terça-feira, 12 de setembro de 2023

Mãe

 

Marko Milivojevic





A nossa cultura, com a sua típica falta de consciência espiritual, condicionou-nos a ver a relação Mãe / filho apenas pela perspectiva terrena de uma criança e de um adulto. 
Ou seja, estamos exageradamente habituados a ver a Mãe, única e exclusivamente, pela perspectiva do filho, da criança, da memória daquele tempo em que dependemos totalmente de alguém para cuidar de nós, na fase de maior fragilidade, vulnerabilidade e incapacidade das nossas vidas. 

Desta perspectiva, também podemos imaginar que a relação ideal ou expectável, permitiria que a criança, pela sua inocência e imaturidade, tivesse direito e garantidas as suas necessidades básicas tanto físicas na forma de boa alimentação, cuidados médicos, passeios e brincadeira, sociabilização, assim como as necessidades emocionais na forma de amor, segurança, proteção, paciência e tolerância. 

À Mãe cabe o dever e a responsabilidade de garantir que todas estas necessidades sejam asseguradas. Quando não são, quando a Mãe se revela incapaz, quando não sabe, ou não consegue ou simplesmente não está, vai criar dor, trauma e sofrimento na criança, que irá projetar sempre a sua dor nessa Mãe, aprisionando-se assim a ela pelo lugar de vítima. 

A verdade é que, por mais bonita e perfeita que a idealização seja, a realidade mostra que não há Mães perfeitas, até porque na viagem à terra não é possível experienciar a perfeição, seja de que forma for.

  • Então como lidar com as dores causadas pela Mãe?
  • Como me libertar do sofrimento que ela causou?
  • Como aceitar o mal que me fez?

Precisamos aprender a ver a Mãe por outra perspectiva! 
Se já deste uns passinhos na consciência espiritual e nas dinâmicas Karmicas e sistêmicas, já sabes que todos os eventos da nossa vida são planeados antes da encarnação e estão revelados no nosso mapa astral. 
Antes de encarnar, a Alma revê o seu passado, toma consciência dos seus padrões, potenciais e desequilíbrios, e de acordo com esse passado, prepara o plano da encarnação, escolhendo as pessoas, circunstâncias e eventos que a vêm ajudar a evoluir. 
Neste pacote estão obviamente incluídas, a Mãe e o Pai. 

Mas estás-me a dizer que fui eu que escolhi a minha Mãe? 
Como é possível ter escolhido alguém tão difícil e que me fez sofrer tanto!?
Sim, estou. 

Mas não foi propriamente a mente inferior e terrena que fez essa escolha, mas sim a mente superior ou a Alma que viu na Mãe e no Pai, as energias correspondentes, a vibração perfeita, os mestres necessários para as aprendizagens da encarnação presente. 
Pode não ser a Mãe perfeita para o ego, mas é sem dúvida, a Mãe perfeita para o projeto da Alma.

Resumindo, 
precisamos sair do lugar da criança, dependente do colo e amor da Mãe, que irá sempre ser a vítima birrenta quando a Mãe não corresponder ao ideal, para um lugar de adulto que escolheu a Mãe por razões karmicas e sistémicas complexas que para serem entendidas e aceites, implicam um enorme trabalho e investimento de consciência e responsabilidade pessoal.
 
Ou seja, 
para curarmos a relação que temos com a Mãe e o Pai, 
precisamos sair do lugar da criança para o adulto responsável, 
para o espírito consciente de que a vida é uma viagem espiritual de evolução através dos desafios, encontros e circunstâncias que irão girar à nossa volta. 

Se ainda achas que viver é ter um emprego, uma relação e uma família perfeitos, julgar os maus e juntares-te aos bons, lamento informar que estás a viver numa ilusão e a desperdiçar oportunidades valiosas de evoluir.

Costuma-se dizer que 
o sofrimento é 
a distância que criamos entre 
o ideal e o real.

Esta frase aplica-se bem neste tema pois,
tanto a imaturidade da criança, 
como a ignorância espiritual do adulto, 
como a exagerada idealização que fazemos das pessoas em geral, 
impossibilita-nos de ver a Mãe pelo olho da alma
  • pela consciência superior, pelo princípio de que “tudo tem uma razão de ser”, 
  • de descobrir que segredos da nossa história Karmica ela esconde, 
  • que padrões ela representa, 
  • que lições precisamos aprender com ela, 
  • o que em nós nos fez atraí-la e fazer dela a escolha “certa”, 
  • que papel têm as dores e o sofrimento deixado pelas ações dela, etc.

E como posso então compreender tudo isso?
  1. Investindo no conhecimento de ti mesmo, 
  2. no reconhecimento dos teus padrões positivos e negativos, 
  3. na consciência da bagagem Karmica com que nasceste, 
  4. na consciência das lições da vida presente, 
  5. do propósito desta encarnação, 
  6. na mensagem dos teus números e do teu mapa astral Karmico, principalmente da Lua que é a Mãe, 
  7. na visão humilde de que todas as pessoas na tua vida, tanto as melhores como as piores estão lá por uma razão, 
  8. na responsabilidade total e individual pela tua vida, pela tua felicidade, pelos teus desafios e caminho de evolução. 

Sem este trabalho de consciência, 
a dor perpetuar-se-á e prejudicará apenas o próprio que a sente.

Ou seja, 
como a sociedade, a família, a escola, a política, a religião e a medicina ainda não abriu espaço ou reconheceu a importância deste investimento espiritual, cabe-nos a nós investir em experiências como a terapia, os cursos, as infinitas fontes de informação, livros, workshops, viagens ou qualquer experiência que devolva mais consciência de quem somos ao invés de vivermos iludidos, hipnotizados e distraídos da mais importante viagem das nossas vidas.

Algures na nossa viagem de maturidade iremos perceber que podemos já não precisar da Mãe para viver, ou porque já partiu ou porque nos afastámos dela ou porque ela nos abandonou, mas precisamos de reconhecer e aceitar a Mãe para sermos felizes e termos paz interior. 

Qualquer terapeuta sabe que, um bom trabalho de terapia implica, 
  1. a pacificação com o passado, 
  2. a relação com os pais, 
  3. aceitação das coisas como foram, 
  4. o perdão àqueles que nos magoaram, 
  5. a consciência de que dessas dores e desafios, sobrevivemos mais fortes e maduros, 
  6. o processamento das emoções residuais desses eventos.
 
Mas a visão sistémica, ou seja a visão que inclui não só os eventos da infância mas também a influência das vidas passadas, as heranças dos ancestrais, as invisíveis mas poderosas dinâmicas Karmicas 
convida-nos a ir mais longe:
 
Bert Hellinger, o grande fundador da consciência sistémica, 
veio convidar-nos a ver o perdão como uma arrogância, veio nos ensinar que não há ninguém para perdoar pois perdoar faz crer que existe uma vítima e um culpado. 

Ora, se o acordo feito entre a alma da Mãe e a nossa foi feito no plano espiritual, foi combinado tendo em vista as aprendizagens de ambas as partes, foi escolhido respeitando as questões Karmicas dos dois, não há lugar à culpa. 
Há sim lugar ao entendimento e à responsabilidade de cada um pelo encontro e respectivas aprendizagens. 

Mais ainda, é essencial, segundo Hellinger, 
não só a aceitação do compromisso da Mãe para com a nossa história, 
como de gratidão por ter cumprido o que lhe competia no acordo: 
  1. aceitar trazer-nos à terra, 
  2. vivenciar todo o processo de gravidez, 
  3. ter colocado a sua vida em risco até ao nascimento, 
  4. aguentar a longa viagem dos 9 meses com todos os seus desconfortos e exigências emocionais, psicológicas, familiares, relacionais, físicas, financeiras e outras, apenas para nos trazer à Vida, para que cumpríssemos mais uma etapa da nossa evolução. 

No nascimento, 
a partir do primeiro suspiro, 
entra em ação o plano Karmico que ficará impresso no nosso mapa astral toda a nossa vida. 
Não só começará a verdadeira intenção e missão da nossa viagem
como a Mãe irá desempenhar o papel para que foi “contratada” revelado na nossa Lua.

Pela minha experiência ao longo dos anos, tanto a ler mapas como a fazer regressões, tenho observado a maioria ainda prisioneira das dores da infância, 
ainda a chorar a Mãe real por não ser a Mãe ideal, 
a prejudicarem-se energética, emocional e karmicamente por simples ignorância e falta de terapia.

Já sabemos então que, 
  • idealizar a Mãe causa sofrimento, 
  • perdoar a Mãe, aprisiona-nos no lugar da vítima, 
  • guardar rancor e ressentimento à Mãe, prejudica-nos emocional e energeticamente, 
  • julgar a Mãe, impede-nos de entender porque a escolhemos, 
  • apegarmo-nos à Mãe, mantém-nos no lugar da criança, 
  • chorar a Mãe que partiu ou é ausente, não nos deixa viver a nossa vida. 

Deixo então para meditarmos, algumas propostas:

1. Lembrar que a Mãe não é a Deusa do Amor Perfeito mas sim uma mulher, um ser humano, com as suas próprias dores, com a sua própria história, com os seus próprios sonhos, com os seus próprios limites.  

2. Agradecer o compromisso cumprido que teve para connosco de aceitar trazer-nos à Vida e de representar as energias inconscientes das nossas vidas passadas.

3. Reconhecer que mesmo sem amor próprio, a Mãe deu o que pode, fez o que conseguiu, foi até onde foi capaz. 

4. Se ainda acreditas que ela podia ter sido melhor, 
convido-te a aplicar essa exigência sobre  ti mesmo 
sobre os teus medos, inseguranças e libertação das tuas dores.

5. Compreender que a falta de amor que sentimos foi simples e apenas por falta de amor da Mãe por si mesma. 
Ninguém dá o que não tem certo?

6. Parar de idealizar a Mãe e perceber que ela não está lá para corresponder às nossas expectativas mas que também está numa viagem pessoal de evolução, cheia dos seus próprios desafios.

7. Lembrar que a Mãe também um dia foi criança e carrega em si as suas próprias frustrações da sua Mãe que agora também sabemos, não foi perfeita.

8. Reconhecer que a Mãe não nos deve nada pois deu-nos algo que jamais lhe poderemos devolver: a nossa Vida! 

A partir do nascimento, ela será a nossa Lua, e temos 12: 
ausente, agressiva, submissa, narcisista, materialista, sabichona, autoritária, fria, a vítima, imatura, controladora, manipuladora. 
Reconheces a tua?

9. Desenvolver compaixão e compreensão pela Mãe não só ajuda a desamarrar o laço Karmico como impede que o rancor e o ressentimento ocupem o coração.

10. Considerar que a Mãe representa uma velha vida passada nossa, é uma oportunidade de relembrarmos como um dia também já fomos, o estado emocional com que entrámos na vida presente e agradecer o salto de evolução que estamos a ter a oportunidade de fazer. Sem ela não compreenderíamos isto.

11.Pacificar a Mãe não implica encontro físico. 
Se a Mãe é desafiante, tóxica ou impossível de conviver, é bom que haja limites saudáveis. 
Mas não impede o trabalho interno de aceitação da Mãe, 
de transformarmos as emoções negativas em compaixão e tolerância,
de lhe erguemos um altar interno de gratidão por nos ter trazido à Vida. 
 
12. Gostemos ou não da Mãe, carregamos em nós a sua energia, e negar a Mãe é negarmo-nos a nós próprios, criando bloqueios a todos os níveis. 
13. Permite simplesmente que ela seja quem é, sem expectativas, sem exigências ou cobranças, considerando apenas que ela fez o melhor que pode com aquilo que tinha, condicionada por infinitas e invisíveis dinâmicas Karmicas.

14. Lembrar que a nossa felicidade, a cura das nossas feridas, o suporte emocional, e nosso amor próprio, cumprir a nossa vida é uma responsabilidade nossa. 

Culpar a Mãe é fugir à Vida. 

15.  Se já andas por volta dos 40, começa a reparar e vais perceber que tens mais da Mãe do que aquilo que gostarias de admitir!

16. Procura ver a Mulher e não apenas a Mãe. 
A Mulher, a esposa, a filha, a neta, a irmã, etc.




Nunca iremos ter ou ser a mãe perfeita. 
Mas felizmente, o instinto maternal e o poder do Amor, permitem que a maioria tenha uma mãe que irá, dentro das suas próprias limitações, fazer o melhor que pode e só isso já é de louvar.

Claro que haverá sempre histórias mais intensas, dinâmicas Karmicas mais fortes que se reflectem por exemplo na Mãe que morre no parto, na Mãe toxicodependente, na Mãe que abandona, na Mãe psicótica e outras Mães difíceis. 
Mas temos que lembrar que também elas são necessárias e  escolhidas a dedo para que esses mais exigentes projetos se cumpram. 
 
De acordo com Bert Hellinger, 
a Mãe representa a força, a coragem e o sucesso.
Por isso, rejeitar a Mãe é rejeitar essas qualidades em nós. 

Pelo contrário, pacificar a Mãe dentro de nós, aceitar ela como é, olhá-la pelo olho do adulto compassivo, é abrir as portas ao sucesso, é permitir que a energia do amor volte a fluir, é libertar as cordas Karmicas que nos prendiam a ela.

Não é raro precisarmos de crescer, de nos tornarmos também nós Mães … e Pais, de vermos os nossos filhos a repetir a mesma ilusão connosco, de esperarem a perfeição de nós, de não serem capazes de ver as nossas incapacidades e defeitos, para finalmente percebermos que não podemos continuar a esperar nada deles.

O cordão umbilical, a memória do paraíso uterino, os 9 meses de segurança e colo constantes, a sensação de proteção e amor permanentes, a ausência de dor, desconforto ou vazio, levou-nos a projetar na Mãe a expectativa irrealista e impossível de nos manter naquele estado idílico depois do nascimento e para muitos até ao longo da vida. É esta ilusão que depois gera a respectiva desilusão, sem neste caso, qualquer responsabilidade da Mãe.

A maturidade implica a libertação da Mãe, 
implica estarmos virados e ocupados com a nossa vida e deixarmos que a Mãe viva a dela, 
implica assumirmos a responsabilidade pelas nossas necessidades, alimento, segurança, amor próprio ou, caso contrário, não seremos adultos responsáveis.

“Mais ou menos perfeitas, doces ou terríveis, ausentes ou controladoras, dedicadas ou irresponsáveis, todas as Mães têm em comum algo de extraordinário; tiveram a coragem de aceitar o compromisso da gravidez e de nos apoiar durante 9 longos e exigentes meses e permitir que viéssemos à Vida. Só por isto, são todas maravilhosas e merecem a nossa Gratidão. O que veio depois da primeira inspiração, é já o nosso karma pessoal em movimento e a lenta viagem para a autonomia, para a independência e evolução pessoal.


Vera Luz




domingo, 27 de agosto de 2023

O anoitecer









“O anoitecer é por toda a parte um grande serviço” (Ferreira 
Gullar), torna-nos enfim distantes, a cada um sua época, sua 
forma de discrição, os seus actos isolados, as sombras que 
ganham vida de sóis ausentes, esse alimento a partir das 
reservas, a noite como projecção do desconhecido, um território 
que cresceu de tantas migalhas e conjecturas, com uma 
paciência infernal, primeiro receoso, depois admirado desses 
sentidos que se calibram nesta zona autónoma, suspensa, 
florescendo como a imagem sobre a água numa transformação 
que não se aquieta, aqui os juízos degeneram, os corredores 
aparecem desfeitos, um quarto não liga já com os outros nem 
com o resto da casa, ou até do mundo, em vez da pauta para soar 
em conjunto alto, há como uma trepidação debaixo das palavras, 
em vez de coordenadas fixas as raízes levantam-se rasgando os 
mapas, nos espelhos vês a terra revolvida e espalhada por ali 
a “tua grave ossada à beira de um mar sujo e ignorado”, por uns 
momentos as luzes ao longe lembram um trânsito de feras, certos 
textos indecifráveis abrem as suas flores e percebe-se a extensão 
dos campos de silêncio aceso, as palavras perdidas retomam o 
rumo, cada um é lembrado do ponto onde estava como se lhe 
fosse devolvido o corpo, esse “clarão soterrado”, a noite diz-nos 
onde estamos face a nós mesmos, não há atalhos e ninguém 
escapa do seu canto, o pó levanta-se das coisas, ergue-se numa 
precária constelação, se entrámos a medo, somos agora nativos 
desses impulsos que percorrem toda uma cena de caça, capazes 
de um desequilíbrio de forças a partir de elementos mínimos, 
pingar de manchas pulsantes um espaço perfumado de ervas, 
sentir o odor misturar-se entre a fome e a morte tão próximo da 
fonte, como quem devorasse o próprio estômago, ou a língua, 
mastigar-se aflito, radiante, nu e mortal.
 

Diogo Vaz Pinto



As 10 leis da abundância

 







As leis da abundância abrangem algumas das chamadas “leis do universo”, que compõem uma série de crenças relacionadas ao pensamento positivo. De acordo com as leis da abundância, é provável que tenhamos sucesso onde acreditamos que o teremos. Desta forma, a mentalidade da abundância é uma ajuda para alcançar aquilo que nos propomos.

Segundo Sergio Fernández, autor de Viver com Abundância, existem 10 leis da abundância, e elas estão presentes no universo ainda que não estejamos cientes disso.


O que queremos dizer com abundância?
O termo abundância se refere a uma grande quantidade, seja ela física ou conceitual. 
Em seu segundo significado, entretanto, está “prosperidade, riqueza ou bem-estar“; é este último que nos interessa.

A abundância se refere num dos seus significados, portanto, à prosperidade e ao bem-estar. 
Assim, esticando seu significado, falaríamos de um estado mental, emocional e físico que nos ajuda a cumprir os nossos objetivos.



As 10 leis da abundância
Segundo Sergio Fernández, estas são as dez leis da abundância que regem nosso universo:

1. Lei da criação

“Os pensamentos e as emoções 
criam a realidade que habitamos ou, 
o que é o mesmo, 
tudo que é tangível tem lugar no intangível”.


Desta forma, Fernández indica que nós somos capazes de criar aquilo que queremos ser, fazer ou ter se primeiro o sentirmos ou imaginarmos.


2. Lei da vibração

“Obtenho aquilo que eu mais penso, 
quer eu queira ou não”.

Relacionado ao anterior, quanto mais pensamos ou sentimos algo, mais provável é que acreditemos neste algo. Isso, como vemos no enunciado da lei, pode ter um efeito negativo se nossas emoções ou pensamentos não tiverem uma carga positiva.


3. Lei de causa e efeito

“Tudo que você experimenta na vida 
é um resultado”.

Nossas experiências estão conectadas por uma sucessão de causas e efeitos intrínsecos a elas. Portanto, nossas acções, pensamentos e emoções terão origem em nosso passado e irão afetar o nosso futuro. A consequência imediata desta ideia é que temos um poder infinito sobre o nosso presente para influenciar o que acontece connosco.


4. Lei do equilíbrio

“A abundância é dar com generosidade 
e ser excelente na hora de receber”.

De acordo com essa lei, o que somos capazes de contribuir para o mundo, de alguma forma, será devolvido para nós. Ou seja, se esperamos fortuna do mundo, o melhor que podemos fazer é contribuir para que este seja melhor.


5. Lei da ordem

“A ordem da vida é ser-fazer-ter”.

A ordem deve ser essa, e não outra. 
Primeiro você deve ser algo, para depois saber como fazer e, obter os resultados. 
Se quisermos ter um bolo bem-sucedido, por exemplo, primeiro precisamos ser especialistas na área, depois criar o produto. Finalmente, se seguirmos bem os passos, alcançaremos o objetivo.


6. Lei da ação

“Como eu faço uma coisa, eu faço tudo”.

Todos nós temos uma assinatura, um estilo. 
Esse modo de agir é o que nos define, o que nos torna previsíveis diante dos outros e acaba nos definindo. 

No final, esse estilo irá transformar-se numa inércia que nos convidará a agir de maneira coerente com o que já fizemos e como fizemos.


7. Lei do mínimo esforço

“Esforçar-se gera stress 
e consome sua energia, 
algo muito distante de viver com abundância”.

Não se trata de eliminar o esforço da nossa vida, ou de realizar as nossas atividades sem vontade, mas de encontrar a maneira mais simples e produtiva de alcançar o objetivo. 
Se existe um caminho mais simples com resultados idênticos, por que gastar nossas energias?


8. Lei dos meios e dos fins

“Somente sendo feliz hoje 
poderei alcançar a felicidade amanhã”.

Como foi visto na lei da ordem, você primeiro deve ser para poder ter. 
Se desejamos o fim, devemos encontrar o meio: neste caso, a felicidade de amanhã é condicionada pelo dia de hoje.


9. Lei da expressão dos dons

“Colocar seu dom ao serviço dos outros 
é uma causa de abundância”.

Como vimos na Lei 4, devemos ser generosos se quisermos que o mundo nos dê generosidade. Compartilhando o que fazemos bem, estaremos a contribuir para um bom funcionamento social.


10. Lei do desapego

“Vinculo-me à acção 
e desvinculo-me do resultado da ação”.

Ao contrário do que pode parecer neste decálogo, não devemos agir a pensar no resultado. 
É verdade que, se formos generosos, encontraremos generosidade nos que nos rodeiam, mas nossa atenção não deve estar em receber, e sim em dar.




A abundância é uma realidade que começa no seu interior

A abundância é, sobretudo, um estado interior. 
O mais sensato seria dizer que se trata de um sentimento constante de que você tem o que deseja. 
De que a sua perspectiva está voltada para o que você possui, e não para aquilo que lhe falta. 
Não tem a ver com uma gorda conta bancária ou uma vida de excessos.

Não é injustificada aquela ideia de que “Rico não é aquele que mais tem, e sim aquele que menos precisa”. É exatamente isso que é a abundância, um sentimento de plenitude que não depende do externo, mas que se estabelece no interior de si mesmo.

“A vida é apenas um espelho, 
e o que tu vês nele, 
tens que ver primeiro dentro de ti”.
Wally Amos


Tanto a abundância quanto a pobreza implicam um conjunto de emoções, pensamentos e crenças. 
É por isso que surge a contradição entre aqueles que têm muito e, no entanto, se sentem miseráveis. 
Ao passo que outros têm pouco e vivem gratos e felizes.


O sentimento de carência

Se existe algo comum a todos os seres humanos é a carência. 
Nascemos com faltas e muitas delas nos acompanham até a morte. 
Viemos determinados por um património genético, uma etnia e muitas outras características. 
Cada uma delas implica uma renúncia a todas as outras alternativas.

Nós crescemos e vivemos também com a carência como horizonte. 
Independentemente das circunstâncias, sempre vamos nos ver submetidos à renúncia. 
O tempo todo deixamos para trás coisas, pessoas, situações e vínculos que não podemos eternizar.

Embora no fundo todos saibamos disso, algumas pessoas não se conformam que a vida seja assim. Elas querem eliminar da vida essa parte que envolve renúncias, perdas e vazios. Ao fazer isso, o que conseguem, sem intenção, é tornar mais profundo e intenso esse sentimento de vazio que, em maior ou menor medida, habita em todos nós.

Quando o sentimento de carência predomina, passamos pela vida a sentir que ela nos deve algo. 
Além disso, pensamos que em alguma parte existe essa totalidade, algo que erradique para sempre a sensação de vazio. Às vezes chegamos a deixar de lado as potências criativas para nos transformarmos em eternos receptores insatisfeitos.

A carência é, na verdade, uma condição que cumpre o papel de modelar as nossas emoções. 
Quem vive a rejeitar a carência geralmente fica preso nela. 
Assim como sem a noite não poderíamos valorizar o dia, sem carências não poderíamos construir o sentimento de abundância.

Na verdade, as pessoas que passaram por grandes carências e conseguiram superá-las em suas mentes, principalmente, são as pessoas que estão mais preparadas para receber em suas vidas o sentimento de abundância. Ao ter consciência de um vazio, uma necessidade ou um desejo não realizado, outorga-se grande valor a aquilo que “preenche”, mesmo que seja parcialmente.

Boa parte do segredo de viver reside em aprender a ser humilde. 
Isso não significa ser conformista, nem submisso. 
Significa, na verdade, entender que chegamos ao mundo sozinhos, nus e indefesos. Tudo que conseguimos a partir de então foi lucro.



Conectar-se com a abundância

Num mundo e numa época consumista como a que vivemos, tendemos a pensar que a abundância é excesso, e que o excesso é uma fonte de satisfação. Por isso, em muitas pessoas cresce uma voracidade inexplicável que nunca encontra alívio. Sempre querem mais e nada é suficiente.

Essa é uma condição na qual não existe extrema abundância, mas extrema carência. 
Na verdade, não tem nada a ver com o que se consegue na vida, mas com o apetite insaciável que acompanha esse processo. Isso se transforma num sentimento que não encontra alívio. O desejo de satisfação que não é encontrado no interior de si mesmo é transportado para o exterior.

Por isso, conectar-se com a abundância é, acima de tudo, ser capaz de duas coisas: 
valorizar e agradecer. 
Valorizar quer dizer dar significado ao que se tem, ao que se conquista, por menor que possa ser. Agradecer é permitir-se sentir felicidade por tudo o que existe na sua vida e que, perfeitamente, poderia ou não estar ali. Colocar-se numa posição de humildade frente ao universo e dar um significado para tudo ao seu redor. 
Assim se conquista a abundância.



Acorde a abundância que existe no seu interior

Muitos de nós mantemos um tipo de mentalidade focada para a carência: ficamos obcecados com tudo que falta em vez de criar consciência do que já temos. 
Agradecer, apreciar o que somos e o que nos rodeia é, sem dúvida, a melhor forma de se aproximar da verdadeira abundância.

Não é um mal moderno. 
Essa sensação indescritível de que falta alguma coisa e de que andamos à beira de um abismo onde sempre se abre algum tipo de deficiência é a eterna crise existencial do ser humano. 
No entanto, é imprescindível controlar e racionalizar este tipo de pensamento. Do contrário, essa carência crescerá como a erva daninha, como a hera que termina cobrindo as janelas de uma casa.

“A abundância é o meu estado natural, 
e eu o aceito.”

Também sabemos que não é precisamente fácil administrar esta sensação. 
E não é porque a atual e notória desigualdade social torna mais palpável do que nunca a palavra “carência”. A falta de um trabalho, de certos ganhos ou a perspectiva de um futuro incerto fazem com que o conceito de abundância nos soe irónico. 
Contudo, entender este termo e aplicá-lo à nossa realidade do ponto de vista motivacional pode nos ajudar a encarar o nosso dia a dia de uma forma mais sábia.



A abundância natural e a abundância artificial

Existe um livro muito interessante chamado “Sapiens, uma breve história da humanidade“, do historiador Yuval Harari. O livro faz uma análise um pouco provocante sobre a história da evolução e do sucesso do homo sapiens, onde, de alguma forma, o leitor acaba intuindo que a crueldade da nossa própria espécie parece ter se imposto sobre a ética em muitos casos.

Um dos aspectos que aponta o doutor Harari é que nos acostumamos a viver num estado que poderíamos definir como “abundância artificial”. A título de exemplo, já exploramos o mundo natural a ponto de obrigá-lo a nos oferecer muito além do que o equilíbrio da Terra e dos ecossistemas pode nos permitir. Mesmo assim, a nossa modernidade está orientada para esse materialismo onde “a acumulação” ou a obtenção de “coisas” define o status da pessoa. A carência delas, contudo, gera mal-estar e infelicidade.

Distorcemos o conceito verdadeiro e original do termo abundância. 
No meio natural abundância é, acima de tudo, equilíbrio e respeito. 
É apreciar o que já está presente, o que nos rodeia, sem necessidade de quebrar essa harmonia para que nos ofereça mais do que está dentro de suas próprias possibilidades.

Uma coisa que sem dúvida o homo sapiens moderno não pode entender, porque assim como disse Benjamin Franklin certa vez, chegamos a um ponto onde pensamos que o tempo é dinheiro; quando na verdade, o tempo nada mais é do que um presente que esquecemos de aproveitar como se deve.



Como viver em abundância

Chegados a este ponto é evidente que abundância não é sinónimo de dinheiro, de acumulação de bens ou mesmo de poder. 

Abundância é viver em plenitude de forma inteira, sem faltas, sem vazios ou com um coração desgastado pelo vento, dando a eterna sensação de estarmos ocos por dentro.

“A primeira semente para a abundância é o agradecimento.”

Por mais irónico que pareça, em tempos de dificuldades e de carências é mais necessário do que nunca sentir esta abundância interior. Somente assim disporemos de uma verdadeira fortaleza psicológica para enfrentar a adversidade, para intuir oportunidades e sermos assim mais receptivos para com tudo que nos rodeia.




Dicas para construir uma verdadeira abundância interior

Muitos de nós estamos muito acostumados ao que se conhece como “motivação por deficiência”: o meu telefone ainda está em bom estado, mas agora lançaram outro de última geração desta marca que todos têm, e é claro que não posso ficar sem um.

Nos faltam muitas coisas. Talvez você não tenha uma casa com muito conforto. É possível que o seu corpo não seja o ideal e que seu parceiro tenha os seus defeitos. Cabe até a possibilidade de que você ainda não tenha conseguido sair de férias naquele destino paradisíaco, enquanto os seus amigos já foram no verão passado. 

Viver na economia da carência é como um vírus, como uma doença contínua que pouco a pouco se espalha como a mancha de humidade numa parede. Está sempre aí, com a sua aparência desagradável.

  1. Precisamos nos afastar do lugar que nos dá esta abordagem mental. Focar a nossa própria existência exclusivamente na esfera material é uma fonte inesgotável de mal-estar. Nunca estaremos satisfeitos.
  2. Mude o enfoque da sua perspectiva mental. Direcione-a para o que você já tem para perceber onde se concentram as suas fortalezas reais, suas verdadeiras belezas e a sua abundância.
  3. Precisamos desenvolver um estado de consciência capaz de abraçar as coisas positivas, o presente e o concreto. Não o que não está, o que não existe ou o que falta. Somente quando formos capazes de agradecer pelo que somos, o que nos define e o que nos rodeia em plena confiança, poderemos abrir as portas da prosperidade.









Viver





Viver uma verdadeira experiência amorosa é um dos maiores prazeres da vida.
Gostar é sentir com a alma, mas expressar os sentimentos depende das ideias de cada um. Condicionamos o amor às nossas necessidades neuróticas e acabamos com ele.
Vivemos uma vida tentando fazer com que os outros se responsabilizem pelas nossas necessidades enquanto nós nos abandonamos irresponsavelmente. 

Queremos ser amados e não nos amamos, queremos ser compreendidos e não nos compreendemos, queremos o apoio dos outros e damos o nosso a eles. Quando nos abandonamos, queremos achar alguém que venha a preencher o buraco que nós cavamos. A insatisfação, o vazio interior se transformam na busca contínua de novos relacionamentos, cujos resultados frustrantes se repetirão. 

Cada um é o único responsável pelas suas próprias necessidades.
Só quem se ama pode encontrar em sua vida Um Amor de Verdade.


Zíbia Gasparetto




terça-feira, 15 de agosto de 2023

A uns passos do canto







Eu não tenho culpa se tens frio, querido
Não esperava a tua morte

Joyce Mansour

 
A uns passos do canto onde a cama
se afoga lentamente,
reuni o que restava da minha fé perdida
sobre espaços silenciosos, como se quisesse
medir a duração de Deus contra a sombra da tua retirada.
Tudo só ditava já um soluço
e eu fiz-te um gesto usando a imaginação
da morte, chamava
para servir-te chá num parêntesis,
afastando com a mão essa nuvem
de um olor que te prendeu uma flor no cabelo.

As chávenas arrefeciam e na porcelana
vimos os pássaros azuis apagar-se.
Pedi que o calor perdurasse,
e olhava em redor, vendo tudo cobrir-se
de ervas altas. Sobre a minha boca enterrada
senti passar a primavera, e algures
nós dois ainda soprando
sorrindo aguardando esse travo forte
tão doce uns séculos mais tarde.

 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



Primeiro vestígio de civilização humana

 






Um dia, há muitos anos, um aluno perguntou à antropóloga Margaret Mead qual era, para ela, o primeiro vestígio de civilização humana. 

A antropóloga americana, autora de “Adolescência, sexo e cultura em Samoa”, respondeu: 

“Um fémur com 15 mil anos encontrado numa escavação arqueológica.” 

O aluno esperava que a professora falasse de anzóis, ferramentas ou barro cozido, mas Mead continuou: 

“O fémur estava partido, mas tinha cicatrizado. É um dos maiores ossos do corpo humano (liga a anca ao joelho) e demora seis semanas a curar. Alguém tinha cuidado daquela pessoa. Abrigou-a e alimentou-a. Protegeu-a, ao invés de a abandonar à sua sorte”. Na natureza, qualquer animal que parta uma perna está condenado. Se for um predador, não consegue caçar; se for uma presa, não consegue fugir. Está morto. 

Então, concluía Mead, que lutou pelos direitos das mulheres nos anos 50 e 60 e foi galardoada com a medalha da liberdade, o que nos distingue enquanto civilização é a empatia, a capacidade de nos preocuparmos com os outros. 

"Ajudar alguém a ultrapassar dificuldades é o ponto de partida da civilização, a civilização é uma ajuda comunitária. " 



António Lopes





domingo, 13 de agosto de 2023

UM CONCEITO INEXPRIMÍVEL

 







A imaginação que, segundo os estóicos,
se reduz a uma impressão divina, põe um problema
concreto a quem não acredita na alma. De facto,
se é só o corpo que existe, e não encontramos
nada de imaterial para além dele, a imaginação
deve ser posta de lado, tal como a alma de
que faz parte. Os estóicos, para quem ela
deixava no espírito a sua marca, procuravam
com o seu sacrifício aceder a esse mundo
metafísico onde a sensação não tinha outra
utilidade para além do pensamento que produzia,
e depois dele a imagem e o conceito expresso
a partir dela. E queriam morrer para atingir
mais depressa a esfera do divino. Porém,
os epicuristas riam-se deles e diziam que tudo
o que diziam não passava de palavras. E eles
ficavam a pensar: se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio? E
alguém disse, ao vê-los de boca fechada,
que queriam prender a imaginação no interior
do seu corpo, onde se encontrava a alma; mas
quando a abriam para comer, concluiu o crítico,
mastigavam as palavras com a comida, e tudo
se juntava nesse corpo que, para eles, não
existia, para terminar no estrume
que devolviam à terra, como se a imaginação
não servisse para mais nada além
de adubo da primavera


Nuno Júdice
in, Fórmulas de uma Luz Inexplicável





A des-ilusão de tudo o que é material, superficial, físico





Quem somos nós, 
o que estamos cá a fazer, 
qual o propósito da vida, 
o que está para além da morte



Desde o principio dos tempos que sábios e místicos procuram entender as eternas questões sobre a vida e a morte.

Quem somos nós, o que estamos cá a fazer, qual o propósito da vida, o que está para além da morte, são perguntas que desde sempre nos fascinaram e que mais cedo ou mais tarde nas nossas vidas, despertam-nos da hipnótica rotina, levantando questões que nem sempre têm resposta fácil.

No entanto, se levadas a sério, são questões que têm o poder de nos fazer questionar o nosso caminho e, se for caso disso, empurrar-nos para novas escolhas, de maneira a realinhar-nos com a Fonte da abundância.

Até que se dê este acordar, até que estas questões cheguem a nós e as levemos a sério, vivemos em estado de ilusão.


E que estado de ilusão é este, perguntas tu?


  • É todo o estado totalmente identificado com a nossa identidade terrena.
  • É a incapacidade de percebermos a nossa identidade espiritual.
  • É a recusa em aceitar uma Ordem Maior e Inteligente.
  • É a vivência nua e crua das emoções diárias sem entendimento do seu propósito transformador.
  • É a falsa noção de separatividade.
  • É a ignorância sobre as leis cósmicas na descodificação dos acontecimentos diários.
  • É a cegueira para a magia que nos rodeia, que a todos nos liga que tudo sustém numa energia amorosa e inteligente.
  • É o desligamento da nossa capacidade de descodificar sinais, pistas, mensagens, metáforas e sincronias atraídos por nós.
  • É a identificação com tudo o que separa o ser humano.
  • É a sensação de inferioridade ou de superioridade que temos perante o outro.
  • É a incapacidade de ver o amor incondicional à nossa volta.



O Ocidente está ainda a repetir o que lhe foi ensinado a acreditar há cerca de 2000 anos atrás;

Deus está em cima, o homem está em baixo, e assim olhamos os outros. Somos pecadores sem direito a amor próprio, e assim tratamos os outros.

Somos julgados por um Deus punidor, e assim punimos e julgamos os outros.

É-nos exigido um grau obsoleto de perfeição, e assim exigimos dos outros.

Escolhemos a dor, a punição e o sacrifício como purificação, e assim o fazemos com os outros.

Foi-nos incutida a culpa e o medo, e o mesmo fazemos aos outros. Acreditamos que Deus nos castiga, e assim também, castigamos os outros.

Mas enquanto que o Ocidente, principalmente nestes últimos 2000 anos, arranjava maneiras de sobreviver a tão distorcidas e doentias crenças, que tanto nos afastaram do caminho do amor, o Oriente mantinha-se perto da Verdade Maior, estudando, pregando e vivendo sob as mais belas e antigas leis universais.


Se no Ocidente o mundo era sagrado 
e criado por Deus em 7 dias, 
no Oriente ele era apenas 
uma ilusão e um meio para atingir o fim 
da nossa transcendência, 
purificação e evolução espiritual.


O termo indiano Maya está relacionado com aquilo que “não é”, com a ideia de que o que o mundo material que os nossos olhos físicos vêm, é uma ‘ilusão’, designação mais aproximada para o significado oriental de Maya.

Os conceitos relativos de tempo e de espaço, o facto de que não somos corpos físicos, mas sim compostos energéticos, realidade hoje já comprovada cientificamente, as leis universais como a lei da atracção, a lei da correspondência, a lei da vibração, a lei do equilíbrio, a lei das polaridades, a lei da causa e efeito e outras, mostram que aquilo que vemos ou percebemos, está longe de ser aquilo que é. Tal como os nossos olhos são incapazes de ver os raios ultravioletas, os nossos ouvidos não ouvem certas frequências agudas ou as nossas emoções não vibram ainda nas altas vibrações do amor incondicional. William Shakespeare já no seu tempo percebia isso:


“Há mais mistérios entre o Céu e a Terra, 
do que o homem possa pensar.”


Ao longo da história, paralelamente às exigentes regras e propostas de conduta social e religiosa, sempre existiram sociedades secretas que se mantiveram fieis ao propósito espiritual e à proposta de evolução da alma. Gnósticos, Sufis, Essénios, Alquimistas e muitos outros movimentos esotéricos e iniciáticos, tentavam entender o significado mais profundo da vida fugindo dos rituais religiosos externos para se entregarem ao verdadeiro trabalho interno de purificação da alma.

Esta visão esotérica percebia bem a questão da ilusão e via a realidade como um palco onde o espírito, ou a nossa consciência, iria fazer as suas experiências alquímicas de transmutação e não como um fim em si.

Ou seja, podemos então escolher em ver o mundo físico, como uma co-criação inconsciente de cada um de nós, onde as diferentes condições que nos rodeiam se compõem inteligentemente para que o nosso espirito se possa experimentar e equilibrar a sua dualidade.

Desse ponto de vista, cada encontro social, seja ele romântico, profissional, casual ou familiar, seja ele de amor ou de guerra, esconde então uma qualquer aprendizagem espiritual. Há um recado cósmico que cada espírito precisa de entregar ao outro, e que na maior parte das vezes incompreensível ao nosso ego. No nível quântico, ambos se atraíram para que se dêem as respectivas trocas energéticas e enquanto os recados e aprendizagens não forem aceites, ficaremos presos naquelas frequências.


As filosofias do Ocidente levaram-nos à separatividade, incentivando a ilusão que somos seres separados uns dos outros, inclusive de Deus. Pelo contrário, as filosofias do Oriente sempre nos empurraram para a realidade energética de que todos somos chispas divinas interligados energéticamente. E é precisamente a partir dessa rede invisível que todos somos, embora a um nível inconsciente, agentes da transformação uns dos outros.



Vivemos até há bem pouco tempo na ignorância espiritual, sem qualquer entendimento minimamente coerente do porquê dos acontecimentos na nossa vida, chegando mesmo ao ponto de fazermos da “sorte e do azar” uma filosofia de vida. E é precisamente dessa falta de entendimento e sabedoria, dessa profunda ignorância que disparam as nossas respostas mais descompensadas e violentas...


Como nos iremos sentir quando um dia, com os olhos do amor, conseguirmos finalmente entender: 

  • Que o nosso pior carrasco, era um agente disfarçado do nosso próprio equilíbrio? 
  • Que afinal todos somos anjos e mestres na vida uns dos outros? 
  • Que o que de bom chega até nós, não são golpes de sorte ou azar, mas apenas colheitas de plantios passados?  
  • Que não precisamos viver com medo, pois o que chega a nós é nosso e foi preparado por nós para que o superássemos? 
  • Que não precisamos fazer justiça com as próprias mãos pois a lei do karma trará a cada um os frutos dos seus plantios? 
  • Como nos iremos sentir quando percebermos que não era o mundo que estava mal ou era caótico, era a nossa própria ilusão e incapacidade de ver a Ordem Maior? 
  • Que foi a nossa própria resistência que nos manteve em situações de dor e que nos impediu de aceder à abundância?


Para acedermos e nos rendermos a esta visão mágica e inteligente da vida, temos então que passar por um difícil processo de desilusão. Mais do que de desilusão eu diria mesmo que é um processo de morte para uma velha, materialista e seca visão da vida, para uma visão nova, cheia de magia, amor e inteligente sabedoria.

Preparemo-nos então para uma enorme desilusão tanto na nossa visão do mundo como na interação com o outro. Esse é, paradoxalmente, o caminho mais curto para chegarmos à real visão do mundo.


Todos estamos iludidos quando:

  1. Achámos que o mundo é um espaço caótico e sem regras.
  2. Vemos os outros e as situações como “bons ou maus”.
  3. Sentimos medo seja do que for.
  4. Queremos controlar as situações.
  5. Achamos que controlamos seja o que for.
  6. Buscamos fora o que nos falta dentro.
  7. Julgamos o comportamento dos outros sem levar em conta o espelho que eles são.
  8. Nos identificamos com cargos, títulos, cursos, nomes, etc.
  9. Achamos que somos melhores que alguém.
  10. Não vemos a lição que o outro tem para nós.
  11. Ainda achamos que ser boa pessoa, ganhar dinheiro, procurar a felicidade é o grande e único propósito da vida.
  12. Desconsideramos a lei do karma.


O mundo material, Maya, é então a grande ilusão a superar.

É para além do visível que se escondem os laços Karmicos e a verdadeira magia da nossa história.

A des-ilusão de tudo o que é material, superficial, físico, é, portanto, o grande portal por onde acedemos ao mundo quântico e à realidade de quem somos. 
Só deste ponto de vista, a ilusão se torna sagrada e essencial na viagem para o amor.



Vera Luz


segunda-feira, 31 de julho de 2023

............what is without name and form


by, Nisargadatta Maharaj


The comment, "Bullshit", inspired a little commentary...
"I Am" is perhaps the closest we can get with words to expressing our true nature.
The simple phrase "I Am" brings to attention the non-differentiated, unconditional, 'Beingness'...
... calling the mind - the attention - back from "I am this", or "I am that", returning to awareness, to what is without name and form, without becoming and without passing.
'Remembering', 'meditating', practising this awareness, the mind dissolves, revealing the wordless "I Am" - the underlying, continuous, spontaneous experience, prior to identification.
This "I Am"ness - does not become 'certainty' or 'knowledge' in the usual sense.
It can never be 'information, belonging to someone'.
This 'suchness' (called 'Tathata' by the Buddhists) simply becomes revealed as the flavour of Life. ... Not 'an' experience, but the living field of Experience, inexplicably cradled in the eternal womb of Silence.

Peter Littlejohn Cook








Amor Epidérmico





Seus pais foram jantar fora e deixaram o apartamento só para você, seu namorado e a tv a cabo. Que inconsequentes! Em menos de um minuto vocês deixam a televisão falando sozinha e vão ensaiar umas cenas de amor no quartinho dos fundos. De repente, escutam o barulho da fechadura. Seu pai esqueceu o talão de cheques. Passos no corredor. Antes que você localize sua camiseta, sua mãe se materializa na porta. Parece que ela está brincando de estátua, mas não resta dúvida que entrou em estado de choque. Você diz o quê? Mãe, a carne é fraca.

A desculpa é esfarrapada mas é legítima. Nada é mais vulnerável que nosso desejo. Na luta entre o cérebro e a pele, nunca dá empate. A pele sempre ganha de W.O.

Você planeja terminar um relacionamento. Chegou à conclusão que não quer mais ter a seu lado uma pessoa distante, que não leva nada à sério, que vive contando piadinhas preconceituosas e que não parece estar muito apaixonado. Por que levar a história adiante? Melhor terminar tudo hoje mesmo. Marca um encontro. Ele chega no horário, você também. Começam a conversar. Você engata o assunto. Para sua surpresa, ele ficou triste. Não quer se separar de você. E para provar, segura seu rosto com as duas mãos e tasca-lhe um beijo. Danou-se.

Onde foram parar as teorias, os diálogos que você planejou, a decisão que parecia irrevogável? Tomaram Doril. Você agora está sob os efeitos do cheiro dele, está rendida ao gosto dele, está ligada a ele pela derme e epiderme. A gravação do seu celular informa: seus neurônios estão fora da área de cobertura ou desligados.

Isso nunca aconteceu com você? Reluto entre dar-lhe os parabéns ou os pêsames. Por um lado, é ótimo ter controle absoluto de todas as suas ações e reações, ter força suficiente para resistir ao próprio desejo. Por outro lado, como é bom dar folga ao nosso raciocínio e deixar-se seduzir, sem ficar calculando perdas e danos, apenas dando-se ao luxo de viver o seu dia de Pigmaleão.

A carne é fraca, mas você tem que ser forte, é o que recomendam todos. Tente, ao menos de vez em quando, ser sexualmente vegetariano e não ceder às tentações. Se conseguir, bravo: terá as rédeas de seu destino na mão. Mas se não der certo, console-se. Criaturas que derretem-se, entregam-se, consomem-se e não sabem negar-se costumam trazer um sorriso enigmático nos lábios. Alguma recompensa há de ter.


Martha Medeiros





sexta-feira, 28 de julho de 2023

A cada um as suas armas









A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, e a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável.

Falar com a minha voz depois de tantas outras,
dos condenados a quem roubaste as cartas,
copiando aquele ritmo que se aferrava à carne
e dizias que os viste cair
depois de os teres seguido para a guerra, mas agora
que já ninguém faz luto pelos rouxinóis
e toda a gente escreve poemas,
não te podes valer de mentiras
nem de verdades,
já nem sequer do antepassado
enterrado num canto do pátio
— homem que teve os seus méritos.

Se a folha ainda me arranca um traço,
pisando-me os ossos da mão,
a distância é o meu único assunto.
De olhos fechados, entretenho-me
com a sensação de entrar em comboios remotos,
a tresandar a esquecimento para ser embalado
pela trepidação desse traço contínuo.

Terra e água num copo, a raiz amarga
que lá tenho escuta atentamente,
moendo tudo para épocas futuras.
Lá fora, o mar como um pássaro só
descansa, revê todos os finais,
mil capitães adormecidos enquanto os navios
se entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra.
Atraídos, os cometas caem longe
para que os sinta.
Os jardins escutam as flores,
a morte diz o nosso nome
e vimos esperá-la formando filas.


 
Diogo Vaz Pinto
in, De Aurora para os Cegos da Noite



"Se os conselhos fossem bons, não se davam, vendiam-se."

 





Todos temos conselhos para os outros sempre prontos na ponta de língua, certo?

A intenção é boa, a vontade de ajudar também na maioria dos casos, mas  
Como podemos dar soluções a algo que provavelmente nunca vivemos, não conhecemos, não sentimos da mesma maneira ou simplesmente não faz sentido à nossa história pessoal?

Por exemplo, 
perante uma relação tóxica e cheia de problemas, 
para uma pessoa a sua proposta implica ouvir e fazer-se ouvir, ganhar segurança, coragem e autoridade perante o outro, conquistar o respeito de ser fiel a si mesmo, aprender a harmonizar e a encontrar equilíbrio a dois. 

Mas para a outra, 
a sua proposta pessoal implica libertar o apego, transformar o medo de agir em coragem e conquistar a sua independência e autonomia. E de acordo com a proposta de cada uma, ambas estão certas. O problema é quando não sabemos a nossa proposta e corremos o risco de seguirmos o conselho errado para nós.

Lembremos então que cada um está no seu processo pessoal.

- O outro tem uma história diferente da minha
- O outro tem um mapa astrológico diferente do meu
- A proposta de evolução do outro nada tem a ver com a minha
- O estágio de aprendizagem do outro é diferente do meu
- Os processos Karmicos do outro são-me desconhecidos
- O outro não tem o meu passado e por isso não vê, não sente o que eu vejo e sinto.
- O outro pode contar o que ele fez em situações idênticas mas com a consciência de que nunca foram iguais.
- O conselho do outro pode sem querer, ser contrário à nossa proposta e estar a prender-nos ao passado.
- Assim como o conselho pode ser já uma mão amiga que nos vem ajudar a entrar numa nova energia.
- Só nós podemos distinguir umas das outras!

Para haver integridade, humildade pessoal e respeito pelo outro, é importante 
passarmos apenas a nossa experiência pessoal com a consciência de que a verdade não é absoluta e que o que nos serve a nós pode não servir o outro, ou caímos no papel do moralista que dita conselhos e verdades que não pratica.

Quando estamos no lugar de quem ouve o conselho é essencial 
ouvir e filtrar, usar a experiência do outro para abrir espaço a possibilidades dentro de nós mas, colocar na fórmula algo que o outro não tem: 
a nossa intuição, o nosso sentir, o nosso coração.


E como os conselhos são de borla, deixo aqui dois:

  1. Quando fores aconselhar alguém, pergunta-te se praticas o que pregas. 
  2. Quando alguém te aconselhar, olha para a vida e energia dessa pessoa e vê se confere com o conselho que te deu.


Vera Luz