terça-feira, 5 de dezembro de 2017

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO





Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência 
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então 
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá 
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho. 



Rui Pires Cabral 
in, Morada




O FENÓMENO DOS ESPELHOS






O fenómeno dos espelhos vai aos poucos sendo entendido, embora claro está, ainda faz muita confusão principalmente a quem ainda não o entende correctamente.
Se por exemplo eu sou uma pessoa pacífica e insegura que nunca levantou a voz ou a mão para ninguém, é de facto desafiante entender porque tive uns pais que foram autoritários, agressivos, ditadores que me criaram um ambiente instável e de violência logo desde a infância.

O fenómeno dos espelhos revela-se na materialização da nossa energia no mundo e nas pessoas à nossa volta. A lei da atração diz que somos magnéticos e logo responsáveis pelo que atraímos. A lei da ressonância diz que vibrações idênticas se atraem.
E a lei do karma diz que nos serão devolvidas as consequências das ações passadas.
A lei do equilíbrio diz que iremos atrair não o que queremos mas o que precisamos para o nosso equilíbrio.

Estas e outras leis universais, regem a nossa encarnação e toda a viagem espiritual, quer estejam conscientes delas ou não. Não conhecê-las faz-nos acreditar que vivemos num mundo aparentemente caótico, cheio de injustiças onde vivemos à mercê da sorte e do azar. No entanto, conhecer as leis universais, permite-nos observar que a realidade material é muito mais inteligente e ordenada do que possamos imaginar.

Mas para sermos capazes de ver essa magia, teremos que tirar os velhos óculos da vítima impotente perante as “injustiças” do mundo e trocar pelas lentes da sabedoria capazes de ver em todos os movimentos lá fora, as leis universais em pleno funcionamento.

O fenómeno dos espelhos, quando compreendido, tem o poder de nos mostrar mensagens sagradas, memórias do passado, visões do futuro, consciência de quem somos, pistas essenciais para que possamos cumprir o nosso caminho pessoal.

Sabendo que a nossa existência não começou na vida presente e que já nascemos com uma bagagem, o fenómeno dos espelhos ajuda-nos a perceber o nosso passado e o nosso futuro, ou seja, torna mais nítida a rota pessoal e única, escolhida pelo nosso espírito. Por estar exageradamente focado na realidade presente, sem sabedoria própria e habituado a lidar com o imediato, o olho do ego ilude-se facilmente e é por isso incapaz de observar esses movimentos espirituais, inteligentes e evolutivos da vida. Independentemente se conseguimos perceber o fenómeno ou não, ele irá acontecer na mesma, ou seja, iremos sempre materializar e fazer atrair as energias que carregamos em nós.

Só dando início ao processo de desenvolvimento pessoal e espiritual é que começamos a perceber o quanto somos e sempre fomos regidos pelas leis universais. O quanto já tivemos infinitas experiências tanto positivas como negativas, conscientes ou inconscientes que geraram as suas respectivas consequências. O quanto somos responsáveis por tudo o que atraímos para a nossa realidade. O quanto a nossa história não começou na vida presente e já trazemos connosco energias do passado e são precisamente essas que irão alimentar o fenómeno dos espelhos.

Somos seres duais a fazer a experiência dos opostos. Procurar o equilíbrio dessas duas energias em nós é uma das grandes propostas da viagem terrena e o que irá um dia permitir que possamos materializar esse mesmo equilíbrio lá fora no mundo, num mundo mais equilibrado do que o que temos no momento. 

As várias vidas irão permitir então que experienciemos esses opostos pois só dessa maneira poderemos ansiar e encontrar o equilíbrio. É muito natural então que oscilemos entre vidas de abusos e faltas. De excessos e carências. De exageros e ausências. De apegos e solidão. De imaturidade e maturidade. De fragilidade e violência. De medo e coragem, e muitos mais outros opostos que poderia assinalar. Se fores dentro de ti com consciência, estão lá todos. Com os olhos certos poderemos vê-los em manifestação o tempo todo lá fora no mundo, nas notícias diárias, na nossa realidade pessoal.

O mundo material é um palco de experiências para o espírito. É um imenso laboratório onde viemos experimentar a nossa dualidade, ou seja, TUDO, luz e sombra. Para isso a vida deu-nos a mais bela e poderosa das ofertas; o nosso Livre Arbítrio. Para que o livre arbítrio não gere caos, as leis universais trazem ordem às experiências pessoais de cada um e acompanham a viagem do espírito ao longo das suas várias vidas de maneira a que as aprendizagens sejam feitas.

Deste ponto de vista, o exemplo acima da pessoa pacífica e insegura que nunca levantou a voz ou a mão para ninguém, irá um dia perceber que o desempoderamento que sente no presente se deve a um abuso de poder no passado. A agressividade atraída é a lei do karma a devolver as consequências das acções passadas. A lei da atração fê-la atrair quem melhor a podia ajudar no seu processo de consciência. A lei do equilíbrio veio pedir-lhe que harmonizasse o excesso de poder do passado com a falta de poder do presente. Que mesmo nascendo na vida presente com uma proposta nova, a energia de poder do passado ainda lá está, projetada e espelhada na vida presente pelos pais.

O desafio é então percebermos o fenómeno dos espelhos:

  • Tornarmo-nos responsáveis por criá-lo. 
  • Aprender a reconhecê-lo na nossa vida. 
  • Usá-lo com as pessoas à nossa volta. 
  • Pô-lo em prática com quem nos rodeia. 
  • Distinguir o espelho positivo do negativo e descobrir o papel de cada um em cada qual. 


Este é um dos caminhos para a consciência de quem és e para a responsabilidade pessoal, caso estejas de facto comprometido com a tua evolução espiritual.
Caso contrário, é muito mais simples vitimizarmo-nos constantemente e projetarmos a “culpa” nos outros..

Embora o fenómeno dos espelhos seja desafiante de aceitar por si só, a Astrologia Karmica e a Numerologia ajudam na confirmação das informações dos espelhos, mostrando por exemplo no mapa da pessoa acima referida, uma vida passada de abuso de autoridade.
A proposta é então mantermos uma mente aberta.
Considerarmos novas visões da mesma realidade onde possamos aprender a ver a magia que nos rodeia e onde seja possível libertarmos-nos das velhas, deprimentes, vitimizadoras e julgadoras visões do mundo.


Vera Luz



Nós somos a ponte entre quem um dia já fomos e quem ansiamos ser. Não há um destino final a atingir, um lugar confortável pelo qual ansiar, um tempo e um espaço que assinale o fim da ponte. A travessia é a viagem e implica movimento permanente, uma aventura maravilhosa cheia de experiências, crescimento e aprendizagens, a ser vivida em pleno espírito de liberdade. 
Vera Luz





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Guarda-o





Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.



Maria do Rosário Pedreira





Por que abandonei o xamanismo





Para quem não me conhece, caminhei no xamanismo por muitos anos, toquei tambor em volta do fogo, participei de tendas do suor, fumei cachimbo, defumei com sálvia branca, acendi palos santos, bebi ayahuasca com índios e não índios. Dei palestras, realizei rituais, me divulguei como xamã, mas um dia isso tudo acabou.

Sempre fui um buscador e nessa busca nunca me contentei com pouco conhecimento. Depois que todos os cursos que eu podia fazer sobre xamanismo terminaram, passei a pesquisar por conta própria. Vi muitos documentários onde o índio tinha voz, li muitos livros de pesquisadores, notando que existia uma enorme diferença entre o que os índios falavam de suas próprias práticas espirituais e o que os “xamãs brancos” falavam em suas palestras e cursos.
Finalmente entendi que eu estava iludido e que jamais poderia ser um Xamã.
Nesse dia, abandonei o xamanismo.
Não pense que foi fácil, nunca é fácil romper com as ilusões.

Sabe por que abandonei o xamanismo?
Notei que existiam dois mundos...
De um lado um bando de homem branco dando cursos de conhecimentos indígenas e do outro um bando de indígenas passando fome e lutando para não ter suas vidas e culturas destruídas.
Essa polaridade me fez acordar.

É preciso compreender que índio não pratica xamanismo, porque xamanismo é invenção do homem branco. O Homem branco olhou para os povos nativos, não entendeu metade da profundidade por trás das práticas religiosas deles, e, como a religião de um povo meio que parecia com a de outro povo nativo, o branco acabou por botar todas dentro do mesmo balaio, como se todos aqueles que tiram seu sustento da natureza acreditassem nas mesmas coisas e tivessem a mesma visão de mundo, coisa que não tem.
Cada povo nativo tem sua religião específica, com dogmas e rituais próprios.
Generalizar culturas e suas tradições é uma forma de exterminá-las. 

O sacerdote do povo Lakota, povo nativo norte-americano, é chamado de WICHASCA WAKAN, aquele que fuma o cachimbo sagrado e passa as mensagens do Grande Espírito para curar seu povo.
O sacerdote do povo Guarani é o PAJÉ, aquele que conversa com a Onça Floresta e busca as ervas para trazer a cura para seu povo.
O sacerdote do povo Evenki é o SAMA (xamã), aquele que evoca os Tengers (que são os espíritos da Sibéria) com o tambor dentro de uma tenda escura para curar o seu povo.
Wichasca Wakan não é Pajé, Pajé não é Sama, Sama não é Wichasca Wakan. 
Grande Espírito não é Onça Floresta, Onça Floresta não é Tengers, Tengers não é Grande Espírito. 

A única semelhança do sacerdote de um povo nativo para outro é a função, curar o seu povo.
Cada povo precisa de remédios físicos e espirituais típicos de sua região, coisa que só o sacerdote específico de cada povo pode saber. Para mim, não tem coisa mais triste que o representante de um povo nativo vir a público dizer que pratica xamanismo, isso só mostra o quanto ele foi contaminado por nossas visões limitadas de homem branco.
Índio não precisa ser definido pelo homem branco, eles são capazes de fazer isso muito bem sozinhos. 

Essa é uma questão de direito de fala, estamos há muito tempo nos achando no direito de sermos os porta-vozes do que não vivemos ou não conhecemos a fundo. Se alguém tem que falar sobre eles, são eles mesmos. Quanto a nós, cabe somente lhes dar espaços de fala para que eles sejam ouvidos. Criar espaço de fala não é se calar sobre o assunto, mas sim falar do assunto de uma maneira mais consciente do nosso papel para com essa estrutura torta.
Somos todos responsáveis!

Por muito tempo eu fiquei pensando: 
"Quem sou eu na fila do pão para ensinar ou dar cursos sobre uma cultura ou tradição na qual eu não cresci e que por tanto não me pertence?”.
A resposta: Ninguém.

Por esse motivo, hoje não me divulgo como Xamã, nem falo sobre rituais e dogmas religiosos de nenhuma tribo. Prefiro falar da minha avó e da relação que ela me ensinou a ter com as plantas, ou então, dos meus momentos de meditação no meio do mato. Falar de mim e da minha própria relação íntima com o que considero sagrado, isso me parece muito mais correto, pois é a minha verdade vivida e não a de outra gente.
Valorizar a cultura do outro, sem a necessidade de tomar ela para mim, isso é valorizar a mim mesmo, isso é ser honesto!



Dario Taboka





domingo, 3 de dezembro de 2017

Viver no presente e confiar na vida





É preciso valorizar para ter.
Querer para poder.
Discernir para escolher.
Experimentar para aprender.
Abrir mão para conservar.
Ver sem julgar.
Ouvir sem criticar.
Saber sem alardear.
Ter e saber usar.
Buscar sempre o melhor.
Aceitar a verdade sem sofrer.
Viver com alegria e prazer.
Aprender sempre.
Esquecer o passado.
Deixar ir o que não serve mais.
Usufruir os bons momentos.
Andar com as próprias pernas.
Cantar todos os dias.
Partilhar experiências.
Viver no presente e confiar na vida.
Ela sempre sabe o que faz.



Zíbia Gasparetto




O Quadro


Born of a New Man
Salvador Dali




Lua Cheia no eixo Touro/Escorpião 
de 4 de Novembro de 2017

O Nuno Michaels propôs fazer o seguinte exercício:


"Pensando nalgum dos temas com os quais estás a lidar na tua vida pessoal ou de Serviço - escolhe um, ou permite que seja o inconsciente (não digo o teu marido 🤣🤣🤣😎😁) a escolher, através do teu impulso espontâneo ou intuição.
Escolhe um tema com o qual estejas a lidar e em relação ao qual estejas a precisar de libertação
Depois procura um quadro que sintas tem a ver com isso.
Que represente ou simbolize o desafio, o obstáculo, a situação ou o que levou a ela.
Procura um quadro - vai a galerias, livros de arte, procura na net.
Procura
Contempla-o nestes dias."


Passaram 8 dias, e o exercício continuou:


"aqui está mais um capítulo, a seguir ao parêntesis

(capítulo?! é, mais um capítulo - mesmo que isso pareça defraudar a expectativa ou a exigência, mesmo que pareça insuficiente, ou inadequado, ou muito diferente do que imaginaras que aí viria, a Vida é mesmo assim: capítulo após capítulo, num livro que não se acaba nem ninguém sabe quando começou, cujo único fio condutor é a consciência do autor/personagem principal, que vamos escrevendo com quanto somos, temos, e podemos - encontrando n'Ela tanto de quanto lhe trazemos, nem muito mais, nem muito menos
- enquanto o autor descobre que não autoriza sozinho e a personagem, mesmo que pense que é protagonista,descobre que é personagem, embora não a principal, e quem sabe, nem sequer personagem a não ser da sua própria imaginação -
e (o autor), à medida que se reconhece como não-autor e vai deixando de levar a personagem tão a sério, vai encontrando a liberdade de imaginar para ela enredos muito mais criativos e interessantes e muito menos centrados e enredados no umbigo da personagem, e o livro que vai sendo escrito começa a cruzar-se com toda a literatura, até toda a literatura ser abraçada como ainda mais um exercício e quem sabe, até, pronto a ser ampliado pelo capítulo seguinte na história da vida da literatura
- mas o quadro!?,
e a solução?!
não há solução, porque não é um problema: é uma descoberta, uma conquista, uma aventura, uma experiência, um mistério, uma oportunidade permanentemente renovada - não é um problema a ser resolvido, nem há respostas definitivas ou cabais às questões que nos colocam ou nos movem: quando muito há perguntas que a Vida nos vai colocando a nós, e que vão mudando também, e às quais damos nós as respostas à medida que se nos vão aparecendo como reais, e eventualmente, também isso tudo se desfaz para dar lugar ao grande silêncio - e ao desaparecimento das dúvidas, das interrogações, das inquietações, e mesmo que continuemos a ter questões, curiosidades, interpelações, estímulos, apetites, vontades, preferências, desafios, já não há nada assim tão importante de saber, de perceber, de compreender, de resolver, de conquistar, de obter, de atingir, nem nada assim tão importante para ser ou tornar. Quero dizer, é natural que continuemos a ter gases e a sentir os intestinos a revolver de vez em quando, mas não é por causa disso que passamos a vida em busca de um laxante
por isso relaxa-nte.
fim de parêntesis)

o quadro...
se fizeste o exercício como te foi proposto, dedicaste tempo e atenção e silêncio e ponderação e consideração até que a intuição te conduzisse, sabia e mansamente, à evidência de qual era o quadro. Mantiveste a intenção e deixaste que a Vida to mostrasse, e até - te trouxesse a galeria a casa
e se fizeste o exercício como te foi proposto, guardaste a oportunidade de contemplares sozinho, por ti só e só para ti, o quadro que a tua intuição te mostrou, com toda a evidência, que era o símbolo da situação em relação à qual anda(va)s a precisar de libertação, das circunstâncias pelas quais te aproximaste dela e a criaste para ti própri@, ou símbolo do arquétipo - de um deles, pelo menos - nos quais tens andado enredado
- não há nada mais irresistível do que um arquétipo que nos enreda -
se fizeste o exercício como te foi proposto, cuidaste desse exercício como um exercício sagrado; não andaste a expô-lo no facebook nem a apregoá-lo ao vento, porque a tua vida não está - nem precisa estar - na montra para que os outros te vejam, apreciem ou comprem - nem mesmo que estejas à venda; mesmo porque quanto mais te pões à mostra na montra, menos interesse tens - e além disso, e esta é que é a verdade, ninguém te quer comprar, ninguém te pode comprar, ninguém tem interesse nisso, e cada um tem de aprender a valorizar-se a si próprio sem precisar de montras ou admiradores transeuntes para descobrir o valor (a sacralidade) da sua própria existência. E a sacralidade da tua existência é a sacralidade, o respeito, o carinho, a atenção, a qualidade com que cuidas do teu próprio exercício. E aliás, que diferença faria mesmo que alguém se interessasse pelo teu próprio exercício, se ninguém pode compreendê-lo como tu próprio?
de modo que se fizeste o exercício como te foi proposto, deixaste que fosse a intuição a mostrar-to, a guiar o quadro até ti, e guardaste essa experiência maravilhosa para ti próprio com muito carinho e amor.
e guardaste uma curiosidade carinhosa e saudável, aberta mas não ansiosa nem sôfrega nem escancarada sobre qual virá a ser a etapa seguinte, e isto - enquanto contemplavas todas as possibilidades, ângulos, dimensões, do quadro que a intuição te escolheu para te reveres - ou melhor, para reveres uma das faces transitórias do teu próprio ser e experiência do momento.

e depois chegou o domingo, o dia em que haveria mais instruções sobre o exercício, e tu já terás tido oportunidade de te dedicar bastante ao teu próprio quadro, escolhido intuitivamente porque simboliza qualquer coisa de significativo e relevante para ti e para a tua vida num determinado momento, e não simplesmente por "gostares" - que não é critério, seguro, para a transformação da tua própria consciência ou para a compreensão de porra alguma.
e chegou o domingo, e tu já terás feito - se fizeste o exercício como te era proposto - o principal, que era isto.
e também fizeste o que as energias da Lua Cheia em Touro-Escorpião te pediram como resposta, que é transformares uma situação emocional numa formulação clara e límpida, e essa formulação numa questão existencial, universal e universalizável, através da arte que está além de toda a subjectividade emocional (embora a inclua) e de toda a razão que permite fazer formulações (embora a possa incluir), e de todas as polaridades que se jogam na experiência vivida dos dramas humanos:
e quem sabe até descobriste que a tua experiência não só pode ser transformada e simbolizada pela arte, e isso só por si já teria sido melhor do que a encomenda,
como percebeste que há uma dimensão arquetípica em toda a experiência humana, e que outros terão contactado com experiências idênticas ou pelo menos dos mesmos arquétipos, e que puderam dar-lhe uma forma para legado e herança de toda a humanidade,
e que tu também podes - quem és tu para não poder? -
e que afinal talvez se dê o caso
de a tua experiência não ter assim tanto de puramente pessoal.
mas isto é só se fizeste o exercício como te foi proposto, que era dares de ti e receberes algo em retorno, mais Tu devolvido e enriquecido com a energia do Amor que tu próprio puseste nisso,
ampliado em arte
e ampliado em arquétipo
comungando com todos aqueles que comungam com o mesmo quadro,
já para não dizer,
com a experiência daquele que o pintou.
quanto há de pessoal nessa experiência?
há tudo,
e não há nada.
mais um dos paradoxos da Vida - helàs!

... e se queres saber mais, há mais capítulos para este exercício,
e ainda vais muito a tempo para fazer mais trabalho com esse quadro,
se fizeste o exercício como te foi proposto.
o próximo capítulo sai no próximo fim-de-semana
vou taggá-lo #aquelaestoriadoquadro

- pode ser que queiras ir mais longe, mais fundo, e mais amplo -
e até lá, cuida bem da obra de arte que é a Vida, se decidires fazer d'Ela Isso,
e sabe que ainda há muito que podes fazer com esse quadro
deixa-o, para já, e a estas palavras se tiveres onde enfiá-las, poisar
e não o percas de vista.
vais precisar de voltar a ele, com outro olhar, no futuro, em breve,
para já
fica só com isto.
é o fim deste capítulo
mas não o fim da estória
e muito menos do livro
e ainda hás-de tirar muito partido
disso que já aí tens
disso que já aí puseste de ti
ou quem sabe até,
que o arquétipo pôs de si
à tua guarda
e consideração"



4 dias depois, o exercício continuou:

"- diz que é para pôr o quadro à frente, de cada vez que te sentares a escrever a nova história a partir daquela,
que é para escrever uma história nova por_tanto a partir da inspiração ou da recordação da presença do simbolismo para ti desse quadro
- e que é para começar já, pelo menos a pensar nisso, mas a escrever assim que possível, em todos os momentos e oportunidades possíveis,
que temos até às 23h50 do dia 13 de Novembro para o fazer
para escrever uma história de Amor a partir desse quadro,
com um desfecho mágico, surpreendente, e revelador
que termina com todas as Almas abraçadas,
um senso de completude e paz,
e o Herói, que serás Tu, com um novo poder - dom - dimensão de Ti mesm@ - qualidade humana, divina quase
conquistad@s.
termina com Gratidão à Vida pela Oportunidade,
com Alegria e Comoção pelo Milagre, que quase nos passava ao lado,
não tivessemos nós desfeito os nós do julgamento e a miopia que nos cegaria ao milagre
não tivessemos nós desistido de levar a nossa avante, à nossa maneira egoísta e assustada,
sem Confiança na Vida e no rigor com que tudo o que se manifesta nas nossas existências
expressa as ordens ocultas do Amor.
termina com um senso de Liberdade, alívio, sossego, e quem sabe até com uma gargalhada, entre soluços de agradecimento aos personagens todos e quase um sentimento de inadequação e culpa por não termos sido capazes de perceber mais cedo
o truque, a brincadeira, a armadilha na qual quase tropeçaríamos
se não tivessemos tido a Coragem de Amar e largar (expectativas e julgamentos baseados no medo e na nossa identificação com a versão pequenina de nós mesmos)
e nos torna maiores, muito maiores,
capazes de abraçar mais um teste da Existência
a ver se temos mesmo os Corações no sítio,
não digo no meio das pernas,
mas no meio dos braços
abertos
para aceitar e Amar a Vida tal como ela se apresenta
sabendo que não era nada como chegáramos a julgar, a acreditar,
a temer
a projectar.

... a estória que somos convidados a (re)escrever, até às 23h50 de dia 13 de Novembro,
termina com mais uma conquista de Amor.
e quem sabe com outros gestos, que mesmo não faças, terão o seu impacto na mesma.
e depois de teres escrito a estória nova, a partir de agora e até lá,
reserva-a e não voltes a pegar nela durante uns dias.
depois digo-te até quando."


Hoje, dia 10 de Novembro, sem planear, fiz a minha Mandala dos Desejos para o novo Ciclo 2018/2019/2020, em que o meu planeta regente Saturno vai estar no meu signo solar Capricórnio.
Depois de ver a Mandala pronta, vi que é o Quadro do Dali.
Sem planear...quando dei por ela, estava feita...
Emocionada!
Agora...é para reservar a Mandala até novas instruções do Nuno.
Estou a amar fazer este exercício!



No dia 14, o exercício continuou:

"Por esta altura (que enjoo) já deve ter mexido muita coisa com relação à tua intenção pasmada, perdão, plasmada (bendito corrector ontológico) na estória que escreveste de olhos postos no quadro escolhido.

Até ontem ( dia 13 de Novembro), à mudança de Lua de Virgem (disposta por Mercúrio Neptuno, as estórias possíveis e sonhadas preenchidas por detalhes inventados) para o signo de Vénus num momento de Vénus conjunta a Júpiter (mais Amor por favor sim senhor, tens é que partir pedra), era tempo de reescrever a estória.

Agora é tempo de a deixar repousar, a levedar, sendo que continua a trabalhar em repouso.
E a fazer sua magia invisível até que se plasme na 3D em circunstância.

Na próxima Lua Nova (18 de Novembro l'aprés-midi e meia hora) vais pegar na estória que escreveste e vais lê-la em voz alta, com o Universo de testemunha."





Kiss
Gustav Klimt



Agora estamos na Lua Cheia seguinte,
E o Nuno Michaels escreveu o seguinte:


a dança do Amor no momento 
Lua Cheia 3 de Dezembro 2017 


 ... depois de ter dado o seu grito de Ipiranga (a liberdade é uma coisa muito bonita),

E de se ter libertado das correntes que imaginava a apertavam, e prendiam, e amarravam às circunstâncias limitantes da sua própria encarnação,

- depois, portanto, de ter inalado o primeiro bafo inebriante da nova sensação, tão almejada, de liberdade (ou daquilo que  tomava por isso)

Deu-se um instante – um instantâneo? – vislumbre de sobriedade, de lucidez, de paragem repentina e forçada (mas tão natural, tão espontânea) mesmo à porta de entrada do seu próximo devaneio


Como quem acorda subitamente de um transe e cai na real, como uma bebedeira que passa de repente, de golpe, e nos deixa atónitos, estupefactos, balançando à porta do próprio estupor, saídos de um quase estado de graça induzido pelo auto-esquecimento e a súbita realização daquilo que esteve quase para nos acontecer, tivéssemo-nos nós deixado ir e entregue à sedução daquela manhosa e aparente forma de euforia tão e durante tanto tempo desejada – a imaginação do que seria a libertação

E ficou subitamente estacada enquanto lhe caía a ficha de uma súbita realização.

Quase seria o momento de um arrendimento, mas não houve tempo para isso, porque com a realização chegou também a recordação da sua própria grandeza e a nobreza do seu próprio coração,

E depois de se ter libertado das amarras que imaginava a apertavam, prendiam, e amarravam às circunstâncias da sua própria limitação,

Percebeu que não eram as amarras que a prendiam, mas a sua própria ilusão

- o que é, afinal, a liberdade, essa coisa tão valiosa? –

E compreendeu que não era por se libertar que se libertava, mas talvez

Realizando a dimensão da sua própria cegueira, e dando passos determinados para se responsabilizar por isso, no que ainda seria possível, no que ainda dependesse de si,

Que encontraria a essência daquilo que erroneamente andara a almejar como promessa da sua própria libertação.

Então de repente viu o filme todo, e de como estava quase a sair de cena e a saltar para um filme de ficção, enquanto a realidade da sua própria realidade por um triz lhe passaria ao lado – ou como passaria ao lado, por um triz, da sua própria missão.

Soube que precisaria voltar atrás, no que é possível voltar atrás se nunca nada se repete – de tal modo que voltar atrás talvez não fosse mais do que voltar a enfrentar as circunstâncias que seriam de sempre se não tivessem elas próprias também mudado entretanto, inevitavelmente, mas de um lugar novo, com um novo olhar, com um novo senso de participação e responsabilidade que o coração outrora apertado simplesmente não lhe teria permitido,

E munindo-se da recordação da sua própria coragem e grandeza, dispôs-se a voltar atrás ali mesmo onde estava, à porta de entrada do que poderia vir a ser o seu próximo transe, a promessa da libertação,

E com a humildade inevitavelmente chegada com a realização do seu próprio equívoco, sem arrependimento ou culpa mas com a suave irresistível força da sua própria diligência, reconheceu que acabara de ser novamente testada, e reafirmou a sua vontade – o seu compromisso – em ser boa aluna,

E continuar a aprender com os testes da sua existência aquilo que como todas as outras vem aprender, a abrir ainda e cada vez mais o coração,

Que é como quem diz,

Encontrar em si mesma a força, a dignidade e a grandeza de aceitar as coisas como elas são,

- não sem antes falar em voz alta e firme aos seus próprios tiranos recordando-os de que ela é a senhora de si própria, uma vez liberta da ilusão do "certo" e do "errado" - julgamento que a mantém aquém da sua própria natureza e dignidade

(a expectativa e o julgamento fecham o coração, repete ela para si própria como um mantra recém-descoberto, enquanto enfrenta a tirania que afinal é a das suas próprias limitações e julgamentos)

Já que isso ajuda – talvez seja isso que permita – ser a única responsável por si mesma.

Ela é a alma, e ele

Que olha para ela neste momento aliviado por ela ter removido mais um véu da sua própria ilusão

Ele é o espírito e olha para ela com orgulho

Do seu próprio amor, do suporte que ela é, da sua própria criação *

Ela encontrou mais uma vez o seu lugar, o seu poder,  a sua tarefa

ajudá-lo a ele a cumprir-se, que sem ela nada é,

ela segui-lo-á novamente e ele, servindo-a a ela, cumprir-se-á,

expresso e honrado no seu próprio poder de irradiação.

e assim - só assim -

cuidarão da Encarnação *


Nuno Michaels






sábado, 2 de dezembro de 2017

A Inspiração Nocturna





Se pudéssemos dominar as palavras como 
se domina um cavalo, com a rédea da retórica 
a puxar os impulsos do sentimento e as esporas 
da emoção a fazerem correr a frase até 
ao fim do verso, o poema seria como a planície 
por onde a imaginação cavalga sem freio nem destino, 
liberta de cavaleiro e sela.

Ou então, se tivéssemos pela frente o oceano 
da página e aí lançássemos a barca da estrofe, sem 
antes ter perguntado qual o tempo que iria fazer 
durante a viagem, veríamos nascer o temporal 
de dentro de um céu de substantivos escuros 
como nuvens, e o medo do naufrágio 
pesar-nos-ia no ritmo de uma queda de sílabas.

Mas se estivesses aqui, com o teu olhar 
pousado num campo de palavras, não apenas 
as que designam flores ou aves mas outras 
como a terra, a lama, a erva, o verde sombrio 
de um arbusto próximo, eu faria do poema 
a raiz desse tronco que os invernos não arrancaram, 
e alimentá-la-ia com a seiva do amor; e sentiria 
nas suas folhas os cabelos da tua noite, 
as nervuras da tua mão, o fruto dos teus lábios.



Nuno Júdice
in, O Fruto da Gramática




Viajar





“Viajar é aprender Geografia num mapa de 1/1”
Eno Wanke

“Viajar torna o sábio melhor e o tolo pior”
Thomas Fuller

“Como a literatura, o amor e a dor, as viagens são uma bela ocasião para nos encontrarmos com nós próprios”
Marguerite Yourcenar

“Turistas não sabem onde estiveram; viajantes não sabem para onde irão”
Paul Theroux

“Viajar é nascer e morrer a todo o instante”
Victor Hugo

“Para viajar basta existir.”
Fernando Pessoa

“Os homens dividem-se em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm.”
Fernando Sabino

“Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos connosco, nunca o encontraremos.”
Ralph Waldo Emerson

 “Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.”
Amyr Klink

“Há um tempo para partir, mesmo quando não há um lugar certo para ir.”
Tennessee Williams

 “Um homem precisa viajar, por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros e televisões, precisa viajar, por si, com os olhos e pés, para entender o que é seu …”
Amyr Klink

“Educar é viajar no mundo do outro, sem nunca penetrar nele. É usar o que passamos para transformar no que somos.”
Augusto Cury

 “Porque, no final, não vai lembrar-se do tempo que passou a trabalhar no escritório ou a aparar a relva. Escale aquela maldita montanha”
Jack Kerouac

“Uma longa viagem começa com um único passo.”
Lao-Tsé

“Pior que não terminar uma viagem é nunca partir.”
Amyr Klink

“Morre lentamente quem não viaja”
Martha Medeiros

“Todas as viagens são lindas, mesmo as que fizeres nas ruas do teu bairro. O encanto dependerá do teu estado de alma.”
Rui Ribeiro Couto

“Se as viagens no tempo existissem, a nossa época estaria recheada de turistas do futuro.”
Stephen Hawking

“A felicidade não está no fim da jornada, e sim em cada curva do caminho que percorremos para encontrá-la.”
Marta Suplicy

“Eu nunca viajo sem o meu diário. Precisamos sempre ter algo de sensacional para ler no comboio.”
Oscar Wilde

“O mundo é como um livro, e quem não viaja lê somente a primeira página.”
Santo Agostinho

“As viagens são na juventude uma parte de educação e, na velhice, uma parte de experiência.”
Francis Bacon

“O viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem.”
André Suarès

“Eu viajo não para ir a lugar algum, mas para ir. Eu viajo pelo propósito de viajar. A grande sedução é se mover.”
Robert Louis Stevenson

“O que muito viaja aumenta a sua sagacidade. Muita coisa vi nas minhas viagens, o meu conhecimento é maior do que as minhas palavras.”
Textos Bíblicos

“A viagem pode ser uma das formas mais satisfatórias de introspecção.”
Lawrence Durrell

“Se deseja viajar longe e rápido, viaje leve. Deixe para trás todas as suas invejas, ciúmes, incapacidade de perdoar, egoísmo, e medos.”
Glenn Clark

“Viajar! Perder países! Ser outro a cada dia.”
Fernando Pessoa

” Se rejeitas a comida, ignoras os costumes, receias a religião e evitas as pessoas, é melhor ficares em casa”
James Michener

“Eu posso não conhecer o mundo todo mas pelo menos vou tentar.”
Rui Pinto

“Um bom viajante não tem planos fixos nem tão pouco a intenção de chegar.”
Lao Tzu

 “A verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novas paisagens, mas sim ver com novos olhos.”
Marcel Proust

” A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.”
Fernando Pessoa

“Aquele que não viaja não conhece o valor de um homem”
 Provérbio Mouro

” …a vida é pequena e o mundo é grande”
Simon Raven

“Viajar é descobrir o que sabemos de errado sobre outros países”
Aldous Huxley

“Como todo grande viajante, vi mais do que me poderia lembrar e me lembro de mais do que poderia ter visto.”
Benjamin Disraeli

“A felicidade é de como se viaja e não do seu destino.”
Roy M. Goodman

“É quase axiomático que os piores comboios levam-te através de lugares mágicos.”
Paul Theroux

 “Aquele que está acostumado a viajar, sabe que sempre é necessário partir.”
Paulo Coelho

“A liberdade é um preço que vale a pena pagar.”
Júlio Verne

"A man needs to travel. By his own means, not by stories, images, books or TV. By his own, with his eyes and feet, to understand what he is. To some day plant his own trees and give them some value. To know the cold to enjoy the heat. To feel the distance and lack of shelter to be well under his own ceiling. A man needs to travel to places he doesn't know to break this arrogance that makes us see the world as we imagine it, and not simply as it is or may be. That makes us teachers and doctors of what we have never seen, when we should just be learners, and simply go see it."
Amyr Klink







sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A Crise







Junto à margem do mar da Galileia, numa manhã de Inverno cheia de sol, a poucos passos da sinagoga de Cafarnaum onde Jesus de Nazaré falou aos seus seguidores, penso nos problemas longínquos do Império Romano mas sobretudo na crise actual da condição humana. É uma crise curiosa, pois embora as condições locais sejam distintas em cada ponto do mundo onde ocorre, as respostas que a definem são semelhantes, marcadas pela zanga, fúria e confronto violento, a par de apelos ao isolamento dos países e de uma preferência por governação autocrática.

Mas a crise é sobretudo decepcionante, pois não devia de todo estar a acontecer. Seria de esperar que pelo menos as sociedades mais avançadas tivessem ficado imunizadas pelos horrores da Segunda Guerra Mundial e pelas ameaças da Guerra Fria, e que tivessem encontrado maneiras de ultrapassar, de modo gradual e pacífico, quaisquer dos problemas que as culturas complexas necessariamente enfrentam. Pensando bem, deveríamos ter sido menos complacentes.

Os tempos em que vivemos poderiam ser a melhor das épocas para se estar vivo, porque estamos rodeados por descobertas científicas espectaculares e por um brilho técnico que tornam a vida cada vez mais confortável e conveniente; porque a quantidade de conhecimentos disponível e a facilidade de acesso a esses conhecimentos nunca foram tão elevadas, acontecendo o mesmo em relação à interligação humana a uma escala planetária, como se prova pelas viagens, pela comunicação electrónica e pelos acordos internacionais sobre todos os tipos de cooperação científica, artística e comercial; porque a capacidade de diagnóstico, gestão e até cura de doenças continua a aumentar e a longevidade continua a prolongar-se de tal forma que se espera que os seres humanos nascidos após o ano 2000 possam viver, e bem, segundo se espera, até uma média de 100 anos.
Em breve seremos conduzidos por veículos robotizados que nos poupam esforço e vidas, pois, a certa altura, deveremos ter menos acidentes fatais.

No entanto, para considerar os nossos dias como sendo os melhores de sempre seria preciso que estivéssemos muito distraídos, já para não dizer indiferentes ao drama dos restantes seres humanos que vivem na miséria. Embora a literacia científica e técnica nunca tenha estado tão desenvolvida, o público dedica muito pouco tempo à leitura de romances ou de poesia, que continuam a ser a forma mais garantida e recompensadora de penetrar na comédia e no drama da existência, e de ter oportunidade de reflectir sobre aquilo que somos ou que podemos vir a ser.

Ao que parece, não há tempo a perder com a questão pouco lucrativa de, pura e simplesmente, “ser”. Parte das sociedades que celebram a ciência e a tecnologia modernas, e que mais lucram com elas, parece estar numa situação de bancarrota “espiritual”, tanto no sentido secular como religioso do termo. A julgar pela aceitação despreocupada das crises financeiras problemáticas – a bolha da Internet de 2000, os abusos hipotecários de 2007 e o colapso bancário de 2008 – parecem igualmente estar numa situação de bancarrota moral. Curiosamente, ou talvez não tanto, o nível de felicidade nas sociedades que mais beneficiaram com os espantosos progressos do nosso tempo mantém-se estável ou em declínio, caso possamos confiar nas respectivas avaliações.

Ao longo das últimas quatro ou cinco décadas, o grande público das sociedades mais avançadas aceitou, com pouca ou nenhuma resistência, o tratamento cada vez mais deformado das notícias e das questões públicas concebidas para se enquadrarem no modelo de entretenimento da televisão e da rádio comerciais. As sociedades menos avançadas não têm demorado a imitar essa atitude. A conversão de quase todos os “media” de interesse público ao modelo lucrativo de negócios veio reduzir ainda mais a qualidade da informação. Embora uma sociedade viável deva preocupar-se com a forma como o Governo promove o bem-estar dos cidadãos, a noção de que se deve proceder a uma pausa diária de alguns minutos e fazer um esforço para se ficar a par das dificuldades e dos êxitos dos governos e dos cidadãos não só se tornou antiquada, como quase desapareceu. Quanto à noção de que devemos aprender algo sobre essas questões com seriedade e respeito, ela é, hoje em dia, um conceito estranho. A rádio e a televisão transformam cada questão governativa numa “história”, com a “forma” e o valor de entretenimento dessa história a contarem mais do que o seu conteúdo factual.

Quando, em 1985, Neil Postman escreveu o seu livro Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business, ele fez um diagnóstico correcto, mas nem sonhava que sofreríamos tanto antes de morrer. O problema agravou-se com a redução de fundos para a educação pública e com o declínio previsível da preparação de cidadãos, e, no caso dos Estados Unidos, piorou com o repúdio, em 1987, da Fairness Doctrine, que desde 1949 requeria um tratamento equilibrado dos comentários políticos. O resultado, intensificado pelo declínio dos jornais impressos e pela ascensão e domínio quase absoluto por parte da comunicação digital e da televisão, é a carência profunda de conhecimentos pormenorizados e não-partidários dos assuntos públicos, a par do abandono gradual das práticas da reflexão ponderada e do discernimento sobre os factos. É preciso ter o cuidado de não exagerar a nostalgia por um tempo que nunca existiu por completo. Nem todo o público estaria seriamente informado, reflexivo e exigente. Nem todos os cidadãos tinham reverência pela verdade e pela nobreza de espírito, já para não falar de reverência pela vida. Não obstante, o presente colapso da consciência pública séria é problemático.

As sociedades humanas encontram-se previsivelmente fragmentadas segundo uma variedade de medidas, como literacia, nível de habilitações, comportamento cívico, aspirações espirituais, liberdade de expressão, acesso à justiça, estatuto económico, saúde e segurança ambiental. Dadas as circunstâncias, torna-se mais difícil do que jamais foi encorajar o público a promover e a defender uma lista de valores, direitos e obrigações que não sejam negociáveis.

Dado o espantoso progresso dos novos media, o público tem a oportunidade de ficar a saber com mais pormenores do que nunca os factos por detrás das economias, o estado dos governos locais e globais, e o estado das sociedades em que vive, algo que, sem qualquer dúvida, se trata de uma vantagem que confere poder real; para além disso, a Internet fornece meios de deliberação fora das tradicionais instituições comerciais ou governamentais, outra vantagem potencial. Por outro lado, em geral, o público não dispõe nem de tempo nem de método para converter as quantidades imensas de informação em conclusões razoáveis e de uso prático. Além disso, as empresas que geram a distribuição e a agregação de informação ajudam o público de forma dúbia: o fluxo de informação é orientado por algoritmos da empresa que, por sua vez, influenciam a apresentação, de modo a adequar-se a uma variedade de interesses financeiros, políticos e sociais, a par do gosto dos utilizadores, para que estes possam continuar fechados no silo de opiniões que os entretêm.

Reconheça-se, a bem da verdade, que as vozes sábias do passado – as vozes dos experientes e judiciosos editores de jornais, de programas de televisão e de rádio – não eram completamente imparciais, favorecendo visões específicas quanto ao funcionamento das sociedades. Todavia, na maior parte dos casos, essas visões concretas identificavam-se com perspectivas filosóficas ou sociopolíticas específicas, às quais cada um podia resistir ou apoiar. Hoje em dia, o grande público não tem essa oportunidade. Cada um de nós tem acesso directo ao mundo através do seu dispositivo portátil, e é encorajado a maximizar a sua autonomia. Não há grande incentivo para debater, e muito menos aceitar opiniões divergentes.

O novo mundo da comunicação é uma bênção para os cidadãos treinados a pensar de forma crítica e informada sobre a História. Mas qual a sorte dos cidadãos que foram seduzidos por um modelo de vida como diversão e comércio? Em grande medida, foram formados por um mundo em que a provocação emocional negativa é a regra e não a excepção, e onde as melhores soluções para um problema passam, em primeiro lugar, por interesses próprios e de curto prazo. Poderemos censurá-los?

A disponibilidade generalizada de comunicação abundante e quase instantânea de informação pública e pessoal, um óbvio benefício, reduz, paradoxalmente, o tempo necessário para a reflexão sobre essa mesma informação. A gestão do fluxo de conhecimento disponível obriga, frequentemente, a uma rápida classificação de factos como sendo bons ou maus, agradáveis ou não. Isto contribui, porventura, para um aumento de opiniões polarizadas quanto a acontecimentos sociais e políticos. A exaustão provocada pelo excesso de factos recomenda uma fuga para as crenças e as opiniões pré-definidas, em geral as do grupo a que o indivíduo pertence. Isto agrava-se pelo facto de tendermos naturalmente a resistir à mudança de opinião, pese embora a disponibilidade de provas em contrário, e por mais inteligentes e informados que sejamos.





Trabalhos realizados pelo nosso instituto [Instituto do Cérebro e da Criatividade na Universidade da Califórnia do Sul, EUA] mostram que isso é verdade em relação a crenças políticas, mas imagino que também se aplique a uma grande variedade de crenças, desde a religião e a justiça à estética. O nosso trabalho mostra que a resistência à mudança está associada à relação conflituosa entre sistemas cerebrais relacionados com a emotividade e a razão. A resistência à mudança está associada, por exemplo, à activação de sistemas responsáveis pela produção de zanga e fúria. Criamos uma espécie de refúgio natural para nos defendermos contra a informação contraditória. Por todo o mundo os eleitores descontentes recusam-se a comparecer nas urnas. Com tal clima, a disseminação de notícias falsas e de pós-verdades fica facilitada. O mundo distópico que George Orwell em tempos descreveu, tendo a União Soviética como modelo, corresponde agora a uma situação sociopolítica diferente. A velocidade das comunicações e a resultante aceleração do ritmo de vida são igualmente possíveis contribuidores para o declínio da civilidade, identificável na impaciência do discurso público e na crescente grosseria da vida urbana.

Uma questão separada, mas importante, que continua a ser menosprezada é a natureza viciante dos media electrónicos, desde as simples comunicações por email às redes sociais. O vício desvia tempo e atenção da experiência imediata do ambiente que nos rodeia para uma experiência mediada por uma grande variedade de dispositivos electrónicos. O vício aumenta o desenquadramento entre o volume de informação e o tempo necessário para a processar.

A quebra de privacidade que acompanha o uso universal da Web e das redes sociais garante a monitorização de cada gesto e ideia humana. Todos os tipos de vigilância, desde a necessária por motivos de segurança pública até àquela que é intrusiva e mesmo abusiva, são agora uma realidade, praticados, tanto pelo Governo como pelo sector privado, com total impunidade. A vigilância faz com que a espionagem, até mesmo a espionagem das superpotências, uma actividade estabelecida que nos acompanha desde há milénios, pareça honrada e infantil. Até encontramos vigilância à venda, por lucros elevados, pela mão de uma série de empresas tecnológicas.
O acesso ilimitado à informação privada está a ser usado para criar escândalos embaraçosos, mesmo que o tema da vigilância não seja de natureza criminosa. O resultado é o silêncio dos candidatos políticos, para que eles e as suas campanhas políticas não sejam destruídos por revelações pessoais. Isso tornou-se um factor importante na governação pública.
Em sectores vastos das regiões mais tecnologicamente avançadas do mundo há escândalos de todas as dimensões que influenciam resultados eleitorais e fortalecem a desconfiança do público em relação às instituições políticas e às elites profissionais. Sociedades que já se debatiam com grandes problemas de desigualdade de riqueza e de deslocações humanas devido ao desemprego e às guerras tornaram-se quase ingovernáveis. Os eleitorados desorientados recordam com nostalgia passados há muito desaparecidos e miticamente melhores, ou, como alternativa, revelam uma revolta profunda. A nostalgia, no entanto, é deslocada, e a fúria, em geral, é mal dirigida. Tais reacções reflectem uma compreensão limitada da miríade de factos apresentados pelos vários órgãos de comunicação social, factos concebidos sobretudo para entreter, promover determinados interesses sociais, políticos e comerciais, e obter grandes recompensas financeiras com isso.

Nota-se uma tensão crescente entre o poder de um público vasto que parece mais bem informado do que nunca, mas que não dispõe do tempo ou dos instrumentos para julgar e interpretar a informação, e o poder das empresas e dos governos que controlam a informação e sabem tudo o que há para saber acerca desse mesmo público. Como sanar o conflito resultante?

Há também riscos notáveis a considerar. 
A possibilidade de conflitos catastróficos que envolvam armas nucleares e biológicas representam riscos reais e possivelmente mais elevados agora do que quando essas armas eram controladas pelas potências da Guerra Fria; os riscos do terrorismo e o novo risco da guerra cibernética também são reais, bem como o risco das infecções resistentes a antibióticos. Podemos culpar a modernidade, a globalização, a desigualdade da riqueza, o desemprego, a educação a menos, o entretenimento a mais, a diversidade, e a rapidez e ubiquidade radicalmente paralisantes das comunicações digitais, mas atribuir culpas não reduz os riscos, de imediato, nem resolve o problema das sociedades ingovernáveis, sejam quais forem as causas.



António Damásio
in, A Estranha Ordem das Coisas – A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas






Se a divisão entre as ciências e as humanidades 
não faz sentido, 
queria saber de que forma é que 
a biologia pode ajudar a resolver 
as crises da democracia que se vivem hoje?


Responde Damásio:
"Tem tudo a ver, porque a homeostasia (esse conceito da biologia definido como um processo de regulação pelo qual um organismo consegue a constância do seu equilíbrio) aplica-se à expressão do nosso sentimento pessoal, e estende-se facilmente à família e à tribo mais próxima. O problema é quando esse estado tem de se alargar a milhares de pessoas. Aí conseguir o equilíbrio é muito mais difícil. Isso explica por exemplo o recrudescimento dos extremismos na Europa. A única solução, insisto, é educar. Para que o nosso sentimento seja o de aceitar o outro.

Em tudo na vida, é o sentimento que nos diz o que devemos fazer e é o sentimento que nos diz se funcionou. Sabemos agora que a fisiologia que está por baixo do sentimento é a homeostasia, essa capacidade de a vida se manter e desenvolver-se – porque o nosso fito é continuar vivos e pensar no futuro."





Um dia virá





Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.


Rosa Lobato Faria
in, A Noite Inteira Já Não Chega