terça-feira, 31 de janeiro de 2017




I see you in broad day light, an impossible moon,
and in my night a sun, unreachable.
So I refuse to love you .

In my mirror I see you, the silhouette of a tattered sadness
that my eyes hold captive.
And on my scattered papers I see you,
the traces of tears I have yet to shed.
And I refuse to love you.

I see you as a prohibited dream,
that combs my innocent hair into sinful braids,
and when I awaken,
your luminous kisses drip
on my pillow
one star after another
to put out my shyness.
And I refuse to love you.

Because I love you
I refuse to love you.

Because my thirst for you is fire
and because my heart does not deserve
the fate of a crazed moth.

Because I love, my sir,
and because you love me,
let your pride refuse my ashes


| Joumana Haddad |



Chega de revolucionários produzidos, padronizados e impotentes.




Desertores da lida na vida, encontrei um monte pelos caminhos, frustrados, descrentes, desistentes. Eram os que queriam mudar o mundo... não percebiam que o mundo é mutação permanente, como tudo no universo em movimento, que nascemos num processo de mutação e ele não obedece a nossa vontade, tem seu ritmo e todo mundo participa, querendo ou não, sabendo ou não, assumindo sua participação ou sendo levado pelas induções e condicionamentos.
Querer mudar o mundo é arrogante e pretensioso. Já é difícil escolher como participar com a própria vontade, ver com os próprios olhos, sentir com o próprio coração. Mas é isso que torna a participação útil e a vida, satisfatória. Revolucionar a si mesmo é muito mais importante que pretender revolucionar a sociedade, porque sem isso a contestação ao sistema é superficial e também programada - disputas, confrontos, vaidades, sentimentos de superioridade... os condicionamentos quotidianos a que a coletividade humana é submetida quotidianamente.
Chega de revolucionários produzidos, padronizados e impotentes. É preciso revolucionários orgânicos, sem poses nem frases feitas, sem jargões ou símbolos, que revolucionaram a alma, os valores, a visão de mundo, os comportamentos, os sentimentos. E que não dependam de aprovação de ninguém além da própria consciência.
A revolução interna ainda não é pros vaidosos, pros doutrinados, pros medrosos, nem pros donos de qualquer verdade.


Eduardo Marinho



O suicídio assistido e a eutanásia




A relutância em se aceitar a eutanásia ou o suicídio assistido
 provém, em muitos casos, de os objectores 
estarem a viver num tempo que já não existe.



Não estou ansiosa por dispor de uma série de leis, de decretos e de portarias sobre a morte. Na realidade, preferiria viver num mundo sem demasiadas regras, mas sei que isso é impossível. O que dantes se fazia por acordo tácito passou a ser analisado nos parlamentos, nos governos e nos tribunais.

Reconheço que, a verificar-se uma reforma na maneira como a lei encara o suicídio assistido e a eutanásia, a percepção da morte sofrerá uma mudança. Enquanto, no passado, havia uma linha que não devia ser ultrapassada – “Não matarás” – podemos estar a chegar a uma situação em que, do ponto de vista moral, já não se sabe onde reside o tolerável e o intolerável.

No Ocidente, as leis foram evoluindo com base na tradição judaico-cristã. Deste ponto de vista, o corpo é o invólucro da alma, o que o tornaria sagrado. Segundo esta concepção, tudo o que acontece aos doentes terminais faria assim parte do desígnio divino.

Por outro lado, na versão científica, a morte é algo que acontece a qualquer organismo quando o sistema entra em colapso. Sob este prisma, a morte de um homem é um acontecimento biológico que, na sua essência, não é diferente da de um gato, de um peixe ou de um eucalipto.

Estas duas perspectivas são conciliáveis e médicos há que, sendo crentes, defendem o suicídio assistido e a eutanásia. 

É aqui que entra a Filosofia.
Entre outras coisas, a sua tarefa consiste em detectar o significado da morte, e, com base nele, em fornecer linhas directivas. Podemos olhar os homens como a ciência os vê – como um amontoado de células – reconhecendo todavia que, na medida em que são capazes de julgamento moral, são distintos dos outros animais.

Importa ainda ter em conta a forma como as sociedades evoluíram.
A relutância em se aceitar a eutanásia ou o suicídio assistido provém, em muitos casos, de os objectores estarem a viver num tempo que já não existe, quando várias gerações, avós, pais e filhos, viviam debaixo do mesmo tecto, quando não havia ventiladores nem TAC’s nem ressonâncias magnéticas, quando os doentes jamais eram ouvidos pelos médicos.
Agradável ou desagradável, esse mundo acabou.

Qualquer revisão das leis que governam o tratamento médico deve ser pensada, não para nos escudar da morte, mas para nos habilitar a ter uma vida digna. É por isso que a relação prolongada doente-médico é importante: só ela permite ao segundo ver o primeiro como uma pessoa e não como um amontoado de linhas numa ressonância magnética. É evidente que, mesmo que o desejássemos, não poderíamos manter as relações que, no passado, existiam entre os doentes, quase sempre ricos, e os médicos, quase sempre de clínica geral. Para o bem e para o mal, o progresso da Medicina alterou tudo. Mesmo assim, convém manter esse laço, sabendo que, em muitas ocasiões, especialmente nas graves, o doente estará diante de um clínico que o vê pela primeira vez.

De acordo com J. S. Mill nenhuma questão, moral ou empírica, pode ser resolvida em absoluto, o que nos obriga a admitir que as nossas respostas deverão ser temporárias, aceitando portanto que possam ser revistas. A verdade, ou mais correctamente, a “maior” verdade – uma vez que, segundo ele, a Verdade nunca poderá ser atingida – surge do conflito entre as opiniões falsas e as verdadeiras (ou, seguindo-o, as mais falsas e as mais verdadeiras). Isto levou-o a defender que nunca se deve suprimir uma opinião, por mais chocante que seja, porque, se o fizermos, nunca chegaremos à mais justa.

É da discussão que nasce a luz.
E é sobretudo em questões morais, como esta, que é necessário adoptar uma atitude humilde.
Se quisermos chegar a uma conclusão, teremos de aceitar debater com todos, mesmo com aqueles que, por serem fanáticos, mais repulsa nos causam.
Espero que, entre nós, a análise deste problema decorra num clima de serenidade.



MARIA FILOMENA MÓNICA
Socióloga e subscritora da Petição Pública Direito a Morrer com Dignidade







Portugueses compram droga letal online no mercado negro da eutanásia!!!!

Na Exit, a associação pró-eutanásia que fundou e que ajuda a encontrar os vendedores fidedignos, estão mais de 30 portugueses inscritos.

Há inúmeros vendedores que fornecem, por 500 euros, o barbitúrico fatal.
O mercado negro da morte floresce na internet, com procura crescente nos países onde a legislação proíbe o suicídio assistido.



Mais sobre a eutanásia aqui: Decidir como se quer morrer





segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Rumi understood the holofractographic nature of spacetime....


Diz o Meu Nome




Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
[os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Mia Couto
in, Raiz de Orvalho



Quem não ama a solidão, não ama a liberdade





“…quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual.” 
Arthur Schopenhauer


Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.

Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.

A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogéneos causa um efeito incómodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.

Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em óptima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.



Arthur Schopenhauer 
in, "Aforismos para a Sabedoria de Vida"


domingo, 29 de janeiro de 2017

Boa, fácil, assim era...




E ainda, que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples.
Boa, fácil, assim era.
Ela gostava de estar com ele.
Ele gostava de estar com ela.
E isso era tudo.

Caio Fernando Abreu



Desejo





Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.



| Vítor Hugo |





Os Irmãos Karamázov




... ele (Ivan Fiodorovitch Karamazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situação. - página 109, da editora 34.

Se Deus não existir, e a religião fosse extinta de todas as formas, o que aconteceria?
"Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito."


"O amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de facto, não por um instante, mas até ao fim."


“Eu sempre gostei de becos, de recantos desertos e escuros, atrás da praça – lá estão as aventuras, as surpresas, lá estão as pepitas no lodo.” - Mítia Karamázov em conversa com o irmão, Aliócha Pág. 164


“E o homem realmente inventou Deus. E o estranho, o surpreendente não seria o fato de Deus realmente existir; o que, porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem e perverso como o ser humano...” - Ivan Karamázov Pág. 323


“De facto, às vezes se fala da crueldade ‘bestial’ do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. / Acho que se o diabo não existe e, portanto, o homem o criou então o criou à sua imagem e semelhança.” - Ivan Karamázov Pág. 329 e 330



Será que não pensaste que ele (o Homem) acabaria questionando e renegando até tua imagem e tua verdade se o oprimissem com um fardo tão terrível como o livre arbítrio? - página 353 da editora 34.



Se Deus não existir, e a religião fosse extinta de todas as formas, o que aconteceria?
Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito. - página 840 da editora 34.



“Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda na infância, da casa de família. Muitos vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o ser humano traz consigo muitas destas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência.” - Aliócha palestrando para as crianças - Pág. 996




“E ainda que venhamos a nos dedicar aos mais importantes assuntos, a conquistar honrarias, ou a cair na maior desgraça – apesar de tudo nunca esqueçais como certa vez nos sentimos bem aqui, todos comungando, unidos por aquele sentimento tão bom e bonito, que durante aquele momento de nosso amor pelo infeliz menino nos fez, talvez, melhores do que em realidade somos.” - Pág. 996




Fiódor Dostoiévski




Todos somos Karamázov!!!!!!!!

Sou fã de Dostoiévski e da sua habilidade de tumultuar as nossas almas com as suas profundas questões psicológicas e morais.
999 páginas...
Finalmente, tirei-o da pilha de livros por ler...




“Sem uma referência divina passaríamos a viver numa espécie de vale-tudo moral?”, questiona Rodrigo Cavalcante em "Procura-se Deus" (2005).

O filósofo Oswaldo Giacoia Júnior responde:
“Não necessariamente. A busca de um código de valores sempre foi uma preocupação central da filosofia, sem necessidade de uma legitimação divina.”

Pode-se dizer que ao longo da história da humanidade foram construídos certos valores éticos religiosos que obrigam de certa forma o ser humano a seguir um padrão de condutas estabelecido pela região – qualquer que seja -.
Caso a pessoa não siga tal padrão haverá castigos após a morte, ou dependendo da religião, até mesmo durante a vida – ou algo do género. A maioria dos fiéis ao agir com bondade, por exemplo, age a pensar numa boa recompensa.
Estas pessoas tornam-se cegas pela religião, esquecem os seus verdadeiros instintos, e suas atitudes de bondade podem ser falsas, conscientemente ou subconscientemente.

Ter a religião como base de condutas e atitudes acarreta personalidades não verdadeiras, cujas vidas encontram-se repletas de obstáculos, que não passam de regras religiosas, tomadas como algo sagrado. A religião não passa de uma abstração antrópica que pode inexistir se a pessoa quiser, e assim poderá realizar atos verdadeiros e seguir caminhos livres, sem regras e condutas falsas – que foram feitas justamente para tentar colocar ordem no mundo, porém deixando-o cada vez mais fragmentado, preconceituoso, desordenado, maligno, desequilibrado, falso, etc.


Nas palavras de Cavalcante:
No século 18, por exemplo, os ideais de igualdade e justiça social, aceitos hoje como uma preocupação ética, surgiram de formulações dos filósofos iluministas, que acreditam ser possível defendê-los com base na razão, não na religião. Vale lembrar que na época esse tema era nada popular no Vaticano. Em meados do século XX, o francês Jean Paul Sartre, o pai do existencialismo – segundo o qual de nada adianta buscar um propósito da existência para além da vida humana -, disse que a nossa própria condição de seres que vivem em sociedade é suficiente para justificar a prática de valores solidários. E ainda hoje filósofos como o vienense Peter Singer (um dos mais ferrenhos defensores dos direitos dos animais) continuam defendendo uma série de condutas éticas baseadas na razão, e não na fé.


O homem tem que parar de procurar respostas abstratas e com um final feliz ou triste, como céu e inferno, e encarar a realidade. Tem que começar a ver as coisas com uma nova óptica, ver as coisas como elas realmente são. Assim, as pessoas passarão a ter atitudes de essência verdadeira e ficarão cientes, por exemplo, do ciclo da vida, passando a encarar a morte da maneira que tem de ser vista, como um acontecimento natural.

Cavalcante questiona:

Será que a adopção pura e simples de uma ética sem Deus não pode nos levar a um racionalismo frio, capaz de ofuscar valores menos palpáveis, como a bondade?

Como observa Giacoia:

A fé não se traduziu apenas em atos de paz e harmonia ao longo dos tempos. Dos grandes conflitos religiosos do passado ao moderno terrorismo fundamentalista, já foram cometidas inúmeras atrocidades em nome da ética religiosa em todo o mundo.


O cristianismo, por exemplo, foi criado com objetivo de dominar a massa, cujos criadores inventaram uma série de condutas em nome de Cristo. Ou seja, desde a sua criação já ocorreu malícia. A população é cega pela ignorância e toma tudo como verdade. Em linhas gerais, as religiões não geram paz e sim muito preconceito e guerras, o oposto de seus princípios gerais. Pode-se concluir, portanto, que as pessoas não entendem nem sequer as palavras religiosas tão ditas e seus princípios principais. Se não existisse religião, o mundo estaria mais unido e mais próximo à paz. Se não houvesse conceitos abstratos como céu e inferno, o homem teria uma óptica mais realista e suas atitudes não seriam falsas pensando em recompensas inexistentes.


Se houvesse solidariedade verdadeira entre as pessoas e se não existissem condutas para serem seguidas afastando cada vez mais o homem do livre arbítrio, a civilização desenvolveria maneiras para não atingir a desordem, porém de forma realista, sem inventar histórias como por exemplo a do céu e inferno para manter a ordem.



Rodrigo Cavalcante 
in, "Procura-se Deus. Deus Existe? Será que a ciência tem uma resposta?"




sábado, 28 de janeiro de 2017

Obrigada a todas as grandes mulheres da ciência!


Ouve-me




vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer

vai por esse campo de crateras extintas

vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te 
e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo

deixa que o Outono traga os pássaros e as abelhas 
para pernoitarem na doçura do teu breve coração

ouve-me que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sala morada eterna

o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite



Al berto




O Esplendor da Heterossexualidade, pelo Desejo





Somos um objecto, na paixão, totalmente submissos, sem poder prever os golpes que sofremos; aí reside a grandeza, a loucura, o assombro da paixão.
Para mim, o desejo só pode ter lugar entre o masculino e o feminino, entre sexos diferentes.
O outro desejo é um autodesejo, é, para mim, como que o prolongamento da prática masturbatória do homem ou da mulher. O esplendor da paixão, a sua imensidade, o seu sofrimento, o seu inferno, reside no facto de só poder verificar-se entre géneros irreconciliáveis, o masculino e o feminino. Tanto a paixão como o desejo.

Os casais homossexuais são muito mais estáveis do que os casais heterossexuais, porque na homosexualidade há uma prática simples e cómoda do desejo. A prática heterossexual é ainda selvagem, é ainda a floresta do desejo.
Na prática homossexual não creio que exista esse fenómeno de posse que existe na heterossexual. Na prática homossexual existe uma espécie de intermutabilidade do prazer, as pessoas nunca pertencem na homossexualidade como pertencem na heterossexualidade.
É um inferno não se poder escapar ao desejo de uma pessoa, é a isso que eu chamo, quando a mim, o esplendor da heterossexualidade.


Marguerite Duras 
in, "Mundo Exterior" 





A ORIGEM DO TERMO "VIRGEM"




"Antigas sacerdotisas da lua eram chamadas de virgens.
'Virgem' significava não-casada, não-pertencente a um homem - uma mulher que era UMA EM SI MESMA.
A palavra deriva do Latim, significando força, habilidade, e mais tarde foi aplicada a homens como 'viril'.
Ishtar, Diana, Astarte, Isis eram todas chamadas Virgens, o que não se referia à sua castidade sexual, mas à sua independência sexual.
E todos os grandes heróis de culturas passadas, míticos ou históricos, eram ditos serem nascidos de mães virgens: Marduk, Gilgamesh, Buda, Osíris, Dionísio, Genghis Khan, Jesus - todos eram reconhecidos como filhos da Grande Mãe, a Força Original, e seus enormes poderes provinham dela.
Quando os Hebreus usaram a palavra, no original em Aramaico significava "mulher jovem", "donzela", sem conotações de castidade sexual.
Mas mais tarde tradutores cristãos não puderam conceber a "Virgem Maria" como uma mulher de sexualidade independente; eles distorceram o significado para sexualmente pura, intocada, casta".


Monica Sjöö
in, The Great Cosmic Mother: Rediscovering the Religion of the Earth






Mauro Biglino foi tradutor de hebraico antigo durante anos no Vaticano.
Trabalhou para uma das mais importantes editoras católicas do mundo, Edizioni San Paolo, e afirma que a bíblia não fala sobre Deus.

Ele publicou “A Bíblia não é um livro sagrado” (Livros Horizonte) trinta anos depois de ter começado seu trabalho como tradutor e afirma “A Bíblia não é aquilo que habitualmente se diz. Conta uma outra história, não se ocupa de Deus”.
O tradutor ainda afirma que “não há qualquer referência a Deus nos textos da Bíblia. Há, sim, a um coletivo, chamado Elohim, e a um deles em particular, chamado Yaveh“ e esclarece “as traduções foram sendo adulteradas e foram convertendo Yaveh num Deus único e todo poderoso”. Também diz “Em hebraico nem sequer há nenhuma palavra que signifique Deus”.

Mauro Biglino detalha em seu livro o percurso das traduções oficiais da Bíblia, verifica-se que foram adulteradas para “para inventar o monoteísmo”. Não é à toa que existem mudanças de sentido na versão do Vaticano dado o interesse em se colocar como instrumento de poder e intervir politicamente baseando-se em preceitos religiosos.

“Em 2010, comecei a escrever um livro em que denunciava algumas das contradições que estava a encontrar nas minhas traduções dos textos bíblicos, e desde esse momento, a colaboração foi interrompida, acabaram o meu contrato de trabalho”, diz.

A exemplo de divergências vê-se “A profecia de Isaías, por exemplo, dizia que «a Virgem irá conceber e dará à luz um Filho», mas as bíblias alemãs, depois da aprovação da Conferência Episcopal, já não dizem isso. Já dizem que «a Virgem vai conceber», que é o que verdadeiramente lá está escrito”.





sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

How Do Your Thoughts Create Your Reality?

Erótica do Salto





Todo o salto é ERÓTICA.

SOU EU-CARNE EM direcção alta ao OUTRO-CARNE.

SALTO. Sou alto. SALTO.

A Erótica do Alto.

A Morte?

Deus vem buscar-nos.

O Salto do Alto.

À Manifestação do Eros em Deus chamamos Morte.

O Salto sobre nós do ALTO.

Assalto.



GONÇALO M. TAVARES 




Show Your Love



How To Practice Compassion In Relationships


A couple asked me recently what the Buddhist view is on marriage.

They were planning their wedding and in the process of writing their vows. I don’t know what the Buddha would have said, but what occurred to me in that moment was how committing to loving one person for the rest of your life is taking compassion practice to a whole new level.
In the Buddhist teachings there are many guidelines and methods to help us become more compassionate people. When we apply these practices in the space of intimacy, with the person who triggers us, drives us crazy, irritates, and bores us–the person we are closest to–we begin to walk our spiritual talk.

Compassion has three aspects, a feeling of warmth, a sense of openness, and a pervading wisdom that sees through the illusion of separateness and duality. The general guidelines for practicing compassion suggest cultivating a quality of energy, inspiration, and motivation as well as a sense of lightness, ease, and gentleness. We are careful not to become aggressive or self centered in our efforts to be more compassionate.

Before you get started, remember that to genuinely be compassionate to another, you must begin by extending that kindness to yourself. By appreciating and understanding how we get stuck, we can naturally extend that awareness when our loved ones act crazy. The most important point here is to accept people as they are. Putting your energy into trying to change someone, even subtly attempting to shape their behavior, backfires over time because there is always this feeling that love is conditional.

One of my mentors said that there are three requirements to making relationships work.
1) Both people are “into” each other, there is some attraction, energy, or juiciness that keeps them connected.
2) Both people must be willing to work with what comes up for them as individuals in the context of intimacy and
3) Both people must be willing to work with what comes up specifically in relation to each other.

The Buddhist tradition presents compassion in action as the six paramitas or transcendental virtues. These compassion practices are best worked with slowly over time, starting with small steps such as subtly shifting the trajectory of current patters, whether it be one thought, one action–whatever you can do that is genuinely selfless. You are doing it for the simple reason of being kind, and there is no agenda that your partner will change, the relationship will improve, or you get points for being “good.” That’s not what this is about.
This is about using everything in your life as a means to open your heart further.

Generosity

Generosity is centered upon selfless motivation. You give up any notion of who is giving, what is being given, and who is receiving. You just give without any attachment or fixation to what happens next. We have some idea of the small things that make people happy. Therefore, you might spontaneously clean up your clutter in the living room, cook a special meal, plan a nice evening out, take care of the nitty gritty small stuff. Other ways to give spontaneously are sharing appreciative statements, compliments, and expressions of affection.

Generosity can also be about giving up our need to be right. Because we are offering up our egos, we can also let go of beliefs about the way things should be. We can give up doing things our way, winning arguments, and knowing what’s best. This is generosity practice because our ego-centered beliefs are what we hold most sacred, especially those of the spiritual kind. The other aspect of generosity is protection from fear, which means listening when your partner is struggling at work, has health concerns, or financial worries. Don’t problem solve. Just listen and gently ask how you can be helpful.

Discipline

Discipline has to do with bringing mindfulness and awareness to all of your actions of body, speech, and mind. This means slowing down the momentum of our reactivity. We may already be skilled at mindfulness of body (we don’t sock our partners when they irritate us), but we can now begin to work with slowing down the momentum of our speech (holding back our judgements, criticisms, nagging, and venting). The more we practice mindfulness and awareness in every day life, the more we can trust ourselves without second guessing what we say and do. We don’t need to call up our friends to have them validate us. We simply trust ourselves and become curious when what we say and do causes conflict. We don’t have an ego to defend so we don’t need everyone on our side.

Patience

The meaning of patience here has to do with not reacting impulsively when our partners misbehave, get angry with us, or shut down. This means that we learn to work with our emotions through meditation practice and individual therapy. We can’t blame people for making us feel a certain way. We can learn how to tolerate our emotions. We can become curious and undefended even when people are making everything our fault. Just staying open and calm can rapidly de-escalate fighting and bickering. In relationships there is often disappointment over getting what we didn’t want and not getting what we wanted. We can have these feelings without taking them too seriously or personally.

Patience also means tolerating our feelings when we try earnestly to help someone and they don’t accept it or get better according to our ideas about what’s good for them. An example of this kind of patience is listening to our partner’s frustrations without being their job or fitness coach, nutritionist, therapist, or psychic. Just let them be and listen with an open heart. People don’t like being told what to do to improve. It has the result of affirming the part of them that is already feeling inadequate. Ask them if they want concrete suggestions or if they just need a hug.

Patience is also practiced when people have wronged us and we feel so much resentment that we cannot forgive them. People often ask me how to let go of the anger and resentment that has built up over time. When I sit with that question and reflect on the anger and resentment in my own heart, I come back to the hurt that gave rise to the anger. When I sit with the hurt, I see that the hurt is there because of how deeply I loved. When I connect with the love that was behind the hurt, anger, and resentment, I can begin to let go of the whole thing. Abiding in the love gives me a sense of space and peace where I can see things from a wider perspective. At some point it becomes important to let things go and make space for new things to happen.

Diligence

Diligence or exertion is about working hard, but not in the sense of self sacrifice, being a martyr, or doing things that you don’t want to like folding the laundry. Exertion here means taking everything that happens to the path of dharma.  We walk our talk and stop expecting our relationship to be perfect or to make us feel good. We see the day to day challenges that we face as our practice and what we’re working with off the cushion.

Exertion here also means learning to tolerate our feelings without indulging them or acting them out. It means showing up for couples therapy with some measure of enthusiasm rather than being late and sighing while your partner is talking. We see that this whole relationship thing is helping us open our heart and learn about ourselves, our partners, and all of humanity. We stay with the struggle that it takes to work things out. The opposite of diligence here is laziness. Along with zoning out while your partner is talking, laziness also includes overworking and staying continually distracted with activities and projects. Business is another form is laziness.

Meditation

Our commitment to our meditation practice underlies all of our compassionate activities. It is our time to go within and take care of our own mind. It is best to practice every day, ideally at the same time each day, even if just for ten or twenty minutes. Connecting in with our innate wakefulness and inner vision helps us maintain a perspective that nourishes and regenerates our mind. Sometimes it helps to take ten minutes to calm down when you come home from work, just enough to transition and let the day go. Meditation is about the willingness to stay with our practice of mindfulness and awareness no matter what is happening around us. We take everything to the path of dharma by making space for our practice. Otherwise, we’ll get lost or burned out along the way.

Transcendental Knowledge

Here is where our dharma study in the nature of selflessness becomes key. How we show up for our partner is how we show up for ourselves, there is no difference. The more we can integrate this concept into our living and felt experience, we will see how so much of our struggle is for nothing. The teachings become very personal here as we see how they apply to everything happening in our life.



Finally, in your efforts to be more compassionate, be careful about mistaking “idiot compassion” for compassion. Being open does not mean we have no boundaries. Our openness affords us both clarity and panoramic awareness which helps us discern what would be most skillful. We know what to do and say in the moment. Sometimes we need to say the thing that no one wants to hear, or be the one to point at the elephant in the room, or call people on their stuff. It doesn’t serve anyone to go unconscious when things get hard.
In these situations, the harmony created is a false harmony where the real issues get swept under the rug. This is a conflict avoiding, fear-based, relational style which only leads to furthering distance and infidelities where partners go outside of the relationship to get their needs met.
Real compassion is to speak to what you see going on while staying connected to your heart. It is about clear seeing joined with warmth and kindness. This kind of love is what heals and brings intimacy to a deeper level.


Tina Fossella



........................os desafios que enfrentamos hoje





Perante os desafios que enfrentamos hoje, o meu optimismo quanto ao futuro da humanidade é idealista?
Talvez seja.
É irrealista?
Certamente que não.
Permanecer indiferentes aos desafios que enfrentamos é indefensável.
Se o objectivo é nobre, se será ou não completado numa só vida, é completamente irrelevante.
Devemos esforçar-nos, perseverar e nunca desistir.


Dalai Lama XIV




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

The opposite of a profound truth may well be another profound truth


O Mito do Veganismo




“O veganismo é uma filosofia de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade para com o reino animal e inclui uma reverência pela vida. Na prática se aplica seguindo uma dieta vegetariana pura e incentiva o uso de alternativas para todas as matérias derivadas parcial ou completamente de animais”. 
– Donold Watson, membro fundador da Vegan Society (Sociedade Vegana).

Este pequeno texto não questionará a irracionalidade das ideias e valores (2) da filosofia vegana. Nesta ocasião demonstraremos que o veganismo é um mito na Sociedade Tecno-industrial e como é um obstáculo para entender e actuar pela verdadeira Libertação Animal (3).

O veganismo é um mito. Nada nem ninguém é vegano dentro da moderna Sociedade Tecno-industrial. No entanto, são muitos os ingénuos que acreditam neste mito e que crêem que os seus alimentos, vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, aparatos tecnológicos, livros, música, bikes… e todo o lixo industrial que consomem compulsivamente é, segundo eles, “vegano”.

Mas na realidade é bem diferente disso.
Todo esse resíduo industrial denominado “vegano” não poderá conter materiais de animais não-humanos, mas, na verdade, contém… ou melhor dizendo, de facto colaboram com a exploração animal, humana e não humana.

Então se retomarmos a nossa definição anterior de veganismo, “… uma filosofia de vida que exclui toda forma de exploração e crueldade para com o reino animal…”, é evidente que não é coerente com a filosofia porque contribui com a exploração sistemática do reino animal, logo, o veganismo é um mito.

Os autodenominados “veganos” são muito ingénuos ao não analisar, questionar e entender o funcionamento da complexa realidade e do grande complexo sistema social em que vivemos.

Todo o alimento ou produto que provenha da moderna Sociedade Tecno-industrial não está livre de colaborar com a exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

As sementes, frutas e verduras que produz e distribui a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas já que a moderna agricultura industrial necessita de:

a) desmatar grandes extensões de terra fértil para aproveitar a fertilidade deste solo e convertê-lo num campo de cultivo. Desmatar significa; destruir o ecossistema que ocupava este solo. Deve-se cortar ou incendiar a vegetação deste ecossistema e em seguida é necessário assassinar, capturar, domesticar, deslocar ou até extinguir as diferentes espécies de animais deste ecossistema. Isso aniquila todas as complexas relações e interacções que mantinha esse ecossistema consigo mesmo (ecossistema e habitantes) e a relação que esse ecossistema mantinha com outros ecossistemas e com o planeta em geral.

b) já que se tem o campo de cultivo pronto, se necessita de camponeses que trabalharão a terra, há a necessidade de suas ferramentas (máquinas ou animais não-humanos de trabalho), se necessitam as sementes (nativas ou transgénicas) que serão semeadas, se necessita o fertilizante (natural ou industrial), se necessitam insecticidas (naturais ou industriais), se necessita de água para irrigação, etc…

E uma vez obtida a colheita ela é vendida a intermediários, eles a transportarão, armazenarão e distribuirão, até que finalmente esta semente, fruta ou verdura chegará ao estabelecimento comercial onde os “veganos” farão as suas compras.

Então para poder realizar todo este processo é necessário utilizar a grande e complexa divisão do trabalho da moderna Sociedade Tecnológica, e em todas estas grandes complexas relações existe exploração e domesticação sistemática do reino animal e ambiental.

Alguns “veganos” poderão argumentar em sua defesa que as sementes, frutas e verduras que consomem não são de origem industrial, mas de hortas orgânicas, mas se esta horta utiliza tecnologia moderna para a produção, armazenamento e distribuição de seus alimentos e se para poder adquiri-los há circulação de dinheiro, inevitavelmente continua colaborando com as dinâmicas de exploração e domesticação sistemática, animal e ecológica.

Talvez, as sementes, frutas e verduras realmente veganas são as que colheriam cada indivíduo com técnicas como; a permacultura ou jardinagem orgânica, e com o uso de ferramentas ou tecnologia simples, já que apenas assim deixaria de depender do Sistema Tecno-industrial e haveria uma renúncia a seus mecanismo de poder, controle, domesticação e exploração sistemáticos, mas a maioria dos autodenominados “veganos” não plantam seu próprio alimento.

Os autodenominados “veganos” dependem da moderna Sociedade Tecno-industrial para poder levar a cabo sua dieta. Na Natureza Selvagem nenhum animal determina de que maneira se alimentará, isso em grande parte quem determina é o entorno natural no qual se desenvolve. A dieta omnívora dos animais humanos não foi uma escolha, mas uma necessidade de sobrevivência, um requisito para poder sobreviver em distintos entornos, comer o que houver, o que se possar comer. O organismo humano não é especialista, é oportunista, e sua dieta omnívora é uma prova disso.

O animal humano domesticado na sua jaula civilizada é quem é capaz de decidir como se alimentar (dieta vegetariana, vegana, frugívora ou carnívora), mas para que isso seja possível é necessário colaborar e manter sua condição de animal humano domesticado a serviço do progresso do Sistema Tecnológico.

Nenhum vegetariano, vegano ou frugívoro com este tipo de dieta sobreviveria como o animal humano realmente livre deveria ser no entorno onde deveria se desenvolver (Natureza Selvagem).

A maioria dos autodenominados “veganos”, talvez, não se considerem a si mesmos como o que realmente são: animais humanos.

E também é bem verdade que aqueles que lutam pela “Liberação Animal” não lutam por sua própria Liberdade Individual Selvagem e não questionam nada sobre a sua própria condição de animais humanos domesticados.

Se as sementes, frutas e verduras que nos oferece a moderna Sociedade Tecno-industrial não são veganas, muito menos seus demais produtos nocivos de origem industrial são: vestimenta, calçado, produtos de higiene e beleza, livros, música, bikes…

Uma análise similar poderia ser aplicada aos produtos enganosamente chamados de “verdes” ou “ecológicos”.

Nenhum produto proveniente da moderna Sociedade Tecno-industrial é vegano, e muito menos ecológico.

Os autodenominados “veganos” poderão continuar a enganar os outros e enganar-se a si mesmos, poderão continuar a depender do sistema de domesticação e exploração sistemática.

Poderão continuar a denunciar as condições de escravidão dos animais não-humanos; e tudo isso sem ver nem denunciar a sua própria condição de animais humanos domesticados a serviço do Progresso Tecnológico.

Eles conseguem ver as jaulas dos outros animais, mas são cegos demais para ver a moderna jaula civilizada em que vivemos.

Poderão continuar a lutar inutilmente pela “Libertação Animal” sem antes lutar primeiro pela sua própria Liberdade Individual Selvagem. É muito engraçado como um animal domesticado pretende libertar a outros animais.

Poderão continuar a defender e promover as ideias e valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), e procurar apenas melhorá-lo com as suas inúteis reformas, e não destruí-lo definitivamente.

Poderão continuar a consumir compulsivamente os seus produtos ou alimentos nocivos industriais supostamente veganos.

Tudo isso apenas enganará e tranquilizará de alguma maneira a sua consciência, mas na verdade não fará nada para tentar atacar a domesticação e exploração sistemática do reino animal nem muito menos fará algo contra a domesticação, devastação e artificialização sistemática da Natureza Selvagem.

Frente a irracional fraude que resulta a teoria e a prática vegana, decidimos:

Renunciar ao consumo desnecessário, reutilizar os materiais já produzidos e deixar de depender do Sistema Tecnológico, desenvolvendo a nossa própria forma de vida autosuficiente, longe dos valores da jaula civilizada e o mais próximo de nossa Liberdade Individual e da Natureza Selvagem.

Pela verdadeira Libertação Animal!



Notas:

(1) Estas ideias e valores a que nos referimos, são: animalismo, sentimentalismo, anti-especismo, biocentrismo, hedonismo, a religião, o esquerdismo, a suposta naturalidade do vegetarianismo nos animais humanos, ecologia social, misantropia, etc..

(2) Quando falamos do veganismo neste texto estamos a referir-nos a todas as suas “diferentes” vertentes, desde o “veganismo burguês” até ao chamado “anarcoveganismo”. E desde o movimento pela “Libertação Animal” reformista até ao movimento pela “Libertação Animal” abolicionista ou radical (ALF, Animal Liberation Front – FLA, Frente de Libertação Animal).

Os activistas da ALF-FLA poderão argumentar que eles não são reformistas porque são de acção, mas a verdade é que eles são idênticos aos que compõem o movimento pela “Libertação Animal” reformista que tanto criticam. São reformistas por defender e promover os mesmos valores do Sistema Tecnológico (esquerdismo), eles não procuram destruir o Sistema Tecnológico, apenas procuram melhorá-lo, e o pior é que não são conscientes disso.

(3) Por Libertação Animal nós entendemos: animais humanos e não-humanos que desenvolvem a sua vida em Liberdade, em seu habitat Natural e Selvagem.


in, Matar ou Morrer



Lembrança




Não me leves a lembrança.
Deixa-me só no meu peito,

frágil cerejeira branca
no martírio de janeiro.

Só me separa dos mortos 
um muro de pesadelos.

Dou mágoas de lírio fresco 
a um coração de gesso.

Meus olhos, como dois cães,
a noite toda no horto.

A noite inteira, correndo
por uns frutos de veneno.

Algumas vezes o vento
é uma tulipa de medo,

é uma tulipa doente,
a madrugada de inverno.

Um muro de pesadelos
me separa dos defuntos.

A relva cobre em silêncio
teu corpo, vale cinzento.

No arco do nosso encontro
a cicuta cresce agora.

Deixa-me a tua lembrança,
deixa-ma só no meu peito.


| Frederico García Lorca |




...................Quarks..............Planck Voxels

                                                                     



Nassim Haramein considers 
a dimension to be a scale or a size of a structure 
rather than an orientation in space. 


According to his theory, there are an infinite number of scalar dimensions.

This video stops at quarks, but billions of times smaller than that are tiny oscillations in the structure of the vacuum called Planck voxels, of which, 10000000000000000000000000000000000000000000000000000000 fit into a single proton.






quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Lembrava-se dele...




Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a caira da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira



Eu, Daniel Blake





Diagnosticado com um grave problema de coração, Daniel Blake (Dave Johns), um viúvo de 59 anos, tem indicação médica para deixar de trabalhar. Mas quando tenta receber os benefícios do Estado que lhe concedam uma forma de subsistência, vê-se enredado numa burocracia injusta e constrangedora. Apesar do esforço em encontrar um modo de provar a sua incapacidade, parece que ninguém está interessado em admiti-la. Durante uma espera numa repartição da Segurança Social conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças a precisar de ajuda urgente, que se mudou recentemente para Newcastle (Inglaterra).
Daniel e Katie, dois estranhos cujas voltas da vida os deixaram sem forma de sustento, vêem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar.
E é no meio do desespero que se tornam a única esperança um do outro…

Palma de Ouro na edição de 2016 do Festival de Cinema de Cannes, conta com assinatura do aclamado realizador Ken Loach e argumento de Paul Laverty, colaborador de Loach em vários outros filmes, entre eles “A Canção de Carla” (1996), “O Meu Nome É Joe” (1998), “Bread and Roses” (2000), “Sweet Sixteen” (2002), “Ae Fond Kiss...” (2004), “Brisa de Mudança” (2006) – também vencedor da Palma de Ouro -, “Neste Mundo Livre...” (2007), “O Meu Amigo Eric” (2009), “Route Irish - A Outra Verdade” (2010), “A Parte dos Anjos” (2012) e “O Salão de Jimmy” (2014).


Em 2014, o director britânico Ken Loach disse que estava cansado e anunciou que Jimmy’s hall seria o seu último filme. Mas foi pelos mesmos motivos que Loach quis aposentar-se – a sua tristeza perante o estado do mundo: imigrantes caçados como bichos, jovens marginalizados, desmantelamento dos sistemas de saúde etc. – que ele recuou.
Loach fez "Eu, Daniel Blake", e venceu o Festival de Cannes no ano passado.
Foi a sua segunda Palma de Ouro.

O filme tem como objectivo denunciar a precariedade da classe trabalhadora britânica diante de um Estado burocratizado, mecanizado, insensível – e, no limite, assassino.

Com este filme, a classe operária tem um novo herói, Daniel Blake.
A classe operária, decididamente, perdeu o paraíso em "Eu, Daniel Blake", mas o herói, magnificamente interpretado por Dave Johns, não é nem de longe um alienado.
Logo no início, Daniel Blake passa por uma junta médica. Vive uma situação surreal. Quer voltar a trabalhar, mas, como teve um enfarte, não pode. E também não tem direito ao seguro social.
É um carpinteiro de Newcastle que sofre um enfarte e fica impedido de voltar ao trabalho.
Entra numa espiral surreal para obter o subsídio de desemprego, além de enfrentar o estigma de quem associa o benefício, um direito, a uma certa indisposição ao trabalho.

Daniel Blake é o cidadão impotente diante de um Estado que falha em garantir a sua dignidade quando ele mais precisa. Mais que isso, assiste inconformado à forma como os governos tratam cidadãos honestos como ele.

Blake não é só um homem da velha guarda, que viu o mundo mudar à sua volta e não conseguiu adaptar-se (numa das cenas, ele vê pela primeira vez um rato de computador e tenta deslizá-lo sobre o ecrã do computador); é alguém ainda capaz de produzir e cultivar vínculos, de se sensibilizar e oferecer ajuda diante de injustiças, de lembrar aos mortos-vivos engolidos por um sistema desmoralizado e desmoralizante que, ainda está vivo.

Tudo isto fica claro quando ele abre as portas a uma mãe abandonada por dois ex-maridos, obrigada a procurar abrigo no interior de Inglaterra com dois filhos porque o governo não lhe ofereceu nenhuma outra opção em Londres. Ela é o exemplo de um grupo social que, desamparado, não tem emprego nem tempo para se dedicar aos estudos para procurar empregos melhores.

Ou seja, pior que ele talvez esteja a personagem de Hayley Squires, Katie, que cria sozinha dois filhos. Katie é atraída por uma promessa de emprego, mas, na verdade, é prostituição. Ambos, Daniel e Katie, se unem pelos seus direitos. Fazem guerra à burocracia do governo. Estamos na Inglaterra, mas a situação não é muito diferente da de outros países.

Ao receber o prémio em Cannes, Loach afirmou que, “quando existe desespero, a história já nos mostrou que a direita se fortalece”.Para arrematar: “Precisamos acreditar na ideia de que um outro mundo é possível”.

Loach notabilizou-se por dar voz e protagonismo aos injustiçados, os pequenos cidadãos que sofrem, absorvem, reagem e influenciam os grandes eventos da história.
Ao comentar o próprio filme, disse que “se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema económico”.

Bem fiel ao seu método de provocar os actores, Loach, no primeiro dia de filmagem, deu a Dave Johns, muito conhecido no stand-up da Inglaterra e que fez o papel de Daniel Blake, um formulário para preencher – o mesmo formulário que, na ficção, é entregue a Daniel Blake.
“Disse que, simplesmente, não ia conseguir. Era insano. Havia questões muito sorrateiras, mas que tinham de ser respondidas adequadamente. Imaginei o stress de uma pessoa naquelas condições. Daria um óptimo sketch de humor, mas, na verdade, é a mais pura tragédia do quotidiano.”


"Eu, Daniel Blake" não é apenas mais um bom filme de Loach.
É um dos maiores. Talvez seja o seu maior.
É um murro no estômago!
Ele prova que o cinema social não se esgotou.
Só precisa de um grande director como Loach.



Fontes: Cinecartaz, Adoro Cinema, Medeia Filmes