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sábado, 21 de março de 2026

matéria alquímica


 




A paisagem move-se no poder 
da observação. As coisas 
parecem recusar os seus nomes, 
não estão contentes. 
Então é necessário recomeçar o mundo. 

Mordo o pão gelado pela estação 
e penso na minha condição imóvel. 
O sol atinge-me como uma pedra 
que subitamente viesse 
esmagar o coração. 

A dor é uma poderosa matéria alquímica. 

A paisagem abre-se mais e mais 
no meu sangue. Por vezes 
paro diante da enorme cascata. 
Haverá um qualquer lugar 
por trás dessas águas pesadas. 
Uma região intocada. 

Estudo a forma como uma palavra germina. 

De novo as coisas na paisagem 
lançam-se a protestar. As palavras 
são como pregos. É preciso arrancá-las 
quando a ferrugem ameaça. 
É preciso espreitar consecutivamente 
o mundo.

Não há ponte entre duas margens,
só quem habita a corrente
pode aspirar a todas as moradas.


Vasco Gato





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