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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

a 'espiritualidade lindinha'




Temos andado a tratar do nosso espírito - ou alma, ou o que preferirem chamar-lhe - um pouco como quem trata das unhas dos pés, do cabelo, da gordura a mais na barriga, das rugas, dos pêlos e por aí fora.

A par dos inúmeros institutos de estética que proliferaram um pouco por toda a parte nos últimos anos,  onde vamos cuidar da nossa imagem exterior para ficarmos 'lindinhos' por fora, houve também a proliferação dos 'centros anímicos' - onde vamos tratar da beleza interior, para ficarmos 'lindinhos' por dentro.
A oferta é para todos os gostos, todos os géneros e todas as bolsas e contempla um sem fim de técnicas, experiências, vivências e posições.
Do yoga às massagens, dos tratamentos de reiki às regressões a vidas passadas, dos retiros de silêncio às curas xamânicas, das leituras da aura ao alinhamento dos chakras, das meditações aos círculos de cura, das consultas e cursos de astrologia às palestras sobre os mais variados assuntos, das canalizações ao transe assistido, dos livros de auto-ajuda aos 'manuais de instruções' dos gurus, nunca, como nesta dita 'nova era' nos esforçámos tanto por ser (parecer?) 'lindinhos' por dentro.

Mas, afinal, lindos por dentro nós sempre fomos... ou não?
Lindos e... feios!
E é aí que reside o engodo da 'espiritualidade lindinha'.
Ao prometer-nos mundos e fundos para a alma, exactamente da mesma forma e na mesma medida que a indústria estética promete fundos e mundos para o corpo, o resultado, na maior parte das vezes, é a vivência de uma espiritualidade plástica, asséptica e aquém dos resultados que, neste momento, o universo nos pede para, realmente, ascendermos e elevarmos a humanidade à raça dos anjos.

E isso, pese embora a importância e a influência que cursos, palestras, retiros, livros, encontros, massagens, cristais e etc. e etc. e etc. poderão ter... isso não chega!
E não há ninguém neste mundo, a não ser cada um, em silêncio e consigo, quem poderá encontrar a 'receita' para que o seu espírito se manifeste neste tumulto  em que transformámos a Terra.

Ainda no outro dia, pasmei perante uma 'lista de regras para a nova era' que vi por aí.
Fiquei que tempos a tentar perceber o que era que me incomodava naquilo.
Pode ser uma mera questão de conceitos, mas 'lista' e 'regras' não condizem de todo com o que entendo por 'nova era'.
A Era de Aquário, acredito, será uma manifestação de excepções - e as velhas 'listas de regras' um vício caduco da Era de Peixes, em que tentámos impor uns aos outros as nossas meias verdades.

Acredito, então, que manifestar a excepção  - e o ser excepcional - que cada um de nós É, deixando os 'supostos', as 'regras' e o 'by the book' de lado é a única forma de fazer emergir a espiritualidade de que todos somos dotados.

Diz o António que a 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados e eu estou de acordo.
Chega de andar a brincar aos iluminados, exibindo 'egos' que estão tão bem trabalhados que já quase nem damos por eles, curriculos que não têm fim de tanto que já andámos de um lado para o outro a acumular conhecimentos e cursos, asas que - para já - ainda não estão tão abertas como as dos anjos e que apenas nos deixam voar baixinho e em círculos.

A 'espiritualidade lindinha' tem os dias contados porque, primeiro, é necessário sentir, assumir, aceitar, que somos lindos e... feios!
E que a luz que emanamos não brilharia se não fossem as sombras, que todos somos também.


Inês de Barros Baptista

ando a casar-me




Estranha, a expressão?
Admito que sim.
É mais comum ouvir-se dizer 'vou casar-me', 'casei-me', 'sou casada'... mas 'ando a casar-me'?
A verdade é que ando. A tentar, pelo menos, que isto de um casamento tem tanto que se lhe diga, tantas voltas e reviravoltas, tantas esquinas e contratempos e, ao mesmo tempo, tantas potencialidades!...
A minha sorte é que, desta vez, nenhum noivo espera por mim no altar e o anel que trago no dedo, apesar de ter sido oferecido, foi na condição de ser capaz de assumir um compromisso comigo.
É de prata, mas podia ser de latão,  de cobre, de arame ou de outra substância qualquer, já que o mais importante é conseguir 'consubstanciar' corpo e espírito, no sentido mais íntimo, e quase biblíco, do termo: como a presença de Cristo, na Santíssima Trindade, sendo ela mesma.

Pois é, ando a casar-me comigo e a fazer por prometer-me fidelidade, nem sequer até ao fim dos meus dias, mas por toda a eternidade.
A jurar amar-me e honrar-me, nas condições favoráveis, mas também nas adversas e a retirar, um a um, todos os véus com que as noivas tapam a cara  e enfeitam cabelos e que, na maior parte dos casos, as deixam às cegas, ou então apenas permitem que vejam o mundo através dos buraquinhos do tule...

Não é fácil, creio que é até mais difícil casarmos connosco do que com outro.
É muito mais complicado deitarmo-nos todas as noites e sermos capazes de nos abraçarmos sem nenhuma distância ou reserva, mesmo que pareça mais simples ter os braços do outro à nossa espera na cama.
É muito mais verdadeiro, embora mais duro, exigirmos de nós fidelidade ao que somos, em vez de andar a morrer de ciúmes com as mentiras e as infidelidades do outro.
É muito mais justo dizer 'amo-me' do que andar a cobrar a injustiça de o outro nunca dizer 'amo-te'.
É fundamental, é visceral,  eu diria, casar-me comigo, para que um dia, então, me case com outro - se for essa a escolha, se for esse o caminho...

Já me casei duas vezes e sei do que falo.
A primeira com tudo a que tinha direito - dia marcado, vestido de noiva, alianças, uma capela com vista para o rio, um coro afinadérrimo e uma homilia lindíssima, um copo de água abundante, uma lua de mel numa ilha, dois filhos maravilhosos e oito anos de um dia a dia de enorme partilha e cumplicidade. Um casamento que, desconfio, se não tivesse acabado num atropelamento brutal, acabaria de outra maneira (ou talvez não e tudo o que forem especulações não passam de mera retórica e não cabem aqui...)
O segundo não teve dia marcado, nem alianças, nem padre, nem coro, nem capela, mesmo que tenha tido vista para o rio muitas vezes, sobretudo da cama de onde chegaram mais duas filhas maravilhosas, e que me deu, senão um marido, um amigo fiel. Foram mais oito anos da minha vida e o facto de ter partido para eles já não vestida de noiva e de branco, mas de viúva e de luto,  talvez tenha feito toda a diferença - mas, mais uma vez, entro no campo das especulações e não quero. Separámo-nos há já algum tempo, mas fico contente por termos sabido continuar juntos, partilhando em paz o que nos é comum e assim evitando cair em guerras antigas.

Se o provérbio está certo e 'não há duas sem três', hei-de voltar a casar-me de novo.
Não faço ideia com quem, nem onde, nem como, nem quando, se vestida de noiva ou de cigana,  se numa capela ou no campo ou na praia, se haverá coro ou apenas um mantra dito em silêncio por ambos, se a lua será de mel ou de uma luz ainda mais doce.
Por mais que neste momento até possa ter sonhos e desatar a fazer mil projecções sobre o futuro, o presente que tenho para me oferecer é só um: casar-me comigo e prometer ser minha para sempre.

Amén.

Inês de Barros Baptista


domingo, 18 de dezembro de 2011

Avesso




Olá sombra!

Sim, o sorriso é forçado, talvez devesse virá-lo ao contrário, ser 'brutalmente honesta' assim o exige, o avesso, para já, não é nem generoso nem complacente e dói que se farta..

Olá sombra!

Ontem, sem ser por acaso, dei de caras com a 'sombra humana' e só não foi um choque brutal porque tu e eu, ultimamente, até temos 'privado' bastante, nem sempre nas condições mais honestas, admito, já que não te dou o espaço de que precisas para, literalmente, tomares conta de mim, mas vai sendo à medida do que vou sendo capaz... gostei particularmente de 'os monstros dentro de mim', ou melhor, se quiser ser de novo brutalmente honesta comigo e contigo, uma unidade que teimo em ver separada, não gostei assim tanto e comecei por negar que, também dentro de mim, existissem monstros tão feios.
Mas a verdade é o que é e, um por um, lá os fui encarando.
Alguns  provocam-me ainda um medo de morte, com outros estou já mais familiarizada, descobri um ao outro que  continuo a negar, mesmo que olhem de frente para mim e me digam 'nós somos teus, vê lá se nos amas'.

E é por isso que hoje vim aqui encarar-te mais uma vez, e sim, à vista de todos, porque nisso já me conheces e sabes  como me tenho obrigado a ser transparente, mesmo quando é das sombras que falo.
A razão pela qual gostei tanto do Emídio  foi por ele nos mostrar, com uma honestidade brutal e uma transparência que faz por livrar-se das máscaras, como é que, a pouco e pouco, vamos podendo gerir esta nossa dualidade.
Estou cansada daqueles 'gurus' muito iluminados que só falam da luz e da luz e da luz e que nos fazem crer que debelaram as sombras e agora vivem num permanente 'nirvana' dourado.
Mas também já consigo entender que eles me cansam apenas porque, também eu, me faço passar por iluminada, 'vendendo' nirvanas aos meus semelhantes e provavelmente fazendo com que fiquem cansados.

Ah, sombra, isto de sermos duais e nos amarmos a sê-lo tem mesmo tanto que se lhe diga!
E eu cá não sei se um dia há um clic!
E os dois lados se integram em nós como se tivesse havido magia, ou se é dia a dia e passo a passo que vamos andando, um dia para a frente, um passo para trás, outro dia e mais um bocado, outro passo e retrocedemos...
O que sei, o que sinto, é que este passo a caminho de ti me traz, afinal, muita paz interior.
Quando mergulho nos teus braços, quando me sento no escuro do teu peito, quando me entrego à voracidade com que, também tu, queres ser amada... tudo se aquieta, tudo se acalma, tudo se expande.
Nem sequer dou mais a desculpa de que esta é a humanidade que tenho, como quem se desculpa por ser tantas vezes tão imperfeita, mas dou por mim a agradecer não brincar mais aos deuses, a não ser quando me vejo capaz de voltar a brincar como as crianças, e então tanto faz se sou o monstro, o humano ou o deus porque a brincadeira é sempre e só uma brincadeira e mais nada.

O avesso, afinal, não é o mundo virado de pernas para o ar e o esforço que tantas vezes fazemos para o endireitar é precisamente o que faz com que não se endireite.

Ontem, foi tão grande o impacto que a sombra humana do Emídio teve na minha sombra, - isto de sermos todos o mesmo tem destas coisas - que lhe escrevi um email.
E agora mesmo, enquanto escrevia este texto, ele respondeu-me.
E julgo que ele não se importa que eu transcreva uma parte do que ele me disse.
E disse ele:
"A vida é uma aventura deliciosa.
Quando abraço a minha sombra e o meu ego, quando deixa de haver luta dentro de mim, quando deixo de precisar da aprovação dos outros. Quando te amo sem esperar amor de volta.
Sabe bem amar. Estou viciado.
Descubro que sou totalmente egoísta: amo tudo porque me faz sentir tão bem comigo mesmo. Delicioso."

E então é assim, sombra, nós só temos de facto o que é aqui e agora e, aqui e agora, prometo que será um domingo delicioso para ambas.
Abraço-te e hoje comprometo-me a amar-te como mereces.
A ti e aos monstros que somos, a mim e à luz da luz que me faz ser transparente.

Obrigada por fazeres parte de mim!
E, agora sim, o sorriso saiu verdadeiro...


Inês de Barros Baptista

saber dizer: sim



sim, eu não sei nada, nem quando digo que sei muitas coisas, erro e aprendo, sofro e tropeço, armo-me em forte, desfaço-me em lágrimas, mas todos os dias estou viva para recomeçar tudo de novo.

sim, 'precisar' é um verbo que a mente conjuga, mas que a alma aprende a aceitar, de cada vez que nos estendem a mão e nos oferecem ajuda.

sim, a humanidade atrapalha quando a usamos como uma barreira e fechamos os braços com medo de que venham roubar-nos alguma coisa ou pedir-nos o que achamos ter o direito de recusar  - ou, simplesmente, o que não queremos dar.

sim, ando a aprender a casar-me comigo e a jurar-me fidelidade e só é justo o que for o melhor para mim.

sim, ter expectativas faz parte, ter sonhos faz parte, faz parte ter ilusões e desilusões, só tomando o todo pelas partes seremos capazes de ir pondo de parte tudo aquilo que não nos faz falta, para esse todo que somos.

sim, o amor é semente, planta-se e cresce, monda-se e vinga, rega-se e faz-se maior a ponto de nos transformar no seu próprio fruto.

sim, temos padrões, temos heranças, temos debaixo da cama muitos fantasmas que nos assustam, temos feridas abertas, temos capacidade de cura.

sim, somos aquilo que escolhemos a cada minuto, ontem já era, amanhã não sabemos.

sim, é tudo tão duro e tão dócil, tudo tão simples e tão complicado, tudo tão bom e tão mau, tudo tão rápido e tão demorado, tudo tão luminoso e tão denso e tudo

É: direito e avesso.

sim, somos elos de uma mesma cadeia, não viémos sozinhos trilhar os caminhos da Terra, somos um e o mesmo, cada um seguindo  o seu trilho a caminho de casa.

sim, queremos todos a mesma verdade e todos contamos as mesmas mentiras.

sim, estou aqui para dizer sim à vida e a tudo o que sou e,

sim, é sempre possível escolher dizer não.



Inês de Barros Baptista

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ah, o desapego!...




A acreditar no dicionário, 'desapego' é indiferença, é desinteresse, é desamor, é abandono.
Mas então porque será que tanta gente apregoa e enaltece o desapego, como condição sine qua non para acabarmos com os dilemas, com as angústias, com as sensações de posse e de controlo, com o sofrimento?

Como é que se pratica o desapego sem cair na indiferença?
Sem cultivar o desinteresse?
Sem regredir ao desamor?
Sem votar nenhum ser ao abandono?

Ou a definição no diccionário não está certa e 'desapego' é outra coisa, ou andamos, simplesmente, a negar a nossa essência. qualquer árvore, para crescer, tem de se apegar  à terra, pois é lá que se enraíza.
O que seria se uma árvore, possuída pela nossa humanidade, decidisse que o seu apego à terra, afinal, era perverso?...
Como seria se, possuídos pelo espírito das árvores, nos permitíssemos apenas crescer como elas crescem?
Enraízarmo-nos na terra, sem indiferença pelo sol, sem desinteresse pela chuva, sem desamor por quem se abraça ao nosso tronco ou vem colher dos nossos frutos, sem abandonar a esperança de um dia tocar no céu e co-criando a existência juntamente com o todo?

Como será se o 'desapego', num diccionário equivocado de emoções, nos criar essa ilusão de 'independência' e nos 'desconectar' do todo?...


Inês de Barros Baptista



Resposta de António Rosa:

"Não é comparável o 'desapego' que fala com o desapego de uma árvore à terra onde deita as raízes. Podemos e devemos 'desapegar' sem cairmos nesse abandono, nesse desamor.

'Desapego' só é possível quando, continuando a existir 'amor' e 'ternura', e estando reunidas as condições necessárias, não se verificar mais o controle. Do outro ou da coisa.

'Desapego' não significa perder o contacto, afastamento, desenraizamento. Significa sim, encontrarmos o nosso próprio espaço sem que esteja a controlar coisa alguma.

Quando esse 'desapego' nos desconecta do todo, será outra coisa qualquer, talvez o início de duas possibilidades: um misticismo sem jeito ou a preparação metafísica para o desencarne.
Já passei por este último caso."


fifty fifty




Andamos todos empatados numa 'luta' de metades, provavelmente a ver quem ganha, como  se a vida fosse um jogo ao qual assistimos da 'bancada', ou simplesmente a rasgar mais fundo ainda a visão de um Ser único e inteiro, todo ele feito de amor.

Não sei desde quando é que nos mentem, mas desconfio que é desde sempre e que esta ideia de que somos divididos à nascença se infiltrou com tanta força em todos nós que nos custa a admitir que não há um lado bom e um lado mau, um lado certo e um lado errado, um lado luz e um lado sombra. é TUDO o mesmo lado, TUDO um só lado, TUDO a mesma coisa.

Reza a nossa humanidade que o espírito, ao descer sobre a matéria, não só a anima, como cede e se ajusta à densidade e que desse cruzamento vêm todos os dilemas.
E então tudo o que é de carne e osso vai servindo de desculpa e de pretexto, quando se trata de elevar a frequência, a consciência, a vibração do puro amor que TUDO é, que somos TODOS.

A mentira da dualidade - que nos contam desde sempre - virou verdade e álibi para os nossos actos. Mesmo sabendo que é mentira, facilita-nos a vida transformá-la na verdade.
Facilita-nos a vida alegar 'não chego lá', argumentar 'não sou capaz', dizer 'não estou disposto', inventar 'hoje não consigo'.
Facilita-nos a vida o fifty fifty, esta divisão em dois, permitindo que as metades sejam cúmplices e que uma desculpe a outra.

E assim andamos todos, empatados e empatando a vida toda, à proporção de um fifty fifty que perpetua a ilusão desta existência de metades e que até faz com que nos pareça justa, de tão bem equilibrada, e à qual ninguém pode escapar, enquanto por aqui andar, com o corpo às costas... de um lado o lado 'bom', do outro o lado 'mau', e nós próprios dividindo a nossa essência, como se fosse divisível, entre o que é luz e o que é de sombra, entre o que é 'certo' e o que é 'errado', entre o peso e a leveza, entre o espírito e a matéria, entre o desejo de acordar  para um dia único e a vontade de ir dormir, todas as noites, a ouvir mitos e lendas...  nós - todos! - pactuando na mentira, talvez na maior de todas, de que há  uma escolha para fazer entre um e outro. mas entre um e outro quê se é tudo o mesmo?
Se é tudo cem por cento e não há nada dividido?
É tudo INTEIRO e ÚNICO, tudo AMOR e tudo AGORA.


Inês de Barros Baptista

terça-feira, 29 de novembro de 2011

'és a mulher da minha vida'




'és a mulher da minha vida'
diziam-lhe eles.

primeiro um, depois o outro, e ela crendo que chegava e que sobrava, ser a mulher da vida de outro, a eleita para ser a mais amada, desejada, idolatrada, testemunhando de que forma, primeiro um, depois o outro, lhe acudiam aos caprichos e, com a paciência dos santos, lhe aturavam as manias, desculpando-lhe as ausências, perdoando e relevando a balança que oscilava no seu peito e que ora a fazia querê-los, ora queria abandoná-los, porque não se amava a amá-los.

foram anos neste jogo. aceitou-os, primeiro um, depois o outro, por achar que a primazia era uma benção, acreditando que merecia as atenções que lhe votavam, mesmo que não compreendesse de onde lhes vinha aquela ideia de a amarem quase mais do que a si mesmos, nem a pieguice tonta de lhe dizerem, uma e outra e outra vez, que sem ela a vida não teria a mesma graça.

educada a ouvir histórias de fadas, e a criar, ela própria, os seus enredos maravilha, acreditava que somente um grande amor ia salvá-la das agruras e das ânsias de uma mortal existência. esse grande amor da vida, que via chegar nos filmes montado num cavalo branco, principesco, encantador, o mais perfeito dos seres onde veria, finalmente reflectida, a sua própria perfeição, iria chegar um dia para a tornar, mais uma vez, na mulher da vida dele. e nem sequer a evidência de que a mulher da sua vida tinha de ser ela própria a demoveu de procurar o amor fora.

e foi assim que chegou à sua vida aquele que mais lhe pareceu um princípe, mesmo sem o cavalo branco e o manto da realeza, lá embicou que devia ser aquele, nem ela sabe bem porquê. mas remexia-lhe as entranhas e afogava-a num sufoco que nunca tinha sentido e, sobretudo, teve a decência de não lhe dizer nenhuma vez
és a mulher da minha vida.
talvez por isso, desatou a amá-lo tanto que, de novo, se esqueceu que a mulher da sua vida tinha de ser ela própria e caíu no mesmo logro em que, primeiro um, depois o outro, já tinham caído em tempos e fez dele o homem da vida dela. acudia-lhe aos caprichos e, com a paciência das santas, aturava-lhe as manias, desculpava-lhe as ausências, perdoava e relevava a inconstância no seu peito, mesmo que, secretamente, ansiasse pelo próximo, pois nunca estava contente: desta vez, pela injustiça de não ser a mulher da vida dele, e usando essa desculpa para fugir de vez em quando.

qual não foi, então, o espanto, quando o próximo chegou num dia em que se olhava ao espelho. tão igual a ela própria que quase o mandou embora, afinal não tão perfeito como sempre imaginara, não era homem sequer e muito menos principesco. mas trazia-lhe de dentro aquilo que há anos procurava fora dela e, por isso, não quis crer, já que isso invalidava a história maravilhosa, onde um ele e uma ela se uniam para compor a felicidade, como se de duas metades se tratasse.

e, no entanto, em frente ao espelho, e a haver metade, era uma metade dela e nenhum ele, nem inteiro nem pela metade, para ceder aos seus encantos, nenhum ele para a tratar com primazia, nenhum ele para fazer papel do princípe, nenhuma pieguice tonta, mais ninguém para além dela a pedir-lhe um longo abraço e não foi logo que acedeu estender-lhe os braços. resistiu sempre que pôde e ainda evita esse contacto, quando as histórias são mais fortes que a presença, quando o mito cor-de-rosa é mais forte que o amor. ele + ela = felizes para sempre.

provavelmente, ainda não é a mulher da sua vida e, no entanto, foi o amor que sentiu maior que tudo ao amar outro que fez com que empreendesse o resgate de si mesma. se vai ou não vai ser salva, dependerá do quanto, ao espelho, for acedendo a abraçar-se por inteiro, cada vez com menos medo de afinal não ser perfeita.


Inês de Barros Baptista

cada um é o milagre em si




Há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e outro exigiria a uns sacrifício e ao outro misericórdia - para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser UM e o mesmo como durante esses tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a justiça divina para a resistência, ou mesmo a recusa, aos nossos pecados mortais.

Se no princípio era o Verbo, o som puro, depressa nos apropriámos dos seus timbres ocultos para transformar em palavras o que ele apenas intuía, soprando.
E foi assim, acredito, que fomos gerando tantos equívocos. o milagre deixou de respirar das nossas entranhas - como hoje ainda respira das entranhas dos bichos, das árvores, das pedras, dos rios - para se tornar num pedido a algo ou a alguém fora de nós. de co-criadores, passámos a seres criados à semelhança de Deus, sendo porém maiores as diferenças que nos separam do que as semelhanças que nos consubstanciam numa essência comum.

Como se não nos bastasse esse logro, inventámos ainda que Deus não era um e o mesmo para todos e demos-lhe designações consoante a nossa cultura, a nossa história, os nossos mentores e, sobretudo, os nossos medos. e as re-ligações do que afinal sempre esteve ligado - ou as religiões que nos separaram do Todo - enraizaram em nós esta crença profunda de que temos de nos esforçar, de nos sacrificar, de carpir muito e de ser muito bondosos para podermos merecer a presença de Deus nas nossas vidas.

Querer é um delito da mente, mas crer é um deleite do espírito.
Querer que o santo nos cure, que Nossa Senhora nos traga alívio para as dores, que o Buda nos ilumine, que Alá nos receba de braços abertos, que os anjos nos guardem de todos os perigos não é mais, afinal, do que recusar assumir e expressar esse milagre que cada um é para o transformar no pedido de que algo ou alguém realize o nosso desejo mais íntimo: sermos, à semelhança de Deus, co-criadores do Universo e da Vida.

Assim como a culpa dos males que nos atingem não é de terceiros, também a graça dos bens que colhemos não se fica a dever a benesses alheias.
Não creio sequer que possamos falar de bens e de males como se fossem matérias distintas, mas antes frequências da mesma espiral de energia, todas elas presentes em nós - e em Deus.
Não posso sequer garantir que faça um milagre maior o que aspira às alturas e sobe ou se é, afinal, o que desce aos abismos e mergulha no escuro o que verdadeiramente transmuta as sombras em luz.

De uma coisa, porém, tenho a certeza: cada um é o milagre de si, sempre que crê ser parte do todo e se cura e se alivia das dores e se ilumina e se recebe de braços abertos e se resguarda dos perigos que o medo lhe impõe.
O resto são histórias que nos contaram, mas nas quais é urgente repor a verdade: não, não há quem faça milagres por nós!

Inês de Barros Baptista



Resposta de Francisco: 


Com efeito, o milagre de cada um de nós é a evolução da sua própria consciência. E estamos sozinhos nessa busca, ninguém nos pode ajudar. Quem diz que sabe, não sabe. O que julga saber ou sentir foi algo que lhe foi ensinado, ou que leu num livro. Se procuramos consolo, podemos encontrá-lo numa filosofia, numa "religião", numa qualquer auto-mistificação, existem muitas coisas que nos põem a dormir...mas a Verdade é algo diferente, a alegria de Ser tem outro movimento. Porque buscamos e erguemos autoridades nesse caminho? O que o outro diz não é a nossa vida. Eu acredito que procurar luz nos outros, sem nos conhecermos primeiro, é muito nocivo. Quando assim é, revelamos apenas um profundo sintoma de insegurança. Se não compreendemos essa insegurança primeiro, é inútil seguir ou não seguir alguém, não concorda? Como seria bom que entendêssemos, que não é a "corte celestial" que é importante, porém este mundo onde estamos,impermanente, com as suas misérias e grandezas, com as nossas relações instáveis uns com os outros...se pudéssemos começar por ai...em vez de suspirarmos pelo além? Sem a compreensão da nossa vida, a promessas da "religião" serão sempre um mito, um romantismo inventado pelos nossos pensamentos inquietos em busca de segurança, não acha?

Gostei também da sua referencia à ideia equivocada que normalmente temos do "bem" e do "mal" que nos acontece. Parece-me pessoalmente, que o mal não existe de maneira alguma. Só existem diversas concepções do bem. Não creio sinceramente, que gostemos do mal, que o pratiquemos de forma consciente. Cada um age para servir o bem da forma como o entende. O que devemos compreender é que cada um entende esse bem de maneiras diferentes, sob inúmeras condicionantes, sobretudo morais. Por vezes acredito que o bem é o que nos ajuda a re-ligar, e o mal o que nos desvincula?... Seja como for, sinto nisso um movimento único, como o das marés. Compreender essa aparente "dualidade", vive-la, parece-me ser o único instrumento valido de evolução, o único capaz de nos fornecer um "milagre" nas nossas vidas.