A paisagem move-se no poder
da observação. As coisas
parecem recusar os seus nomes,
não estão contentes.
Então é necessário recomeçar o mundo.
Mordo o pão gelado pela estação
e penso na minha condição imóvel.
O sol atinge-me como uma pedra
que subitamente viesse
esmagar o coração.
A dor é uma poderosa matéria alquímica.
A paisagem abre-se mais e mais
no meu sangue. Por vezes
paro diante da enorme cascata.
Haverá um qualquer lugar
por trás dessas águas pesadas.
Uma região intocada.
Estudo a forma como uma palavra germina.
De novo as coisas na paisagem
lançam-se a protestar. As palavras
são como pregos. É preciso arrancá-las
quando a ferrugem ameaça.
É preciso espreitar consecutivamente
o mundo.
Não há ponte entre duas margens,
só quem habita a corrente
pode aspirar a todas as moradas.
Vasco Gato
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