada o Clã do Lótus. Por tudo isto, essa flor de sublime beleza é o ser vivo que melhor pode representar o legado imortal do povo tibetano. Nós somos os Guardiões desse legado.
Tudo o que fazemos, o que escolhemos, tem consequências nos outros. Tudo está interligado. Estamos todos conectados. Somos todos Um. Ao curarmo-nos a nós, estamos automaticamente a curar os que nos rodeiam. Tudo flui e em qualquer momento as coisas podem ser ou não ser. Dirigirmo-nos sempre para este estado óptimo universal, passo a passo.
Por vezes, usamos as doenças dos outros, como desculpa para disfarçar as nossas próprias carências. E são essas nossas carências que nos torturam verdadeiramente. É muito fácil lançar a culpa nos outros. Carecemos de pilares que possam sustentar verdadeiras relações de compromisso. Fomos educados para a realização a partir da individualidade, potenciando a competitividade, e o êxito e sucesso como único meio para alcançar a felicidade. Necessitamos sempre de mais. Nunca estamos satisfeitos. E isso faz com que nos sintamos permanentemente vazios por dentro. Por isso, quando alguma coisa corre mal, como é o caso da doença de uma pessoa querida, é derrubado tudo o que ilusoriamente conseguimos até então através da nossa busca egoísta. E o pior acontece quando nos damos conta de que, além disso, essa ilusão acabará ao mesmo tempo que a nossa própria vida. Não terá tido nenhuma repercussão em nada, nem em ninguém. Não nos podemos martirizar pelo que fizemos no passado, porque vai impedir-nos de avançar e faz com que estejamos sempre em sofrimento sem cura pessoal. A Doutrina Tibetana é o último pulmão que existe na Terra. Não só a tibetana, mas qualquer filosofia que nos permita entender que o pilar fundamental de uma existência plena é procurar alcançar a felicidade fazendo felizes os outros. O amor e a entrega aos que nos rodeiam torna-nos felizes, livres, permite-nos prescindir das nossas amarras pessoais e também superar as nossas limitações. A nossa existência deixa de ser finita, já que sobrevive nas pessoas que amamos.
Há sempre algo mais, algo oculto, por detrás do que vemos num primeiro olhar. É como as mandalas de areia que no fim de serem feitas se deixam desfazer pelo vento. Parecem representar algo terreno, como os mosteiros onde são feitas, mas quando se vê mais além, vê-se todo o Tibete e o resto do Mundo, o nascimento, a morte e o renascimento. As mandalas não são representações da verdade, mas o mero vínculo para que, com a sua contemplação e através da meditação, cheguemos a essa verdade. É apenas um veículo que nos ajuda a chegar à Verdade.
Não se pode escrever o Amor, nem a Morte, nem os Segredos da Vida. Nem mesmo através da Poesia. Há que construí-los a cada momento, com cada pequena acção, aproveitando a liberdade que a nossa condição humana nos oferece. A verdadeira essência do budismo tibetano baseia-se nas imensas possibilidades do ser humano para aprender. É esse o verdadeiro poder da Flor de Lótus. Na simplicidade das coisas, está a sua grandeza. Este é o verdadeiro poder do Tibete. Na solidão das montanhas do Planalto no Tibete, os tibetanos não dispõem de outra coisa além da sua própria vontade, mas sabem que ela lhes é suficiente para alcançar a verdade. Tudo o resto desaparece com o tempo, como a areia das mandalas, à espera do momento propício para ser espalhada pelo vento. Para chegar à Verdade das Coisas, só dispomos do nosso potencial como pessoas, da liberdade inerente à condição humana. E que temos de fazer uso desse potencial para crescer e aprender, aplicando-o dia após dia em cada um dos nossos actos. Tudo o que é importante está dentro de nós mesmos e que tudo o que vem de fora não tem nenhuma valia.